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As novas fronteiras da atividade do Estado

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(1)Revista de Direito Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008. AS NOVAS FRONTEIRAS DA ATIVIDADE DO ESTADO. RESUMO Alessandro Gonçalves da Paixão Faculdade Anhanguera de Anápolis [email protected]. Jean Carlo Goulart Martins Faculdade Anhanguera de Anápolis [email protected]. Dentro do sistema burocrático brasileiro atual, como já observado em outros momentos históricos, a partir da década de 70, a administração pública adota novas diretrizes para a prática e o exercício regular e profissional de suas atividades, buscando um “Estado Mínimo”, centrado em atividades principais, e de relevante interesse social, transferindo as demais atividades que inicialmente seriam de sua competência para outras pessoas jurídicas de direito público ou privado, dentro do âmbito da reforma do aparelho do Estado. Há busca pela gestão apropriada, e, principalmente eficaz. O Estado Brasileiro, como pessoa jurídica de direito público, além de outras tarefas, tem a incumbência de satisfazer as necessidades do povo que reside em seu território. Ocorrendo o deslocamento de atividades centrais a outros entes com o objetivo de desoprimir os órgãos públicos centrais, como também pela necessidade de especificidade. O Estado deve buscar definir suas atividades, limitar sua atuação em certo momento. Palavras-Chave: Administração, Estado, atividade, serviço, burocracia, fronteiras, reforma.. ABSTRACT. Anhanguera Educacional S.A. Correspondência/Contato Alameda Maria Tereza, 2000 Valinhos, São Paulo CEP. 13.278-181 [email protected]. Inside of the Brazilian bureaucratic current system, as observed in other historical moments, starting from the 70’s, the public administration adopts new guidelines to the practices and the regular and professional exercises of its activities, looking for the “Minimum State”, centered in main activities and relevant social interests, transferring the other main activities that initially would be owner of its competence to other public law legal or private entities inside of the reform extent of the state apparel. There is search for appropriate management, and especially efficient. The Brazilian State, as a legal person of public law, among other tasks, has the task of satisfying the needs of the people who live in its territory. Occurring displacement of the central activities of other entities in order to unburden the central government organs, but also by the need for specificity. The State must define its activities, limit its role in a moment. Keywords: Administration, State, activity, service, bureaucracy, border limits, reform.. Coordenação Instituto de Pesquisas Aplicadas e Desenvolvimento Educacional - IPADE Artigo Original Recebido em: 13/05/2008 Avaliado em: 15/06/2008 Publicação: 24 de outubro de 2008 155.

(2) 156. As novas fronteiras da atividade do Estado. 1.. INTRODUÇÃO Este trabalho está voltado para a análise das novas fronteiras da atividade estatal, criadas pelo desenvolvimento e mudança das perspectivas sociais no Brasil, e principalmente pelo plano diretor da reforma do aparelho do Estado. Tendo em vista a importância do Estado para a manutenção da ordem pública, é que se questiona sua administração em face da burocracia, que por vezes, traduzse em pedaços desnecessários e morosos. A burocracia é definida como o grupo de funcionários que exercem atividade de forma especializada e hierarquizada, visando administrar e organizar um determinado conjunto social, em determinada época e lugar; entende-se que esta afeta diretamente as mudanças que ocorrem dentro da estrutura governamental. A busca pela gestão apropriada, e, principalmente eficaz, deve, ou pelo menos deveria ser a vela mestra de toda essa transformação; e para se alcançar com êxito tais objetivos, é que se faz necessário a organização administrativa através da burocracia, sendo esta criada a princípio, para valorizar a operacionalização da máquina estatal. Sabe-se que, ainda hoje, as reformas administrativas são resultados das mudanças propostas por uma elite política que, através dos instrumentos de tomada de decisão, do aparelho do Estado, modificam os critérios tradicionais de formação da burocracia, e introduzem novos ícones na organização e administração do Estado. Com isso, por vezes, o que deveria ser uma proposta de operacionalização, torna-se, na prática, um obstáculo à prestação de serviços públicos. Entretanto, não obstante a esse fato, é possível viabilizar a gestão e a prestação de serviços pelo Estado, traduzindo-se a burocracia em gerenciamento. Diante do exposto, de maneira simples e objetiva, busca-se enumerar parte destes novos recursos que o Estado atualmente lança mão, para que seus objetivos, bem como suas atividades, sejam alcançados, direta e indiretamente.. 2.. O MODELO BUROCRÁTICO O modelo de administração burocrática teve seu início nos anos 30, com o movimento revolucionário, e a partir daí, iniciou-se uma corrida pela proteção aos direitos sociais e, principalmente, pela busca da intervenção econômica preconizada pelo governo. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165.

