• Nenhum resultado encontrado

Da paralisia à fadiga

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Da paralisia à fadiga"

Copied!
194
0
0

Texto

(1)

0

UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ADRIANA CÂNDIDO DA SILVA

DA PARALISIA À FADIGA:

UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE OS SINTOMAS EM PACIENTES COM HISTERIA APRESENTADOS POR FREUD E OS SINTOMAS EM PACIENTES DIAGNOSTICADAS COM HISTERIA DO SERVIÇO-ESCOLA DE PSICOLOGIA

Palhoça 2010

(2)

1

ADRIANA CÂNDIDO DA SILVA

DA PARALISIA À FADIGA:

UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE OS SINTOMAS EM PACIENTES COM HISTERIA APRESENTADOS POR FREUD E OS SINTOMAS EM PACIENTES DIAGNOSTICADAS COM HISTERIA DO SERVIÇO-ESCOLA DE PSICOLOGIA

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Psicólogo.

Orientadora: Prof.ª Maria do Rosário Stotz, Drª.

Palhoça 2010

(3)

2

ADRIANA CÂNDIDO DA SILVA

DA PARALISIA À FADIGA:

UM ESTUDO COMPARATIVO ENTRE OS SINTOMAS EM PACIENTES COM HISTERIA APRESENTADOS POR FREUD E OS SINTOMAS EM PACIENTES DIAGNOSTICADAS COM HISTERIA DO SERVIÇO-ESCOLA DE PSICOLOGIA

Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Bacharel em Psicologia e aprovado em sua forma final pelo Curso de Psicologia da Universidade de Sul de Santa Catarina.

Palhoça, 23 de junho de 2010.

___________________________________________________ Profª e Orientadora Dra. Maria do Rosário Stotz

Universidade do Sul de Santa Catarina

___________________________________________________ Profª Msc. Maria Ângela Giordani Machado

Universidade do Sul de Santa Catarina

___________________________________________________ Prof. Dr. Maurício Maliska

(4)

3 Aos meus pais, Eliana e Teófilo, por tornarem os meus dias sempre mais coloridos e por me ensinarem que nunca devemos desistir de nossos sonhos.

Ao meu noivo, João Paulo, por ter me apoiado em todos os momentos e por me fazer sentir todos os dias o que é o amor.

(5)

4

AGRADECIMENTOS

Gostaria primeiramente de dizer que a realização deste trabalho e a finalização do curso foram, para mim, a realização de um sonho e que, para eu chegar até aqui, algumas pessoas foram fundamentais.

Agradeço à minha mãe, Eliana, por ter estado ao meu lado sempre que eu precisei. As suas palavras diárias de apoio e compreensão foram fundamentais para que eu conseguisse chegar até aqui. Mãe, obrigada pelos almoços, pelas conversas (desabafos) ao telefone, pelas palavras de motivação e apoio, pelo carinho, pelos abraços, por tudo. Agradeço também ao meu pai, Teófilo, pelos momentos de apoio, de escuta, por sempre acreditar em meu potencial, por me dizer palavras de conforto e por compreender a minha ausência este ano. Amo vocês.

Ao meu noivo, João Paulo, por me compreender quando eu dizia “Hoje não dá

para sairmos, pois farei o TCC” e por me dizer “Calma amor, tudo vai dar certo no final...”.

Amor, obrigada por todo o seu apoio, por acreditar sempre na minha capacidade, por dizer “Chega desse TCC por hoje, vamos sair!” e por mostrar diariamente que, sem o amor, a vida não tem graça. Obrigada por tudo. Amo você.

Aos meus avós maternos, Aurélia e Edmundo, pelos momentos agradáveis que me proporcionaram durante todo este ano, por sempre me oferecerem os melhores cafés do mundo quando eu ligava e perguntava se ia “rolar um café” e pelas conversas que me acalmaram. Amo vocês.

À minha Profª Orientadora, Maria do Rosário, por todos os ensinamentos que me ofereceu durante todo o processo, pela atenção dada e por me dizer sempre para ter calma que no final tudo dá certo. Meus sinceros agradecimentos.

Aos membros da minha banca, por terem aceitado o convite e pelas contribuições dadas para o meu trabalho: Profª Maria Ângela – agradeço por sempre ter acreditado em meu potencial, desde os tempos da monitoria até os dias de hoje, e por tudo o que me ensinou. Muito obrigada. Profº Maurício – agradeço pelos momentos de ensinamentos e aprendizagens e pelas palavras de apoio. Muito obrigada.

À Profª Regina, pelas oportunidades que ela me proporcionou durante todo o curso, por acreditar sempre no meu potencial, por me dar autonomia nos Projetos e por me

(6)

5 dizer sempre palavras tão queridas. Rê, muito obrigada. Agradeço também ao Profº Leandro, pelas ricas discussões no Projeto do Fórum.

Às minhas amigas de orientação: Aline, Maria Júlia e Grazi, pelos momentos de descontração e risadas, que foram muito importantes, e também por compartilharem sempre comigo as angústias frente ao TCC. Adoro vocês. À Aline, eu agradeço especialmente por tudo, por todo o apoio, pelas horas de conversas ao telefone, por me compreender, por sempre estar disposta a ajudar, por me ouvir. Meus sinceros agradecimentos, minha amiga, você foi uma pessoa fundamental durante toda essa etapa; quero que você saiba que você ocupa um lugar especial em minha vida e que quero te ter sempre por perto. À Maria Júlia, minha amiga querida, pelas palavras de apoio e pelos momentos de descontração. Muito obrigada. À Grazi, pelas palavras carinhosas. Muito obrigada.

Às minhas amigas do SP: Izabel, Renata e Fabiana, pelas trocas de conhecimento e também pelas risadas, que foram fundamentais para descontrairmos um pouco. À Izabel, minha amiga, por todos os momentos agradáveis que passamos desde o início da faculdade e pelas palavras sempre tão queridas. Muito obrigada.

À minha amiga “Carola” que, apesar dos inumeráveis “não” que lhe dei este ano por causa do TCC, nunca desistiu de mim. Agradeço pelos momentos de descontração, pelas visitas de surpresa, pelas palavras de apoio e também por me dizer “Chega desse TCC por

hoje, tô indo aí na sua casa agora”.

À Gabi do SP, por ter me ajudado, com carinho, a pegar os prontuários das pacientes que estavam arquivados.

(7)

6 “Quem estudar a histeria [...] logo transferirá seu interesse dos sintomas para as fantasias que lhes deram origem” (FREUD, 1908 [1996]).

(8)

7

RESUMO

O saber sobre a histeria não é algo dos dias de hoje. A histeria foi objeto de estudo desde os primórdios da medicina, e sempre foi algo que inquietou os estudiosos. Essa inquietação também esteve presente em Freud, e esse fato, entre outros, o impulsionou a estudar a histeria. Na contemporaneidade a discussão continua: alguns autores dizem que a “velha” histeria descrita por Charcot e Freud está “morta”; outros dizem que a histeria está cada vez mais presente, isto é, está “viva”. A partir disso, o presente trabalho teve como objetivo comparar os sintomas de pacientes com histeria apresentados nos textos de Freud com os sintomas descritos nos prontuários de pacientes com histeria de um Serviço-Escola de Psicologia (SP), tendo como referencial teórico a Psicanálise. Para que este objetivo fosse alcançado, foi feita uma descrição dos sintomas apresentados por seis pacientes descritas como histéricas por Freud (Anna O., Emmy von N., Miss Lucy R., Katharina, Elisabeth von R. e Dora) e também foi realizada uma descrição dos sintomas de sete pacientes diagnosticadas com histeria do SP, através de análise documental (prontuários). Com isto, o trabalho foi classificado como uma pesquisa qualitativa e exploratório-descritiva. Com os dados coletados (sintomas), foram elaboradas categorias a posteriori intituladas de “Sintomas Conversivos” e “Sintomas Relacionados a Afetos”. Após isso, foi feita a comparação, descrição e análise dos dados por meio do referencial teórico adotado neste trabalho e, ao final, foi feita a descrição das semelhanças e diferenças entre esses sintomas. A partir dessa comparação, constatamos que, na época de Freud, as pacientes com histeria apresentavam mais contraturas, paralisias e dificuldades em andar enquanto as pacientes diagnosticadas com histeria do SP apresentaram mais a fadiga, o cansaço e o esgotamento.

