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Cad. Saúde Pública vol.25 número1

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(1)

AVANCES RECIENTES EN INMUNIZACIÓN.

Andrus JK, de Quadros CA. 2

a

Ed. Washington

DC: Organización Panamericana de la Salud;

2007. 154 pp. (Publicación Científica y Técnica,

619).

ISBN: 92-7531619-8

Avances Recientes en Inmunización

conta com a

cola-boração de renomados autores que expõem os aspectos

considerados relevantes pela Organização

Pan-Ameri-cana da Saúde (OPAS) para recomendar a introdução

de novas vacinas nos programas dos países membros.

Dentre eles, merecem destaque: carga das doenças,

características das vacinas e seu impacto sobre os

pro-gramas, percepção de risco, análise

fármaco-econômi-ca da intervenção, compromisso e respaldo político,

alianças e sustentabilidade.

Nas últimas décadas, foram surpreendentes os

avanços que possibilitaram a criação de novas vacinas

e de recursos diagnósticos para identificar doenças

an-tes não reconhecidas e formas atípicas de doenças bem

conhecidas, aumentando os desafios para incorporar

as vacinas contra estas doenças nos calendários

vaci-nais

1,2,3,4,5,6,7

. Também ficaram claras as necessidades

de identificar e monitorar os sorogrupos e sorotipos de

Streptococcus pneumoniae

,

Haemophilus influenzae

e

meningococo, bem como de realizar testes

sorológi-cos para confirmar os casos de sarampo e rubéola para

apoiar as decisões sobre futuras estratégias de

vaci-nação

5,6

. Os autores enfatizam a necessidade de dar

mais atenção à vacinação de adultos e adolescentes e

de aumentar as coberturas de vacinas recomendadas

para grupos de risco e seus contatos, como influenza e

pneumococo, que ainda são subutilizadas, assim como

o desenvolvimento de vacinas combinadas com perfil

de segurança e eficácia semelhante ao das vacinas

mo-novalentes

5,6,7

.

A opção por diferentes vacinas depende da

cons-cientização sobre os riscos das doenças, bem como de

aspectos relacionados à segurança, eficácia e riscos

de eventos adversos associados às vacinas. Essa

cons-cientização depende da qualidade da vigilância

epide-miológica das doenças e dos sistemas que monitoram

os eventos adversos das vacinas e, apesar das

melho-rias nestes sistemas, ainda faltam informações sobre

muitas doenças, particularmente quando seus sinais

e sintomas se confundem com os causados por outros

agentes, a doença se apresenta de forma atípica ou

su-as manifestações graves ocorrem tardiamente

3,6,7,8,9

.

Cada vez mais, a questão da segurança das

vaci-nas é vista como essencial e, no caso da poliomielite,

a eliminação regional da doença desde 1994 levanta a

questão ética de manter o uso da vacina oral, após o

reconhecimento de que sua utilização não permitirá a

erradicação global da doença. Desde o ano 2000, tem

sido crescente a preocupação com o uso da vacina oral

contra a poliomielite, não apenas nos países onde a

do-ença já não mais circula

3,10,11,12,13,14,15,16

, mas também

na Índia, onde já existem recomendações para planejar

a mudança da OPV para IPV

17,18,19,20

.

A percepção sobre os riscos das doenças e das

va-cinas é essencial para fazer mudanças, pois implica a

aceitação e utilização das vacinas. A substituição das

vacinas

pertussis

de células inteiras por vacinas

acelu-lares ocorreu justamente devido à percepção de que a

vacina DPT é reatogênica e associada a eventos

neuro-lógicos, que foram os responsáveis pela queda na sua

aceitação no Japão e Europa

6,7,8,9

. A proteção

conferi-da pela doença ou pelas vacinas

pertussis

(celulares e

acelulares) é parcial, com duração estimada entre 5 e

10 anos

7

e, atualmente, existe a necessidade de

vaci-nar adolescentes e adultos para evitar a transmissão

da

Bordetella pertussis

para lactentes jovens. A

suges-tão dos autores de que as vacinas de células inteiras

seriam mais efetivas do que as vacinas acelulares não

está de acordo com a posição da Organização Mundial

da Saúde (OMS)

