B
em, eu quero agradecer o
convite para estar aqui
nes-te Colóquio. A professora
Marialda Silveira foi
extre-mamente sedutora para me convencer
a fazê-lo. Em seguida, foi Jeanes
Lar-chert que me solicitou um texto
escri-to. À época, eu lhe disse: não vou fazer
nada escrito, porque o que eu vou
fa-zer lá não será uma palestra. Por isso,
eu quero pedir licença à academia
pa-ra ser apenas a relatopa-ra de um
proces-so, e também de uma amizade. Estou
emocionada, viu Ruy? Isso é grave...
[1] Professora titular do DFCH - Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da UESC, Secretária de Educação do Município de Itabuna (BA).
E-mail: <[email protected]>.
Dinalva
Melo
1RUY PÓVOAS E O
PROJETO UESC:
LUGARES E MILITÂNCIA
porque eu não costumo emo-cionar-me com facilidade. Olhem a cara dele de perplexi-dade... E, para que eu me acal-me mais um pouco, eu convido o pessoal do teatro, Alba Cristi-na, Luciano Lima e Zélia Pos-sidônio para me dar o tempo necessário para respirar.
O que vou fazer aqui não pode ter o nome pomposo de palestra, vou fazer um relato. Mesmo porque eu não tenho o domínio da técnica da histó-ria, Ruy é muito mais historia-dor e dono de uma precisão
ci-rúrgica para relatar. Eu apenas precisei alguns fatos que resolvi destacar para falar da militância de Ruy. O fiz pordécadas, pois não saberia precisá-la em datas. Por isso, a minha fala é um rela-to das minhas lembranças.
Quando o texto ficou pron-to, me perguntei o que seria militância? Ela é uma palavra esquisita, porque remete a mi-litar, remete a exercício. Eu não estou falando de um militar, mas de alguém que esteve no exercício rigoroso, implacável e irredutível do seu fazer aca-dêmico. Muitas vezes em con-tramão, no sentido inverso ali-ás, como é próprio de Ruy: o oposto, o inverso, a contramão. Eu acho que o relato que farei aqui diz respeito, em alguns ca-sos e em algumas circunstân-cias, a atos realizados na con-tramão. Aliás, a existência da UESC como escola pública nasceu por um ato de contra-mão na história. Eu vou dizer isso aqui no texto. Abro parên-tesis e peço licença neste mo-mento para cumprimentar a minha professora que está aqui conosco, a professora Helena dos Anjos, que há tanto não ve-jo e foi quem me colocou nos caminhos da Filosofia.
Lamentavelmente o tem-po é muito curto para falar
de uma trajetória de mais de 40 anos. Para começar vou precisar me reportar à déca-da de 60, quando Ruy e ou-tros colegas da Faculdade de Filosofia de Itabuna – FA-FI, percorríamos os municí-pios da então chamada Re-gião Cacaueira para obter li-vros junto à comunidade, pa-ra formação da biblioteca da FAFI. Ruy ainda era estudan-te de Letras, mas não abria mão de ser engajado na luta pelo ensino superior no inte-rior da Bahia. Formou-se e, pouco tempo depois, já es-tava atuando na condição de docente da FAFI. Esteve pre-sente em todas as frentes pa-ra a tpa-ransformação das esco-las isoladas de ensino supe-rior (FAFI, FDI e FACEI) na Federação das Escolas Su-periores de Ilhéus e Itabuna- FESPI.
Por lá, Ruy não passou sem deixar sua marca. Sua atuação docente através de uma peda-gogia bombástica era por de-mais comentada. A década de oitenta desponta trazendo as primeiras dificuldades pa-ra manutenção do projeto de ensino superior privado. Co-meça a luta pela publicização da FESPI e consequentemen-te, pela constituição de uma
Eu acho que o relato
que farei aqui diz
respeito, em alguns
casos e em algumas
circunstâncias, a
atos realizados na
contramão. Aliás, a
existência da UESC
como escola pública
nasceu por um ato de
contramão na história
universidade pública e gratui-ta no Sul da Bahia. Esgratui-taduali- Estaduali-zar, Federalizar ou “Ceplaqui-zar”? Esse era o mote da épo-ca e o motivo de muitas noi-tes passadas em intensos deba-tes no auditório da FESPI. Lá estavam muitas lideranças que hoje conduzem os destinos de algumas cidades do litoral sul. É importante dizer que esta lu-ta situava-se na contramão da história. O processo de expan-são do ensino superior brasi-leiro naquele momento era no formato privado. Frente a essa política de privatização, como
tornar pública uma federação de escolas? É essencial destacar que embora privada, os alunos da FESPI tinham gratuidade por meio de bolsas concedidas com recursos da CEPLAC – Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira. O mo-delo vigente, então, agradava a muitos porque mantinha a lógica da submissão regional. Mas, falava-se da dívida do Es-tado para com o Sul da Bahia. Era preciso ter uma universi-dade pública e gratuita.
Àquela época, Ruy, jun-tamente com mais três
cole-gas, decidem fazer mestrado. A pergunta que surgia era: pa-ra quê? Papa-ra muitos, mais um ato insano. A forma jurídica e financeira para liberação de cada um foi diferenciada, co-mo era natural. Ruy vai para o Rio de Janeiro praticamente sem apoio e só consegue fina-lizar o curso porque foi aco-lhido por Jorge Araújo que o abrigou. Na volta, com von-tade férrea de fazer da pesqui-sa uma vertente do fazer fes-piano, perguntam-lhe: pa-ra quê? Diziam: nossa tarefa é ensinar. E os quatro
cos que voltavam do mestra-do lamentavam-se, mas mo-vidos pela ousadia do cresci-mento e pela estranheza que as idéias provocavam. Éramos peixes fora d'agua. Mesmo as-sim, criamos a Revista FESPI que sobreviveu por cinco anos e meio com 12 números pu-blicados. Quem era o revisor? Ruy Póvoas, claro.