(3) Alessandro Gonçalves da Paixão, Jean Carlo Goulart Martins. Vargas. A administração pública, pela influência do processo de racionalização1, teve como resultado o surgimento das primeiras carreiras burocráticas, e na tentativa de adoção do concurso como forma de acesso ao serviço público; logo, a implantação da administração pública burocrática foi conseqüência da emergência de um capitalismo moderno no país, sendo tratada como fonte primária para se alcançar à modernização administrativa, que se pretendia para a época. E, paralelo a isso, com o fortalecimento do setor industrial através das empresas públicas, objetivou-se atingir um alto nível de desenvolvimento administrativo e social. Nesse sentido, com a descentralização administrativa, procurou-se viabilizar um Estado Moderno e dinâmico, delegando-se funções, ora eminentemente públicas, às empresas estatais. A empresa pública, com os lineamentos básicos que a distingue, ingressa na vida econômica nacional com o Instituto de Resseguros do Brasil, em 1939, a Companhia Siderúrgica Nacional em 1941, a Companhia do Vale do Rio Doce, em 1942. A estas se seguiram, em 1943, a Companhia Nacional de Álcalis, a Companhia Hidrelétrica de São Francisco, em 1945, e a Fábrica Nacional de Motores, em 1946.2. A sociedade do Estado não é tão-somente um fator econômico. É, essencialmente, um fato político.3 Quando foi percebido que o modelo adotado não atingiria os objetivos primitivamente propostos, então a administração burocrática passou por sucessivas tentativas de reforma, utilizando-se dos mais variados meios, como por exemplo, a criação e a extinção de órgãos, criação de estruturas paralelas que tinham como objetivo dar mobilidade a essa estrutura administrativa. Já no governo JK, com o mesmo fim de trazer mais mobilidade à burocracia, foi criada a Comissão de Estudos de Projetos Administrativos e a Comissão de Simplificação Burocrática. Ambas buscavam o estudo de projetos voltados para criar uma maior agilidade, tanto para os processos administrativos, quanto para a já perseguida descentralização4 de serviços.. 1A administração pública no final da década de 30 sofre uma grande influencia da teoria da administração científica de Taylor, tendendo à racionalização mediante a simplificação, padronização e aquisição de materiais, revisão de estruturas e aplicação de métodos na definição de procedimentos. 2 TÁCITO. Caio. O retorno do pêndulo: serviço público e empresa privada. O exemplo brasileiro. In: Temas de Direito Público (estudos e pareceres). v. 1, Rio de Janeiro: Renovar, 1997, p. 12. 3 Ibidem. p. 13. 4 Implica na retirada dos serviços do centro da administração, e a sua transferência para setores periféricos, descongestionando a administração pública.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165. 157.

