JUNIOR CESAR DE ANHAIA
O IMPACTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NA VIDA DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DO COLÉGIO ESTADUAL DO CAMPO CERRADO DAS
CINZAS, BENEFICIÁRIOS DOS PROGRAMAS BOLSA FAMÍLIA E MAIS EDUCAÇÃO
CURITIBA 2016
JUNIOR CESAR DE ANHAIA
O IMPACTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS NA VIDA DAS CRIANÇAS E ADOLESCENTES DO COLÉGIO ESTADUAL DO CAMPO CERRADO DAS
CINZAS, BENEFICIÁRIOS DOS PROGRAMAS BOLSA FAMÍLIA E MAIS EDUCAÇÃO
Artigo apresentado como requisito parcial à conclusão do Curso de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social, do Setor de Educação, da Universidade Federal do Paraná.
Orientadora: Prof.ª. Dra. Joseane de Fátima Machado da Silva
CURITIBA 2016
O impacto das políticas públicas na vida de crianças e adolescentes do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, beneficiários dos Programas
Bolsa Família e Mais Educação
Junior Cesar de Anhaia
RESUMO
O presente artigo tem o objetivo de identificar e analisar o impacto das políticas públicas na vida de crianças e adolescentes do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, beneficiários dos Programas “Bolsa Família” e “Mais Educação”, de maneira a identificar a melhoria na qualidade de vida desses sujeitos, como também as ações oportunizadas pela instituição educativa, diante dos desafios de atender uma comunidade escolar empobrecida na qual uma grande parcela dos sujeitos frequenta a escola em período integral. Nessa acepção, foi utilizado a pesquisa qualitativa, caracterizada como estudo de caso, como também as análises bibliográficas, documentais, de observações e de entrevistas, de modo a fazer um diálogo entre os dados coletados e os conhecimentos produzidos por outros autores, sobre a temática, favorecendo a construção de novas reflexões sobre o assunto.
Assim, por meio da inserção em aspectos inerentes à temática, como a Educação Integral, os Programas Bolsa Família e Mais Educação, as práticas pedagógicas utilizadas por profissionais atuantes no Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, o rendimento escolar e o contexto no qual os sujeitos estão inseridos, percebeu-se que ainda há uma grande distância entre o que é prescrito e esperado pelas políticas públicas e o que acontece de fato na vida desses estudantes, na medida em que a pobreza e as desigualdades sociais podem ser determinantes em suas vidas. Deste modo, evidencia-se que os Programas Bolsa Família e Mais Educação possibilitam a melhoria da qualidade de vida dos seus beneficiários, mas também necessitam de parcerias com outros órgãos, na medida em que há muitas falhas e precariedades estruturais nas instituições, prejudicando os resultados dos programas. Assim, em muitos casos, estes benefícios se apresentam com uma função prioritariamente assistencialista, não se caracterizando totalmente como um meio de melhorar a qualidade da Educação e da vida dos estudantes, pois representam um tríplice problema: educandos que fogem da educação familiar e cobram da família o fato de receber uma bolsa para estudar; famílias que somente enviam os filhos para a escola, mas os negligenciam; instituição escolar que não possui recursos físicos e humanos que possibilitem a realização de projetos que sejam instrumentos de transformação social e efetivem a diminuição da pobreza e das desigualdades sociais.
Palavras-chave: Educação do Campo. Políticas Públicas. Programas “Bolsa Família” e “Mais Educação”.
1 INTRODUÇÃO
Para contribuir com as discussões a respeito de educação, pobreza e desigualdade social, nas temáticas sobre a vida de crianças e adolescentes bolsistas dos Programas Bolsa Família e Mais Educação, apresenta-se o trabalho intitulado “O impacto das políticas públicas na vida de crianças e adolescentes da escola do Campo Cerrado das Cinzas, beneficiários do programa bolsa família e programa Mais Educação”. Este estudo é o trabalho final do Curso de Especialização em Educação, Pobreza e Desigualdade Social, oferecido pela Universidade Federal do Paraná que teve início no ano de 2015 e sua conclusão, no ano de 2016, culminou na produção deste artigo.
O investimento nessa temática se deu pelo contexto no qual o pesquisador está inserido, no qual fica sempre analisando, enquanto professor, a realidade da escola onde trabalha, pois a maioria dos nossos estudantes são beneficiários do Programa Bolsa família e a escola possui o Programa Mais Educação, portanto a comunidade educativa é bastante empobrecida, contudo mesmo com esses projetos, há inúmera dificuldades enfrentadas pela comunidade escolar. Com este artigo pretende-se apontar as carências, as dificuldades e possíveis intervenções para que não haja uma grande distância entre o que é prescrito e o que é realizado nas ações de estudantes, professores, equipe pedagógica e comunidade educativa.
