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Zero, 1985, nov./dez.

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(1)

I

o

SIGILO

ERA UMA

DAS

PRINCIPAIS

cLÁUSULAS

D�

UM tONTRATO

ENTRE O

DEPARTAMENTO

DE ENGENHARIA

MECANICA

E

A

IBM.DIVULGADO

PELA

IMPRENSA,

O ASSUNTO

CHEGOU

À

ASSEMBLEIA

(2)

Tensão

marca

os

dias

de

pagamento

25desetembro.Fazexatamenteum

mês queos

guardas

encarregadosda

entrega do dinheiro no posto do

BESCnaDFSC-referentesaossalá­

riosdosfuncionários- foram assal­ tados. Naquela

�casião,

quatro ho­

mensarmadoscomrevólvereatéme­

tralhadora, renderam os

guardas

e

levaram todo o dinheiro

-pouco mais de 1 bilhão de cruzeiros. (Na

fuga,

houve reação dos

guardas

e

disparos foram trocados). Como re­

sultado,umassaltante foi

atingido

no

braço

edois

guardas

ficaram grave­ menteferidos.

25 deOutubro.

É

novamenteo dia

dodinheiroserentreguenopostodo

BESC. Ao contrário da últimavez, o

motorista do carro-fortesobe acal­

çada

e estaciona ao lado do banco, numa distância

aproximada

de 10

metrosdaporta.Carro-forteaberto,

dois

guardas

saltam rápidamente

com omalote namãoe osrevólveres nocoldre. Mais atrás,nacobertura, outro

guarda,

que atento aos movi­

mentos, inspeciona o local com um

olharnervoso. Ua pequena multidão

queseformanafrente do banco para

assistir aentrega,uma voz anônima

quebra

o ambiente um pouco tenso com uma frase que provoca risos:

"Olha o ladrão!". Alheios a brinca­

deira,os

guardas

agem

rápidos

e em

três minu tosodinheiroestáentregue.

Serealmenteos

guardas

não esta­ vam para brincadeiras, os motivos

sãojustüicáveis.Afora alocalização

docarro-forte-aoladodobanco-,

renhuma alteração foifeita

pela

em­

presa Prosegur- Transportadorade

Valores no esquema de segurança.

Continuaramos mesmostrêsguardas e ummotorista,utilizadosna vez

an-teriorequedemonstraramserinsufi­

cientes para conter os assaltantes.

Mesmo assim, também não é certo

que a colocação de mais

vigilantes

nas

equipes

seja

asoluçãoparao caso.Afi­

nai,oqueaProsegurexigeparaadmitirum

guarda?

A lista de

do-Destavez odinheirofoientregue

cumentos éextensa,vai desdeexame

desangueatécertidãodecasamento,

porém

sãoesquecidosdois detalhes:

não se

pede

experiência alguma no

usodearmas eograu de escolaridade

não é levado em conta. Intimidade com armas e raciocínio

rápido

e ló­

gico

são indispensáveis para um

guarda.

Quando istofalta, é

preciso

ter coragemesortepara não

perder

a

vida.

Manoel Liano Severo Brasil, 29

anos,casado,doisfilhos, foiumdos

guardasferidos duranteoassaltona

Universidade. Manoel, que estudou

atéa6.°sériedo 1.0grau,contacomo

foinahorado assalto: "Osassaltantes

chegaram

e nosrenderam,

quando

eu

vielessaindocom odinheiro,

pensei

em

reagir, pois

é o que tem que se

fazer,aí leveio tiroenão

pude

fazer

maisnada". Levado para o

hospital,

ficou por

algum

tempoemestado de­ licado.Agora,jáliberadodecuidados

médicos maisintensos,Manoel Bra­

sil,

gaúcho,

está com a sua família

hospedado

noHotel Filadelfia- há

apenas 2meses emFlorianópolis,não

havia encontrado casa. A conta é

paga

pela

Prosegur,quetambém deu

um

prêmio

de5 milhões de cruzeiros

para cadamembro da

equipe

assal­

tada,

pela

valentia que demonstra­

ram. Nota-se que a empresa

pelo

menosreconhece que tudo foipura

valentiã.

Que

outroadjetivo

poderia

ser dado para estes homens, que,

mesmo sem nunca terem atiradona

vida são admitidos

para

o

serviço

e

recebem instruçõesapenasuma vez aomês?

No entanto, Manoel Brasil tem outro pensamento. Com a escritura

desua nova casanasmãosdiz:"Não

se

pode

termedooureceio nesteem­

prego, temdeseestar pr eparado par'a

tudo". Para ele a "firma

agiu

bem,

desdeo

hospital

atéohotel"e ossalá­

rios "em vistadoque tão

pagando

por

aí, até que ébom, d

á

pracome- um

pãozinho

à mais cada dia". Seu

plano

paraofuturo é "voltar assim que ficar

bom" Contentes com esta decisão,

devem estar os invisíveis e

inatingí­

veis homens que habitamo"bunker"

daRua SantosSaraiva,n,? 432.Ali éa

sededaProsegur,que

pelos

seusvi­

drosrefletores,suasportasdeferro,

cachorros ferozes,

poderia

ser con­

fundidacom aresidênciadequalquer

ditador sul-americano exilado. Pro­

tegidos

do contato com a realidade

das ruas,

�s

diretores da empresa

sabem que não preparam adequa­ damenteosvigilantesepor isso pre­

cisamdemaisgentevalente-ou ne­

cessitada- comoManoelBrasil,par arriscaravida,atrás desuasobrevi­

vência.

ZERO

Jornal

laboratório

do

Curso

de Comunicação

Social da Universidade

Federal

de

Santa Cata­

rina.

Reportagem:

I

vandra

Prévidi,

Raquel Vandelli,

Valentina da Silva

Nunes,

Ângelo

Lima

Medeiros,

Artêmio

Reinaldo

de

Souza,

Silvana

Rocha,

Evory

Pedro Schmitt

e

[eni joana

de Andrade.

Fotografia:

Manoel

Men­

des,

Valmor

Roberto

Fritsche,

Júlio Cancelier,

Fernando

Antonio

C

ro­

como,

Jones João

Bastos,

Charles Silva

Desenhos:

Sandro Shi­

guefuzi

Edição

e

supervisão:

Pro­

fessores

Luiz

Alberto

Scotto,

Ricardo

Barreto e

Lourenço

Cazarré.

Edição

gráfica:

H. Ri­

cardo

Barreto

Acabamento e

impres­

são:

Empresa

Editora O

ESTADO

Correspondência:

Caixa

Postal

472,

Departamento

de

Comunicação,

Floria­

nópolis.

S.C.

Distribuição gratuita

Circulação dirigida.

