Gramaticalização e Relações Intersentenciais
Sintaxe do Português II
1º semestre de 2016
Prof. Dr. Paulo Roberto Gonçalves Segundo
FFLCH-USP – DLCV – FLP
Considerações iniciais sobre Gramaticalização
(Lehmann; Hopper & Traugott; Halliday; Langacker; Evans & Green; Martelotta; Gonçalves, Lima-Hernandes, Casseb-Galvão, Carvalho; Gonçalves, Carvalho; Traugott & Dasher; Trousdale)
1. Gramaticalização como categoria cognitivo-funcional
a. Mudança linguística: “surgimento de novas funções para formas já existentes e de
novas formas para funções já existentes” (GONÇALVES et al., 2007: 15).
b. Meillet (1912: 131): “passagem de uma palavra autônoma à função de elemento
gramatical”, ou seja, [léxico] > [[gramática [sintaxe] > [morfologia]]
c. Lehmann (1982) ou Hopper & Traugott (1993): gramaticalização envolve um cline de
mudança, que envolve flexibilização, escalaridade e mudança categorial.
d. Bybee et al. (1994): processo dinâmico que reflete não apenas um movimento
contínuo em torno de estruturas, mas, principalmente, a atividade cognitiva dos falantes,
motivadas por assimetrias na combinação forma-significado, verificadas na relação entre
produção e interpretação.
Gramaticalização
envolve
mudança
linguística
–
semântico-pragmático,
morfossintática, fonético-fonológica –, mas nem toda mudança linguística consiste em
gramaticalização.
Gramaticalização
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2. Clines de gramaticalização
a. Heine e Traugott (1991): espaço > (tempo) > texto.
b. Traugott & Dasher (2005): objetividade > subjetividade > intersubjetividade
Exemplo: até (BAIÃO & ARRUDA, 1996)
i. [...] exatamente nessa avenida que ele morou tinha uma das fãs dele... que já tinha
namorado... ele me pediu licença e disse vou até o portão e rápido [...]
ii. [...] os pais dele moram lá... aí quando foi esse mês agora de outubro... Né? Ele voltou... aí
me procurou e até hoje... até hoje nós estamos namorando [...]
iii. [...] aí eu fiquei de meio-dia até meia-noite na delegacia de roubos e furtos de
automóveis por causa de... uns atestados falsos ela mandou por conta dela... portanto... isso saiu
até no Jornal do Brasil... [...]
iv. [...] pra mim casamento praticamente é uma rotina já... né? Pelo tempo que peguei de
casada... tô quase chegando a boda de prata... então... para mim não foi tão ruim assim... pra mim
aguentá até hoje... foi até bom tá? [...]
Gramaticalização
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2. Clines de gramaticalização
c. Tavares (2009); Braga e Paiva (2003): dêitico > fórico > juntor > marcador discursivo
Exemplo então (RISSO)
i. Em março de 1991, o presidente Fernando Collor assinou um novo decreto, prorrogando a
permanência dos garimpeiros em Serra Pelada por mais três meses. Em junho, deu um novo prazo,
fevereiro de 1992. Declarou-se, a partir de então, o processo de tombamento histórico de Serra
Pelada (RISSO, 2006, p. 451).
ii. quer dizer somos de famílias GRANdes e:: ... então ach/acho que:: ... dado esse fator nos
acostumamos a:: muita gente (RISSO, 2006, p. 454).
iii. mas acho válido você botar a criança o mais cedo possível na escola ... esse problema de puxar pela
criança -- “Ah ... não deve puxar pela criança” -- eu acho que isso não funciona muito ... porque a
criança vai a maternal somente pra brincar ... ser educada ... aprender a fazer coisas que em casa a
mãe às vezes ... não tem condições de ensinar [...] então ... eu acho válido botar a criança o mais cedo
possível na escola (RISSO, 2006, p. 460).
iv. [...] troca de lado troca de sinal... a gente faz o quê então?... Passa dividin/ ((sinal)) então TURma...
para a próxima aula tarefa... Exercícios dez onze doze página oitenta e cinco...