A escolha deste colégio, para esta pesquisa também é muito subjetiva, na medida em que o pesquisador foi aluno dessa instituição no Ensino Fundamental II, nos anos de 1986 a 1989; atua como professor desde fevereiro de 2006 até a presente data; e a escola está localizada na Zona Rural do município, que iniciou no Programa Mais Educação em 2013, um ano depois da implantação do Programa para as Escolas do Campo.
Para dar conta dessa empreitada foram utilizadas técnicas de pesquisa de campo, que abrangeram os dados coletados na escola em estudos de casos e entrevistas, como também a sua documentação. Já a pesquisa de cunho bibliográfico abarcou os documentos governamentais de políticas públicas, as legislações e as produções literárias e acadêmicas sobre a temática.
O presente artigo tem o objetivo de identificar e analisar o impacto das políticas públicas na vida de crianças e adolescentes do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, beneficiários dos Programas “Bolsa Família” e “Mais
Educação”, de maneira a identificar a melhoria na qualidade de vida desses sujeitos, como também as ações oportunizadas pela instituição educativa, diante dos desafios de atender uma comunidade escolar empobrecida na qual uma grande parcela dos sujeitos frequenta a escola em período integral.
Este trabalho foi realizado no Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, localizado no distrito Cerrado das Cinzas, a 12 Km do munícipio de Arapoti, estado do Paraná, sendo 7 km de estrada de chão para o acesso à cidade e até 60 km para alguns alunos. O Colégio atende 9 bairros da zona rural do município, e atua em dualidade com a Escola Municipal Professor Paulo Novochadlo, que atende crianças da Educação infantil e Fundamental I. A maioria de nossos alunos se utiliza de transporte para chegar à escola, sendo 04 ônibus que atendem os três períodos de funcionamento. No período da manhã temos do 6º ao 9º ano para o Colégio Estadual e 4º e 5º anos na escola municipal. No período da tarde, há a Educação Infantil (Pré II e Pré III) e o Ensino Fundamental I, ciclo I (1º,2º e 3º) pelo município e os beneficiários do Programa Mais Educação, pelo Estado do Paraná, são os estudantes do 5º ao 9º Ano que são atendidos em período integral. No período da noite funciona o Ensino Médio. Assim, a escola Municipal Professor Paulo Novochadlo, atende Educação Infantil e Fundamental I, e o Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas atende Fundamental II e Ensino Médio.
Nesse sentido, nessa pesquisa o público alvo são os estudantes do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas.
Deste modo, procurou-se analisar o impacto, na vida de estudantes, dos programas que são planejados e implantados pelo governo, com muito investimento, porém não são preparados para a realidade das escolas, que são espaços diferentes daqueles pensados para os programas, nesse caso o Mais Educação, havendo uma carência de espaço físico, transporte e alimentação, causando assim o fracasso do programa, não por culpa de estudantes e professores, mas por um mal planejamento para a implantação desses programas.
Diante disso, a vida dos estudantes, beneficiários desses programas, é impactada pela forma como a família utiliza o benefício do Bolsa Família e a escola encaminha os recursos do Programa Mais Educação, entretanto há também outros fatores que influenciam o impacto desses dois programas no contexto de vida dos estudantes.
2 REVISÃO DE LITERATURA
O Programa Mais Educação foi implantado no mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2002/2006,2007/2010), sendo inserido no Estado do Paraná a partir de 2010. No Núcleo de Educação de Wenceslau Braz o Projeto foi oferecido às escolas conhecidas como “Escolas de Superação”, as quais apresentavam baixos índices no IDEB (abaixo da média do Estado), dando os primeiros passos para a Educação Integral, chegando em 2015 no Brasil a abranger 60 mil escolas espalhadas em mais de 4 mil municípios brasileiros, sendo 20 mil delas Escolas do Campo que só foram inseridas no programa a partir de 2012.
Em relação à Educação Integral, Lima (2015) aponta que a discussão sobre essa especificidade permeia diversos momentos da história da educação no Brasil, nas questões sobre educação e nos projetos educacionais possíveis de serem implantados ao longo do século XX. Na atualidade a educação integral ocupa espaço através do Programa Mais Educação e do Ensino Médio Inovador do Ministério da Educação, que foram lançados pelo governo federal em 2007 e 2009, respectivamente como uma política indutora para as escolas públicas no processo de implementação da Educação Integral no Ensino Fundamental.