(9)

8

LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Fotografia 1 - Existe uma consistência histórica entre apresentações clínicas de sintomas histéricos desde o tempo de Charcot...68

(10)

9

LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1 – Proporção de livros de neurologia geral dedicados à histeria, por ano de publicação...65

(11)

10

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Semelhanças e Diferenças entre os sintomas conversivos de pacientes histéricas apresentados nos textos de Freud e os descritos nos prontuários do Serviço-Escola de Psicologia...120 Tabela 2 – Semelhanças e Diferenças entre os sintomas relacionados a afetos de pacientes histéricas apresentados nos textos de Freud e os descritos nos prontuários do Serviço-Escola de Psicologia...121

(12)

11

LISTA DE SIGLAS

BIREME – Biblioteca Virtual em Saúde CAPS - Centro de Atenção Psicossocial CID - Classificação Internacional de Doenças

DSM - Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais ESF - Estratégia de Saúde da Família

ICAP – Indexação Compartilhada de Artigos Periódicos PSM - Programa de Saúde Mental

PEPSIC - Periódicos Eletrônicos em Psicologia SP – Serviço-Escola de Psicologia

SCIELO – Coleção de Revistas e Artigos Científicos UNISUL - Universidade do Sul de Santa Catarina

(13)

12 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ... 14 1.1. PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA ... 15 1.2. OBJETIVOS ... 28 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ... 30 2.1. NEUROSE E PSICANÁLISE ... 30

2.2. DA SEDUÇÃO À FANTASIA: A HISTERIA EM FREUD ... 41

2.3. SINTOMA E HISTERIA ... 50 2.4. A HISTERIA NA CONTEMPORANEIDADE ... 59 3. MÉTODO ... 71 3.1. CARACTERIZAÇÃO DA PESQUISA ... 71 3.2. FONTES DE INFORMAÇÕES ... 74 3.3. EQUIPAMENTO E MATERIAL ... 74 3.4. SITUAÇÃO E AMBIENTE ... 74

3.5. PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS ... 75

3.6. ORGANIZAÇÃO, TRATAMENTO E ANÁLISE DOS DADOS ... 77

4. APRESENTAÇÃO DOS DADOS ... 80

4.1. SINTOMAS DE PACIENTES COM HISTERIA APRESENTADOS POR FREUD... 80

4.2. SINTOMAS DE PACIENTES DIAGNOSTICADAS COM HISTERIA DESCRITOS NOS PRONTUÁRIOS DO SERVIÇO-ESCOLA DE PSICOLOGIA ... 84

5. COMPARAÇÃO, DISCUSSÃO E ANÁLISE DOS DADOS ... 87

5.1. SINTOMAS CONVERSIVOS ... 89

5.2. SINTOMAS RELACIONADOS A AFETOS ... 103

5.3. SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS ENTRE OS SINTOMAS DE PACIENTES HISTÉRICAS APRESENTADOS NOS TEXTOS DE FREUD E OS SINTOMAS DESCRITOS NOS PRONTUÁRIOS DO SERVIÇO-ESCOLA DE PSICOLOGIA ... 120

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 123

REFERÊNCIAS ... 129

APÊNDICES...137

APÊNDICE A – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido...138

(14)

13

APÊNDICE C – Categorias Iniciais: Uma “Tentativa”...179 APÊNDICE D – Tabela de Categorias... ...182 ANEXOS...188 ANEXO A – Breves Comentários Sobre as Pacientes de Freud Envolvidas Neste Trabalho...189

(15)

14

1. INTRODUÇÃO

O curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (UNISUL) tem em sua estrutura curricular uma disciplina que prevê o desenvolvimento de uma pesquisa científica para a obtenção do título de psicólogo. A partir da oitava fase do curso, o acadêmico deverá escolher um Núcleo Orientado (da Saúde ou do Trabalho) para realizar seu estágio curricular final. O Núcleo Orientado da Saúde oferece quatro campos de estágio: Mediação Familiar (no Fórum da Comarca de São José); Posto de Saúde Bela Vista (Palhoça); Hospital de Caridade e Programa de Saúde Mental (Projeto Time da Mente). O presente trabalho realiza essa pesquisa de conclusão de curso e está vinculada ao Núcleo Orientado da Saúde; mais especificamente, ao Projeto Time da Mente

Esse Projeto acontece em três locais de estágio: no Centro de Saúde Bela Vista - Município de São José (SC), no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) no município de Palhoça (SC) e na Unidade Básica de Saúde Central, também no Município de Palhoça. Nesses campos de estágios, a atuação está mais voltada para a saúde mental em diversas modalidades de atendimento, tais como: atendimento individual ou em grupo, orientação a familiares, e a capacitação em saúde mental dos agentes comunitários no Município de São José. Além de o estágio ocorrer no CAPS, no Programa de Saúde Mental e na Unidade Básica de Saúde Central, faz parte da proposta do curso os estagiários do último ano atenderem no Serviço-Escola de Psicologia da Universidade. Esses atendimentos ocorrem nas modalidades individual e/ou familiar e são supervisionados por professores semanalmente. O objetivo é fazer com que o acadêmico tenha mais contato com a clínica e desenvolva a habilidade de articular teoria e prática.

Como anteriormente citado, os campos de atuação dos estagiários se caracterizam por locais de atendimento a pessoas com sofrimento psíquico, sendo oportuno, então, definir Saúde Mental, de acordo com Lancetti e Amarante (2006, p. 616): “[...] um campo profissional ou uma área de atuação [...] uma grande área de conhecimento e de ações que caracterizam por seu caráter amplamente inter e transdisciplinar e intersetorial”. O objetivo de trazermos este conceito de saúde mental é pensar que, como no estágio lidamos com pessoas com algum tipo de sofrimento psíquico, temos como foco proporcionar a esses sujeitos, entre

(16)

15 outras coisas, que esses sujeitos consigam resgatar sua saúde mental (esta questão será melhor discutida no decorrer do trabalho).

No Município de São José não há Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), e esse fato torna o Programa de Saúde Mental uma referência na área de Saúde Mental no município. Nesse local são atendidos pacientes com transtornos mentais, a partir de encaminhamentos feitos pelas equipes da Estratégia de Saúde da Família (ESF) vinculadas aos Centros de Saúde do município em questão.

Pelo fato de estarmos inseridos no Projeto Time da Mente, temos como objetivo articular esta pesquisa com a temática da saúde mental, sendo que o objetivo deste trabalho consiste em comparar os sintomas de pacientes histéricas1 apresentados nos textos de Freud com os sintomas descritos nos prontuários de pacientes diagnosticadas com histeria do Serviço-Escola de Psicologia. Para tanto, este trabalho encontra-se estruturado como apresentado abaixo. Em primeiro lugar, serão apresentados os objetivos geral e específicos, bem como a problemática e a justificativa do trabalho que se pretende desenvolver. Na seqüência, a fundamentação teórica, a metodologia e a apresentação, análise, discussão e comparação dos dados, elementos importantes a serem observados a fim de alcançarmos os objetivos propostos.

1.1. PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA

Para que possamos compreender como a histeria é vista nos dias de hoje, isto é, no século XXI, será necessário entendermos como a concepção acerca da histeria foi mudando ao longo da história. Para facilitar esse entendimento, neste subcapítulo é problematizada brevemente a temática da histeria ao longo da história e apresentada a visão de alguns autores sobre a histeria na contemporaneidade. Além disso, junto com a problematização da temática, também fazemos a justificativa deste trabalho.

1 Para ficar mais fidedigno à maneira como a maioria dos autores denominam os sujeitos com histeria, optamos

pela a expressão “histéricas” em vez de “sujeitos com histeria”. Lembramos que Freud não utilizava a expressão “sujeito”. Mesmo assim, optamos pelo seu uso, pois estamos fazendo uma leitura a posteriori dos textos psicanalíticos.

(17)

16 Dentro desse contexto, um breve passeio pela história faz-se necessário, uma vez que, conforme exposto na introdução deste trabalho, o seu objetivo está atrelado a uma comparação entre os sintomas de pacientes histéricas apresentados nos textos de Freud e os descritos nos prontuários de um Serviço-Escola de Psicologia. Compreender a história do tema significa compreender o espírito de cada época no tocante a ele, desde a Grécia Antiga, passando pela Idade Média, século XIX com Charcot (grande estudioso da histeria), Freud e até os dias de hoje.