A equipe de administra-ção da FESPI que já atuava há mais de uma década se despe-de. Inicia-se a primeira eleição direta para escolha do novo di-retor. Lá estava Ruy apoiando um candidato de oposição.
Ob-viamente, foi derrotado. Aliás, na sua militância sempre este-ve na oposição e nunca perdeu de vista a luta pela constituição da universidade pública. Após a eleição, um novo/velho gru-po de gru-poder se instala.
De repente a CEPLAC, que contribuía com verbas para pagar 90% das despe-sas de manutenção da FES-PI, foi proibida pelo então Ministro da Fazenda, de fi-nanciar o ensino superior na Bahia, leia-se a FESPI. O di-retor mandou confeccionar os famosos carnês com va-lores reais e reajustados pa-ra pagamento das mensalida-des. Finalmente, a comuni-dade percebeu que estávamos em uma instituição particu-lar. Instalou-se o caos. Greve de seis meses. Lá estava Ruy deitado no asfalto da BR 415 em sinal de protesto e ofere-cendo a vida em holocausto. Depois de muitos embates e resistências destitui-se o dire-tor geral da FESPI. Ruy es-tava lá na CEPLAC nos dias fatídicos e hiláricos, exigin-do providencias para o exces-so de fair play administrati-vo. Com a vacância do car-go, forma-se uma lista sêxtu-pla a ser submetida ao Con-selho Diretor da FESPI para
substituir o diretor destituí-do. RUY compõs a lista. Ob-viamente não foi escolhido e nem nome algum da lista sêx-tupla. Ruy protesta, vai pedir bom senso ao escolhido, mas não tem sucesso. Novo/ve-lho governo se instala. O go-verno do estado se sensibili-za diante da grave situação da FESPI e decide assumir a folha de pagamento dos ser-vidores. Os salários estavam atrasados há seis meses. Mui-tos passaram necessidades. Começa uma nova fase e a discussão estadualizar, fede-ralizar ou “ceplaquizar” ar-refece face ao aceno do go-verno da Bahia em estadu-alizar a FESPI. Ruy era na época diretor da Faculdade de Filosofia e fazia a sua ges-tão com seu estilo peculiar. Cria-se uma Coordenadoria de desenvolvimento Institu-cional para cuidar da con-cepção da universidade pro-metida. Ruy era membro destacado do grupo. Da pro-messa da estadualização até a sua efetivação foram mui-tas reuniões, lumui-tas e perple-xidades. Ruy tem todos os relatos da época. São docu-mentos históricos que, ali-ás, a UESC/CEDOC pre-cisa pensar em publicá-los.
As próximas
falas revelarão
com certeza as
militâncias de Ruy
até hoje, ou quem
sabe teremos que
fazer outro evento
para contar os
desdobramentos
dessa história
Tentamos publicar um livro sobre o assunto, mas não fo-mos bem sucedidos; talvez fossemos desvelar véus en-cobertos e protegidos nes-ta lunes-ta que precisa continu-ar com os anti-heróis esque-cidos. Visitem o auditório do 5° andar da torre admi-nistrativa da UESC e lá con-templem a placa existente para compreenderem o que digo. Quem sabe a histó-ria em momento oportuno, não faça justiça aos aconte-cimentos.
A Coordenadoria de De-senvolvimento
institucio-nal, auxiliada por uma co-missão paritária, depois de um ano de trabalho, apre-senta a carta-consulta pa-ra implantação da nova uni-versidade, mas ela tinha um ponto polêmico na sua con-cepção organizacional: o modelo de poder era “biná-rio”. O mesmoque vocês vi-venciam e não valorizam. O que significava isto? As fa-culdades que constituíam a FESPI acabariam e seriam substituídas por departa-mentos. O poder ficava di-vidido entre a base, repre-sentada pelos
departamen-tos e pela reitoria. Não ha-veria uma instância de de-cisão intermediária que fa-ria da instituição algo mais burocrático do que é nor-malmente. Nova batalha. Ruy em um gesto de no-breza e de coragem faz uma reunião com sua congrega-ção e extingue a FAFI aca-bando com seu cargo de di-retor. Ele é um louco. Ouví-amos à boca pequena. E os demais diretores? Aí é outra estória. O diretor geral pre-mido pelas pressões, decide submeter o nosso trabalho a uma consultoria. Apreensão
no grupo. Surpresa: aprova-ção técnica absoluta. Orga-nizamos um seminário para apresentação do documen-to. Auditório lotado. Para nossa surpresa e decepção, silêncio absoluto. Estava aprovada, em face de ausên-cia de contestações ou com-plementos, nossa carta
con-sulta. Ela ainda passou mais de um ano guardada antes do envio ao Conselho Esta-dual de Educação. Isso levou tanto tempo que os dados de contextualização ficaram de-satualizados, mas para nossa satisfação, o modelo binário persistiu. Logo depois todas as universidades estaduais
da Bahia passaram a ter es-ta estrutura organizacional. Era o ano de 1996.
As próximas falas reve-larão com certeza as mili-tâncias de Ruy até hoje ou quem sabe teremos que fa-zer outro evento para con-tar os desdobramentos des-sa história.