Segundo Mendes (2012), atendendo as demandas da sociedade atual, os governos impõem à escola pública o desafio de assumir atribuições e responsabilidades sociais, no sentido de preencher as lacunas das famílias desestruturadas, vítimas da miséria social, do desemprego, da violência e da omissão do estado. Torna-se imperativo que a escola amplie suas formas de atendimento aos alunos, para facilitar o trabalho pedagógico. O autor afirma ainda que esta proposta vem como alternativa das políticas públicas para estender o assistencialismo aos menos favorecidos e redimensionar as práticas educativas em torno de seus interesses.
Para Leclerc e Moll (2012), as políticas de Educação Integral aparecem com um papel de política positiva para o enfrentamento das desigualdades sociais e, consequentemente, das desigualdades educacionais. Os autores citam com destaque a articulação do Programa Mais Educação com o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) por meio das Resoluções nº 38, de 10/08/2008; nº 38 de 16/07/2009, através dos quais se amplia o recurso diário per capita de alimentação para estudantes em tempo integral.
Porém, percebeu-se durante a pesquisa que a falta de alimentação adequada ocasiona grande parte dos problemas, na escola em questão.
As autoras mencionam também, em relação à infraestrutura das escolas, conforme é abordado neste trabalho, uma forte reinvindicação por investimentos, além da necessidade de revisão e reorganização dos usos dos espaços dentro e fora da escola. Nesse sentido, além do combate à fome (PBF), o MEC em parceria com Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), estipulou como critério de atendimento, as escolas onde a maioria dos alunos faça parte de famílias beneficiárias do PBF, com o objetivo de enfrentar as profundas desigualdades educacionais ainda presentes no país.
Penteado (2014, p. 471) identifica o PME, como uma ação pragmática e emergencial com a utilidade de driblar os baixos índices registrados nas avaliações externas ao ambiente escolar e a evasão, não se concentrando, necessariamente, em reformulações pedagógicas afinadas com cada realidade escolar, e que não apresenta uma articulação entre os saberes desenvolvidos no turno regular de aulas e no contra turno. Diante disso, a extensão da jornada escolar não se caracteriza como forma de expansão do trabalho pedagógico realizado no turno regular.
Nesse sentido, conseguiu-se constatar durante a pesquisa que esse fato também é comum na escola do Cerrado, isso se deve à razão pela qual muitos dos professores do PME, não buscarem junto aos professores do turno regular o trabalho em conjunto, focando na resolução das principais dificuldades, na continuidade e no apoio aos conteúdos curriculares, procedimentais e atitudinais por eles trabalhados.
Nessa direção, Penteado (2014) conclui que o PME não atende aos anseios de qualidade para a educação básica, e que sua continuidade pode comprometer a busca de outros modelos para uma educação integral de qualidade para o Brasil.
Segundo o MEC, no Portal da Educação Integral, esta Educação representa a opção por um projeto educativo integrado, em sintonia com a vida, as necessidades, possibilidade e interesses dos estudantes. Um projeto em que crianças, adolescentes e jovens são vistos como cidadãos de direitos em todas as suas dimensões. Não se trata apenas de seu desenvolvimento intelectual, mas também do físico, do cuidado com a saúde, além do oferecimento de oportunidades para que desfrute e produza arte, conheça e valorize sua história e seu patrimônio cultural, tenha uma atitude responsável diante da natureza, aprenda a respeitar os direitos
humanos e os das crianças e adolescentes, seja um cidadão criativo, empreendedor e participante, consciente de suas responsabilidades e direitos, capaz de ajudar o país e a humanidade a se tornarem cada vez mais justos e solidários, a respeitar as diferenças e a promover a convivência pacífica e fraterna entre todos.
Outro programa de educação integral do Ministério da Educação é o Ensino Médio Inovador-ProEMI, instituído pela Portaria nº 971, de 9 de outubro de 2009, que integra as ações do Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE, como estratégia do governo Federal para induzir a reestruturação dos currículos do Ensino Médio.