Gramaticalização
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3. Tendências nos estudos de Gramaticalização
e. Trousdale (2013) aponta duas tendências nos estudos de gramaticalização:
i. foco na forma: a gramaticalização é vista como envolvendo maior dependência e redução de vários aspectos da expressão original, com destaque ao fonético-fonológico. Exemplos: cantare habeo >
cantarei; Vossa Mercê > vosmecê > você > ocê > cê; deixa eu ver > deixovê > xovê; não é? > né?.
ii. foco no significado: a gramaticalização é vista como envolvendo uma expansão semântico-pragmática, com aumento dos padrões colocacionais. Exemplos: até; então; desde que (temporal)
> desde que (condicional).
f. Metáforas e metonímias também ocupam papel importante no processo de gramaticalização, conforme ressaltam Hopper & Traugott (1993).
Gramaticalização
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3. Tendências nos estudos de Gramaticalização
Metonímia, Reanálise e Negação (CUNHA, 2012 com adaptações)
[não + SV] > [não + SV] não > [não + SV + não] > [num + SV + não] > num [SV + não] > [SV não]
i. Ela não tava sabendo reger direito.
ii. Ela não tava sabendo reger direito, não. iii. Ela não tava sabendo reger direito não. iv. Ela num tava sabendo reger direito não. v. Ela ‘ntava sabendo reger direito não. vi. Ela tava sabendo reger direito não.
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3. Tendências nos estudos de Gramaticalização
Metáfora, Metonímia, Analogia no verbo deixar (Silva, 1997 com adaptações)
Latim: laxare ‘afrouxar, relaxar’ > ‘largar-soltar-liberar’ (metonímia conceptual CAUSA-EFEITO)
> ‘abandonar em um lugar’
Português: leixar
Desenvolvimento metafórico 1: ESTADOS SÃO LUGARES: deixar o carro na garagem > deixar o
carro quebrado
Desenvolvimento metafórico 2: PERMITIR É RELAXAR RESTRIÇÃO (forças psicossociais são
forças físico-espaciais): deixar o copo cair > deixar o menino sair
Desenvolvimento metonímico conceptual: NÃO INTERVIR É EFEITO DE RELAXAR RESTRIÇÃO:
deixar o menino sair > deixar o menino quieto
Gramaticalização
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3. Tendências nos estudos de Gramaticalização
Caso clássico de interação metáfora-metonímia em Gramaticalização (BE GOING TO) (Hopper e Traugott, 1993: 61, adaptado)
Eixo sintagmático – Mecanismo: Reanálise
Estágio I be going [to kill Bill]
PROG. V. MOV. DIR. OR. FINALIDADE
Estágio II [be going to] kill Bill
TEMPO V. AÇÃO
Estágio III [be going to] like Bill
TEMPO V.
Estágio IV [gonna] like/visit Bill Eix
o p ar adigmá tic o – Mecanismo: An alogia
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3. Tendências nos estudos de Gramaticalização
Contexto crítico: Exemplo porém (LONGHIN-TOMAZI)
Fonte latina: proinde.
Português arcaico: porende e poren sentido explicativo-conclusivo (por causa disso, por isso).
a. Século XIII: E quando Estor viu que se guisava de batalhar assi a pee como estava, prezou-o mais que ante e esmou que era algu~u dos da Mesa Redonda; e porem quis saber quem era, ante que i mais fezesse [E quando
Estor viu que se preparava para lutar assim a pé como estava, prezou-o mais do que antes e pensou que era algum daqueles da Távola Redonda; e por isso quis saber quem era...]
