PREVALÊNCIA DE ANEMIA FERROPÊNICA EM GESTANTES ATENDIDAS NO PERÍODO DE AGOSTO DE 2004 A JULHO DE 2005 NA CASA DE PARTO
DAVID CAPISTRANO FILHO, LOCALIZADA EM REALENGO, RIO DE JANEIRO, RJ: A IMPORTÂNCIA DO PRÉ-NATAL NA SUA PREVENÇÃO
Fabiana de Oliveira Rêgo1
ABSTRACT
Although the ferropénica anemia (iron anemia) is one of the most prevailing lacks in the world, it is a problem that still remains, affecting, in the most of the times, pregnant women and preschool age children. Therefore, this study it had main objective to verify the prevalence of ferropénica anemia in pregnant taken care of in the Casa de Parto David Capistrano Filho (Rio de Janeiro), in the period from August 2004 up to July 2005. Were studied 44 pregnant women from the first consultation that enrolled the prenatal program of the Casa de Parto. During the time the research was being held, all of the pregnant women were initiating the use of the supplemental medication with iron sulfate, with the intention of preventing themselves from the ferropénica anemia at this phase of the biological cycle. Through pre-elaborated interviews and the consultation of the handbooks, it was possible to accompany all the development of the prenatal process of the pregnant women who participated in the research. The average age found was the one of 21 years old (DP = 3,5). Only 2% of the pregnant women would start the prenatal attendance in the first trimester of gestation. The monthly budget average per capta that was found was of R$133,20 (DP = 87,37). From the total of 44 pregnant women, 23% presented anemia (Hb <11mg/dL). According to the results, it’s possible to conclude that the anemic pregnant women developed the low level anemia; the school level didn’t interfere in the development of anemia; the development of the anemia can be associated to the monthly budget per capta; the anemia didn’t influence the conceptos.
KEY-WORKS: pregnant, anemia, iron, prenatal.
1 Universidade Castelo Branco – Av. Santa Cruz, 1631 – Realengo – Rio de Janeiro, RJ– Brasil –
RESUMO
A anemia ferropênica, apesar de ser uma das carências mais prevalentes no mundo, é um problema que ainda persiste, afetando, na maioria dos casos, gestantes e crianças em idade pré-escolar. Sendo assim, esse estudo teve como objetivo principal verificar a prevalência de anemia ferropênica em gestantes atendidas na Casa de Parto David Capistrano Filho (RJ), no período compreendido entre agosto de 2004 e julho de 2005. Foram estudadas 44 gestantes de primeira consulta, que estavam inscritas no pré-natal da Casa de Parto. Na ocasião da pesquisa, todas as gestantes estavam iniciando o uso da suplementação medicamentosa com sulfato ferroso, com o objetivo de prevenir a anemia ferropênica nessa fase do ciclo biológico. Através de entrevistas pré-elaboradas e da consulta aos prontuários foi possível acompanhar todo o desenvolvimento do pré-natal das gestantes participantes da pesquisa. A idade média encontrada foi de 21 anos (DP = 3,5). Apenas 2% das gestantes iniciaram o acompanhamento pré-natal no primeiro trimestre de gestação. A maioria, 68%, buscou atendimento no segundo trimestre e 30%, no terceiro trimestre gestacional. A média da renda mensal monetária per capta encontrada foi de R$ 133,20 (DP = 87,37). Do total de 44 gestantes, 23% apresentaram anemia (Hb< 11mg/dL). De acordo com os resultados, é possível concluir que: as gestantes anêmicas desenvolveram anemia de grau leve; o grau de escolaridade não interferiu no desenvolvimento da anemia; o desenvolvimento da anemia pode estar associado à renda mensal monetária per capta; a anemia não influenciou no desenvolvimento dos conceptos. PALAVRAS-CHAVES: gestantes, anemia, ferro, pré-natal.
INTRODUÇÃO
A anemia ferropênica é uma das doenças que mais acomete a humanidade, sendo considerada por inúmeros autores como a doença de maior prevalência na gravidez (PAPA et al., 2003). Ocorre quando as reservas de ferro do organismo tornam-se insuficientes para manter a eritropoiese e, consequentemente, a concentração normal de hemoglobina no sangue (MIRANDA et al., 2003).
A mulher tem sido, do ponto de vista biológico, considerada como indivíduo vulnerável à anemia ferropênica, devido à espoliação provocada pelas perdas sangüíneas durante o período menstrual, tendo, maior necessidade de ferro durante o período reprodutivo. Esta necessidade fica sobremaneira aumentada durante a gestação, em função do crescimento fetal e placentário, como também, do aumento da volemia, próprio da gravidez (MARTINS et al., 1987).
