ESCOLA DE ENFERMAGEM AURORA DE AFONSO COSTA MESTRADO ACADÊMICO EM CIÊNCIAS DO CUIDADO EM SAÚDE
ELAINE LEITE DE ANDRADE PEREIRA
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO TRABALHADOR DE ENFERMAGEM SOBRE O ENVELHECIMENTO
Niterói 2014
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO TRABALHADOR DE ENFERMAGEM SOBRE O ENVELHECIMENTO
Dissertação apresentada ao corpo docente do Programa de Pós- Graduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, da Universidade Federal Fluminense, como requisito para obtenção do título de Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde.
Orientadora: Profª Drª SELMA PETRA CHAVES SÁ
Niterói 2014
P 436 Pereira, Elaine Leite de Andrade
Representações sociais do trabalhador de enfermagem sobre o envelhecimento / Elaine Leite de Andrade Pereira. - Niterói: [s.n.], 2014.
140 f.
Dissertação (Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado e da Saúde) - Universidade Federal Fluminense, 2014.
Orientador: Profª. Dra. Selma Petra Chaves Sá. 1. Recursos humanos de enfermagem. 2.
Envelhecimento. 3. Psicologia social. I. Título
REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO TRABALHADOR DE ENFERMAGEM SOBRE O ENVELHECIMENTO
Orientadora: Profª Drª SELMA PETRA CHAVES SÁ
Dissertação apresentada ao corpo docente do Programa de Pós- Graduação em Enfermagem, Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, da Universidade Federal Fluminense, como requisito para obtenção do título de Mestre em Ciências do Cuidado em Saúde.
Aprovada em 17 de dezembro de 2013.
BANCA EXAMINADORA:
______________________________________________________________ Profª Dra. Selma Petra Chaves Sá – Orientadora - UFF
______________________________________________________________ Profª. Dra. Célia Pereira Caldas - (1ª Examinadora)-UERJ
______________________________________________________________ Prof. Dra. Simone Cruz Machado Ferreira - (2ª Examinadora) - UFF
______________________________________________________________ Profª Dra. Bárbara Pompeu Christovam - (Suplente) - UFF
_______________________________________________________________ Profª Dra. Ana Inês Sousa - (Suplente) - UFRJ
Niterói 2014
Dedico este trabalho, com todo meu amor, à minha mãe.
Ao meu esposo Antonio, pelo amor, apoio e amizade.
Ao meu filho Raphael, alegria da minha vida, pelas horas roubadas e pela paciência.
AGRADECIMENTO A DEUS
A Deus toda honra e toda glória!
“Não tenho palavras para agradecer tua bondade, Dia após dia, me cercas com fidelidade.
Nunca me deixes esquecer que tudo o que tenho, tudo o que sou e o que vier a ser, vem de ti Senhor.” BESSA
AGRADECIMENTO ESPECIAL
À Professora Drª Selma Petra Chaves Sá, minha orientadora, que com sua generosidade e muita paciência me conduziu na realização deste trabalho, fazendo do sonho uma realidade. Foi um presente de Deus em minha vida.
A todos os profissionais de enfermagem do Hospital Universitário Antônio Pedro, da Universidade Federal Fluminense que, gentilmente e com toda paciência, contribuíram para que esta dissertação pudesse ser elaborada. A minha mais profunda admiração.
À minha querida equipe de enfermagem: Marlene, Elci, Maristela, Danilo, Vera, Fabíola, Daniela, Angela Gouveia, Angela Franco e Tailisse. Muito obrigada pela inspiração!
Ao Serviço de Assistência Social Evangélico - SASE de Realengo, instituição onde trabalho, a minha gratidão pelo apoio ao meu crescimento profissional.
AGRADECIMENTOS
À Professora Drª Rose Rosa pelo incentivo, por ter acreditado em mim e por ter sido instrumento de Deus na hora e no momento certo.
À Professora Drª Bárbara Pompeu Christovam, por conceder o acesso ao programa ALCESTE Standard 4.9 e por nos acolher e orientar no uso do mesmo.
A todos os professores do programa de Mestrado Acadêmico em Ciências do Cuidado em Saúde.
Aos meus colegas do programa de mestrado, principalmente a enfermeira Marcia Farias e a Nutricionista Vangelina Lins Melo.
Aos meus queridos alunos do ensino técnico da Escola de Auxiliares e Técnicos de Enfermagem Nossa Senhora de Fátima em Nova Friburgo-RJ.
À Professora Thiara Cruz e aos alunos de graduação do quarto período em Enfermagem da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa - UFF, que contribuíram comigo durante o estágio de docência do ensino superior.
Aos meus queridos amigos, que torceram tanto por mim.
Às bibliotecárias da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa, por tudo que me ensinaram, principalmente pelos artigos raros, de publicações internacionais que localizaram pra mim.
A todos que, de alguma maneira, contribuíram para realização desta dissertação.
“Bem-aventurado é o homem que acha sabedoria e o homem que adquire conhecimento. Porque a sua mercadoria é melhor do que a mercadoria de prata, e a sua renda do que o ouro mais fino. É mais preciosa do que os rubis e tudo o que podes desejar não se pode comparar a ela. Aumento de dias há na sua mão direita e, na sua esquerda, riquezas e honra. Os seus caminhos são caminhos de delícias e de paz são todas as suas veredas. É árvore da vida para os que a seguram e felizes são todos que a retém.”
RESUMO
O estudo teve como objetivos: descrever as representações do envelhecimento dos trabalhadores com idade a partir de 60 anos e dos que possuem menos de 60 anos que compõem a equipe de enfermagem; identificar as estratégias utilizadas no contexto hospitalar para o trabalhador de enfermagem que possui idade a partir de 60 anos, a partir das representações sociais (RS) acerca do seu envelhecimento; discutir as representações sociais do envelhecimento no trabalho dos profissionais de enfermagem com idade a partir dos 60 anos e as implicações para sua prática. Este estudo tem abordagem qualitativa, do tipo descritivo. O cenário da pesquisa foi um hospital-escola situado na cidade de Niterói-RJ. Participaram da pesquisa 36 profissionais de enfermagem da referida instituição. Para auxiliar na análise, foi utilizado o software Alcest 4.9 para processar o material transcrito oriundo das entrevistas e o resultado desta etapa foi analisado ancorado n a teoria das representações sociais de Serge Moscovici (2011). Emergiram duas categorias nos dados analisados: As representações sociais do envelhecimento no mundo do trabalho para o profissional idoso e adulto e; A representação social da velhice e aposentadoria na visão do profissional de enfermagem. Evidenciou-se que os profissionais com mais idade não se representam como idosos pela estreita ligação entre produtividade e jovialidade. Constatou-se que estas RS influenciam atitudes como a transferência de profissionais mais velhos para setores estereotipados como depositário de pessoas mais velhas. E que não há diferença de representações entre os profissionais jovens em relação aos mais velhos e isto vai ao encontro ao que se preconiza neste referencial teórico-metodológico. Entretanto, mesmo possuindo as mesmas representações, ficou claro que os jovens não possuem muita consciência de que serão os trabalhadores de amanhã. Conclui-se que, ao realizar a gerência do cuidado, os enfermeiros precisam se preocupar com o envelhecimento dos trabalhadores.
ABSTRACT
The study aimed to describe the aging representations of workers aged from 60 years and who have less than 60 years that make up the nursing staff; identify the strategies used in the hospital setting for nursing worker who has from age 60 years, from the social representations (SR) about your aging; discuss the social representations of aging in the work of nurses aged from 60 years and the implications for your practice. This study has a qualitative approach and is of descriptive type. The research scenario was a teaching hospital located in the city of Niterói-RJ. Participated in the research 36 nurses of the institution. To assist in the analysis, the Alcest 4.9 software was used to process the material derived from transcribed interviews and the result of this step was analyzed anchored in the theory of social representations of Serge Moscovici (2011). Two categories emerged of the data analyzed: Social representations of aging in work for elderly and adult professionals; The social representations of aging and retirement in the view of professional nursing. It was evident that older professionals do not represent itself as a seniors because the close connection between productivity and joviality. It was found that these social representation influence attitudes as the transfer of older professionals to sectors stereotyped as a depository for older people. And that there is no difference between the representations of young professionals towards older and this is consistent with what is advocated in this theoretical and methodological framework. However, even having the same representations, it became clear that the young do not have much awareness of they will be the workers of tomorrow. We conclude that, in making the management of care, nurses need to worry about aging of the workers.