Diante disso, o objetivo desses programas é o de apoiar e fortalecer o desenvolvimento de propostas curriculares inovadoras nas escolas de ensino médio, ampliando o tempo dos estudantes na escola e buscando garantir a formação integral com a inserção de atividades que tornem o currículo mais dinâmico, atendendo também as expectativas dos estudantes do Ensino Médio e as demandas da sociedade contemporânea, os projetos de reestruturação curricular possibilitam o desenvolvimento de atividades integradoras que articulam as dimensões do trabalho, da ciência, da cultura e da tecnologia, contemplando as diversas áreas do conhecimento a partir de 8 macro campos: Acompanhamento Pedagógico; iniciação Científica e Pesquisa; Cultura Corporal; Cultura e Artes; Comunicação e uso de Mídias; Cultura Digital; Participação Estudantil e Leitura e letramento. As crianças de zero a cinco anos também são objeto de um programa de Educação Infantil integral.
Segundo o MEC o Programa Mais Educação pode ser entendido como afirmação e sequência da proposta de escola de tempo integral, apresentada neste plano, uma vez que a busca pela qualidade educacional não deveria se limitar à ampliação do tempo de atendimento aos alunos, mas criar estratégias que contribuam para a diminuição da desigualdade social.
3 METODOLOGIA
Para dar conta dessa empreitada foram utilizadas técnicas de pesquisa de campo, que abrangeram os dados coletados na escola em estudos de casos e entrevistas, como também a sua documentação. Já a pesquisa de cunho
bibliográfico abarcou os documentos governamentais de políticas públicas, as legislações e as produções literárias e acadêmicas sobre a temática.
A pesquisa bibliográfica e análise documental foram realizadas a partir de produções de outros autores, portarias decretos, leis, documentos oficiais e manuais produzidos pelo programa Mais Educação, e do Projeto Político Pedagógico (PPP) do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, e através destas análises crítica e reflexiva a respeito da Educação Integral e da Educação do Campo foi dado um embasamento teórico a este artigo. Assim conforme afirmam Pio e Czernisz (2015), a análise de documentos possibilita compreender as vinculações políticas e as intenções que estão nas entrelinhas de um programa, ou de uma legislação, na medida em que os documentos são produzidos em um determinado momento e com um dado objetivo.
Nesse mesmo sentido, em relação aos relatos, “a necessidade diferenciada dos estudos de caso surge do desejo de entender os fenômenos sociais complexos”.
(YIN, 2010, p. 24).
4 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
O Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas possui quatro (4) turmas do Ensino Fundamental, três (3) turmas do Ensino Médio e duas (2) turmas de atividades complementares do Programa Mais Educação (PME), totalizando 118 alunos com idades de 11 a 18 anos. A escola municipal possui duas (2) turmas de Educação infantil e (5) cinco turmas de Ensino Fundamental I, totalizando 126 alunos com idades de 4 a 11 anos.
Diante disso, as duas instituições juntas somam 244 alunos, divididos nos três períodos. Para atender todas as turmas contamos com uma (01) quadra coberta com algumas telhas faltando e sem iluminação no momento, e uma (01) quadra aberta também sem iluminação, quatro (4) quatro salas no prédio principal, uma (1) outra sala fora do prédio e no período da manhã utilizamos uma (1) sala fora do espaço da escola que pertence a Capela Nossa Senhora do Carmo da Paróquia São João Batista. Para poder atender toda a demanda do PME a escola utiliza a sala dos professores. No prédio principal temos ainda a biblioteca que divide o espaço com a sala da coordenação estadual e a sala de informática. Há também a sala onde
funciona a secretaria que divide o espaço com a direção estadual, e outra sala que funciona a secretaria, a coordenação e a direção da escola municipal. A cozinha funciona em comum às duas escolas, há somente um refeitório, uma sala multifuncional, dois banheiros para alunos e dois para professores, ambos com a entrada pelo lado de fora do prédio principal.
Nesse sentido, já na estrutura da escola é possível perceber a precariedade para atender os objetivos dos Programas.
O colégio estadual possui 21 professores todos atuando na sua área de formação, sendo uma (1) professora de Educação Especial para sala multifuncional, onze (11) para Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano, quatro (4) para atividade complementar (PME) e treze (13) para o Ensino Médio. Alguns professores trabalham com o fundamental e médio, mas todos são especialistas. Entretanto, apenas (2) dois pertencem ao quadro permanente do colégio, os demais são contratados através de processo seletivo que acontece todo ano, causando uma grande rotatividade de professores.
Os funcionários são dez (10): uma (01) diretora, um (01) secretário, um (01) técnico administrativo, quatro (04) auxiliares de serviços gerais e três (03) pedagogas.
Entre os 118 alunos do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, 70 são beneficiários do Programa Bolsa Família. Dentre os 39 alunos que frequentam o Programa Mais Educação, 24 são beneficiários do Programa Bolsa Família. Em meio aos 11 alunos que frequentam a sala multifuncional, 8 são beneficiários do PBF. E no Ensino Médio, dos 32 alunos, 17 são beneficiários do PBF.
