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O conflito interparental, rendimento escolar e autoestima em alunos do 3º ciclo do Ensino Básico

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Academic year: 2021

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Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro

O Conflito Interparental, Rendimento Escolar e Autoestima em Alunos do 3ºciclo

do Ensino Básico

Dissertação apresentada para a obtenção do grau de mestre em Psicologia da Educação

Ana Filipa Alves

Orientadora: Doutora Maria Cristina Quintas Antunes

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Universidade Trás-os-Montes e Alto Douro

O Conflito Interparental, Rendimento Escolar e Autoestima em Alunos do 3ºciclo

do Ensino Básico

Dissertação apresentada para a obtenção do grau de mestre em Psicologia da Educação

Ana Filipa Alves

Orientadora: Doutora Cristina Antunes

Composição do Júri:

Carla Carvalho Aguiar Teixeira (Presidente) Ana Paula dos Santos Monteiro (Vogal) Maria Cristina Quintas Antunes (Vogal)

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iii Agradecimentos

Dedico este espaço a todas as pessoas que me apoiarem e me derem força para continuar o meu sonho de ser um dia poder exercer a profissão que escolhi (ou me escolheu).

Em primeiro lugar um muito obrigada à professora Drª. Cristina Antunes por ter aceitado, de imediato, o pedido para orientar-me e acreditar em mim e neste projeto. Agradeço a sua disponibilidade, a sua transmissão de conhecimento, orientação e paciência. Todas estas variáveis foram fundamentais para o término desta investigação, com motivação e entusiasmo.

Agradeço, também, ao agrupamento escolar que me permitiu aplicar os questionários selecionados e indispensáveis para que este projeto fosse elaborado com êxito e com resultados científicos. Obrigado pela amabilidade, pelo acolhimento e pela força dada, nesta altura caraterizada por tanto stress e dificuldades. Um agradecimento especial à Drª Alice pelo tempo disponibilizado e pela paciência demostrada ao longo de todo este processo. Um bem haja a toda a comunidade estudantil pela colaboração.

Agradeço, ainda, a toda a minha família, que sempre acreditaram em mim e me apoiaram nesta fase da vida que envolve alguma ansiedade e nervosismo. Obrigada por me aturarem nos melhores e piores momentos e pelo apoio incondicional. Por último, agradeço às minhas melhores amigas Ana Rita e Alexandra Vanessa pela paciência que tiverem em ouvir as minhas preocupações e dificuldade encontradas nesta altura, pelos conselhos e pelo ombro amigo. Obrigada por estarem sempre lá quando preciso, mesmo longe tornam-se presentes em todos os momentos.

Dedico esta investigação ao meu padrinho, que infelizmente já não se encontra entre nós, mas continua vivo no meu coração. Espero que fique orgulhoso de tudo aquilo que fui conquistando ao longo da minha vida, inclusive a nível escolar e académico.

Obrigada a todos, pois sem vocês este processo e a concretização de um sonho não seriam a mesma coisa.

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iv Índice Geral

Índice de tabelas e figuras………...v

Lista de abreviaturas………..vi Resumo………vii Abstract………..viii Introdução……….9 Parte 1………..12 1. Conflito Interparental ………...13 1.1 Família e adolescência………..13

1.2 Conflito interparental: características e dimensões………..15

1.3 Conflito interparental : impacto nos diversos níveis………....16

2. Autoestima………...21

2.1 Distinção entre autoconceito e autoestima………21

2.2 Relação entre autoestima e conflitos familiares/interparentais……….24

2.3 Diferenças de género na autoestima……….25

2.4 Relação entre autoestima e rendimento escolar………25

2.5 Mecanismos de proteção da autoestima no meio escolar……….27

3. Rendimento escolar………28

3.1 Relação entre conflito interparental e rendimento escolar………29

3.2 Relação entre autoestima e rendimento escolar………29

Parte 2………..32

1. Método……….33

1.1. Questão de investigação, objetivos e hipóteses………33

1.2. Participantes……….………34

1.3. Instrumentos………...36

1.4. Desenho da investigação……..………37

1.5. Procedimento e recolha de dados ………..……….37

Parte 3………..39

1. Apresentação dos Resultados………40

2. Discussão de Resultados……….48

3. Conclusões………...53

Referências bibliográficas………...58

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v Índice de tabelas/figuras

Tabela 1- Caracterização da amostra………...35

Tabela 2- Fiabilidade da escala CPIC………..40

Tabela 3- Análise em componentes principais da RSES (um fator)...……….41

Tabela 4- Percentagem variância explicada por cada fator da escala CPIC………41

Tabela 5- Análise em componentes principais da CPIC………..42

Tabela 6- Valores de correlação de Pearson (r) entre a autoestima e as subescalas da CPIC……….44

Tabela 7- Valores médios e desvios-padrão, por género, nas diferentes subescalas da perceção do conflito interparental e resultados do T-test ………45

Tabela 8- Diferenças na perceção do conflito interparental e autoestima com o ano de escolaridade (T-test)………..………46

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vi Lista de abreviaturas

CPIC- Children’s Perception of Interparental Conflict Scale EF- Educação Física

NSE- Nível socioeconómico

RSES- Rosenberg’s Self-Esteem Scale

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vii Resumo

A presente investigação pretende averiguar a perceção dos adolescentes, que frequentam o terceiro ciclo, face aos conflitos interparentais e a sua interferência no rendimento escolar e na autoestima global dos mesmos. Neste sentido formulou-se um problema ao qual se pretende dar uma resposta fundamentada em resultados empíricos. Os objetivos desta investigação consistem em avaliar a relação entre a perceção do conflito interparental e os resultados escolares, determinar diferenças de género na perceção do conflito interparental, identificar a relação entre a perceção do conflito e a autoestima e determinar um possível poder preditor do conflito interparental na autoestima. Este estudo é transversal, de caráter quantitativo do tipo correlacional e comparativo. A população é de conveniência e é composta por 256 adolescentes, de ambos os géneros, do 8ºe 9º ano de escolaridade pertencentes a agrupamento de escolas do concelho de Chaves. Para a recolha de dados recorreu-se ao uso da escala The Children’s Perception of Interparental Conflict Scale (CPIC) que avalia a perceção dos adolescentes face ao conflito e às figuras parentais e da escala Rosenberg’s Self-Esteem Scale (RSES) que avalia os níveis de autoestima global. No que respeita às propriedades psicométricas dos instrumentos, os valores do alfa de Cronbach evidenciaram uma consistência interna boa e aceitável. Na testagem de hipóteses, constatou-se que o conflito interparental não se correlaciona com os resultados académicos dos adolescentes, mas, relaciona-se com a autoestima dos mesmos. A autoestima, de acordo com os resultados desta investigação, é mais elevada no género masculino. Relativamente ao conflito interparental, as adolescentes apresentam uma perceção mais elevado do conflito, quando comparadas com o sexo oposto. Os resultados apontam que a perceção de eficácia que os adolescentes possuem face aos conflitos interparentais, é preditora da sua autoestima. A autoestima e a perceção do conflito interparental variam tendo por base o ano de escolar em que os adolescentes se encontram, evidenciando-se que os estudantes do 8º ano possuem um nível de autoestima mais elevado e não são tão afetados pelo conflito interparental.

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viii Abstract

This research seeks to ascertain the perception of adolescents who attend the third cycle, compared to interparental conflict and that it affects the academic performance and overall self-esteem thereof. In this sense was formulated a problem which is intended to give a reasoned response on empirical results. The objectives of this research are to assess the relationship between the perception of interparental conflict and school results, determine gender differences in perception of interparental conflict, identifying the relationship between the perception of conflict and self-esteem and determine a possible predictive power of interparental conflict self-esteem. This study is cross-sectional, quantitative correlational character type and comparative. The population is convenience and is composed of 256 adolescents of both genders, the 8ºe 9th grade belonging to group keys of the county's schools. For data collection was done using the use of the scale The Children's Perception of Interparental Conflict Scale (CPIC) that evaluates the perception of adolescents face of conflict and parental figures and scale Rosenberg's Self-Esteem Scale (RSES) that assesses levels global self-esteem. With regard to the psychometric properties of the instruments, the Cronbach's alpha values showed a good internal consistency and acceptable. In testing hypotheses, it was found that interparental conflict is not correlated with academic achievement of adolescents, but relates to the self-esteem of them. Self-esteem, according to the results of this research, is higher in males. For the interparental conflict, adolescents have a higher perception of the conflict, when compared with the opposite sex. The results show that the perception of effectiveness that teens have to face interparental conflict, is a predictor of self-esteem. Self-esteem and the perception of interparental conflict vary based on the year of school in which adolescents are, showing that the students of 8th grade have a higher level of self-esteem and are not as affected by interparental conflict.