A únicasurpresafoi ocaminhãoencostarjunto aobanco.Diminuiuadistância,não o

perigo

(3)

NOV·DEZ 85

'

ZERO

P

3

M SantaCatarina

hoje,

de cada mil

crianças

que entram no 1.0 grau deumaescola gra­

tuita apenas 47

chegam

à Universidade. A

grande

maioria delas é de

crianças

de famílias de baixa

renda,

que não conse­

guem

ultrapassar

os inúmeros obstáculos

encontradõs

no decorrer de seu desenvolvi·

mentoescolar.

Gilberto João de

Oliveira,

20 anos, foi uma

dessas

crianças.

E foi também um dos 10.124

desclassificadosnovestibular da Universidade

Federal de Santa C atarina de 1985. Candidatoao

curso de Direito, Gilberto atribui o seu baixo

desempenho

noconcurso a umasérie de fatores

que tevedeenfrentar: a

obrigação

deconciliar

trabalhoe

estudo,

eanecessidade de

frenqüen­

tar

colégios

estaduais que não oferecem boas

condições

de ensino. "Não

pude

fazer cursinho

porque não tinha

tempo

nem

condições

finan­

ceiras,esóoensino de 2.° graunão foi suficiente.

Pelo

contrário,

foi quase r-ídíeulo porquenem

20% do currículoa

gente conseguiu completar".

Hoje,

Gilberto trabalhacomo

subgerente

no

S11-permercado

Comper,

da

Trindade,

e terminou adiandosEU sonho deser

advogado.

"Vestibular

denovosó

daqui

aseteanos.

Agora preciso

estabi­

lizar a

vida,

porque casei e tenho um.filho pe­

queno".

Gilnei Hilhesheim, 23 anos, é

colega

de tra­

balho de Gilberto. Ele também viu seus sonhos

frustados

quando

não

conseguiu

ser

aprovado

paraocursode

Administração

de

Empresas

da

UFSC. Sua história

ép

arecidacom adeGilberto,

assimcomo ade muitosoutros

jovens

que

hoje

circulam fora das Universidades brasileiras. Terminouo2.° grauno

Colégio

Estadual Simão

JoséRhes,ondeestudavaà noite

-após

umdia

inteiro de trabalho- eonde recebeu também

um "baíxíssímo nível educacional". Não

pôde

fazer um cursinho

pré-vestibular

-que custa

em média

Cr$

190 mil por mês - elamenta a

impossibilidade

de voltar a

prestar

outrocon­

cursopara o3.° grau. "Conciliar trabalhoe es­

tudo équase

impossível

hoje

para

mim,

porque

trabalho mais de8horasenão

aguentaria

che­

gar em casa

cansado,

tomarbanho esairpara assisitir aula".Atuandocomoalmoxarife confe­

rente,Gilnei reconhececomtristezaqueem nos­

sosdiasparaquemnão

temum

diploma

decurso

superior

tudo é maisdifícil.

CURSINHOS

Masno

Brasil,

apenasumaminoria obtém di­

ploma

decurso

superior.

Sãoosfilhos das clas­ sesmédiaealtaqueestudaramem

colégios

par­

ticulares

bem-estruturados,

nàoforam

obriga­

dos

à

conciliartrabalhoe

escola,

puderam

pagar

cursinhos

preparatórios

e receberamuma

for-.

mação

cultural muitomelhor. Dosnovosuniver­

sitários

aprovados

no vestibular de 1985 da

UFSC,

por

exemplo,

46% do total concluíramo

2.° grau em estabelecimentos par

ticuj

ar es.

Maria Lúcia Pacheco Ferreira, 18 anos, reco­

nhece e

presencia

diariamente essedesnivela­

mento entreos estudantes de escolas

públicas

e

privadas.

"O

pessoal

das escolas estaduais não

temamínima chance de

competir

com osalunos das escolas

particulares.

Eles não têm

noção

nemdo 1.0 grau, quem dirá do 2.°

grau".

Maria

Lúcia é secundarista no

Colégio

Catarinense,

onde terminao2.° grauneste ano, etambém do cursinho

Barriga

Verde.

Filhadeumengenheiro

elétrico da

Eletrosul,

ela não trabalha e

gasta

mensalmentecercadeCr$ 400mil,para

garantir

suavaganaUniversidade Federal.

No último vestibular da UFSC o número de candidatos

aprovados

quepossuem umarenda familiar acima deonzesalários mínimosrepre­ sentou cerca de 30% do total. Isto

é,dos

2,745

novos

universitários,

793 pertencem à classe mais

privilegiada.

Poroutrolado,os

aprovados

VINTE

POBRES

ENTRARAM

NA

UFSC.

comrenda familiar inferioraumsálario mínimo

nãopassamde22,ou

seja,

apenas0,8%do total. Mais umdado obtido

entre

osclassificados do

ano

passado equevemconfirmar

a

elitizaçãodo

ensino

superior,

éa

porcentagem

de alunosque não trabalham e recebem renda da família:

60,8% do total.

Enquanto

que apenas4,6% são'

responsáveis pelo

, sustentofamiliar.

CíRCULO

VICIOSO

"Essas

crianças

e adolescentes

pertencentes

àsclasses menos favorecidas enfrentaum ver­

dadeiro círculo vicioso: não têm

condições

fi­ nanceiras de estudarem

colégios particulares

e

são

obrigados

aenfrentar escolasquenãopos­

suem boas

condições

de ensino" afirma Maria das Dores Amorim, assessoratécnica da Asso­

ciação

Catarinense das

Fundações

Educacio­

nais (ACAFE) - e

coordenadora

da

pesquisa

"Desempenho

novestibulare

diagnóstico

deen­

sinode2.°graunaGrande

Florianópolis

eVale do

Itapocu". Segundo

dados dessa

pesquisa,

feita em dois anos, financiada por

orgãos

ofi­

ciais, ainfluência das más

condições

de vida é

fator determinante no baixo

desempenho

no

vestibular. Na Grande

Florianópolis,

por

exemplo,

oscandidatos vindos daszonasrurais

obtêmumnível de

desempenho

muito inferior

aodos alunosda cidade. Issoporqueamaioria

desses candidatos são de

origem

humilde e,

quando

não foram

obrigados

adeixarosestudos

paratrab alharnocampo,sesubmeteramaesco­

las

gratuitas

e

precárias.

PROMOÇÃO

AUTOMAnCA

Maso

principal

fator

responsável

pelo

baixo

nível do ensino oficial, e

conseqüente

despre­

paro dos alunos, é a chamada

promoção

auto­

máticaem

vigor

nos

colégios

municipais

eesta­

duais. Esse sistemapermitequeoalunopassede

ano mesmo semter

alcançado

mêdíancsprovas.

