PROJETO
EMPREENDEDORISMO
JUVENIL e
PROJETO
EMPREENDEDORISMO
JUVENIL e
PROJETO
EMPREENDEDORISMO
JUVENIL e
Conselheiro honorário: Fernando henrique Cardoso
Conselho de AdministrAção Presidente: synésio Batista da Costa
Vice-Presidente: Carlos Antonio tilkian
secretária: regina helena scripilliti Velloso
membros: Albert Alcouloumbre Júnior, Antônio Carlos ronca, Antonio delfim netto, Beatriz sverner, Bento José Gonçalves Alcoforado, Boris tabacof, daniel trevisan, david John Currer mor-ley, eduardo José Bernini, Fernando machado terni, João nagano Júnior, José Carlos Grubisich, José eduardo Planas Pañella, José roberto nicolau, lourival Kiçula, maria ignês r. de souza Bierrenbach, nelson Fazenda, oscar Pilnik, Paulo saab, roberto oliveira de lima, therezinha Fram e Vitor Gonçalo seravalli
Conselho FisCAl
membros: Audir Queixa Giovanni, Charles Kapaz, Geraldo Zinato, João Carlos ebert, márcio Ponzini e mauro Antonio ré
Conselho ConsultiVo Presidente: Jorge Broide
Vice-presidente: miriam debieux rosa
membros: Antônio Carlos Gomes da Costa, Araceli martins elman, dalmo de Abreu dallari, edda Bomtempo, Geraldo di Giovanni, isa Guará, João Benedicto de Azevedo marques, lélio Bentes Corrêa, leoberto narciso Brancher, lídia izecson de Carvalho, magnólia Gripp Bastos, mara Cardeal, maria Cecília C. Aranha lima, maria Cecília Ziliotto, maria de lourdes trassi teixeira, maria machado malta Campos, marlova Jovchelovitch noleto, melanie Farkas, munir Cury, norma Jorge Kyriakos, oris de oliveira, Percival Caropreso, rachel Gevertz, rosa lúcia moyses, rubens naves, silvia Gomara daffre, tatiana Belinky e Vital didonet
seCretAriA exeCutiVA
Gerente de desenvolvimento de Programas: denise maria Cesario
Gerente de desenvolvimento institucional: Victor Alcântara da Graça
equipe: Andreza Adami, Fernanda de matos Casqueira, hellen Ferreira Barbosa, lívia Ache nolla, michelly lima Antunes, moacir merlucci, renata Alencar Viola, renata santiago Gonçalves Pes-soa, renato Alves, tatiana de Jesus Pardo, tatiana m. Viana da silva
AssessoriA de mArKetinG Coordenadora: sílvia troncon rosa
equipe: Ana Claudia Pereira, Besaliel salvino de souza, Camila Cristina Conti, Cristiane rodrigues, Felipe martins dantas Pereira, Fernanda Pereira Bochembuzo, Gláucia Buscariolo, hélio José Perazzolo, ivone Aparecida da silva, Jacqueline rezende Queiroz, Kátia Gama do nascimento, marina Biagioli manoel, milene de oliveira sousa silva, renan dos santos Gomes, tatiana Cristina molini, tatiana Pereira rodrigues
núCleo de teCnoloGiA dA inFormAção
equipe: Bruno Gouveia schoola, daniela maria Fonseca, danieli Giovanini do Carmo leite, diego Azevedo do nascimento, Fabiana de lima loures, Janaine Aparecida Ferreira de sá, Vânia Ferreira silva santos
núCleo AdministrAtiVo-FinAnCeiro
equipe: Alain Joseph moujaes, Alice sampietri Creoruska, André luiz de Araújo, Fernanda de Fátima da silva, Gisele Correa, luis enrique tavares Júnior, maria do Carmo neves dos reis, maria dolores de oliveira, Paulo rogério Pires, shirlen Aparecida de lima
áreAs direito à educação
Coordenadora: roseni Aparecida dos santos reigota
equipe: Amélia isabeth Bampi Paines, Arlete Felício Graciano Fernandes, Gregório dos reis Filho, hérica Aires do Prado, nelma dos santos silva, Priscila silva dos santos, renata sanches martinelli
direito à Proteção especial Coordenadora: daniela resende Florio
equipe: Andréia lavelli, márcia Cristina Pereira da silva thomazinho, marília Correia dos santos, marisa Cedro de oliveira, Pablo Finotti
direito à Proteção integral Coordenadora: Andrea santoro silveira
equipe: Bárbara Accioly Cotrin de Carvalho, daniela Queiroz lino, domiciano de souza, elaine Cristina rodrigues Barros, Gerson lopes Alves, letícia souto maior, lilyan regina somazz reis Amorim, regilene Caiafá de melo nunes
Esta publicação é o resultado da sistematização da experiência do Projeto Empreendedorismo Juvenil e Microcrédito, iniciativa desenvolvida pela Fundação Abrinq em parceria com o Citi
Sistematização e texto: Arlete Felício Graciano Fernandes
Edição de texto: Ricardo Marques
Revisão de texto e projeto gráfico: pris_hlodan mídia impressa
PAtRocinAdoR MAStER
citi: Anthony Mcneill inghan e Vanessa cuzziol Pinsky
coMitê ExEcutiVo
Fundação Abrinq: Maria do carmo Krehan e Arlete Felício Graciano Fernandes
citi: Vanessa cuzziol Pinsky e camila Bellenzani
Ashoka Empreendedores Sociais: olívia Martin
SEBRAE-SP: Emerson Moraes Vieira e Marcos Evandro Galini
Associação de Formação e Reeducação Lua nova: Raquel Barros
incubadora de cooperativas Populares da uSP: Sandra Rufino
PARcEiRoS inStitucionAiS
Prefeitura de Guarulhos - Secretaria Municipal do Meio Ambiente Prefeitura de Santana de Parnaíba - Secretaria Municipal do Emprego e desenvolvimento Econômico
Prefeitura de São Paulo - Secretaria Municipal de trabalho - centro de Apoio ao trabalhador Luz
instituto dom Bosco - Sede Luz - São Paulo
centro de Profissionalização do Adolescente - cPA - São Paulo Aprendiz comgás - São Paulo
instituto novos Saberes de Guarulhos São Paulo confia - crédito Popular Solidário Projeto tesourinha - São Paulo
Fundação centro de Educação do trabalhador Prof. Florestan Fernandes - diadema
Associação cultural comunitária Pró Morato - Francisco Morato organização Social Lua nova - Sorocaba
SESt-SEnAt - unidade São Vicente instituto consciência pela cidadania de Santos
centro camará de Pesquisa e Apoio à infância e Adolescência de São Vicente Associação comunidade de Mãos dadas - Santos
oficinas Querô - Santos instituto Arte no dique - Santos
Apresentação ...
7
Juventude(s) em cena ...
8
Empreendedorismo juvenil ...
11
o Projeto Empreendedorismo Juvenil e Microcrédito ...
13
o perfil do jovem no projeto ...
16
o processo formativo ...
19
A operação de microcrédito ...
29
A Fundação Abrinq, em defesa dos direitos de crianças e adolescentes no Brasil, tem como visão uma sociedade justa e responsável pela proteção e pelo pleno desenvolvimento de suas crianças e adolescentes.
o campo da educação requer um olhar ampliado sobre a preparação do jovem para o mundo do trabalho, como resposta à forte aspiração da população dessa faixa etária por ocupação e renda, associadas à formação profissional. nessa perspectiva, e ante as tantas dificuldades que limitam o acesso dos jovens ao mercado de trabalho, surge como alternativa viável e consistente a promoção de medidas de apoio e estímulo às iniciativas de autossustentação econômica, baseadas em ações empreendedoras.
Entre 2006 e 2009, em parceria com o citi, a Fundação Abrinq concentrou esforços na implantação do Projeto Empreendedorismo Juvenil e Microcrédito (PEJM), por meio de uma metodologia capaz de estimular iniciativas empreendedoras e lideranças jovens, com o objetivo de apoiar e fortalecer alternativas de trabalho e renda.
