A cultura pode ser um obstáculo ao ?

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A C U L T U R A P O D E S E R U M O B S T Á C U L O

A O D E S E N V O L V IM E N T O ?

" ( ,. . ) a u m e n t o u m i n h a c o n v i c ç ã o d e q u e m a i s d o q u e q u a l q u e r d o s n u m e r o s o s / a t o r e s q u e

i fl u e n c i a m

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od e s e n v o l v i m e n t o d o s p a í s e s , n a m a i o r i a d o s c a s o s é p r i n c i p a l m e n t e a c u l t u r a q u e e x p l i c a p o r q u e a l g u n s s e d e s e n v o l v e m m a i s r á p i d a e b o m o g e n e a m e n t e q u e o u t r o s . "

Lawrence Harrison

' ' D e s u b fa t o r s e c u n d á r i o , d e l o n g í n q u a e n e g l i g e n c i á v e l c o n s e q ü ê n c i a ,

a s m e n t a l i d a d e s t o r n a r - s e - ã o o c e n t r o e m t o r n o d o q u a l t u d o g r a u i t a . m o t o r e s s e n c i a l d o d e s e n v o l v i m e n t o , o u o b s t á c u l o i r u r a n s p o n i u e l . "

Alain Peyrefitte

estudo dos traços cul-turais como condição favorável ou como obs-. -culo ao desenvolvimento

onômico não é recente. O autores atuais estão penas retornando ao

sunto, diante dos resul-ados decepcionantes de muitos modelos, explicações e receitas econornicistas propagadas e adota das pelo mundo afora. Na verdade, a preocupação com a impor-tância da cultura,

particular-mente da religião, como fator positivo ou negativo do crescimento econômico, é bastante antiga. Amintore Fanfani', em C a t o l i c i s m o y

p r o t e s t a n t i s m o e n I a g e n e s i s d e l c a p i t a l i s m o , cuja edição original foi publica da em 1944, registra que o inglês William Temple abordou o problema em suas O b s e r

-v a t i o n s u p o n t h e U n i t e d P r o v i n c e s o f N e t b e r l a n d , em fins de 1673. Em 1682, William Pety explicava a maior prosperidade que os

CÉSAR GARCIA' RESUM O

A cultura tem grande im portância com o fator de de-senvolvim ento, m as pode ser tam bém um obstáculo. Este assunto pode ser encontrado em escritos do século XVII, em bora seu estudo m ais fecundo seja aquele elabora-do por M ax W eber no início elabora-do século XX. Recente-m ente, diante do fracasso de m uitos m odelos econom icistas, vários autores vêm retom ando a ques-tão para explicar especificam ente o atraso da Am érica Latina. No Brasil, as tentativas de definição de um a caracterização nacional feitas nos séculos XIX e XX, apesar de eivadas de preconceitos, ajudam a refletir sobre a com patibilidade entre nossa cultura e as exi-gências do desenvolvim ento econôm ico. Resta saber com o poderíam os prom over m udanças em nossa cul-tura, rem ovendo os obstáculos e estim ulando valores, crenças e atitudes lavoráveis àprosperidade.

ABSTRACT

Culture has great im portance as a lactor 01developm ent but can also be a hindrance to it. This them e can be lound in writings lrom the seventeenth century but the m ost Iruitlul studies on it were carried out by M ax W eber in the beginning 01the twentieth century. Recently, in view 01the lailure 01m any econom icist m odels, m any authors have been reexam ining this issue to specifically explain the backwardness 01Latin Am erica. In Brasil, the attem pts at delining a national character m ade in the nineteenth and twentieth century, although lull of prejudices, help us to reflect on the com patibility between our culture and the dem ands of econom ic developm ent. It rem ains to know how we could advance changes in our culture, rem oving the obstacles and lostering values, beliels and altitudes favorable to prosperity.

. Professor Adjunto de Econom ia do Departam ento de Letras e Ciências Hum anas da UFRPE, M estre em Pia· nejam ento Econôm ico pela Universidade de Antuérpia.

protestantes de seu tempo alcançavam na Irlanda católica. A obra que ficou, porém, como marco de referência do início deste debate é sem dúvida o estudo de Max Weber publi-cado em 1904-1905, com o título A é t i c a p r o t e s t a n t e e

o

e s p í r i t o d o c a p i t a l i s m o .

