I
o
SIGILO
ERA UMA
DAS
PRINCIPAIS
cLÁUSULAS
D�
UM tONTRATO
ENTRE O
DEPARTAMENTO
DE ENGENHARIA
MECANICA
E
A
IBM.DIVULGADO
PELA
IMPRENSA,
O ASSUNTO
CHEGOU
À
ASSEMBLEIA
Tensão
marca
os
dias
de
pagamento
25desetembro.Fazexatamenteum
mês queos
guardas
encarregadosdaentrega do dinheiro no posto do
BESCnaDFSC-referentesaossalá
riosdosfuncionários- foram assal tados. Naquela
�casião,
quatro homensarmadoscomrevólvereatéme
tralhadora, renderam os
guardas
elevaram todo o dinheiro
-pouco mais de 1 bilhão de cruzeiros. (Na
fuga,
houve reação dosguardas
edisparos foram trocados). Como re
sultado,umassaltante foi
atingido
nobraço
edoisguardas
ficaram grave menteferidos.25 deOutubro.
É
novamenteo diadodinheiroserentreguenopostodo
BESC. Ao contrário da últimavez, o
motorista do carro-fortesobe acal
çada
e estaciona ao lado do banco, numa distânciaaproximada
de 10metrosdaporta.Carro-forteaberto,
dois
guardas
saltam rápidamentecom omalote namãoe osrevólveres nocoldre. Mais atrás,nacobertura, outro
guarda,
que atento aos movimentos, inspeciona o local com um
olharnervoso. Ua pequena multidão
queseformanafrente do banco para
assistir aentrega,uma voz anônima
quebra
o ambiente um pouco tenso com uma frase que provoca risos:"Olha o ladrão!". Alheios a brinca
deira,os
guardas
agemrápidos
e emtrês minu tosodinheiroestáentregue.
Serealmenteos
guardas
não esta vam para brincadeiras, os motivossãojustüicáveis.Afora alocalização
docarro-forte-aoladodobanco-,
renhuma alteração foifeita
pela
empresa Prosegur- Transportadorade
Valores no esquema de segurança.
Continuaramos mesmostrêsguardas e ummotorista,utilizadosna vez
an-teriorequedemonstraramserinsufi
cientes para conter os assaltantes.
Mesmo assim, também não é certo
que a colocação de mais
vigilantes
nas
equipes
seja
asoluçãoparao caso.Afinai,oqueaProsegurexigeparaadmitirum
guarda?
A lista dedo-Destavez odinheirofoientregue
cumentos éextensa,vai desdeexame
desangueatécertidãodecasamento,
porém
sãoesquecidosdois detalhes:não se
pede
experiência alguma nousodearmas eograu de escolaridade
não é levado em conta. Intimidade com armas e raciocínio
rápido
e lógico
são indispensáveis para umguarda.
Quando istofalta, épreciso
ter coragemesortepara não
perder
avida.
Manoel Liano Severo Brasil, 29
anos,casado,doisfilhos, foiumdos
guardasferidos duranteoassaltona
Universidade. Manoel, que estudou
atéa6.°sériedo 1.0grau,contacomo
foinahorado assalto: "Osassaltantes
chegaram
e nosrenderam,quando
euvielessaindocom odinheiro,
pensei
emreagir, pois
é o que tem que sefazer,aí leveio tiroenão
pude
fazermaisnada". Levado para o
hospital,
ficou por
algum
tempoemestado de licado.Agora,jáliberadodecuidadosmédicos maisintensos,Manoel Bra
sil,
gaúcho,
está com a sua famíliahospedado
noHotel Filadelfia- háapenas 2meses emFlorianópolis,não
havia encontrado casa. A conta é
paga
pela
Prosegur,quetambém deuum
prêmio
de5 milhões de cruzeirospara cadamembro da
equipe
assaltada,
pela
valentia que demonstraram. Nota-se que a empresa
pelo
menosreconhece que tudo foipura
valentiã.
Que
outroadjetivopoderia
ser dado para estes homens, que,
mesmo sem nunca terem atiradona
vida são admitidos
para
oserviço
erecebem instruçõesapenasuma vez aomês?
No entanto, Manoel Brasil tem outro pensamento. Com a escritura
desua nova casanasmãosdiz:"Não
se
pode
termedooureceio nesteemprego, temdeseestar pr eparado par'a
tudo". Para ele a "firma
agiu
bem,desdeo
hospital
atéohotel"e ossalários "em vistadoque tão
pagando
poraí, até que ébom, d
á
pracome- um
pãozinho
à mais cada dia". Seuplano
paraofuturo é "voltar assim que ficar
bom" Contentes com esta decisão,
devem estar os invisíveis e
inatingí
veis homens que habitamo"bunker"
daRua SantosSaraiva,n,? 432.Ali éa
sededaProsegur,que
pelos
seusvidrosrefletores,suasportasdeferro,
cachorros ferozes,
poderia
ser confundidacom aresidênciadequalquer
ditador sul-americano exilado. Pro
tegidos
do contato com a realidadedas ruas,
�s
diretores da empresasabem que não preparam adequa damenteosvigilantesepor isso pre
cisamdemaisgentevalente-ou ne
cessitada- comoManoelBrasil,par arriscaravida,atrás desuasobrevi
vência.
ZERO
Jornal
laboratóriodo
Curso
de Comunicação
Social da Universidade
Federal
de
Santa Cata
rina.
Reportagem:
Ivandra
Prévidi,
Raquel Vandelli,
Valentina da Silva
Nunes,
Ângelo
LimaMedeiros,
Artêmio
Reinaldo
de
Souza,
SilvanaRocha,
Evory
Pedro Schmitt
e[eni joana
de Andrade.
Fotografia:
Manoel
Mendes,
Valmor
Roberto
Fritsche,
Júlio Cancelier,
Fernando
AntonioC
rocomo,
Jones João
Bastos,
Charles Silva
Desenhos:
Sandro Shi
guefuzi
Edição
esupervisão:
Pro
fessores
Luiz
Alberto
Scotto,
Ricardo
Barreto eLourenço
Cazarré.Edição
gráfica:
H. Ricardo
BarretoAcabamento e
impres
são:
Empresa
Editora O
ESTADO
Correspondência:
CaixaPostal
472,
Departamento
de
Comunicação,
Floria
nópolis.
S.C.Distribuição gratuita
Circulação dirigida.