RESUMEN
El estudio tuvo como objetivo describir las representaciones de los trabajadores de edad de entre 60 años y que tienen menos de 60 años que conforman el personal de enfermería; identificar las estrategias utilizadas en el ámbito hospitalario para el trabajador de enfermería que tiene de edad de 60 años, a partir de las representaciones sociales (RS) sobre el envejecimiento; discutir las representaciones sociales del envejecimiento en el trabajo de las enfermeras de entre 60 años y las implicaciones para su práctica. Este estudio tiene un enfoque cualitativo, de tipo descriptivo. El escenario de la investigación fue un hospital de enseñanza situado en la ciudad de Niterói-RJ. Participaron de investigación 36 profesional de enfermería de la institución. Para ayudar en el análisis, el software Alcest 4.9 se utilizó para procesar el material derivado de las entrevistas transcritas y se analizó el resultado de este paso anclado en la teoría de las representaciones sociales de Serge Moscovici (2011). Emergieron dos categorías en los datos analizados: Representaciones sociales del envejecimiento en el trabajo para los profesionales mayores y adultos; La representación social de la vejez y de la jubilación en la vista de la enfermería profesional. Se encontró que los profesionales con más edad no se representan como personas mayores por la estrecha relación entre la productividad y la jovialidad. Se encontró que estas RS influyen actitudes como la transferencia de los profesionales de más edad a sectores estereotipados como depositario de las personas mayores. Y no hay ninguna diferencia entre las representaciones de los profesionales jóvenes y los mayores y esto es consistente con lo que se defiende en este marco teórico y metodológico. Sin embargo, aun teniendo las mismas representaciones, se hizo evidente que los jóvenes no tienen mucho conocimiento de que serán los trabajadores del mañana. Llegamos a la conclusión de que, en lo que la gestión de la atención, las enfermeras tienen que preocuparse con el envejecimiento del trabajadores.
LISTA DE QUADROS
Quadro 1 Profissionais de enfermagem por faixa etária. Brasil, 2010 27 Quadro 2 Distribuição dos participantes da pesquisa por categoria
profissional. Niterói-RJ, 2013
58 Quadro 3 Distribuição dos participantes da pesquisa por categoria
profissional e faixa etária. Niterói-RJ, 2013
59 Quadro 4 Distribuição dos participantes da pesquisa por gênero e idade.
Niterói-RJ, 2013
59 Quadro 5 Idade média dos profissionais participantes da pesquisa.
Niterói-RJ, 2013
60 Quadro 6 Regime de contrato de trabalho dos participantes da pesquisa.
Niterói-RJ, 2013
61 Quadro 7 Escolaridade/Qualificação dos participantes da pesquisa.
Niterói-RJ, 2013
62 Quadro 8 Média do tempo de serviço dos participantes da pesquisa.
Niterói-RJ, 2013
62 Quadro 9 Classe 3: divisão das atividades e as estratégias para lidar com o
trabalho. Niterói-RJ, 2013
71 Quadro 10 Classe 2: As implicações físicas do envelhecimento no mundo do
trabalho. Niterói-RJ, 2013
80 Quadro 11 Classe 1: Vocábulos mais frequentes – A percepção do
significado da velhice, da relação estreita entre velhice e aposentadoria. Niterói-RJ, 2013
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 Distribuição das palavras analisadas por classe. Niterói- RJ, 2013 65 Figura 2 O dendograma, as classes e as classificações hierárquicas
descendentes. Niterói-RJ, 2013
66 Figura 3 Síntese dos resultados apresentados pelo ALCESTE. Niterói-RJ,
2013
69 Figura 4 Representações sociais do envelhecimento para os profissionais
de enfermagem no mundo do trabalho. Niterói-RJ, 2013
SUMÁRIO RESUMO i ABSTRACT ii RESUMEN iii LISTA DE QUADROS iv LISTA DE FIGURAS v INTRODUÇÃO 15 CAPÍTULO I
1 REFLEXÕES SOBRE O ENVELHECIMENTO E O TRABALHO: IMPLICAÇÕES PARA OS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM
26 1.1 ENVELHECIMENTO E TRABALHO 26 CAPÍTULO II 2 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO 43 2.1 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS 43 2.2 A TRAJETÓRIA METODOLÓGICA 47 2.2.1 O cenário 48 2.2.2 Os sujeitos 49 2.2.3 Cuidados éticos 50
2.2.4 A coleta dos dados 51
2.2.5 O tratamento e análise dos dados 52
CAPÍTULO III
3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS 57
3.1 CONTEXTUALIZANDO OS SUJEITOS 57
3.2 A ANÁLISE COM O USO DO ALCESTE 64
3.2.1 Primeira classificação hierárquica descendente 66 3.2.2 Segunda classificação hierárquica descendente 67 3.2.3 Categoria 1: As RS do envelhecimento no mundo do trabalho para o profissional idoso e adulto
70 3.2.4 CATEGORIA 2: RS da velhice e aposentadoria na visão do profissional de enfermagem 90 CAPÍTULO IV 4 CONCLUSÃO 110 REFERÊNCIAS 115 APÊNDICES
APÉNDICE A – PERFIL SOCIODEMOGRÁFICO 123
APÊNDICE B – ROTEIRO GUIA PARA ENTREVISTA SEMIDIRETIVA 124 ANEXOS
INTRODUÇÃO
Até pouco tempo, dizia-se que os jovens seriam o futuro do Brasil. Atualmente, tal afirmação já não pode ser feita. O Brasil deixou de ser jovem. Hoje, 15 milhões de pessoas têm mais de 60 anos de idade. E, em 2025, estima-se que o Brasil terá 34 milhões de pessoas acima de 60 anos, o que representará a sexta maior população idosa do planeta (MAGALHÃES, 2008).
Dados do IBGE (2007) apontam que de 2001 a 2007, houve um crescimento de 43% no número de empregados dessa faixa etária no País, enquanto a população idosa cresceu ao todo 30%. De 2003 a 2008, o número de trabalhadores formais com mais de 65 anos cresceu de 216.166 para 297.909, segundo o Ministério do Trabalho.
Entretanto, no dia a dia é possível constatar o preconceito com as pessoas mais velhas em um país considerado ainda jovem por muitos. Os profissionais de enfermagem não escaparam desse comportamento preconceituoso acerca do envelhecimento, evidenciando dificuldades que podem apontar e/ou interferir quando se pensa em limites e possibilidades para a realização das atividades laborais.
Além disso, vem aumentando o número de pessoas com idade mais avançada realizando cursos de graduação e de nível médio na enfermagem. Esta afirmativa vai ao encontro da realidade que o IBGE (2000) traduz em dados, na qual a população idosa em geral possui pouca escolaridade, mas entre os censos de 1991 a 2000, observa-se um aumento na média de anos de estudo e o crescimento relativo, na média das mulheres, foi maior do que o dos homens: 29,2% e 25,0%, respectivamente.
Cianciarulo (2007) evidencia que o conflito entre gerações é um dos problemas que interfere no trabalho da equipe de enfermagem. Notadamente, ao se considerar que o trabalho de enfermagem, em diversas situações, necessita de força física. Muitos dos profissionais de idade avançada já apresentam algumas doenças e agravos de saúde como hipertensão, diabetes, lombalgia, artrose, entre outros que afetam a capacidade física para o trabalho. Este fator pode levar a equipe a desconsiderar as possibilidades que uma pessoa idosa pode ter para a realização do trabalho, fomentando, assim, tais conflitos. Por outro lado, não se pode negar que os muitos anos de experiência profissional desses membros da equipe, pode fazer toda diferença em situações críticas.
