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Academic year: 2021

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A cartografia como método

Esta pesquisa utiliza-se da cartografia como recurso metodológico, por tratar-se de um processo plural, aberto e multidimensional. Refere-se, aqui, à análise cartográfica desenvolvida por Deleuze e Guattari, que pode ser entendida como uma derivação e uma incorporação das perspectivas metodológicas de Foucault: arqueologia do saber, genealogia do poder e genealogia da ética. Deleuze (2005) referia-se a Foucault como “um novo cartógrafo”, devido à sua utilização de metáforas espaciais (como posição, campo, deslocamento, território, domínio, solo, arquipélago, geopolítica, paisagem etc.), para discutir a espacialização da história em suas genealogias, e também ao uso da arqueologia como cartografia ou geopolítica dos discursos.

Há inúmeras cartografias, tantas quanto campos a serem cartografados. Aquela tradicional, ligada ao campo da geografia, preocupa-se em obter um conhecimento preciso, fundamentado em bases matemáticas e estatísticas. Para tanto, utiliza elaborados instrumentos e técnicas para traçar e demarcar mapas referentes a territórios, regiões, fronteiras, topografia, acidentes geográficos, características étnicas e geográficas etc. A cartografia da cooptação do grafite, aqui proposta, não fica limitada ao campo das ciências geográficas, pois ela ultrapassa o sentido etimológico. Trata-se de uma cartografia social do grafite carioca, que busca analisar os deslocamentos ideológicos da prática; as relações e jogos de poder envolvidos no mercado de arte urbana; os

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enfrentamentos, lutas e forças presentes nos muros e nas paredes da cidade; os modos de subjetivação e as práticas de resistência e de liberdade presentes nas ruas do Rio de Janeiro.

Daí a necessidade de uma proposição metodológica estratégica em relação ao grafite, sua situação e contexto a ser estudado: não uma metodologia como um conjunto de normas e processos rígidos, mas uma estratégia flexível de análise crítica. Enquanto método, a cartografia aqui traçada não acompanha o ponto de vista tradicional, que se propõe a seguir um percurso previamente determinado por regras ou protocolos, na procura de uma verdade absoluta. Mas, sobretudo, busca traçar um percurso da prática do grafite e suas transformações, enquanto o percorre. “A precisão não é tomada como exatidão, mas como compromisso e interesse, como implicação na realidade, como intervenção”. (Passos et. al., 2009, p.11).

Não se trata de um mapa em seu sentido clássico. Para além da topografia, tenta-se expor aqui uma topologia dinâmica do grafite carioca, os lugares e os movimentos de poder que atravessam a prática, as linhas de força, os enfrentamentos, as densidades e as intensidades. O objetivo é traçar aquilo que Deleuze (1995a; 1995b) chama de diagramas: revelar as relações de forças a partir do esboço das relações capilares de poder e contribuir para a visualização das dinâmicas micropolíticas do grafite. Diagramas que podem ser entendidos como máquinas abstratas, que se referem à multiplicidade espaço-temporal e intersocial e produzem novos tipos de realidade e novas formas de verdade. Esses diagramas possibilitam a percepção de agenciamentos por parte do capital, tensões de forças entre os grafiteiros e o mercado, compreendem enunciações e relações de poder que podem

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apreender, dissolver, assujeitar e constituir formas de resistência a jogos de objetivação e subjetivação presentes na prática do grafite. Para Rolnik, “a cartografia é um método com dupla função: detectar a paisagem, seus acidentes, suas mutações e, ao mesmo tempo, criar vias de passagem através deles.” (Rolnik, 1987, p. 6). Diferente de um mapa com a localização dos grafites na cidade, que só cobriria o visível, essa pesquisa cartográfica acompanha, a partir dos exemplos analisados, a transformação da paisagem do grafite nos últimos quatro anos, no Rio de Janeiro. Ela deve ser entendida como um caminho que foi experimentado e percorrido, para então estabelecer suas metas. Uma estratégia de análise crítica e ação política, um olhar analista que acompanhou e descreveu as relações, a trajetória, as formações rizomáticas e a composição de dispositivos, apontando linhas de fuga, ruptura e resistência.

Procurou-se aqui identificar e analisar os campos de força, as relações e os movimentos do grafite no tempo e no espaço da Zona Sul carioca e da região portuária. Uma cartografia que se apresenta como um modo de análise e enfrentamento de dispositivos, ao acionar os métodos genealógicos de Foucault. Para Deleuze (2005), a cartografia é um trabalho de terreno, uma forma de desemaranhar linhas de um dispositivo, tal qual se faz com um novelo de lã. Dispositivos4 que, aqui, podem ser entendidos como uma trama configurada num conjunto de diferentes artifícios e muito

4 De acordo com Foucault (1998), a principal função de um dispositivo é a produção de subjetividades, que envolvem jogos de objetivação e subjetivação dos sujeitos. A objetivação diz respeito à disponibilização dos corpos e subjetividades dos indivíduos, tal qual objetos para o saber e o poder modernos, o que envolve a produção de corpos e indivíduos reais, presos a identidades visíveis. Já a subjetivação sugere um movimento do sujeito em relação a si mesmo, no sentido de distinguir-se como um sujeito de um enunciado, de uma determinação, de uma norma, de modo que atuem em seu próprio corpo, o que compreende uma série de trabalhos e práticas de si, a fim de estetizar-se e produzir-se de acordo com o proclamado pelo preceito ou pela norma.