A princípio, parece não ser comum vermos tantas crises histéricas como aquelas que eram descritas por Charcot e, sobre isso, Leite (2002) afirma que a plasticidade dos sintomas histéricos através dos tempos e, particularmente, a variedade e riqueza dos sintomas histéricos é em parte responsável pela ideia de que não existe mais a “velha histeria” de Freud e Charcot. Dentro desse contexto, contribuindo para a progressão ascendente da ciência a partir de uma abordagem psicanalítica, buscaremos investigar como os sintomas da histeria se apresentam na clínica hoje (a partir da análise dos prontuários de um Serviço-Escola de Psicologia) em comparação aos sintomas histéricos descritos por Freud, oferecendo algumas reflexões acerca dessa temática.

O interesse pela temática da histeria surgiu durante a realização da monitoria na disciplina de Fundamentos de Psicanálise, durante o período de dois anos. Nesse período de vigência da monitoria, tínhamos certas inquietações, como por exemplo: por que já não vemos, com a mesma freqüência as crises histéricas e espetaculares que Charcot descrevia? Essas inquietações nos motivaram à seguinte reflexão: como se apresentam hoje os sintomas da histeria? Para ajudar a diminuir essas inquietações, pensamos na possibilidade de realizar esta pesquisa em um local que nos fornecesse dados e que mostrasse como esses sintomas têm aparecido na contemporaneidade. Por isso, pensamos em um Serviço-Escola de Psicologia da Universidade. Apressamo-nos em dizer que resolvemos delimitar “sintomas da histeria” para fazer a análise tanto das pacientes atendidas por Freud quanto dos prontuários, pois dessa maneira fica delimitado o foco do trabalho, o que pode facilitar quanto aos aspectos metodológicos, uma vez que o termo “histeria” é muito amplo. Na metodologia deste trabalho será discutido melhor esse ponto.

A escolha de realizar a pesquisa em um Serviço-Escola de Psicologia foi motivada pela facilidade de acesso aos prontuários, bem como ao fato do paciente consentir em que seus dados sejam usados para fins científicos, desde que seja preservada sua identidade. Outro motivo foi, conforme descrito no parágrafo acima, a ideia de que na pesquisa fossem usados

(18)

17 dados concretos e confiáveis. Além disso, nas bases de dados pesquisadas - Scielo (Brasil), Bireme (Brasil), Pepsic (Brasil), Icap (Brasil) e Google Acadêmico (Brasil) - não foram encontradas pesquisas com a caracterização dos sintomas da histeria por meio de prontuários. Esse fato corrobora a ideia de que há uma lacuna, no meio científico, relativa ao estudo sobre a histeria utilizando como fonte de dados a análise de prontuários.

Nas bases de dados supracitadas, foram encontrados artigos que descrevem a história da histeria, como é o caso dos artigos “Histeria” de Giovani Belintani (2003) e “Histeria: uma revisão crítica e histórica do seu conceito” de Mattos et al (2005). Também foram encontrados artigos que estabelecem a relação entre histeria e conversão, como é o caso do seguinte artigo: “Histeria e perturbação conversiva” de Pinto et al (2004). A relação entre histeria e anorexia nervosa também apareceu: “Anorexia nervosa: uma revisão” de Schmidt e Mata (2008), “Anorexia e bulimia, suas interfaces com a histeria e o discurso psicanalítico” de Neto et al (2006).

As palavras-chave procuradas nessas bases de dados foram: “histeria + análise prontuários”. Após esse levantamento, percebemos que, além de não haver artigos sobre a histeria utilizando como método a análise de prontuários, também não há artigos fazendo uma comparação direta entre a histeria dos tempos de Freud com a histeria na contemporaneidade.

Sobre a relevância de se fazer o estudo em prontuários, vale assinalar que, utilizando o conhecimento adquirido nessa pesquisa sobre os principais sintomas da histeria apresentados na atualidade, poder-se-á (em outros momentos) definir melhores estratégias de intervenção clínica junto a esses pacientes e propor tratamentos mais eficazes e adequados. Sobre essa relevância,

A definição de estratégias eficientes de intervenção clínica requer um conhecimento prévio e sistematizado dos motivos da procura apresentados pela clientela que busca atendimento psicológico em serviços de saúde mental, visando a fornecer: subsídios ao planejamento e à organização do Serviço no que se refere à adequação de modalidades de atendimento às necessidades da clientela; informações aos profissionais em formação acerca dos problemas da clientela; reflexões sobre sua prática; e contribuição para o conhecimento acumulado acerca das características da demanda dos pacientes que buscam assistência em serviços de saúde mental (LINHARES et al., 1993 apud ROMARO e CAPITÃO, 2003, p.113).

A ciência tem produzido conhecimento sobre a histeria e sua história e, no que concerne a temática da histeria na contemporaneidade, a maioria dos livros abordam essa questão no último capítulo do livro, o que pode fazer com que essa temática não seja tão

(19)

18 explorada e aprofundada. Como é o caso do livro clássico “A História da Histeria”, de Etienne Trillat (1991), em que a questão da histeria na contemporaneidade é discutida no último capítulo do livro.

Sobre o embasamento teórico dessa pesquisa, as reflexões serão pautadas à luz da teoria Psicanalítica e, mais especificamente, em Freud. Essa escolha remete ao comentário de Nasio (1991, p. 9): “A maneira de pensar dos psicanalistas atuais (grifo nosso) e a técnica por eles aplicada continuam a ser, à parte as mudanças inevitáveis, um pensamento e uma

técnica intimamente ligados ao tratamento do sofrimento histérico (grifo nosso)”. Ainda

sobre isso,

A Psicanálise e a histeria continuam tão indissociáveis que a terapêutica analítica é regida por um princípio fundamental: para tratar e curar a histeria, é preciso criar artificialmente outra histeria2. Decididamente, o tratamento analítico de qualquer neurose não é outra coisa senão a instauração artificial de uma neurose histérica e sua resolução final. Quando, ao término da análise, essa nova neurose artificial, integralmente criada entre o paciente e seu psicanalista, é superada, conseguimos resolver igualmente a neurose inicial que motivou a análise (NASIO, 1991, p. 9).

Como o embasamento teórico de todo o trabalho será pautado na Psicanálise, é importante discorrermos brevemente sobre ela. De acordo com Freud (1922 [1996]3, p. 253), “Psicanálise é o nome de (1) um procedimento para a investigação de processos mentais que são quase inacessíveis por qualquer outro modo (2) um método (baseado nessa investigação) para o tratamento de distúrbios neuróticos [...]”. Para complementar, Laplanche e Pontalis (2008) afirmam que a Psicanálise é um método de investigação que “consiste essencialmente em evidenciar o significado inconsciente das palavras, das ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Este método baseia-se principalmente nas associações livres do sujeito” (p. 384).

Conforme exposto acima na citação de Nasio (1991), a Psicanálise e a histeria são indissociáveis para a teoria psicanalítica, e para introduzir e problematizar a temática da

2 Quando Nasio (1991) fala em “criar artificialmente outra histeria”, ele está se referindo à Neurose de

Transferência. Esta, de acordo com Laplanche e Pontalis (2008), significa: “neurose artificial em que tendem a organizar-se as manifestações de transferência. Constitui-se em torno da relação com o analista; é uma nova edição da neurose clínica. Sua elucidação leva à descoberta da neurose infantil” (p. 309). Para o leitor que tiver mais interesse em saber sobre a Neurose de Transferência, sugerimos a leitura do texto de Freud (1914 [1996]) “Recordar, Repetir e Elaborar”.

3 Optamos por referenciar, no caso das obras freudianas, em primeiro lugar a data da primeira publicação e, logo

após, a data da publicação da edição Standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, pois acreditamos ser de grande valia especificar o ano em que Freud escreveu seus livros.