A únicasurpresafoi ocaminhãoencostarjunto aobanco.Diminuiuadistância,não o
perigo
NOV·DEZ 85
'ZERO
P
3
M SantaCatarina
hoje,
de cada milcrianças
que entram no 1.0 grau deumaescola gra
tuita apenas 47
chegam
à Universidade. Agrande
maioria delas é decrianças
de famílias de baixarenda,
que não conseguem
ultrapassar
os inúmeros obstáculosencontradõs
no decorrer de seu desenvolvi·mentoescolar.
Gilberto João de
Oliveira,
20 anos, foi umadessas
crianças.
E foi também um dos 10.124desclassificadosnovestibular da Universidade
Federal de Santa C atarina de 1985. Candidatoao
curso de Direito, Gilberto atribui o seu baixo
desempenho
noconcurso a umasérie de fatoresque tevedeenfrentar: a
obrigação
deconciliartrabalhoe
estudo,
eanecessidade defrenqüen
tar
colégios
estaduais que não oferecem boascondições
de ensino. "Nãopude
fazer cursinhoporque não tinha
tempo
nemcondições
financeiras,esóoensino de 2.° graunão foi suficiente.
Pelo
contrário,
foi quase r-ídíeulo porquenem20% do currículoa
gente conseguiu completar".
Hoje,
Gilberto trabalhacomosubgerente
noS11-permercado
Comper,
daTrindade,
e terminou adiandosEU sonho deseradvogado.
"Vestibulardenovosó
daqui
aseteanos.Agora preciso
estabilizar a
vida,
porque casei e tenho um.filho pequeno".
Gilnei Hilhesheim, 23 anos, é
colega
de trabalho de Gilberto. Ele também viu seus sonhos
frustados
quando
nãoconseguiu
seraprovado
paraocursode
Administração
deEmpresas
daUFSC. Sua história
ép
arecidacom adeGilberto,assimcomo ade muitosoutros
jovens
quehoje
circulam fora das Universidades brasileiras. Terminouo2.° grauno
Colégio
Estadual SimãoJoséRhes,ondeestudavaà noite
-após
umdiainteiro de trabalho- eonde recebeu também
um "baíxíssímo nível educacional". Não
pôde
fazer um cursinho
pré-vestibular
-que custa
em média
Cr$
190 mil por mês - elamenta aimpossibilidade
de voltar aprestar
outroconcursopara o3.° grau. "Conciliar trabalhoe es
tudo équase
impossível
hoje
paramim,
porquetrabalho mais de8horasenão
aguentaria
chegar em casa
cansado,
tomarbanho esairpara assisitir aula".Atuandocomoalmoxarife conferente,Gilnei reconhececomtristezaqueem nos
sosdiasparaquemnão
temumdiploma
decursosuperior
tudo é maisdifícil.CURSINHOS
Masno
Brasil,
apenasumaminoria obtém diploma
decursosuperior.
Sãoosfilhos das clas sesmédiaealtaqueestudaramemcolégios
particulares
bem-estruturados,
nàoforamobriga
dosà
conciliartrabalhoeescola,
puderam
pagarcursinhos
preparatórios
e receberamumafor-.
mação
cultural muitomelhor. Dosnovosuniver
sitários
aprovados
no vestibular de 1985 daUFSC,
porexemplo,
46% do total concluíramo2.° grau em estabelecimentos par
ticuj
ar es.Maria Lúcia Pacheco Ferreira, 18 anos, reco
nhece e
presencia
diariamente essedesnivelamento entreos estudantes de escolas
públicas
eprivadas.
"Opessoal
das escolas estaduais nãotemamínima chance de
competir
com osalunos das escolasparticulares.
Eles não têmnoção
nemdo 1.0 grau, quem dirá do 2.°
grau".
MariaLúcia é secundarista no
Colégio
Catarinense,
onde terminao2.° grauneste ano, etambém do cursinho
Barriga
Verde.Filhadeumengenheiro
elétrico daEletrosul,
ela não trabalha egasta
mensalmentecercadeCr$ 400mil,para
garantir
suavaganaUniversidade Federal.
No último vestibular da UFSC o número de candidatos
aprovados
quepossuem umarenda familiar acima deonzesalários mínimosrepre sentou cerca de 30% do total. Istoé,dos
2,745novos
universitários,
793 pertencem à classe maisprivilegiada.
Poroutrolado,osaprovados
SÓ
VINTE
POBRES
ENTRARAM
NA
UFSC.
comrenda familiar inferioraumsálario mínimo
nãopassamde22,ou
seja,
apenas0,8%do total. Mais umdado obtidoentre
osclassificados doano
passado equevemconfirmar
aelitizaçãodo
ensino
superior,
éaporcentagem
de alunosque não trabalham e recebem renda da família:60,8% do total.
Enquanto
que apenas4,6% são'responsáveis pelo
, sustentofamiliar.CíRCULO
VICIOSO
"Essas
crianças
e adolescentespertencentes
àsclasses menos favorecidas enfrentaum ver
dadeiro círculo vicioso: não têm
condições
fi nanceiras de estudaremcolégios particulares
esão
obrigados
aenfrentar escolasquenãopossuem boas
condições
de ensino" afirma Maria das Dores Amorim, assessoratécnica da Associação
Catarinense dasFundações
Educacionais (ACAFE) - e
coordenadora
dapesquisa
"Desempenho
novestibularediagnóstico
deensinode2.°graunaGrande
Florianópolis
eVale doItapocu". Segundo
dados dessapesquisa,
feita em dois anos, financiada pororgãos
oficiais, ainfluência das más
condições
de vida éfator determinante no baixo
desempenho
novestibular. Na Grande
Florianópolis,
porexemplo,
oscandidatos vindos daszonasruraisobtêmumnível de
desempenho
muito inferioraodos alunosda cidade. Issoporqueamaioria
desses candidatos são de
origem
humilde e,quando
não foramobrigados
adeixarosestudosparatrab alharnocampo,sesubmeteramaesco
las
gratuitas
eprecárias.
PROMOÇÃO
AUTOMAnCA
Maso
principal
fatorresponsável
pelo
baixonível do ensino oficial, e
conseqüente
despre
paro dos alunos, é a chamada
promoção
automáticaem
vigor
noscolégios
municipais
eestaduais. Esse sistemapermitequeoalunopassede
ano mesmo semter
alcançado
mêdíancsprovas."A
promoção
automática deveriaserbemestudada antes deser
aplicada,
por que agente
vaipassando
equando
chega
aoves''tibular
nãosabe nada" desabafa JonasMoraes,
30 anos, estudante secundarista e candidato ao curso de
Educação
Física no vestibular de 1986. Jonastrabalhaduranteodia numa
loja
deconsertosde rádio eTV,eà noite terminao2.°grau,quefoi
obrigado
ainterromper
hádez anosporfaltadecondições
financeiras. Ele não faz cursinhopreparatório
porquenãotemtempo
emuitomenosmeiospara
pagá-lo.