(4) 158. As novas fronteiras da atividade do Estado. 3.. ADMINISTRAÇÃO INDIRETA Nesse contexto social e histórico, e na busca de acertos no sistema burocrático, a partir de meados dos anos 60, inicia-se uma nova tentativa, voltada para a chamada administração indireta, exatamente quando em 1967, através do Decreto-Lei nº. 200, realizou-se o início da transferência de atividades centrais para as autarquias, fundações, empresas públicas e sociedade de economia mista no intuito de desafogar os órgãos públicos centrais, como também pela necessidade de uma maior especialização, buscando visando, finalisticamente, a maior dinamismo operacional. Nesse sentido: Descentralização por serviços, funcional ou técnica é a que se verifica quando o poder público (União, Estados ou Municípios) cria uma pessoa jurídica de direito público ou privado e a ela atribui à titularidade e a execução de determinado serviço público.5. O Decreto-Lei nº. 200 trouxe um importantíssimo apoio, na tentativa uma vez mais de abrandar a rigidez burocrática, iniciando aí, para muitos, a administração gerencial no Brasil, contendo como um de seus maiores benefícios à especialização, com a criação dos grupos técnicos. A descentralização, além de aliviar o órgão central de certo número de atividades, ainda traz o benefício da especialização; com a criação da entidade, formarse-á (ou deveria formar-se) um corpo técnico, especializado na execução do serviço que lhe foi confiado.6. A grande crítica ao sistema adotado foi a de que, um dos meios para realmente se atingir a descentralização seria que, tais entidades da administração indireta fossem dirigidas pelos seus próprios membros, para dessa forma, resguardar a sua independência junto à administração central, o que, como já se sabe, quase nunca acontece. Matreiramente, o governo militar ao não desenvolver carreiras de administradores públicos de alto nível, simplesmente contratava os escalões superiores, objetivando desta forma manter o controle direto dos entes descentralizados, o que se nota ocorrer até hoje. Assim ocorrendo, as reformas trazidas pelo Decreto-Lei nº. 200 não refletiram realmente o que propunham com a descentralização dos serviços públicos, pois não geraram grandes mudanças junto à administração burocrática central, existindo concomitantemente e até concorrentemente, núcleos de eficiência na administração indireta e sistemas arcaicos, extremamente atrasados e ineficientes, junto à administração direta.. 5DI. PIETRO. Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 18. ed. São Paulo: Atlas, 2005, p. 363. p. 365.. 6Ibidem.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165.

(5) Alessandro Gonçalves da Paixão, Jean Carlo Goulart Martins. Aliás, para assegurar essa independência, o ideal seria que os dirigentes dessas entidades fossem eleitos por seus próprios membros, o que raramente ocorre. Em regra, a escolha dos dirigentes fica por conta da Administração Direta, ocupando eles cargos de confiança do Chefe do Executivo; isso cria uma vinculação prejudicial à independência da entidade, que acaba sendo dirigida pela própria pessoa jurídica que a criou precisamente para dar-lhe certa “autonomia”; torna-se, pois, imperfeita e, por vezes, inútil e onerosa a descentralização.7. 4.. O ENGESSAMENTO BUROCRÁTICO Os esforços de se criar uma administração pública gerencial foi todos colocados por terra quando a transição democrática de 1985 trouxe o infeliz retrocesso de loteamento dos cargos públicos da administração indireta. A alta burocracia passou, a partir daí, a ser acusada da crise vivida pelo Estado na medida em que favoreceu seu crescimento excessivo. Nesse contexto político, a Constituição Federal de 1988 veio promover um retrocesso burocrático criando um engessamento do aparelho do Estado, adotando para as empresas estatais praticamente as mesmas regras burocráticas rígidas, adotadas pelo núcleo estratégico do Estado. A Constituição Federal de 1988 determinou a perda da autonomia do Poder Executivo para tratar da estruturação dos órgãos públicos, instituindo a obrigatoriedade de regime jurídico único para os servidores, e retirou da administração indireta a sua flexibilidade operacional, ao atribuir às fundações e autarquias públicas normas de funcionamento idênticas às que regem a administração direta. Nota-se que para tais eventos negativos da década de 80, não se pode atribuir apenas, um suposto fracasso da descentralização e da flexibilização promovido pelo Decreto-Lei nº. 200, e sim, um conjunto de eventos político-administrativos8, bem como, a ampla campanha promovida pelo Estado de se promover a própria desestatização, levando os constituintes a uma busca para aumentar os controles burocráticos sobre as empresas estatais, criando normas ainda mais rígidas. Ante o exposto, observa-se que a reforma administrativa veio apenas tomar uma nova forma, a partir de 1994, pela inclusão de perspectivas novas, bem como, uma mudança organizacional e cultural da administração pública no sentido de uma administração gerencial.. 7. Ibidem. p. 364. A implantação da indústria de base nos anos 40 e 50, o ajuste nos anos 60, o desenvolvimento da infra-estrutura e a instalação da indústria de bens de capital, nos anos 70, de novo o ajuste e a reforma financeira, nos anos 80, e a liberação comercial nos anos 90, só foi possível por certa competência e atitude da burocracia brasileira. 8. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165. 159.

