Universidade do Minho - Escola de Engenharia MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL Plano de Trabalhos para Dissertação de Mestrado 2018/19

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Universidade do Minho - Escola de Engenharia MESTRADO INTEGRADO EM ENGENHARIA CIVIL Plano de Trabalhos para Dissertação de Mestrado – 2018/19

Tema: Implementação do modelo “Smart cities are walkable”: à cidade de Guimarães Aluno(a): Escolástica Isabel Furtado Fernandes

Número da Aluna: 61793 Orientador: Rui A. R. Ramos

1. Introdução

Andar a pé (walkability, em Inglês) como modo de mobilidade urbana, nos anos mais recentes, tem vindo a ganhar a protagonismo no planeamento e gestão de uma mobilidade urbana sustentável. No contexto urbano, a componente inicial e final das deslocações é efetuada predominantemente por andar a pé. Contudo, cada vez se está a promover que aumentem a distância e o tempo desse modo de deslocação. Para isso, é fundamental estudar se as cidades estão a promover esse crescimento, como por exemplo adotando estratégias em que a estrutura urbana ofereça melhores condições para que os peões se desloquem e a estrutura das ruas existentes evidenciem uma rede para deslocações a pé.

Por outro lado, atualmente, num mundo dominado pela tecnologia, a informação flui de forma rápida e é de fácil acesso, e ficam evidentes os efeitos do estilo de vida atual e do crescimento da população nas áreas urbanas. De acordo com os dados mais recentes, divulgados por muitas cidades que investem na promoção de modelos de mobilidade mais sustentáveis, a poluição ambiental e o sedentarismo são duas das consequências do uso excessivo de veículos motorizados particulares. Este excesso, que ocorreu após a era industrial, é atualmente identificado por várias organizações mundiais como um dos grandes contribuintes para que as taxas da mortalidade e morbilidade nos centros urbanos ainda sejam elevadas, contrariando os efeitos na melhoria das condições de saúde das populações.

A nível de saúde, o sedentarismo é um dos grandes problemas da população atual afetando todas as idades, maioritariamente as faixas etárias mais novas. De acordo com um relatório da OMS - Organização Mundial de Saúde, publicado em 2018, 1 em cada 4 adultos e 3 em cada 4 jovens (11-17 anos) não praticam os níveis mínimos de atividade física desejáveis, nomeadamente 150 minutos semanais de intensidade moderada no caso dos adultos (podendo incluir trabalho e trabalho doméstico, deslocações tipo caminhar e de bicicleta, e recreativas incluindo desporto). Para os jovens as recomendações são de 60 minutos diários de atividade moderada a intensa.

Assim, o sedentarismo e a dependência dos veículos motorizados para a maioria das deslocações nos grandes centros urbanos podem ser identificados nos hábitos da maioria da população. Fica evidente que é muito frequente a população urbana utilizar o veiculo motorizado tanto para grandes como pequenas distâncias, independentemente de ser ou não mais rápido e ou mais fácil por vezes efetuar as mesmas deslocações através de andar a pé ou em veículos não motorizados, como por exemplo as bicicletas. Outra dimensão em que fica evidente que a opção pela utilização de veículos motorizados deve ser cada vez mais reduzida é a poluição ambiental, já que é possivel ver e sentir os seus efeitos a nível global pelas mudanças climáticas. Deste modo, cada vez mais, a nível mundial os vários governos estão a tomar medidas para a redução na produção dos gases de efeito estufa, criando limitações e fazendo alterações para que haja alguma regressão nas atividades humanas que são as principais causadoras do crescimento massivo da poluição ambiental. Nas cidades, a poluição ambiental resultante dos modos de transporte manifesta-se, em grande parte, de forma silenciosa, pois o ambiente criado causa grandes problemas de saúde especialmente naqueles que passam grande parte do seu tempo nas cidades. Estes problemas podem se manifestar de várias formas, como stress, muitas vezes causado pela sensação de urgência provocada especialmente pela poluição sonora, ou problemas de desidratação e redução da capacidade termorreguladora corporal caso se verifique a existência de ilhas ou ondas de calor. A longo prazo há o aparecimento de problemas a nível pulmonar, auditivo, entre outros. Também, os problemas causados a nível social, ambiental e económico levaram a que muitas cidades definam objetivos e metas a cumprir que ajudem a atenuar ou contraiar os efeitos do uso excessivo de veículos motorizados, promovendo de forma efetiva o conceito de mobilidade sustentável.