Além
las dificuldades
financeirasedobaixo nível do ensino aque temdesesubmeteremosestudantes das
classesmaispobres,
elesaindasedeparam
comoutroobstáculo:ocansaçofísicoemental de conciliar o emprego e a escola.
Sdgundo
osdados da Comissão Permanente do Vestibular(COPERVE)
cercade 16% do total declassificadosnoúltimo vestibular da UFSC fre
qüentaram colégios
noturnos,enquanto
que63% estudaramem
colégios
diurnos.Apesar
de todos essesproblemas
quelevamalguns
àdesistência, são muitos os que aindatentam
chegar
aonívelsuperior.
MuriloMariano, 20 anos, por
exemplo,
éumdessess estudantesqueaindanão
perderam
asesperanças. Filho
deumpescador
edeumarendeira,
sempreestudouemcolégios
gratuitos.
Jáprestou
concurso em1985paraAgronomia
- ocursomais concorrido daUFSC- enãoconse
guiu
se classificar. "Saí do 2.° grau sem estarmuito bem
preparado
para enfrentarovestibular. A
promoção
automáticasómeprejudicou".
Mas ele não desisteevai tentar maisumavez,
mesmo sem ter feito cursinho
preparatório,
já
que está
desempregado.
Quem
sabe ele talvez tenhachance,mesmoconcorrendo com os alunos do
Colégio
Catarinense, dos CursinhosBarddale
Barriga
Verde. "Omeusonho éum dia assinarumacolunanumjornal"
desabafa. Muriloque, agora, vaitentarJornalismo.
PREPARAÇÃO
PARA
'O
VESTIBULAR
CUSTA
A
publicação
deumareportagem
naedição
de 6 / 7 deoutubro
do Jornal de SantaCatarina,
denunciando
umconvênio
entreoDepartamento
deEngenharia
Mecânica
daUFSC
e amultinacional
gerou umapolê
mica que
chegou,
inclusive,
àAssembléia
Legislativa.
Osparlamentares
solicitaram
ao
Reitor,
informações
sobreaproposta
da IBM e,comonãoreceberam
resposta,
decidiram
investigar
deperto
o assunto.Por causa da
denúncia
feitapela
estudante de
Jornalismo Ivandra
Prêvidí,
osprofessores
doDepartamento
deEngenha
riaMecânica
ameaçaram processaroJSC.Em nota
oficial,
parcialmente publicada
pelo jornal,
dezoito
professores
daquele
departamento
qualificam Eloy
José Tavares
Neto,
doDepartamento
deCiências
daComputação,
de"espécime
exótico,
denotóriae nociva
participação
navidauniver
sitária",
pelas
declarações
queprestou
àrepórter.
Nestamesmanota,
porém,
osprofessores não
esclarecem
aquestão,
nemrefutam as
informações
principais.
Limitamse a
ofender
oentrevistado.
Por sua vez,Eloy
TavaresNeto,
ameaçou recorrer àJustiça
contraos queoagrediram.
Contrariado
com adivulgação
do
acordo,
dois dias
depois,
oprofessor
Clóvis
Raimundo
-Maliska,
coordenador
depós
graduação
emEngenharia
Mecânica,
chamou a
estudante
a seugabinete
paracriticá-la
pela reportagem
que deu inícioaobate-rebate.
Na:
conversa, negoualguma
afirmações
quefizera,
eusouboaparte
dotempo
para dar a elalições
sobre
jorna
lismo
(ver
box).
O caso
ffiM-UFSC
não parou por aí. Na suaedição
de13/14
deoutubro,
oJornal deSanta Catarina
publica
duas outras notassobreo
tema-Numa
delas,
Eloy
analisa
poli
ticamenteo
acordo,
epropõe
queseus termos
sejam
aprovados
emAssembléia Geral
Universitária, depois
dediscutidos
pela
comunidade.
Osprofessores
deMecânica
contrapõem-se
a essatese,
afirmando,
naoutra
matéria,
que"qualquer
decisão sobreoassunto não
poderá
serdeterminada
pormaiorias
manipuiadas
por-Iiderunças
ideo-A
IBM TENTA
POR·
O
PÉ
NA
UNIVERSIDADE
lógicas
ougrupos
quesedizem
progressis
tas, subordinando
acompetência
aonú
mero".
O
convênio IBM-UFSC
nãoestámais
restrito
exclusivamente
aoscírculosacadêmi
cos. As
comissões
deDesemprego
e deCiênciae
Tecnologia
da Assembléia
Legis
lativa
promoverâo
umamesaredonda
parainvestigar
oassunto. Osprofessores
de Mecânica,
encarniçados
defensores
doacordo,
e oprofessor
Eloy
JoséTavares
Neto,
seuprincipal
contestador,
vãodepor
perante
osparlamentares.
ACORDO
IGUAL.
FOI
RECUSADO
NA
PARAíBA
No Curso de
Engenharia Mecânica,
a IBMpretende
instalar250terminais devídeo,umpara cada
professor.
Essesterminaissão
ligados
aumcomputador,
que recebeoque é
lançado
na pequenatelae manda as respostasparaousuário. AIBM quertambém
equioar
aMecânica comumaunidadeCADICA M(Computer
AidedDesign
IComputer
AidedManufaturing),
umsistema de microcomputador
que,seacoplado
aumtorno,porexemplo,
écapazde substituirumtrabalhadorquefaz
parafusos. Na
Mecânica, a IBM querinstalar ainda uma unidade de
conversão de densidade de fita, um
aparelho
que lê informações
de cartõesperfurados
e gravaemfitamagné
ticaderolo.É possível
ainda,quehaja expansão
do atualsistema de oito para doze
megabits.
Essasforam asnecessidades
computacionais
levantadas, a
pedido
da IBM,pelo
professor
Amo Blass, excoordenador'
depós-graduação
emMecânica. Masoqueteria aempresaalucrar,
emprestando
aparafernália
porquatroanos?Para o
professor
Clóvis Raimundo Maliska,"o
objetivo
da IBM é fazerpropaganda
doequipa
rrento",como afirmou na
primeira
entrevista. Nasegunda,ele
dizque"o
objetivo principal
daIBMé marketing".