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9 Introdução

Este trabalho surge pelo interesse em perceber a dinâmica do conflito interparental e averiguar se o conflito entre os pais se relaciona com o rendimento escolar e com a autoestima dos seus filhos adolescentes. Deste modo, surge o problema ao qual se tentará dar uma resposta científica “o conflito interparental relaciona-se com o rendimento escolar e com a autoestima dos filhos que frequentam o 3º ciclo do ensino básico?”.

A relevância do problema prende-se, essencialmente, com a existência de poucos estudos nesta área, uma vez que a maioria dos estudos não aborda explicitamente a relação entre o conflito entre pais e os seus efeitos no comportamento escolar dos filhos. Sabe-se, no entanto, que existem muitas variáveis da dinâmica familiar que podem interferir no comportamento e rendimento escolar dos filhos adolescentes, pois são os pais quem mais convive com o adolescente, estando sempre presentes ao longo do seu desenvolvimento.

A família é caracterizada por ser um “porto seguro” para as crianças, permitindo-lhes desenvolver de forma segura as suas capacidades físicas e psíquicas. Quando este “porto” de alguma forma não é equilibrado, a estabilidade emocional das crianças e dos adolescentes poderá ficar abalada, podendo este facto repercutir-se no desempenho académico e na autoestima. Não obstante, sabe-se que a perceção do conflito interparental irá depender da forma como cada criança ou adolescente integra a informação, sendo esta influenciada pela experiência de vida e pela maturidade psíquica, ou seja, a forma como uma criança encara o conflito entre os progenitores será distinta da perceção dos adolescentes (Claes,1985; Sprinthall, & Collins,2003). E, segundo, as teorias sistémica e ecológica, as crianças e adolescentes, são circundados por outros contextos que lhes podem permitir suportar a realidade do conflito interparental (Grynch, Seid, & Fincham,1992).

O conceito de conflito interparental não reúne consenso no que respeita à sua definição dada a sua complexidade, mas existe algum consenso em conceptualizá-lo de acordo com três dimensões: frequência, intensidade, e conteúdo (Mota, & Matos,2011). Pode manifestar-se de diversas formas e passar por várias etapas ao longo do tempo e das fases do ciclo de vida familiar (Grynch, & Fincham, 1990; Relvas, 2000).

O conflito nasce, geralmente, em primeiro lugar dentro do casal, atingindo não apenas os cônjuges, mas também, e sobretudo, os seus filhos. A tentativa de solução do conflito origina, muitas vezes, o divórcio dos pais. No entanto, esta decisão nem sempre resulta no término do conflito, dado que os membros do casal continuarão a ter algo em comum, os seus

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10 filhos, que, em alguns casos, continuam a ser pretexto para a continuação do conflito. Quando existem situações de perigo, insegurança e instabilidade familiar para crianças ou jovens, existe, em Portugal, uma lei (147/99 de 1 de Setembro) que visa intervir em situações de risco.

O conflito interparental, regra geral, parece associar-se a diferentes problemas nas crianças e adolescentes, como sejam, comportamentais, académicos, baixa autoestima e autoconceito. A autoestima, sendo uma dimensão da personalidade é suscetível a mudanças, passando por níveis mais reduzidos na fase da adolescência (Antunes, 2006). Desta forma, é possível que em famílias onde exista elevado conflito interparental, os níveis de autoestima dos adolescentes sejam ainda mais baixos. O conflito interparental pode ser ainda um factor de risco no desempenho escolar dos adolescentes, embora a maioria dos estudos se tenha debruçado sobre as crianças.

Os objetivos deste trabalho consistem em: (a) avaliar uma possível relação entre a perceção de conflito interparental e o rendimento escolar dos adolescentes a frequentar o 3ºciclo; (b) conhecer a relação entre a perceção de conflito interparental e a autoestima dos adolescentes a frequentar o 3º ciclo; (c) determinar diferenças de género na perceção do conflito interparental; (d) identificar a relação entre a autoestima e os resultados escolares dos adolescentes a frequentar o 3º ciclo; (e) determinar o possível poder preditor da perceção de conflito interparental na autoestima dos adolescentes a frequentar o 3º ciclo.

Espera-se com este estudo dar respostas a muitas questões associadas às dificuldades de aprendizagem sem motivo cognitivo aparente, ao aumento do abandono escolar precoce, ainda, que hoje em dia, seja obrigatório concluir o 12ºano de escolaridade, e à desmotivação escolar. Pois, em muitos casos, a avaliação psicológica não encontra uma explicação plausível para estas situações, e essa justificação pode resultar no conhecimento do meio e dinâmica familiar em que a criança e o adolescente se inserem. Bem como, abranger outra classe etária nos escassos estudos nesta área, pois os que existem debruçam-se essencialmente, na fase da infância.

Na primeira parte deste trabalho realiza-se uma síntese sobre os resultados empíricos encontrados até ao momento sobre o problema em estudo. Primeiramente, realizou-se uma contextualização sobre o conflito interparental e os conceitos de família e adolescência, apontando as características e dimensões do conflito interparental bem como a sua influência em distintos níveis de seguida distinguiu-se os conceitos de autoconceito e autoestima, estabelece a relação entre a autoestima e o conflito interparental e o rendimento escolar,

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11 realçou-se as diferenças de género e os mecanismos de proteção deste constructo na escola, e por último abordou-se o tema do rendimento escolar e a sua relação com os conceitos de conflito interparental e autoestima. Na parte dois, e tendo por base o enquadramento teórico, apresenta-se as hipóteses equacionadas, a caracterização da população e a metodologia escolhida para este trabalho, com vista a dar resposta aos objetivos apontados anteriormente. A parte três dedica-se à apresentação dos resultados relativos às propriedades psicométricas dos instrumentos e aos da testagem de hipóteses, seguindo-se a sua discussão e conclusão do trabalho.

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13 1.Conflito Interparental

1.1.Família e adolescência

A família é a base para o crescimento e para aquisição de valores sociais e morais, sendo esta uma instituição pioneira no processo de socialização, assumindo uma grande importância ao longo de toda a vida da criança e do adolescente, incluindo no percurso escolar (Casarin & Ramos, 2007; Fernandes, 1995). É no seio familiar que se constroem os laços de afetividade e se aprazem as necessidades básicas dos filhos. A família determina as primeiras relações sociais, bem como, os contextos onde ocorrem as aprendiza gens iniciais face às pessoas, situações, e capacidades individuais (Sprinthall, & Collin, 2003). Quando o ambiente familiar é desestruturado, ou seja, quando é caracterizado por conflitos, os filhos, em alguns casos, tendem a manifestar sentimentos de culpa e não sentem abertura para exprimir as suas conquitas ou derrotas (Casarin & Ramos, 2007).

O Modelo Ecológico do Desenvolvimento Humano de Bronfenbrenner (1979) considera a família como parte integrante do microssistema, dado que este se refere aos padrões de relações interpessoais que o indivíduo experiencia ao longo do seu processo de desenvolvimento num dado contexto, no qual se desenvolvem relações estáveis, recíprocas e equilibradas no que respeita ao poder nos diversos papéis. Este microssistema fa miliar é o primeiro sistema onde o ser humano se insere e interage com os padrões de papéis, atividades e relacionamentos que vão ao encontro das perspetivas da sociedade em que se inserem. Este sistema está inserido num sistema mais amplo que influencia o indivíduo e que também é influenciado por este.