Purcell et al. (2011), concluíram em seu trabalho que os enfermeiros mais jovens tiveram mais estresse em relação aos mais velhos e experientes e por isso afirmam que, a idade é um dos fatores que afetam o nível de estresse dos profissionais de enfermagem. Existem qualidades evidentes como a calma, destreza manual e a tranquilidade destes sujeitos em momentos de maior stress.
Assim, não se justifica o preconceito com os sujeitos que estão em idade mais avançada e que fazem parte da equipe de enfermagem. O fator força física deve ser considerada, mas outras também devem ser levadas em consideração como a experiência e equilíbrio emocional. Christovam menciona que:
O conhecimento é o produto do processo ensino-aprendizagem e da experiência tanto para a enfermeira e demais integrantes da equipe, quanto para o cliente. Refere-se ao modo como o homem relaciona-se com o mundo, o contexto no qual está inserido, como ele aplica os graus do conhecer - observar, perceber, determinar, interpretar, discutir, negar e afirmar e como ele aplica os graus do conhecer (CHRISTOVAM, 2005, p. 739).
Nesta perspectiva, este estudo tem como objeto a representação social (RS) da velhice pelos profissionais de enfermagem e suas implicações no trabalho.
A motivação para este estudo emergiu de experiência como enfermeira e responsável técnico de enfermagem de um grande complexo ambulatorial pertencente a uma instituição filantrópica conveniada ao SUS, situada na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Neste contexto, a convivência com uma equipe de enfermagem, cujo perfil etário demonstra a presença marcante de aproximadamente 30% de profissionais com mais de 60 anos, despertou o interesse por um fenômeno que atinge o mundo inteiro: o envelhecimento do trabalhador. Logo, é cada vez mais comum observar a permanência de pessoas com idade a partir de 60 anos, no mercado de trabalho, entre eles, os de enfermagem.
Mas por que estudar representação social da velhice e as implicações no trabalho de enfermagem? Há o pressuposto de que os profissionais de enfermagem com idade a partir de 60 anos são movidos por algo subjetivo no que diz respeito ao trabalho que executam, pela maneira como se veem dentro da equipe e de como são vistos pelos demais membros e, nesta faixa etária, existem questões inerentes do mundo da subjetividade que interferem no trabalho e que tal fato se traduz em representações sociais.
Sérge Moscovici (2011), em sua obra “Representações sociais: investigações em psicologia social” afirma que o ser humano percebe o mundo tal como ele é e todas as percepções, ideias e atribuições que se faz são, na verdade, resposta a estímulos do ambiente físico ou quase físico em que se vive. Em seguida ele exemplifica este raciocínio com o trecho abaixo:
A observação familiar de que nós não estamos conscientes de algumas coisas bastante óbvias; de que nós não conseguimos ver o que está diante
dos nossos olhos. É como se nosso olhar ou nossa percepção estivessem eclipsados, de tal modo que uma determinada classe de pessoas, seja devido por sua idade – por exemplo, os velhos pelos novos e os novos pelos velhos – ou devido a sua raça – por exemplo os negros por alguns brancos, etc. – se tornam invisíveis, quando, de fato, eles estão nos olhando de frente (MOSCOVICI, 2011, p. 30).
Ao levar a reflexão desta citação para o contexto do trabalho de enfermagem e a relação entre profissionais jovens e os mais velhos, percebe-se a existência de um senso comum próprio deste grupo sobre o envelhecimento, representações que estão diante de todos, ainda que quase invisíveis, mas presentes no cotidiano. A construção de RS sobre a velhice e o trabalho em enfermagem pode se constituir numa forma desses profissionais mais velhos situarem-se frente ao mundo do trabalho e ao momento vivido. O conhecimento dessas representações possibilita a abordagem de diferentes opções de estratégias para se gerenciar não apenas os conflitos dentro da equipe, mas também o processo de trabalho e, consequentemente, apresentar resultados melhores em relação ao cuidado que se presta aos clientes.
A enfermagem vem ampliando a sua busca por produção de conhecimento e entendendo que há a necessidade de utilizar em suas pesquisas um suporte em outras áreas como, por exemplo, a psicologia social, é que se considera que as concepções de envelhecimento pela equipe e as implicações no processo de enfermagem podem ser entendidas a partir das concepções da representação social.
Para Moscovici (2011), na teoria das representações sociais, o ser humano pode agregar conceitos e valores a praticamente tudo que existe em seu cotidiano, sendo coletivamente construído. É um fenômeno e uma forma de conhecimento característico de nossa era. Impressiona a maneira como é possível estar cercado, tanto individualmente como coletivamente, por palavras, ideias e
imagens que penetram os olhos e a mente, com ou sem a vontade do sujeito, sem que o mesmo perceba.
Para Costa e Campos (2009), é fato que o aumento da expectativa de vida representa um ganho para as sociedades ocidentais contemporâneas, mas não apenas isto. Também pode ser entendido como um problema, uma ameaça e um enorme desafio para os que envelhecem, para sociedade e o Estado. Neste momento da história, são construídas as representações sociais do velho e do processo de envelhecimento.
Nesse contexto, tanto a velhice como o trabalho são importantes objetos de conhecimento da psicologia social. Moscovici (2011) aponta que o conhecimento que surge das representações é sempre um produto de um grupo específico, cujos membros possuem interesses em comum e se encontram em circunstâncias específicas.
Fazer uma investigação sobre um determinado grupo dentro de uma categoria profissional como a enfermagem pode revelar representações que, de alguma forma, implicam nos resultados que se busca no trabalho: a melhora da autoestima que se encontra comprometida nos sujeitos com idade a partir dos 60 anos, que fazem parte de uma equipe de enfermagem; o equilíbrio das relações entre esta equipe e o respeito aos limites destas pessoas que estão envelhecendo e não mais possuem toda a sua capacidade física como os mais jovens. É possível que o conhecimento das mesmas possa levar a uma gestão mais justa, eficaz, sem preconceitos e equilibrada, gerando menos tensão para o enfermeiro, para sua equipe e para o próprio sujeito trabalhador que envelhece.
Costa et al. (2011) concluem que a conscientização dos gestores sobre a representação social do trabalho para os trabalhadores, a conscientização dos
trabalhadores sobre o significado do trabalho, a reestruturação da organização em prol do desenvolvimento do trabalhador e o desenvolvimento pessoal e profissional do trabalhador através do trabalho e a visão sistêmica podem otimizar os resultados.
O envelhecer é compreendido como um tempo de perda de capacidades físicas e psicológicas e, em consequência, surge também, a perda de papéis sociais e o abandono, como afirmam Costa e Campos (2009).
O estatuto do idoso considera como idoso toda pessoa que possui 60 anos ou mais. Entretanto, o trabalhador de enfermagem com 60 anos ou mais, talvez não se sinta idoso, ou seja, não tenha esta representação de si mesmo (Lei nº 10.741 de 01/10/2003).
Sá (2004) aponta que as limitações biológicas, psicológicas e/ou sociais não impedem que os idosos possuam o talento de pensar por si mesmos, de ouvir, avaliar e decidir sobre o que é bom para si e tais limitações não são exclusivas desta faixa etária.
A partir das considerações acima, traçou-se a seguinte questão: Qual a representação social da velhice do profissional de enfermagem enquanto fato vivenciado no cotidiano de sua prática?
