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Ocorrência de queixas auditivas em escolares com e sem dificuldade de aprendizagem

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Academic year: 2021

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Ocorrência de queixas auditivas em

escolares com e sem dificuldade de

aprendizagem

The occurrence of hearing complaints in

students with and without learning difficulties

Resumo

Introdução: distúrbios auditivos como zumbido, perda de audição e hiperacusia podem comprometer o desenvolvimento da linguagem nas crianças. Objetivo: verificar a ocorrência de queixas auditivas (zumbido, desconforto a sons e dificuldades auditivas) em crianças de sete a 10 anos e relacionar a presença ou não dessas queixas ao desempenho escolar. Método: 31 crianças com idade entre nove a 12 anos, com média etária de 10,22 anos, de ambos os gêneros. Os pacientes foram submetidos a entrevistas fechadas, por meio da aplicação de um questionário pré-estabelecido baseado no trabalho de Coelho (2006). De acordo com a avaliação realizada pela coordenação pedagógica da escola quanto ás dificuldades escolares, as crianças foram divididas em dois grupos, Grupo controle –G1(n=14) e Grupo de estudo-G2 (n=17). A análise dos resultados utilizada foi descritiva. Resultado: do total de pacientes (n=31), 38,70% apresentaram zumbido; 29,03% desconforto a sons e 29,03 dificuldades auditivas. Entre os pacientes com queixa de zumbido, 33,33% eram do G1 1 e 66,67,% do Grupo 2. Entre os pacientes com desconforto a sons, 33,33,% apresentavam a queixa no G1 e 66,67%, no G2. Discussão: O estudo encontrou maior ocorrência da queixa de zumbido e de desconforto a sons, em crianças com dificuldade escolar. Conclusão: 38,70% das crianças estudadas referiram percepção de zumbido e 29,03% referiram desconforto a sons. As queixas de zumbido e desconforto a sons foram mais freqüentes nas crianças com dificuldade escolar.

Palavras-chave: Aprendizagem. Zumbido. Hiperacusia. Criança.

Paula Topein Vitorelli1

Flávia Doná, Ft 2

Patrícia Bataglia2

Renata Coelho Scharlach, Fga2

Cristiane Akemi Kasse. MD2

Fátima Cristina Alves Branco-Barreiro, Fga2

1Aluna de Iniciação Científica do

Programa de Mestrado Profissional em Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Bandeirante de São Paulo (UNIBAN -Brasil).

2Professora Doutora do Programa de

Mestrado Profissional em

Reabilitação do Equilíbrio Corporal e Inclusão Social da Universidade Bandeirante de São Paulo (UNIBAN Brasil).

Autor para correspondência:

Fátima Cristina Alves Branco-Barreiro

Rua Maria Cândida 1813, São Paulo, CEP: 02.071-022 E-mail: [email protected]

F l

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Introdução

Disfunções no sistema auditivo durante a infância podem ter conseqüências sérias que podem englobar dificuldades de socialização, de relacionamentos afetivo e familiar, dificuldades na aquisição e desenvolvimento da fala e linguagem que podem causar desempenho escolar insatisfatório, decorrentes de dificuldades em situações eminentemente verbais e no processo para aquisição do código gráfico. A detecção precoce de deficiências auditivas na infância previne comprometimentos no processo de aquisição e desenvolvimento de fala e linguagem. Familiares, médicos e educadores não devem dar atenção apenas às queixas ou comportamentos relacionados com a diminuição da sensibilidade auditiva. Outros sintomas, como o zumbido e a hiperacusia, também podem estar presentes na infância e interferirem no seu desenvolvimento.

O zumbido é a percepção de um som interno, sem a presença de uma fonte externa geradora 1. São muitos os conceitos e definições existentes para o zumbido. Isto se deve à subjetividade e os diferentes critérios de classificação do mesmo1.

Na população infantil, o zumbido é raramente mencionado espontaneamente, porém a presença deste sintoma pode se tornar uma enfermidade, além de causar dificuldades na escola e nos relacionamentos familiar e afetivo1. Mudanças emocionais e comportamentais podem ser sinais de zumbido2. O grau de incômodo ao zumbido é difícil de ser avaliado, entretanto um terço das crianças que apresentam este sintoma, o caracterizam como perturbador3. O zumbido pode estar relacionado ao estresse e servir como um alerta para a presença de distúrbios de ansiedade na população infantil4.

Na literatura há autores que referem que o zumbido não é raro, porém poucas crianças o referem ou se incomodam com a sua presença1,3,5. Por conta disso, a maioria dos familiares não percebe este sintoma na criança1.

Há várias hipóteses levantadas na literatura para justificar a falta de incômodo e/ou queixa do zumbido na infância. Dentre eles estão: as crianças se distraem facilmente com o ambiente; a criança pode ter a percepção que o zumbido faz parte das sensações aurais normais, ou seja, para ela é um som que sempre existiu; as crianças não conhecem o significado médico do zumbido2,6,7.