O IDEB do Colégio em 2013 e 2014 ficou em 4,4%. No ano de 2015 a taxa de reprovação foi de 8,6% para o Ensino Fundamental e 15,6 % para o Ensino Médio. Já a taxa de abandono foi de 0% para o Ensino Fundamental e 0% para o Ensino Médio.
Nesse sentido, para combater a evasão, assim que o aluno apresenta 5 faltas consecutivas, é comunicado à equipe pedagógica que entra em contato com a família para saber o motivo, que muitas vezes é justificada pelo relato da família de que o aluno está trabalhando na colheita de frutas ou plantio.
O Conselho de Classe é realizado bimestralmente e é participativo, ou seja, contamos com a participação de alguns pais. Embora o convite se estenda à todos, a participação ainda é pequena, pois aqueles que participam têm que utilizar o
transporte escolar e só podem retornar ao final do período, o que dificulta a participação.
As entrevistas realizadas sinalizam que os Programas Bolsa Família e Mais Educação são essenciais para a sobrevivência e a manutenção de alguns estudantes.
Nessa direção, entrevistou-se uma família beneficiária do programa Bolsa Família que recebe apenas R$ 70,00 (setenta reais), porém esse valor que para muitos parece ínfimo, faz bastante diferença no orçamento da família, pois segundo a entrevistada é com esse valor que ela compra material para as crianças e também o leite mensal para os dois filhos. Afirmou também que a alimentação da família melhorou depois que passou a receber o benefício e hoje com o auxílio do PBF e o salário recebido pelo marido vivem bem melhor.
Quanto à escolaridade desta entrevistada, ela cursou apenas até o 7º ano do Ensino Fundamental, sua mãe é analfabeta e seu pai cursou somente os anos iniciais do ensino fundamental. Porém os seus filhos estão tendo maiores oportunidades, na medida em que o seu filho mais velho, com 15 anos está no 1º ano do Ensino Médio e a filha mais nova, com 9 anos, está no 4º ano do Ensino Fundamental. Nesse sentido, os pais relatam que querem ver os filhos formados em Curso Superior.
Percebeu-se, durante a entrevista, um certo receio nas respostas, porém todas pareceram autênticas e verdadeiras. Após a entrevista, verificou-se através do Simulador do Bolsa Família, que a família entrevistada não possui mais o direito de receber o benefício, pois o marido já há alguns meses havia assumido um concurso na Prefeitura Municipal de Arapoti e sua renda mensal chega a R$ 1100,00.
De acordo com o simulador, uma família com renda mensal de R$ 1100,00, composta por 04 pessoas, tem renda per capta de R$ 275,00, o que ultrapassa os limites do programa que é de R$ 154,00 por membro. Esse fato mostra uma das falhas do programa, pois sabemos que muitas outras pessoas recebem indevidamente o benefício por falta de acompanhamento adequado.
Através da entrevista percebeu-se a realidade da família beneficiada, como vive e o que espera da vida, como também o que o pai e a mãe desejam para a vida de seus filhos. Ficou evidente que o programa Bolsa Família realmente causou uma mudança na vida de muitas famílias brasileiras, principalmente famílias de nosso município que realmente aplicam este dinheiro na economia local. Embora o valor
recebido por pessoa seja pouco, esse pouco faz muita diferença no orçamento da família, além de melhorar a qualidade de vida das famílias também eleva a autoestima de muitos brasileiros que vivem em situação de extrema pobreza.
Segundo o Portal da Transparência, até o mês de setembro de 2016 foi destinado aos beneficiários do PBF, situados no município de Arapoti, a quantia de R$ 1.702.102,00 (um milhão, setecentos e dois mil e cento e dois reais), dinheiro que ficou aplicado no comércio local, estimulando assim a economia do município.
Durante a pesquisa obteve-se alguns relatos de alunos e professores participantes do Programa Mais Educação.
O professor de violão no Macro Campo Música, relatou que o programa foi criado para melhorar o ambiente escolar, oferecer atividades de acompanhamento pedagógico, cultura e arte, entre outras. Para os alunos contemplados, analisando os alunos que frequentam as aulas de violão, ele aponta como desafio encontrado o fato de poucos alunos demostrarem real importância e comprometimento com o Projeto, utilizando-o apenas para fugir dos serviços de casa, considerado desgastante por viverem em comunidades rurais, onde há sempre muito o que se fazer. Porém é estimulante e prazeroso ver a dedicação dos poucos que têm real interesse, são como diamantes a ser lapidados. No entanto, o descomprometimento dos demais acaba prejudicando aqueles que demostram interesse.