O sistema familiar pode ultrapassar momentos geradores de crises e stresses, podendo continuar a evoluir ou, por outro lado, encontrar a disfunção e o conflito. Neste último caso, o sistema familiar, se não possuir capacidades para se organizar e estruturar, poderá sofrer uma rutura a nível conjugal e, consequentemente, perturbar todos os subsistemas familiares (Relvas, 2000). Deste modo, o processo de divórcio parental motiva, de uma forma invariável, mudanças diárias no funcionamento familiar e nos relacionamentos interpessoais dos membros familiares (Moura, & Matos, 2008).

A adolescência foi reconhecida como período do desenvolvimento humano no século XX. É um período situado entre a infância e a idade adulta, sendo que as faixas etárias que delimitam esta fase variam conforme as épocas históricas (Claes, 1985). Esta dura

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14 aproximadamente, entre os 11-12 e os 19-20, sendo, normalmente, marcada pela entrada na puberdade (Papalia, Olds, & Feldman, 2001). Contudo, não existe consenso global face ao início desta etapa, pois para Sprinthall e Collins (2003), a idade ideal para o assumir de certas responsabilidades e papéis sociais ligados à idade adulta, é entre os 12/13 anos de idade. Nas sociedades ocidentais não está delimitado o início e fim da adolescência (Papalia, Olds, & Feldman, 2001), mas sabe-se que as mudanças características da puberdade marcam o início da mesma. No entanto, o término desta é difícil de determinar, uma vez que culminaria com a entrada na vida adulta, o que hoje em dia acontece cada vez mais tarde (Arnett, 2000).

Pode-se, assim, afirmar que a duração do período da adolescência é uma variável indeterminada (Claes,1985). A adolescência é uma etapa do ciclo de vida que acarreta diversas transformações e uma ação combinada entre as modificações a nível biológico, cognitivo e social, sendo que à medida que os adolescentes adquirem maturidade física e intelectual transitam para níveis distintos, como seja, no caso da escola – do ensino básico para o ensino secundário - (Claes, 1985; Sprinthall, & Collins, 2003).O desenvolvimento cognitivo permite que o jovem passe a ter um pensamento mais abstrato, o que Piaget designou de pensamento operatório formal (com início entre os 11-12 anos). Pode-se afirmar que na fase da adolescência, os indivíduos desenvolvem um importante potencial devido ao pensamento formal, em detrimento do pensamento infantil, mais concreto. O adolescente ganha uma capacidade superior para pensar acerca de possibilidades hipotéticas, antever resultados, refletir sobre os seus pensamentos e ponderar sobre o ponto de vista de outrém. Não obstante, antes de desenvolver este tipo de pensamento, o adolescente é egocêntrico (Sprinthall, & Collins, 2003). Esta fase está também ligada à construção de identidade, o que irá permitir modificar as representações que o adolescente tem de si mesmo e dos demais, havendo uma afirmação do eu (Claes,1985). Este período dá origem ao processo de emancipação o que irá permitir que o adolescente se desligue gradualmente das relações familiares e invista, cada vez mais, em relações afetivas fora do seio familiar assumindo, deste modo, o grupo de pares maior importância no processo de socialização (Claes, 1985; Sprinthall, & Collins, 2003).

De acordo com a perspetiva sistémica, a procura de solução para o término dos conflitos interparentais é um processo resiliente essencial para os adolescentes a nível afetivo, quer no que respeita à autoestima quer nas relações com outrems. Esta perspetiva em co-ligação com a teoria ecológica não coloca de parte a influência dos meios circundantes, em que as crianças e adolescentes estão inseridos, como factores determinantes nos conflitos

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15 interparentais (Grynch, Seid, & Fincham, 1992). Os adolescentes vivenciam um momento de grande insegurança e preocupação face às alterações do corpo, sendo que, são as características sexuais secundárias (aparecimento de pelos púbicos, seios, barba) que despoletam uma maior preocupação entre os indivíduos desta faixa etária. Assim, com base neste grande sofrimento interior ligado ao desenvolvimento global, os adolescentes podem manifestar dificuldades em lidar com acontecimentos de vida negativos e tensos, como por exemplo, divórcio ou conflito familiar e parental, podendo modificar os modelos internos de si próprios e dos outros (Moura, & Matos, 2008; Sprinthall, & Collins, 2003).

1.2. Conflito interparental: caracterização e dimensões

O termo conflito familiar não reúne consenso no que respeita à sua definição dada a sua complexidade. Apesar de muitas pesquisas terem ressalvado que o conflito interparental está intimamente relacionado com problemas de internalização e externalização em crianças e adolescentes, Kempton, Thomas, e Forehand (1989) consideraram, há cerca de três décadas, que existiriam outras dimensões essenciais que não tinham sido abordadas até à data. Neste sentido, desenvolveram um estudo com o objetivo de avaliar as três dimensões do conflito distintas das anteriormente exploradas e a influência que exerciam no comportamento dos adolescentes. Participaram do estudo 48 tríades (progenitores e filhos adolescentes com média de idade de 13 anos, pertencentes a famílias ditas tradicionais) e professores, os quais tiveram de preencher um questionário acerca das três dimensões do conflito (frequência, método e resultado). Os adolescentes foram avaliados pelas informações recolhidas através dos professores acerca do funcionamento pró-social e cognitivo e dos problemas de externalização ou internalização. Os resultados evidenciaram que os adolescentes que lidavam com o conflito, geralmente, recorriam ao uso da agressão ao nível físico e verbal a fim de lidar com o conflito.

Vinte anos mais tarde e de acordo com Mota e Matos (2011), o conflito é conceptualizado em três dimensões: frequência, intensidade, e conteúdo. A frequência diz respeito à regularidade com que ocorrem os conflitos interparentais expondo as crianças e adolescentes ao mesmo; a intensidade prende-se com as características que o conflito assume, como seja, discussões entre o casal ou violência verbal e física (aqui a frequência e a

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16 intensidade em conjunto assumem um carácter significativo); e finalmente, o conteúdo associa-se às causas que originam a disputa, como por exemplo, decisões relativas aos filhos. Os conflitos podem adquirir diversas formas de manifestação e ultrapassar várias etapas ao longo do tempo e das fases do ciclo de vida familiar em que cada família se encontra (Grych & Fincham, 1990; Relvas, 2000).

Segundo Turner e West (1998; cit. in Boas, Dessen, & Melchiori, 2010) os conflitos referem-se a processos resultantes de discórdias em distintas áreas, sendo algo natural nas relações de intimidade, como é o caso da família, dada a dependência entre os elementos. Estes autores acreditavam que os conflitos podiam ser de dois tipos: destrutivo ou construtivo. O primeiro tipo gera normalmente sentimentos negativos e caracteriza-se por violência física e verbal, isolamento, submissão e exposição dos filhos ao conflito. Por outro lado, o conflito construtivo resulta da tentativa de resolução e apaziguamento da questão conflituosa entre o casal e os filhos, procedendo os pais a uma explicação do motivo que deu origem à discussão (Davies, Meyers, Cummings, & Heindel, 1999; Goeke-Morey, Cummings, Harold, & Shelton, 2003).

Os conflitos podem resultar em sentimentos negativos e em pontos de vista distintos, quando estes conduzem ao divórcio, haverá que adaptar-se a novas realidades e a um estilo de vida individual, colocando de parte a conjugalidade (Cummings, & Davies, 2002; Féres-Carneiro, 1998).

Segundo diversos estudos citados em Boas e colaboradores (2010) questões como disputas de poder, presença e educação dos filhos, económico-financeiras, divisão de responsabilidades, diferenças de género e relacionamentos extraconjugais são as mais apontadas como desencadeadoras de conflito. Mosmann e Falcke (2011), no seu estudo com 149 casais, constataram que os filhos estão entre os motivos mais frequentes de conflito conjugal, seguido do tempo de lazer para ambos, das questões económicas e de gestão doméstica e as relações sexuais, sendo este último menos mencionado dado o pudor em falar sobre o assunto.