9

, que aprovou e licenciou diversas

va-cinas acelulares

4

, considerando que as “

melhores

vaci-nas acelulares têm eficácia comparável à das melhores

vacinas de células inteiras

9

. Quase todos os países

desenvolvidos atualmente adotam as vacinas

acelula-res, em geral combinadas com outras vacinas, devido

à maior aceitação, menor reatogenicidade e melhoria

nas coberturas vacinais quando se utilizam estas

vaci-nas

1,2,3,5,6,7,8,9

.

Aprender com a experiência de outros países,

ana-lisando os motivos que levaram às mudanças em seus

calendários de vacinação, poderia poupar muitos

pro-blemas. Como exemplo, citamos as recentes epidemias

de sarampo e rubéola, que poderiam ter sido evitadas

se tivéssemos implantado duas doses da vacina

trípli-ce viral há mais tempo no Brasil. Creio que os autores

poderiam ter discutido com mais profundidade essa

questão, assim como os fatos que motivaram o Reino

Unido a adotar a dose de reforço da vacina de Hib em

seu calendário em 2006, quando também substituíram

as vacinas DPT e OPV por uma vacina combinada

con-tendo IPV e acelular

pertussis

4,21

.

Uma das maiores dificuldades em termos de saúde

pública é optar dentre as diferentes vacinas disponíveis

por aquelas que deverão ser incluídas prioritariamente

nos calendários, tendo em vista a escassez de recursos.

O custo das novas vacinas deve ser avaliado em relação

ao custo das doenças para as famílias e a sociedade,

mas é importante lembrar que nenhuma análise

fár-maco-econômica será favorável à introdução de novas

vacinas enquanto houver subnotificação das doenças,

seja por falta de recursos diagnósticos ou por falhas no

registro dos casos

14

.

As sofisticadas tecnologias utilizadas no

desenvol-vimento das novas vacinas são caras e impactam no

custo de produção, além disto, o desenvolvimento de

novas vacinas requer anos de pesquisas e

investimen-tos, e os países em desenvolvimento raramente têm

condições de produzi-las em larga escala logo após seu

licenciamento. A expectativa de que as novas vacinas

terão o mesmo custo das já incorporadas aos

progra-mas de vacinação é pouco realista, progra-mas é possível

re-duzir dramaticamente os custos de produção se houver

planejamento para a aquisição de vacinas em grandes

quantidades, como se observou após a introdução das

vacinas de Hib, hepatite B, rotavírus e hepatite A nos

programas de vacinação de diversos países

1,14,22,23,24

.

Em média, o tempo necessário para introdução de

novas vacinas na América Latina foi de 10 a 15 anos. No

caso da vacina contra rubéola, foram quase três

déca-das, devido à falta de informação sobre a síndrome da

rubéola congênita. Esperar até que sejam

desenvolvi-229

RESENHAS

BOOK REVIEWS

(2)

230

Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(1):229-232, jan, 2009

dos e implantados testes diagnósticos que permitam

conhecer a real carga das doenças significa deixar

mi-lhares de pessoas desprotegidas.

A leitura de

Avances Recientes en Inmunización

permite conhecer melhor a história da vacinação na

América Latina, e o conhecimento e planejamento são

essenciais para que não sejam repetidos os erros do

passado.

Salientamos que a falta de informações sobre

doen-ças não significa que elas não existam, e aconselhamos

os leitores a consultar com freqüência as páginas de

In-ternet da OPAS, OMS, Centro de Controle e Prevenção

de Doenças (CDC – Estados Unidos) e União Européia,

onde constam informações atuais sobre doenças

infec-ciosas, vacinas e calendários atualmente adotados nos

diversos países

1,2,3,4

.