E acrescenta"nâoésóumamultinacionalquetem
marketing.
As empresas nacionais também fazem propaganda.
O que nãopodemos
é ficarsemequipamentos
pranãofazer
propaganda
praninguém".
Seo
objetivo
imediato da IBM épropagandear
oequi
pamentoetreinaramão-de-obraparaousoexclusivode
seus
produtos,
ocertoéque,alongo
prazo,oprojeto
nãose resume aisso.Em
artigo
publicado
na"Folha de S.Paulo",
o físicoRogério
Cerqueira
Leite diz que a propostada IBM fazpartedeumaação
global,
envolvendo66universidades
européias
e68 universidades americanas ecanadenses. Todasasinformações
sobreodesenvolvimento
tecnológico gerado
nessas universidadessão arquivadas
num banco de dados depropriedade
daempresa,umatransnacional de
origem
americana.PIRULITO
DE
CRIANÇA
No Brasil, a IBM
já
fez outras investidas. A idéiada empresa é firmar convênioscomvárias
universidades,
de modoacriar
aqui
uma rede de ensinoepesquisa,
aexemplo
eh quevemfazendoemoutrospaíses.
As portasdaUniversidadeestariam
abertas,
e oacessoàs informações seria como tirar
pirulito
decriança.
Um pouco maiscaro,talvez,porqueabrincadeira custaria àIBM50 milhões de dólares. ComaUniversidade deUberlândia,
aempresa
já conseguiu
estabeleceroacordo.NaUFPbenaUSP,amultinacional encontrouresistência.
Foram muitasascríticas feitas
pela
UniversidadeFederal da Paraíba às
condições impostas pela
IBM paraaefetivação
do acordo. Aprincipal
delas,
e que segura menteacabou inviabilizandooacordo,
équeosprofesso
res
paraibanos
nãoaceitaramqualquer
restrição
ao usodos
equipamentos.
AinterferênciadaIBMnaslinhas de ensinoepesquisa
foi vistacomdesagrado.
EaUFPbnãoquis
entregarà multinacionaloqueviessea serdesenvolvido durante a
vigência
do acordo.Outra
imposição
queindignou
osprofessores
deEnge nharia Elétrica(na
UFPba Elétrica foiprocurada pela
IBM) daquela Universidade,
foiadeterminação
desigilo
sobreoacordo,conformeestavaestabelecidonumadas cláusulas:"aspartesconcordamemnãodivulgar
ostermos e
condições
deste convênio,semaprévia
autorização,
porescrito,daoutraparte".
NaUniversidadedeSãoPaulo,ocontrato nãosereali
zou porque o Conselho Estadual de Processamento de
Dados, do
qual
o físicoCerqueira
Leite éintegrante,
considerou-o uma
agressão
à reserva de mercado eminformáticae,portanto,lesivoaos interesses nacionais. O governo francês também não aceitou o convênio,
soboargumentodequeoacordo ameaçavaasoberania
nacional.AIBM acabaria tendo mais
informações
sobrea
França
doqueopróprio
Mitterand.ARRUMANDO
A
CAMA
O
professor
deComputação, Eloy
TavaresNeto,de senvolve seu raciecínio na mesma linha deCerqueira
Leite:"aintenção
da IBMé,amédioprazo,furaraleidereserva", afirma. A IBM vai arrumando a cama, por
enquanto. Em 1992,
quando
acabaraproteção
aomercado
brasileiro,
ela sedeita, tranquilamente,
na área de informáticaede teleinformática.O
professor
Maliska compromete-se, entretanto, arespeitar
a Lei. E informaque "a IBMestáaqui
desde1969,
ajudando
as atividadescomputacionais.
Esse departamentocresceu
graçasaoscomputadores
da IBM.AIBM nãovai entrar
aqui.
AIBMjá
estáaqui".
Nenhum convênio atéagorafirmadocomaMecânicaexige sigilo
absoluto.Eloy
é umdosprincipais
críticosdessa
imposição:
"ostermosdo acordo têm que passarpor umaAssembléia Geral
Universitária", opina
ele.Aessatese
contrapõe-se
oprofessor
Maliska. Paraele,quemtem
competência
sãoosprofessores
doDeparta
mento de
Engenharia
Mecânica, os "PhDeuses",comoEby
oschama. "Cadaumdosprofessores
deMecânica, afirmam elesnanota,"detém,individualmente,
decredencial maisenobrecedoraemenoscontroversadoqueo
do
entrevistado",
referindo-se aEloy.
E apresentam ooutrolado daquestão,"menosnebulosa,menos
dogmá
ticae menosdoentia". Brincarcom título de Doutor é muito grave e, em
função
disso, osprofessores
ofenderam-secom a reportagem.
ATAQUE
DE
AMNÉSIA
Os
professores
deMecânica ficarammelindrados,conforme afirmam na nota ao JSC, porque o assunto foi "enfocado exclusivamente sob a ótica de uma minoria
sempreàmargemda
participação
integral
navida universitária,
esemajusta,
necessáriaeimprescindível
audiên cia daoutraparte".
Osataquesde amnésiasãocomunsnesses casos.Os sintomas .'variam desdea
negação
daspróprias
palavras
atéoesquecimento
total das entrevistasquese concede.
Agora
não sãoapenas "minorias exóticasenocivas"quese interessam
pelo
convênio IBM-UFSC. Na sessão de 16 desetembro, a AssembléiaLegislativa
enviouaoReitor da
UFSC,
Rodolfo PintodaLuz,umtelegrama
solicitando esclarecimento sobreocaso.Os
parlamenta
resestão
esperando
sentadosarespostadoSenI'rorReitor.
�1
Enquanto
isso, aAssembléiaLegislativa,
através das comissões deDesemprego
ede CiênciaeTecnologia,
estápreparando
umdebate,
noqual
osprofessores
de Mecânicaserãoconvidados a se
explicar,
porqueoconvênio IBM-UFSCnão éumabriga pessoal
nem umaquestão
meramentetécnica. O convênio IBM-UFSCéuma
ques tão
política.
Porserumaquestão
política,
équeoprofessor
Maliska recomendou:"essamatéria,ouvocêescrevecompleta,
ounão escreve". O mais conveniente, paraele, seria não tê-Iaescrito,porquea essaaltura,o
acordojá poderia
terpassado,
emprimeira
instância,pelo
ConselhoDepar
tamental.