(20)

19 histeria cabe aqui discorrer acerca da histeria a partir do que os bancos de dados científicos e as obras psicanalíticas têm produzido sobre esse tema, sendo que apressamo-nos em destacar que há algumas divergências entre os autores. Como já anteriormente apresentado, para compreendermos melhor como os autores descrevem a histeria hoje, será necessário recorrermos brevemente à história. É importante frisar que esse processo de modificação do entendimento acerca da histeria não ocorreu de uma hora para outra, mas foi construído historicamente e permeado pela Zeitgeist4 de cada época. Alonso (2000, p.1) afirma que “[...] não podemos deixar de reconhecer (quando estamos falando da histeria) a forma de apresentação dominante em cada momento histórico, o que cria verdadeiras ‘ondas’ ou ‘epidemias’.” Ainda sobre essa importância, a autora complementa que “o ‘mal-estar’ presente em cada cultura, assim como a ‘moral sexual’ encontram-se no cerne das apresentações da histeria, que irá expressar não só aquilo que é considerado ‘valor’, mas também o recalcado de cada momento cultural” (p.11).

A palavra histeria vem do grego (hysteron) e significa útero (FREUD, 1888 [1996]) e o saber sobre a histeria não é algo dos dias de hoje. A histeria foi objeto de estudo desde os primórdios da medicina; na Grécia Antiga destacam-se os estudos de Hipócrates (médico renomado, 460 - 377 a. C). Este entendia a “histeria5” como sendo especificamente feminina, pois afetava todo o corpo por “sufocações da matriz6” ou “sufocações uterinas”. Hipócrates supunha que a histeria se desenvolvia pela privação de relações sexuais, dessecando o útero, que perderia peso e se deslocaria pelo corpo em busca da umidade necessária. Então essa “matriz” se deslocava pelo corpo causando vários sintomas, entre eles o sufocamento - quando a matriz se joga sobre o fígado e obstrui as vias respiratórias (BELINTANI, 2003; PINTO, 2007; TRILLAT, 1991). Platão (c. 428 – c. 347 a. C.) foi contemporâneo de Hipócrates, e dizia que, na mulher, há um ser vivo chamado matriz ou útero que é possuído pelo desejo de fazer crianças. Quando esse ser vivo fica muito tempo estéril ele se irrita, obstrui as passagens de ar e evita a inspiração (PLATÃO, 1925 apud TRILLAT, 1991).

Já na Idade Média (séc. XII), a concepção de histeria passa de uma ideia de “deslocamento da matriz” para estar relacionada à possessão demoníaca, passando a ser um

4 Do alemão - significa espírito de época ou espírito do tempo - características genéricas de um determinado

período da história.

5 A palavra histeria não aparece em Hipócrates. Ele usava “sufocação da matriz”; e essa expressão foi substituída

pela palavra histeria por Littré (TRILLAT, 1986).

6 Entende-se Matriz por “lugar onde algo se gera ou cria; órgão das fêmeas dos mamíferos onde se gera o feto;

(21)

20 objeto de estudo da Teologia. Como o domínio da Igreja Católica Romana era forte, qualquer pessoa que fosse contra as vontades da Igreja era considerada herege7. Dentro desse contexto de opressão, os médicos eram chamados para serem peritos em casos de suspeita de bruxarias. As histéricas então, com seus estigmas e sinais somáticos (“contorções extraordinárias”), muitas vezes eram vistas como bruxas e tinham como piores destinos as fogueiras da Inquisição8 (QUINET, 2005; TRILLAT, 1991).

No século XIX, Jean-Martin Charcot (1825-1893), que era chamado de “rei das histéricas”, sendo o primeiro a fazer da histeria uma entidade clínica respeitável, disse: “Desagrade ou não aos céticos e aos histerofóbicos, isso não é um romance: a histeria tem suas leis” (QUINET, 2005, p. 98). Charcot era neuroanatomopatologista, diretor da Clínica La Salpêtrière e utilizava o hipnotismo seguido de sugestão para fazer o diagnóstico diferencial da histeria (QUINET, 2005; TRILLAT, 1991).

Retomando a ideia da impossibilidade de se dissociar a histeria e a Psicanálise descrita no início deste trabalho, Quinet (2005, p. 102) afirma que “Freud ao procurar responder à pergunta sobre a origem da histeria, cria um novo saber: a Psicanálise”. Antes de definir o que era a histeria para Freud, é importante trazermos brevemente à atenção do leitor alguns pontos importantes.

Segundo a Psicanálise, a partir do complexo de Édipo, os sujeitos se estruturam psiquicamente em neurose, psicose ou perversão, sendo que a histeria é uma estrutura do tipo neurótica. Convém lembrar que essa questão da estruturação do sujeito9 será melhor discutida e aprofundada na fundamentação teórica deste trabalho.

Sobre a relação entre histeria e neurose, Freud, no texto Histeria (1888 [1996], p. 77), afirmou: “a histeria é uma neurose no mais estrito sentido da palavra — quer dizer, não só não foram achadas nessa doença alterações perceptíveis do sistema nervoso, como também não se espera que qualquer aperfeiçoamento das técnicas de anatomia venha a revelar alguma dessas alterações”. Já no texto “Fragmento da Análise de um Caso de Histeria” (1901 [1996]), Freud afirma que todo o sintoma histérico requer a participação de dois lados: um lado somático e um lado psíquico – “o sintoma histérico não pode ocorrer sem a participação de uma certa complacência somática (proporciona aos processos psíquicos inconscientes uma saída no

7

Literalmente quer dizer: aquele que pensa diferente; pessoa que sustenta uma doutrina contrária a determinado dogma.

8 Tribunal cristão criado para averiguar heresias, feitiçarias e etc.

9 Embora a expressão “estruturação do sujeito” não apareça em Freud (ele utilizava “desenvolvimento da

(22)

21 corporal) fornecida por algum processo normal ou patológico no interior de um órgão do corpo ou com ele relacionado” (p. 47). Nesse mesmo texto, ainda define que, para ser um sintoma histérico, é preciso que haja essa complacência somática associada e, quando isso não ocorre, pode ocorrer um sintoma psíquico de natureza afim – uma fobia ou talvez uma neurose obsessiva. Quinet (2005) afirma que a histeria (conversiva) para Freud10:

[...] é uma defesa contra a recordação (ideia) de um evento traumático de natureza sexual ocorrido na infância (por exemplo, a sedução por parte de um adulto). Quando criança, o sujeito teve uma experiência sexual cuja carga de afeto foi insuportável para o sujeito e lhe é inconciliável com a consciência. Desse conflito resulta que a ideia é recalcada (isolada das outras) e permanece ativa no inconsciente. [...] Uma vez, já na vida adulta, essa recordação, despertada por algum acontecimento, é convertida (grifo do autor) em um sintoma no corpo, que é um memorial do trauma (p. 103).

Conforme mencionado acima, devemos sempre considerar o contexto histórico que permeia a obra do autor. Sobre o Zeitgeist do tempo de Freud, conforme Medioli (2005), “na época de Freud os valores culturais burgueses apontavam para o que se podia e o que não se podia dizer” (p. 2).

Na contemporaneidade, a discussão acerca da histeria continua, embora haja divergências entre os autores e suas opiniões, como assinala Alonso e Fuks (2004, p. 224) “[...] cada autor marca um dos aspectos importantes da histeria, o que pode fazê-los parecer contraditórios, mas, na verdade, todos esses aspectos convivem na importante diversidade desse quadro”.

Por um lado, Trillat (1991) afirma que a histeria foi despojada. “Ela perdeu seus trajes ridículos, estranhos, desconcertantes; aqueles que, aos olhos dos médicos, constituíam seu atrativo e charme. [...] Despojada de seus sintomas, nada mais resta da histeria senão ela mesma: uma personalidade histérica” (TRILLAT, 1991, p. 281, 282). O autor ainda é enfático ao afirmar que “A histeria está morta, isto é claro. Ela levou consigo seus enigmas para o túmulo” (p. 284).

Por outro Nasio (1991, p. 9) afirma que “As histéricas de outrora [...] caíram de moda, e seu sofrimento hoje se oferece sob outras faces, outras formas clínicas, mais discretas, menos espetaculares, talvez, que as da antiga Salpêtrière”. Ainda sobre isso, o mesmo autor complementa que a face clínica da histeria contemporânea surge de duas

10 Será apresentada, durante todo o trabalho, a concepção de Freud acerca da histeria conversiva. Colocamos a

(23)

22 maneiras distintas: como um vínculo doentio do neurótico com outrem (sob o ponto de vista relacional) ou a partir dos seus sintomas (sob o ponto de vista descritivo).