A partir de então, todos os

autores que examinaram a questão referem-se a esse trabalho seja para criticá-Io seja para nele buscar apoio. Baseado em uma por-menorizada análise dos ensi-namentos dos reforma dores, particularmente de Calvino e dos puritanos, Weber afirma que o protestantismo ascético teve grande impor-tância no desenvolvimento do capitalismo:

A g ê n e s e d e s s e t i p o d e v i d a r e m o n t a t a m b é m " c o m o t a n t o s o u t r o s t r a ç o s d o m o -d e r n o e s p í r i t o c a p i t a l i s t a , à

I d a d e M é d i a , m a s

foi

só n a é t i c a d o p r o t e s t a r u i s m o

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a s c é t i c o q u e e l e e n c o n t r o u s e u s

funda-m e n t o s m o r a i s m a i s c o n s i s t e n t e s . S e u s i g n i fi c a d o n o d e s e n v o l v i m e n t o d o c a p i t a l i s m o é ó b v i o . E s s e a s c e t i s m o s e c u l a r d o p r o t e s t a n t i s m o - p o r e s s a

d e n o m i n a ç ã o é q u e p o d e m o s r e s u m i r

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o q u e d i s s e m o s a t é a g o r a - o p u n h a - s e , a s s i m , p o d e r o s a m e n t e , a o e s p o n t â n e o

usufruir d a s r i q u e z a s , e r e s t r i n g i a oc o n

-s u m o , e -s p e c i a l m e n t e oc o n s u m o d o l u x o . E m c o m p e n s a ç ã o , l i b e r t a v a p s i c o l o g i c a m e n t e a a q u i s i ç ã o d e b e n s d a s i n i -b i ç õ e s d a é t i c a t r a d i c i o n a l , rompendo o s g r i l h õ e s d a â n s i a d e l u c r o , c o m o q u e

n ã o a p e n a s a l e g a l i z o u , c o m o t a m b é m a c o n s i d e r o u ( n o s e n t i d o a q u i e x p o s t o ) c o m o d i r e t a m e n t e d e s e j a d a p o r D e u s . A l u t a c o n t r a a s t e n t a ç õ e s d a c a r n e e a d e p e n d ê n c i a d o s b e n s m a t e r i a i s e r a -c o m o , a l i á s , o s p u r i t a n o s e t a m b é m , o

g r a n d e a p o l o g i s t a d o q u a l e e r t s m o , B a r c l a y , t e x t u a l m e n t e a fi r m a v a - n ã o u m a c a m p a n h a c o n t r a

o

e n r i q u e c i -m e n t o , m a s c o n t r a o u s o i r r a c i o n a l d a r i q u e z a (Weber, 2001, p.122),

Weber tinha em mente a figura do empresário capitalista inteiramente dedicado ao aumento de sua riqueza, mas não ao uso de seus benefícios. Alguém que encarava seu trabalho como uma vocação e que era motivado apenas pela preocupação com o futuro de seus filhos e netos ou apenas com o cumprimento de seu dever. Mas a importância da religião na criação do ambiente propício ao desenvolvimento estava também no seu poder de impor um

comporta-mento adequado aos trabalhadores.

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o

p o d e r d a a s c e s e r e l i g i o s a , a l é m d i s s o , p u n h a à s u a d i s p o s i ç ã o t r a b a l h a d o r e s

s ó b r i o s , c o n s c i e n t e s e i n c o m p a r a v e l -m e n t e i n d u s t r i o s o s , q u e s e aferrauam a o t r a b a l b o c o m o a u m a fi n a l i d a d e d e v i d a d e s e j a d a p o r D e u s , D a v a l h e , a l é m d i s

-a d e s i g u -a l d i s t r i b u i ç ã o d a r i q u e z a d e s -t e m u n d o e r a o b r a e s p e c i a l d a D i v i n a P r o v i d ê n c i a , q u e , c o m e s s a s d i fe r e n ç a s , e c o m a g r a ç a p a r t i c u l a r , p e r s e g u i a s e u s fi n s s e c r e t o s , d e s c o n h e c i d o s d o h o m e m

(Weber, 2001, p. 127).

Embora os calvinistas acreditassem que só seriam salvos aqueles predestinados por Deus, seu fatalismo não os levava à inação simplesmente porque nenhum deles acreditava ter sido condenado previamente por Deus, Os condenados eram os outros. Era fácil crer que Deus dava alguns sinais de sua escolha, e a prosperidade tinha tudo para ser um desses sinais, Este ambiente ético-religioso teve grande importância no desenvol-vimento das atividades econômicas quando a disciplina, a dedicação, a sobriedade e a poupança eram fundamentais para a construção das bases do capitalismo moderno. Dois séculos depois, quando o alto nível de consumo tornou-se possível, já nào são aqueles valores que predominam pelo simples fato de não serem mais necessários. O próprio Weber constatou:

( . , . ) n o s E s t a d o s U n i d o s , a p r o c u r a d a r i q u e z a , d e s p i d a d e s u a r o u p a g e m

é t i c o r e l i g t o s a , t e n d e c a d a v e z m a i s a a s s o c i a r - s e c o m p a i x õ e s p u r a m e n t e m u n d a n a s , q u e fr e q ü e r u e m e n t e l h e d ã o

oc a r â t e r d e e s p o i t e t w e o e s , 1967, p.131). As igrejas perderam seu poder e restringiram seu campo de influência, Já não se pode atribuir-lhes um papel fundamental no processo de crescimento dos países ricos nem sua fraqueza ou ausência deve ser vista como explicação para o atraso econômico de outras áreas do mundo, No entanto, isto não invalida a preocupação com outros setores da cultura que podem ter relação com as chances de desenvolvimento de um país.