Agora,
épreciso
maisjogo
decintura paraconseguir
instalarosinofensivoscomputadores. É
precisoesperaratéqueos
jornais
nãotenham mais interesseem transformar em notícia o convênio IBM-UFSC.
Quando
essecaso-assimcomotantos outros-estiver boiandonoesgotodoesquecimento,
serábemmais fácil. Compaciência,
elesaindachegam
lá.Maliska fala manso.enquantoprepara o bote.Olhos azuis. cabelos loiros cncurocolados. Clóvis Raimundo Maliska, coordenadorda
pós-graduaçào
emEngenharia
Mecânica. abandona a
expressão
deanjo
barroco.quando
fala da reportagem "Convênio propostopela
IB M gera
polêmica
naUniversidade". Portrás daaparentedelicadeza esuiumhomemenfurecido.capazdedar
liçóes
sobreaquilo
que mioentende.O
professor
enveredapelos
caminhosdojornalismo.
econsegue a façanhade reavivara moribunda teoria da im
parcialidade
...Jornalismopra mim éalguma
coisa quevocê lança uma idéia. e deixa acomunidade concluir.
analisar.
Aqui
amatériatúdirigida". queixa-se
ele.Seriamel hor dei
";11'
a 18 M instalar-se na Universidade. pradepois
analisaro fato consumado?,iâ;�
O queseoculta por trás destes terminais?
UMA
NOVA TEORIA
DO
JORNALISMO:A
DOS
CONJUNTOS
Aprofundando
SU,L-;S teorias sobre ojornalismo.
oprofessor
Clóvis Maliskadiz queexiste
umagrande
diferençaentreas
informações
que sãodivulgadas
nagrande
imprensa
e as que sãopublicadas
numjornal
laboratório.comooZfifcO.Porisso.
Maliskagostariade
tersidoavisadocomantecedênciaqueamatéria sairiano
JSc. "Houve uma falha realmente
imperdoável
datuaparte",
lemanta-se oprofessor.
Aquestão
era"demés tica",comoelemesmodiz."eacabouextravasandopracidade". Em resumo: Maliska
gostaria
demantero monopólio
das discussões sobre aUniversidadeBrasileira.restritasaseu
gabinete
de trabalho.A matéria tem muita maldade. é o que afirmao Dr.
Maliska,comumdedonorecortedoJSC,eoutronacara
da
repórterrFaça
deste cantinhoaextensãodesuacasa" éOpiniões
em
conflito:
Eloy
Neto
(esquerda)
é
contra
o
acordo
que
Maliska
(direita)
defende
uma
plaqueta
queestánasalade esperado coordenador degraduação.
Eé assimqueamatériapublicada
noJSCcomeçaMaliska
explica:
asecretária colocouaplaca
paraqueos
professores
"porcos"
nãoderrubassem cafezinhonochão."E olheocontextoemquevocêacolocou",o
professor
fala commágoa:
"A IB M entendeu bem orecado". E entendeumesmo.Sóqueesperaomomento certo prafazerapropostadeconvênio tramitarnosór
-gãos
colegiados:depois
que apoeira
baixar.Na.opinião
docoordenador,osrepórteres
sãomesmomuito maus.
E'
o que elediz,remexendo-se,
comose acadeira tivesse pregos: "sevocê falar meia horacomum
jornalista,
e se,emvintesegundos
você, disseralguma
coisaque elepossa usar contra, elesóvaiusarosvinte
segundos,
praserbombástico".Umaforma de amenizara maldadeinata,seriao
jornalista
"se apegaraopensamentodo
entrevistado,
e nãoafrases". Acaba denasceruma novatécnica: a
telepatia aplicada
àentrevista. Para evitar futuros mal- entendidoseaprimorar
ojor
nalismocontemporâneo,
Maliskadiztudooque sabe. Afórmula inéditado
jornalismo
éparida
na sala de umprofessor
de Mecânica:"Se euquiser
que opúblico
entendaisso,eupegoa
informação
A,B,edooutroaqui
(dooutro
conjunto
rabiscadonopapel)
eupegoainformação Ie2 ,edeixo escondidooresto.Seeu
quiser
daroutroentendimerito pro
público
eupegoasdeclarações
C,Ddesse
aqui
e a3ea4desseaqui:
3 .. 4.C+D.TemN alternativas pracolocar.Vocêescolheuumaquemedeixoumal,só isso". Perfeita ateoria dos
conjuntos
serve tantoparaojornalismoquanto
paraapropostadaIBM..
--",'
_ -_ __ _ ___ _ _._ _ZERO
. .' 'Preocupação
é
valorizar
ofolclore
PARA
ENFRENTAR
O TIO
PATINHAS
ráriosoumotoristas de táxis.
Neste número, a turminha
participa
deum concursodepandorgas
no aterro onde avencedoratem oformato da Ponte Hercílio Luz, ainda
pintada
depreto.
Narratambém ocasode um
pescador
que teve sua rede todaras
gada pelas
bruxas, porqueesqueceude
queimar
folhasde alho para
quebrar
seu encanto.
O trabalho
surgiu
com oProjeto
llha de Santa Catarina, criado
pela
Fundecào
Catarinense de Cultura
(F CC)em1982. O
projeto,
queincluiaa
produção
dematerial didático baseadonarea
lidade das escolas das redes
municipal
e estadual, foiaprovado
no final do anopassado. Quando
Sandro procurou aFundação
paraapresentar
sua idéia,já
ha viam sidoproduzidos
livros deestórias e oorçamento já
estavaestourado.
Apesar
doatrasó,
aFCC achou que asidéias dos
quadrinhos
vinhamcalhar com seus
objetivos
eassumiu sua
distribuição
Sandro: trabalhandoa
cultura
marginal
para as escolas. O financia
mento no entanto, ficou a
cargo da UFSC. CINEMA
Se o
gibi
até então eraconsiderado
prejudicial
àformação
dascrianças
pelos
pais
eprofessores,
destavez ele teráumafun
ção didática,
promovendo
aligação
com seu contextocultural.
É
Sandro quem toma adefesa
dosquadri
nhos:"Eles não sãoummal
em si, o
problema
é que aescola norte-americana,
que
produz
oTioPatinhas,Pato
Donald,
etc., nãoper miteque acriança
crie emcima dos desenhos. Eles são estáticos e ahistória se en
cerra a cada
ilustração".