A anemia por deficiência de ferro está intimamente relacionada ao trabalho de parto prematuro e ao baixo peso do recém-nato, com freqüência duas vezes maior quando se compara à população normal, não havendo relação tão predominante com a anemia por outras causas (PAPA et al., 2003).
A prevenção e terapêutica contra a anemia nutricional ferropênica a partir da utilização medicamentosa com sais de ferro são dois dos mais antigos recursos de tratamento que, ainda hoje, considera-se válido (SOUZA & BATISTA FILHO, 2003).
O ferro é um dos micronutrientes mais estudados e melhor descritos na literatura, desempenhando importantes funções no metabolismo humano, tais como transporte e armazenamento de oxigênio, reações de liberação de energia na cadeia de transporte de elétrons, conversão de ribose à desoxirribose, co-fator de algumas reações enzimáticas e inúmeras outras reações metabólicas essenciais. A maior quantidade de ferro do organismo encontra-se na hemoglobina, o restante distribui-se na composição de outras proteínas, enzimas e na forma de depósito (ferritina e hemossiderina) (PAIVA et al., 2000).
É difícil estabelecer o diagnóstico de anemia por deficiência de ferro na gravidez, uma vez que a hemoglobina está alterada pela hemodiluição de maneira muito variável. Ademais, nesta condição, as mulheres comumente são assintomáticas ou apresentam sintomas que podem ser atribuídos às alterações fisiológicas que ocorrem na gestação normal (SOUZA & BATISTA FILHO, 2003).
Apesar de alguns autores terem adotado valores arbitrários para a concentração de hemoglobina de 10,5 ou 10mg/dl como normais para gestantes, a Organização Mundial de
Saúde (OMS) estabelece o limite de 11,0 mg/dL, abaixo do qual se define a anemia, independente da idade da gestação; com relação ao percentual de hematócrito, o limite estabelecido é de 31,0%. Desde que as modificações hematimétricas, refletidas pelos exames laboratoriais, sejam semelhantes àquelas que ocorrem numa mulher não grávida com deficiência de ferro, clínicos e pesquisadores acreditam que há de fato uma anemia provocada pela gestação (SOUZA et al., 2002).
A estratégia de combate à deficiência de ferro e à anemia ferropênica já está bem estabelecida, consistindo resumidamente nos seguintes pontos: modificação dos hábitos alimentares, diagnóstico e tratamento das causas da perda de sangue, controle de infecções que contribuem com a anemia, fortificação de alimentos e suplementação medicamentosa com sais de ferro (SOUZA & BATISTA FILHO, 2003).
O sulfato ferroso é o sal de escolha devido ao seu baixo custo e alta biodisponibilidade. A dose do tratamento depende da severidade da anemia. Para gestantes e nutrizes, 60 mg de ferro elementar três vezes por dia, na anemia severa (Hb < 7,0 mg/dL); na anemia leve a moderada, a mesma dose duas vezes por dia. A correção da anemia geralmente ocorre em seis semanas. Entretanto, a reposição das reservas de ferro ocorre em quatro a seis meses devido, principalmente, à diminuição da absorção de ferro após correção da anemia (CARDOSO & PENTEADO, 1994).
Em face às considerações acima, o presente trabalho teve como principal objetivo verificar a prevalência de anemia ferropênica em um grupo de gestantes atendidas na Casa de Parto David Capistrano Filho, no período de agosto de 2004 a julho de 2005, em Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Além de verificar variáveis como: condições socioeconômicas das gestantes participantes da pesquisa, idade gestacional em que o pré-natal foi iniciado e freqüência do uso suplementar de sulfato ferroso durante esse período.
MATERIAL E MÉTODOS
A pesquisa foi realizada na Casa de Parto David Capistrano Filho, localizada em Realengo, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. O estudo foi baseado nos dados obtidos através de entrevistas pré-elaboradas, onde as gestantes responderam perguntas relacionadas à situação socioeconômica, além de assinarem uma autorização consentindo a verificação dos prontuários. Os prontuários foram verificados a partir da primeira consulta de pré-natal, até o nascimento do bebê. Para a análise dos dados, foi utilizado o programa Microsoft Excel XP, através do qual foram obtidos o desvio padrão,
as médias e as variâncias dos dados encontrados durante a pesquisa. A análise estatística foi realizada aplicando-se o Teste F de Snedecor, com 5% de significância, para analisar a homogeneidade entre duas variâncias e o Teste de Cochran, para verificar a homogeneidade entre duas ou mais variâncias.
