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Rev. Bras. Hist. vol.28 número55

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Academic year: 2018

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Cuiabá: Ed. UFMT; Carlini & Caniato Editorial, 2006. 272p.

Alguns encargos constituem fardos pesados e são resolvidos com má von-tade; outros são tão prazerosos que gostaríamos de prolongá-los. Bom exem-plo deste segundo caso é a leitura de Cidades da mineração, de Regina Beatriz Guimarães Neto. Construído inicialmente como tese de doutorado, o livro se destaca por ampliar os horizontes e o quadro de reflexões sobre a moderni-dade brasileira para fora do eixo que comumente os historiadores e cientistas sociais tomam como exemplaridade desse processo de mudanças. A escolha de Mato Grosso como tema de estudo sobre a expansão da urbanização no Centro-Oeste é instigante porque parte das referências teóricas comuns aos estudos da modernidade no Sudeste e, de saída, estabelece com eles um diá-logo crítico que alcança o modo pelo qual até agora vem sendo tratada a ques-tão da modernização no Brasil. O diálogo proposto aponta para a periodiza-ção que solicita de todas as áreas brasileiras os mesmos elementos para dar-lhes a condição de progresso. Regina Beatriz é dura nas suas críticas ao processo de exclusão de regiões desse horizonte de desenvolvimento.

Para dar ao diálogo crítico maior corpo, transforma o seu estudo em uma busca incessante de compreensão do que estaria para além das estruturas eco-nômicas, sempre apresentadas como elemento definidor da inclusão, ou não, de regiões. Avança introduzindo na análise os elementos culturais, vistos da perspectiva da diversidade de contatos e entendidos como formalizadores de novos traços culturais capazes de dar identidade à região, considerada fre-qüentemente como uma região de passagem. Disso resulta uma contribuição significativa para os estudos culturais, por sua heterogeneidade, e abre-se

ca-*Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) – Pontifícia Universidade Católica – Rio de Janeiro (PUC-Rio). Rua Marquês de São Vicente, 225, Sala 512 F – Gávea. 22453-900 Rio de Janeiro – RJ – Brasil. [email protected].

Revista Brasileira de História. São Paulo, v. 28, nº 55, p. 277-279 - 2008

Regina Beatriz Guimarães Neto

Cidades da mineração

: memória

e práticas culturais: Mato Grosso

na primeira metade do século XX

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minho para que o trabalho possa ser integrado aos estudos sobre expansão de fronteiras, com a singularidade de colocar em jogo as referências da vida, o movimento dos sentimentos e a genealogia da conquista.

É nesse ponto que o livro de Regina Beatriz se mostra mais audacioso. Revela, na linha de Euclides da Cunha, em Os sertões, como a poeira possui traços que podem servir de rastros para a compreensão da realidade.

Mas o desbravamento realizado pela autora vai além e constitui uma das apostas interessantes numa área, ainda desértica, que é a dos estudos de fren-tes de expansão do Brasil central. Se isso não bastasse, ainda nos oferece ou-tra lição sobre a utilização de fontes produzidas pela metodologia da história oral. A autora nos fornece elementos que, de um lado, nos ajudam a com-preender as linhas de ponta dessa metodologia e, de outro, mostram exem-plarmente como devemos trabalhar as memórias para que o resultado não seja apenas uma narrativa que tenta atar pontos comuns entre aqueles que falam. Temos aí um instrumento de produção de uma história singular das conquistas e da ocupação do espaço, e seus resultados, combinados com as leituras teóricas — que vão de Deleuze a Ginzburg —, oferecem um ‘desenho’ do Centro-Oeste. Desenho esse que ultrapassa as formas de simplificação ex-plicativa oferecidas pelas interpretações tradicionais da região.

Com isso, a autora inclui o Centro-Oeste em uma discussão que elimina a sua condição de apêndice de uma economia maior, complemento ou peri-feria de transformações históricas que construíram a nação brasileira. Nesse sentido, as reflexões contidas no livro auxiliam no entendimento das variadas formas e projetos que estiveram presentes no processo de institucionalização do nacional no Brasil.

Outro ponto de destaque é a forma da narrativa adotada por Regina Bea-triz, que nos dá a sensação de vivenciar os fatos e de entendermos os proces-sos, mas que também nos lembra que o historiador deve, antes de tudo, nar-rar os modos de compreensão de determinado tema. O historiador deve antes compreender para depois indicar elementos explicativos. Nesse aspecto, a au-tora oferece uma narrativa que nos envolve no processo de expansão da re-gião, das rotas iniciais de deslocamento, não só de São Paulo e de Minas Ge-rais, como também de outras áreas. Expõe, assim, a potencialidade da história ali presente, principalmente introduzindo como premissa a constituição das fazendas para logo a seguir mostrar como se estabelecem os caminhos de ex-pansão dos nortistas. Isso é feito com o intuito de demonstrar como esses ca-minhos definidos pelos tropeiros vão dar origem a cidades, onde predomina a diversidade de culturas. Tais cidades contêm um imaginário fértil que

de-Antonio Edmilson Martins Rodrigues

Revista Brasileira de História, vol. 28, nº55

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corre exatamente dessa multiplicidade de presenças, motivo pelo qual elas so-licitam a presença da modernização e da civilização.

Esse percurso é realizado no capítulo final do livro, onde estão apresen-tados “os artifícios da civilidade” e os caminhos que essa solicitação de civili-zação toma, através das memórias de famílias. Essa linha de reflexão faz que o livro de Regina Beatriz possa se aproximar do texto de referência para a mo-dernidade fora do Sudeste, intitulado Trem Fantasma, a modernidade na sel-va. Como Francisco Foot Hardmann, a autora desvenda o ‘espetáculo’ da mo-dernização na selvageria inóspita de espaços conquistados e, com perícia, combina a multiplicidade cultural daqueles que para essa região se dirigiram, reforçando esse processo de compreensão com relação às histórias de vida da região.

Ao final da leitura temos a sensação de que aprendemos algo, de que ti-vemos contato com novas questões. Isso em um universo editorial em que os livros arriscam cada vez menos, são menos audaciosos e mais despossuídos de teses.

Por isso,Cidades da mineraçãoé uma leitura obrigatória não só para quem pretende ampliar o seu horizonte de conhecimentos sobre a moderni-dade brasileira e o processo de constituição das cimoderni-dades da mineração no Ma-to Grosso da primeira metade do século XX, mas também para quem quer observar como se pode combinar análise e síntese, lembrando a velha, mas cada vez mais oportuna, proposição de Lucien Febvre.

Regina Beatriz Guimarães Neto.Cidades da mineração

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Junho de 2008

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