Além do repasse de microcrédito, as estratégias conduzidas se instituíram por meio de um processo associado de formação e experimentação na gestão de negócios, como forma de apoiar o jovem empreendedor durante o primeiro ano de implantação de seu negócio, a fim de favorecer a construção de sua trajetória e de sua autonomia e do fortalecimento do seu projeto profissional.
o trabalho contou com a participação de vários parceiros, que se uniram em prol da formação dos jovens envolvidos, da construção de conhecimentos e da análise das ações que se encontram sistematizadas nesta publicação.
Ao apresentar referências e reflexões a respeito da metodologia utilizada e das possibilidades de atuação entre os jovens empreendedores, a Fundação Abrinq e seus parceiros não pretendem apresentar “modelos de intervenção”. A presente publicação, além de assegurar o registro da memória da experiência desenvolvida, se destina a estabelecer um diálogo com outros cenários e, a partir daí, construir aprendizagens que possam contribuir com projetos e iniciativas locais dedicadas ao empreendedorismo e a processos de inclusão de jovens no mundo do trabalho.
SYnESio BAtiStA dE coStA
PRESidEntE dA FundAção ABRinQ
APresentAção
JuVentude(s) em CenA
Em um entendimento mais amplo, ser jovem no Brasil contemporâneo é estar
imerso, por opção e por origem, em uma
multiplicidade de identidades,
posições e vivências
. Daí a importância do reconhecimento da existência
de diversas juventudes no país, compondo um
complexo mosaico de
experiências que precisam ser valorizadas
no sentido de
promover os direitos dos jovens.
o jovem é uma pessoa em desenvolvimento, e a juventude envolve aspectos que vão além do biológico, caracterizando-se como uma fase de experimentação, escolhas e inserção no mundo adulto. Planejar algo para os jovens implica considerá-los autores e atores de sua história, num contexto de manifestações heterogêneas marcadas por diferentes grupos e segmentos.
em relação à diversidade e à complexidade do tema, a partir de uma resolução da Assembleia Geral das nações unidas, em 1985, convencionou-se adotar a faixa etária de 15 a 24 anos para caracterizar a juventude, o que representa 18% da população brasileira.
Falar em juventude, especialmente em áreas com desigualdades socioeconômicas, envolve preocupações decorrentes de problemas como violência, drogas, desemprego, baixo desempenho escolar, distorção idade-série e processos de exclusão que comprometem o pleno exercício da cidadania e a conquista de projetos de vida.
o relatório 2007 do Banco mundial enfatiza o papel do jovem como sujeito capaz de dar sentido para seu desenvolvimento, e o Conjuve1 destaca que a necessidade de “vir a ser” não deve se sobrepor às necessidades do “aqui agora”, com pluralidade e diversidades culturais e sociais, em que as políticas “de”, “para”, e “com” a juventude devem considerar as seguintes dimensões:
educação, trabalho, cultura e tecnologia da informação; meio ambiente, saúde, esporte e lazer;
valorização da diversidade e do respeito aos direitos humanos.
“A juventude é tradicionalmente considerada como uma fase de preparação para uma vida adulta futura, reduzindo-se as ações voltadas aos jovens unicamente à preocupação com sua escolarização. Mas a vivência juvenil na contemporaneidade tem se mostrado mais complexa, combinando processos formativos com processos de experimentação e construção de trajetórias que incluem a inserção no mundo do trabalho, a definição de identidades, a vivência da sexualidade, da sociabilidade, do lazer, da fruição e da criação cultural e da participação social. O que se ressalta nessa perspectiva é a importância de se considerar a perda da linearidade e de um padrão único na transição para a vida adulta, com possibilidades de trajetórias juvenis intermitentes e reversíveis.”
(Conjuve, 2006: 20).
A juventude de hoje, diz o Conjuve, é composta por várias juventudes, e é com elas que deve dialogar qualquer ação ou intervenção socioeducativa, sempre com respeito às diferentes histórias, contextos, jeitos, figurinos, gostos, dores, alegrias, músicas, ritmos e caminhos.
no âmbito do Projeto empreendedorismo Juvenil e microcrédito, a população alvo de seus objetivos se volta para o grupo etário de 18 a 24 anos de idade e estabelece um recorte nos dados referentes à juventude em que os jovens pertencentes a essa faixa etária representam 12,5% da população brasileira, com cerca de 24 milhões de indivíduos.
Alguns dados relevantes revelam o cenário do jovem, focalizando o binômio educação e trabalho.
dados demográficos da população juvenil (15 a 24 anos)
17,97%
82,03% Fonte: IBGE-PNAD/2007
População geral - 189 milhões População juvenil - 34 milhões
1. O Conselho Nacional da Juventude (Conjuve) é um órgão de caráter consultivo criado no Brasil em fevereiro de 2005, que prevê a participação de 20 conselheiros representantes do poder público e 40 da sociedade civil. Seus principais objetivos são assessorar a Secretaria Nacional da Juventude (SNJ) para a formulação de diretrizes pelos governos, promover estudos e pesquisas acerca da realidade socioeconômica juvenil e,
educação
Conforme aponta a pesquisa iBGe/2008, a vivência escolar dos jovens ainda é foco de grandes desafios, já que, por pressuposto, essa fase etária deveria ser enriquecida pela participação em espaços e atividades educacionais, como forma de fortalecer os projetos futuros da vida adulta. dados apontam que uma minoria frequenta a escola.
no desdobramento dos dados desse gráfico, verifica-se que os 69% de jovens que não estão estudando, na maioria das vezes, têm reduzidas as expectativas e as perspectivas de projetos de vida, o que, geralmente, se intensifica com a elevação da idade. A percentagem de jovens que interrompe os estudos ou se encontra em defasagem entre a idade e a série se inicia antes dos 18 anos e, quase sempre, repercute em outros processos de inserção social.
segundo dados da PnAd/2007, cerca de 82% dos jovens de 15 ou 17 anos que estudam e deveriam estar na etapa pré-universitária encontram-se em defasagem idade-série; 44% cursam o ensino fundamental e apenas 48% estão no ensino médio.
Já no grupo de jovens de 18 a 24 anos, a média de anos de estudos em 2007 subiu para 9,1, o que indica que os jovens nessa faixa etária conseguem ingressar no ensino médio, mas logo abandonam os estudos, forçados por outras demandas. o gráfico da PnAd/2005 especifica a distribuição percentual dos jovens dessa faixa etária que estudam, no estado de são Paulo, e que, em linhas gerais, se manteve até a pesquisa de 2007.
em 2004, foi divulgado um perfil da juventude brasileira elaborado pelo instituto Cidadania2 a partir de pesquisa com jovens de 15 a 24 anos. entre os indicadores verificados, constatou-se que 65% dos jovens apontaram as questões de educação e cultura como as de maior interesse. Contudo, a motivação para as atividades de educação foi citada por somente 37% dos jovens como essencial para uma futura inserção ocupacional no sistema econômico.
A maioria dos jovens considera a escola importante, mas não atribuem a ela a garantia de emprego. no entanto, mesmo aqueles que abandonaram a escola consideram que sem escolaridade as possibilidades de inserção ficam mais comprometidas.
estudos que serviram de base para a elaboração dos Índices de desenvolvimento Juvenil da unesco – idJ/2003, parte do relatório de desenvolvimento Juvenil da entidade, apontam que a conciliação das demandas de trabalho e estudo é um desafio para os jovens e que o atraso educacional compromete o acesso ao mercado de trabalho, à renda digna e à saúde.
Percebe-se que, na trajetória escolar dos jovens, apesar da expansão do número de anos de estudo e do acesso mais amplo à escola, a distorção idade-série permanece e geralmente os jovens da faixa superior de idade pertencentes às famílias de baixa renda ficaram mais alijados da possibilidade de prosseguir os estudos.
Cerca de 14 milhões de jovens de 15 a 24 anos, no Brasil, podem ser considerados pobres, pois vivem em famílias com renda familiar per capita de até meio salário mínimo, e isso pode indicar que o baixo rendimento leva os jovens ao trabalho, em detrimento da continuação dos estudos. Apesar de não ser o único fator envolvido, a situação de pobreza pode explicar o abandono da escola.
dados da PnAd/2007 apontam ainda que 56% dos jovens entre 18 e 24 anos abandonaram os estudos para trabalhar e 19% dos que estudam conciliam a vivência escolar com atividades laborais e de geração de renda.