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heterogêneos entre si, como discursos sobre o grafite, as instituições e as empresas que o cooptam, as leis que o regulamentam e as medidas administrativas que o apagam (Foucault, 1998). Uma relação marcada, nos últimos anos, por deslocamentos e modificações, seja no modo de classificar e consumir o grafite ou mesmo na maneira de perceber os grafiteiros, que saíram da marginalidade para alcançar um novo lugar nas galerias de arte e no mercado.

Nesse contexto, a cartografia aqui apresentada tem a pretensão de ser como um antídoto à ação dos dispositivos que agem sobre o grafite na atualidade, em especial no Rio de Janeiro. Ela age como um rizoma, um tipo de olhar estratégico, um modelo de funcionamento e ação, e também de enfrentamento e oposição, que atua a partir de princípios diversos daquele unitário, vertical, estrutural e disciplinar. A pesquisa-rizoma desenvolve-se aqui num plano horizontal, de forma acêntrica, indeterminada e não hierarquizada, abrindo-se para a pluralidade, tanto de interpretações quanto de ações. Ela é formada por grandezas e direções diferentes, constituindo-se de múltiplas linhas e conceitos transpostos, de modo a compor uma rede móvel que conecta pontos e posições.

Enquanto método de pesquisa, consistiu no acompanhamento dos processos e dos devires que constituem o campo social do grafite no Rio de Janeiro. No entanto, não significa que a pesquisa foi construída pelo exercício da liberdade, da falta de direção ou orientação. Trata-se da tentativa de inverter o sentido clássico do método sem, no entanto, recusar um certo entendimento do fluxo de pesquisa. Dessa maneira, os resultados apresentados não devem ser entendidos como metas prefixadas, amplamente pensadas. Pelo

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contrário, foi a experiência da pesquisa que redefiniu suas próprias metas durante o percurso (Passos et. al., 2009).

O método cartográfico foi aqui traçado no e a partir do plano da experiência do cartógrafo-pesquisador, que se envolveu na rede dos agenciamentos entre sujeito e grafite, a fim de compreender o cenário do grafite carioca, suas configurações territoriais, efemeridades e transitoriedades. Por tratar-se de um método que não parte de um modelo preestabelecido, procurou-se indagar a cooptação do grafite carioca a partir de uma fundamentação própria, de forma a buscá-lo diante da complexidade. Como afirmam Guattari e Rolnik (2005), o objetivo não é revelar sentidos, mas criá-los a partir de um contínuo movimento de ressignificação.

No que diz respeito às etapas metodológicas, elas podem ser divididas em três: 1) Produção de dados; 2) Análise de dados; 3) Escrita do texto. Procedimentos que, muitas vezes, aconteceram simultaneamente, não necessariamente obedecendo a uma ordem preestabelecida.

A produção de dados ocorreu desde a etapa inicial da pesquisa de campo, representando mais que uma simples coleta de informações: foi um processo que se desenvolveu e atravessou as fases posteriores. Uma construção que, segundo Kastrup (in Passos et. al., 2009), começa no momento em que o cartógrafo chega ao campo, ainda desprovido de regras metodológicas a serem empregadas, mas efetivamente num trabalho preparatório.

Informações, saberes e expectativas precisam ser deixados na porta de entrada, e o cartógrafo deve pautar-se sobretudo numa atenção sensível, para que possa, enfim, encontrar o que não conhecia, embora já estivesse ali, como virtualidade in Passos et. al., 2009, p.49). PUC-Rio - Certificação Digital Nº 1212294/CA

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De acordo com a autora, a fase de produção de dados, baseada no funcionamento da atenção do cartógrafo-pesquisador, possui quatro movimentos: o rastreio, o toque, o pouso e o reconhecimento atento.

O rastreio é um movimento de reconhecimento do campo de pesquisa, quando a atenção do pesquisador está à procura de pistas e signos de processualidades. Uma atenção aberta e sem foco, que busca um tipo de alvo ou meta em constante movimento. Trata-se de acompanhar os deslocamentos de velocidade, de aceleração e ritmo. Recém-chegado à cidade e com um projeto de pesquisa que objetivava o estudo de grafites políticos na América Latina, percebi que o cenário do grafite carioca e seus modos de cooptação pelo mercado se mostravam um intrincado tema de estudo. A observação atenta de muros, paredes e fachadas grafitadas, bem como uma catalogação fotográfica inicial, foram os primeiros passos da pesquisa, seguidos pela busca por matérias e reportagens publicadas em jornais e revistas, com o objetivo de reconhecimento e aprofundamento do tema.