Procurando se
contrapor
aestateoria,elebusca
planos
abertos e
traços
menos definidos,
numa visão dinâmica,
dadaprincipalmente
pelas
raisagens.
"Destaforma as
crianças
comple
tam asidéias com sua ima
ginação".
Sandro,
ochargista
favorito dos
colegas
paraasilustrações
deste Jornal Labo ratório do Curso de JornaIismo,
acha que as historinhasquefaz
têm muitoav er com o cinema e assim, vaielaborando os roteiros..de
terminando
planos
eângu
los diferentes. Inova ainda
eliminando o cerco
rígido
dos
quadrinhos.
Diz quesofre influência do
Angeli,
cartunista da Folha de São
Paulo eé fãdo Henfil
pela
crí ticaaos
padrões
sociaise'O estilo rabiscado de seus
desenhos,
mas acha o Tio Patinhas um caretão.Filho
dejaponeses
enaturalde Canoinhas, Sandro o
"[apinha",
comoosamigos
ochamam,
j
á sentia inclinação
para o desenho desdecriança
edemonstrava issopelo
sucesso nostrabalhosartísticos da escola. Ele
próprio
sedizia atraídopela
magia
dosdesenhos;
contaoueeostum-waficar horas
parado
olhandoasgravuras e tendo "voos deimagina
ção".
Algumas
vezes os personagens das revistinhas em
pregam termos que não
chegam
a serpalavrões,
mas certamente deixariam
os mais conservadores
constrangidos.
Oresultado,é uma
linguagem
espontâ
nea sem artifícios. O autor
não tem
pudores
ainda emdeixarqueeles falem natu
ralmente errado, ou na lin
guagem
popular.
Elejusti
ficadizendo que"fica ridí
culo um
pescador,
porexemplo,
falando conformeos
padrões
dagramática
oficial".
Tempos atrás,
um grupode
professores
enviou aoMECummanifestocontrao
Chico Bento, personagem de Maurício deSouza,por
que eleestavaensinandoas
crianças
a falarem errado.Logo
emseguida,
"Chicorecebeu total
apoio
de umaAssociação,
de Literatura". Sandroaplaudiu
oepisódio.
ConcordacomPauloFreire em
relação
aoslingüistas:
"não estão
aqui
parainventar uma
língua,
mas simpara
adaptar,
alíngua
dopovo".
Ereforça
suaopi
nião com a
questão
do regionalismo:
"Não sepode
falar
igual
emtodososlug
ares. A
palavra
uva, porexemplo,
não temnenhum
sentidonoNordeste".
MEDO
EFANTASIAEle recorreu à obra de
Paulo Freire para que'as
crianças
adquiram
umaconsciência da sua reali
dade e passem
á �odificá
la. "A história em
quadri
nhos além de ser um atra
tivoéumanovid�edefora�
neste caso, ao tocar nos
problemas
da realidade dacriança
poderá despertá-la.
Paulo Freireconta ahistó
ria deumapessoaquesóse
apercebeu
dasituação
pre cária em queviviaquando
alguém
mostrou-lhe a fotodo
lugar
que morava, apesar de ter
passado
a vidaolhando-a da
janela".
Seguindo
oexemplo,
Sandrovai abordando os
proble
mas do
esgoto, transporte,
ecologia
emostrando asfa velas. "Não deumamaneirapanfletária,
massimples
mente
pintando
arealidade para ver se provoca reação."
Quem
dáasdicas das histórias debruxas,dolobíso
men edo folclore da llha é
Franklin Cascaes no seu
livro "O FantásticonaIlha de Santa
Catarína".
Todosos dias, o historiador per
corriaascomunidadesmais
pobres,
onde escutava eanotava as
superstições
e os fatosrotineiros,
e obser vavaascasas,osengenhos
e otipo
devegetação
- formando um
perfil
culturalcompleto
dessagente.
Assim,
Sandro vai narrandoashistórias
antigas
num_contexto
atual, pois
como diziao Cascaes:
"hoje
asbruxas ainda existem, mas estãotodasna
política."
Se o
projeto atingir
maioresdimensões, talvez nos
pró
ximos meses teremos nas
bancasodueloentreosper
sonagens Tio Patinhas eBoi Tatá.
O "Bruxo" Franklin Cascaes tinha um sonho:
ensinar nas escolas as len das do Boi
Tatá,
do lobisomem; das sereias e dos po
deres ocultos do alhoquea
cultura oficialeoslivros di dáticos não
contam.
Cas-caes morreu, mas o sonho
pode
se tornar em breveuma realidade com o pro
jeto
de Sandro Akira Shiguefuzzi,
estudante de Jor nalismo daUFSC,
que estáelaborando histórias em
quadrinhos
paracrianças
das escolas da
periferia.
O cenário das revistinhas sãoas
praias
da Ilha e atémesmo os
problemas
maisgraves da
cidade,
comoesgoto,
transporte
epoluição.
O autorpreocupou-seem
ensinare valorizaracultura
marginalizada,
assupersti
ções,
históriasdepescador,
lendas e dJstumes - na lin guagem mais atraentepara
as
crianças
- ogibi.
Opri
meiro número
j
á foi impresso e será'distribuído
pela Fundação
Catarinense de Cultura para as escolasdo Pântano do Sul, Morro
da Caixa, Sertão do Ribei
rão e Saco Grande. Até o
final do ano, Sandro, 23
anos, quer
elaborar;
mais três números.BARATO
Na verdade, este
projeto
quefazpartedoseutrabalho
de conclusão de Curso éuma
críticaem dose
dupla
aos li vrosdidáticos e às históriasem
quadrinhos
norteamericanas. Além da nova
propostanãodeixarmorrer a
cultura
açoriana,
oprojeto
significa
aindaumaalternativa económica para as
crianças
quenão têm acesso aoslivroscomuns.Cada
exemplar
custaráCr$ 600,00epor este
aspecto,
o
proj
etoj
á recebeu totalapoio
dascomunidadese escolasenvolvidas.
Sandro vai escrevendo e
desenhando as historinhas
com os personagens que ele
chama de"A
turmadallha",
inspirados
emcrianças
das escolasperiféricas
de Florianópolis.