"A

promoção

automática deveriaserbemestu­

dada antes deser

aplicada,

por que a

gente

vai

passando

e

quando

chega

ao

ves''tibular

nãosabe nada" desabafa Jonas

Moraes,

30 anos, estu­

dante secundarista e candidato ao curso de

Educação

Física no vestibular de 1986. Jonas

trabalhaduranteodia numa

loja

deconsertos

de rádio eTV,eà noite terminao2.°grau,quefoi

obrigado

a

interromper

hádez anosporfaltade

condições

financeiras. Ele não faz cursinhopre­

paratório

porquenãotem

tempo

emuitomenos

meiospara

pagá-lo.

Além

las dificuldades

financeirasedobaixo nível do ensino aque temdesesubmeteremos

estudantes das

classesmaispobres,

elesaindase

deparam

comoutroobstáculo:ocansaçofísicoe

mental de conciliar o emprego e a escola.

Sdgundo

osdados da Comissão Permanente do Vestibular

(COPERVE)

cercade 16% do total de

classificadosnoúltimo vestibular da UFSC fre­

qüentaram colégios

noturnos,

enquanto

que

63% estudaramem

colégios

diurnos.

Apesar

de todos esses

problemas

quelevam

alguns

àdesistência, são muitos os que ainda

tentam

chegar

aonível

superior.

MuriloMariano, 20 anos, por

exemplo,

éum

dessess estudantesqueaindanão

perderam

as

esperanças. Filho

deumpescador

edeumaren­

deira,

sempreestudouem

colégios

gratuitos.

prestou

concurso em1985para

Agronomia

- o

cursomais concorrido daUFSC- enãoconse­

guiu

se classificar. "Saí do 2.° grau sem estar

muito bem

preparado

para enfrentarovestibu­

lar. A

promoção

automáticasóme

prejudicou".

Mas ele não desisteevai tentar maisumavez,

mesmo sem ter feito cursinho

preparatório,

que está

desempregado.

Quem

sabe ele talvez tenhachance,mesmoconcorrendo com os alu­

nos do

Colégio

Catarinense, dos Cursinhos

Barddale

Barriga

Verde. "Omeusonho éum dia assinarumacolunanum

jornal"

desabafa. Mu­

riloque, agora, vaitentarJornalismo.

PREPARAÇÃO

PARA

'O

VESTIBULAR

CUSTA

(4)

A

publicação

deuma

reportagem

naedi­

ção

de 6 / 7 de

outubro

do Jornal de Santa

Catarina,

denunciando

um

convênio

entreo

Departamento

de

Engenharia

Mecânica

da

UFSC

e a

multinacional

gerou uma

polê­

mica que

chegou,

inclusive,

à

Assembléia

Legislativa.

Os

parlamentares

solicitaram

ao

Reitor,

informações

sobrea

proposta

da IBM e,comonão

receberam

resposta,

deci­

diram

investigar

de

perto

o assunto.

Por causa da

denúncia

feita

pela

estu­

dante de

Jornalismo Ivandra

Prêvidí,

os

professores

do

Departamento

de

Engenha­

ria

Mecânica

ameaçaram processaroJSC.

Em nota

oficial,

parcialmente publicada

pelo jornal,

dezoito

professores

daquele

departamento

qualificam Eloy

José Tava­

res

Neto,

do

Departamento

de

Ciências

da

Computação,

de

"espécime

exótico,

deno­

tóriae nociva

participação

navida

univer­

sitária",

pelas

declarações

que

prestou

à

repórter.

Nestamesma

nota,

porém,

ospro­

fessores não

esclarecem

a

questão,

nemre­

futam as

informações

principais.

Limitam­

se a

ofender

o

entrevistado.

Por sua vez,

Eloy

Tavares

Neto,

ameaçou recorrer à

Justiça

contraos queo

agrediram.

Contrariado

com a

divulgação

do

acordo,

dois dias

depois,

o

professor

Clóvis

Rai­

mundo

-Maliska,

coordenador

de

pós­

graduação

em

Engenharia

Mecânica,

cha­

mou a

estudante

a seu

gabinete

para

criticá-la

pela reportagem

que deu inícioao

bate-rebate.

Na:

conversa, negou

alguma

afirmações

que

fizera,

eusouboa

parte

do

tempo

para dar a ela

lições

sobre

jorna­

lismo

(ver

box).

O caso

ffiM-UFSC

não parou por aí. Na sua

edição

de

13/14

de

outubro,

oJornal de

Santa Catarina

publica

duas outras notas

sobreo

tema-Numa

delas,

Eloy

analisa

poli­

ticamenteo

acordo,

e

propõe

queseus ter­

mos

sejam

aprovados

em

Assembléia Geral

Universitária, depois

de

discutidos

pela

comunidade.

Os

professores

de

Mecânica

contrapõem-se

a essa

tese,

afirmando,

na

outra

matéria,

que

"qualquer

decisão sobre

oassunto não

poderá

ser

determinada

por

maiorias

manipuiadas

por-Iiderunças

ideo-A

IBM TENTA

POR·

O

NA

UNIVERSIDADE

lógicas

ou

grupos

quese

dizem

progressis­

tas, subordinando

a

competência

ao

nú­

mero".

O

convênio IBM-UFSC

nãoestá

mais

res­

trito

exclusivamente

aoscírculos

acadêmi­

cos. As

comissões

de

Desemprego

e de

Ciênciae

Tecnologia

da Assembléia

Legis­

lativa

promoverâo

umamesa

redonda

para

investigar

oassunto. Os

professores

de Me­

cânica,

encarniçados

defensores

do

acordo,

e o

professor

Eloy

José

Tavares

Neto,

seu

principal

contestador,

vão

depor

perante

os

parlamentares.

ACORDO

IGUAL.

FOI

RECUSADO

NA

PARAíBA

No Curso de

Engenharia Mecânica,

a IBM

pretende

instalar250terminais devídeo,umpara cada

professor.

Essesterminaissão

ligados

aum

computador,

que recebe

oque é

lançado

na pequenatelae manda as respostas

paraousuário. AIBM quertambém

equioar

aMecânica comumaunidadeCADICA M

(Computer

Aided

Design

I

Computer

Aided

Manufaturing),

umsistema de micro­

computador

que,se

acoplado

aumtorno,por

exemplo,

é

capazde substituirumtrabalhadorquefaz

parafusos. Na

Mecânica, a IBM querinstalar ainda uma unidade de

conversão de densidade de fita, um

aparelho

que lê in­

formações

de cartões

perfurados

e gravaemfita

magné­

ticaderolo.

É possível

ainda,que

haja expansão

do atual

sistema de oito para doze

megabits.

Essasforam asnecessidades

computacionais

levanta­

das, a

pedido

da IBM,

pelo

professor

Amo Blass, ex­

coordenador'

de

pós-graduação

emMecânica. Masoque

teria aempresaalucrar,

emprestando

a

parafernália

por

quatroanos?Para o

professor

Clóvis Raimundo Maliska,

"o

objetivo

da IBM é fazer

propaganda

do

equipa­

rrento",como afirmou na

primeira

entrevista. Nase­

gunda,ele

diz

que"o

objetivo principal

daIBMé marke­

ting".