Para responder a esta questão, foram estabelecidos os seguintes objetivos:
1- Descrever as representações do envelhecimento dos trabalhadores com idade a partir de 60 anos e dos que possuem menos de 60 anos que compõem a equipe de enfermagem; 2- Identificar as estratégias utilizadas no contexto hospitalar para o
anos, a partir das representações sociais acerca do seu envelhecimento;
3- Discutir as representações sociais do envelhecimento no trabalho dos profissionais de enfermagem com idade a partir dos 60 anos e as implicações para sua prática.
Este estudo é relevante, na medida em que trará reflexões sobre as representações sociais dos profissionais de enfermagem sobre o envelhecimento e as implicações destas no trabalho de enfermagem. Aborda uma realidade pouco explorada, mas impactante para o trabalho da enfermagem e que tende a crescer, na medida em que a população envelhece. O envelhecimento do trabalhador é um tema que vem despertando o interesse mundial, pois o trabalhador do futuro é “velho”. Diante disso, é urgente que se desenvolvam pesquisas que possam contribuir com o entendimento deste fenômeno no mundo do trabalho, principalmente para que se possa dar atenção a este evento dentro da enfermagem.
Andrade e Monteiro (2007, p. 238) evidenciam:
[...] o Brasil vivencia o processo de transição demográfica, caracterizado pelo aumento do número de pessoas que estão envelhecendo, ocasionando, portanto, o envelhecimento da população em idade produtiva e também da força de trabalho.
Será preciso revolucionar o modo como os idosos são vistos e tratados. Assim, deve-se considerar como será esta realidade dentro da enfermagem e como se deve proceder para que este impacto no mundo do trabalho seja amenizado e o envelhecimento dos profissionais de enfermagem não seja considerado como limitante para as suas atividades.
Para iniciar esta pesquisa, inicialmente procurou-se buscar o que havia na literatura sobre esta temática. Foi realizado um levantamento em ambiente on-line na Biblioteca Virtual de Saúde (BVS), nas bases de informações: LILACS,
BDENF e SciELO, com os descritores Idoso, recursos humanos e enfermagem. Como resultado levantaram-se 3.657 trabalhos. Utilizando como critério de inclusão apenas os textos completos, obteve-se 187 artigos. Destes, estabeleceu-se como critério de inclusão apenas os que apresentavam como assunto principal: Recursos humanos de enfermagem no hospital. Foram identificados com este filtro apenas 74 artigos publicados entre 1967 a 2012. Finalizando, trabalhou-se com o recorte temporal, utilizando apenas os artigos publicados nos últimos cinco anos, resultando numa seleção de 51 artigos.
Após a leitura de todos os artigos, observou-se que apenas um (1) apresentava o tema relacionado à experiência que os trabalhadores de enfermagem com idade mais avançada apresentam, e que os mesmos deveriam ser incentivados a permanecer no mercado de trabalho, mas não existem estratégias para retê-los. Tal levantamento indica uma carência de publicações que abordem a representação do envelhecimento e as implicações desta no trabalho da enfermagem ou a inserção dos profissionais de mais idade na equipe de trabalho.
Assim, considera-se que as representações sociais do envelhecimento que advém da equipe de enfermagem e as implicações destas representações no trabalho podem contribuir com a ampliação de conhecimento para áreas importantes da enfermagem, como a gerontologia, a administração e a enfermagem do trabalho, mas antes para a enfermagem como um todo, porque o fenômeno do envelhecimento do trabalhador irá atingir todas as áreas da enfermagem.
Considera-se ser possível extrair, a partir da identificação das representações sociais do envelhecimento pelos profissionais que compõem a equipe de enfermagem, informações valiosas para nortear a produção de
conhecimento sobre o assunto. Será uma oportunidade para desenvolver outro olhar sobre o trabalho dos profissionais que possuem idade a partir de 60 anos dentro da equipe de enfermagem.
Se refletirmos sobre as mudanças radicais que aconteceram dentro do trabalho da enfermagem em virtude de novas descobertas científicas, como a inclusão de muita tecnologia na assistência de enfermagem, pode-se perceber que esta geração com mais idade demandou e demanda um grande esforço em busca de atualização e qualificação para poder conseguir manter-se no cenário de uma instituição de saúde. Nesse sentido, o tempo de serviço aliado à experiência poderá trazer muitas revelações sobre as concepções e representações destes indivíduos e sobre as implicações no trabalho de enfermagem.
Em seus escritos, Silva Júnior (2010) descreve a contribuição sobre o que seria a ação afirmativa para o trabalhador velho e a define como uma política temporária de “privilegiamento” das pessoas velhas nos programas de qualificação profissional, contratação e promoção, objetivando maior participação destas pessoas no mercado de trabalho, em prol de um ambiente de trabalho mais justo em termos etários. Então existe uma preocupação por parte de alguns autores sobre a temática, considerada atual, relevante e um fato nos países em desenvolvimento, como é o caso do Brasil.
Considera-se que esta pesquisa possa contribuir para o desenvolvimento desta ação afirmativa dentro do trabalho de enfermagem. Voltar à atenção para os trabalhadores mais velhos da enfermagem é necessário e urgente. Estes profissionais são parte dos recursos humanos da enfermagem e um estudo como este tem potencial para apontar novos caminhos para uma gestão mais qualificada e mais justa para o presente e uma preparação para o futuro.
Christovam (2012) afirma que a enfermagem vem buscando uma mudança de contexto e filosofia para gerar mudanças, além de estar tomando consciência de que a gerência do cuidado é um meio para a consecução do cuidado. Assim, considera-se que este estudo seja relevante para os gestores de enfermagem.
Corroborando com Friedrich et al. (2011) quando afirmam que enfermeiros experientes têm muito a contribuir para a força de trabalho, mas existem poucos estudos sobre estratégias para reter esses profissionais, considera-se esta pesquisa uma contribuição para a enfermagem. As autoras ainda acrescentam que o envelhecimento da população e, consequentemente da força de trabalho da enfermagem, é um assunto que deve ser visto com urgência. Assim, considera-se que as contribuições deste estudo são notórias, pois busca descrever as representações sociais do envelhecimento dos profissionais de enfermagem e as suas implicações no trabalho.
1 REFLEXÕES SOBRE O ENVELHECIMENTO E O TRABALHO: IMPLICAÇÕES PARA OS TRABALHADORES DE ENFERMAGEM
1.1 ENVELHECIMENTO E TRABALHO
Segundo Teixeira (2006), o crescimento da população de idosos e da longevidade é um fenômeno mundial e está ocorrendo a um nível sem precedentes, atingindo todas as classes sociais. E embora tal crescimento atinja os chamados países em desenvolvimento, proporcionalmente ele é bem inferior ao encontrado nos países desenvolvidos.
A mesma autora define o envelhecimento como o declínio físico, além da perda de papéis sociais como o familiar e o produtivo. Entretanto, paralelo à evolução cronológica e ao declínio biológico, estão agregados fenômenos de natureza biopsíquica, social e econômica, importantes para a configuração das diferentes formas de envelhecer.
O Brasil tem hoje cerca de 1,5 milhão de profissionais de enfermagem. E esta transição demográfica caracterizada, sobretudo pelo crescimento de idosos não exclui a enfermagem e começa a chamar a atenção para uma nova realidade (ENSP, 2012).
Segundo dados do COFEN (2010), os profissionais de enfermagem concentram-se na faixa etária de 26 a 55 anos, sendo que a grande maioria está na faixa de 26 a 35 anos, a qual representa 35,98% do total de profissionais de enfermagem do Brasil, como pode ser visto no quadro abaixo.