Corroborando essa ideia de Nasio, Quinet (2005, p. 108) assinala: “Se a histeria foi mandada embora da psiquiatria pela porta, ela retornou no cotidiano nas mais variadas formas por todas as janelas”. Roudinesco e Plon (1998) dizem que a histeria não desapareceu, porém é cada vez mais tratada como depressão, negando-se a reconhecer no conflito neurótico a causalidade do inconsciente; no entanto, no seu trabalho de “insistência do inconsciente” este aparece no corpo e os ditos histéricos de hoje aparecem nos consultórios de médicos ginecologistas, gastroenterologistas, etc. Alonso e Fuks (2004) consideram também que nos dias de hoje não podemos desconsiderar a presença frequente dos estados depressivos em todos os quadros neuróticos, incluindo a histeria, sobretudo após o término de uma relação amorosa, por exemplo.

Simões (2007) afirma que a “clínica da histeria moderna também se apresenta por meio de sintomas somáticos, sem nenhuma causa orgânica, transitórios e observáveis, como por exemplo, as enxaquecas, as dores localizadas, a anorexia nervosa” (p. 1).

Alonso e Fuks (2004) afirmam que as histéricas continuam sempre presentes na clínica cotidiana e que a histeria atual é midiática - a histérica fez um deslocamento da figura do médico para a mídia e é esta que nos dias de hoje faz o papel de hipnotizador, fascinando e oferecendo permanentemente ordens sugestivas. O permanente efeito da mídia e da internet aumentam a força de “contaminação”, própria da histeria. Novamente os autores falam acerca do Zeitgeist, porém agora mais especificamente o dos dias de hoje:

As histerias atuais, iguais às de outras épocas, emergem de momentos históricos, geográficos e culturais específicos, mas, neste momento, a globalização faz com que uma forma de apresentação surgida num lugar, se difunda com rapidez para outros lugares do planeta. Podemos identificar apresentações da histeria no seio de algumas epidemias que ocupam a cena contemporânea: os pânicos, a fadiga crônica, as anorexias e bulimias, as personalidades múltiplas e as fibromialgias (ALONSO e FUKS, 2004, p. 233).

Leite (2002) considera a histeria “uma categoria psicopatológica fundamental na clínica nos dias atuais, apesar de a histeria ainda se confundir com a própria Psicanálise e tenha modificado sua forma de apresentação na contemporaneidade” (p. 137). Corroborando essa ideia, Medioli (2005) afirma que a histeria contemporânea não cria sintomas corporais

(24)

23 visíveis porque, estando em sintonia com uma sociedade histérica, que não aceita o interdito, se confunde com os valores sociais. A autora ainda complementa:

Se as histéricas da época de Freud sofriam porque em uma sociedade neurótica obsessiva que se baseava no interdito, elas não podiam falar (e a histeria foi o compromisso que salvou as mulheres), as histéricas da pós-modernidade sofrem porque em uma sociedade em que parece ser permitido, elas não podem ter (MEDIOLI, 2005, p. 3).

Com tudo o que foi exposto acima, percebemos que as opiniões sobre a histeria divergem entre os autores: Trillat (1991) afirma que a histeria está “morta”. Todavia, autores como Nasio (1991), Quinet (2005), Alonso e Fuks (2004), Leite (2002), Medioli (2005) e Roudinesco (1999) afirmam que a histeria ainda está “viva”.

Leite e Pereira (2003) afirmam que a histeria parece não combinar com a pós-modernidade. Ainda que os psicanalistas não hesitem em identificar a velha neurose histérica em seus consultórios, ela foi banida do discurso psiquiátrico de hoje e desapareceu dos principais manuais utilizados – CID-10 e DSM-IV11.

Indo ao encontro dessa mesma ideia, Figueiredo (2004) afirma que apenas a Psicanálise faz a histeria existir, pois, de acordo com os manuais diagnósticos12 em psiquiatria (CID 9 e 10, DSM III e IV), a histeria “sumiu do mapa”, não existe mais, acabou. Existem descrições de todo tipo que fragmentam essa categoria em síndromes e transtornos: dissociativo, conversivo ou somatoforme, histriônico, para citar os principais. Ainda sobre isso, a autora é enfática ao afirmar que, na psiquiatria atual, não há um diagnóstico do sujeito e sim uma coleção de fenômenos que nada dizem a respeito dele.

Relativamente ao Transtorno de Personalidade Histriônico (sendo este parte do grupo de Transtornos de Personalidade), o Compêndio de Psiquiatria define como características clínicas: “Tendem a exagerar seus pensamentos e sentimentos [...]. Mostram um alto grau de comportamento para chamar a atenção. Exibem faniquitos, lágrimas e acusações quando não estão recebendo elogios ou aprovação” (SADOCK e SADOCK, 2007, p. 864). Além disso, conforme o compêndio, a prevalência desse transtorno é de cerca de

2% a 3% na população em geral (grifo nosso), porém esses dados são limitados. A

11 A partir da consideração trazida por esses autores, vale verificar como aparece a histeria nesses manuais: a

palavra “histeria” não está mais presente nos manuais de psiquiatria, o que aparece nesses manuais é “Transtorno de Personalidade Histriônico” (pertencente ao grupo de “Transtornos de Personalidade”) e “Transtorno Conversivo”, este último inserido no grupo de “Transtornos Somatoformes”.

12 Embora este trabalho seja sustentado pela Psicanálise, não podemos desconsiderar os manuais de psiquiatria,

(25)

24 Classificação Internacional de Doenças (CID-10) usa a mesma nomenclatura de Transtorno de Personalidade Histriônico.

Ainda sobre a articulação entre os manuais de psiquiatria e a histeria, além do Transtorno de Personalidade Histriônico, é importante falarmos brevemente sobre o Transtorno Conversivo, visto que, na época de Freud, ele pesquisou sobre histeria do tipo conversivo. É interessante notar que o Transtorno Conversivo não pertence ao mesmo grupo do Transtorno de Personalidade Histriônico, uma vez que o Transtorno Conversivo faz parte dos Transtornos Somatoformes e não dos transtornos de personalidade. Conforme o DSM-IV (2002), o Transtorno Conversivo tem como característica essencial a presença de sintomas ou

deficits afetando a função motora ou sensorial voluntária, que sugerem uma condição

neurológica ou outra condição médica geral. Além disso, “os sintomas e déficits motores incluem prejuízo na coordenação ou equilíbrio, paralisia ou fraqueza localizada, afonia, dificuldades de deglutição ou sensação de nó na garganta e retenção urinária” (DSM-IV, 2002, p. 475). A prevalência desse transtorno é de 11 até 500 casos por 100 mil pessoas (grifo nosso) e “o transtorno conversivo tem sido relatado como foco no tratamento em até 3% dos encaminhamentos ambulatoriais para as clínicas de saúde mental” (DSM-IV, 2002, p. 478).

É importante salientar que nossa razão para destacar esses dados, presentes nas manuais de psiquiatria, reside no fato que os Postos de Saúde, principalmente, utilizam esses manuais para avaliar os pacientes. Como um dos nossos campos de estágio se localiza em uma Unidade Básica de Saúde, achamos relevante considerar a forma como a histeria é tratada nesses manuais.

Com tudo o que foi exposto até aqui, podemos agora pensar na relevância social desta pesquisa, começando pela Reforma Psiquiátrica. Esta, de acordo com o Ministério da Saúde (2005), é compreendida como um conjunto de transformações de práticas, saberes, valores culturais e sociais. Ainda sobre isso,

[...] é um processo político e social complexo, composto de atores, instituições e forças de diferentes origens, e que incide em territórios diversos, nos governos federal, estadual e municipal, nas universidades, no mercado dos serviços de saúde, nos conselhos profissionais, nas associações de pessoas com transtornos mentais e de seus familiares, nos movimentos sociais, e nos territórios do imaginário social e da opinião pública (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2005, p. 6).

(26)

25 Conforme exposto na citação acima, a Reforma Psiquiátrica é um processo político e social complexo. Amarante (2003) desmembra a frase “processo político e social complexo”, para que haja um maior entendimento da complexidade do processo de Reforma Psiquiátrica. O autor define que a palavra “processo” aponta um permanente movimento que não tem um objetivo único nem um fim predeterminado. Já a expressão “processo social” sugere que existem atores sociais envolvidos e “um processo social complexo” “se configura na e pela articulação de várias dimensões que são simultâneas e inter-relacionadas, que envolvem movimentos, atores e conflitos” (p. 49).