Neste âmbito, o projeto “Smart Pedestrian Network” (SPN) esta a ser desenvolvido para as cidades de Bologna e Porto, e pretende criar uma melhor consciência para a importância do planeamento e gestão do espaço público urbano numa perspetiva de que as cidades possuam uma efetiva rede para deslocações a

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pé. Desta forma, além de se promover o andar a pé, também será possível combater a poluição do ar e sonora nas cidades, através da redução de veículos motorizados que circulam dentro das cidades, diminuindo as emissões de CO2 e outros poluentes lançados para a atmosfera e aumentando a atratividade e acessibilidade das cidades para atividades que promovam um melhor bem estar das suas populações e visitantes.

No âmbito do SPN, para as cidades que o adotem, será identificada uma rede urbana para deslocações a pé, permitindo que qualquer pessoa possa mais facilmente identificar a rota a tomar tendo em conta as suas preferências e deslocação a fazer. Desta forma assume-se que será potenciado o deslocar a pé em percursos cada vez mais longos. Para a identificação das potencialidades e das fragilidades para andar a pé nas atuais ruas da cidade, que constituem a rede urbana de mobilidade, é implementado um modelo desenvolvido especificamente para o SPN e que se apoia numa análise multicritério com base espacial. Os critérios de avaliação estão diretamente ligados ao ambiente urbano e às opções individuais dos diferentes utilizadores e visam avaliar se as ruas cumprem limiares mínimos que promovam a decisão de deslocamento dos utilizadores para andar a pé. O SPN tem um carater de apoio ao planeamento e gestão das cidades, sendo uma ferramenta para a entidade gestora do espaço urbano de forma a melhorar a qualidade de vida dos que se deslocam a pé na cidade, sendo que também visa a gestão individual dos peões, já que permite a estes identificar melhor a rede que podem utilizar nas suas deslocações. Em termos da economia local, também se pode referir que o facto de promover que mais pessoas andem a pé nas cidades se propícia um maior contacto com o comércio local levando a uma evolução económica ao nível das ruas e do respetivo comércio (frequentemente denominado de tradicional).

O Estudo de Caso a desenvolver será efetuado na cidade de Guimarães. Podemos identificar que é uma cidade que que tem sido feito um notável esforço por parte de quem a governa para a tornar cada vez mais sustentável, em múltiplas dimensões, através de iniciativas como a “Agenda 21 Local” e a candidatura de Guimarães a “Capital Verde Europeia 2020”. Naturalmente que este esforço também tem tido o respaldo das várias entidades e dos cidadãos da própria cidade, o que tem promovido adoção de ações efetivas em prol de uma cidade mais sustentável. Num estudo realizado pela Organização Mundial de Saúde, ligado a iniciativa “The Breathelife Network”, verificou-se que o nível de partículas finas inaláveis (PM 2.5) em Guimarães se encontra 70% abaixo do nível de segurança. O desenvolvimento recente de múltiplas iniciativas demostra a disponibilidade da cidade, e de muitos dos seus agentes, em apoiar e implementar projetos em que se visa promover uma maior sustentabilidade urbana, em especial na mobilidade. Também, sendo uma cidade em que o deslocar a pé é fácil, face às caraterísticas da morfologia e ambiente urbano, uma cidade relativamente compacta e plana (com alguns desníveis perfeitamente compatíveis com o deslocar a pé) e com ruas com uma escala humana, identifica de forma evidente que num raio em torno do centro urbano é possível ter uma efetiva rede de deslocações a pé, para distâncias de 1 a 2km. Assim, o estudo que será realizado pode ser identificado como uma mais valia para a cidade.

2. Objetivos

O objetivo do trabalho de Dissertação, numa primeira fase, é a compreensão e aplicação do modelo “Smart Pedestrian Network” (SPN) ao centro da cidade de Guimarães (ver figura 1), definição da zona em estudo e identificação das ruas, e caso necessário segmentação das ruas em estudo para uma melhor recolha de dados relativos aos critérios definidos pelo SPN.

Após os dados estarem todos organizados, utilizando os critérios de classificação estabelecidos no SPN, o objetivo é avaliar cada rua, ou segmento de rua, para efetuar uma classificação conforme a seu comportamento segundo o modelo de análise multicritério. Também, será efetuado um estudo da rede pedonal existente, para perceber se é possivel criar rotas compostas por ruas de boa classificação ou se estas estão ligadas a ruas com uma prestação menos adequada para o modo de andar a pé. Paralelamente será efetuada uma identificação e avaliação das medidas que a cidade tem adotado para a qualificação do espaço público e de que forma essas medidas são efetivas para o modo de andar a pé.