Faixa Etária n % 15 a 25 115.413 7,96 26 a 35 521.527 35,98 36 a 45 395.042 27,25 46 a 55 277.548 19,15 56 a 65 102.433 7,07 maior que 65 25.564 1,76 Não Informado 12.056 0,83 Total 1.449.583 100,00
Quadro 1. Profissionais de enfermagem por faixa etária. Brasil, 2010
Fonte: COFEN. Comissão de Business Intelligence. Produto 2: Análise de dados dos profissionais de enfermagem existentes nos Conselhos Regionais. Março de 2011 – Versão 1.0
Tucker et al. (2010) abordam a importância crescente de estudos sobre a interação do ambiente de trabalho e a saúde dos enfermeiros por causa do envelhecimento da força laboral e riscos para saúde no local de trabalho. Precisa-se saber qual o pensamento dos profissionais sobre a temática para que se possa traçar possibilidades para a manutenção da saúde destas pessoas.
Organizado pela lógica administrativa taylorista, o trabalho de enfermagem se caracteriza por ser um trabalho com ações de saúde e atividades diversificadas, consistindo-se em decomposto por tarefas, hierarquizado, ordenado em categorias profissionais e atribuições sistematizadas pela “Lei do Exercício Profissional” (COFEN, 1987). Esta lei determina a execução de atividades consideradas de menor e maior grau de complexidade, de acordo com as categorias e o saber dos trabalhadores da equipe de enfermagem, com formação profissional e conhecimentos que compreendam saberes teóricos científicos, habilidades técnicas e de prática adquiridos pela experiência profissional e especializações. Estas características configura um processo de trabalho com exigência de qualificação,
habilidade e destreza, e uma distribuição de atividades em graus de maior e menor apreço, organizado de forma hierarquizada de acordo com grau de formação e nível de escolaridade (FONTES, 2012).
A mesma autora acrescenta que a enfermagem no Brasil, possui trabalhadores da saúde, com formação profissional, voltada para os níveis das categorias profissionais; se caracterizando por ter uma forte participação na assistência e prestar cuidados diretos à clientela. O trabalho é sistematizado por normas e rotinas de serviços, que compreendem um modelo técnico de fazer, que são as técnicas de enfermagem, estas são norteadas pelos elementos organizacionais dos serviços de enfermagem e pela demanda da clientela a ser assistida, de acordo com suas necessidades, diagnóstico de suas doenças e estado geral de comprometimento e ou reabilitação orgânica. Há também o trabalho prescrito nos manuais de operação que, no seu campo prático de atuação, sofrerá mudanças e alterações de acordo com a organização do trabalho, disponibilidade de recursos humanos, de equipamentos e materiais, o que significa dizer que o trabalho prescrito se diferencia do trabalho real.
Segundo Ribeiro, Pires e Blank. (2004), a enfermagem é uma das categorias profissionais que executam o seu trabalho aplicando características da divisão parcelar do trabalho. São os trabalhadores da saúde que mais entram em contato físico com os doentes, e apresentam a predominância do gênero feminino e de formação profissional hierarquizada e fragmentada. A ótica hegemônica neoliberal guia o modelo assistencial, vigente nos serviços de saúde e, na prática, essa visão acaba definindo a missão dos serviços e as conformações tecnológicas, atendendo a interesses poderosos capitalistas considerados legítimos.
Segundo Peduzzi e Schraiber (2004 apud RIBEIRO; PIRES; BLANCK, 2004, p. 440):
Há a tendência de se adotar políticas que passem tanto a desproteger o trabalho e o trabalhador, quanto, no caso da saúde, a regular diretamente o produtor direto dos cuidados, interferindo imediatamente em seus processos de trabalho.
Kurcgant et al. (2010) afirmam que o processo de trabalho em saúde se reorganizou ao redor de dois eixos básicos: na recuperação dos doentes no âmbito individual e no controle das doenças em escala social. Neste último, se generalizaram modelos de organização de acordo com a ênfase conceitual e política tanto nas doenças como na saúde, o modelo epidemiológico. Este utiliza vários instrumentos de trabalho para diagnosticar situações de saúde em populações, levantar os perfis epidemiológicos e identificar necessidades de saúde, segundo enfoques, assim como planejar para intervir nos ambientes de trabalho, educar para a saúde e desenvolver ações tendentes à prevenção de enfermidades e promover a saúde com condições de vida saudável.
Farias e Zeitoune (2007) enfatizam que o trabalho em saúde é realizado com cooperação e, dentro do processo de trabalho, o simples contato social entre os membros da equipe pode estimular os profissionais, aumentando a capacidade de realização de cada um e o potencial do ambiente de trabalho como produtor de conhecimentos. As mesmas autoras acrescentam que é importante e necessário analisar o contexto histórico e social em que o trabalhador se encontra inserido, pois atualmente, quando se examina a qualidade de vida no contexto do trabalho de enfermagem, nos deparamos com fatores inusitados como a rapidez das transformações, o acirramento da competição, e uma busca desenfreada por lucros e isto influencia a vida do trabalhador. Para uma pesquisa em representação social é
fundamental a análise do contexto histórico e social do sujeito. Assim, a importância da teoria para a compreensão do objeto desta pesquisa.
É fato que trabalhadores idosos sofrem muita discriminação no mercado de trabalho e dentro da enfermagem não é diferente. Chaves (2006) explica o termo discriminação como sendo toda distinção, exclusão ou preferência fundada na raça, cor, sexo, religião, política, ascendência nacional ou origem social, que tenha por efeito destruir ou alterar a igualdade de oportunidade ou de tratamento em matéria de emprego ou profissão.
O mercado de trabalho enxerga o profissional que tem 40 anos ou mais, ora denominado de “evelhescente”, como obsoleto, sem energia e disposição física e existe uma tendência para recusar esses sujeitos (ibid).
Teixeira (2006), em sua tese de doutorado, aborda com muita propriedade este contexto:
É a classe trabalhadora a protagonista da tragédia no envelhecimento, considerando-se a impossibilidade de reprodução social e de uma vida cheia de sentido e valor na ordem do capital, principalmente, quando perde o “valor de uso” para o capital, em função da expropriação dos meios de produção e do tempo de vida. Portanto, não é para todas as classes que o envelhecimento promove efeitos imediatos de isolamento, exclusão das relações sociais, do espaço público, do mundo produtivo, político, artístico, dentre outras expressões fenomênicas dos processos produtores de desigualdades sociais (TEIXEIRA, 2006, p. 19).
No próprio estatuto do idoso há uma contestação em relação à discriminação do idoso aos postos de trabalho e ainda prevê a criação de programas de profissionalização especial para os idosos (Lei nº 10.741 DE 1/10/2003, capítulo VI, artigos 26, 27 e 28).
Esta legislação tem se mostrado insuficiente para conter as práticas discriminatórias e aponta a necessidade de desenvolvimento de uma política diferenciada para atender os trabalhadores considerados velhos (SILVA JÚNIOR, 2010).
Magalhães (2008) destaca que não é raro tomar conhecimento de notícias de empregados que, estando prestes a completar o tempo necessário para aposentadoria, são demitidos, numa demonstração de completo desprezo à experiência, de negação do reconhecimento e da recompensa a anos de dedicação e fidelidade à empresa. Estes atos representam a materialização de uma das mais cruéis discriminações que pode sofrer o ser humano que é o preconceito por viver mais.
O custo de um trabalhador jovem é menor, representando um atrativo para os empregadores, e é comum que ele se sujeite a muitas negligências em relação à legislação trabalhista, assim como possui uma capacidade menor de organização e argumentação para fazer reivindicações (CHAVES, 2006). Este fato é um risco para a Enfermagem enquanto categoria profissional.
Acredita-se que os trabalhadores mais velhos não se sintam à vontade diante das novas tecnologias e práticas de trabalho (FRANÇA; STEPANSKY, 2008). Estes trabalhadores necessitam de atualização para que possam realizar suas atividades sem serem discriminados pela equipe e até mesmo não tenham sua autoestima comprometida, causando o aparecimento de diversas doenças. O que se deve repreender é a incapacidade de apreensão que julgam que os idosos possuem.
A população brasileira que se encontra na faixa de 60 anos ou mais possui menor escolaridade em relação à população mais jovem e isto se agrava se for considerado que a Enfermagem é uma profissão essencialmente feminina, este dado tem uma grande importância (FRANÇA; STEPANSKY, 2008).