A resposta às demandas desse universo não pode se restringir à inserção dos jovens em atividades produtivas. É preciso também dar sentido ao contexto escolar, que não é visto como um espaço significante para grande parte dos jovens, o que impõe desafios para proporcionar qualidade e sentido à escola e ao ambiente educacional.
distribuição da situação escolar dos jovens entre 18 a 24 anos
69%
Fonte: IBGE- Síntese de Indicadores Sociais 2008 31%
Jovens que estudam Jovens que não estudam
distribuição percentual, por nível de ensino frequentado,
dos jovens entre 18 e 24 anos no estado de São Paulo
52% Ensino fundamental Ensino médio Ensino superior outras formações Fonte: IBGE-PNAD/2005 13% 5% 30%
trabalho e estudo entre os jovens de 18 a 24 anos
14% Só estuda
trabalha e estuda Só trabalha
nem trabalha nem estuda
Fonte: PNAD/2007 12%
56% 18%
2. A íntegra da pesquisa está disponível no site www.programajuventude.org.br. Atividade grupal
trabalho
Ainda no Perfil da Juventude/2004, foi observado que, na escala de valores e de expectativas referentes às “melhores coisas de ser jovem”, os itens diretamente associados a “poder trabalhar” e “obter independência financeira” corresponderam a menos de 20% do total. ou seja, apenas um entre cinco entrevistados associou espontaneamente esse tipo de valor às melhores coisas de ser jovem. os demais identificaram as “coisas boas” com atividades não relacionadas ao trabalho e à independência financeira e revelaram aspectos quase opostos a trabalho e renda quando aludiram a “não ter preocupações/responsabilidades” e a “aproveitar a vida/viver com alegria” como o melhor de ser jovem.
Quando indagados sobre “as piores coisas de ser jovem”, o tema trabalho-renda corroborou a ideia anterior: apenas um em cada cinco jovens citou a preocupação com a ausência de trabalho e renda, alegando como preocupações mais importantes aspectos relacionados à liberdade e aos riscos sociais. É interessante perceber na pesquisa que, quando os jovens foram convidados a elencar por ordem de importância até três problemas que mais os preocupavam, o binômio trabalho e renda não prevaleceu nas respostas. há uma aparente distorção entre as expectativas e as preocupações declaradas pelos jovens, pois mesmo aqueles que não estavam procurando ocupação ou emprego revelaram ansiedade em relação a essas questões. É possível concluir, portanto, que a visão de futuro que os jovens trazem consigo é demarcada por dificuldades, e não, necessariamente, uma demanda transposta automaticamente.
o jovem que vê como problema a necessidade de encontrar um emprego ou uma atividade profissional não está declarando que a melhor forma de eliminar essa preocupação é a imediata obtenção de um emprego. essa preocupação foi manifestada com mais intensidade na faixa entre 20 e 24 anos (51%). de qualquer maneira, os desafios quanto à inserção no trabalho são consideráveis, pois 64% dos jovens estão fora do mercado profissional, seja por opção, seja por falta de oportunidade.
A maioria dos jovens que trabalha ou já trabalhou (68%) tem ou teve um emprego sem registro, confirmando a situação de subemprego a que muitos estão sujeitos. isso aponta para uma reflexão quanto à qualidade da educação disponível, que não vem sendo suficiente para desenvolver competências e habilidades mais complexas e próprias da competitividade do mercado de trabalho, deixando a oferta concentrada em contextos de trabalho pouco estruturados – além, evidentemente, de refletir o alto nível de informalidade do universo empresarial brasileiro.
Ainda são restritas as oportunidades para os jovens no mercado de trabalho, e dados da PnAd revelam que 35,6% dos brasileiros de 18 a 24 anos estavam desempregados em 2007. de cada duas pessoas da população economicamente ativa (PeA) que estão desempregadas, uma tem menos de 24 anos de idade. dos jovens que estão empregados, 43% têm carteira assinada, o que indica uma razoável formalização dos postos de trabalho, na comparação com os dados de 2006. Contudo, é importante destacar que uma ampla parcela de jovens na faixa de 18 a 24 anos (56%) ainda se encontra em ocupações nem sempre estruturadas, sem carteira assinada, em trabalho doméstico, voluntário, sem remuneração ou por conta própria.
A renda precária, as condições de trabalho inadequadas e pouco projetivas e a formação e a qualificação educacional comprometidas revelam e reforçam a necessidade de políticas públicas capazes de fortalecer os projetos profissionais de jovens. o incentivo ao empreendedorismo se destaca, portanto, como alternativa relevante.
A crença de que o mercado pode resolver sozinho, o problema do desemprego juvenil é falsa. também é falsa a noção de que basta a qualificação para tornar o jovem competitivo. sem mistificar o negócio próprio como solução exclusiva para o desemprego juvenil, a criação de formas de associativismos de jovens como estratégia coletiva de geração de renda e de acesso ao mundo do trabalho e da produção representa, sem dúvida, uma alternativa de organização e proatividade nessa faixa etária.
A disseminação da cultura empreendedora se torna cada vez mais relevante, na tentativa de ampliar a possibilidade de obtenção de habilidades técnicas específicas desenvolvidas em outros contextos de educação formal e profissionalizante.
Vivência dos jovens no mundo do trabalho
8%
Está trabalhando nunca trabalhou nem procura trabalho
nunca trabalhou mas está procurando trabalho
Já trabalhou e está desempregado
Fonte: pesquisa Instituto Cidadania -perfil da juventude/2004 32%
36%
24%
Posição na ocupação dos jovens de 18 a 24 anos
10%
Empregado com carteira assinada Empregado sem carteira assinada trabalhador doméstico com/sem carteira assinada
trabalhador de produção para o próprio consumo e uso
trabalhador por conta própria Empregador
trabalhador não remunerado
Fonte: PNAD/2007 44% 9% 1% 2% 6% 28%
emPreendedorismo JuVenil
Uma das alternativas de geração de renda para os jovens é o
apoio à abertura
de pequenos negócios
. Estimular o empreendedorismo significa
potencializar as alternativas de inserção dos jovens no universo do trabalho. Com a
cultura empreendedora incorporada as suas buscas, o jovem terá
mais condições
na busca de soluções capazes de incorporar a juventude no mundo profissional, é preciso identificar novas alternativas de geração de renda e trabalho. A abertura de pequenos negócios se torna, nesse contexto, uma possibilidade concreta e objetiva, tanto para jovens como para muitos adultos.
no Brasil, nos últimos anos, o tratamento diferenciado aos empreendimentos de pequeno porte tem sido objeto de políticas públicas de amplo alcance, como a promulgação da lei Geral das micro e Pequenas empresas, em 2007, a oferta de microcrédito, a orientação contínua para a gestão do negócio e, recentemente, a vigência, a partir de 1º de julho de 2009, da figura jurídica do microempreendedor individual (mei), que permite a formalização, sem burocracia e com imposto baixo, de empresas com faturamento anual até r$ 36 mil.
É importante diferenciar empreendedorismo por oportunidades e empreendedorismo por necessidade. em relação ao empreendedorismo por oportunidade, o Brasil detém a décima posição no mundo, mas quando se trata de empreendedorismo por necessidade, o país ocupa a quinta posição. o brasileiro, em geral, é motivado a empreender não pela percepção de uma oportunidade ou de um nicho de mercado atraente, e sim pela necessidade de sobrevivência e pela escassez de emprego formal. Contudo, 68% dos jovens empreendem por oportunidade e 32% por necessidade, o que indica melhor qualificação de quem, com pouca idade, decide abrir uma empresa. A pesquisa Global entrepreneurship monitor3 – Gem 2008 – mostra que o jovem empreendedor por necessidade tem renda concentrada na faixa de um a três salários mínimos e nível de escolaridade de cinco a onze anos. esses jovens empreendedores atuam, principalmente, na prestação de serviços ao consumidor (70%), em segmentos como comércio e alimentação, seguindo-se o setor de transformação (30%), em atividades industriais e de manufatura.
Por sua vez, o jovem empreendedor por oportunidade se diferencia por dispor de renda maior (36% ganham até três salários mínimos e 34%, de três a seis salários) e mais escolaridade – 25% cursam ou já terminaram o nível superior. em geral, iniciam seus negócios com atividades com grau mais alto de especialização, devido ao nível maior de qualificação e renda. os jovens empreendedores por oportunidade também buscam com mais intensidade os serviços de orientação empresarial (19%), uma vez que a atividade em que atuam requer qualificação e formação.