Em relação ao PME, o mesmo professor aponta que tem funcionado mais como sala de bate-papos e encontros. Os materiais ofertados pela escola são bons, porém por não ter prédio próprio, há o problema da falta de salas adequadas para tais aulas, a logística também acaba apresentando dificuldades, por ser comunidade rural e faltar merenda. Esse contexto, atrapalha as aulas. Ele encerra dizendo que há total apoio por parte da pedagoga e da diretora, só não se obtém mais êxito pelo desinteresse de alguns alunos.
Ao entrevistar a pedagoga do PME ela relatou que:
Na visão do governo é uma ampliação de jornada para os alunos como se fosse um período integral na escola, os quais profissionais trabalham diversas disciplinas, as que não são contempladas no currículo escolar, proposta em si até é favorável, mas em contra partida há muitas lacunas as quais precisam ser revistas bem como transportes para estes alunos, alimentação, mais preparo por parte do profissional e espaço físico mais amplo. Enquanto o governo não resolver em preencher estas lacunas, o nosso trabalho muitas vezes fica a desejar, não por falta de empenho e dedicação e sim por falta de subsídios para conseguir maior êxito em nossas atividades.
O professor do Macro Campo de Esportes e Lazer que trabalha a modalidade de Atletismo, também fez seu relato:
Este é o segundo ano que trabalho no Programa Mais Educação, o primeiro ano foi em outro colégio da cidade, foi uma experiência diferente apesar que os alunos sempre gostaram de praticar esporte e sempre estavam presentes nas aulas, o projeto em si deixa espaços com falhas, por que percebo que tem professores que não domina muito bem os conteúdos propostos pelo macro campo, este ano tive a oportunidade de trabalhar no Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, e é tudo diferente, os alunos vem com uma bagagem boa de conhecimento com relação ao atletismo, fica fácil de trabalhar com os alunos, no começo tive dúvidas por que tudo que é feito nas aulas tem que focar o atletismo e não focar só competição e sim recreação, um meio em que os alunos sintam prazer de fazer as atividades. No colégio do Cerrado temos nossas dificuldades como professor por ser escola do Campo, quando chove os alunos não vem por causa do transporte e isso atrapalha no aprendizado de alguns, como no conhecimento que é o caso do sexto ano, que é o primeiro contato com algumas modalidades no atletismo. Os benefícios para a escola com o projeto é interessante, vem verba do governo e essa verba ajuda na compra de materiais específicos para trabalhar o atletismo, e em outras áreas também. Hoje em nosso município o Colégio Cerrado tem materiais que até mesmo o departamento de esportes já emprestou para competições escolares fases municipais e regionais, por serem materiais diferenciados e caros. Os malefícios é que o programa não dá sequência com o mesmo professor e sabemos que as metodologias acabam fazendo a diferença de um profissional para o outro, mas mesmo acontecendo esta troca anual de professores eu percebi que os alunos tem um domínio dentro do atletismo e os mais velhos já com conhecimento para a competição. O meu macro campo acaba sendo diferenciado dos outros por ser esporte e sabemos que os alunos amam, aqui no colégio percebi um pouco mais de interesse de alguns alunos por dança e música e vejo que eles tem prazer de estar participando até mesmo de eventos proporcionado pelo Programa Mais Educação dentro e fora do ambiente escolar.
A professora de Acompanhamento Pedagógico relatou que:
Através do trabalho com o macro campo acompanhamento pedagógico pode-se explorar o conhecimento dos alunos além do cognitivo, percebe-se também o seu desenvolvimento no interpessoal. No Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas o acompanhamento pedagógico foi trabalhado através de oficinas de aprendizagem, assim em cada bimestre um tema relevante para a formação do aluno como cidadão era posto em debate e a partir deste debate os conteúdos curriculares eram trabalhados sempre de forma diversificada através de: jogos, passeios, debates, rodas de conversa, desafios de aprendizagem, etc. Com isso, percebe-se que o programa possui uma grande capacidade de desenvolvimento cognitivo e relacional.
Em contrapartida a esses benefícios, existe a falta de recursos materiais que faz com que por vezes os alunos sejam dispensados por falta de merenda. Concluímos assim que o projeto possui um grande potencial como agente de inclusão social, no entanto essa falta de recursos materiais torna o trabalho desgastante devido a necessidade de manter os alunos motivados a participar, já que existe um grande número de desistência, principalmente após o recesso de Julho e as interrupções por falta de merenda.