b. Século XIII: E qu~e quer que contra isto ueer ou fazer alg~ua cousa moira porende e nõ seya leyxado uiuo [E
quem quer que contra isto veja ou faça alguma coisa morra por isso e não seja deixado vivo]
c. Século XIV: E disse-lhe o tirãno que, se nõ cessasse de chamar o nome de Jhesu, que lhe mãdaria talhar a língua, e disse-lhe Sancto Ignácio: Posto que me talhes a língua, nõ cessarey poren de chamar o nome de Jhesu, porque o tenho scripto emno meu coraçom [E disse-lhe o tirano que se não parasse de chamar o nome de Jesus, que
mandaria cortar-lhe a língua, e disse-lhe Santo Inácio: ainda que me cortes a língua, não pararei por isso/apesar disso de chamar o nome de Jesus] CONTEXTO CRÍTICO.
d. Século XV: Este Rei acreçentou muito nas comtias dos fidalgos, depois da morte del Rei seu padre, ca nom embargando que el Rei Dom Affonso fosse comprido d’ardimento e muitas bomdades, tachavam-no porem de ser escasso e apertamento de grandeza [...embora o Rei Dom Afonso fosse bem dotado de coragem e de muitas
bondades, tachavam-no, apesar disso, de ser escasso e mesquinho]
e. Século XVI: No tempo dos ponentes he muy quieto e abrigado porém nos dos levantes disem que he sogeito a
grandes mares por onde neste tempo seraa milhor surgir ao longo do lado daloeste [No tempo dos poentes é
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4. Parâmetros de Gramaticalização
Hopper (1991): a gramática de uma língua é sempre emergente. Os parâmetros do autor visam a captar os estágios iniciais de gramaticalização, ou seja, os primeiros estágios de mudança que tornam difusas as fronteiras entre léxico e gramática.
a. Estratificação: ao surgirem novas formas funcionais, a substituição de equivalentes preexistentes não é imediata. Nesse sentido, ocorrem tanto interação quanto coexistência de “camadas” novas e antigas em um mesmo domínio. Diz respeito, portanto, às diferentes codificações de uma mesma função.
• Exemplo: integração de a gente no paradigma pronominal e sua “competição” com o nós; entrada de se pá no sistema modal adverbial de comprometimento e sua “competição” com talvez, quem sabe.
b. Divergência: a unidade lexical que dá origem ao processo de gramaticalização pode manter suas propriedades originais, preservando-se como item autônomo. Nesse sentido, ela está sujeita a quaisquer mudanças inerentes à sua classe, podendo, inclusive, sofrer novo processo de gramaticalização ou preservar ambas as formas.
• Exemplo possível (?): gente > a gente (substantivo > pronome); gente > gente (substantivo > marcador); gente (substantivo) ainda é usado.
Gramaticalização
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4. Parâmetros de Gramaticalização
Hopper (1991): a gramática de uma língua é sempre emergente. Os parâmetros do autor visam a captar os estágios iniciais de gramaticalização, ou seja, os primeiros estágios de mudança que tornam difusas as fronteiras entre léxico e gramática.
c. Especialização: diz respeito ao estreitamento de opções para se codificar determinada função, tornando-se mais frequente, dado que mais gramaticalizada.
• Exemplo: Futuro perifrástico ir + infinitivo em relação ao Futuro simples.
d. Persistência: refere-se à manutenção de alguns traços semânticos da forma-fonte na forma gramaticalizada, o que pode ocasionar restrições sintáticas e/ou impor determinadas conceptualizações. • Exemplo: a gente x nós (concordância em terceira; bloqueio de quantificadores; massividade do primeiro)
e. Descategorização: remete à perda de dadas propriedades morfossintáticas da forma gramaticalizada em relação à forma-fonte.
• Exemplo: a gente, diferente dos substantivos, não sofre modificação por adjetivação, possessivização, quantificação nem se flexiona em número ou deriva em grau.
Gramaticalização
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4. Parâmetros de Gramaticalização
Lehmann (1995 [1982]): a gramaticalização é o processo que transforma lexemas em formativos gramaticais e formativos gramaticais em mais gramais ainda. Seus parâmetros visam a auferir o grau de autonomia de formas em estágios avançados de gramaticalização.