Chaves (2006) também enfatiza que o mercado de trabalho da sociedade capitalista sinaliza o trabalhador idoso em relação a determinadas
funções, tornando-o como imprestável ao objetivo maior que é o lucro. A autora também menciona que as profissões também determinam a idade do envelhecimento. Nesse contexto, percebe-se que no profissional de enfermagem isto também se aplica, sendo uma profissão onde são realizados procedimentos que requerem uma força física que confronta com a idade do profissional idoso. Entretanto, não só a força física é empregada para o cuidado de enfermagem. Então, mais uma vez observa-se a importância da descrição da representação social dos profissionais idosos de enfermagem para que se identifiquem as implicações no processo de trabalho da equipe.
O próprio trabalhador idoso tem preconceito sobre si, achando-se incapaz para o trabalho porque já não possui a mesma produtividade e apresenta a saúde frágil (SILVA JÚNIOR, 2010). Este pensamento está também veiculado na sociedade como bem expressa a representação social.
Dejours (apud CHAVES, 2006) diz que hoje estamos vivendo uma guerra econômica em busca da liberdade e da sobrevivência da nação e em nome disso são excluídos os que não estão mais aptos para este combate e isso causa sofrimento no trabalho e aumento do número de desempregados.
No Brasil, os últimos dados do censo demográfico do IBGE (2010) mostram uma população que está envelhecendo. Como consequência desse aumento do número de idosos no País, observa-se uma crescente participação desses no mercado de trabalho (WAJNMAN, 2004). E um dos fatos que contribuiu muito para isto foi à alteração na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que agora preconiza a necessidade de indenizar um trabalhador quando este se aposenta e isto significa um custo muito alto para as empresas (DJU 361–TST- 23/05/2008).
Se um enfermeiro trabalha há 25 anos numa instituição de saúde privada, ao optar por aposentar este funcionário, esta empresa deve indenizá-lo com 40% sobre o FGTS depositado em todo período do contrato de trabalho, como se estivesse demitindo este colaborador.
O aumento do número de aposentados evidenciou décadas de má administração do sistema previdenciário e da utilização de seus recursos, e ainda que esta situação seja corrigida, é pouco provável que o Estado consiga arcar com os custos de um número cada vez maior de idosos (FRANÇA; STEPANSKY, 2008). Em virtude disso, surge um fenômeno chamado de “efeito bumerangue”: o idoso se aposenta e depois retorna ao mercado de trabalho, como evidencia Magalhães (2008).
Segundo Dutra (2007), o envelhecimento da população já apresenta consequências e repercussões muito importantes em todas as esferas da vida cotidiana da humanidade e tendência que vai interferir no plano econômico, afetando o crescimento econômico, as poupanças, os investimentos e o consumo, os mercados de trabalho, as pensões, os impostos e as transferências de riqueza.
Com o aumento da expectativa de vida, o Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) está em franca busca de estratégias para manter seus segurados no mercado de trabalho como contribuintes e adiar ao máximo suas aposentadorias. Para isto, está fazendo mudanças na legislação previdenciária para adequar o INSS ao novo tamanho da crescente população de idosos no país. Um exemplo disso foi à inclusão da idade mínima para aposentadoria integral. Isto significa que, mesmo o profissional de enfermagem exercendo atividade considerada insalubre, tendo direito a se aposentar com 25 anos de serviço, se este indivíduo possuir menos de 60 anos ele não terá direito a aposentadoria integral, só terá
direito a aposentadoria proporcional (SANTOS, 2010). Secco et al. (2010) também confirmam que, embora sofram com expressivo desgaste físico e psíquico que a atividade requer, os trabalhadores de enfermagem passaram a ter a data da aposentadoria postergada em razão do panorama da Previdência Social no Brasil. Então, não pode-se mais negar a necessidade de adaptação deste profissional idoso ao mercado de trabalho.
Existem muitas questões que interferem no desejo de um trabalhador optar por se aposentar ou não, como o prazer e a satisfação com o trabalho, a sensação de se sentir útil, de estar inserido em um grupo, a autoestima (FRANÇA; STEPANSKY, 2008). Estas autoras também acrescentam que o modo como as pessoas agem e reagem ao trabalho e à aposentadoria é também resultado de diferenças interpessoais, oriundas do passado, presente e como elas percebem o futuro.
Ramos, Souza e Caldas (2008) destacam que apesar do trabalho parecer ser fonte de sofrimento, a saída do ambiente de trabalho pode gerar um sentimento de confusão existencial que acaba por criar o ciclo vicioso de solidão, trazendo desajustes e sentimentos destrutivos para os que estão desprovidos de perspectivas para a vida, podendo levar à morte.
Muitos temem a solidão, não gostam da ideia de parar ou até acreditam que ficarão entediados. Acrescentam-se ainda as questões socioeconômicas que interferem nesta decisão. Em razão dos baixos salários das categorias profissionais de enfermagem, é comum observar dentro das equipes indivíduos com múltiplas jornadas de trabalho. Nem sempre a aposentadoria suprirá o que este trabalhador necessita e isto também pesa sobre a decisão de continuar (CHAVES, 2006).
Nunes (2012) aponta que para um envelhecimento ativo e saudável, há necessidade de uma preparação e também significa conhecer o processo natural da velhice, seus limites reais, rompendo os preconceitos no sentido de reduzir o processo de perda da autoestima, que insiste em acometer todos aqueles que percebem o envelhecimento como um tempo compulsório de dores e improdutividade, e que entendem a velhice apenas como última fase da vida.
Para entender melhor as questões sobre a estreita relação entre o envelhecimento e trabalho, é necessário conhecer elementos fundamentais que estão presentes neste contexto, quais sejam: a capacidade para o trabalho, as cargas de trabalho e a importância da gerência do cuidado nesta conjuntura.
Viero et. al. (2011) explicam a capacidade para o trabalho como sendo ”o quão bem está ou estará um trabalhador presentemente ou num futuro próximo, e o quanto ele é capaz de executar seu trabalho, em virtude das exigências de seu estado de saúde e capacidades físicas e mentais”. O Índice de Capacidade para o Trabalho (ICT) é um instrumento utilizado em Serviços de Saúde Ocupacional que avalia quão bem um trabalhador é capaz de realizar seu trabalho.
Segundo Secco et al. (2010, p. 3), as cargas de trabalho podem ser definidas:
como os elementos do processo de trabalho que interagem entre si e com o corpo do trabalhador, desencadeando alterações nos processos biopsíquicos que se manifestam como desgastes físicos e psíquicos potenciais ou efetivamente apresentados. Elas são classificadas em cargas de materialidade externa ao corpo do trabalhador (cargas físicas, químicas, biológicas e mecânicas) e cargas de materialidade interna (cargas fisiológicas e psíquicas), por se estabelecerem por meio do seu corpo (SECCO et al., 2010, p. 3).
Neumann e Freitas (2008) evidenciam que as condições de trabalho as quais a enfermagem está submetida propiciam danos a sua saúde. Tais profissionais, sem escolha, sujeitam-se a relações, organizações, condições e
espaços que muito contribuem para um sofrimento inevitável, que idealmente deveria ser gerenciado pelos trabalhadores visando à saúde e à qualidade de vida deles. Os mesmos autores ainda acrescentam que as organizações hospitalares, em geral, apresentam um discurso sobre assistência de qualidade, porém o quantitativo de recursos humano de enfermagem é quase sempre insuficiente, estando em desacordo com a Resolução do COFEN nº 293/2004, que fixa e estabelece parâmetros para o dimensionamento do quadro de profissionais de enfermagem nas unidades assistenciais das instituições de saúde e assemelhados. Farias e Zeitoune (2007) apontam que o “processo de globalização econômica e de acirramento da concorrência, tem inserido novos fatores condicionantes da qualidade de vida dos trabalhadores de enfermagem, assim como trás novos desafios para a sua melhoria”.