(6) 160. As novas fronteiras da atividade do Estado. 5.. DESESTATIZAÇÃO No contrapasso da criação de empresas públicas da administração indireta, surge em 1979, pelo Decreto nº. 83.740, o Programa Nacional de Desburocratização, buscando restringir a criação de empresas públicas, e principalmente, traçar as primeiras diretrizes de devolução à iniciativa privada, das atividades econômicas que, primitivamente eram de sua exploração e controle. Já em 1985, através do Decreto nº. 91.991, é criado o Conselho Interministerial de Privatização, e em 1988, o Conselho Federal de Desestatização. Essa nova fase é ressaltada pela Constituição Federal de 1988, que vem reafirmar o princípio da ordem econômica, permitindo assim, a presença do Estado em atividades de natureza econômica, apenas quando for de extrema necessidade, e se essa atividade estiver voltada para a garantia da Soberania, ou seja, voltada para a segurança nacional ou de relevante interesse coletivo. Tal processo foi inicialmente denominado pela legislação de privatização, com o advento da Lei nº. 9.491/97, tomou conotação mais ampla, e passou a ser tratado como desestatização: que se consubstancia na alienação pela União, de direitos que lhe assegurem, diretamente ou através de outras controladas, preponderância nas deliberações sociais e o poder de eleger a maioria dos administradores da sociedade, bem como, a transferência, para a iniciativa privada, da execução de serviços públicos explorados pela União, diretamente ou através de entidades controladas, bem como daquelas de sua responsabilidade. A privatização é exatamente a transferência9 de um serviço realizado pelo poder público para o poder privado e, também, a transferência da propriedade de bens de produção públicos para o agente econômico privado. O Estado vende seus ativos, retirando-se da atividade produtiva que desempenhava - atividade que poderia ser de mercado ou fora de mercado. Na venda de seus bens de produção, o Estado poderá vender empresas que realizam atividade de interesse coletivo, e que agem diretamente no mercado, como também poderá alienar bens de produção daqueles serviços que são de sua atribuição normativa e se desenvolvem fora das relações de mercado (neste caso específico, a venda do bem será vinculada à obediência das condições para a concessão do serviço). A propriedade é alienada ao concessionário: o patrimônio segue aquele que é considerado no processo licitatório apto a exercer o serviço público.10. 9 Pela primeira modalidade, a titularidade do serviço continua sendo do poder público, mas seu exercício é transferido para o agente privado. 10 DERANI. Cristiane. Privatização e serviços públicos - as ações do Estado na produção econômica. São Paulo: Max Limonad, 2002, p. 110.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165.