Parâmetros Gramaticalização Incipiente Processo Gramaticalização Avançada
Eixo
Paradigmático
Integridade Item possivelmente polissilábico,
com muitos traços semânticos. Atrição
Item geralmente monossilábico, com poucos traços semânticos. Paradigmaticidade Participação “frouxa” do item em
um campo semântico Paradigmaticização
Item integra paradigma pequeno, altamente integrado
Variabilidade paradigmática Escolha livre dos itens, segundo as
intenções comunicativas Obrigatoriedade
Escolhas sistematicamente restritas ou uso obrigatório
Eixo Sintagmático
Escopo Relação do item com constituintes
de complexidade arbitrária Condensação Item modica a palavra ou a raiz Conexidade Justaposição do item
independentemente
Coalescência
(união) Item é afixo ou traço fonológico Variabilidade sintagmática Liberdade de movimento do item Fixação O item ocupa posição fixa
Gramaticalização e Relações Intersentenciais
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5. Parâmetros de Gramaticalização de Orações
Lehmann (1988) propõe seis parâmetros sintáticos para a análise das relações intersentenciais, o que resulta em um continuum de articulação que vai da elaboração à compressão, além de um outro
continuum relativo à gramaticalização do verbo principal.
Elaboração---Compressão
Fraca
[parataxe] Rebaixamento hierárquico da oração subordinada
Forte [encaixamento] Alto
[sentença] Nível sintático
Baixo [palavra] Fraca [oração] Dessentencialização Forte [nome] Fraca
[verbo lexical] Gramaticalização do verbo principal
Forte [afixo gramatical] Fraco
[orações de disjunção] Entrelaçamento de sujeitos
Forte [orações de sobreposição] Máxima
[síndese] Explicitude da articulação
Mínima [assíndese]
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5. Parâmetros de Gramaticalização de Orações
Lehmann (1988): Gramaticalização do verbo principal
Hopper & Traugott (1993) propõem um continuum com três pontos principais. Os autores defendem o seguinte princípio: quanto maior o grau de vinculação intersentencial, mais avançado encontra-se o processo de gramaticalização e vice-versa.
Parataxe Hipotaxe Subordinação Encaixamento
Independência Interdependência Dependência
Núcleo---Margem Integração mínima---Integração máxima Ligação explícita máxima---Ligação explícita mínima
Predicado independente---Operador gramatical
Verbo lexical Evidencial Modal Auxiliar Afixo derivacional/
Relações Intersentenciais
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6. Relações Intersentenciais
A Gramática Normativa reconhece, basicamente, dois processos de articulação
intersentencial: a coordenação e a subordinação. À primeira, associa-se a noção de independência,
enquanto, à segunda, vincula-se a noção de dependência, tanto do ponto de vista da estruturação
sintática quanto em termos de “completude de significado”.
A questão é problemática de modo geral.
1. Segundo Givón (1990), nenhuma sentença é totalmente independente do contexto oracional
imediato na produção discursiva efetiva.
2. A noção de completude de significado é questionável por princípio. Se o falante opta por
relacionar orações – e, portanto, articular cenas –, é porque não crê que haja “completude”.
3. A noção de “dependência sintática” para as ditas subordinadas é, de modo geral, igualmente
questionável. Há casos prototípicos, em que, de fato, relacionam-se orações com distintos graus
de finitude, mas há casos em que tal dependência é bem similar à “independência” das
coordenadas.
4. Vinculam-se relações semânticas e sintáticas, o que leva a entender, por exemplo, que só há
Relações Intersentenciais
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6. Relações Intersentenciais
Halliday & Matthiessen (2004) propõe compreender as relações intersentenciais,
desmembrando o aspecto tático, ligado à vinculação entre as orações, e o lógico-semântico,
relacionado às funções de sentido exercidas entre as orações.
Parataxe Hipotaxe Encaixamento
Elaboração: especificação ou descrição ulterior:
caracterização, reafirmação, clarificação, refinação, comentário, descrevendo o que já está lá
Aposição Orações relativas explicativas
Orações relativas restritivas/ Or. Sub.
substantivas
Extensão: a oração secundária adiciona algo novo à
oração primária. Esse algo novo pode ser uma adição propriamente dita, uma variação ou uma alternância.