O licenciamento de novas vacinas amplia a

possibi-lidade de prevenir doenças e de evitar o ressurgimento

daquelas ainda não erradicadas. A vacinação é uma das

medidas mais custo-efetivas em saúde pública, mas é

preciso utilizar dados fidedignos dos gastos diretos e

indiretos associados às doenças

14

.

O calendário do México, citado como exemplo

pe-los autores, foi modificado em 2008, e contém as

vaci-nas rotavírus, pneumococo conjugada, IPV-DTPa-Hib,

demonstrando que é possível incorporar mais

rapida-mente as novas vacinas aos calendários de vacinação

dos países latino-americanos, desde que haja “

vontade

política combinada com estratégias inovadoras de

fi-nanciamento e consolidação na região

”.

Concordamos com a conclusão dos autores “...

o

crescimento na demanda por vacinas torna necessária

a colaboração entre órgãos públicos e privados para

de-senvolver novas estratégias de produção e distribuição

em larga escala de vacinas, permitindo garantir o acesso

às vacinas e a redução nos custos

”, e esperamos que nos

próximos anos seja possível melhorar as relações entre

órgãos públicos e privados, em benefício de toda a

co-munidade.

Lucia Ferro Bricks

Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil.

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I

LUMINISMO E IMPÉRIO NO BRASIL: O

PATRIO-TA (1813 – 1814). Kury L, organizadora. Rio de

Janeiro: Editora Fiocruz; 2007. 200 pp. (Coleção

História & Saúde: Clássicos e Fontes).

ISBN: 978-85-7541-139-1

Uma ciência para ilustração dos povos e civilização

do Império

Em 1813, foi publicado pela primeira vez no Brasil

um periódico que hoje chamaríamos de científico.

O

Patriota

saiu dos prelos da Imprensa Régia, no Rio de

Janeiro, recém-instalada, quando da chegada da

cor-te joanina no Brasil. Sob a editoria de Manoel Araújo

Guimarães (depois editor do jornal oficial

Gazeta do

Rio de Janeiro

), teve colaboradores notórios como José

Bonifácio e Silvestre Pinheiro Ferreira, dentre outros

expoentes de um iluminismo português. Apesar disso,

seus volumes tiveram tiragem limitada e a publicação

durou dois anos. Quase duzentos anos depois, esse

precioso material tem agora sua leitura multiplicada

pela livre imprensa, em versão digitalizada. A edição é

(re)apresentada ao público no livro

Iluminismo e

Impé-rio no Brasil: O PatImpé-riota (1813-1814)

, da Coleção

Histó-ria & Saúde, da Editora Fiocruz. Trata-se de uma

coletâ-nea de estudos sobre o periódico, organizada por

Lore-lai Kury, pesquisadora e professora na Casa de Oswaldo

Cruz/Fundação Oswaldo Cruz (COC/FIOCRUZ) e na

Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). São

diversos e instigantes artigos que examinam a cultura

letrada do período: seja por detalharem as relações

so-ciais envolvidas na produção do periódico; ou ao

pro-curarem a pertinência daquela produção científica e

sua difusão.

Sob o aspecto das relações sociais, tome-se o

ar-tigo de Marcos Morel. O historiador faz um trabalho

de investigação dos sentidos da palavra “pátria” em

O

Patriota

, de modo a permitir acompanhar as mutações

políticas e culturais da época. E observa que a

semân-tica da palavra é mais restrita ao lugar de nascimento,

enquanto espaço de atuação intelectual e fidelidade do

súdito, do que os significados políticos. Estudos do

vo-cabulário político já foram feitos por Roderick Barman

e Telmo Verdelho, mas Morel considera as implicações

políticas dos sentidos adotados. O associativismo

lite-rário do Setecentos teria dado lugar à “república das

letras”: constituía não somente espaço de

sociabilida-de mas sociabilida-de esfera pública, “

pautando sua atuação

polí-tica científica e intelectual pelo viés institucional, pela

ampliação de poderes no interior do Estado

” (p. 28). Os

sentidos da “pátria” desdobram-se a partir de um

gru-po luso-brasileiro ligado a D. Rodrigo Coutinho, em

torno de um projeto de império luso-brasílico que

for-mulou (conforme exposto no notório trabalho de

Lour-des Lyra). Numa tentativa de rearticulação Lour-desse grupo

após a morte de D. Rodrigo, de produção científica e

divulgação dentro destas relações sociais e políticas.