1.3. Conflito interparental : impacto nos diversos níveis

Os conflitos interparentais têm despertado interesse na investigação dado que a sua influência adversa no bem-estar do seio familiar (Mota, & Matos, 2011) pode associar-se a

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17 problemas de vária ordem, independentemente da estrutura familiar em que se as crianças e os adolescentes se inserem (Cummings & Davies, 2002; Emery, 1982).

Grych e Fincham (1990) desenvolveram uma proposta de enquadramento cognitivo-contextual do conflito, com o intuito de conceptualizar as consequências do conflito interparental nas crianças e adolescentes, podendo as consequências estar condicionadas pelo contexto e pela interpretação dos filhos face aos conflitos. Ou seja, as crianças/adolescentes podem interpretar de forma adaptativa ou desadaptativa os conflitos. Os autores identificaram dois processos, nesta tentativa de adaptação: o processo primário que acarreta alterações do estado afetivo e implica uma avaliação da dimensão e expressão do conflito e o processo secundário que diz respeito à influencia que estes assumem no desenvolvimento dos adolescentes e as estratégias de coping adotadas para gerir os acontecimentos. Neste processo, as crianças/adolescentes tentam descodificar as causas, os motivos e as formas de lidar com o conflito, servindo para readaptar a resposta emocional inicial. Segundo este modelo as crianças e adolescentes enquadrados no último processo são mais suscetíveis de apresentar níveis baixos de autoestima.

Os problemas referidos na investigação podem ser comportamentais, académicos, baixa autoestima e autoconceito, e perceções negativas relativas às questões amorosas (Amato & Keith, 1991; Cummings & Davies, 2002; Emery, 1982; Forehand, Neighbors, Devile & Armistead, 1994; Grych, Raynor & Fosco, 2004; Schick, 2002; Woodward et al., 2000; Zill et al., 1993). Amato e Keith (1991) realizaram, há cerca de 20 anos, uma meta-análise, abordando as consequências a longo prazo no bem-estar de adultos que vivenciaram o processo de separação dos progenitores. Com este método concluíram, nessa altura, que os efeitos são mais significativos em adultos cujos progenitores se tinham divorciado, pois apresentavam níveis de bem-estar mais baixos quando comparados com os adultos cujos pais continuaram casados.

O impacto do conflito interparental no bem-estar das crianças dependerá não só da forma como este é expresso mas também como é interpretado pelas mesmas (Grych & Fincham, 1990). Alguns estudos recentes acreditam que para as crianças e adolescentes a perceção do conflito, principalmente se este envolver agressões físicas ou verbais, pode desencadear sentimentos de ameaça, dada a possibilidade de vitimização direta, e de culpa, devido a erros cognitivos de pensamento (Grych, Fincham, Jouriles & McDonald, 2000; Grych, Harold & Miles, 2003; McDonald & Grych, 2006).

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18 Estudos que incidiram sobre o impacto do divórcio no bem-estar psicológico de crianças e adolescentes, mencionam um conjunto de problemas em distintos níveis, designadamente, a nível comportamental, emocional, social e académico (Amato, 2000; Amato & Keith, 1991; Cummings & Davies, 2002; Emery, 1982). O divórcio parental poderá acarretar menos consequências para os adolescentes, comparativamente com as crianças mais novas, devido ao seu desenvolvimento cognitivo e à existência de um eventual suporte seguro fornecido pelo grupo de pares. No entanto, Chase-Lansdale, Cherlin e Kiernan, (1995) apoiam a ideia de que os adolescentes também manifestam sensibilidade no processo de divórcio, pois as relações com os pais estão consolidadas e fazem parte da realidade dos mesmos daí sentirem a necessidade de se envolverem no conflito parental. Diversos autores concordam que os sintomas apresentados pelas crianças e adolescentes oriundos de famílias divorciadas resultam não apenas da situação de divórcio, mas também se relacionam com muitos outros fatores desde o conflito parental até à ausência ou falta de contacto com um dos progenitores (Cummings & Davies, 2002; Emery, 1982; Woodward, Fergusson, & Belsky, 2000).

Amato (2000), por sua vez, concluiu que o processo de divórcio origina consequências na vida de cada indivíduo, no entanto, estas irão depender de pessoa para pessoa, ou seja, podem originar psicopatologias ou proporcionar um melhor nível de bem-estar, quer em crianças quer em adultos. O indivíduo pode ser afetado devido às ruturas nas relações entre pais e filhos, discórdias permanentes entre os ex-cônjuges, à perda de apoio emocional e económico. As crianças, como forma de superar o momento de crise, recorrem a diversos mecanismos de proteção, como seja, apoio do grupo de pares e restantes familiares.

Unger, McLeod, Brown, e Tressell, (2000) no seu estudo com 115 adolescentes com idades entre 12-18 anos, analisaram a influência da relação do conflito interparental no rendimento escolar dos adolescentes. Os autores concluíram que o apoio e a coesão familiar e o suporte dos pais face à escola favoreciam o rendimento académico apresentado pelos adolescentes, no entanto, isto verifica-se mais em adolescentes do sexo feminino. Não obstante, existe uma ligação direta entre o conflito interparental e as notas escolares, apesar dos mecanismos de mediação.

Num estudo levado a cabo por Wildin, Williamson e Wilson (1991) concluiu-se que 46% das crianças em idade escolar, expostas à violência conjugal, manifestavam dificuldades escolares o que se evidenciava nas baixas notas, reprovações e número de faltas, assim como na necessidade de recorrer ao serviço de Educação Especial, apresentando ainda dificuldades comportamentais. Anos mais tarde, Brancalhone, Fogo e Williams (2004) desenvolveram um

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19 estudo que foi ao encontro do estudo referido anteriormente. Com a finalidade de verificar a existência de dificuldades no rendimento escolar em crianças expostas à violência conjugal, sendo a vítima a mãe, avaliaram 30 crianças, divididas em dois grupos, um exposto a atos de violência e outro sem relatos de vivências violentas entre os pais. Concluíram que as crianças pertencentes ao grupo com vivência de violência parental apresentavam resultados escolares significativamente mais baixos quando comparadas com as do outro grupo.

O conflito parental tem sido bastante estudado, mas, as consequências que este tem nas crianças a nível não-verbal e não-físico, assumindo um carácter silencioso, não têm sido tidas em consideração. Neste sentido, Pryor e Pattison (2007) numa amostra de 21 jovens, com idades compreendidas entre os 17 e 21 anos, cujos pais tinham vivido em comunhão de facto durante a sua infância e a adolescência, realizaram uma entrevista com o intuito de averiguar as características do conflito silencioso, o impacto do mesmo e identificar os comportamentos adotados face ao contexto do conflito. Constataram que os jovens manifestavam sentimentos de impotência, ausência de controlo sobre as suas ações, insegurança e sentimentos de culpa. Para fazer face aos conflitos silenciosos os adolescent es mencionaram que adotavam comportamento disruptivos com o intuito de chamar a atenção parental, recorrendo, em alguns casos, à automutilação. Este tipo de conflito causa um maior impacto e nível de sofrimento, pois nem sempre revela os motivos que o despoletam e consequentemente revelam a incapacidade para obter uma resolução, principalmente se os progenitores negarem a presença de conflito. Alguns dos adolescentes deste estudo ressaltaram que tentam resolver e mediar os conflitos, algo que vai ao encontro do modelo cognitivo - contextual do conflito proposto por Grych e Fincham (1990), na década de noventa do século XX.

Harold, Aitken, e Shelton, (2007), recentemente, num estudo longitudinal e com o intuito de descentralizar o conflito interparental das consequências de adaptação psicológico, avaliaram os efeitos deste tipo de conflito no rendimento académico de 230 adolescentes americanos com idades compreendidas entre os 11 e 13 anos. Os resultados evidenciam que os indivíduos que convivem num ambiente familiar caraterizado pelos conflitos, tendem a culpabilizar-se, e isso proporciona implicações negativas ao nível escolar, ou seja, o sucesso académico destes adolescentes fica comprometido a longo prazo.