Orações coordenadas aditivas, alternativas e adversativas (tipo sondern)
Intensificação: a oração secundária contextualiza a
compreensão da primária, criando um cenário a partir do qual ela será construída.
Orações subordinadas
adverbiais
Projeção: a oração secundária representa o conteúdo
psicológico ou semiótico de alguém. Discurso Direto/Indireto Livre
Discurso Indireto/ Or. Sub. substantivas
Relações Intersentenciais
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6. Relações Intersentenciais
ENCAIXAMENTO (Subordinação, para Hopper & Traugott): trata-se dos casos em que a oração-margem (secundária) atua como constituinte da oração-núcleo (primária). Não se trata nem de parataxe nem de hipotaxe – tem-se mudança de nível (rankshift).
Em termos langackerianos, ocorre encaixamento quando:
a. uma oração passa a exercer a função de marco de um predicador de natureza verbal ou nominal, com ou sem a intermediação de uma preposição. Tem-se, assim, os casos que a NGB denomina orações
subordinadas substantivas objetivas direta, indireta e completiva nominal.
{[O professor]TR acredita [que [os alunos]TR não colam na prova]LM}
{[O professor]TR se opôs a [que [eu]TR escrevesse [a ata da reunião]LM]LM}. {[O professor]TR tinha [medo de [que eu reprovasse]LM]LM}
ou
{[O professor]TR tinha medo de [que eu reprovasse]LM}
Notem que, em todos os casos, o LM é preenchido pela oração encaixada; logo, elas são sempre complementos.
Relações Intersentenciais
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6. Relações Intersentenciais
b. uma oração passa a exercer a função de trajetor de um predicador de natureza verbal ou adjetiva. Trata-se dos casos de orações subordinadas substantivas subjetivas.
{É natural [que ele não consiga estudar tudo em um único dia]TR} {Foi dito [que eles não viriam ao clube hoje]TR}.
c. uma oração passa a exercer a função de trajetor (ou marco?) de um predicador complexo (cópula + SN ou cópula + Adj). Tem-se, aqui, os casos de orações subordinadas substantivas predicativas.
{[A verdade]TR?LM? é [que eu não sou capaz de chorar]TR?LM?}
d. uma oração atua como modificador de um trajetor nominal (núcleo). Tem-se, assim, os casos que a NGB denomina orações subordinadas adjetivas restritivas.
{[[O filme]LM que [eu]TR assisti ontem]TR era horrível}
Em todos os casos, a oração – que deveria ser perfilada no nível mais alto – passa a ser componente de uma outra oração, essa, sim, perfilada no nível mais alto. No fundo, tem-se apenas uma cena, de fato, em um encaixamento. Trata-se, portanto, do caso limítrofe entre a oração simples e o complexo oracional.
É importante notarmos que, nas substantivas, a dita ‘oração principal’ cumpre funções de natureza avaliativo-modal ou evidencial, engajando as diversas concepções de realidade relevantes: a do falante, a do ouvinte, a do ‘ausente’ e a da comunidade. Contrastar: parece que x a verdade é que x é óbvio que x dizem que x se deu conta (de) que x percebeu que x sabe que x acredita que x pensa que.
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6. Relações Intersentenciais
PARATAXE (Coordenação na NGB): trata-se dos casos em que as orações possuem o mesmo grau de proeminência. Halliday & Matthiessen (2004) denominam-nas iniciadora e continuadora.
Em termos langackerianos, ocorre parataxe quando:
a. Duas orações finitas são perfiladas em nível mais alto no mesmo grau de proeminência, sendo, em geral, finitas, o que não significa, contudo, que elas sejam independentes em termos de significado.
Longhin-Tomazi (2006: 65) entende que, no processo de coordenação, “as orações estão relacionadas de tal forma que a segunda toma a primeira como tema e é no interior desse tema que ela deve ser interpretada como acrescentando ao discurso a informação mais importante ou saliente. Nessa relação, que é essencialmente coesiva, o comentário tem, portanto, a dupla função de recuperar ou reativar uma informação dada e de predicar sobre ela, acrescentando informação nova. Com o acréscimo do comentário, é disparada uma relação semântica particular que justifica a combinação das orações”.