Outrospersonagens
retratama
profissão
dospais,
geralmente
pescadores,
opBotha,
da
Áfricado Sul Sabbá,emFormosa Pinochet,guru dosAndes.Um
juiz
de direito
que
admira
Pinochet
e
apóia
o
apartheid
A ultra
..direita
resolve
falar:
autoridade,
armas
•e
racismo
são
os
temas
Newton Sabbá Guima
rães
poderia
ser resumidoassim: amazonense,Juiz de
Direito
aposentado
aos 44anos,fala mais de dez idio mas,
possui
uma culturarespeitável,
é autor de inúmeros livros sobre
política
internacional. Mas seriaum resumo
incompleto
porqueele é muito mais doqueisso:
monarquista,
membro daLiga
Mundial Antícomunista,
amigo pessoal
detodos os ditadores que co
nhece e fervoroso admira dor dos que ainda não lhe concederam uma entre vista. Homem com muitas
viagens
aserviço
daLiga
Anticomunista
-princ i
palmenteàÁsiaeàÁfrica
e eventual contato para a
compraevendadearmasno
mercado
internacional,
Sabbá Guimarães é
hoje
umdos
representantes
mais obstinados da ultrad íretta brasileira.Hádoisanosmorandoem
Florianópolis,
Sabbá Guimarãespassavaquaseano
nimamente
pelo
curso depós-graduação
emCiências Sociais eLinguística,
até odia emqueresolveu abrira
boca. Defensor vitalício do
governo racista da
África
do
Sul;
admiradorperpétuo
do
general-presidente
Augusto Pinochet,do
Chile,
fãincondicional e
inconse-quente
de todos os ditado ressanguinários
que passaram
pela
história neste pedaço
deséculo- eleconse gue no mínímo desconcertar as pessoas com suas
idéias.
E vai muito mais
longe:
defendeofascismo deMus
solini esó não
gosta
de Hi tler por causa dosjudeus
(Sabbá Guimarães eviden
temente é de
origem ju
daica).
NA TERRA DO APARTHEID Mas suasidéias sobrera
cismo não terminam aí. Os negros daÁfricado
Sul,
porexemplo,
não têm a menorcondição
de governar opaís.
Alémdisso, nãoexistenenhuma violênciacontrao
nativo
daquele país,
esclareceele:
"É
umacampanha
internacional. O
apartbeid
éuma filosofia
política
adotada
pelo
Governo de umpaís amigo,
de um Estadosoberano,
logo
trata-se dequestão
internacom aqual
nada temos a ver. Apart
heid é uma
palavra
terrivelmente
incompreendida
quando
sefaladaJÁfrica
do "Sul. Eu diriaque
Apartheid
éantes
preservação
cultural doquesegregação
racial..".Falando numdeseuslivros
de
viagem
àÁfrica
do Sulele conta: "J á não senota,
ostensivamente,amarcado
apartheid
eparece que asrelações
entre os vários gru pos raciais melhorarambastante. Há ainda muita
coisa para ser desbastada, mas averdade équeo
país
caminha para uma harmo
nização
completa
entreseushabitantes multi-raciais...
Viajando
por diferentespartes
dopaís,
belo evasto, não viaquela
animosidadeentrenegro e brancoquea
imprensa
mundialfreqiien
tementeserefere.."
(Entre outubro de 1976e de
zembro de 1981, oitomilhõesde
negrossul-africanosficaramsem suacidadania. E 737 mil serão
"dados" à Suazilândia; 96 mil
serão"dados"aoutro
país.
Entre1960a 1980ummilhãoe500mil
negrosforam
expulsos
dasáreas rurais brancase750mildasáreasurbanaseenviadosparareservas.
Issoéo
apartheid.)
"SOMOZAERA TRABALHADOR"
Mas Sabbá Guimarães
desfia
opinião
sobre tudo. Todo mundo noticia mal,está mal
ihformado,
estátendencioso,
ninguém
consegue entender a "filosofia
dos
grandes governantes".
Em 1980, por
exemplo,
eleescrevia um
artigo
sobre aArgentina
realmente comovente.
- Saído da desordem in
terna, dos desmandos do
g'V.ernode Dona Isabel Pe
rón,o
país
estavaenfraque
cido ainda por
guerrilhas
urbanas eporuma
inflação
galopante
...Honesto e bemintencionado,
Videla parteparauma
política
de aproximação
...Sob aesclarecidaliderança
dogeneral
Videlaa
Argentina
toma novos rumos..AArgentina
temumpovoforteeculto,comuma
homogeneidade
racialad-mirável...
(Durante o governo militar,
especialmente
odogeneral JorgeRafael Videla, foram assassina dos 8.961
argentinos
eonúmerode
desaparecidos
é de 30 mil. Vi dela atualmente encontra-sepreso,
aguardando
ojulgamento
pelas
mortes ocorridas na"guerra
suja",
quecomandou.). Durante
a ofensiva final
declarada
pela
FrenteSandinista para a Liber
tação
Nacional,
nos anos78/79,
contra o governo deAnastásio Somoza da Nica
rágua,
Sabbá Guimarães talvez fosseoúnico homema escrever
artigo
defendendoa
permanência
do ditador. Na
época
eledizia: - 'Viver empaz'
éo quetodosquerem, e não discu
tir
se ogeneral
Somoza vaiperpetuar-se
nopoder
ounão, se ele é um gover
nante autoritário ou de
mocrático, seditador ou ti
rano. O
presidente
AnastàsioSomoza, que todos cha
maminsistentementede di
tador, tenta sobreviver aos
ataques com inaudita bra
vura para
cumprir
o mandato que lhe foi concedido
pelo
povo...Osmesmosnoticiaristasque atacamsemdó
nem
piedade,
esquecem-sede qu e, por ocasião do
grande
terremoto que aba louaquela região,
ele foi afigura
central...reconstruiuManágua
...e écomo seufamoso
pai,
General Anastásio Somoza, o iniciador da
DinastiaSomoza...abriu es
tradas
ligando
todosdepar
tamentos...
(OsSomozasficaramno
poder
da
Nicarágua
quase 50anos e assassinaram cercade 50 mil pes
soas. Durante o terremoto, So
moza abriu umaclínica
particu
lar para
negociar
com o plasmasangüíneo
doadoporoutrospaí
sesaopovonicaraguense.Jamais
reconstruiu Manágua, des
truídaaté
hoje,
e nuncaconstruiuestradas
ligando departamento
algum.)
SAPATOS DA
PÁTRIA
Semanapassada,durante
uma entrevista ao Jornal
Zero, Sabbá Guimarães diz
que
hoje, pensando bem,
não escreveria
artigos
de fendendoSomozapor
causada
corrupção,
mas insiste: "Somoza não era ummonstro.Era trabalhador". Outra
grande figura
dopanorama
sanguinário
internacional,
Augusto
Pinochet,
éumafigura
admirável na
opinião
de SabbáGuimarães: "homem sério delealdadenosseus
princí
pios.