(7) Alessandro Gonçalves da Paixão, Jean Carlo Goulart Martins. Nesse novo rompante histórico, o Estado passa a transferir à iniciativa privada as suas empresas, na tentativa de devolver a este setor certa liberdade e autonomia; buscando também um fortalecimento no entrelace entre o público e o privado. A propriedade privada retoma, de certa forma, sua autonomia, obscurecida pela exacerbação do intervencionismo estatal na economia, mas fica nítida a subordinação de sua atividade aos pressupostos da função social que dela se exige. Em termos contemporâneos o direito público passa a refletir - e são modelos desta tendência as novas constituições do final de século - duas vertentes específicas: a política de privatização e de desburocratização da máquina estatal fortalece a associação entre a iniciativa privada e o serviço público. De outra parte, valoriza-se a comunhão entre nações e regiões, superando barreiras nacionais ou limitações de autonomia federativa.11 Nesse ponto, faz-se uma observação, pois caso a empresa desestatizada realize a prestação de serviços, necessariamente com a sua venda, necessita-se do fornecimento da concessão ou permissão do serviço objeto da exploração, sendo totalmente inútil para a iniciativa privada, adquirir uma empresa pública, sem que isso ocorra. Por outro lado, um dos maiores objetivos da alienação ou leilão do patrimônio ou de direitos de propriedade da empresa estatal é, sem dúvida nenhuma, trazer uma maior competitividade ao mercado; já, na licitação, para a concessão ou permissão de serviço público, diretamente, busca-se uma maior vantagem ao interesse público, e não a livre concorrência com a quebra do monopólio estatal. Os objetivos que são buscados com a desestatização estão dispostos no art. 1º da Lei nº. 9.491/97, que para muitos, não foram atingidos, e nem mesmo surtiram os efeitos desejados. Como nas últimas décadas o Estado se mostrou um mau produtor, e principalmente, um mau administrador de suas empresas, criou-se a teoria de que o Estado não traz a eficiência desejada, já à iniciativa privada, pelo contrário, é sim um bom produtor, e seus resultados são alcançados com a eficiência desejada, mostrando-se esse o maior argumento para impulsionar as privatizações, sendo o primeiro e principal objetivo previsto em Lei. O segundo objetivo, e o mais criticado, é a intenção de amortização da dívida externa, com o capital arrecadado pela venda das empresas públicas; política que, para a maioria dos autores, torna-se ineficaz e arriscada, por se tratar de uma economia frágil e em desenvolvimento, e principalmente, por traduzir uma linha de desenvolvi-. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165. 161.

(8) 162. As novas fronteiras da atividade do Estado. mento contábil errônea, pois o caminho correto para solucionar a dívida pública deveria ser por uma recondução dos gastos. Outro objetivo, é que o Estado concentre suas atenções em atividades onde a sua participação seja indispensável, e que se traduza nas consecuções das prioridades nacionais. Nesse tópico, a doutrina também traz certa crítica, pois como explicar que as empresas públicas, criadas por lei, e que expressam o interesse coletivo e a segurança nacional, passem quase que instantaneamente, a ser consideradas atividades sem importância para a coletividade!? A Lei também contempla a idéia de que a economia se fortalece, bem como, o parque industrial se moderniza, trazendo uma maior competitividade aos diversos setores, ocasionando assim uma melhoria da capacidade e qualidade produtiva, pelo investimento privado. Ocorre que essa idéia está vinculada, necessariamente ao investimento contínuo de capital da iniciativa privada, de forma pulverizada, o que ainda não foi constatado com clareza. Outro aspecto temerário, sobre esse assunto, seria a possibilidade de formação de um monopólio privado, sem qualquer traço de competitividade, pela falta de interesse de investimento, trazendo o total fracasso aos objetivos com a desestatização. E, por fim, sobre o tema deste tópico, não foi observado a inclusão no programa nacional de desestatização, as condições de salvaguardas12, no sentido de proteger a economia brasileira dos efeitos contrários da venda dos ativos públicos. As principais justificativas, para a existência das salvaguardas, seriam: •. a não transferência completa ao capital estrangeiro, de todo um setor produtivo;. •. sendo um serviço público inicialmente de responsabilidade e competência do poder público, a impossibilidade que às vezes se verifica do retorno à iniciativa pública, de uma empresa que foi privatizada, se traduzindo na incapacidade de prestação futura desse serviço pelo Estado;. •. a previsão da forma de pagamento pela compra das empresas públicas, o que também não se observa na lei brasileira, podendo inclusive o pagamento ser feito totalmente através de títulos da divida pública, sacrificando desta forma o segundo objetivo da lei, que nada mais é que, a capitação de divisas para o pagamento da dívida pública.. 11. TÁCITO. Caio. O retorno do pêndulo: serviço público e empresa privada. O exemplo brasileiro. In: Temas de Direito Público (estudos e pareceres). v. 1. Rio de Janeiro: Renovar, 1997, p 16. 12 Ter o interesse da coletividade resguardado, impondo uma série de limitações visando proteger os interesses nacionais, bem como, a própria segurança nacional, que pode ter afetada a sua soberania.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165.