Dentro desse contexto de Reforma Psiquiátrica, sempre nos deparamos com a questão da desinstitucionalização e redução de leitos psiquiátricos. A desinstitucionalização de pessoas com longo histórico de internação e a redução de leitos em hospitais psiquiátricos tornou-se uma política pública no Brasil a partir dos anos 90, e ganhou um grande impulso a partir de uma série de normatizações preconizadas pelo Ministério da Saúde em 2002. Este processo, conforme o Ministério da Saúde (2005), vem acontecendo desde o ano de 1996, quando o número de leitos psiquiátricos do SUS era de 72.514; no ano de 2005 já havia diminuído para 42.076. Com esses dados, percebemos que esse processo ocorre de forma lenta e gradativa.

Amarante (2003) afirma que esse processo de desinstitucionalização e redução do número de leitos psiquiátricos “não se restringe à reestruturação técnica, de serviços, de novas e modernas terapias: torna-se um processo complexo de recolocar o problema, de reconstruir saberes e práticas, de estabelecer novas relações” (p. 50). Nesse sentido, o autor complementa e diz que o processo de desinstitucionalização acaba por criar novos direitos para os sujeitos envolvidos, uma vez que esse processo torna-se, acima de tudo, um processo de reconhecimento de novas situações e, com isso, uma produção de novos sujeitos.

Com a redução do número de leitos psiquiátricos, é necessário que seja criada uma rede de serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico para a construção de um serviço vivo e concreto de referências capazes de acolher a pessoa com sofrimento mental. Dentro desses serviços substitutivos, destacam-se: o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), as Residências Terapêuticas, o Programa de Volta Para Casa e uma maior articulação entre a Unidade Básica de Saúde com a questão da saúde mental (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2003). É oportuno falar mais acerca dessa articulação entre a Unidade Básica de Saúde com a saúde mental, visto que esta pesquisa está atrelada ao Projeto Time da Mente (conforme explicado na introdução deste trabalho) e esse Projeto acontece dentro do espaço

(27)

26 físico de uma Unidade Básica de Saúde do Município de São José. Sobre a importância dessa articulação, o Ministério da Saúde (2003) afirma:

[...] existe um componente de sofrimento subjetivo associado a toda e qualquer doença, às vezes atuando como entrave à adesão a práticas preventivas ou de vida mais saudáveis. Poderíamos dizer que todo problema de saúde é também – e sempre – de saúde mental, e que toda saúde mental é também – e sempre – produção de saúde. Nesse sentido, será sempre importante e necessária a articulação da saúde mental com a Atenção Básica (p. 31).

Dentro desse contexto da Reforma Psiquiátrica, questionamos: o que a histeria tem a ver com isso? Conforme Santiago (1996), os serviços ambulatoriais criados com o objetivo de evitar as hospitalizações psiquiátricas dos pacientes psicóticos, têm, muitas vezes, desempenhado outras funções. Segundo os relatos dos próprios profissionais da saúde mental, “não é difícil averiguar que um grande volume dessa clientela se constitui tanto pelos chamados ‘problemas educacionais’ [...], como também pela forte presença de ‘pacientes

histéricos’ (grifo nosso) em busca de soluções para seus sintomas por meio dos

benzodiazepínicos” (SANTIAGO, 1996, p. 35).

Com esse processo de desinstitucionalização preconizado pela Reforma Psiquiátrica, espera-se uma redução do número de leitos psiquiátricos e, com isso, um número maior de pacientes procurando esses serviços substitutivos. Dentre esses pacientes encontram-se os pacientes histéricos, pois eles, de acordo com Santiago (1996) são considerados “poliqueixosos” e têm sempre uma forte demanda de cuidados médicos, intensas queixas e o relato sempre minucioso sobre o surgimento de novos sintomas. A procura de pacientes

histéricos pelos ambulatórios de saúde, conforme Sadock e Sadock (2007), é cerca de 10% a 15% (grifo nosso) - esses números já demonstram uma demanda relativamente alta

que, com o processo de desinstitucionalização, tende a aumentar. Com a maior demanda desses pacientes, é importante saber quais são os seus principais sintomas para que possam ser feitos encaminhamentos corretos e tratamentos eficazes para esses pacientes.

A partir do exposto acima, é oportuno e importante discorrer mais acerca do tratamento da histeria nos dias de hoje. Segundo Bursztyn (2008), é notável que o diagnóstico da histeria tenha desaparecido e, em seu lugar, tenham surgido outros diagnósticos como transtornos dissociativos e de personalidade. Dentro desse contexto de mudanças, os instrumentos terapêuticos, muitas vezes invasivos e ineficazes no tratamento da histeria, têm por objetivo a eliminação de alguns sintomas e isto faz com que o sujeito acabe não falando

(28)

27 sobre seu adoecimento e seu sofrimento psíquico. A autora comenta que para as histéricas é oferecido um tratamento universalista e classificatório indicado pelos novos manuais diagnósticos. Ainda sobre o tratamento da histeria:

Novos recursos tecnológicos de mapeamentos cerebrais são empregados como terapêutica [...], na tentativa de encontrar uma causa orgânica para o sintoma histérico. Nota-se, ainda, a perplexidade e resistência daqueles que acompanham uma encenação histérica, muitas vezes compreendida como “simulação” e tratada com altas dosagens medicamentosas. [...] O risco de cronificação desses pacientes se amplia, assim, na medida em que a clínica médica desconsidera a causalidade psíquica que cada sintoma apresenta. Quando não chegam ao extremo da indicação de internação [...] para aqueles pacientes que “não respondem” ao uso de diversos psicotrópicos (BURSZTYN, 2008, p.127).

Com isso, percebemos a importância de se conhecer os sintomas da histeria nos dias de hoje. Para que isso seja mais pautado na realidade clínica, conforme mencionamos anteriormente, será feita uma análise dos prontuários em um Serviço-Escola de Psicologia. Conhecer os sintomas é poder pensar em tratamentos mais adequados e, junto com isso, pensar em saúde mental.

Lancetti e Amarante (2006) propõem ao leitor que, para entender a complexidade do termo “saúde mental”, devemos inverter a ordem das palavras e pensar em “mente saudável”. Por isso, quando articulamos a importância de se caracterizar os sintomas da histeria hoje com a saúde mental, podemos pensar que, se tivermos um tratamento mais adequado às histéricas, poderemos dar maiores possibilidades para essas pacientes falarem sobre sua dor e seu desejo, dando credibilidade aos seus sofrimentos e não dizendo “você não tem nada!” – resposta muito comum ouvida pelas histéricas (LEITE e PEREIRA, 2003).

Do ponto de vista teórico, também é importante caracterizarmos os sintomas da histeria para verificar como a Psicanálise pensa essas questões na atualidade. Além disso, caracterizar esses sintomas na atualidade significa também contribuir para a atualização, por meio da pesquisa, da Psicanálise. Sobre a atualização da teoria psicanalítica, Santos (2008) afirma:

A pesquisa em Psicanálise não se reduz à repetição dos clássicos, ao contrário do que muitos críticos de nosso método de trabalho costumam afirmar. Ela nos exige atualizar as ferramentas teóricas e a experiência clínica para enfrentar os efeitos do progresso das ciências: as novas configurações do mal-estar e do sofrimento psíquico na civilização. Para a atualização do nosso conhecimento, é preciso incorporar urgentemente as transformações epistemológicas do discurso da ciência. Parece um paradoxo, mas o sujeito sobre o qual a Psicanálise opera é o sujeito da

(29)

28 ciência, logo, essas mudanças têm efeitos muito importantes nas relações da pulsão com o Outro (p. 56).

Sobre a importância dessa atualização, Santos (2008) afirma que precisamos compreender melhor como aparecem esses novos sintomas, pois, frequentemente, não sabemos dizer se são neuroses ou psicoses ou, até, se são novas neuroses e novas psicoses. “Em consequência das mudanças na civilização, precisamos retomar os princípios da teoria e da prática psicanalítica para expandir as modalidades de tratamento, para subsidiar a Psicanálise aplicada com fins terapêuticos em instituições de saúde, escolares e jurídicas” (p. 56).