Dentre as causas mais freqüentes de perda auditiva, hiperacusia e zumbido na infância estão as otites. A otite média é uma infecção na orelha média que tem como público de maior incidência crianças e bebês. Este fato se justifica pela imaturidade do sistema imunológico e da estrutura da tuba auditiva8. Em um estudo realizado em 1984 os autores verificaram a presença da queixa do zumbido em 66% das crianças com otite média7. Dentre as queixas apresentadas pelas crianças com otite média secretora estão: discreta dificuldade para ouvir, autofonia, plenitude auricular e zumbido9.

Mesmo sendo um sintoma pouco mencionado por crianças, o zumbido é comum entre a população infantil e merece desta forma uma maior atenção de especialistas. Outros sintomas, como o desconforto a sons do dia-a-dia freqüentemente estão associados à queixa de zumbido.

Vi to rel li et al , 2 00 9

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Os objetivos deste estudo foram estudar a ocorrência de queixas auditivas, a saber, o zumbido, o desconforto a sons e dificuldade auditiva em crianças de sete a 10 anos e relacionar a presença ou não dessas queixas ao desempenho escolar.

Método

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Bandeirante de São Paulo, sob o protocolo de número 171-07. A coleta de dados foi realizada na Escola Municipal de Ensino Fundamental Marina Vieira de Carvalho Mesquita de 17 a 20 de novembro de 2008.

Foram enviadas a escola 60 cartas convite para participação nesta pesquisa, as quais foram entregues aos pais de alunos de 4º a 6º ano do ensino fundamental. 31 (51,66%) pais ou responsáveis assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido autorizando a participação de seus filhos neste estudo.

Das 31 crianças, 16 (51,61%) eram do gênero masculino e 15 (48,40%) do feminino, sendo que a idade variou de nove a 12 anos, com média etária de 10,22 anos. Todas as crianças foram submetidas a uma entrevista fechada, por meio da aplicação de um questionário pré-estabelecido e baseado no trabalho de Coelho (2006)1.

A classificação das crianças segundo a presença ou não de dificuldade escolar foi realizada pela coordenação pedagógica da escola. De acordo com a avaliação da coordenação pedagógica, as crianças foram divididas em dois grupos, a saber: G1 (Grupo Controle) composto por 14 (45,20%) sem dificuldades escolares e o Grupo 2 (Grupo Estudo) formado por 17(54,8) crianças com dificuldades escolares. Uma vez que os sintomas estudados (zumbido, desconforto a sons e dificuldade auditiva) são subjetivos e que as crianças tendem a responder positivamente para agradar ao entrevistador, alguns critérios de rigor, sugeridos na literatura foram adotados para aumentar o grau de confiabilidade das respostas1. Sendo assim, a sensação do zumbido foi considerada presente nos casos de associação de:

 resposta positiva à pergunta: “Você escuta um barulhinho na sua cabeça ou nos seus ouvidos?”

 descrição do tipo do zumbido;  descrição da sua localização.

Com relação ao desconforto a sons, foi considerado presente quando a criança referiu desconforto com pelo menos 10 dos 20 sons cotidianos apresentados na entrevista.

Sobre a dificuldade auditiva foi considerada presente nos casos de resposta negativa à pergunta: “Você escuta bem?”

Foi realizada uma análise descritiva da presença ou não das queixas auditivas (zumbido, dificuldade auditiva e desconforto a sons).

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Resultado

Os resultados obtidos a partir da entrevista com os alunos avaliados encontram-se descritos a seguir.

A tabela 1 mostra a ocorrência das queixas de zumbido, de desconforto a sons e dificuldade auditiva nas 31 crianças entrevistadas.

As tabelas 2 e 3 apresentam a ocorrência dos sintomas zumbido e desconforto a sons, respectivamente, nos dois grupos estudados, G1 sem dificuldades escolares e G2 com dificuldades escolares.

Sintoma Sim Não

N % N % Zumbido 12 38,70 19 61,30 Desconforto a sons 9 29,03 22 70,97 Dificuldade auditiva 9 29,03 22 70,97 Sim Não GRUPOS N % N % G1 4 33,33 10 52,63 G2 8 66,67 9 47,36 TOTAL 12 100,00 19 100,00 Sim Não GRUPOS N % N % G1 3 33,33 11 50,00 G2 6 66,67 11 50,00 TOTAL 12 100,00 22 100,00

Tabela 1: Ocorrência das queixas de zumbido, desconforto a sons e dificuldade auditiva.

Tabela 3: Ocorrência da queixa de desconforto a sons, segundo a variável grupo estudado (G1 e G2).

Tabela 2: Ocorrência da queixa de zumbido, segundo a variável grupo estudado (G1 e G2).

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Discussão

No presente estudo encontrou-se a presença de queixa de zumbido em 12 (38,70%) das crianças entrevistadas (Tabela 1), concordando com os dados encontrados na literatura 1,2. Entretanto, discorda de um outro estudo que encontrou 12% de queixa de zumbido entre crianças10. Neste estudo a autora estudou 964 crianças na faixa etária dos sete anos e relatou a dificuldade de obtenção de respostas confiáveis a intervenções deste tipo. Vale ressaltar que o estudo atual difere do anterior tanto no que diz respeito ao tamanho da amostra quanto à faixa etária. Outro aspecto importante que é diferente no trabalho de 2003 é o tipo de pergunta feita à criança. A autora perguntou: “Você sente barulho nos ouvidos após ficar exposto à música alta ou som alto?” “Você sente barulho nos ouvidos sem ter ficado exposto à música alta ou som alto?”