(9) Alessandro Gonçalves da Paixão, Jean Carlo Goulart Martins. 6.. TERCEIRO SETOR Figuras jurídicas introduzidas pela reforma administrativa, ou simplesmente e rapidamente propagadas entre nós, o que pode ser explicado pelos seus próprios objetivos, que apesar de não estando previsto na Constituição Federal, já se fazem presentes, não só na doutrina e jurisprudência, como também, e principalmente, em leis ordinárias e complementares. O terceiro setor, ou entidades para paraestatais, assim entendido como aquele composto por entidades da sociedade civil, sem fins lucrativos, e de finalidade pública, é uma zona que coexiste com o chamado primeiro setor - o Estado, e o segundo setor o mercado. Vem-se pulverizando, entre os estudiosos, o termo em questão. Considera-se como primeiro setor o Estado (ente público, que visa o interesse público); como segundo setor, o Mercado (composto por entes privados, que visam o lucro); e o terceiro setor, como uma síntese (entes privados com fins públicos). O terceiro setor é formado por entidades civis sem fins lucrativos, “não vinculados à organização centralizada ou descentralizada da Administração Pública”13, com personalidade jurídica de direito privado, de fins públicos e não-lucrativos. Sendo de suma importância, para a continuação e manutenção do desenvolvimento do país, o terceiro setor vem se mostrando uma grande possibilidade para a realização eficiente das tarefas, em que o Estado já se mostrou ineficaz e inapetente para sua realização. Na realidade, ele caracteriza-se por prestar atividade de interesse público, por iniciativa privada, sem fins lucrativos; precisamente pelo interesse público da atividade, recebe em muitos casos ajuda por parte do Estado, dentro da atividade de fomento; para receber essa ajuda, tem que atender a determinados requisitos impostos por lei que variam de um caso para outro; uma vez preenchidos os requisitos, a entidade recebe um título, como o de utilidade pública, o certificado de fins filantrópicos, a qualificação de organização social. Esse tipo de entidade existe desde longa data, mas agora está adquirindo feição nova, especialmente com a promulgação da Lei nº. 9.790, de 22-3-99, que dispõe sobre as organizações da sociedade civil de interesse público. Normalmente, celebram convênio com o poder público, para formalizar a parceria.14. As duas mais recentes qualificações jurídicas para entidades do terceiro setor, as Organizações Sociais e as Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público vêm à tona como uma tentativa de superação das insuficiências das formas anteriores, tendo uma forma mais concreta e harmonizada com a realidade social atual. 13 14. FERREIRA DA ROCHA, Silvio Luís. Terceiro setor. São Paulo: Malheiros, 2003, p. 13. DI PIETRO. Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 18. ed. São Paulo: Atlas, 2005, p. 426.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165. 163.