E acrescenta"nâoé

sóumamultinacionalquetem

marketing.

As empresas nacionais também fazem propa­

ganda.

O que não

podemos

é ficarsem

equipamentos

pra

nãofazer

propaganda

pra

ninguém".

Seo

objetivo

imediato da IBM é

propagandear

o

equi­

pamentoetreinaramão-de-obraparaousoexclusivode

seus

produtos,

ocertoéque,a

longo

prazo,o

projeto

não

se resume aisso.Em

artigo

publicado

na"Folha de S.

Paulo",

o físico

Rogério

Cerqueira

Leite diz que a pro­

postada IBM fazpartedeumaação

global,

envolvendo

66universidades

européias

e68 universidades americanas ecanadenses. Todasas

informações

sobreodesenvolvi­

mento

tecnológico gerado

nessas universidadessão ar­

quivadas

num banco de dados de

propriedade

daem­

presa,umatransnacional de

origem

americana.

PIRULITO

DE

CRIANÇA

No Brasil, a IBM

fez outras investidas. A idéia

da empresa é firmar convênioscomvárias

universidades,

de modoacriar

aqui

uma rede de ensinoe

pesquisa,

a

exemplo

eh quevemfazendoemoutros

países.

As portas

daUniversidadeestariam

abertas,

e oacessoàs informa­

ções seria como tirar

pirulito

de

criança.

Um pouco maiscaro,talvez,porqueabrincadeira custaria àIBM50 milhões de dólares. ComaUniversidade de

Uberlândia,

a

empresa

já conseguiu

estabeleceroacordo.NaUFPbena

USP,amultinacional encontrouresistência.

Foram muitasascríticas feitas

pela

UniversidadeFede­

ral da Paraíba às

condições impostas pela

IBM paraa

efetivação

do acordo. A

principal

delas,

e que segura­ menteacabou inviabilizandoo

acordo,

équeos

professo­

res

paraibanos

nãoaceitaram

qualquer

restrição

ao uso

dos

equipamentos.

AinterferênciadaIBMnaslinhas de ensinoe

pesquisa

foi vistacom

desagrado.

EaUFPbnão

quis

entregarà multinacionaloqueviessea serdesenvol­

vido durante a

vigência

do acordo.

Outra

imposição

que

indignou

os

professores

deEnge­ nharia Elétrica

(na

UFPba Elétrica foi

procurada pela

IBM) daquela Universidade,

foia

determinação

de

sigilo

sobreoacordo,conformeestavaestabelecidonumadas cláusulas:"aspartesconcordamemnão

divulgar

oster­

mos e

condições

deste convênio,sema

prévia

autoriza­

ção,

porescrito,daoutra

parte".

NaUniversidadedeSãoPaulo,ocontrato nãosereali­

zou porque o Conselho Estadual de Processamento de

Dados, do

qual

o físico

Cerqueira

Leite é

integrante,

considerou-o uma

agressão

à reserva de mercado em

informáticae,portanto,lesivoaos interesses nacionais. O governo francês também não aceitou o convênio,

soboargumentodequeoacordo ameaçavaasoberania

nacional.AIBM acabaria tendo mais

informações

sobre

a

França

doqueo

próprio

Mitterand.

ARRUMANDO

A

CAMA

O

professor

de

Computação, Eloy

TavaresNeto,de­ senvolve seu raciecínio na mesma linha de

Cerqueira

Leite:"a

intenção

da IBMé,amédioprazo,furaraleide

reserva", afirma. A IBM vai arrumando a cama, por

enquanto. Em 1992,

quando

acabara

proteção

aomer­

cado

brasileiro,

ela se

deita, tranquilamente,

na área de informáticaede teleinformática.

O

professor

Maliska compromete-se, entretanto, a

respeitar

a Lei. E informaque "a IBMestá

aqui

desde

1969,

ajudando

as atividades

computacionais.

Esse de­

partamentocresceu

graçasaos

computadores

da IBM.A

IBM nãovai entrar

aqui.

AIBM

está

aqui".

Nenhum convênio atéagorafirmadocomaMecânica

exige sigilo

absoluto.

Eloy

é umdos

principais

críticos

dessa

imposição:

"ostermosdo acordo têm que passar

por umaAssembléia Geral

Universitária", opina

ele.

Aessatese

contrapõe-se

o

professor

Maliska. Paraele,

quemtem

competência

sãoos

professores

do

Departa­

mento de

Engenharia

Mecânica, os "PhDeuses",como

Eby

oschama. "Cadaumdos

professores

deMecânica, afirmam elesnanota,"detém,

individualmente,

decre­

dencial maisenobrecedoraemenoscontroversadoqueo

do

entrevistado",

referindo-se a

Eloy.

E apresentam o

outrolado daquestão,"menosnebulosa,menos

dogmá­

ticae menosdoentia". Brincarcom título de Doutor é muito grave e, em

função

disso, os

professores

ofenderam-secom a reportagem.

ATAQUE

DE

AMNÉSIA

Os

professores

deMecânica ficarammelindrados,con­

forme afirmam na nota ao JSC, porque o assunto foi "enfocado exclusivamente sob a ótica de uma minoria

sempreàmargemda

participação

integral

navida univer­

sitária,

esem

ajusta,

necessáriae

imprescindível

audiên­ cia daoutra

parte".

Osataquesde amnésiasãocomuns

nesses casos.Os sintomas .'variam desdea

negação

das

próprias

palavras

atéo

esquecimento

total das entrevistas

quese concede.

Agora

não sãoapenas "minorias exóticasenocivas"

quese interessam

pelo

convênio IBM-UFSC. Na sessão de 16 desetembro, a Assembléia

Legislativa

enviouao

Reitor da

UFSC,

Rodolfo PintodaLuz,um

telegrama

solicitando esclarecimento sobreocaso.Os

parlamenta­

resestão

esperando

sentadosarespostadoSenI'rorRei­

tor.

�1

Enquanto

isso, aAssembléia

Legislativa,

através das comissões de

Desemprego

ede CiênciaeTecnolo

gia,

está

preparando

um

debate,

no

qual

os

professores

de Mecâ­

nicaserãoconvidados a se

explicar,

porqueoconvênio IBM-UFSCnão éuma

briga pessoal

nem uma

questão

meramentetécnica. O convênio IBM-UFSCéuma

ques­ tão

política.

Porserumaquestão

política,

équeo

professor

Maliska recomendou:"essamatéria,ouvocêescreve

completa,

ou

não escreve". O mais conveniente, paraele, seria não tê-Iaescrito,porquea essaaltura,o

acordojá poderia

ter

passado,

em

primeira

instância,

pelo

Conselho

Depar­

tamental.