Como a renda de grande parcela dos jovens é precária, o empreendedorismo no Brasil, nessa faixa etária, é motivado principalmente pela necessidade de sobrevivência. não há trabalho para todos e prevalece a necessidade premente de geração de renda. nem sempre os negócios ou empreendimentos se sustentam, pois faltam habilidades básicas de gestão, o que compromete substancialmente o sucesso do negócio. segundo pesquisa do seBrAe-sP, 27% das empresas paulistas encerram as atividades em seu primeiro ano de vida. esse dado deve ser ponderado, considerando que grande parte das pessoas que decidem empreender permanece na informalidade, não sendo computadas na pesquisa do seBrAe-sP, que considera apenas as empresas formalizadas. o fato é que os jovens brasileiros estão empreendendo mais, como revela a pesquisa Gem 2008. do total de empreendedores brasileiros (14,6 milhões), 25% são jovens, o que coloca o país em terceiro lugar no ranking mundial, atrás apenas do irã (29%) e da Jamaica (28%).
isso não significa que o empreendedorismo resolve toda a demanda. Contudo, é preciso que a ideia de desenvolver novas formas de geração de renda, além de emprego convencional, seja levada para o jovem desde o ciclo básico até a universidade. o jovem deve ser ensinado, desde cedo, a conviver com o risco, a pensar
grande e a ter autoestima, coragem, confiança e capacidade para gerir sua própria vida. Abrir um pequeno negócio deve ser objeto de realização pessoal, e não uma decorrência da falta de opção.
A pesquisa Gem-2008 aponta as principais razões para a alta taxa de mortalidade dos pequenos negócios: comportamento empreendedor pouco desenvolvido, falta de planejamento, gestão deficiente do negócio, insuficiência de políticas de apoio, conjuntura econômica pouco favorável, ausência de análise do mercado e pouco conhecimento da atividade escolhida. esses fatores são relevantes também para os empreendimentos informais.
em vista disso, transformar o empreendedorismo por necessidade de sobrevivência em oportunidades de negócios é o grande desafio que se coloca para a sociedade, a fim de instrumentalizar os jovens a superar os desafios da geração de renda. Fica evidente que a instrumentalização rumo à cultura empreendedora é um elemento importante para o desenvolvimento de competências que favoreçam a manutenção de renda adequada, seja em negócios próprios, seja em um emprego convencional.
“O emprego dos anos 90 tem um novo conceito: a empregabilidade, conjunto de conhecimentos, habilidades, comportamentos e relações que tornam o profissional necessário não apenas para uma, mas para toda e qualquer organização. Hoje, mais importante do que apenas obter um emprego é tornar-se empregável, manter-se competitivo em um mercado em mutação. Preparar-se, inclusive para várias carreiras e diferentes trabalhos – às vezes, até simultâneos.” (MTB/Sefor, 1995: 12).
segundo a organização das nações unidas (onu) e o seBrAe, alguns comportamentos caracterizam o empreendedor de sucesso e devem ser estimulados:
busca de oportunidades e iniciativa; persistência;
disposição para correr riscos calculados; exigência de qualidade e eficiência; comprometimento;
busca de informações; estabelecimento de metas;
planejamento e monitoramento sistemáticos; persuasão e rede de contatos;
independência e autoconfiança.
na era da informação e do conhecimento, surge a emergência de um novo paradigma para o processo de educação, para que as pessoas tenham um desenvolvimento equilibrado de habilidades básicas, específicas e de gestão.
As habilidades básicas duram a vida inteira e possibilitam a construção de ferramentas funcionais para os desafios do cotidiano: a leitura, a escrita, a expressão oral e a capacidade de resolver problemas, de planejar, de criar e de se relacionar com o outro de forma produtiva e ética.
As habilidades específicas estão condenadas a um ciclo de vida cada vez mais curto, pois as formas de participação nos processos de produção se modificam a cada inovação tecnológica e exigem atualização e formação permanente.
As habilidades de gestão têm duração média, uma vez que as formas de organização do trabalham mudam tão rapidamente quanto às tecnologias. essas habilidades passam por três aspectos: autogestão, cogestão e heterogestão.
desenvolver essas habilidades é um dos desafios na formação de jovens em prol da empregabilidade.
o ProJeto emPreendedorismo JuVenil e miCroCrÉdito
A Fundação Abrinq e o Citi firmaram parceria para
promover a
formação
em empreendedorismo juvenil e em
obtenção de microcrédito
para jovens
que têm ideias empreendedoras que possam
resultar em
o projeto foi desenvolvido de 2006 a junho de 2009 e beneficiou 722 jovens entre 18 e 24 anos, por meio de um processo composto por formação inicial e formação continuada durante o primeiro ano de implantação do negócio, a fim de possibilitar o acompanhamento individualizado para a solução das dificuldades e dos desafios. sob a ótica do protagonismo e com caráter prioritariamente educativo, as ações do Projeto empreendedorismo Juvenil e microcrédito adotaram como estratégia a formação inicial e a formação continuada (acompanhamento específico e técnico, cursos e oficinas temáticas) e o repasse de microcrédito, a fim de favorecer a construção da trajetória do jovem empreendedor em busca de autonomia e de fortalecimento de seu projeto profissional.
o objetivo do projeto de fortalecer iniciativas de geração de trabalho e renda para jovens entre 18 e 24 anos de idade teve suas bases de intervenções prioritariamente educativas.
A metodologia se desenvolve em um processo de formação para além do repasse de microcrédito ou de intervenções voltadas para os negócios.
os espaços de formação permitiram a análise, por parte dos jovens, dos riscos e das potencialidades do mundo dos negócios e de seu projeto de vida, de modo a estimular o desenvolvimento de uma perspectiva de futuro e de um novo patamar de inserção social.
Processos educativos que envolvem a juventude requerem o estímulo ao
protagonismo, pois se trata de uma fase repleta de busca de respostas, de sonhos, de desejos, de enfrentamentos, de escolhas e de projeções.
em relação ao jovem que o projeto quer formar, emerge a ideia de uma pessoa autônoma e proativa, solidária, competente e participativa, o que remete diretamente ao conceito de protagonismo e de empreendedorismo juvenil. educar para o protagonismo não se restringe a transmitir informações e conhecimento. A abordagem dos conceitos teóricos, somada aos dados da realidade e das experiências de vida dos jovens, foi a base do conhecimento construído no projeto.
A atuação com os jovens, a partir do que eles sentem e percebem de sua realidade, é contrária a qualquer tipo de paternalismo ou assistencialismo. trata-se de um método pedagógico que se baseia num conjunto de vivências, cujo foco é a criação de espaços e condições que propiciem o ato de empreender.
mas o que significa de fato empreender? no senso comum, o conceito está associado à criação de um negócio privado, mas o termo “empreendedor” pode ser mais profundo. surgiu na França por volta dos séculos xVii e xViii e significa “aquele que se compromete com um trabalho ou com uma atividade específica e significante”. o processo de instrumentalização de gestores de pequenos empreendimentos passa pela formação técnico-gerencial e pelo apoio à análise e à gestão dos cenários em que se instalam os empreendimentos, como uma experiência que contribui para seu desenvolvimento e para a construção ou o fortalecimento de um projeto de vida. empreender ideias é transformá-las em oportunidade, e é nesse espaço que o processo formativo se instalou.
A meta era atender 720 jovens, e foi realizado um processo seletivo que contemplou diferentes contextos e locais de abrangência, a fim de favorecer o apoio a jovens de 18 a 24 anos que quisessem montar ou fortalecer um negócio em andamento. o processo seletivo estava aberto a jovens que já tinham um negócio, tinham uma ideia para montar um negócio ou não tinham uma ideia clara mas queriam abrir um negócio.
o projeto abrangeu a região metropolitana de são Paulo e cidades próximas, como Guarulhos, diadema, santana de Parnaíba, sorocaba, santos e são Vicente, conforme o mapa abaixo.