Crianças e jovens expostos prolongadamente a conflitos, são protegidos em Portugal pela Lei 147/99 de 1 de Setembro, que consagra o princípio da subsidiariedade, ou seja, defende o respeito e a salvaguarda da integridade física e emocional das crianças e

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20 adolescentes. Esta lei visa ainda, a intervenção a nível psicossocial e jurídico em situações de maus tratos físicos ou psíquicos ou em casos de negligência, e em situações de insegurança ou quebra do equilíbrio familiar.

As reações dos adolescentes relativamente ao divórcio dos pais são diversas. Estes podem compreender o sucedido de uma forma mais clara do que as crianças, dada a sua maturidade ou dado o fator resiliência. As crianças e adolescentes designados resilientes são aqueles que apesar de viverem acontecimentos traumáticos conseguem lidar com eles, de forma que estes não afetem o seu desenvolvimento emocional, sendo mais resistentes ao stress e a situações problemáticas e desgastantes, o que poderá resultar da sua personalidade e ambiente familiar (Papalia, Olds, & Feldman, 2001). Por outro lado, as crianças e adolescentes não resilientes poderão sofrer com mais ênfase devido à sua exposição aos conflitos parentais (Brancalhone, 2004; Ribeiro, 1987). Deste modo, Patten-Seward (1984; cit. in Ribeiro,1987) defendeu que a vivência deste processo pode manifestar-se de diferente forma, designadamente, no rendimento escolar dos jovens.

Diversos autores concordam que a separação conjugal parece ser uma solução benéfica para os descendentes, quando existe conflito interparental, dado que se prossupõe a redução do contacto entre a díade parental e, consequentemente, a diminuição do atrito conjugal, restabelecendo-se a harmonia familiar (Clarke-Stewart et al., 2000; Emery, 1982). Contudo, para Moura e Matos (2008) o divórcio acarreta para a criança e adolescente consequências que se podem prolongar no tempo.

Moura e Matos (2008) com o objetivo de perceberem as variações na qualidade da vinculação aos pais em função da estrutura familiar e do conflito interparental, analisaram as associações entre a qualidade da vinculação, o género, o divórcio e o conflito interparental numa amostra constituída por 310 jovens portugueses (84,8% pertenciam a famílias intactas e 15,2% a famílias divorciadas) dos 14-18 anos. As autoras observaram uma influência da variável género face ao conflito interparental, assim, as raparigas tendiam apresentar uma perceção do conflito da ameaça mais elevada, quando comparadas com o sexo oposto. No entanto, a variável idade não exerceu nenhum efeito significativo na perceção do conflito interparental. Adolescentes de famílias divorciadas tendem a percecionar mais conflitos interparentais. Os resultados parecem evidenciar que os adolescentes do sexo feminino apresentam uma maior dependência emocional e sensibilidade ao conflito. O conflito interparental pode culminar em divórcio ou por outro lado prolongar-se no tempo e no ciclo de vida familiar e afetar o funcionamento deste.

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21 Num estudo levado a cabo por Toloi e Souza (2009) cujo objetivo era perceber a perspetiva dos adolescentes face às discórdias interparentais, constatou-se que os adolescentes revelavam uma perceção dos conflitos com base na interação diária da relação conjugal, e apresentavam uma compreensão simples face às razões que os despoletam. Foi possível ainda verificar que os motivos para as discussões da díade parental prendiam-se com a participação ou falta da mesma nas tarefas domésticas.

Delmann, Perren, Groeben, e Klitzing (2010), num estudo longitudinal, com 187 crianças (76 meninas e 111 meninos) do pré-escolar, com idades compreendidas entre os cinco e seis anos, pretenderam averiguar o efeito da separação/conflito parental no comportamento e nas emoções das crianças. Os autores constataram que o conflito familiar está associado positivamente aos problemas de comportamento e emocionais das crianças do pré-escolar. As famílias separadas apresentavam níveis de conflito superiores, quando comparadas com as famílias intactas. Na análise das diferenças de género, os indivíduos do sexo masculino evidenciam níveis superiores de problemas de comportamento. Concluiu-se, neste estudo, que a separação e o conflito familiar, assim como, as representações negativas parentais das crianças surgem como fatores de risco no aumento dos problemas de comportamento das crianças durante infância.

2.Autoestima

2.1.Distinção entre autoconceito e autoestima

O autoconceito define-se como a perceção que cada um tem de si próprio e sofre influências a vários níveis, como seja, da observação por parte de outrem, da autoavaliação do desempenho em situações específicas, da comparação com pessoas significativas avaliando o comportamento com base nos valores sociais, podendo dar origem a pensamentos positivos ou negativos. O autoconceito engloba diversos constituintes intrínsecos, de entre os quais se destaca o constructo da autoestima. Este constructo para Vaz Serra (1988) é o que assume maior importância pois está interligado com avaliação que o indivíduo faz das suas próprias capacidades e desempenhos. Rosenberg (1979) considerou que o autoconceito não pode ser traduzido pelo conceito de ego. Fontaine (1991, cit. in Antunes,2006) considera que o

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22 autoconceito se reflete nas perceções que cada ser humano faz acerca de si mesmo, tendo por base as suas atitudes, sentimentos, aptidões, imagem física e aceitação social. Esta perceção resulta das experiências e contextos de vida do indivíduo. Os meios sociais em que os indivíduos estão inseridos permitem a formação de perceções e avaliações pessoais, que ao longo do desenvolvimento cognitivo adquirem complexidade (Antunes, 2006).

Os constructos autoconceito e autoestima possuem características distintas, um é uma variável descritiva e a outra é avaliativa, respetivamente, contudo, as suas definições nem sempre transmitem clareza nessa distinção (Antunes, 2006). O autoconceito é uma variável multidimensional, contudo não impede que exista uma componente afetiva relativa às imagens que cada indivíduo tem de si quer em termos globais quer específicos. Para que o autoconceito se desenvolva é necessário que exista um desenvolvimento da consciência do “self”, algo que se adquire de forma gradual e progressiva ao longo dos primeiros anos de vida. Na infância, este constructo resulta, sobretudo, da comparação social com o grupo de pares. (Harter, 1999). Ducharne (2000), no seu estudo realizado em contexto português verificou que crianças com cinco anos de idade possuem um autoconceito de competência em diferentes áreas, quando realizam atividades previamente aprendidas. Para além disso, constatou que a auto perceção e diferenciação são processos desenvolvidos mais precocemente no sexo feminino. Na adolescência, surgem auto descrições com base em traços da personalidade e no autocontrolo das questões emocionais e dos valores (Rosenberg, 1986), contudo, mantem-se a importância da escola e da aparência física (Harter, 1999). No início desta fase, os adolescentes tendem a descrever-se dando mais relevância às qualidades e às competências a nível social, conseguindo ter um pensamento abstrato sobre si mesmo, não detetando nenhum conflito interno. Numa fase intermédia da adolescência, os indivíduos atribuem importância às opiniões de outrem acerca de si, no entanto surgem outras dimensões do autoconceito que geram instabilidade emocional (Harter, 1999).

A autoestima pode ser definida como a avaliação que a criança/adolescente faz das suas qualidades, aptidões e virtudes, resultando dos juízos de valor que cada indivíduo realiza de si mesmo acerca de alguns aspetos que compõem a identidade (Vaz Serra, 1988). No senso comum, é vista como uma avaliação face as características pessoais e individuais, sendo fundamental para o conhecimento do eu (Baumeister, 1993; cit. in Mota,2008). No dicionário de psicologia, a autoestima é definida como sendo “uma implicação do valor atribuído pelos indivíduos aos múltiplos componentes do conceito acerca de si mesma, podendo apoiar -se a ideia de que este constructo seja a componente avaliativa ou afetiva do autoconceito –

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23 componente cognitiva que resulta dos processos de interiorização e comparação social” (Doron, & Parot, 2001, p.97).