Agora,

é

preciso

mais

jogo

decintura para

conseguir

instalarosinofensivos

computadores. É

pre­

cisoesperaratéqueos

jornais

nãotenham mais interesse

em transformar em notícia o convênio IBM-UFSC.

Quando

essecaso-assimcomotantos outros-estiver boiandonoesgotodo

esquecimento,

serábemmais fácil. Com

paciência,

elesainda

chegam

lá.

Maliska fala manso.enquantoprepara o bote.Olhos azuis. cabelos loiros cncurocolados. Clóvis Raimundo Maliska, coordenadorda

pós-graduaçào

em

Engenharia

Mecânica. abandona a

expressão

de

anjo

barroco.

quando

fala da reportagem "Convênio proposto

pela

IB M gera

polêmica

naUniversidade". Portrás daapa­

rentedelicadeza esuiumhomemenfurecido.capazdedar

liçóes

sobre

aquilo

que mioentende.

O

professor

envereda

pelos

caminhosdo

jornalismo.

e

consegue a façanhade reavivara moribunda teoria da im

parcialidade

...Jornalismopra mim é

alguma

coisa que

você lança uma idéia. e deixa acomunidade concluir.

analisar.

Aqui

amatériatú

dirigida". queixa-se

ele.Seria

mel hor dei

";11'

a 18 M instalar-se na Universidade. pra

depois

analisaro fato consumado?

,iâ;�

O queseoculta por trás destes terminais?

UMA

NOVA TEORIA

DO

JORNALISMO:A

DOS

CONJUNTOS

Aprofundando

SU,L-;S teorias sobre o

jornalismo.

o

professor

Clóvis Maliskadiz que

existe

uma

grande

dife­

rençaentreas

informações

que são

divulgadas

na

grande

imprensa

e as que são

publicadas

num

jornal­

laboratório.comooZfifcO.Porisso.

Maliskagostariade

tersidoavisadocomantecedênciaqueamatéria sairiano

JSc. "Houve uma falha realmente

imperdoável

datua

parte",

lemanta-se o

professor.

A

questão

era"demés­ tica",comoelemesmodiz."eacabouextravasandopra

cidade". Em resumo: Maliska

gostaria

demantero mo­

nopólio

das discussões sobre aUniversidadeBrasileira.

restritasaseu

gabinete

de trabalho.

A matéria tem muita maldade. é o que afirmao Dr.

Maliska,comumdedonorecortedoJSC,eoutronacara

da

repórterrFaça

deste cantinhoaextensãodesuacasa" é

Opiniões

em

conflito:

Eloy

Neto

(esquerda)

é

contra

o

acordo

que

Maliska

(direita)

defende

uma

plaqueta

queestánasalade esperado coordenador de

graduação.

Eé assimqueamatéria

publicada

noJSC

começaMaliska

explica:

asecretária colocoua

placa

para

queos

professores

"porcos"

nãoderrubassem cafezinho

nochão."E olheocontextoemquevocêacolocou",o

professor

fala com

mágoa:

"A IB M entendeu bem o

recado". E entendeumesmo.Sóqueesperaomomento certo prafazerapropostadeconvênio tramitarnosór

-gãos

colegiados:depois

que a

poeira

baixar.

Na.opinião

docoordenador,os

repórteres

sãomesmo

muito maus.

E'

o que elediz,

remexendo-se,

comose a

cadeira tivesse pregos: "sevocê falar meia horacomum

jornalista,

e se,emvinte

segundos

você, disser

alguma

coisaque elepossa usar contra, elesóvaiusarosvinte

segundos,

praserbombástico".Umaforma de amenizar

a maldadeinata,seriao

jornalista

"se apegaraopensa­

mentodo

entrevistado,

e nãoafrases". Acaba denascer

uma novatécnica: a

telepatia aplicada

àentrevista. Para evitar futuros mal- entendidose

aprimorar

o

jor­

nalismocontemporâneo,

Maliskadiztudooque sabe. A

fórmula inéditado

jornalismo

é

parida

na sala de um

professor

de Mecânica:"Se eu

quiser

que o

público

en­

tendaisso,eupegoa

informação

A,B,edooutro

aqui

(

dooutro

conjunto

rabiscadono

papel)

eupegoainfor­

mação Ie2 ,edeixo escondidooresto.Seeu

quiser

dar

outroentendimerito pro

público

eupegoas

declarações

C,Ddesse

aqui

e a3ea4desse

aqui:

3 .. 4.C+D.TemN alternativas pracolocar.Vocêescolheuumaquemedei­

xoumal,só isso". Perfeita ateoria dos

conjuntos

serve tanto

paraojornalismoquanto

paraapropostadaIBM.

.

--",'

_ -_ __ _ ___ _ _._ _

ZERO

. .' '

(5)

Preocupação

é

valorizar

o

folclore

PARA

ENFRENTAR

O TIO

PATINHAS

ráriosoumotoristas de táxis.

Neste número, a turminha

participa

deum concursode

pandorgas

no aterro onde a

vencedoratem oformato da Ponte Hercílio Luz, ainda

pintada

de

preto.

Narratam­

bém ocasode um

pescador

que teve sua rede todaras­

gada pelas

bruxas, porque

esqueceude

queimar

folhas

de alho para

quebrar

seu en­

canto.

O trabalho

surgiu

com o

Projeto

llha de Santa Cata­

rina, criado

pela

Fundecào

Catarinense de Cultura

(F CC)em1982. O

projeto,

que

incluiaa

produção

demate­

rial didático baseadonarea­

lidade das escolas das redes

municipal

e estadual, foi

aprovado

no final do ano

passado. Quando

Sandro procurou a

Fundação

para

apresentar

sua idéia,

ha­ viam sido

produzidos

livros deestórias e o

orçamento já

estavaestourado.

Apesar

do

atrasó,

aFCC achou que as

idéias dos

quadrinhos

vinham

calhar com seus

objetivos

e

assumiu sua

distribuição

Sandro: trabalhandoa

cultura

marginal

para as escolas. O financia­

mento no entanto, ficou a

cargo da UFSC. CINEMA

Se o

gibi

até então era

considerado

prejudicial

à

formação

das

crianças

pelos

pais

e

professores,

destavez ele teráumafun­

ção didática,

promovendo

a

ligação

com seu contexto

cultural.

É

Sandro quem toma a

defesa

dos

quadri­

nhos:"Eles não sãoummal

em si, o

problema

é que a

escola norte-americana,

que

produz

oTioPatinhas,

Pato

Donald,

etc., nãoper­ miteque a

criança

crie em

cima dos desenhos. Eles são estáticos e ahistória se en­

cerra a cada

ilustração".

Procurando se

contrapor

a

estateoria,elebusca

planos

abertos e

traços

menos de­

finidos,

numa visão dinâ­

mica,

dada

principalmente

pelas

r

aisagens.

"Desta

forma as

crianças

comple­

tam asidéias com sua ima­

ginação".