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trabalhador, já que hoje, as tarefas mais simples ão orientadas por instruções escritas em embalagens, manuais e folhetos. Pode-se cair num círculo vicioso: o país nào se desenvolve porque não tem instrução; não tem instrução

porque é pobre. Mas a segunda afirmativa nem empre é verdadeira. No caso do Brasil. o nível de instrução é baixo porque no passado não houve quem percebesse com antecedência a importância da instrução, ou, melhor dizendo, da educação fundamental, mesmo na óptica dos interesses predominantes. O povo, por seu lado, na ânsia de satisfazer necessidades imediatas, tampouco percebeu a tempo a importância da educação, do aprendizado, da escola. Freqüentemente negligenciou o cuidado necessário para que os filhos menores permanecessem na escola. Até mesmo por parte dos próprios jovens, com idade suficiente para compreender a necessidade da preparação para a vida adulta, não houve e ainda não há, para uma boa parte, uma percepção clara da importância do colégio e até da universidade para suas vidas e muito menos para o desenvolvimento do país. Em vinte anos de docência, sempre precisei lembrar aos alunos que eles estào desperdiçando, a cada dia, oportunidades de adquirir conhecimentos úteis para suas vidas quando se distraem durante a aula, quando não participam dos debates, quando não lêem os textos indicados. Boa parte dos adolescentes e dos jovens brasileiros ainda não assimilou suficientemente a idéia de que a educação e o preparo profissional são o único caminho para a integração na sociedade.

Caberia perguntar: de onde vem esta despreocupação com o futuro? Para responder a esta questão teremos que entrar no delicado terreno do estudo da cultura predominante no país. Quando se tenta caracterizar um povo, corre-se o risco de cair em preconceitos. Há evidentemente diferenças culturais entre os países, mas nem sempre é fácil descrever com segurança os traços de comportamento que predominam em cada um. Os indivíduos comportam-se diferentemente segundo a classe

a que pertencem e, com o passar do tempo, também ocorrem mudanças que atingem a todos. Com relação ao Brasil, muitos autores correram este risco e publicaram trabalhos que, embora tenham feito sucesso em seu tempo, tornaram-se inaceitáveis para os dias de hoje. Dante Moreira Leite 0927 - 1967), psicólogo paulista, autor de O

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c a r á t e r n a c i o n a l b r a s i l e i r o , ' h i s t ó r i a d e u m a i d e o l o g i a , faz a crítica do que disseram os principais autores sobre o assunto, particularmente: Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues, Oliveira Viana, Manoel Bomfim, Alberto Torres, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Fernando de Azevedo, Viana Moog e Caio Prado Júnior. Em todos o autor aponta preconceitos e

ranços ideológicos. Cada um baseou-se nas teorias predominantes em seu tempo e assim aplicaram aos brasileiros, adjetivos (bons ou maus) que hoje nenhum autor sério aplicaria. Vale a pena apreciar

a longa lista elaborada por Dante Moreira Leite.

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S í l v i o R o m e r o : (características

psicoló-gicas do brasileiro): apático, sem iniciativa, desanimado, imitação do estrangeiro (na vida intelectual), abatimento intelectual, irritabilidade, nervosismo, hepatismo, talentos precoces e rápida extenuação, facilidade para aprender, superficialidade das faculdades inventivas, desequilibrado, mais apto para queixar-se que para inventar, mais contemplativo que pensador, mais lirista, mais amigo de sonhos e palavras retum-bantes que de idéias científicas e demonstradas.

Afonso C e l s o : (características psicológicas do brasileiro): sentimento de independência, hospitalidade, afeição à ordem, à paz e ao melhoramento; paciência e resignação, doçura, longanimidade e desinteresse, escrúpulo no cumprimento das obrigações contraídas, caridade, acessibilidade, tolerância (ausência de preconceitos), honradez (pública e particular), falta de iniciativa, falta de decisão, falta de firmeza, pouca diligência, pouco esforço. Nos mestiços: energia, coragem, iniciativa, inteligência,

imprevidência, despreocupação com o futuro.

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E u c l i d e s d a C u n h a :

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Paulista: aventuroso,

rebelde, libérrimo. Indígena: inapto ao trabalho, rebelde, impulsividade. Vaqueiro: bravo, destemeroso, resignado, tenaz, fixação ao solo, impulsividade, apego às tradições, sentimento religioso levado ao fanatismo, honra, audacioso, forte.