Rosenberg (1965; cit. in Romano, Negreiros, & Martins, 2007) define a autoestima como a avaliação que a pessoa faz e conserva em relação a si mesma e que se expressa emocionalmente. Para Rosenberg (1979) a autoestima influencia todas as atividades do dia-a-dia, ao nível do pensamento e das ações. A autoestima é um constructo inerente à personalidade e está suscetível às mudanças que ocorrem durante a fase da adolescência, e é influenciada pelas experiências de vida. Grande parte dos estudos que se debruçam sobre a questão da evolução do autoconceito e autoestima concluíram que no período da pré-adolescência existe um decréscimo dos níveis médios, sendo que recuperam no período da adolescência intermédia e sofrem um aumento na fase final da adolescência (Antunes, 2006).

Para Sprinthall e Collins (2003) a autoestima e a autoimagem refletem as reações que os adolescentes e os restantes indivíduos têm face à sua maturidade biológica.

A autoestima elevada traduz-se na valoração positiva do self, contudo, os distintos níveis desta podem coincidir com o vivenciar ao longo do ciclo de vida de momentos de sucesso ou insucesso. Diversos estudos descrevem este constructo como algo ligado, de uma forma significativa, aos sentimentos de bem-estar e satisfação pessoal e social (Leary & Baumeister, 2000; cit. in Mota, 2008). A autoestima pode possuir um carácter de estabilidade e instabilidade, sendo que a última não se verifica apenas em indivíduos com baixa autoestima (Antunes, 2006). A instabilidade deste constructo gera sentimentos de fragilidade e vulnerabilidade face à perceção de si e de acontecimentos de vida adversos (Greenier, Kernis, McNamara, et al., 1999) sendo que a instabilidade causa nos indivíduos uma valorização excessiva face aos acontecimentos de vida, quando comparados com indivíduos com uma autoestima estável (Crocker, Sommers, & Luhtanen, 2000; cit. in Antunes, 2006). A estabilidade da autoestima varia tendo em conta a variável, ou seja, a estabilidade é superior em intervalos de tempo mais curto e menos estável em intervalos maiores, algo que é mais observável durante a adolescência (Alsaker, & Olwens, 1992; cit. in Antunes, 2006).

Trzesniewski, Donnellan, e Robins (2003), através de uma meta -análise, averiguaram que a autoestima mantinha uma estabilidade substancial ao longo do tempo, sendo mais baixa durante o período infantil e apresentava níveis mais elevados na adolescência e idade adulta, após esta idade verificava-se um decréscimo. Por oposição, Robins e Trzesniewski (2005) apontam que a autoestima sofre oscilações ao longo do ciclo de vida, adquirindo uma maior estabilidade na infância e apresentando um declínio ao longo da vida. A fase da adolescência

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24 parece evidenciar níveis de autoestima mais baixos, pois através do feedback e presença parental o adolescente, em comparação com outrem, poderá elaborar um balanço entre as suas competências em vários campos.

2.2. Relação entre autoestima e conflitos familiares/interparentais

A família desempenha um papel de extrema importância no bem-estar e equilíbrio dos seus membros mais novos, como seja, na construção do autoconceito e da autoestima e no rendimento escolar (Peixoto, 2004).

Fontaine, Campos, e Musitu, (1992) com o objetivo de identificar as mudanças nas dimensões do autoconceito em função da perceção de aspetos familiares por parte dos adolescentes, verificaram uma associação positiva entre o autoconceito e a perceção que os adolescentes possuem das interações entre pais e filhos. No entanto, este facto ficou dependente de variáveis como a idade e os estilos educativos. Durante a fase da adolescência as interações mãe-filho aumentam, por outro lado, com a figura paterna sofrem uma diminuição. As interações com a figura materna são mais visíveis a nível escolar, o que segundo os autores se pode dever à motivação escolar na adolescência.

Para comprovar a importância da família na construção da autoestima e nos resultados escolares, Peixoto (2004) elaborou um estudo com alunos a frequentar distintos anos escolares (7º, 9º e 11º), constatando que efetivamente a perceção dos adolescentes face à qualidade das relações familiares está relacionada com a autoestima mais positiva e com o sucesso escolar. No entanto, menciona que esta relação com o constructo da autoestima é mais evidente em alunos do 7º ano escolaridade diminuindo nos anos seguintes.

Num estudo levado a cabo por Mota e Matos (2006) constatou -se que o conflito interparental não leva a diferenças na autoestima dos jovens pertencentes a famílias intactas (n=350), o que segundo as autoras se pode dever à diminuta amostra de famílias divorciadas no presente estudo (n=53). Deste modo, e embora o conflito interparental tenha sido percebido enquanto variável que interfere particularmente na autoestima, reconhece-se algumas limitações que se prenderam com o número reduzido de participantes provindos de famílias divorciadas, o que pode ter impedido a constatação de diferenças significativas.

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25 2.3.Diferenças de género na autoestima

Regra geral, o sexo masculino tende a apresentar níveis de autoestima mais elevados, comparativamente, com o sexo oposto, no entanto, surgem estudos que contrariam esta ideia generalizada (Peixoto, & Mata, 1999; Raposo, & Freitas, 1999; cit. in Antunes, 2006). Fontaine (1991; cit. por Antunes,2006) verificou diferenças de género num estudo com alunos do 5º ao 11º ano de escolaridade. Este estudo indicou que o sexo masculino valoriza mais as dimensões físicas e sociais, por outro lado, as raparigas dão mais valor aos domínios académicos. Peixoto e Mata (1993; cit. in Antunes,2006), pelo contrário, não encontraram diferenças entre os géneros no que respeita à autoestima, contudo, verificaram que as crianças mais novas (oito anos de idade) apresentavam valores mais elevados na competência desportiva e escolar e na aparência física, os rapazes consideram-se mais atraentes fisicamente e melhores no desporto do que as meninas. Kling e colaboradores (1999; cit. in Antunes, 2006) numa meta-análise constataram que as diferenças de género, apesar de consistentes, são de pequena proporção no que se refere aos rapazes, contudo, aumentam durante a infância e a entrada na escola primária até ao ingresso no ensino secundário, sofrendo um decréscimo com a entrada na idade adulta. As diferenças de género foram mais evidentes em estudantes do 8º ano, diminuindo progressivamente a partir deste período.

Alguns autores explicam que a autoestima do sexo feminino é mais baixa, geralmente, do que no sexo oposto porque elas são alvo de grande pressão social ao nível dos padrões de beleza e comportamentos padrão de adultos. Isto também se verifica na escola, pois espera-se que as raparigas demonstrem maiores níveis de competência em áreas que se consideram fundamentalmente femininas (Eccles, Wigfield, Flanagan, Miller, Reuman, & Yee, 1989).

2.4.Relação entre autoestima e rendimento escolar

A investigação no contexto da educação tem-se debruçado nas variáveis do autoconceito e da autoestima por se correlacionarem de forma positiva com o rendimento escolar apresentado pelos indivíduos (Bachman, & O´Malley, 1986). Schunk (1990; cit. in Senos, 1997) defende que os estudantes que manifestam sentimentos de segurança face às suas capacidades e à competência, patenteiam comportamentos de interesse e motivação

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26 escolar, o que se repercute num bom desempenho académico e em elevados níveis de autoestima, o processo inverso verifica-se em alunos com resultados escolares mais baixos.

Robinson (1978) e Robinson e Tayler (1986) desenvolveram um modelo afirmando que se o aluno que manifesta insucesso escolar e perspetivas baixas sobre o mesmo tende a demonstrar desinteresse e falta de investimento na sua caminhada académica, originado a manutenção desse insucesso e o agravamento das suas expetativas de cariz negativo face à escola. Ante esta situação de falta de interesse, a autoestima do adolescente pode ser afetada, o que de acordo com Senos (1992) desencadeará duas possíveis condições, como seja, o aluno poderá reconhecer o seu insucesso o que poderá resultar na diminuição dos níveis de autoestima, permanência do fracasso escolar e um regressão progressiva no trabalho académico, ou por outro lado, o discente não tem consciência nem aceita o seu estado de insucesso fazendo com que a sua autoestima se mantenha estável.