Sandro,

o

chargista

favo­

rito dos

colegas

paraasilus­

trações

deste Jornal Labo­ ratório do Curso de Jorna­

Iismo,

acha que as histori­

nhasquefaz

têm muitoav er com o cinema e assim, vai

elaborando os roteiros..de­

terminando

planos

e

ângu­

los diferentes. Inova ainda

eliminando o cerco

rígido

dos

quadrinhos.

Diz que

sofre influência do

Angeli,

cartunista da Folha de São

Paulo eé fãdo Henfil

pela

crí ticaaos

padrões

sociaise

'O estilo rabiscado de seus

desenhos,

mas acha o Tio Patinhas um caretão.

Filho

dejaponeses

enatu­

ralde Canoinhas, Sandro o

"[apinha",

comoos

amigos

o

chamam,

j

á sentia inclina­

ção

para o desenho desde

criança

edemonstrava isso

pelo

sucesso nostrabalhos

artísticos da escola. Ele

próprio

sedizia atraído

pela

magia

dos

desenhos;

conta

oueeostum-waficar horas

parado

olhandoasgravuras e tendo "voos de

imagina­

ção".

Algumas

vezes os perso­

nagens das revistinhas em­

pregam termos que não

chegam

a ser

palavrões,

mas certamente deixariam

os mais conservadores

constrangidos.

Oresultado,

é uma

linguagem

espontâ­

nea sem artifícios. O autor

não tem

pudores

ainda em

deixarqueeles falem natu­

ralmente errado, ou na lin­

guagem

popular.

Ele

justi­

ficadizendo que"fica ridí­

culo um

pescador,

por

exemplo,

falando conforme

os

padrões

da

gramática

oficial".

Tempos atrás,

um grupo

de

professores

enviou ao

MECummanifestocontrao

Chico Bento, personagem de Maurício deSouza,por­

que eleestavaensinandoas

crianças

a falarem errado.

Logo

em

seguida,

"Chicore­

cebeu total

apoio

de uma

Associação,

de Literatura". Sandro

aplaudiu

o

episódio.

ConcordacomPauloFreire em

relação

aos

lingüistas:

"não estão

aqui

parainven­

tar uma

língua,

mas sim

para

adaptar,

a

língua

do

povo".

E

reforça

sua

opi­

nião com a

questão

do re­

gionalismo:

"Não se

pode

falar

igual

emtodosos

lug

res. A

palavra

uva, por

exemplo,

não tem

nenhum

sentidonoNordeste".

MEDO

EFANTASIA

Ele recorreu à obra de

Paulo Freire para que'as

crianças

adquiram

uma

consciência da sua reali­

dade e passem

á �odificá­

la. "A história em

quadri­

nhos além de ser um atra­

tivoéumanovid�edefora�

neste caso, ao tocar nos

problemas

da realidade da

criança

poderá despertá-la.

Paulo Freireconta ahistó­

ria deumapessoaquesóse

apercebeu

da

situação

pre­ cária em quevivia

quando

alguém

mostrou-lhe a foto

do

lugar

que morava, ape­

sar de ter

passado

a vida

olhando-a da

janela".

Se­

guindo

o

exemplo,

Sandro

vai abordando os

proble­

mas do

esgoto, transporte,

ecologia

emostrando asfa­ velas. "Não deumamaneira

panfletária,

mas

simples­

mente

pintando

arealidade para ver se provoca rea­

ção."

Quem

dáasdicas das his­

tórias debruxas,dolobíso­

men edo folclore da llha é

Franklin Cascaes no seu

livro "O FantásticonaIlha de Santa

Catarína".

Todos

os dias, o historiador per­

corriaascomunidadesmais

pobres,

onde escutava e

anotava as

superstições

e os fatos

rotineiros,

e obser­ vavaascasas,os

engenhos

e o

tipo

de

vegetação

- for­

mando um

perfil

cultural

completo

dessa

gente.

As­

sim,

Sandro vai narrandoas

histórias

antigas

num_con­

texto

atual, pois

como dizia

o Cascaes:

"hoje

asbruxas ainda existem, mas estão

todasna

política."

Se o

projeto atingir

maiores

dimensões, talvez nos

pró­

ximos meses teremos nas

bancasodueloentreosper­

sonagens Tio Patinhas eBoi Tatá.

O "Bruxo" Franklin Cascaes tinha um sonho:

ensinar nas escolas as len­ das do Boi

Tatá,

do lobiso­

mem; das sereias e dos po­

deres ocultos do alhoquea

cultura oficialeoslivros di­ dáticos não

contam.

Cas

-caes morreu, mas o sonho

pode

se tornar em breve

uma realidade com o pro­

jeto

de Sandro Akira Shi­

guefuzzi,

estudante de Jor­ nalismo da

UFSC,

que está

elaborando histórias em

quadrinhos

para

crianças

das escolas da

periferia.

O cenário das revistinhas são

as

praias

da Ilha e até

mesmo os

problemas

mais

graves da

cidade,

comoes­

goto,

transporte

e

poluição.

O autorpreocupou-seem

ensinare valorizaracultura

marginalizada,

as

supersti­

ções,

históriasde

pescador,

lendas e dJstumes - na lin­ guagem mais atraentepara

as

crianças

- o

gibi.

O

pri­

meiro número

j

á foi im­

presso e será'distribuído

pela Fundação

Catarinense de Cultura para as escolas

do Pântano do Sul, Morro

da Caixa, Sertão do Ribei­

rão e Saco Grande. Até o

final do ano, Sandro, 23

anos, quer

elaborar;

mais três números.

BARATO

Na verdade, este

projeto

quefazpartedoseutrabalho

de conclusão de Curso éuma

críticaem dose

dupla

aos li­ vrosdidáticos e às histórias

em

quadrinhos

norte­

americanas. Além da nova

propostanãodeixarmorrer a

cultura

açoriana,

o

projeto

significa

aindaumaalterna­

tiva económica para as

crianças

quenão têm acesso aoslivroscomuns.

Cada

exemplar

custará

Cr$ 600,00epor este

aspecto,

o

proj

eto

j

á recebeu total

apoio

dascomunidadese es­

colasenvolvidas.

Sandro vai escrevendo e

desenhando as historinhas

com os personagens que ele

chama de"A

turmadallha",

inspirados

em

crianças

das escolas

periféricas

de Floria­

nópolis.

Outros

personagens

retratama

profissão

dos

pais,

geralmente

pescadores,

op

(6)

Botha,

da

Áfricado Sul Sabbá,emFormosa Pinochet,guru dosAndes.