Fonte: www.googlemaps.com.br
desde 2006, primeiro ano de implantação do projeto, houve a participação e a colaboração de várias organizações sociais, parceiras em outros programas da Fundação Abrinq, entre as quais a rede nossas Crianças4. também foram articulados espaços e organizações que atuavam com jovens nas regiões de abrangência do projeto e que abordam temáticas relativas à geração de renda, à empregabilidade e ao empreendedorismo juvenil, como escolas técnicas, unidades do sistema s, universidades, entidades sociais, centros de juventude e secretarias municipais de trabalho e emprego.
o foco de recrutamento entre jovens ligados às instituições de formação em geral ocorreu porque se avaliou que esse segmento já apresenta comportamento favorável à vida empreendedora, pela prévia participação em projetos ou programas de formação complementar e, estimulados pelas ações socioeducativas, poderiam aproveitar melhor uma oportunidade de fomento de suas ideias ou de iniciativas para a geração de renda.
Com esse conceito, o recrutamento se realizou em diversos espaços de participação juvenil, por meio da mobilização de lideranças locais e de reuniões de explanação do projeto dirigidas aos jovens interessados, no intuito de esclarecer e propiciar acesso a todos os potenciais empreendedores.
4. A Rede Nossas Crianças foi criada pela Fundação Abrinq em 1999 com a missão de mobilizar, articular e capacitar organizações sociais de atendimento direto a crianças e adolescentes, para que influenciem as políticas nas áreas da infância, adolescência e juventude, e tenham uma ação transformadora da situação de vulnerabilidade social desta população.
SÃO PAULO GUARULHOS SANTANA DE PARNAÍBA SOROCABA DIADEMA
As metas de atendimento do projeto foram as seguintes, entre 2006 e 2008:
As inscrições foram feitas por meio do site da Fundação Abrinq. Cada jovem, a partir do preenchimento de um formulário de inscrição, foi avaliado pela equipe técnica da Fundação Abrinq, a fim de verificar a estrutura da ideia ou do negócio proposto e, assim, definir a participação no projeto.
Ano a ano, cresceu o número de inscritos no projeto, e as metas iniciais foram superadas. Porém, ficou entendido que esse excedente faria parte do processo inicial da formação inicial, uma vez que somente nas primeiras aulas é que os jovens definiriam a efetiva participação.
deu-se, então, o processo de formação inicial, para a elaboração de um plano de negócio – um roteiro com todos os caminhos a serem percorridos para a criação e a manutenção de um empreendimento. essa etapa de formação foi realizada em um período aproximado de três meses, com turmas compostas por 30 jovens, em média, e em espaços cedidos por organizações parceiras5.
todos os participantes da formação inicial tiveram a oportunidade de dar continuidade ao processo formativo, por meio da formação continuada que ocorria num período médio de seis a oito meses, em atividades como encontros e oficinas temáticas e consultorias técnicas com profissionais voluntários do Citi. Além disso, alguns jovens, no final da formação inicial, poderiam pleitear o acesso a um empréstimo de r$ 500,00 a r$ 1.500,00, desde que tivessem seus planos de negócio aprovados pelo Comitê executivo do projeto.
o Comitê executivo reuniu representantes da Fundação Abrinq, do Citi, da incubadora de Cooperativas Populares da usP, da Ashoka empreendedores sociais, do instituto Polis e do seBrAe-sP, com a responsabilidade de acompanhar a implantação e o desenvolvimento do projeto e avaliar os planos de negócio com viabilidade de acesso ao microcrédito.
o acompanhamento dos negócios e dos jovens que acessaram o microcrédito se deu pela operadora de crédito contratada, por meio de um agente de crédito que tinha como tarefa principal orientar e apoiar os jovens durante o período de parcelamento do empréstimo projetado no plano de negócio.
Quadro de atendimento do projeto
111 Meta inscritos Participantes 90 330 103 450 338 300 428 281 2006 2007 2008
5. Para a realização do projeto com as 25 turmas, foram utilizadas salas de aulas das seguintes instituições: Instituto Dom Bosco (SP), Centro de Profissionalização do Adolescente (SP), Aprendiz Comgás (SP), Centro de Apoio ao Trabalhador – Luz da Secretaria Municipal do trabalho de São Paulo, Fundação Centro de Educação do Trabalhador Professor Florestan Fernandes (Diadema), Associação Cultural Comunitária Pró-Morato (Francisco Morato), Organização Lua Nova (Sorocaba), Centro de Referência do Trabalhador da Secretaria Municipal do Emprego e Desenvolvimento Econômico e Social de Santana de Parnaíba, Centro de Educação Ambiental - Jardim City Las Vegas da Secretaria Municipal do Meio Ambiente de Guarulhos, Unidade do SEST- SENAT de São Vicente, Instituto Consciência pela Cidadania de Santos, Centro Camará de Pesquisa e Apoio à Infância e Adolescência de São Vicente.
o PerFil do JoVem no ProJeto
Os jovens que participaram do projeto foram
definidos a partir do processo
seletivo
, o que se configurou como um primeiro desafio. Desde o início houve
dificuldade para recrutar e localizar jovens com projetos de empreendedorismo e
cultura empreendedora. Muitos jovens já tinham experiência em geração de renda e
em atividades autônomas e temporárias,
pela própria exclusão do mercado
formal de trabalho
. Porém, outros depositavam uma
expectativa imediata
de inserção no mercado de trabalho
a partir do projeto, o que não era
Apesar do espírito empreendedor presente em muitos jovens, da força de vontade e do desejo de abrir um negócio próprio, um número muito reduzido de inscritos no projeto possuía clareza em relação à ideia ou ao negócio a ser criado, demonstrando grande distância da possibilidade de concretização imediata de um negócio próprio.
surgiu então, já no processo de recrutamento dos jovens, um diagnóstico que reforçava os dados do cenário da juventude: a opção pelo negócio próprio nem sempre corresponde a uma visão de oportunidade para seus projetos de vida profissional, mas uma necessidade de geração de renda que o mercado formal não oferece de imediato.
Depoimentos de jovens no encontro de integração da formação inicial
“Eu não sei o que vou montar, mas sei que posso trabalhar e ter meu negócio próprio para ajudar minha família, pois emprego não tem mesmo.”
“Eu já tentei várias coisas para ter uma oportunidade de emprego, e acredito que aqui poderei aprender a ser um empresário e, assim, ter sucesso.”
“Eu quero montar um salão de cabeleireiro, e vou fazer vários cursos para conseguir isso. Nunca trabalhei com isso, mas vou aprender.”
dos 989 jovens inscritos, apenas 14% já estavam envolvidos em um negócio em andamento, e a grande maioria, cerca de 86%, se inscreveu no projeto apenas com a ideia ou a intenção de montar um empreendimento, sem, necessariamente, ter tido alguma experiência no ramo de atividade apontado. Para essa maioria, a visão de um negócio se apresentava de forma ainda inconsistente e motivada pela necessidade de geração de renda ou pela possibilidade de mais uma capacitação para inserção no mercado de trabalho.
houve uma distribuição bem diversificada quanto aos ramos de atividades entre os jovens inscritos: 30% estavam ligados à área de prestação de serviços (informática, cabeleireiro, manicure, construção, reciclagem etc.), 23% à área de alimentação (salgados, lanches, marmitex, bolos, chocolates, doces etc.), 22% à área de arte e comunicação (websites, ilustração gráfica, artesanato, informática, teatro, música, dança etc.), 17% à área de moda (roupas, calçados, bolsas, bijuterias etc.) e 8% à área de entretenimento e lazer (bufês, eventos, festas, recreação etc.).
de acordo com as respostas às questões contidas no formulário de inscrição, relativas à vivência na área do negócio (experiência específica, cursos relacionados aos produtos ou serviços, conhecimento e habilidades já desenvolvidos na área), a grande maioria demonstrou pouco conhecimento do nicho de mercado apontado. A ideia derivava do fato de o jovem considerá-la uma opção de renda, independentemente do conhecimento ou das experiências relacionadas aos produtos ou serviços relativos ao empreendimento.
Além da dificuldade de encontrar jovens com ideias já delineadas a respeito da opção profissional indicada, o processo seletivo revelou dados significativos. em relação ao gênero dos inscritos, houve equilíbrio – apenas uma ligeira predominância feminina. isso demonstra que a questão de geração de renda não se diferencia entre os jovens dos sexos masculino e feminino.