Será ainda efetuado um estudo junto aos peões, através da implementação de um inquérito, de forma a recolher a sua perceção sobre as condições oferecidas pelas ruas da cidade para a deslocação pedonal. Dessa forma será possível comparar os resultados obtidos pelo modelo e pelo inquérito, para se conseguir identificar se há, ou não, uma efetiva rede pedonal na cidade de Guimarães e salientar os pontos positivos e negativos da mesma.

Por último, serão sintetizados os pontos críticos na zona de estudo da cidade para as deslocações a pé, ou seja, serão identificadas as zonas ou áreas que tenham obtido classificações baixa no SPN e serão salientados os fatores que levaram a serem penalizadas e/ou em que os peões tenham identificado pelo inquérito que são zonas menos adequadas às deslocações a pé. Tendo por base essa análise será apresentada uma proposta de intervenções no espaço público da zona em estudo que permita vir a melhorar a sua integração numa efetiva rede de circulação pedonal atrativa e promotora das deslocações a pé.

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3. Metodologia

A pesquisa começará pelo estudo do modelo SPN já em implementação nas cidades de Bologna e do Porto, de forma a perceber os fatores e critérios escolhidos, como foi feita a avaliação e classificação das ruas e quais os resultados obtidos junto dos especialistas e dos peões.

Como se trata da aplicação do SPN, já estão determinados os fatores (acessibilidade, segurança e proteção, instalações para pedestres, uso do solo, design urbano e ambiente físico) que serão analisados ao nível das ruas em estudo. Para cada um dos critérios que influenciam a decisão dos peões e o modelo de avaliação será identificada a respetiva forma de análise ao nível da rua ou segmento de rua. Logo, o primeiro passo após o estudo do SPN, será efetuar a recolha de dados para cada rua ou segmento de rua, dentro da zona de estudo definida. Na figura 1 é apresentada uma proposta inicial para a zona de estudo, que terá que ser validada antes de se iniciar o trabalho de recolha de dados.

A sistematização dos dados será feita com recurso a um sistema de informação geográfica, após a avaliação in loco feita através de deslocação às ruas da zona de estudo. Durante a fase de recolha de informação, e antes de passar a mesma para o sistema de informação geográfica, os dados serão organizados num ficheiro Excel com o nome de cada rua (se necessário, face a possuir várias características diferentes ao longo da sua extensão, algumas ruas serão subdivididas em segmentos identificados) e os dados obtidos para cada critério.

Paralelamente à recolha dos dados para caracterização de cada rua, será efetuada uma identificação e avaliação das medidas que a cidade tem adotado para a qualificação do espaço público e de que forma essas medidas são efetivas para o modo de andar a pé. Esta recolha será feita tempo por base a identificação in loco da adoção de determinadas medidas construtivas e de sinalização nas ruas em avaliação.

Numa fase mais avançada, será feita uma avaliação rigorosa dos dados obtidos e tendo em conta a grelha de avaliação e o peso de cada um dos critérios já estudados no SPN. Após essa avaliação será atribuída uma classificação a cada uma das ruas. Essa classificação resultante da aplicação do modelo, será validada pelos especialistas e utentes (peões da cidade de Guimarães).

Sendo assim, o passo seguinte, é a criação de um questionário para que se possa obter o parecer dos peões em relação a mobilidade e quais os fatores que atualmente tem influência na decisão de usar ou não meios de transportes mais sustentáveis.

Por último, será desenvolvida uma análise critica dos resultados obtidos avaliando o nível de adequação do espaço urbano e conectividade entre ruas tendo em vista constituir uma rede de circulação pedonal o mais eficiente possivel que permita um deslocamento rápido, seguro e confortável para os peões no centro da cidade de Guimarães.

4. Resultados Esperados

Aplicar a metodologia do “Smart Pedestrian Network” no centro da cidade de Guimarães, através do estudo espacial e uma análise multicritério.

Definição de uma proposta de uma rede de circulação pedonal eficiente e atrativa para a zona em estudo. Identificar quais as áreas e fatores críticos do atual espaço urbano da zona em estudo e que necessitam ser intervencionados.