Um

juiz

de direito

que

admira

Pinochet

e

apóia

o

apartheid

A ultra

..

direita

resolve

falar:

autoridade,

armas

e

racismo

são

os

temas

Newton Sabbá Guima­

rães

poderia

ser resumido

assim: amazonense,Juiz de

Direito

aposentado

aos 44

anos,fala mais de dez idio­ mas,

possui

uma cultura

respeitável,

é autor de inú­

meros livros sobre

política

internacional. Mas seriaum resumo

incompleto

porque

ele é muito mais doqueisso:

monarquista,

membro da

Liga

Mundial Antícomu­

nista,

amigo pessoal

de

todos os ditadores que co­

nhece e fervoroso admira­ dor dos que ainda não lhe concederam uma entre­ vista. Homem com muitas

viagens

a

serviço

da

Liga

Anticomunista

-princ i­

palmenteàÁsiaeàÁfrica­

e eventual contato para a

compraevendadearmasno

mercado

internacional,

Sabbá Guimarães é

hoje

um

dos

representantes

mais obstinados da ultrad íretta brasileira.

Hádoisanosmorandoem

Florianópolis,

Sabbá Gui­

marãespassavaquaseano­

nimamente

pelo

curso de

pós-graduação

emCiências Sociais e

Linguística,

até o

dia emqueresolveu abrira

boca. Defensor vitalício do

governo racista da

África

do

Sul;

admirador

perpétuo

do

general-presidente

Au­

gusto Pinochet,do

Chile,

incondicional e

inconse-quente

de todos os ditado­ res

sanguinários

que passa­

ram

pela

história neste pe­

daço

deséculo- eleconse­ gue no mínímo desconcer­

tar as pessoas com suas

idéias.

E vai muito mais

longe:

defendeofascismo deMus­

solini esó não

gosta

de Hi­ tler por causa dos

judeus

(Sabbá Guimarães eviden­

temente é de

origem ju­

daica).

NA TERRA DO APARTHEID Mas suasidéias sobrera­

cismo não terminam aí. Os negros daÁfricado

Sul,

por

exemplo,

não têm a menor

condição

de governar o

país.

Alémdisso, nãoexiste

nenhuma violênciacontrao

nativo

daquele país,

escla­

receele:

uma

campanha

internacional. O

apartbeid

é

uma filosofia

política

ado­

tada

pelo

Governo de um

país amigo,

de um Estado

soberano,

logo

trata-se de

questão

internacom a

qual

nada temos a ver. Apart­

heid é uma

palavra

ter­

rivelmente

incompreendida

quando

sefala

daJÁfrica

do "

Sul. Eu diriaque

Apartheid

é

antes

preservação

cultural doque

segregação

racial..".

Falando numdeseuslivros

de

viagem

à

África

do Sul

ele conta: "J á não senota,

ostensivamente,amarcado

apartheid

eparece que asre­

lações

entre os vários gru­ pos raciais melhoraram

bastante. Há ainda muita

coisa para ser desbastada, mas averdade équeo

país

caminha para uma harmo­

nização

completa

entreseus

habitantes multi-raciais...

Viajando

por diferentes

partes

do

país,

belo evasto, não vi

aquela

animosidade

entrenegro e brancoquea

imprensa

mundial

freqiien­

tementeserefere..

"

(Entre outubro de 1976e de­

zembro de 1981, oitomilhõesde

negrossul-africanosficaramsem suacidadania. E 737 mil serão

"dados" à Suazilândia; 96 mil

serão"dados"aoutro

país.

Entre

1960a 1980ummilhãoe500mil

negrosforam

expulsos

dasáreas rurais brancase750mildasáreas

urbanaseenviadosparareservas.

Issoéo

apartheid.)

"SOMOZAERA TRABALHADOR"

Mas Sabbá Guimarães

desfia

opinião

sobre tudo. Todo mundo noticia mal,

está mal

ihformado,

está

tendencioso,

ninguém

con­

segue entender a "filosofia

dos

grandes governantes".

Em 1980, por

exemplo,

ele

escrevia um

artigo

sobre a

Argentina

realmente como­

vente.

- Saído da desordem in­

terna, dos desmandos do

g'V.ernode Dona Isabel Pe­

rón,o

país

estava

enfraque­

cido ainda por

guerrilhas

urbanas eporuma

inflação

galopante

...Honesto e bem

intencionado,

Videla parte

parauma

política

de apro­

ximação

...Sob aesclarecida

liderança

do

general

Videla

a

Argentina

toma novos rumos..A

Argentina

temum

povoforteeculto,comuma

homogeneidade

racial

ad-mirável...

(Durante o governo militar,

especialmente

odogeneral Jorge

Rafael Videla, foram assassina­ dos 8.961

argentinos

eonúmero

de

desaparecidos

é de 30 mil. Vi­ dela atualmente encontra-se

preso,

aguardando

o

julgamento

pelas

mortes ocorridas na

"guerra

suja",

quecomandou.)

. Durante

a ofensiva final

declarada

pela

Frente

Sandinista para a Liber­

tação

Nacional,

nos anos

78/79,

contra o governo de

Anastásio Somoza da Nica­

rágua,

Sabbá Guimarães talvez fosseoúnico homem

a escrever

artigo

defen­

dendoa

permanência

do di­

tador. Na

época

eledizia: - 'Viver em

paz'

éo que

todosquerem, e não discu­

tir

se o

general

Somoza vai

perpetuar-se

no

poder

ou

não, se ele é um gover­

nante autoritário ou de­

mocrático, seditador ou ti­

rano. O

presidente

Anastà­

sioSomoza, que todos cha­

maminsistentementede di­

tador, tenta sobreviver aos

ataques com inaudita bra­

vura para

cumprir

o man­

dato que lhe foi concedido

pelo

povo...Osmesmosnoti­

ciaristasque atacamsemdó

nem

piedade,

esquecem-se

de qu e, por ocasião do

grande

terremoto que aba­ lou

aquela região,

ele foi a

figura

central...reconstruiu

Manágua

...e écomo seufa­

moso

pai,

General Anastá­

sio Somoza, o iniciador da

DinastiaSomoza...abriu es­

tradas

ligando

todos

depar­

tamentos...

(OsSomozasficaramno

poder

da

Nicarágua

quase 50anos e as­

sassinaram cercade 50 mil pes­

soas. Durante o terremoto, So­

moza abriu umaclínica

particu­

lar para

negociar

com o plasma

sangüíneo

doadoporoutros

paí­

sesaopovonicaraguense.Jamais

reconstruiu Manágua, des­

truídaaté

hoje,

e nuncaconstruiu

estradas

ligando departamento

algum.)

SAPATOS DA

PÁTRIA

Semanapassada,durante

uma entrevista ao Jornal

Zero, Sabbá Guimarães diz

que

hoje, pensando bem,

não escreveria

artigos

de­ fendendo

Somozapor

causa

da

corrupção,

mas insiste: "Somoza não era um

monstro.Era trabalhador". Outra

grande figura

dopa­

norama

sanguinário

inter­

nacional,

Augusto

Pino­

chet,

éuma

figura

admirá­

vel na

opinião

de Sabbá

Guimarães: "homem sério delealdadenosseus

princí­

pios.