Ramo de negócios dos jovens inscritos
23%
Prestação de serviços Alimentação Arte/comunicação/cultura calçados e vestuários Esportes, entretenimento e lazer
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM 17%
29%
23% 8%
distribuição do sexo entre os participantes
Masculino Feminino
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM
52% 48%
Ramo de negócios dos jovens inscritos
tem ideia de montar um negócio tem um negócio montado
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq - campo inscrição PEJM 14%
Quanto à faixa etária, houve uma concentração de jovens entre 18 e 21 anos (69%), confirmando que, logo no início da maioridade, os mais jovens têm mais disponibilidade e ainda investem em espaços de formação para a inserção no mundo do trabalho. os mais velhos acabam se envolvendo em atividades paralelas ao processo formativo, pela necessidade de geração de renda, que muitas vezes é desvinculada de um projeto de vida profissional. outra hipótese a se considerar é que uma grande maioria desses jovens foi encaminhada por organizações sociais que interromperam o atendimento a partir da chegada à maioridade, o que gerou a demanda absorvida pelo projeto.
A grande maioria dos jovens envolvidos no projeto possui nível de escolaridade diferenciado em relação aos índices gerais dessa faixa etária, com ensino médio ou em universidade (67%). esse dado é significativo e levanta a hipótese de que os jovens que possuem interesse ou vivência em ações empreendedoras possuem um perfil mais elevado de inclusão e permanência no sistema educacional. se essa relação for determinante, um projeto de estímulo ao empreendedorismo juvenil com foco em negócios dificilmente atingirá jovens que se encontram em níveis de exclusão social e educacional.
outro aspecto relativo à escolaridade que chama atenção é o baixo índice de jovens oriundos de cursos profissionalizantes, apesar da hipótese inicial de que esses espaços educacionais gerariam profissionais especializados com possibilidade mais concreta de geração de renda por meio do negócio próprio.
dos inscritos, 56% não estavam empregados, o que corresponde ao perfil geral dos jovens nessa faixa etária e representa um desafio para a sociedade brasileira.
mesmo os jovens que trabalhavam demonstraram que não possuíam fortes perspectivas voltadas para seus projetos de vida, pois desenvolviam atividades de baixa complexidade, temporárias e com pouca projeção de futuro.
muitos atuam em atividades informais e de pouco envolvimento com suas demandas e seus anseios pessoais e profissionais, devido à necessidade imediata de ocupação e geração de renda. A renda média dos que trabalham é baixa – entre menos de um salário mínimo (7%), entre um e dois salários (74%) e uns poucos que ganham acima disso (19%).
distribuição etária entre os participantes
18 anos 19 anos 20 anos 21 anos 22 anos 23 anos 24 anos
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM
11% 9% 13% 12% 16% 22% 17%
distribuição da escolaridade dos participantes
Ensino médio cursando ou incompleto Ensino superior cursando ou incompleto Ensino fundamental cursando ou incompleto Ensino fundamental completo Ensino médio completo Ensino superior completo
Profissionalizante incompleto ou cursando Profissionalizante completo
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM
5% 5% 11% 4% 4% 25% 5% 41%
Situação de trabalho dos participantes
trabalha não trabalha
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM 44%
56%
tipo de ocupação dos jovens que trabalham
27%
outros - não discriminado Prestação de serviços
Produção/venda artigos e acessórios Área administrativa
comércio
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM 11%
18%
31% 13%
Renda média dos participantes que trabalham
43%
de 2 a 4 salários mínimos de 1 a 2 salários mínimos 1 salário mínimo Menos de 1 salário mínimo Sem rendimentos
Fonte: dados consolidados do sistema de banco de dados da Fundação Abrinq – campo inscrição PEJM 19%
5%
31% 2%
o ProCesso FormAtiVo
Como eixo condutor do PEJM, a metodologia formativa dos jovens participantes
foi estabelecida de forma complementar e congruente
pelo
período de um ano,
nas fases de formação
inicial e formação continuada,
Formação inicial
A formação inicial é um dos pontos centrais do projeto, pois se trata da primeira ação com os jovens aprovados no processo seletivo. o objetivo era desenvolver competências e aprendizagens que pudessem favorecer o acesso à cultura empreendedora, de modo a proporcionar meios para manter a boa gestão dos empreendimentos, por meio da elaboração do plano de negócio.
os encontros de formação foram conduzidos por profissionais especializados em empreendedorismo e em elaboração de plano de negócio, contratados para esse fim a partir das diretrizes metodológicas da equipe técnica da Fundação Abrinq6. A construção das diretrizes metodológicas do processo formativo ocorreu ao longo de três anos, consolidando-se em três eixos:
cultura empreendedora;
análise do mercado e do mundo dos negócios; elaboração do plano de negócio.
A estrutura proposta permitiu que todos os jovens tivessem a oportunidade de refletir acerca dos conteúdos propostos e exercitar a elaboração do plano de negócio. Contudo, com essa divisão de etapas, foi possível dar mais atenção à complexidade de um plano de negócio para os jovens que estão no momento de iniciar um empreendimento e, assim, ter resultados mais efetivos.
desAFios e desCoBertAs
na inscrição, esperava-se que os jovens já tivessem algum negócio ou pelo menos uma ideia clara do empreendimento a ser montado. Contudo, essa expectativa não se concretizou de forma representativa no grupo, conforme se percebeu no momento da seleção.
nas turmas montadas para o desenvolvimento da formação havia expectativas e situações distintas: jovens que buscavam um espaço para concretizar o “sonho do emprego formal”; outros que buscavam um certificado para enriquecer o currículo; jovens que, encaminhados pela organização ou por entidades comunitárias, estavam “ocupando o tempo” ou “participando de mais um projeto”; alguns com negócio já em andamento ou com ideias inovadoras para a montagem de um negócio; os que buscavam desenvolvimento pessoal; os que queriam entender o que vem a ser empreendedorismo; jovens que queriam pertencer a um grupo; jovens curiosos; outros interessados em alternativas de geração de renda, mas que não estavam qualificados para a montagem imediata de um empreendimento; jovens que queriam uma oportunidade diferente para se inserir no mercado do trabalho, entre outras manifestações.
A diversidade estava presente na história de vida de cada um deles. em grupo, mergulharam nas dinâmicas e construíram novas narrativas, seja como candidatos a empreendedores, seja em busca de um bom emprego.
muitos possuíam demandas e expectativas genéricas em relação ao mundo do trabalho, e a ideia de gerir um negócio estava muito distante de suas realidades e demandas.
Ante tanta diversidade, as aprendizagens deveriam passar, necessariamente, pelo fortalecimento do projeto de vida, e o desenvolvimento da cultura empreendedora adquiriu peso importante no processo formativo. o trabalho com ênfase nos conteúdos de elaboração de um plano de negócio com um grupo tão heterogêneo demandou ajustes no programa de formação, de modo que tanto a didática vivencial como os conteúdos e conceitos pudessem ser compreendidos. no primeiro momento, o foco da formação se voltou para a análise da economia brasileira, do mercado e do mundo dos negócios e muitos jovens puderam desenvolver novos conceitos e entender melhor os mecanismos que regem a economia global.
Depoimentos de jovens da turma de 2006
“Nunca pensei que a economia tivesse tanto a ver com o sucesso ou o fracasso de um negócio. Hoje, eu vejo que montar um negócio tem relação com tudo, e não só com a minha rua.”
“Antes de participar dessas aulas e do projeto, eu nunca tive interesse de ler ou escutar uma notícia que não fosse de futebol. Hoje, quando ouço a palavra economia, vejo que ela está no meu cotidiano e não pertence somente àqueles caras da TV.”
Foi significativa a presença de jovens que participaram do projeto por necessidade de formação, e não por localizar uma oportunidade específica de empreender. Depoimentos de jovens durante a formação inicial
“O curso está me dando oportunidade de aprimorar minha percepção das atitudes que devemos ter em qualquer negócio ou trabalho. Percebi que precisamos saber o momento certo de abrir um negócio ou buscar outras oportunidades. É um mundo novo para eu me posicionar na minha vida.”
“Estar nesse projeto me ajuda a ver que ser empreendedor é mais do que ter um negócio, e como podemos usar essas capacidades no nosso cotidiano e em nossas relações.”
“O curso me estimulou a despertar um lado que ainda não tinha percebido: ser empreendedor. Abrir os olhos, ficar atento às oportunidades e às atitudes necessárias em minha vida. O curso vem me despertando uma nova visão desse mundo que ainda não conhecia.”