Dentro desse contexto, para corroborar ainda mais a relevância desta pesquisa, é interessante salientar três dos princípios estabelecidos pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Psicologia, preconizados pelo Conselho Nacional de Educação (2004): a) construção e desenvolvimento do conhecimento científico em Psicologia; b) compreensão dos múltiplos referenciais que buscam apreender a amplitude do fenômeno psicológico em suas interfaces com os fenômenos biológicos e sociais; c) reconhecimento da diversidade de perspectivas necessárias para compreensão do ser humano e incentivo à interlocução com campos de conhecimento que permitam a apreensão da complexidade e multideterminação do fenômeno psicológico. Nesse contexto, entendemos que esses pressupostos corroboram a importância de se estudar a histeria - pela construção do conhecimento científico em Psicologia, bem como pela compreensão da amplitude do fenômeno psicológico evidenciando sua complexidade e multideterminação.

Com tudo o que foi exposto acima, podemos perceber que os estudos sobre a histeria na atualidade têm frequentemente apontado para uma discussão sobre se a histeria está “viva” ou se está “morta”. Todas essas questões relativas à histeria impulsionaram o desejo de se estudar essa temática e, com isso, o problema de pesquisa deste trabalho é: Quais

as semelhanças e diferenças entre os sintomas de pacientes histéricas apresentados nos textos de Freud e os sintomas descritos nos prontuários de pacientes diagnosticadas com histeria do Serviço-Escola de Psicologia?

(30)

29

1.2.1 Objetivo geral:

Comparar os sintomas de pacientes histéricas apresentados nos textos de Freud com os descritos nos prontuários de pacientes diagnosticadas com histeria do Serviço-Escola de Psicologia.

1.2.2 Objetivos específicos:

1) Identificar qual a concepção de sintoma à luz da Psicanálise freudiana; 2) Contextualizar o universo teórico da histeria segundo a visão de Freud;

3) Identificar as principais características da histeria na literatura psicanalítica contemporânea;

4) Apontar e selecionar na obra freudiana casos clínicos de pacientes com histeria; 5) Identificar e selecionar prontuários de casos clínicos de pacientes com histeria em um Serviço-Escola de Psicologia;

6) Descrever as semelhanças e diferenças entre os sintomas de pacientes histéricas apresentados nos textos de Freud e os sintomas descritos nos prontuários de pacientes diagnosticadas com histeria do Serviço-Escola de Psicologia.

(31)

30

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Neste capítulo serão fundamentados teoricamente os principais temas atrelados ao problema de pesquisa, com o intuito de auxiliar a respondê-lo e também para facilitar a leitura dos dados coletados posteriormente na análise. Para tanto, os temas serão os seguintes: “A neurose e a Psicanálise”; “histeria em Freud”; “Concepção de sintoma à luz da Psicanálise” e “A histeria na contemporaneidade”.

2.1. NEUROSE E PSICANÁLISE

Para que possamos compreender um pouco mais sobre a histeria, é importante falarmos primeiro sobre as fases do desenvolvimento psicossexual13, em especial a fase fálica, visto que, segundo Freud, a histeria está intimamente ligada a esta fase. Além disso, é também de grande valia falar acerca do Complexo de Castração, do Complexo de Édipo e também da neurose. Sobre esta relevância, Freud (1937 [1996]) afirma que a etiologia dos distúrbios que estudamos deve ser procurada na história do sujeito e, em particular, no começo de sua vida (p. 169).

Quando falamos em fases do desenvolvimento psicossexual, é necessário entendermos que a expressão “psicossexual” está atrelada à sexualidade e não à genitalidade. Freud (1915 [1996]) é enfático ao afirmar essa diferenciação em sua conferência “A Vida Sexual dos Seres Humanos”: “Os senhores estão cometendo o erro de confundir sexualidade com reprodução, e com isto estão bloqueando seu caminho para a compreensão da sexualidade, das perversões e das neuroses” (p. 364). Sobre essa diferenciação, Laplanche e Pontalis (2008) afirmam que

[...] sexualidade não designa apenas as atividades e o prazer que dependem do funcionamento do aparelho genital, mas toda uma série de excitações e de atividades presentes desde a infância que proporcionam um prazer irredutível à satisfação de

13 Para ficar mais fidedigno à maneira como Freud utilizava o termo, optamos por usar a expressão

(32)

31 uma necessidade fisiológica fundamental (respiração, fome, função de excreção, etc.), e que se encontram a título de componentes na chamada forma normal do amor sexual (p. 476).

Laplanche e Pontalis (2008) ainda afirmam que, para Freud, ao falarmos de sexualidade infantil,

[...] não pretendemos reconhecer apenas a existência de excitações ou de necessidades genitais precoces, mas também de atividades aparentadas com as atividades perversas do adulto, na medida em que põem em jogo zonas corporais (zonas erógenas) que não são apenas zonas genitais, e na medida em que buscam o prazer (sucção do polegar, por exemplo) independentemente do exercício de uma função biológica (nutrição, por exemplo). Neste sentido, os psicanalistas falam de sexualidade oral, anal, etc (p. 477).

Com o entendimento deste ponto crucial, isto é, que sexualidade não equivale à genitalidade, podemos agora discorrer acerca das fases.

Conforme Freud (1915 [1996]), por motivos de conveniência, quando falamos sobre as fases do desenvolvimento psicossexual, é importante apresentarmos o conceito de libido. Em seu texto “A vida Sexual dos Seres Humanos”, Freud faz uma analogia da “libido” com a “fome”. O autor afirma que empregamos “libido” como nome da força (neste caso, a força da pulsão sexual, assim como, no caso da fome, a força da pulsão de nutrição) pela qual a pulsão se manifesta. Além disso, Freud (1916 [1996]), no texto “A teoria da libido e o narcisismo”, também afirma que “As catexias de energia que o ego dirige aos objetos de seus desejos sexuais, nós as denominamos ‘libido’; todas as outras catexias, emanadas dos instintos [pulsões] de autopreservação, denominamos ‘interesse’” (p. 415).

Com isso, Freud denomina cinco fases: oral, anal, fálica, período de latência e genital. É importante frisarmos que, conforme Freud, as fases de desenvolvimento são mal

limitadas, isto é, podem sobrepor-se e até serem simultâneas. Além disso, Freud (1905

[1996]) afirma que essas fases estão relacionadas a um investimento de libido e a uma zona erógena, sendo esta “uma parte da pele ou da mucosa em que certos tipos de estimulação provocam uma sensação prazerosa de determinada qualidade”. A relação entre a libido e as fases do desenvolvimento psicossexual é também discutida por Tallaferro (2004) que diz que a forma de expressão da libido está submetida a um processo de evolução, e que este processo está relacionado com as fases do desenvolvimento psicossexual. Relativamente à vida sexual infantil, Freud (1905 [1996]) afirma que ela é essencialmente auto-erótica, isto é, seu objeto encontra-se inicialmente no próprio corpo.

(33)

32 Segundo Freud (1915 [1996]), a primeira fase é denominada de oral. Nesta fase, o cuidado da mãe para com a criança volta-se para a ingestão de alimentos; “quando as crianças adormecem, após se haverem saciado ao seio, mostram uma expressão de bem-aventurada satisfação, que se repetirá, posteriormente na vida, após a experiência do orgasmo sexual” (p. 366). Além disso, o autor afirma que um bebê repetirá o ato de tomar alimento sem exigir mais comida; a isto, portanto, o bebê não é levado devido à fome. Freud (1915 [1996]) ainda afirmou que sugar o seio materno é o ponto de partida de toda a vida sexual, “o protótipo inigualável de toda a satisfação sexual ulterior, ao qual a fantasia retorna muitíssimas vezes, em épocas de necessidade. Esse sugar importa em fazer do seio materno o primeiro objeto da pulsão sexual” (p. 318).