RESULTADOS
Foram entrevistadas 100 gestantes, porém, como se tratou de um estudo de natureza longitudinal, algumas perdas ocorreram, onde os principais motivos foram: abandono do pré-natal – 35% dos casos –; transferência para outra unidade por motivo de risco – 20% dos casos –; e perda fetal – 1% dos casos. O estudo foi concluído com uma amostra de 44 gestantes.
A idade média encontrada foi de 21 anos (DP= 3,5 anos), sendo a idade mínima de 15 e a máxima de 36 anos. A média da renda mensal monetária per capta foi de R$ 133,20 (DP= R$ 87,37), com a renda mínima de R$ 42,85 e a máxima de R$ 450,00.
Em relação ao nível de instrução, observou-se que 16% das gestantes possuíam o Ensino Fundamental incompleto, 32% o Ensino Fundamental completo, 18% o Ensino Médio incompleto, 25% o Ensino Médio completo, 7% o Ensino Superior incompleto e apenas 2% o Ensino Superior completo.
A relação entre o grau de escolaridade e a média da renda mensal monetária per capta das gestantes pode ser observada na Tabela 1. Para analisar as variâncias da renda mensal monetária per capta, segundo o grau de escolaridade, foi aplicado o Teste de Cochran, que indicou que as variâncias são homogêneas, tendo em vista que o Ccalculado foi menor que o Ctabelado, isto é, o aumento do grau de escolaridade não influenciou significativamente, no aumento da renda mensal monetária per capta.
TABELA 1: RELAÇÃO ENTRE O GRAU DE ESCOLARIDADE E A MÉDIA DA RENDA (R$) MENSAL MONETÁRIA PER CAPTA DAS GESTANTES ATENDIDAS NA CASA DE PARTO DAVID CAPISTRANO FILHO, NO PERÍODO DE AGOSTO DE 2004 A JULHO DE 2005.
Grau de Escolaridade Prevalência de Gestantes (n) Renda média per capta (DP) Ensino Fundamental
Incompleto 16% (7) 100,40 (44,99) Ensino Fundamental 32% (14) 106,78 (32,71)
Completo
Ensino Médio Incompleto 18% (8) 80,98 (41,07) Ensino Médio Completo 25% (11) 199,54 (95,71) Ensino Superior Incompleto 7% (3) 123,33 (37,71) Ensino Superior Completo 2% (1) 450,00 (0)
Total 100% (44) 1.061,03 (252,19)
A procura pelo Serviço Pré-Natal, ocorreu no primeiro trimestre gestacional por 2% das gestantes; 68% buscaram atendimento no segundo trimestre e 30%, no terceiro trimestre de gestação.
Todas as gestantes fizeram tratamento preventivo para o combate à anemia com sulfato ferroso. O tratamento foi iniciado a partir da primeira consulta de pré-natal, terminando duas semanas após o nascimento do bebê. No início do tratamento, nenhuma gestante apresentava-se anêmica.
A quantidade de ferro elementar nos comprimidos variou entre 30 e 60 mg, para as gestantes que utilizaram uma dose diária, e entre 60 a 120mg para as gestantes que fizeram uso de duas doses por dia. A maioria das gestantes (73%) ingeriu uma dose diária de sulfato ferroso e 27% utilizaram duas doses por dia.
As taxas de hemoglobina e hematócrito foram aferidas no início e no final da gestação. Sendo que, no final da gestação, constatou-se que 23% das gestantes haviam desenvolvido anemia (Hb<11,0mg/dL), mesmo fazendo uso suplementar com o sal de ferro. As médias da taxa de hemoglobina e do percentual de hematócrito das gestantes anêmicas foi de 10,2 mg/dL (DP= 0,4 mg/dL) e 30,9% (DP= 1,5%) respectivamente. As gestantes que não desenvolveram anemia apresentaram a média da hemoglobina de 12,3 mg/dL (DP= 0,7 mg/dL) e de hematócrito de 34,7% (DP= 2,5%).
A maior parte das gestantes que desenvolveu anemia (80%) iniciou o tratamento preventivo com o sal de ferro no segundo trimestre gestacional e 20%, no terceiro trimestre. Já o percentual das gestantes que não desenvolveu anemia teve a seguinte variação: 3% iniciaram o tratamento no primeiro trimestre, 65%, no segundo trimestre e 32% iniciaram o tratamento no terceiro trimestre de gestação.