O toque pode ser entendido como um sentimento que aponta o caminho a ser seguido. Como indicam Guattari e Rolnik (2005), a subjetividade do cartógrafo entra em contato direto com o mundo em sua dimensão de força e não na dimensão de matéria-forma. Um momento em que se percebeu que a pesquisa de campo em torno do grafite possuía entradas diversas e não seguia uma via de mão única, com o objetivo de chegar a um fim determinado. Entre as opções apresentaram-se as questões políticas, econômicas e criativas do grafite. Nessa fase iniciaram-se os primeiros contatos e conversas informais com grafiteiros, sobre o cenário do grafite carioca. Um encontro transformador, que possibilitou o

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direcionamento para novos possíveis caminhos na constituição do grafite.

O pouso é o momento em que a percepção do cartógrafo se concentra em um único aspecto e realiza uma parada. Um outro território se apresenta e o próprio campo de observação se reconfigura. Foi quando se percebeu que os processos de cooptação e objetificação do grafite, bem como suas consequências, poderiam ser o fio de novelo a ser desemaranhado do campo de pesquisa. Fase marcada pelo acompanhamento dos grafiteiros Toz e BR, na pintura de um ônibus para o evento Art Core, e também pela limitação do campo de pesquisa, a Zona Sul e a região portuária do Rio de Janeiro.

O último movimento, de reconhecimento atento, diz respeito a acompanhar um processo de transformação, e não simplesmente a representar um objeto. Foi quando surgiu a pergunta: afinal, o que está acontecendo com o grafite? Foi o momento em que a dúvida e a curiosidade sobre o funcionamento das estratégias, táticas e dispositivos de cooptação agem sobre o grafite, fazem-se presentes na pesquisa. Nesse momento, iniciaram-se as entrevistas semiestruturadas com os grafiteiros Toz, BR, Panmela Castro, Miguel Afa, Bruno Life, Cast, Nobã e João Bira, além do galerista Ricardo Kimaid e dos autores dos projetos #oraculoproject e Não Fui Eu. Entrevistas que buscavam opiniões, experiências e relatos a respeito do grafite carioca e suas relações com o mercado.

Na segunda etapa metodológica, de análise de dados, recorreu-se a um extenso referencial teórico, somado à revisão bibliográfica de autores diversos, com o objetivo de se aprofundar no tema. Na escassez de livros teóricos sobre grafite em português, buscou-se também textos em outras línguas, que pudessem

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colaborar com as discussões. No entanto, grande parte dos títulos sobre o tema trazem apenas fotos de murais, pinturas e intervenções e poucas informações relevantes, um problema contornado então com artigos científicos e trabalhos acadêmicos, como teses e dissertações correlatas. Aos textos sobre grafite acrescentaram-se conceitos, teorias e pensamentos de autores que pudessem, de alguma maneira, dialogar com a pesquisa. Tendo como intento construir o objeto empírico, de forma a unir problematizações teóricas e metodológicas com as processualidades do cartógrafo-pesquisador.

Entre os principais autores e abordagens, destacam-se: Michel Foucault e a microfísica do poder; Nestor Garcia Canclini e suas observações sobre o próprio grafite e outras culturas híbridas; Michel de Certeau e Henry Lefebvre e a construção do espaço urbano; David Harvey e suas críticas ao capitalismo; Gilles Deleuze e a sociedade de controle; Pierre Bourdieu e sua teoria sobre bens simbólicos; Janet Wolff e a construção social da arte; Neil Smith e os processos de gentrificação.

De modo geral, a cartografia aqui esboçada partiu da perspectiva de que a prática do grafite está localizada em um campo de relações de forças, no qual poder e resistência estão em constante embate. Nesse campo, o grafite tem limites difusos que insurgem como uma transgressão cultural cooptada pelo mercado. A fase de escrita do texto, que permeou todo o processo, procurou sintonizá-la e torná-la coerente, principalmente, com a produção de dados. A intenção foi fazer com que as falas e as opiniões dos entrevistados não se tornassem meros objetos de pesquisa, mas colaborassem efetivamente na construção do texto final. “A política

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da escrita deve incluir as contradições, os conflitos, os enigmas e os problemas que restam em aberto” (Passos et. al., 2009, p.72).

Optou-se pela metodologia cartográfica, também por tratar-se de uma pesquisa no campo do design, que aborda questões sobre a transformação do grafite e diz respeito à subjetividade. O design ocupa, aqui, um território a ser explorado e cartografado. Longe de constituir apenas um ponto de referência que estaria fora ou acima desse mapeamento, ele atua como um dispositivo do jogo de forças que operam na transformação da prática do grafite e na sua apropriação pelo mercado. Portanto, percebe-se uma tentativa de compreender a realidade que circula essa prática, os dispositivos, as relações de forças e poderes que agem, por vezes de forma velada, em sua configuração.

De modo geral, pode-se dizer que a pesquisa remete a um caráter construtivista, considerando-se que não existia um campo constituído a priori, e muito menos um pesquisador neutro operando na produção e análise de dados e escrita do texto.

Na trama rizomática que se apresentou diante do cartógrafo-pesquisador nas ruas, galerias, encontros e eventos no Rio de Janeiro, pretendeu-se abrir passagens, criar novos caminhos e identificar transformações e mutações na paisagem do grafite, assumindo, como elemento de partida para análise crítica do tema, os deslocamentos ideológicos do grafite.

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