A diretora relatou que:
Em 2013 o programa foi oferecido para praticamente todas as escolas do Núcleo Regional de Educação, na época todas receberam recursos do FNDE para implantação e manutenção do programa. Após isso, o Governo Federal extinguiu os recursos, somente o Estado do Paraná que manteve o programa por oferecer o profissional (professor) para trabalhar com os alunos no contra turno escolar. O programa para as escolas da cidade é ofertado da seguinte forma: 5 dias na semana, 3 horas por dia, turmas com no mínimo 25 alunos. Para as escolas do campo: 4 dias na semana, 3h45min por dia, turmas com no mínimo 20 alunos. Esse ano a SEED, apesar de ser de conhecimento do NRE e SEED através de ofícios, e-mails e o próprio sistema de Alimentação Escolar (APE) que é preenchido on-line (baixas nos estoques de merenda), não encaminhou merenda suficiente.
Ainda no primeiro semestre houveram duas cotas extras para complementação da merenda, nesse semestre isso não aconteceu, o que impede o gestor de utilizar os recursos do Fundo Rotativo (Cota serviço e cota consumo) na compra de gêneros alimentícios. Em 2016 somente as seguintes escolas do NRE ofertam o programa: CE Nilo Peçanha, CE Patrimônio São Miguel e CE do Campo Cerrado das Cinzas. Para 2017 o NRE contará com somente 3 vagas de oferta do programa, no entanto, dentro de uma nova “perspectiva” de oferta.
Diante do contexto apresentado por professores, diretora e pedagoga, nos quais apontam as dificuldades e os benefícios do programa, muitas vezes apontando o desinteresse do estudante pelo fracasso do programa, vê-se que no discurso dos beneficiários, há muito mais otimismo que no dos profissionais.
Nessa direção, a aluna do 9º ano do Ensino Fundamental do Colégio Estadual do Campo Cerrado das Cinzas, com 14 anos e participante do Mais Educação, fica no colégio todos os dias, com exceção de quarta-feira, que não tem o programa, das 8h da manhã às 17h da tarde, onde de manhã, de 7h45 as 12h tem as aulas normais das disciplinas do Currículo do Ensino fundamental, e à tarde tem aulas do programa Mais Educação, nas disciplinas de Complementação Pedagógica, Esportes, Agroecologia e Música, nas quais os alunos são divididos em duas turmas, turma A com 26 alunos( 6º e 7º) e turma B com 24 alunos (8º e 9º), quando perguntada sobre o motivo de participar do programa, a aluna respondeu:
“Porque eu gosto, e não tem nada para fazer na casa e a minha mãe me explora”.
Um aluno do 1° Ano do Ensino Médio, com 15 aos e ex-aluno do PME relatou que:
No projeto Mais Educação foi uma época boa em minha vida, eu sempre vinha estudar cedo e ficava a tarde pro projeto. Todos os professores eram bem legais eles ajudavam a gente. Nós começava a fazer o projeto 13:00 da tarde e saia as 17:00 horas. Eu tinha diversos projetos atletismo,
acompanhamento pedagógico, agroecologia, dança e música. Os lanches eram ótimos eu só não gostava da aula de agroecologia (horta) e de acompanhamento pedagógico, nós sempre íamos fazer passeios com aulas diversificadas eu gostava mais das aulas de dança e de atletismo, quem dava aula pra mim de dança era a Josefa e de atletismo era o Junior fiz o projeto durante 2 anos quando eu estava no 8º ano e no 9º ano esse tempo que eu fiz o projeto Mais Educação foi ótimo, queria que tivesse no ensino médio esse projeto foi bom o tempo que eu estava na casa sem fazer nada eu vinha para escola para aprender mais, isso ajudou eu e os meus colegas a aprender mais.
Outro aluno do 1º ano do Ensino Médio, com 16 anos, relatou que:
Eu achava muito bom o Mais Educação, aprendi muitas coisas, aprendi me dedicar mais nas aulas, aprendi a dançar a tocar instrumentos, eu gostava dos esportes que davam atletismo e esse me ajudava no desenvolvimento do meu corpo, eu não tinha do que reclamar porque os professores se dedicavam no que faziam, a alimentação era muito boa, no almoço as 12:00 h tinha feijão, alface, arroz, carne e etc., e as 15:00 davam pão e muitas coisas gostosas, se tivesse na minha idade claro que eu entraria de novo pois o Mais Educação me ensinou muitas coisas e garanto que eu aprenderia muito mais, o Mais Educação foi muito bom para mim.