As doses diárias de sulfato ferroso, ingeridas pelas gestantes anêmicas e não anêmicas, podem ser observadas na Figura 5.
60%
76%
40%
24%
0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% Pr ev alê nci a 1x ao dia (30 a 2x ao dia (60 a Anêmicas Não anêmicasFIGURA 5: PREVALÊNCIA (%) DE GESTANTES ANÊMICAS E NÃO ANÊMICAS ATENDIDAS NA CASA DE PARTO DAVID CAPISTRANO FILHO, NO PERÍODO DE AGOSTO DE 2004 A JULHO DE 2005, SEGUNDO AS DOSAGENS (mg) DIÁRIAS DE SULFATO FERROSO.
A média da renda mensal monetária per capta das gestantes anêmicas foi de R$ 103,57 (DP= R$ 49,50) e das gestantes não anêmicas de R$ 141,85 (DP= R$ 95,14).
O Teste F indicou que as variâncias da renda mensal monetária per capta das gestantes anêmicas e das gestantes não anêmicas não foram homogêneas para 5% de significância, já que o Fcalculado foi maior que o Ftabelado, ou seja, houve diferença significativa entre a renda mensal das gestantes anêmicas e das gestantes não anêmicas.
A média da idade gestacional em que os partos ocorreram foi de 38 semanas (DP=1,5). O baixo peso e a prematuridade não foram verificados. O peso médio de nascimento foi de 3.337g (DP= 408g), e 49cm (DP= 1,4cm) a média de tamanho, sendo que os recém-natos das gestantes anêmicas apresentaram as médias de peso e tamanho de 3.332g (DP= 430g) e 49cm (DP= 1,5cm), respectivamente. Os recém-nascidos das
gestantes que não desenvolveram anemia obtiveram uma média de peso de 3.339g (DP= 320g) e de 47cm (DP= 1,4cm) de tamanho.
O Teste F foi aplicado para verificar a homogeneidade das variâncias do peso e do tamanho dos recém-nascidos das gestantes anêmicas e não anêmicas. As variâncias do peso e do tamanho foram homogêneas para 5% de significância, uma vez que o Fcalculado foi menor que o Ftabelado, ou seja, o peso e o tamanho dos recém-nascidos das gestantes anêmicas e das gestantes não anêmicas não diferiram significativamente.
DISCUSSÃO
As características socioeconômicas da população estudada mostraram-se semelhantes às observadas por outros autores. No presente trabalho, a média da renda mensal monetária per capta foi de R$ 133,20 (DP= R$ 87,37), isto é, apenas 44% do salário mínimo, sendo a renda mínima de R$ 42,85 e a máxima de R$ 450,00. Chama atenção a elevada dispersão dos valores em torno da média. Assim como o encontrado por Lopes (1999), onde a média da renda mensal monetária per capta das gestantes era de R$ 46,18 (DP= R$ 46,17), sendo a renda mínima de R$ 25,00 e a máxima superior a R$ 100,00.
As elevadas diferenças com relação à renda mensal monetária per capta ressaltam a magnitude do problema econômico que ocorre em um ecossistema urbano desfavorável, muito comum no Brasil e na maior parte das grandes cidades da América Latina, o que pode interferir diretamente no estado nutricional das gestantes e de seus familiares, tendo em vista que, com uma renda mensal muito baixa, as possibilidades de realizar uma alimentação saudável e diversificada tornam-se muito restritas. Podendo influenciar na deficiência de algum nutriente e, consequentemente, no desenvolvimento da anemia.
Trevisan (2002) observou em sua pesquisa que 2,3% das gestantes eram analfabetas; a maioria (66,4%) não completou o Ensino Fundamental; e o restante (31,3%) possuía o Ensino Médio. Diferente do encontrado neste estudo, no qual, 16% das gestantes possuíam o Ensino Fundamental incompleto, 32%, o Ensino Fundamental completo, 18%, o Ensino Médio incompleto, 25%, o Ensino Médio completo, 7%, o Ensino Superior incompleto e 2%, o Ensino Superior completo.
Com relação à procura pelo serviço pré-natal, foi possível verificar que a maior parte das gestantes procurou tardiamente o atendimento, no segundo trimestre gestacional. Como encontrado por Trevisan (2002) e por Azevedo & Sampaio (2003), a maioria das
gestantes também iniciou o acompanhamento no segundo trimestre. Entretanto, Guerra (1990) observou em sua pesquisa que a maior parte das gestantes (54%) procurou o serviço pré-natal no primeiro trimestre de gestação. A maioria (65,9%) pertencia a famílias com renda até um salário mínimo per capta, 31,0%, a famílias com renda até três salários mínimos per capta e apenas 3,1% pertenciam a famílias com renda superior a três salários mínimos per capta.