O detalhamento dessa rede social é efetuado por

Tania Maria Ferreira, na compreensão sobre a

impren-sa no período da corte joanina na América portugueimpren-sa.

Percebe-se assim as dificuldades e possibilidades de

inserção deste periódico, que se dão num contexto em

que a produção, venda e circulação estão sob censura

rígida. Por isso, a tarefa de publicação é pretendida e

exercida por uma elite letrada, que atribui valor

prope-dêutico à divulgação científica em vista da

“perfectibi-lidade” humana. E não por acaso, ao mesmo segmento

social pertencem os seus leitores: homens e mulheres

vinculados à Corte portuguesa.

Ressalvemos que o estudo das práticas de

produ-ção e circulaprodu-ção dos textos tem sido uma linha

prolí-fera na historiografia brasileira para a compreensão

da circulação de idéias desse início do Oitocentos na

América Portuguesa – vide textos recentes como os de

Guilherme das Neves, Lucia Maria das Neves, Isabel

Lustosa, Luiz Villalta, entre outros. São esses estudos

que nos permitem compreender um pouco da

circu-lação das idéias no período: as implicações políticas

dos textos; as redes de sociabilidade que mobiliza; as

interações com instituições científicas e de ensino.

Com isso se vislumbra a dimensão social do

conhe-cimento científico, mas também convida ao exame

desta produção textual nos aspectos formais, dos seus

princípios.

É nesse último sentido que podemos entender o

entrelaçamento da forma poética com as relações

so-ciais, exposto no artigo de Sérgio Alcides ao se deter na

poesia de Domingos Borges de Barros, colaborador d’

O

Patriota

. Os temas da amizade, a companhia, o

aban-dono têm correspondência com a biografia de Barros,

e denota uma sociabilidade entre letrados e patronos.

Ao mesmo tempo, indica um deslocamento do lugar

social de criação poética: no lugar da Arcádia como

ideal do mundo pastoril, lugar de eloqüência e bom

gosto, temos a Academia das Ciências de Lisboa, no

vi-és do controle da natureza e suas riquezas. O poeta está

identificado com o colono que explora a opulência da

terra, mas também com o letrado que aspira a

subme-ter essa exploração aos valores da Ilustração

” (p. 122-3).

Segue então o modelo de Virgílio, do elogio do trabalho

agrícola e da poesia didática, a fim de pregar a virtude

pública da agricultura. Uma tópica que se ajusta à

di-vulgação técnicientífica e ao serviço à Pátria, tal

co-mo a propõe

O Patriota

.

Aliás, no artigo de Sérgio Alcides já se vislumbra o

segundo ponto pelo qual este livro se destaca:

compre-ender a pertinência da ciência naquele momento.

Lo-relai Kury atenta para o caráter dos textos no periódico.

De um lado, destacando neles a presença de uma

re-tórica da utilidade (conforme os padrões científicos do

iluminismo), mas submetida à pretensão de “ser útil à

Nação”. E de outro, o caráter premeditado de organizar

os conhecimentos disponíveis sobre a natureza no

Bra-sil – para inclusive conceber uma “natureza brasílica”.

Esses dois aspectos coexistem, por exemplo, nos textos

sobre cultivo agrícola, em que se sustenta a tese do

tró-pico como lugar para o desenvolvimento humano. Ou

ainda nas narrativas sobre as doenças no Brasil, que

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