Ele tem cometido al­ guns excessos, é verdade, mas

ninguém pode

duvidar

da

probidade

eda honesti­

dade de Pínochet", No Bra­

sil,

a

Liga

Anticomunista

mostrou muito

serviço

du­

rante o governo

Médici,

o

período

mais duro da dita­ dura. "Sobre a

atuação

da

liga

nãofalo, éumassunto

delicado".

Em

alguns

momentos de

sua"obra", o

ex-juiz

Sabbá

Guimarães

desperta

m�s

interesse

psiquiátrico

do

que curiosidade

lornalís­

tica.

Apesar

de semostrar

um homem extremamente

cauteloso

quando

fala, na

escrita ele não só

perde

o

bom senso como também a

noção

do ridículo. E conta

histórias como esta: "Em

Seul, uma formosa mulher

conhecida dosmeios

diplo­

máticos, mostra-me, satis­

feita,

os belíssimos

sapatos

que usava: 'Vieram de sua

pátria'

... Essas

lembranças

ocorrem-meemborbotõese

sinto-me cada vez mais

crente na

contribuição

da

Pátria Brasileira à civiliza­

ção

universal".

Essa

preocupação

com a

representatividade

dosetor

calçadista

nacional no

avanço da

"civilização

uni­

versal", só se

justifica

sele­

varmos em conta apreocu­

pação

de Sabbá Guimarães

com o vestuário. Em sua

"obra", ele apareceeminú­

meras fotos vestindo osúl­

timos lançamentos da alo. faiataria amazonense. Na

sua"obra",Sem Fronteiras, a

primeira

foto éum

registro

de suavisita a umestaleiro na

República

de Formosa.

Uma bela

fotografia:

apa­

rece um casaco listrado, uma

gravata

cheiademetá­

foras

espectrais

e um

enormecapacetedeaço.Ali

dentro está Sabbá-assus

tado.

-t •

(7)

As

primeiras

adesõesaocaixa2

Repórter

detelevisão foi vaiado

pelos

estudantes

Assunto

ficou

muito

tempo

nas

manchetes

versar com os

alunos

queoesperavam

desde às

13

horas.

O conflito

que

surgiu

entre

funcionários

do

R.U. e

estudantes foi

igualmente

bastante

utilizado

pela

imprensa

estadual

para

esconder

a

essência

da

questão

, que era o corte

das

verbas

universitárias,

eseu

encaminhamento,

ou

seja,

as

negativas

da

reitoria

em

participar

do

diálogo.

A

foto

de uma

funcionária,

que

sentiu-se mal

amparada

por

dois

colegas,

foi

um

prato

feito

para os

jornais.

Um deles

a

publicou

sobre

a

legenda:

"Mo­

mento

de

tensão: dona

Wals

a

sofre

um

ataque

pois queria

ver o

fih

oe

foi

impedida"

. Man­

chete do

jornal

O

ESTADO,

publicada

no

dia

seguinte

-

"Traumatizados,

servidores

não

queriam

entrarpara

trabalhar" colocava defi­

nitivamente

a

sociedade

contrao

movimento.

No

primeiro capítulo

da

novela,

quando

ins­

tauraram o

caixa

dois e ocuparam o restau­

rante,

os

estudantes foram acusados de

terem

expulsado

so funcionários

do

local,

embora

em outra

matéria

o

jornal

reproduzisse

decla­

ração

do diretor do

Restaurante

Universitário,

Vilmar

Bayerstorff

que

afirmava

ter

liberado

os

funcionários

'por

motivo de

segurança"

.

Para

jornais

que

exploravam

comtanta

avidez

o

�ssunto,

tal

lapso

é

inaceitável.

As

fotografias

também

serviram

para

refor­

çarasteses

defendidas

pelosjornais.

Assim,

os

fotógrafos

concentraram suas

máquinas

no

local

em que

bandejas,

não

devolvidas,

justa­

mente

onde

normalmente amontoa-se o

lixo.

Com isso

,conseguiram

caracterizar

a

sujeira

da

cozinha,

que,como

afirmaram

, em outra

legenda"

mais

parecia

umcampo

de batalha"

.

Toda

esta

campanha

desencadeada

para

exigir

a

punição

dos

chefes

da

rebelião,

legitimando-a,

e para

desmoralizar

a

iniciativa dos estudantes

respaldou-se

ainda

na

episódio

do afastamento

do diretor de

divulgação

do

DCE,

que

demitiu­

sepor

discordar, segundo

os

jornais,

"das atitu­

des

infantis dos

companheiros".

P 8

"

'

ZERO,

,-

NOV-DEZ 85

Diirante

dezesseis

dias,

de

sete a

io

de

outubro

, os

jornais

catarinenses

moveram

campanha

�ontra

os

integrantes

do Diretório

Central dos

Estudantes

da VFSC

que, revolta­

dos,

com o novo preço

cobrado

pelas-

refei­

ções,

haviam

tomadoorestauranteuniversitá­

rio

no

dia seis.

CAOS

NA

UNIVERSIDADE.

Esta foi a

Manchete

da

edição

do dia 18 do

jornal

"O

E srADO"

que

dedicou

quase

toda

primeira

página

aoassunto,

ilustrada

por

fotos dos

"en­

furecidos"

líderes

.da

revolta. Numa

reporta­

gem recheada de

opiniões

contraomovimento o

jornal

informava quea

comissão

de setees­

tudantes, encarregada

de

negociar

com areito­

ria,

fora

constituída numa

"desordenada

as­

sembléia".

Mais

adiante,

acrescentava que

"não conformados em

fazer

pela

manhã o

caixa

dois,

xerocar os

tiquets

com os preços

antigos

e tomar o restaurante de

assalto,

os

estudantes

determinaram a ordem:

ninguém

entra,

ninguém

sai".

A

partir

daí,

capitaneada pelo

O ES­

T

ADO'

prosseguiu

a

campanha

contra a re­

belião

dos

estudantes

. As

expressões

varia­

vam,maseramtodas

altamente contrárias

aos

universitários

-"Irritados,

os

estudantes

inva­

dem o

R.V". "Funcionários

são

mantidos

em

cárcere

privado".

No dia

19,

o"

Jornal

de Santa

Catarina"

informava que

"embora

em pe­

queno

número (cerca

de

mil)

os estudantes

não

abriram

mão da

negociação

e

queriam

os

preços

congelados."

Assim,

tentavamcaracte­

rizar

uma

postura minoritária dos

estudantes

embora,

é

claro,

sem

informar

que não con­

formado

em cerrar com

tábuas

as

portas

da

reitoria,

naquele

dia

protegidas

por

dezenas

de

guardas,

o

reitor

surgiria

às 17h30

para

con-Cenaquea

grande

imprensa

omitiu

Referências

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