Leitura
De que adoecem
e morrem os
trabalhadores?
Angela Resende Vorcaro
A saúde coletiva depara-se hoje com uma situação de perplexidade. Se por um lado é notório o processo de medicalização dos problemas sociais e da individualização de mal-estares coletivos reproduzidos incessante-mente nas "práticas de promoção da saúde", não se pode mais deixar de considerar a doença como resultado da relação homem/natureza mediada pelo trabalho. Afinal, a VIII Conferên-cia Nacional de Saúde realizada em 1986 define a saúde como "produto das condições objetivas de existência, resulta das condições de vida — bio-lógica, social e cultural — e particu-larmente das relações que os homens estabelecem entre si e com a natureza através do trabalho".
No Brasil, a situação de capitalis-mo tardio dependente bem cocapitalis-mo o desenvolvimento e industrialização internos descompassados determinam que as patologias difiram e coexis-tam, desde as doenças de carência até aquelas psico-sociais típicas dos paí-ses mais desenvolvidos, onde o avan-ço tecnológico dos meios de produção tende a tornar cada vez menos apa-rente a relação de causa e efeito entre trabalho e enfermidade.
As técnicas convencionais de inves-tigação baseadas em métodos biológi-cos e experimentais ou epidemiológi-cos convencionais são insuficientes para surpreender esta relação.
A ausência de literatura médica (quase inexistente no Brasil na área de saúde coletiva), as leis em vigor que determinam o sub-registro de doenças e acidentes, as várias facetas da orga-nização e administração dos serviços públicos de assistência são fatores que impedem o reconhecimento da
exten-são dos danos à saúde, causados pelas condições de trabalho.
Os dez capítulos elaborados por Herval Pina Ribeiro e Francisco de Castro Lacaz na coletânea "DE QUE M O R R E M OS TRABALHADO-RES" trazem à tona a situação de vida e de trabalho da população bra-sileira, analisados através dos seguin-tes temas: Agenseguin-tes físicos e doenças; Acidentes de trabalho, O trabalho da mulher e do menor; Horas extras, turnos e ritmo de trabalho; Tóxicos na indústria; Assistência médica pre-videnciária; A crise econômica e a saúde dos trabalhadores; Trabalho rural, acidentes e doenças; Incapaci-dade, trabalho e previdência social; Poeiras e doenças pulmonares
Em geral, cada tema é resultado de debates promovidos pelo DIESAT (Departamento Intersindical de Estu-dos e Pesquisas de Saúde e Estu-dos Am-bientes de trabalho) no período de
1979 a 1984, com a participação de dirigentes sindicais em Fóruns sindi-cais, simpósios e SEMSAT'S (Semana de Saúde dos Trabalhaodres). Os te-mas trabalhados trazem o esclareci-mento de processos históricos que de-terminam a situação atual (avanços e retrocessos da legislação nos diversos momentos políticos, a constituição e o caráter da política de previdência social, as relações entre a economia do País e a saúde da população, as lutas já travadas pelos trabalhadores), os efeitos de agentes físicos e quími-cos no organismo (modo de instala-ção, progresso e efeitos tardios), a comparação entre a situação brasilei-ra e a de outros países e aponta cami-nhos possíveis a nível da prevenção (engenharia de segurança e medicina do trabalho), bem como da organiza-ção dos trabalhadores para que se
possa chegar ao controle do ambiente de trabalho (que historicamente é uma conquista do movimento sin-dical).
Algumas constatações são alar-mantes. Configuram-se não só na
mortalidade mas na situação drástica de adoecimento. Quatrocentos e qua-renta trabalhadores brasileiros se aci-dentam por hora, sendo que destes cinco ficam inválidos e um morre (da-dos do 1o semestre de 1980). 1% da população brasileira está inválida pe-lo e para o trabalho, não sendo difícil comprovar a existência de um outro exército de inválidos preteridos de qualquer direito devido às dificulda-des de acesso, entraves burocráticos, legislação minimizadora da incapaci-dade de doentes e acidentados e a sistemática pericial.
Entre as doenças incapacitantes, as neuroses são o diagnóstico mais fre-qüente de perícia do INPS, determi-nando o afastamento temporário do trabalho. São também a primeira cau-sa de renovação deste afastamento. Doenças mentais em geral são as mais freqüentes e quase única causa de aposentadoria por invalidez abaixo dos 40 anos.
O caráter crônico das doenças é geralmente o mais evidenciado, sen-do, entretanto, de difícil comprova-ção. Dentre estas, surge a fadiga in-dustrial decorrente da automatização do trabalho, monotonia, ritmo exces-sivo, parcelamento de funções, não valorização da capacidade. Este tipo de fadiga atinge não só os trabalhado-res ligados diretamente à produção, como os têxteis e metalúrgicos, mas também bancários e datilógrafos.