O estudo realizado por Senos e Diniz (1998) com alunos do 9º ano de escolaridade, permitiu averiguar que a autoestima se correlacionava com o autoconceito académico, o mesmo não acontecendo com os resultados escolares, uma vez que os níveis de autoestima apresentados por alunos quer com boas notas quer com notas baixas, tendiam a ser equivalentes. Não obstante, quando avaliaram a atitude relativa ao trabalho, verificaram que os alunos com atitudes negativas face a este apresentam níveis mais baixos de autoestima.

Peixoto (1998; cit. in Antunes, 2006), nesse mesmo ano avaliou a relação entre o autoconceito, autoestima e resultados escolares com estudantes do 7º,9º e 11º ano. Evidenciando uma relação entre as dimensões académicas do autoconceito e os resultados escolares, assim como, diferenças entre os alunos que já reprovaram e os que não viverem situações de reprovação, sendo que os últimos tinham um autoconceito mais elevado. Estes resultados tinham sido já observados por Senos (1996) dado que encontrou uma relação estreita entre o rendimento escolar e o autoconceito académico de estudantes do primeiro ano relativo ao 2º ciclo, sendo que os melhores alunos apresentavam um autoconceito académico mais elevado, comparativamente, com alunos relativamente mais fracos.

Alves-Martins, Peixoto, Gouveia-Pereira, Amaral e Pedro (2002), no seu estudo com alunos do 3º ciclo concluíram que a autoestima não evidenciava diferenças significativas quando associadas ao rendimento escolar, particularmente no 8º e 9º ano de escolaridade, dado que nestes anos os discentes tendem a recorrer a distintos mecanismos de coping para manter o seu nível de autoestima.

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27 Estudos realizados em contexto português ressaltaram uma forte associação entre o autoconceito académico e o rendimento escolar. Fontaine (1991; cit. por Antunes,2006) no seu estudo com 567 estudantes do 2º e 3º ciclo observou correlações positivas entre o rendimento escolar e as dimensões do autoconceito académico. Noutro estudo da mesma autora (1991) verificou-se que as correlações eram mais significativas no 7º e 9º ano de escolaridade, podendo afirmar-se que no ensino secundário as notas escolares não assumem relevância no autoconceito dos alunos.

2.5. Mecanismos de proteção da autoestima no meio escolar

Robinson e Tayler, (1986) afirmaram que os estudantes possuem capacidades avaliativas e de ajuste face às situações escolares negativas, com o intuito de alcançar níveis altos de satisfação e de autoestima. As ameaças à autoestima parecem ser combatidas pela formação do grupo de pares, mantendo assim a identidade pessoal e social. Os resultados escolares baixos são encarados como estímulos para o desenvolvimento de adaptações úteis para a autoestima, rejeitando, para esse efeito, os valores socias e adotando um sistema de valores alternativo construído dentro do grupo de pares.

Vários estudos evidenciaram que o sucesso escolar é benéfico para a autoestima dos estudantes. Quando o processo de aprendizagem está comprometido, os alunos desenvolvem esforços no sentido de contornar as vicissitudes do insucesso (Thompson, 2004). Peixoto (2003) constatou que a ausência de competências no contexto escola podem ser compensadas com o sucesso em áreas não académicas, como seja, no futebol, na música, entre outras. Os alunos que apresentam resultados escolares fracos procuram de forma incessante uma identidade pessoal aceite socialmente (Senos, & Diniz, 1998).

Thompson (2004) considerou que existem comportamentos de evitamento face ao insucesso com o intuito de proteger a autoestima no contexto escolar. Esses comportamentos são, especificamente, a autoimposição da desvantagem, o medo do impostor, o adiamento das tarefas e, por último, o pessimismo defensivo. Apesar destes comportamentos terem por objetivo auxiliar na manutenção de uma autoestima estável face ao insucesso poder dar origem a níveis baixos de rendimento escolar (Thompson, 1993; cit. in Antunes, 2006) e provocar uma motivação intrínseca diminuta (Thompson & Richardson, 2001; cit. in Antunes, 2006). A autoestima, também, pode ser protegida, na presença de insucesso escolar, através

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28 da popularidade no grupo de pares ou das relações amorosas bem-sucedidas (Martins, & Peixoto, 2000; cit. in Antunes, 2006).

3. Rendimento escolar

O rendimento escolar é um termo que toda a gente conhece, mas que ninguém sabe definir, contudo, pode-se dizer que “ rendimento escolar é a avaliação coletiva dos resultados de aprendizagem escolar ao invés da avaliação individual dos desempenhos dos alunos, sendo que o princípio fulcral da avaliação se baseia na coesão entre os objetivos, o ensino e as modalidades de avaliação. As avaliações de grande envergadura ao nível do rendimento escolar são realizadas através de inquéritos normativos que servem de suporte ao sistema educativo” (Doront, & Parot, 2001, p.662).

Weiner (1986; 1988; cit. in Almeida, Miranda, & Guisande, 2008) organizou seis variáveis que os alunos mencionam como explicação para o seu sucesso ou insucesso académico. Essas variáveis prendem-se com a capacidade, o esforço, as estratégias de estudo, a dificuldade ou facilidade da tarefa, o papel do professor e a sorte. Para seriar esta diversidade de causas, o autor distinguiu-as em causas dependentes ou independentes do aluno. Os discentes, com o intuito de proteger a sua autoestima, consideram que os resultados obtidos não dependem apenas de si mesmos (Branscombe, & Wann, 1994; cit. in idem), apresentando mecanismos de atribuição causal extrínsecos, como forma de proteção da autoestima

Saavedra (2001) analisou a possível relação do género e do estatuto socioeconómico (NSE) no rendimento escolar em distintas disciplinas. Tendo, em consideração, as teorias que defendem uma interligação entre o estereótipo de género e as disciplinas, assim como, a heterogeneidade das classes sociais. A amostra foi constituída por 591 alunos de ambos os géneros do 7º e 9º ano de escolaridade. Os dados recolhidos tiveram em conta o sexo, as classificações escolares do 3º período e as profissões e habilitações dos pais. Selecionou as disciplinas de português, história, matemática, físico-química, e educação física (EF). Concluiu que no conjunto das disciplinas as raparigas conseguem superar os rapazes de NSE superior, exceto em EF. No entanto, não se pode afirmar que estas sejam melhores que o sexo oposto, dado que só há diferenças significativas na disciplina de português. Nota-se que continua a existir desigualdade social no meio escolar quer relativamente ao género quer ao nível económico, contudo, as diferenças de género são menos evidentes. As raparigas mesmo

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29 de NSE mais baixo, conseguem superar os rapazes em áreas tipicamente consideradas masculinas, evidenciando assim maior capacidade para lidar com as desvantagens do nível socioeconómico.

Almeida e colaboradores (2008), com base na teoria da atribuição da causalidade, desenvolveram um estudo com alunos do 2º e 3º ciclo do ensino básico (5º a 9º ano). Constataram que, independentemente do género e do ano escolar, os alunos associavam os resultados escolares obtidos (bons e maus) ao esforço e à falta de métodos de estudo apropriados. Na tentativa de justificar o insucesso, as capacidades são a variável mais desvalorizada, o que indica que este facto poderá proteger o nível da autoestima dos alunos.

3.1. Relação entre conflito interparental e rendimento escolar

Segundo King (1998; cit in D´Avilla-Baracji, Marturano, & Elias 2005) o ambiente familiar exerce influência no rendimento académico desde o nível básico de ensino até à entrada na universidade, contudo, este efeito é atenuando através do processo de desenvolvimento da criança e do adolescente.

O estudo de Ghazarian e Cheryl Buehler (2010) teve por objetivo realizar uma associação entre o rendimento escolar apresentado por 2297 jovens americanos com11 anos de idade, integrados no 6º ano de escolaridade, e o conflito interparental. Constaram que o conflito interparental assume um factor preditor de risco no desempenho escolar dos adolescentes, suscitando a ideia de que as interações estabelecidas no seio familiar assumem um papel de extrema importância no ambiente escolar. A culpabilização sentida pelos jovens é um mediador essencial na explicação da interferência do conflito interparental no rendimento académico dos estudantes, os resultados demonstraram, ainda, que as relações positivas entre mãe-filho suscitam um sentimento de ameaça mais elevado, dado que sentem um maior envolvimento no conflito. Para as autoras é fundamental privilegiar um ambiente de harmonia entre o ambiente familiar e escolar (Ghazarian, & Cheryl Buehler, 2010).