Conjunto de sugestões de melhoramento que podem garantir uma melhor atratividade para o deslocamento por meios sustentáveis na zona em estudo, e se possível, algumas sugestões gerais quem podem ser adotadas em muitas outras cidades com problemas similares

5. Faseamento e Calendarização

5.1 Faseamento

O projeto será dividido em cinco fases:

• Fase 1 – Aplicação do modelo SPN à zona de estudo: Nesta fase está incluído a analise do modelo SPN existente de forma a perceber quais os dados necessários recolher para cada rua; será ainda consolidado um breve Estado de arte tempo por base o conhecimento já existente no projeto em curso e em que o modelo SPN está a ser adotado; Na cidade de Guimarães será identificada e caracterizada a zona de estudo e as respetivas ruas que serão avaliadas; criação e estruturação de um ficheiro Excel com o nome de todas as ruas em estudo e dados a recolher de cada uma delas; aprendizagem do funcionamento do sistema de informação geográfica (SIG) e preparação da base

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cartográfica para a zona de estudo; recolha de dados através de deslocamento a cada rua para recolha de dados e organização dos dados no ficheiro Excel organizado anteriormente; transferência dos dados para o SIG.

• Fase 2 – Avaliação e qualificação: Após a recolha dos dados e a sua organização, o passo seguinte é a avaliação tendo em conta os critérios utilizados no SPN; nesta fase será identificada a classificação de cada rua ou segmento de rua tendo em conta a análise multicritério e espacial. • Fase 3 – Inquéritos: Para validação dos resultados, tal como foi feito para o SPN, serão feitos

inquéritos aos peões da zona em estudo, sendo que essa informação depois deverá ser organizada e sistematizada.

• Fase 4 – Análise dos resultados obtidos: Concluídas as fases 2 e 3, será necessário fazer uma análise critica dos resultados obtidos em cada uma e identificados quais as componentes (zonas e fatores) em que há convergência ou divergência. Para as partes em discordância das duas componentes do estudo procurar-se-á perceber quais os fatores que originam essas diferenças. Se oportuno, nesta fase procurar-se-á também identificar evidências resultantes em estudos internacionais similares. • Fase 5 – Avaliação da rede pedonal e conclusões: Por último, com os dados todos avaliados,

classificados e discutidos, será feita o estudo ao nível de adequação do espaço urbano e de conectividade das ruas de forma a construir uma rede de circulação pedonal. Posteriormente serão retiradas as principais conclusões relativas à rede de circulação pedonal e respetivo nível de eficiência e adequação à cidade de Guimarães. Serão ainda propostas algumas conclusões genéricas úteis para o desenvolvimento de uma análise similar em outras cidades

• Fase 6 – Escrita da Dissertação: a escrita da Dissertação será feita ao longo do desenvolvimento das várias fases identificadas antes, de forma a que no fim de cada fase haja uma descrição da forma como cada uma foi efetuada, quais os elementos de suporte importantes para a realização das tarefas efetuadas, os resultados alcançados e uma breve discussão crítica. Nas 2 últimas semanas será reescrita cada uma das seções da Dissertação de forma a se obter a versão final.

5.2 Calendarização

O desenvolvimento dos trabalhos conducentes à realização da Dissertação coincide com o decorrer do 2ºsemestre letivo do ano letivo 2018/19. Está previsto que a conclusão dos trabalhos, incluindo a escrita da Dissertação, ocorra no início de julho de 2019.

Tempo (semanas) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 Fase I X X X X X X X X Fase II X X X X X Fase III X X X X Fase IV X X X X Fase V X X X Fase VI X X X X X X X X X X X X X X X X

Referências Bibliográficas

ArcGis, Disponível em: < https://www.arcgis.com/home/webmap/viewer.html?useExisting=1>, acesso: 27 de fevereiro de 2019.

BREATHELIFE, THE AIR POLLUTION IN GUIMARAES, PORTUGAL. Disponível em:

< http://breathelife2030.org/city-data-page/?city=3472>, acesso: 26 de fevereiro de 2019. JPI Urban Europe, SMART PEDESTRIAN NET, Disponível em:

< https://jpi-urbaneurope.eu/app/uploads/2017/06/Project-posters-2017-Smart-Pedestrian-Net.pdf >, acesso: 24 de fevereiro de 2019.

Mona Jabbari, Fernando Fonseca & Rui Ramos (2017): Combining multicriteria and space syntax analysis to assess a pedestrian network: the case of Oporto, Journal of Urban Design, 5, 1-5.

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SMART PEDESTRIAN NET, Study, concepts and formulation and standards for SPN (Task1 - Report), CTAC, Braga, 9 de abril 2018.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Global action plan on physical activity 2018–2030: more active people for a healthier world.2018.

Figuras

Figura 1 - Cidade de Guimarães, em que a verde é delimitada a zona de estudo (fonte: ESRI ArcGis)

A Aluna, O Orientador, ________________________________ ________________________________ 1,6km 21min. a pé 1,4km 18min. a pé

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