Leitura
ginalizada integrante do mercado in-formal e participante da chamada "economia subterrânea".
Esta coletânea é um documento que pode ser considerado um instrumen-to básico de instrumen-todo trabalhador brasi-leiro e ainda um texto obrigatório aos profissionais da área de saúde que pretendem um exercício profissional conseqüente.
Como
alfabetizar?
Yvone Alvarenga Gonçalves Khouri *
Há várias décadas o fracasso esco-lar tem assolado a escola pública bra-sileira, especialmente a de 1° grau. Este fato tem sido bastante estudado, muito se tem escrito sobre ele, mas poucas alternativas eficazes têm sido propostas e divulgadas, objetivando a sua solução. Parece tratar-se de uma realidade imutável, provocando o de-sespero de educadores bem intencio-nados.
O livro de Sérgio Antonio da Silva Leite (Alfabetização e fracasso
esco-lar, Editora Edicon, 1988) vem trazer,
oportunamente, uma grande contri-buição à transformação desta realida-de realida-deprimente, apontando possibili-dades de ação dos educadores no pro-cesso de alfabetização, um dos pontos mais problemáticos do fenômeno ci-tado.
Nos capítulos iniciais, o autor con-textualiza o problema, através de considerações sobre a política educa-cional brasileira imposta nas últimas décadas, apontando a boa qualidade do ensino oferecido por algumas es-colas particulares ao aluno prove-niente das camadas mais abastadas da
Yvone Alvarenga Gonçalves Khouri é Conse-lheira Vice-Presidente do C.F.P. e professora de Psicologia Educacional na PUC-SP.
população, em contraposição à cres-cente desqualificação do ensino nas escolas governamentais, destinado às camadas populares, denunciando as suas conseqüências negativas na for-mação da cidadania, do indivíduo consciente, autônomo e crítico. Assi-nala também a crescente necessidade da participação efetiva dos educado-res na tomada de decisões pedagógi-cas, através da sua constante reflexão sobre suas práticas educativas e da sua organização política, possibilita¬ dora de pressões da categoria profis-sional no sentido da transformação sócio-política mais ampla, na efetiva-ção de justiça social e, em decorrên-cia, da melhoria da qualidade de vida da grande maioria da população bra-sileira empobrecida.
As explicações tradicionais sobre a questão, e ainda assumidas por mui-tos professores, são discutidas sob en-foque desmistificador. Questões co-mo Q.I., imaturidade, subnutrição, desintegração de lares, são revisadas e colocadas em suas exatas proporções, clarificando, portanto, a realidade educacional.
Em decorrência, são apontadas as verdadeiras causas do fracasso esco-lar, tanto as extra-escolares como as intra-escolares, chamando atenção para o compromisso dos educadores, no sentido de, a curto prazo, procura-rem formas efetivas de modificar este quadro sombrio no nível dos fatores intra-escolares, isto é, nos objetivos, estrutura e funcionamento da escola, sem esquecer, porém, os fatores ex-tra-escolares na determinação desta realidade.
A atuação da equipe multiprofis-sional na escola, na qual se inclui o psicólogo, é colocada, pois se defende a assessoria dos profissionais que a compõem como enriquecedora da ação pedagógica.
A possibilidade da modificação da realidade intra-escolar, através do trabalho de equipe é concretizada pe-la descrição do projeto "Pró-Leste", o
modelo que propiciou oportunidade de trabalho conjunto de psicológos e professores em escolas públicas situa-das na periferia da cidade, "centrado na faixa das primeiras séries do ensi-no do 1° grau, visando atingir a base da pirâmide educacional, onde se en-contra grande massa da população escolar".
São amplamente discutidos objeti-vos, procedimentos, formação de equipe de coordenação, treinamento de pessoal, procedimentos de supervi-são e os resultados obtidos durante os anos da implantação do projeto, a partir de 1977. Inclui-se a avaliação realizada com professores das escolas onde ele foi implantado, cujos resul-tados evidenciam a eficácia da pro-posta.
Finalizando, pode-se tomar conhe-cimento de interessante debate reali-zado entre o autor e docentes do Insti-tuto de Psicologia da USP sobre o "Pró-Leste", levantando questões im-portantes tais como o conceito de al-fabetização nele subjacente e as cau-sas de seu sucesso.
Nesta discussão, torna-se transpa-rente o posicionamento do autor em relação à defesa de uma educação democrática que, a par da boa quali-dade de ensino, envolve uma grande contribuição à justiça social.
Há que se fazer referência especial à clareza e precisão da exposição e revisão crítica que o autor tem do problema discutido, os quais são re-veladores da maturidade técnica, so-cial e política alcançada por ele, bem como sua profunda preocupação com a ação-reflexão integradas e transfor-madoras de uma realidade educacio¬ nal que, na maioria das vezes, é foca¬ lizada apenas no nível do discurso.