Azeredo (2001) propõe que a coordenação seja vista mais como um mecanismo discursivo do que sintático, realizada por conjunções de coordenação, advérbios e locuções adverbiais ou simplesmente pela justaposição e entoação.
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6. Relações Intersentenciais PARATAXE
a. Justaposição: “A justaposição constitui o processo pelo qual o falante apresenta orações lado a lado, sem o emprego de conectivos explícitos, portanto numa sequência formalmente desconexa” (GONÇALVES et al., 2007: 149). Corresponde às orações coordenadas assindéticas.
Exemplos:
i. Ah, eu entrei em depressão. Vivo sozinho.
ii. Termino? Continuo namorando? Não consigo decidir... minha vida é uma droga! b. Síndeses Prototípicas
i. Aditivas: A USP se modernizou e contratou novos docentes.
ii. Alternativas: Meu primo estudou muito para a prova ou colou com muita eficiência. iii. Adversativa sondern: Eu não dormi à tarde, mas assisti a uns filmes bem legais.
Relações Intersentenciais
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6. Relações Intersentenciais
HIPOTAXE (Subordinação na NGB): trata-se dos casos em que uma das orações atua como marco, que serve como Fundo para que se compreenda outra oração, a primária, que atua como trajetor. A oração secundária avança no continuum de compressão quanto menor for seu grau de finitude.
a. Casos prototípicos
i. Embora não soubesse nadar, mergulhei com vontade na piscina. ii. Se ele soubesse nadar, teria pulado na piscina.
iii. Saí sem que ninguém percebesse.
CORRELAÇÃO: A correlação consiste em um fenômeno de articulação intersentencial largamente negligenciado na NGB, apesar das ressalvas de Oiticica. Trata-se do fenômeno em que duas orações são vinculadas por meio de um par de conectivos que se realiza tanto na prótase quanto na apódose. Na Gramática Normativas, há casos inseridos na coordenação e na subordinação.
i. O jornal não só desrespeita Hugo Chávez, como também humilha a Venezuela com essa notícia. ii. Esse bebê tem tanto sono que não se aguenta e dorme até de pé.
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6. Relações Intersentenciais
PARATAXE-HIPOTAXE-ENCAIXAMENTO: Graus de elaboração e compressão – da dupla sentencialização finita à adverbialização com sentença simples.
1. Ele não pôde comprar whisky. Não tinha dinheiro suficiente.
2. Ele não pôde comprar whisky, porque não tinha dinheiro suficiente. 3. Como não tinha dinheiro suficiente, não pôde comprar whisky.
4. Ele não pôde comprar whisky por não ter dinheiro suficiente.
5. Ele não pôde comprar whisky devido ao fato de não ter dinheiro suficiente. 6. Não tendo dinheiro suficiente, não pôde comprar whisky.
7. Na ausência de dinheiro suficiente, não pôde comprar whisky. 8. Sem dinheiro suficiente, não pôde comprar whisky.
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6. Relações Intersentenciais
Casos complexos – explorando algumas ocorrências, partindo da NGB... 1. Coordenadas Explicativas x Subordinadas Causais (MARGARIDO)
Questionamento: Como vocês analisam o quarteto de complexos oracionais abaixo? a. Marcos ficou doente, porque tomou muita chuva ontem.
b. Corra, porque o ônibus já vem chegando.
c. Ele deve estar com febre, porque ele está de casacão nesse calor. d. Que você está fazendo (?), porque este quarto está uma bagunça.
Em termos de estruturação sintática, há diferenças relevantes? E em termos semântico-pragmáticos?
Sweetser (1990) propõe que causais e condicionais possam operar no domínio do conteúdo (+ objetivo), no campo epistêmico (+ subjetivo) e na esfera do ato de fala (+ intersubjetivo).