“Entrei aqui com um sonho, e depois de todas essas discussões e atividades vejo metas para minha vida. Sinto-me diferente, e a prova disso é que passei no vestibular e fiz matrícula para cursar uma faculdade em prol de minha carreira.”
Depoimentos de jovens ao fim da formação inicial
“Eu pude ver que não devo montar um negócio agora, pois antes tenho muitas coisas para organizar. Aprendi a analisar, e hoje vejo que recuar não é problema. Ser empreendedor é também ver de forma clara o melhor momento para dar um passo.” “Com essas reflexões, eu enxerguei coisas que não imaginava e vi o quanto é importante planejar a vida, e não só um negócio.”
Ao longo dos três anos, a discussão a respeito de empreendedorismo e o estímulo à cultura empreendedora se mostrou como uma necessidade temática relevante para o posicionamento dos jovens, com relação à construção de seus projetos. A criação de empreendimentos passou a ser vista como um dos resultados a se considerar no projeto, e não mais o único.
A cultura empreendedora pressupõe uma análise dos riscos e das oportunidades de projetos e ideias. despertar no jovem a opção pelo empreendedorismo requer, sobretudo, conhecer a importância das escolhas a partir dessa análise. Baseado nessa premissa, a formação buscou fortalecer ou formar o comportamento empreendedor desses jovens, a fim de dar condições para que pudessem definir e identificar os desafios, as oportunidades e os riscos envolvidos. A elaboração do roteiro do Plano de negócios se deu de forma transversal durante a formação inicial, por representar vários aspectos de análise do negócio, e proporcionou o entendimento da lógica e de seus elementos específicos. Contudo, ao longo dos dois primeiros anos de desenvolvimento da formação inicial, observou-se que, a partir de um determinado estágio do processo, alguns jovens não conseguiam acompanhar os conteúdos.
na medida em que os conteúdos ligados ao detalhamento do plano de negócio iam se intensificando, houve uma considerável evasão. das 25 turmas montadas para atender os jovens no período de três anos, 31% não concluíram a formação inicial. As desistências se concentraram nestes motivos: tinham outras ocupações concomitantes de formação ou de geração de renda, não se identificaram com os conteúdos abordados ou manifestavam expectativas mais imediatas de obtenção de renda ou de inserção no mercado de trabalho.
A elaboração detalhada do plano de negócio requer habilidades e motivações que geralmente estavam presentes somente nos jovens com visão clara de suas metas ou com negócios em andamento. essa parcela possuía habilidades básicas e específicas já desenvolvidas e pôde, no projeto, adquirir ou aprimorar conhecimentos de gestão, o que não ocorreu com aqueles cuja expectativa estava mais voltada para a inserção no mercado de trabalho ou para obter renda rapidamente.
A partir dessa constatação, foram definidos dois grandes perfis de jovens que participariam do projeto:
jovem do perfil 1 - tem um negócio em andamento ou uma ideia ou intenção imediata de montar um negócio;
jovem do perfil 2 - não tem uma ideia clara do que quer montar e busca no projeto mais formação e qualificação para sua inserção no mundo do trabalho, ou quer se aproximar da cultura empreendedora.
o projeto, em sua concepção original, não foi criado para os jovens do perfil 2, mas, por causa da diversidade do público participante, acabou absorvendo tal demanda naturalmente e buscou adaptar os conteúdos formativos. o processo mostrou que a elaboração de planos de negócio requer um mergulho detalhado no cenário do empreendimento a ser implantado – o que nem todos conseguiram.
A construção de um plano de negócio é consequência de uma análise profunda do que se quer, de modelos de negócios, da demanda do consumidor, dos resultados financeiros pretendidos e de como se inserir num mercado em intensas transformações. no projeto, foi adotado o seguinte roteiro:
descrição do negócio - atividade, objetivo, estágio de funcionamento, estrutura física e recursos existentes, estrutura da gestão, local, tipo de experiência ou de conhecimento da área do negócio;
Características e análise do mercado - consumidor, concorrente e fornecedor; estudo dos produtos ou serviços oferecidos - descrição, projeção de preços, principais características;
Política de preços e revisão de vendas - por produto e consolidada, mensal e anual;
estratégias utilizadas para divulgação do negócio e captação de clientes; investimentos necessários – já realizados e a realizar;
Projeção de custos e despesas fixas mensais e anuais; Projeção de custos e despesas variáveis mensais e anuais; margem de contribuição de cada produto;
Consolidação – custos e despesas variáveis e margem de contribuição; Índice de margem de contribuição da empresa;
Projeção de vendas ou serviços e do ponto de equilíbrio; Projeção do empréstimo de microcrédito e sua justificativa; Projeção de resultados;
Projeção do fluxo de caixa.
Planejar negócios é uma forma de organizar ações, perceber oportunidades de mercado, dimensionar demandas por produtos e serviços. Portanto, a capacidade de analisar o mercado e dimensionar uma demanda por produtos ou serviços é parâmetro inicial de qualquer negócio. É imprescindível uma avaliação que mostre quem são os concorrentes, os preços praticados no segmento, o tamanho do mercado, o público, os custos e as despesas.
Com base nos resultados apresentados pelos jovens quanto à elaboração do plano de negócio, os conteúdos da formação inicial foram ajustados para propiciar aprendizagens básicas aos dois perfis de jovens que participaram do projeto e permitir o aprofundamento do plano ainda na formação inicial para os jovens já próximos de implantar seus negócios.
os critérios para o jovem participar da segunda etapa foram estes: frequência nos encontros da primeira etapa, clareza e domínio do negócio a ser implantado e perspectivas estruturais demonstradas no processo de planejamento.
As análises financeiras de qualquer negócio, pequeno ou grande, são muitas vezes consequência da capacidade de uma empresa vender ou produzir. determinar a margem de contribuição, o ponto de equilíbrio, a necessidade de capital de giro, o uso do crédito, os investimentos fixos, o fluxo de caixa, o regime tributário, a taxa de retorno, a lucratividade e a rentabilidade dos negócios foi o alvo prioritário na segunda etapa da formação inicial.
nesse sentido, os jovens considerados aptos a esse aprofundamento puderam mergulhar nesse cenário e determinar, em um roteiro escrito, se o negócio é viável ou não, por meio da análise da relação fundamental de um empreendimento: custo-volume-lucro.
A divisão da formação inicial em duas etapas se mostrou positiva, por permitir o atendimento da diversidade de jovens que buscavam espaços de inclusão no projeto. o foco da formação inicial se concentrou no comportamento empreendedor e na elaboração de um plano de negócio. mas, nesse processo, é preciso conectar os jovens com o mundo do trabalho, de acordo com a perspectiva histórica e o contexto social no qual estão inseridos.
resultAdos e APrendiZAGens
A análise comparativa das habilidades verificadas no início do processo formativo (marco zero) e no final do processo permitiu constatar que, de maneira geral, houve um desenvolvimento significativo, como o entendimento e o reconhecimento das características empreendedoras, das habilidades para a vida e para o mundo do trabalho (comunicação, trabalho em grupo, análise de cenários, comprometimento, estabelecimento de metas, busca de oportunidades etc.), o entendimento da dimensão e da complexidade do mundo empresarial e a compreensão do plano de negócio, entre outras.
no que se refere aos conhecimentos a respeito do comportamento empreendedor e do mundo do trabalho, também houve evolução e ampliação de conhecimentos de forma significativa no final da formação inicial.
Etapa de formação, para todos os jovens selecionados pelo projeto.
Etapa 1 – Estímulo à cultura empreendedora
módulo 1 - introdução ao curso. reconhecimento das habilidades e competências para o empreendedorismo. mudança de paradigma para o comportamento empreendedor. Fundamentos conceituais.
módulo 2 - Ambiente de negócios. Análise das tendências de mercado. dimensionamento do mercado (consumidor, fornecedor e concorrente). Visão de futuro e do negócio. oportunidades e riscos dos negócios. estratégias comerciais necessárias. redes de contatos.
módulo 3 - entendimento da estrutura de um negócio e dos elementos básicos de um roteiro de plano de negócio. reconhecimento dos aspectos financeiros de um negócio. estabelecimento de metas. definição compartilhada para continuidade na etapa 2.