Com relação à suplementação medicamentosa com sais de ferro, todas as gestantes fizeram tratamento preventivo com sulfato ferroso a partir da primeira consulta de pré-natal, até duas semanas após o nascimento do bebê. Já Cardoso & Penteado (1994) e Souza (2002) recomendam a suplementação de ferro somente na segunda metade da gestação. Souza & Batista Filho (2003) também recomendam a suplementação com sulfato ferroso, por ser de baixo custo e boa absorção, mesmo com o surgimento do ferro quelato, de liberação entérica, que apresenta melhor tolerância, com as desvantagens de menor absorção e preço bem mais elevado.
A quantidade de ferro elementar nos comprimidos ingeridos pelas gestantes desta pesquisa, variou entre 30 a 60mg e 60 a 120mg para as gestantes que fizeram uso de uma e duas doses diárias, respectivamente. De acordo com o estudo realizado por SOUZA & BATISTA FILHO (2003), os comitês técnicos da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde do Brasil recomendam esquemas de tratamento com sulfato ferroso em comprimidos de 40 a 60mg de ferro elementar, três vezes ao dia, totalizando 120 a 180mg por dia de ferro. Já Batista Filho & Ferreira (1996) e Lopes (1999) propõem a utilização de doses semanais em substituição às doses diárias, partindo do princípio de que a mucosa intestinal bloqueia a absorção do ferro medicamentoso quando administrado repetidamente.
Para verificar se houve desenvolvimento de anemia nas gestantes participantes desta pesquisa, foram consideradas a taxa de hematócrito e principalmente, a taxa de hemoglobina. Papa (2003) defende que, em inúmeros serviços de atendimento pré-natal, o diagnóstico da anemia também se restringe à realização do hemograma, principalmente pela avaliação da hemoglobina e do hematócrito, sendo estes exames considerados reflexos dos estoques de ferro do organismo. Todavia, ressalta que a dosagem isolada da hemoglobina ou hematócrito é insuficiente para o diagnóstico do estado da reserva de ferro, sendo que a hemoglobina é o último parâmetro que se altera quando ocorre sua deficiência.
Ao se avaliar a população de gestantes atendidas na Casa de Parto, considerando-se o resultado da hemoglobina, foi possível observar que 23% desenvolveram anemia (Hb< 11,0mg/dL), sendo que o menor valor encontrado foi de 9,7 mg/dL, o que permite a identificação dessas gestantes como portadoras de anemia de grau leve. Semelhante ao encontrado na pesquisa realizada por Papa (2003), que obteve 21,4% de gestantes anêmicas, tendo a menor taxa de hemoglobina a 10,0mg/dL.
O peso médio dos recém-nascidos foi de 3.337 gramas (DP= 408 gramas), o menor pesou 2.620 gramas e o maior, 4.200 gramas, não havendo baixo peso ao nascer. Ocorreram complicações perinatais no total das 100 gestantes entrevistadas, sendo, em 20% dos casos, gravidez de risco e em 1%, perda fetal. Trevisan (2002) observou em sua pesquisa que a média do peso dos recém-natos foi de 3.175 gramas (DP= 472 gramas), sendo que o menor pesou 1.880 gramas e o maior, 4.605 gramas, havendo em 7,7% dos casos baixo peso ao nascer (≤ 2.500 gramas) e em 2,5% dos casos foi possível identificar complicações perinatais, mesmo tendo-se incluído no estudo apenas gestações consideradas de baixo risco.
CONCLUSÕES
Com base nos dados obtidos, concluiu-se que as gestantes iniciaram tardiamente o acompanhamento pré-natal; o grau de escolaridade das gestantes não interferiu significativamente na renda mensal monetária per capta; todas as gestantes fizeram uso diário da suplementação medicamentosa com sulfato ferroso, sendo que a maioria (73%) ingeriu uma dose diária (30 a 60mg) e 27% fizeram uso de duas doses por dia (60 a 120mg); a prevalência de anemia identificada pela concentração de hemoglobina inferior a 11,0mg/dL ocorreu em 23% das gestantes estudadas; a população anêmica desenvolveu anemia de grau leve; a renda monetária per capta pode ter interferido, de alguma forma, no desenvolvimento da anemia; as diferentes dosagens de sal de ferro não interferiram significativamente no desenvolvimento da anemia e a anemia de grau leve não influenciou no peso e no tamanho dos recém-nascidos.
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