Sobre a fase oral, Freud (1938 [1996]), no texto “O Desenvolvimento da Função Sexual”, disse:

O primeiro órgão a surgir como zona erógena e a fazer exigências libidinais à mente é, da época do nascimento em diante, a boca. Inicialmente, toda a atividade psíquica se concentra em fornecer satisfação às necessidades dessa zona. Primariamente, é natural, essa satisfação está a serviço da autopreservação, mediante a nutrição; mas a fisiologia não deve ser confundida com a psicologia. A obstinada persistência do bebê em sugar dá prova, em estágio precoce, de uma necessidade de satisfação que, embora se origine da ingestão da nutrição e seja por ela instigada, esforça-se todavia por obter prazer independentemente da nutrição e, por essa razão, pode e deve ser denominada de sexual (p. 166).

Em relação à segunda fase do desenvolvimento (fase anal), Freud (1915 [1996]) disse que o que ficou demonstrado tão claramente com relação à tomada de alimentos repete-se, em parte, com as excreções. Sobre a fase anal, Freud complementa que os bebês têm “sensações prazerosas no processo de evacuação da urina e das fezes, e que logo conseguem dispor destes atos de maneira que estes lhes tragam a máxima produção de prazer possível, através das correspondentes excitações das zonas erógenas da membrana mucosa” (1915 [1996], p. 320). Ainda sobre a fase anal,

Um bebê não deve eliminar suas excreções em qualquer momento de sua escolha, e sim quando outras pessoas decidem que deve fazê-lo. Para induzí-lo a renunciar a essas fontes de prazer, é-lhes dito que tudo aquilo que se relaciona com essas funções é vergonhoso e deve ser mantido em segredo. Então, pela primeira vez, a criança é obrigada a trocar o prazer pela respeitabilidade social. No início, sua atitude para com suas excreções é muito diferente. Não sente repugnância por suas fezes, valoriza-as como parte de seu próprio corpo, da qual não se separa facilmente, e usa-as como seu primeiro ‘presente’ com que distingue as pessoas a quem preza de modo especial. Mesmo depois de a educação ter atingido seu objetivo de tornar

(34)

33 essas tendências incompatíveis com a criança, esta continua a atribuir elevado valor às fezes, considerando-as ‘presentes’ e ‘dinheiro’. Por outro lado, parece considerar com especial orgulho a proeza de urinar (FREUD, 1915 [1996], p. 320).

A fase fálica é a terceira fase do desenvolvimento psicossexual enunciada por Freud. Conforme Garcia-Roza (2005) essa fase só foi apontada por Freud em 1923, em seu artigo “A Organização Genital Infantil”, todavia Laplanche e Pontalis (1970 apud Garcia-Roza, 2005, p. 105) assinalam que a ideia de um primado do falo já está presente em textos anteriores a 1923.

Freud nomeou esta fase de fálica, pois a expressão “fálica” vem da palavra

phallus (falo), que quer dizer representante do pênis. Conforme Nasio (2007), o “falo”

designa não apenas o pênis quando fantasiado, isto é, quando vivido como símbolo da força, como também toda a pessoa, objeto ou ideal a que somos visceralmente ligados, de que somos dependentes e que sentimos como a fonte de nossa potência. Falo é o nome que damos a qualquer coisa altamente investida e amada, que não cessa de ser concreta para ser fantasiada.

Freud (1938 [1996]) diz que a terceira fase é conhecida como fálica, que é, por assim dizer, “uma precursora da forma final assumida pela vida sexual e já se assemelha muito a ela. É de se notar que não são os órgãos genitais de ambos os sexos que desempenham um papel nesta fase, mas apenas o masculino (o falo) (grifo nosso)” (p. 167).

Ainda sobre a fase fálica, Freud (1932 [1996]) afirma que, com o ingresso na fase fálica, as diferenças entre os sexos são completamente “eclipsadas” pelas suas semelhanças: “Nos meninos, conforme sabermos, essa fase é marcada pelo fato de que aprenderam a obter sensações prazerosas do seu pequeno pênis, e relacionam seu estado de excitação às suas ideias de relação sexual. As menininhas fazem o mesmo com seu diminuto clitóris” (p. 118).

Na fase fálica, ocorrem dois complexos, o de Castração e o de Édipo, sendo estes conceitos importantes a serem observados a fim de alcançarmos o entendimento acerca da histeria. Segundo Laplanche e Pontalis (2008), o complexo de Castração é “centrado na fantasia de castração, que proporciona uma resposta ao enigma que a diferença anatômica dos sexos (presença ou ausência do pênis) coloca para a criança. Essa diferença é atribuída à amputação do pênis da menina” (p. 73).

(35)

34 Como nesta pesquisa daremos um enfoque maior às mulheres14 (as pacientes de Freud e as pacientes do Serviço-Escola de Psicologia), iremos discorrer mais sobre os complexos de Castração e Édipo na menina. Sobre o complexo de Castração, Freud (1923 [1996]) afirma que, no início, as crianças pensam que todos têm pênis. Todavia, a criança “chega à descoberta de que o pênis não é uma possessão, comum a todas as criaturas que a ela se assemelham. Uma visão acidental dos órgãos genitais de uma irmãzinha ou companheira de brinquedo proporciona a ocasião para essa descoberta” (p. 159). Sobre isso, Freud (1931 [1996]), no texto “Sexualidade Feminina” afirma que “quando a menina vê um órgão genital masculino, acaba descobrindo a sua própria deficiência e é apenas com hesitação e relutância que acaba aceitando este fato” (p. 241). A menina então aferra-se à esperança de um dia também possuir um órgão genital do mesmo tipo, e seu desejo por isso sobrevive até muito tempo após sua esperança ter-se expirado.

Esta ideia do fato da menina querer possuir um pênis é reforçada no texto “Feminilidade”, onde Freud (1932 [1996]) afirma que o fato de a menina reconhecer que lhe falta o pênis não implica, absolutamente, que ela se submeta a tal fato com facilidade. Pelo contrário: continua a alimentar, por longo tempo, o desejo de possuir algo semelhante e acredita nessa possibilidade durante muitos anos. “[...] e a análise pode mostrar que, num período em que o conhecimento da realidade há muito rejeitou a realização do desejo, por sê-lo inatingível, ele persiste no inconsciente e conserva uma considerável catexia de energia” (p. 125).

Freud (1932 [1996]) complementa que, invariavelmente, a criança encara a castração, em primeira instância, como algo que acontece apenas com ela própria; só mais tarde ela irá compreender que esse fato (de ser castrada) também se estende a outras crianças e, por fim, a certos adultos, como sua mãe. “Quando vem a compreender a natureza geral dessa característica, disso ocorre a feminilidade – e com ela, naturalmente, sua mãe – sofrer uma grande depreciação a seus olhos” (p. 241). Freud (1932 [1996]) ainda diz que a distinção anatômica entre os sexos deve expressar-se em consequências psíquicas. “Foi uma surpresa constatar, na análise, que as meninas responsabilizam a mãe pela falta do pênis nelas, e não a perdoam por terem sido, desse modo, colocadas em desvantagem” (p. 124).

Relativamente ao complexo de Castração, Freud (1932 [1996]) retoma esta temática no texto “Feminilidade”. Neste, o autor afirma que o complexo de Castração nas

14

Referências

Documentos relacionados

1.1 A Pró-Reitoria de Ensino do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul, no uso de suas atribuições legais, torna público o processo seletivo

expressamente, tacitamente ou de outra forma) no âmbito do presente Contrato (e o presente Contrato exclui.. expressamente qualquer direito) (a) para Materiais Excluídos, (b)

No artigo de Baldus (1962) têm-se um estudo sistemático sobre carimbos corporais utilizados por grupos indígenas brasileiros e alguns poucos carimbos arqueológicos localizados

Contudo, acreditamos que com essa atividade, conseguimos alcançar os objetivos destacados no início, contribuindo para levar uma Física mais atual para sala de aula, que possa dar

FIGURA 1: Valores médios da porcentagem de germinação de sementes de Hymenaea stigonocarpa submetidas a diferentes tratamentos pré-germinativos.. contrapartida, Souza et

Sobretudo recentemente, nessas publicações, as sugestões de ativi- dade e a indicação de meios para a condução da aprendizagem dão ênfase às práticas de sala de aula. Os

Obedecendo ao cronograma de aulas semanais do calendário letivo escolar da instituição de ensino, para ambas as turmas selecionadas, houve igualmente quatro horas/aula

A disponibilização de recursos digitais em acesso aberto e a forma como os mesmos são acessados devem constituir motivo de reflexão no âmbito da pertinência e do valor