Carga horária total: 40 horas
Etapa de formação voltada aos jovens que demonstrarem clareza e habilidades para a implementação de um Negócio
Etapa II - Elaboração do Plano de Negócios
módulo 4 - Análise e elaboração detalhada de um plano de negócio. Cálculos, projeções, estruturação de produto/serviço, modelagem de negócios, previsão de vendas e analise financeira específica do negócio.
módulo 5 - Análise de viabilidade, estrutura necessária e possível/uso do microcrédito no negócio.
Carga horária total: 30 horas
Com o programa assim disposto, houve a valorização e o reconhecimento das aprendizagens voltadas para a cultura empreendedora, assim como a identificação das habilidades e potencialidades reais de implantação de um empreendimento, para o efetivo detalhamento do plano de negócio.
Depoimentos de jovens sobre o plano de negócio
“Elaborar o plano de negócio é uma atividade muito importante, principalmente porque ele apresenta concretamente as possibilidades do negócio, sem rodeios. Ou é ou não é. Quando colocamos no papel as ideias e fazemos contas e projeçõesé que a coisa aparece mesmo. Com o plano podemos ter um norte de tudo o que falta em nosso negócio.”
“Com a construção do plano de negócio eu vi que preciso controlar o meu próprio dinheiro, meus custos, minhas ambições. Tenho que planejar mais tudo em minha vida.”
Considerando os aspectos diretamente ligados aos negócios, percebeu-se que grande parte dos jovens iniciou o curso com conhecimentos e habilidades insuficientes para a opção empreendedora. durante o curso, puderam
compreender vários aspectos da área empresarial, a fim de apoiar decisões a serem tomadas na análise do empreendimento.
dos 498 jovens que concluíram a etapa de formação inicial, 64% conseguiram elaborar e compor os elementos do plano de negócio, entendendo sua lógica e sua importância para a consolidação de um empreendimento. desse modo, a elaboração genérica do negócio passou a ser vista como uma aprendizagem importante para todos os jovens participantes, por se tratar de uma aproximação com a complexidade do ambiente empresarial e por ser uma ferramenta de planejamento importante.
tabela comparativa das aprendizagens dos jovens na formação inicial
mArCo Zero mArCo FinAl
nível de habilidade nível de habilidade
Aspectos avaliados insatisfatório satisfatório muito satisfatório insatisfatório satisfatório muito satisfatório
utilização de redes de contatos e parcerias 72% 24% 4% 27% 59% 14%
Capacidade de correr riscos calculados 78% 18% 4% 11% 42% 47%
Administração de demandas e tarefas 66% 28% 6% 14% 48% 38%
estabelecimento e concretização de metas 63% 30% 7% 12% 46% 42%
Planejamento dos elementos de uma tarefa 71% 26% 3% 8% 52% 40%
Capacidade de expressar de forma clara a opinião (verbalmente) 52% 37% 11% 13% 47% 40%
Capacidade de expressar de forma clara a opinião (por escrito) 57% 33% 10% 8% 49% 43%
Capacidade de trabalhar em grupo 27% 49% 24% 4% 37% 59%
Fonte: dados referentes à tabulação da avaliação inicial (marco zero) e avaliação final da formação inicial - amostragem de 15%
tabela comparativa da aprendizagem dos jovens na formação inicial
mArCo Zero mArCo FinAl
nível de habilidade nível de habilidade
Aspectos avaliados insatisfatório satisfatório muito satisfatório insatisfatório satisfatório muito satisfatório
Percepção do mundo dos negócios 65% 31% 4% 12% 55% 33%
Conhecimentos e técnicas para atuar nos negócios 62% 32% 6% 8% 68% 24%
Análise dos pontos fracos e fortes do negócio 73% 23% 4% 7% 55% 38%
entendimento da situação social e econômica do país 71% 23% 6% 12% 61% 27%
Compreensão das tendências de mercado 69% 28% 3% 7% 65% 28%
elaboração do plano de negócio 77% 23% 0% 13% 59% 28%
estabelecimento de estratégia comercial 81% 19% 0% 24% 56% 20%
Análise dos custos do empreendimento 72% 23% 5% 4% 56% 40%
realização de pesquisa de campos sobre custos 80% 20% 0% 8% 45% 47%
Formação de preço de venda 69% 28% 3% 11% 49% 40%
Fluxo de caixa 84% 16% 0% 11% 49% 40%
Conhecimento de crédito financeiro 76% 20% 4% 13% 59% 28%
Comentário de jovens sobre as aprendizagens da formação inicial
“Aprendi muitas coisas aqui: a ter iniciativa, a ser persistente, a ouvir mais e arriscar de forma calculada, e sei que vou usar isso na minha vida. Mas eu não me considero pronta para assumir a responsabilidade de ter um negócio próprio.”
“Entendi quais atitudes devo ter na minha vida e sei quais eu devo aprimorar daqui para a frente. Essa é minha meta. Não me sinto preparada para um negócio nem tenho clareza se quero isso pra mim.”
“Fazendo todas essas análises, eu entendo agora o que é um negócio e vejo que posso ser empreendedor.”
Foram elaborados 317 planos de negócio, nos mais diversificados setores: produtora de vídeo, filmagem de festas, promoção de eventos, fornecimento de doces e salgados para festas, animação e decoração de festas, som e iluminação, design de moda, aulas de música e dança, salão de beleza, teatro educativo, indústria e comércio de tijolos ecológicos, confecção e venda de acessórios de moda, indústria e comércio de móveis artesanais, confecção e comércio de roupas, criação de websites, ateliê de bolsas e acessórios, adereços para cachorros, telefonia Voip, lan house, jogos eletrônicos, estúdio de arte e grafite, produção e comércio de chocolate, bolos e doces artesanais, borracharia, reciclagem de lixo, produção e comércio de bijuterias, velas artesanais, prestação de serviços em edificações, fitness, oficina de tunagem, oficina mecânica e funilaria, entre outras opções.
dos jovens que elaboraram o plano de negócio ao longo dos três anos de projeto, apenas cerca de 30% (95 participantes) dominavam o ramo de atividade a que se propuseram ou tinham conhecimento anterior do mercado e das oportunidades do setor, e esse aspecto foi determinante para o detalhamento do plano na formação inicial e na formação continuada.
esse índice, num primeiro momento, é baixo em relação ao número de jovens atendidos e ao total dos que concluíram a formação inicial. Contudo, a maioria dos participantes não tinha noção da complexidade de um negócio, e ao se debruçar nesse cenário pôde entender e opinar a respeito dessa alternativa profissional.
Ramo de negócios dos Planos elaborados
comércio Moda e vestuário Alimentação comunicação/design/tic Entretenimento e festas Arte/educação/cultura Estética e beleza Prestação de serviços Artesanato 9% 5% 12% 10% 11% 14% 6% 15%
A opção de montar um negócio pela necessidade de geração de renda não se mostrou suficiente o bastante para que os jovens se tornassem empresários, e o processo formativo demonstrou que essa opção só era mantida por aqueles que, de alguma forma, podiam transformar essa necessidade em oportunidade e, dessa forma, utilizar a aprendizagem em benefício do empreendimento.
não cabe a um projeto definir o que o jovem deve buscar. Cabe proporcionar espaços de escolhas calculadas. Quando se determinou o atendimento específico na segunda etapa, voltou-se ao perfil esperado na origem do projeto. são jovens com ideias inovadoras, com negócios já em funcionamento e com sonhos possíveis que, por meio do espaço formativo, puderam redirecionar suas buscas e demandas. Por outro lado, os jovens que não participaram da segunda etapa ou da formação inicial da primeira puderam verificar e desenvolver uma nova narrativa para a vida empreendedora em outros contextos.
Depoimento de um negócio apoiado pelo PEJM, composto por seis jovens participantes, oriundos das “Oficinas Querô”, que formam jovens da comunidade na área de cinema e vídeo, em Santos.
“Participar do Projeto Empreendedorismo Juvenil e Microcrédito foi uma experiência muito rica para nós, sócios da produtora Querô Filmes, pois além de conseguir o empréstimo, conseguimos fazer uma análise aprofundada do nosso negócio e com isso levantar e planejar os principais passos para alcançar os resultados que buscamos.”
sócia e produtora-executiva da Produtora Querô
18%