3.2. Relação entre autoestima e rendimento escolar

O estudo de Pullmann e Allik (2008) averiguou, numa amostra de 4572 estudantes da Estónia, que a autoestima é uma variável forte e significativa no rendimento escolar elevado.

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30 Alunos com um rendimento escolar alto tem tendência a desenvolver uma autoestima mais positiva, por sua vez os alunos com aptidões académicas menos positivas adotam mecanismos de proteção com o intuito de manter os níveis de autoestima e compensar o insucesso escolar, esta atitude de proteção revela-se em idades correspondentes ao 3º ciclo de escolaridade, o mesmo se verifica no recurso ao pessimismo defensivo a fim de evitar as consequências advindas do insucesso ou fracasso. Neste mesmo ano, Leeson, Ciarrochi, & Heaven, no seu estudo com 639 alunos (316 do sexo masculino e 323 do sexo feminino), concluíram que é difícil averiguar o impacto que a autoestima exerce no rendimento escolar ou vice-versa.

Síntese

Com base na literatura constatou-se, que os conflitos provenientes da relação interparental acarretam para os adolescentes perturbações a vários níveis, tal como seja, a nível escolar e na baixa autoestima. No entanto, o fator resiliência e o apoio da família nuclear e alargada podem permitir formas de lidar com o conflito interparental sem serem afetados por ele, já que este pode ser exercido de forma indireta.

Alguns estudos apontam que a perceção dos adolescentes face aos conflitos interparentais, pode desenvolver nos mesmos sentimentos de ameaça e de culpabilização. Concluem ainda que a perceção destes conflitos é mais elevada no género feminino. Diversos autores concluíram ainda que o conflito interparental é um fator preditor do insucesso escolar. A autoestima, ao ser uma componente do autoconceito, manifesta -se através das emoções e refere-se aquilo que cada um pensa sobre si mesmo. Esta adquire distintos níveis ao longo da vida do indivíduo, sendo que a fase da adolescência parece evidenciar um nível de autoestima mais baixo. Por norma, são as raparigas que apresentam níveis de autoestima mais baixos que os rapazes. Alguns estudos apontam que esta não é perturbada pelo conflito interparental, nem se reflete no rendimento escolar, dado que os adolescentes recorrem a mecanismos de coping para manter o seu nível de autoestima estável.

A investigação aponta que em pleno século XXI, ainda, se constata desigualdades sociais no meio escolar, não obstante esta desigualdade não se torna tão evidente quando se fala na distinção de géneros, pois as raparigas equiparam-se ao sexo oposto em áreas que, antiguamente, eram destinadas exclusivamente aos rapazes.

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31 Certos estudos acreditam que existe uma relação positiva entre o rendimento escolar e as variáveis da autoestima, no entanto, há autores que defendem que o impacto da autoestima no rendimento escolar é difícil de averiguar, e vice-versa.

Este estudo torna-se pertinente dado o aumento de divórcios e conflitos entre a díade na atualidade, pois a família é o meio onde as crianças/adolescentes irão permanecer ao longo de grande parte da sua vida académica e pessoal. É também fundamental para a investigação dado que engloba uma faixa etária distinta da que é utilizada nos estudos existentes, e para a intervenção psicológica em contexto educacional. A existência de conflito pode perturbar o bem-estar subjetivo e o equilíbrio dos mesmos, repercutindo-se em autoestima baixa e rendimento escolar abaixo do esperado.

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33 1. Método

Com base na literatura constatou-se, que os conflitos provenientes da relação parental acarretam para os filhos perturbações a vários níveis, designadamente, a nível escolar.

A autoestima, ao ser uma componente do autoconceito, manifesta -se através das emoções e refere-se aquilo que cada um pensa sobre si mesmo. Esta pode variar ao longo da vida do indivíduo, sendo que na fase da adolescência parece evidenciar-se um nível de autoestima mais baixo. Alguns estudos apontam que esta não é perturbada pelo conflito interparental, nem se reflete no rendimento escolar, mas tal não é, ainda, conclusivo.

Este estudo torna-se pertinente pois, com a situação atual do país que gera desemprego e dificuldades socioeconómicas, o divórcio e a probabilidade de ocorrência de conflitos entre a díade parental tendem a aumentar gradualmente, e uma vez que a família é o meio onde os adolescentes irão permanecer ao longo de grande parte da sua vida académica e pessoal é necessário conhecer e intervir a nível familiar. Deste modo, pretende-se contribuir para a obtenção de mais informação, que permita melhorar as intervenções psicológicas em contextos educativos e evitar que a existência de conflito perturbe o bem-estar subjetivo e o equilíbrio dos adolescentes estudantes, o que se poderá repercutir em autoestima baixa e rendimento escolar abaixo do esperado.

1.1.Questão de investigação, objetivos e hipóteses

Tendo por base o enquadramento teórico deste estudo, parece evidente a relevância da família, em particular os pais, para o desenvolvimento físico e emocional dos adolescentes. Atualmente parece estar assistir-se a um aumento significativo do conflito interparental, que nem sempre é dissipado após a conclusão da separação ou divórcio. Em consequência, as crianças e os adolescentes estão expostos com frequência a estas situações que interferem com o seu bem-estar, conduzindo muitas vezes à desmotivação e ao fraco rendimento escolar.

O problema que se pretende estudar neste trabalho é justamente o da relação entre o conflito interparental, o rendimento escolar e a autoestima em adolescentes que frequentam o 8º e 9ºanos de escolaridade.

Os objetivos equacionados neste estudo são: (i) avaliar uma possível relação entre a perceção de conflito interparental e o rendimento escolar dos adolescentes a frequentar o

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34 3ºciclo; (ii) conhecer a relação entre a perceção de conflito interparental e a autoestima dos adolescentes a frequentar o 3º ciclo; (iii) determinar diferenças de género na perceção do conflito interparental; (iv) identificar a relação entre a autoestima e os resultados escolares dos adolescentes a frequentar o 3º ciclo; (v) determinar o possível poder preditor da perceção de conflito interparental na autoestima e rendimento escolar dos adolescentes a frequentar o 3º ciclo. As hipóteses que serão testadas, decorrem dos objetivos e podem enunciar-se da seguinte forma:

H1 – prevê-se que a perceção do conflito interparental esteja relacionado com os resultados escolares dos estudantes;

H2 – prevê-se a existência de relação entre o nível de perceção do conflito parental e a autoestima dos adolescentes;

H3- preveem-se que as raparigas apresentem níveis superiores de perceção do conflito interparental;

H4- preveem-se diferenças na perceção do conflito em função do nível socioeconómico; H5- preveem-se diferenças de perceção do conflito interparental em função do ano de escolaridade;

H6- preveem-se níveis de autoestima superiores no sexo masculino;

H7- prevê-se que a perceção do conflito parental seja preditora da autoestima dos adolescentes.

1.2. Participantes

A população foi constituída por conveniência e é formada por 256 jovens (53,9% do sexo feminino e 46,1% do sexo masculino) frequentando o 3º ciclo de escolaridade (8º e 9º anos). Os participantes tinham idades compreendidas entre os 13 e 17anos (M=13,78; D.P= 0,763). Em relação ao ano de escolaridade 55,5% da amostra frequentavam o 8º ano e 44,5% frequentavam o 9º ano escolar. O nível socioeconómico dos participantes, avaliado pela escolaridade e profissão do pai e mãe (encarregados de educação) é predominantemente

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Tabela 1:Caracterização da amostra
Tabela 2: Fiabilidade da escala CPIC
Tabela 4:Percentagem de variância explicada por cada fator da escala CPIC
Tabela 6: Valores de correlação de Pearson ( r) entre a autoestima e as subescalas do CPIC  Subescalas
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Referências

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