Com relação ao desconforto a sons, verificou-se que nove (29,03%) das crianças referiram desconforto com pelo menos 10 dos 20 sons questionados (Tabela 1). Em um estudo anterior, em 2006, a autora encontrou ocorrência de 42% de queixa de desconforto a sons em crianças, usando método semelhante a este estudo, mas com faixa etária mais ampla (cinco a 12 anos) e amostra maior1.

Foi observado também que nove (29,03%) das crianças entrevistadas apresentaram queixa de dificuldade auditiva (tabela 1). Dos três sintomas pesquisados o zumbido foi o que apresentou maior ocorrência na população estudada.

Das crianças com queixa de zumbido, quatro (33,33%) eram do G1, ou seja, do grupo sem dificuldades escolares e oito (66,67%) do G2, grupo das crianças com dificuldades escolares (tabela 2). Quanto ao desconforto a sons, três (33,33%) crianças eram do G1 e seis (66,67%) do G2 (tabela 3). Sendo assim, tanto a queixa de zumbido quanto a de desconforto a sons foi maior no grupo de crianças avaliadas como apresentando dificuldades escolares. Vale ressaltar a importância que se deve dar a estas queixas auditivas, pois muitas vezes o zumbido pode estar associado à deficiência auditiva11. Por mais discreta que seja a perda auditiva ela pode acarretar em mudanças comportamentais, dificuldades de leitura e ainda problemas no desenvolvimento da linguagem12. As perdas auditivas em crianças em idade pré-escolar e escolar decorrem, muitas vezes, do acúmulo de cerume, de corpo estranho, de otite externa e nos quadros em que a otite média com efusão persiste (13).

A detecção de deficiências auditivas na infância previne dificuldades no desenvolvimento da linguagem e na aquisição da fala. As conseqüências para o desenvolvimento escolar e social seriam amenizadas se a população e os dirigentes de escolas fossem orientados sobre a importância da avaliação audiológica como uma rotina nas escolas14.

Conclusão

38,70% das crianças estudadas referiram queixa de zumbido e 29,03% referiram desconforto a sons. As queixas de zumbido e desconforto a sons foram mais freqüentes nas crianças com dificuldade escolar.

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Abstract

Background: hearing disorders in childhood may have a negative impact

on the development of language and may lead to poor school performance.

Objective: to study the occurrence of hearing complaints in 7- to 12- year

old students and to relate the presence or absence of these complaints to

school performance.

Method:

31 students were evaluated, 16 male and 15

female, with mean age of 10,22 years old. All the children were submitted

to a questionnaire based on Coelho (2006).

Teachers were responsible for identifying students with and without learning difficulties.

Result: 12 (38,7%)

students reported tinnitus complaint, 9 (29%) poor sound tolerance and 9

(29%) hearing difficulties. Teachers classified 14 (45,2%) students as

presenting learning difficulties (G1) and 17 (54,8%) as good students (G2).

4 (33,3%) of the children who reported tinnitus were from G1 and 8 (66,7%)

from G2. 3 (33,3%) of the children with decreased sound tolerance were

from G1 and 6 (66,7%) from G2. Conclusion: tinnitus was the most

frequent complaint in children with and without learning difficulties.

Key Words: Learning. Tinnitus. Hyperacusis. Child.

Referências

[1] Coelho CCB. Estudo da prevalência da hiperacusia e do zumbido em crianças [tese]. São Paulo: Universidade de São Paulo; 2006.

[2] Savastano M. A protocol of study for tinnitus in childhood. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 2002;64(1):23-7.

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[5] Baguley DM, McFerran DJ. Tinnitus in childhood. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 1999;49(2):99-105.

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[7] Mills RP, Cherry JR. Subjective tinnitus in children with otological disorders. Int J Pediatr Otorhinolaryngol 1984;7(1):21-7.

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[9] Russo ICP, Santos TMM. Audiologia Infantil. São Paulo: Cortez, 1989. [10] Holgers KM. Tinnitus in childhood. Eur J Pediatr 2003;162(4):276-78.

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[12] Roslyn-Jensen AMA. Importância do diagnóstico precoce na deficiência auditiva. In: Ferreira LP. Tratado de Fonoaudiologia. São Paulo: Roca, 1996. p. 297-309.

[13] Mondain M, Balnchet C, Venail F, Vieu A. Classification et traitement des surdités de l’enfant. Oto-rhino-laryngologie (traité) 2005; 20:190C-20C.

[14] Fialho CLF. Audiologia infantil: a importância do diagnóstico precoce em

crianças com otite média. Disponível em:

<http://www.cefac.br/library/teses/ca87cd2f3fa41303ba2093ca0b2dffc2.pdf>. Acesso em: 15 jul. 2008.

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