Ele tem cometido al guns excessos, é verdade, masninguém pode
duvidarda
probidade
eda honestidade de Pínochet", No Bra
sil,
aLiga
Anticomunistamostrou muito
serviço
durante o governo
Médici,
operíodo
mais duro da dita dura. "Sobre aatuação
daliga
nãofalo, éumassuntodelicado".
Em
alguns
momentos desua"obra", o
ex-juiz
SabbáGuimarães
desperta
m�s
interesse
psiquiátrico
doque curiosidade
lornalís
tica.
Apesar
de semostrarum homem extremamente
cauteloso
quando
fala, naescrita ele não só
perde
obom senso como também a
noção
do ridículo. E contahistórias como esta: "Em
Seul, uma formosa mulher
conhecida dosmeios
diplo
máticos, mostra-me, satis
feita,
os belíssimossapatos
que usava: 'Vieram de sua
pátria'
... Essaslembranças
ocorrem-meemborbotõese
sinto-me cada vez mais
crente na
contribuição
daPátria Brasileira à civiliza
ção
universal".Essa
preocupação
com arepresentatividade
dosetorcalçadista
nacional noavanço da
"civilização
universal", só se
justifica
selevarmos em conta apreocu
pação
de Sabbá Guimarãescom o vestuário. Em sua
"obra", ele apareceeminú
meras fotos vestindo osúl
timos lançamentos da alo. faiataria amazonense. Na
sua"obra",Sem Fronteiras, a
primeira
foto éumregistro
de suavisita a umestaleiro na
República
de Formosa.Uma bela
fotografia:
aparece um casaco listrado, uma
gravata
cheiademetáforas
espectrais
e umenormecapacetedeaço.Ali
dentro está Sabbá-assus
tado.
-t •
As
primeiras
adesõesaocaixa2Repórter
detelevisão foi vaiadopelos
estudantesAssunto
ficou
muito
tempo
nas
manchetes
versar com os
alunos
queoesperavamdesde às
13
horas.
O conflito
quesurgiu
entrefuncionários
do
R.U. eestudantes foi
igualmente
bastante
utilizado
pela
imprensa
estadual
paraesconder
a
essência
da
questão
, que era o cortedas
verbas
universitárias,
eseuencaminhamento,
ouseja,
asnegativas
dareitoria
emparticipar
do
diálogo.
Afoto
de umafuncionária,
quesentiu-se mal
amparada
pordois
colegas,
foi
um
prato
feito
para osjornais.
Um deles
apublicou
sobre
alegenda:
"Mo
mento
de
tensão: donaWals
asofre
umataque
pois queria
ver ofih
oefoi
impedida"
. Manchete do
jornal
O
ESTADO,
publicada
nodia
seguinte
-"Traumatizados,
servidores
nãoqueriam
entrarparatrabalhar" colocava defi
nitivamente
asociedade
contraomovimento.
No
primeiro capítulo
da
novela,
quando
ins
tauraram o
caixa
dois e ocuparam o restaurante,
osestudantes foram acusados de
teremexpulsado
so funcionáriosdo
local,
embora
em outramatéria
ojornal
reproduzisse
decla
ração
do diretor do
RestauranteUniversitário,
Vilmar
Bayerstorff
queafirmava
terliberado
os
funcionários
'por
motivo de
segurança"
.Para
jornais
queexploravam
comtantaavidez
o
�ssunto,
tal
lapso
é
inaceitável.
As
fotografias
tambémserviram
pararefor
çarasteses
defendidas
pelosjornais.
Assim,
osfotógrafos
concentraram suasmáquinas
nolocal
em quebandejas,
nãodevolvidas,
justa
mente
onde
normalmente amontoa-se olixo.
Com isso
,conseguiram
caracterizar
asujeira
da
cozinha,
que,comoafirmaram
, em outralegenda"
mais
parecia
umcampode batalha"
.Toda
estacampanha
desencadeada
paraexigir
a
punição
dos
chefes
darebelião,
legitimando-a,
e paradesmoralizar
ainiciativa dos estudantes
respaldou-se
ainda
naepisódio
do afastamento
do diretor de
divulgação
doDCE,
quedemitiu
sepor
discordar, segundo
osjornais,
"das atitu
des
infantis dos
companheiros".
P 8
"
'
ZERO,
,-
NOV-DEZ 85
Diirante
dezesseisdias,
de
sete aio
deoutubro
, osjornais
catarinenses
moveramcampanha
�ontra
osintegrantes
do DiretórioCentral dos
Estudantesda VFSC
que, revoltados,
com o novo preçocobrado
pelas-
refeições,
haviam
tomadoorestauranteuniversitário
nodia seis.
CAOS
NAUNIVERSIDADE.
Esta foi aManchete
da
edição
do dia 18 do
jornal
"O
E srADO"
quededicou
quasetoda
primeira
página
aoassunto,ilustrada
porfotos dos
"enfurecidos"
líderes.da
revolta. Numa
reporta
gem recheada de
opiniões
contraomovimento ojornal
informava queacomissão
de seteestudantes, encarregada
de
negociar
com areitoria,
fora
constituída numa"desordenada
assembléia".
Maisadiante,
acrescentava que"não conformados em
fazer
pela
manhã ocaixa
dois,
xerocar ostiquets
com os preçosantigos
e tomar o restaurante deassalto,
osestudantes
determinaram a ordem:ninguém
entra,
ninguém
sai".A
partir
daí,
capitaneada pelo
O ES
T
ADO'
prosseguiu
acampanha
contra a rebelião
dosestudantes
. Asexpressões
variavam,maseramtodas
altamente contrárias
aosuniversitários
-"Irritados,
osestudantes
invadem o
R.V". "Funcionários
sãomantidos
emcárcere
privado".
No dia
19,
o"Jornal
de SantaCatarina"
informava que"embora
em pequeno
número (cerca
demil)
os estudantesnão
abriram
mão danegociação
equeriam
ospreços
congelados."
Assim,
tentavamcaracterizar
umapostura minoritária dos
estudantesembora,
éclaro,
seminformar
que não conformado
em cerrar comtábuas
asportas
da
reitoria,
naquele
dia
protegidas
pordezenas
deguardas,
oreitor
sósurgiria
às 17h30
paracon-Cenaquea