Viero et. al (2011) citam como principais acometimentos nos trabalhadores de enfermagem, destacados na literatura, os problemas relacionados às alterações musculoesqueléticas e aos distúrbios psíquicos menores. Também evidenciam os principais fatores de risco para problemas osteomusculares: a organização do trabalho (aumento da jornada de trabalho, horas extras excessivas, ritmo acelerado, déficit de trabalhadores); os fatores ambientais (mobiliários inadequados, iluminação insuficiente) e as possíveis sobrecargas de segmentos corporais em determinados movimentos, por exemplo: força excessiva para realizar determinadas tarefas, repetição de movimentos e de posturas inadequadas no desenvolvimento das atividades de trabalho. Hill (2011) chama a atenção para o fato dos trabalhadores mais velhos apresentarem maior risco para lesões no trabalho em relação aos mais jovens. Friedrich et al. (2011) encontraram em seu estudo que esta é uma das maiores preocupações de enfermeiras mais velhas.
Ramos, Souza e Caldas (2008) chamam atenção para a relação positiva que pode haver entre trabalho e envelhecimento, comentando que os idosos que trabalham tendem a apresentar melhores condições de saúde que a população de idosos em geral, o que leva a uma melhor qualidade de vida.
Neumann e Freitas (2008) destacam que o hospital é considerado um recinto insalubre, penoso e perigoso para os que ali trabalham, um local que privilegia o adoecimento. Além dos riscos de acidentes e doenças de ordem física, o sofrimento psíquico é também bastante comum e está cada vez mais prevalente, dada a pressão social e psicológica a que estão expostos os trabalhadores que ali atuam. Secco et al. (2010) contribuem destacando que esse cenário agrava-se ainda mais em decorrência do envelhecimento de contingente expressivo dessa população, dada a transição demográfica vivenciada na estrutura populacional brasileira. Acrescentam que as cargas psíquicas, que dizem respeito ao estresse no trabalho, são consequentes do ritmo e da intensidade empreendidos nos atendimentos de emergência, pelo convívio com o sofrimento e a morte, pela necessidade em se manter atualizado, pelas condições competitivas no mercado de trabalho, pelas relações de poder com a chefia e diversos saberes relacionados à atividade, e de como o trabalho é organizado e dividido.
Viero et. al. (2011) destacam que as características do trabalho da enfermagem, como trabalho em turno, ritmo acelerado de trabalho, a proximidade com a doença e a morte, trabalho em equipe multidisciplinar, entre outros , podem representar riscos à saúde dos trabalhadores. Neumann e Freitas (2008) evidenciaram que, diante das situações enfrentadas no cotidiano do trabalho, a enfermagem foi classificada pela Health Education Authority como a quarta profissão mais estressante, devido à responsabilidade pela vida das pessoas, aumentando a
probabilidade de ocorrência de desgastes físicos e mentais. Grande parte dos trabalhadores da enfermagem tem dupla e, às vezes, tripla jornada de trabalho. Secco et al. (2010) apontaram em seu trabalho que um dos indicadores da realidade relacionado às condições de trabalho desse grupo refere-se ao fato de que cerca de 70% dos trabalhadores possui duplo emprego formal. Neumann e Freitas (2008) apontaram que as condições de trabalho e de saúde da equipe de enfermagem têm sido denunciadas mundialmente, por isso a luta pela melhoria dessas condições tem sido alvo de debate no meio acadêmico e no contexto geral das organizações.
Viero et al. (2011) reforçam que os fatores relacionados à perda da capacidade para o trabalho por doença ou lesão devem ser motivo de reflexão crítica entre os trabalhadores e também gestores, a fim de planejar e promover ações de prevenção de agravos e promoção da saúde desses trabalhadores, contribuindo para mudança no atual cenário.
Secco et al. (2010) destacam que a enfermagem hospitalar está centrada no processo de trabalho do cuidado, que é o seu identificador e está relacionado à assistência à saúde dos pacientes. Essa prática propicia a exposição às cargas e desgastes nos trabalhadores, determinados pela atividade laboral, que repercutem no seu processo saúde/doença e que se agravam com o envelhecimento, motivando inadequações físicas e psíquicas. O envelhecimento do pessoal de enfermagem tem sido motivo de preocupação das chefias, pois muitos sofrem desgaste não só em razão da atividade desenvolvida, mas também pelo acúmulo de tarefas domésticas, pelo estudo, pela dupla ou tripla jornada, ou ainda pelo segundo emprego.
O resultado de tal desgaste pode ser constatado influenciando a assistência, como apontam Neumann e Freitas (2008), pois a qualidade da
assistência de enfermagem está intrinsecamente ligada à qualidade das condições de trabalho, sendo necessárias mudanças efetivas no gerenciamento do sistema de saúde. Os profissionais também devem ser vistos na integralidade de suas necessidades. É necessário que o profissional de enfermagem também se sinta cuidado para cuidar melhor.
Segundo Secco et al. (2010) a correlação entre cargas de trabalho e desgaste do trabalhador, considerando também o seu envelhecimento, converge para um campo de dificuldades na sua caracterização, dado o número de variáveis estabelecidas nesse processo, que vão desde os componentes históricos e sociais do indivíduo, até os seus hábitos de vida, a forma como o processo de trabalho é desenvolvido, o contexto em que ele é realizado. Matos e Pires (2006) lembram que a revolução industrial introduziu um novo modo de produzir que inclui, dentre outras características, o trabalho coletivo, a perda do controle do processo de produção pelos trabalhadores e a compra e venda da força de trabalho. Neste contexto, no final do século XIX e início do século XX apareceram os primeiros trabalhos tratando da administração com o objetivo de racionalização do trabalho. A organização do trabalho e o gerenciamento no setor saúde, especialmente no ambiente hospitalar , sofre até hoje forte influência do modelo taylorista/fordista, da administração clássica e do modelo burocrático.
Segundo Santos et al. (2013), Florence Nightingale foi a primeira administradora hospitalar e demonstrou, com os resultados do trabalho que ela e sua equipe desenvolveram no hospital militar da Criméia, a importância do conhecimento acerca das técnicas e instrumentos administrativos,para a organizar o do ambiente terapêutico, mediante a divisão do trabalho desenvolvido pelas nurses (cuidado direto) e pelas ladies nurses (cuidado indireto) e na sistematização das
técnicas e dos procedimentos de cuidado de enfermagem. Essa divisão técnica do trabalho na enfermagem profissional emergente tem suas raízes na dicotomia entre trabalho intelectual e trabalho manual, e tem se perpetuado até os dias atuais.
Concordo com Matos e Pires (2006) quando afirmam que o modelo proposto por Florence Nightingale, influenciado pela lógica de organização capitalista do trabalho, institui a divisão entre trabalho intelectual e manual e a hierarquização no trabalho da enfermagem, ainda tão presente em nossos dias. Neste modelo, o enfermeiro desempenha a função de gerente centralizador do saber, que domina a concepção do processo de trabalho de enfermagem e divide e delega as atividades aos demais trabalhadores de enfermagem. Seguindo este raciocínio, Secco et al. (2011) esclarecem que neste processo de produção capitalista, o trabalho da enfermagem hospitalar, por meio da equipe constituída por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, tem como finalidade maior prover assistência ao usuário dos serviços, sendo a tônica o cuidado, a assistência integral, individualizada e humanizada. Logo, cabe ao enfermeiro realizar a gerência do cuidado, termo abrangente que engloba tanto os que recebem o cuidado, como os que realizam este cuidado. Santos et al. (2013, p 258) trazem o conceito de gerência do cuidado:
O termo gerência do cuidado de enfermagem compreende a articulação entre as esferas gerencial e assistencial que compõem o trabalho do enfermeiro nos mais diversos cenários de atuação. Ele tem sido utilizado para caracterizar, principalmente, as atividades dos enfermeiros visando à realização de melhores práticas de cuidado nos serviços de saúde e enfermagem por meio do planejamento das ações de cuidado, da previsão e provisão de recursos necessários para assistência e da potencialização das interações entre os profissionais da equipe de saúde visando uma atuação mais articulada.