(10) 164. As novas fronteiras da atividade do Estado. Nesse mesmo sentido de entidades paralelas ao Estado, podem ser incluídas, hoje, além dos serviços autônomos, também as entidades de apoio (em especial fundações, associações e cooperativas), as chamadas organizações sociais e as organizações da sociedade civil de interesse público. Na realidade, todas essas entidades poderiam ser incluídas no conceito de serviços sociais autônomos; no entanto, elas serão analisadas com suas denominações específicas, não só porque estão sendo tratadas dessa forma, como também porque apresentam determinadas peculiaridades que merecem ser apontadas separadamente.15. A Lei nº. 9.637/98 criou as organizações sociais. A Lei nº. 9.790/99 criou as organizações da sociedade civil de interesse público - OSCIPs. Observa-se, que, para alguns Autores, não se trata de novos tipos de entidades, mas apenas uma qualificação, um título que recebem, e que lhes garante acesso aos benefícios. Nota-se, que a partir da qualificação, as entidades civis passam a receber recursos orçamentários, benefícios tributários, gerir bens públicos e até receber servidores cedidos, trazendo assim ônus para o Estado. Com o contrato de gestão ou termos de parceria, visa-se a possibilidade da administração fixar metas e prazos a serem cumpridos pela entidade privada, a fim de permitir um melhor controle de resultados.. 7.. CONCLUSÃO Diante de tudo que foi exposto até aqui, finaliza-se com a observação, de que a tentativa constante de implementação da reforma administrativa vem oferecer alternativas consideráveis para transformar a capacidade do Estado, inovando as formas de se buscar atingir as suas atividades, com eficiência. Ao analisar as Organizações Sociais e as OSCIPs, buscando um paralelo, verifica-se que as OS representam uma “privatização do público”, já as OCIPIs representam certa “publicização do privado”, apesar de ter uma finalidade comum, traduzemse em situações distintas. A maleabilidade incutida pelas OS e OSCIPs, trazem também grandes vantagens para a administração pública por permitir formas mais ágeis e eficientes de gestão e incentivo na realização das atividades propostas. Buscando o sucesso das atividades administrativas e principalmente dos serviços públicos, é importantíssima a análise de todas as atividades voltadas para implementar e principalmente auxiliar, esta atividade. Nesse contexto é claramente notado que a abertura ou não da economia, a criação de entidades públicas e privadas, a. 15. Ibidem. p. 425.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165.

(11) Alessandro Gonçalves da Paixão, Jean Carlo Goulart Martins. extinção de entidades, estão diretamente ligadas a questões sociais, políticas, históricas e principalmente ideológicas. O pêndulo, de que trata o professor Caio Tácito16, nada mais é, do que o enfrentamento destes insumos, na busca constante do “equilíbrio estável da perfeição”. E, assim sendo, o Estado fica com suas atividades definidas, ou seja, com a limitação da sua atuação dispostas em determinada época, por uma série de fatores, sendo alguns destes apresentados neste trabalho. E, finalmente, expor que o sistema de organização administrativa, bem como seus serviços, estão voltados para parâmetros internos e externos; e, tendo em vista que a sociedade é complexa, deve-se haver planejamento para se alcançar determinado desenvolvimento.. REFERÊNCIAS BARROS JÚNIOR, Carlos Schimidt de. Compêndio de Direito Administrativo. São Paulo: Max Limonad, 1963. CAETANO, Marcelo. Manual de Direito Administrativo. Lisboa: Coimbra Editora, 1969. CRETELLA JÚNIOR, José. Curso de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Forense, 1986. DERANI, Cristiane. Privatização e serviços públicos: As Ações do Estado na Produção Econômica. São Paulo: Max Limonad, 2002. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2005. ______. Parcerias na administração pública: concessão, permissão, franquia, tercerização e outras formas. São Paulo: Atlas, 2005. FERREIRA DA ROCHA, Silvio Luís. Terceiro Setor. São Paulo: Malheiros, 2003. LIMA, Ruy Cirne. Princípios de Direito Administrativo. São Paulo: RT, 1982. MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Malheiros, 2005. TÁCITO, Caio. Direito Administrativo. São Paulo: Saraiva, 1975. ______. O retorno do pêndulo: serviço público e empresa privada. O exemplo brasileiro. In.: Temas de Direito Público (estudos e pareceres), v. 1, Rio de Janeiro: Renovar, 1997.. 16. TÁCITO. Caio. O retorno do pêndulo: serviço público e empresa privada. O exemplo brasileiro. In: Temas de Direito Público (estudos e pareceres). v. 1, Rio de Janeiro: Renovar, 1997, p 16.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 155-165. 165.

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