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6. Relações Intersentenciais
Casos complexos – explorando algumas ocorrências, partindo da NGB... 1. Coordenadas Adversativas x Subordinadas Concessivas
Questionamento: Como vocês analisam o quarteto de complexos oracionais abaixo? a. Mesmo que eu não tenha feito todas as tarefas, a professora me passou no conselho. b. Eu não fiz todas as tarefas, mas a professora me passou no conselho.
c. Eu não fiz todas as tarefas. Apesar disso, a professora me passou no conselho. d. Apesar de eu não ter feito todas as tarefas, a professora me passou no conselho.
Em termos de estruturação sintática, há diferenças relevantes? E em termos semântico-pragmáticos?
Concessivas e adversativas constroem contra-expectativa e criam uma alternativa dialógica; no caso, a de que professores não tendem a passar no conselho alunos que não fazem tarefas. Tal alternativa não é cancelada;
entretanto, ela é suspensa em termos de aplicação ao caso construído. Uma das principais diferenças é que a
concessiva antecipa – daí porque ela tenderia a se antepor à oração primária – que haverá uma quebra de expectativa e introduz o argumento frágil, justamente aquele que, no caso específico, não será suficiente para impedir o ‘revés’. Concessivas demonstram, portanto, que o falante conhece possíveis argumentos dos outros.
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6. Relações Intersentenciais
Casos complexos – explorando algumas ocorrências, partindo da NGB...
1. Subordinadas Temporais x Subordinadas Condicionais x (Relativas) (MARGARIDO; MOURA NEVES)
Questionamento: Como vocês analisam o hepteto de complexos oracionais abaixo? a. Não tenho sossego desde que ela me contou aquela história.
b. João, você pode ir brincar, desde que tenha terminado todas as tarefas. c. Crianças são órfãs quando não têm pais.
d. Se eu estudo, passo de ano x Quando eu estudo, passo de ano.
e. Se você coloca água no Sonrisal, ele borbulha x Quando você coloca água no Sonrisal, ele borbulha. f. Como é possível dizer tal coisa quando se sabe universalmente que as drogas são depressivas, viciantes e causam distúrbios físicos e mentais?
g. Se choveu no inverno passado, a colheita do sertão foi boa x Quando choveu no inverno passado, a colheita do sertão foi boa.
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(Lehmann; Hopper & Traugott; Halliday; Langacker; Evans & Green; Martelotta; Gonçalves, Lima-Hernandes, Casseb-Galvão, Carvalho; Gonçalves, Carvalho; Traugott & Dasher; Trousdale)
6. Relações Intersentenciais
Casos complexos – explorando algumas ocorrências, partindo da NGB...
1. Relativas Explicativas x Relativas Restritivas x Relativas livres (CASTILHO; HALLIDAY & MATTHIESSEN, LANGACKER; MARGARIDO)
Questionamento: Como vocês analisam o sexteto de complexos oracionais abaixo? a. Ontem, eu li um livro que fazia umas acusações ultrajantes contra o atual governo. b. Quem faz acusações ultrajantes contra o governo deveria ser apedrejado.
c. Ontem, eu falei com o Kassab, que foi prefeito de São Paulo. d. Ontem, eu falei com o Kassab que foi prefeito de São Paulo.
e. Até o dia 16 de outubro, quando se encerram os festejos deste ano, 600 mil pessoas devem ir ao local. f. [Meu amigo x O meu amigo x Um amigo meu] que tem uma namorada rica/cuja namorada é rica vai passar um mês no Caribe.
Em termos de estruturação sintática, há diferenças relevantes? E em termos semântico-pragmáticos?
Explicativas envolvem, em geral, concordância tonal, ao passo que restritivas tendem a envolver uma única unidade tonal. Relativas livres são, no fundo, encaixadas – no caso, argumenta Castilho (2010), o que consiste em uma instância fronteiriça entre a conjunção integrante e o pronome relativo. A propósito, o autor defende, inclusive, que a conjunção integrante “nasceu” do relativo que em um contexto crítico de subordinada apositiva.