Santos et al. (2013) ainda acrescentam que é atribuição do enfermeiro otimizar os recursos existentes, proporcionar, na medida do possível,
melhores condições de trabalho para os profissionais e, consequentemente, zelar por uma assistência mais eficaz, segura e com mais qualidade.
Foi muito bem colocado por Ramos, Souza e Caldas (2008) que a permanência do idoso no mundo do trabalho é determinada pela capacidade física. Logo, cabe ao enfermeiro que gerencia o cuidado, desenvolver ações para minimizar as cargas mecânicas do trabalho entre outras, potencializadas pelo envelhecimento de expressivo contingente de pessoal, que pode impossibilitar parte do grupo de continuar atuando na atividade laboral de forma plena, tornando necessária a instauração de processos de readequação e/ou readaptação funcional, segundo afirmam Secco et al. (2011). Estes autores também evidenciam que essa situação acarreta outros problemas para a equipe, uma vez que a realização das tarefas continua sendo exigida, sobrecarregando aqueles que permanecem em atividade e que passam a ser as próximas vitimas potencias. Este é sem dúvida um dos maiores desafios para a gerência do cuidado.
O número de profissionais de enfermagem idosos está crescendo. É uma realidade nas equipes de enfermagem e num futuro bem próximo haverá um considerável contingente de profissionais de enfermagem idosos cuidando de uma população idosa ainda maior. Já se pode ver idosos cuidando de idosos.
2 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
2.1 REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
Sérge Moscovici foi o primeiro a introduzir o conceito de representações sociais na psicologia social contemporânea há cerca de 40 anos, em um estudo sobre a representação social da psicanálise. As representações sociais são elementos simbólicos que os homens expressam mediante o uso de palavras e de gestos. Ela engloba explicações, ideias e manifestações culturais que caracterizam um determinado grupo (FRANCO, 2004). A representação acontece a partir da interação dos indivíduos e apesar do homem viver em um ambiente, ele não perde os atributos típicos de sua personalidade. Para se entender as relações humanas, é necessário fazer uma análise do coletivo, verificando assim a troca de conhecimentos que a representação social é capaz de promover dentro do grupo. O estudo da representação social se mostra importante para compreender o avanço da sociedade e o comportamento do indivíduo inserido num grupo.
Moscovici (2011) afirmou, nos seus estudos, que existem duas formas de representação social, a ancoragem e a objetivação. Na ancoragem se faz referência às ideias abstratas que ganham um formato real e a objetivação desenvolve novas imagens de um assunto, propiciando a criação de novos conceitos (FRANCO, 2004).
A ancoragem consiste na absorção do novo ao pensamento já construído, tornando o estranho familiar. É considerado como um processo de domesticação do novo à vida social cotidiana. A objetivação é a cristalização de uma
representação, é a transformação de um pensamento abstrato, de uma imagem, em algo concreto, tornando-os reais. Porém, mesmo considerando essa cristalização, as representações podem se modificar, pois sofrem interferências sociais, e são também estruturantes quando dão significados à realidade e incorporam numa rede de significados (MOSCOVICI, 2011).
Em outras palavras, a ancoragem é o significado que o sujeito dá à realidade, e a objetivação é a forma como ele representa essa realidade, é a simbolização. Esses dois processos são formas específicas de mediações usadas pelas representações sociais, transformando as simbologias a um plano quase material, concretizando essas representações na vida social. Objetivar, por conseguinte, é agregar significados diversos; e ao agregar esses significados diferentes, o sujeito realiza o processo de ancorar, que é a agregação do desconhecido em uma realidade cotidiana e estabelecida (FERREIRA et al., 2010).
Os conceitos de objetivação e ancoragem permitem a compreensão de como o funcionamento do sistema cognitivo interfere no social e como o social interfere na elaboração cognitiva (MAZOTTI, 2008).
Para estudar as RS, em primeiro lugar é indispensável conhecer as condições de contexto em que os indivíduos estão inseridos mediante a realização de uma cuidadosa “análise contextual”. Elas necessitam do referencial de um pensamento preexistente. Não se formam, portanto, no vácuo, sendo antes representativas da evolução de conceitos e conhecimentos pré-existentes.
Estas características reforçam a validade do estudo de representações sociais quando se deseja entender a forma pela qual a Enfermagem tem se relacionado com determinados fenômenos sociais que, por sua
complexidade, podem não ser adequadamente percebidos por outros métodos de pesquisas tradicionais.
Oliveira (2009) conclui que Moscovici interessou-se no “poder das ideias” de senso comum, ou seja, no “estudo de como e por que as pessoas partilham o conhecimento e desse modo constituem sua realidade comum, de como eles transformam ideias em práticas”. Também se se preocupou em compreender como o tripé grupos/atos/ideias compõe e transforma a sociedade. Ele quis compreender como a produção de conhecimentos diversos constitui e reforça a identidade dos grupos, como influi em suas práticas e como estas reconstituem seu pensamento.
A relação entre grupos, atos e ideias (e até imagens) está presente na obra de Moscovici e se aplica como fundamentação epistemológica para esta pesquisa que irá tratar da representação social de um grupo etário específico dentro da Enfermagem e as implicações destas representações no processo de trabalho.
Na prática da pesquisa atual, as representações sociais estão recebendo mais atenção porque é através dela que se pode descrever com mais clareza o contexto em que a pessoa é levada a reagir a um estímulo, a particular e a explicar mais acuradamente suas respostas. A realidade para um indivíduo é, em grande parte, determinada por aquilo que é socialmente aceito como realidade (MOSCOVICI, 2011).
A representação social da velhice pelos idosos não reflete de maneira estática sobre o indivíduo na estrutura social, mas também é definida como a expressão de como o idoso toma consciência dessa estrutura e responde a ela como integrante de uma sociedade mutável. Logo, os indivíduos e grupos não são meros receptores passivos, pois eles pensam de forma autônoma, comunicando e
produzindo suas representações no meio social, permitindo que estas representações influenciem suas relações na vida diária (SÁ, 2004). A mesma autora ainda acrescenta que é importante conhecer as representações dos idosos para que se possa compreender o comportamento deles.
As concepções sobre o trabalho, as atitudes e os comportamentos dos trabalhadores podem, sob a ótica do conceito de representação social, serem inseridas e compreendidas em uma análise mais ampla, uma vez que a apreensão das condutas dos trabalhadores mostrará o caminho para que se entenda o conjunto de variáveis que atuam na conduta individual ou coletiva dos trabalhadores, os processos de produção, o sistema de trabalho e os objetivos organizacionais. Ao investigar essas representações, pode-se contribuir para a qualidade do inter-relacionamento dos trabalhadores no ambiente da organização. Ao mesmo tempo, pode-se conscientizá-los sobre a importância das atitudes e comportamentos felizes e engajados no processo de formação de valores, tais como autorrealização, intuição, criatividade, autoconhecimento, ética, responsabilidade social e corporativa, além de capital intelectual (COSTA et al., 2011).
A forma como a enfermagem tem sido percebida por profissionais e pela sociedade tem sido extremamente perniciosa para as pessoas que a praticam. O imaginário social sobre a enfermagem é carregado de estereótipos femininos, onde o papel e o status da profissão subordinam-se ao papel e status das mulheres (BORGES et al., 2003).
Segundo Durkheim citado por COSTA (2011), as representações sociais coletivas têm suas leis próprias, que é diferenciada do pensamento individual, pertencem a outra natureza. Durkheim aponta que a representação coletiva é explicada pela maneira que o grupo pensa nas suas relações com os