Além desses relatos pode-se citar também que no Programa Mais Educação alguns dos alunos utilizados como monitores eram ex-alunos do programa, que recebiam para atuar auxiliando os professores do programa e esse valor ajudava na renda da família. Antes do Programa Mais Educação a escola sempre tinha alguns alunos pagando por alguns delitos realizados em seus bairros ou em bairros vizinhos, através de medidas socioeducativas. Porém a partir do início do programa, nossos alunos não foram mais alvos de tais sanções disciplinares, pois estavam em atividade no Colégio, ocupando o tempo ocioso e livre de más companhias que sempre os utilizava para cometer atos inflacionários.
Percebemos que há muitas contradições no ambiente educativo da Escola Estadual do Campo Cerrado das Cinzas em relação aos Programas Bolsa Família e Mais Educação. Assim, em muitos casos, estes benefícios se apresentam com uma função prioritariamente assistencialista, não se caracterizando totalmente como um meio de melhorar a qualidade da Educação e da vida dos estudantes, pois representam um tríplice problema: educandos que fogem da educação familiar e cobram da família o fato de receber uma bolsa para estudar; famílias que somente enviam os filhos para a escola, mas os negligenciam; instituição escolar que não possui recursos físicos e humanos que possibilitem a realização de projetos que
sejam instrumentos de transformação social e efetivem a diminuição da pobreza e das desigualdades sociais.
Entretanto, para alguns são os principais meios de superar a desigualdade social e prosseguir nos estudos.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Mesmo com as dificuldades com o transporte, alimentação, espaço, estrada, ônibus, rotatividade de professores e até mesmo o despreparo de alguns professores, os Programas tratados neste artigo têm grande influência na vida de muitos de nossos alunos, embora alguns relatem que participam do programa, apenas para fugirem dos afazeres da propriedade rural e até mesmo de ajudar a mãe nas tarefas domésticas, na realidade estão inseridos em um ambiente educativo e protegidos da violência da sociedade que nos tempos atuais não livra nem as propriedades rurais.
O contexto atual de vida dos estudantes do campo é muito diferente do de alguns anos atrás. Embora sejam do campo não possuem mais o perfil do “cidadão”
ou “cidadã” do campo, Muitos dos alunos de hoje não acordam cedo para trabalhar, pois o trabalho, mesmo que na propriedade familiar, está escasso, pois prevalecem as plantações de pinus, eucaliptos e pecuária de corte. Não há mais as pequenas plantações da agricultura familiar que empregava todos os membros da família no cultivo. Hoje, muitas das famílias, mesmo morando em propriedades rurais, não possuem nem horta em casa, tendo que comprar tudo o que precisam no comércio local.
O lugar onde há maiores oportunidades para os estudantes do campo, na atualidade, é a escola. Entretanto, muitas vezes a frequência fica prejudicada por problemas de má conservação da estrada, ônibus que quebra, chuva em excesso, falta de merenda para mantê-los em tempo integral na escola e muitos outros entraves que prejudicam o andamento desses Programas na escola.
Esperamos que o Programa Novo Mais Educação, adesão para 2017, instituído pela Portaria do MEC nº 1.144, de 10 de outubro de 2016, venha sanar muitas das falhas existentes para que se consiga atingir com eficácia, independente do Colégio e região contemplada com o programa, os objetivos propostos.
Espera-se, enquanto pesquisador atuante no contexto pesquisado, que cada vez mais se ampliem as possibilidades dos estudantes e que a conjuntura da educação dos beneficiários dos Programas BF e ME não seja apenas uma permanência por sete horas ou mais na escola. Segundo a orientação nº 17/2016 – DEB/SEED no Estado do Paraná, já iniciou-se com o diferencial, de que o programa será desenvolvido nas escolas da rede estadual, por professores, diferente do que é estabelecido pelo MEC, que prevê voluntários (mediadores e facilitadores).
Dessa forma, há a intenção de integrar a Política de Educação Integral em Jornada Ampliada da rede pública estadual, que tem por objetivo possibilitar aos educandos oportunidades efetivas de acesso, permanência, aprendizagens e participação ativa na escola e na comunidade.
Por se tratar do colégio onde o pesquisador estudou o ensino fundamental II, e onde trabalha como professor, muitas das reflexões e críticas aqui apresentadas também fizeram parte de suas experiências. Desta forma, este artigo também é uma narrativa de uma experiência de trabalho e de vida.
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