A r t u r R a m o s : culto da palavra, culto do

doutor. caça a diploma, primarismo, autodida-tismo, narcisismo, culto das coisas concretas, culto dos totens estrangeiros.

A f o n s o A r i n o s d e M e i o F r a n c o : interesse

por sexo, imprevidência, dissipação, desapreço pela terra, salvação pelo acaso, amor à ostentação, desrespeito à ordem legal.

M a n o e l B O m I U D :parasitismo, perversão

do senso moral, horror ao trabalho livre, ódio ao governo, desconfiança das autoridades, instintos agressivos, conservantismo, falta de observação, resistência, sobriedade, tibieza, intermitência de entusiasmo, desfalecimentos contínuos, desânimo fácil, tendência à lamentação, facilidade na acusação, inadvertência, ausência de vontade, inconstância no querer, hombridade patriótica, poder de assimilação social. Mestiços: indolentes, indisciplinados, imprevidentes, preguiçosos.

P a u l o P r a d o : tristeza, erotismo, cobiça, romantismo, individualismo desordenado, apatia, imitação.

G i l b e r t o F r e y r e : sadismo no grupo dominante, masoquismo nos grupos dominados, animismo, crença no sobrenatural, gosto por piadas picantes, erotismo, gosto da ostentação, personalismo, culto sentimental ou místico do pai, 'maternismo', simpatia do mulato, individu-alismo, interesse intelectual, complexo de refinamento.

C a s s i a n o Rícardo: mais emotivo, mais

que a idéias, detesta a violência, menos cruel, menos odioso, bondade, individualismo.

S é r g i o B u a r q u e d e H o l a n d a : culto da

personalidade, falta de hierarquia, desordem, ausência de espírito de organização espontânea, inquieto e desordenado, ânsia de prosperidade sem custo, de posição e riqueza fáceis, 'aventureiro', inteligência como ornamento e prenda, cordialidade, individualismo.

F e r n a n d o d e A z e v e d o : afetividade, irracional idade, misticismo, sensibilidade, imaginação, religiosidade, resignado, dócil, submisso, bondade, reserva, desconfiança, sobriedade, imprevidência, inteligência superfi-cial e brilhante, individualismo, sentimento democrático, tendências igualitárias, altruísmo, sentimentalidade, generosidade, pacífico, hospitaleiro, tolerante, intuitivo.

V i a n a M o o g : apego ao passado europeu e português, desconfiança, medo do ridículo, exibição do sofrimento, reserva na expressão da felicidade, mania de doenças, desamor ao trabalho orgânico, sem profundidade religiosa, ausência de iniciativa, de organização, de cooperação, o 'trabalho como labéu infamante', vaidade

pedantismo, 'suficiência', valorização de triunfo através de habilidade, intriga, cálculo e astúcia delicadeza ou jeito, suscetibilidade, imaturidade emocional, indiscriminação racial, despreocupação dos aspectos morais da vida, desprezo das virtude econômicas, procura de riqueza rápida.

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no tratamento com os desconhecidos e, muito particularmente, com os professores, nos colégios e nas universidades.

Quando Ary Barroso chamou o Brasil de terra de samba e pandeiro, fez um elogio e não uma crítica. A alegria não pode ser considerada

prejudicial à prosperidade.

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É uma qualidade positiva que nos orgulha. No entanto, quando

fora de hora ou de lugar, quando inverte as prioridades, interrompendo o trabalho ou negligenciando os horários, deixa de ser uma virtude, pois dá lugar ao imediatismo e ao desprezo pelo futuro. A informalidade pode ser simpática, sobretudo quando significa uma adaptação ao clima. Torna-se, porém, um mal quando descamba para o desrespeito, para a falta de seriedade em ambientes de trabalho ou de devoção.

Q u e fa z e r ?

Os economistas garantem: para haver crescimento econômico deve haver investimento; para haver investimento, tem que haver poupança. E os antropólogos afirmam: o hábito de poupar é determinado pelo modo como a população encara o futuro. Onde predomina o cuidado com o futuro, a taxa de poupança alcança 30% como já aconteceu no Japão, na Coréia e na China. Mesmo com uma taxa de juro próxima de zero, os japoneses preferem manter seu estilo frugal e deixar o dinheiro guardado para se prevenir contra dificuldades mais tarde. Onde a população prefere consumir, desprezando juros em torno de 25%, o imediatismo impede que a poupança ultrapasse os 15% da renda nacional. Com tão débil

disposição para poupar, recorre-se à poupança externa, ou seja, aumentam a dívida externa e a desnacionalização de empresas.

Além da disposição para poupar, muitas outras características culturais são necessárias.

o

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d e s e n v o l v i m e n t o s u s t e n t a d o e x i g i r á q u e c r e n ç a s , a t i t u d e s e v a l o r e s p r o d u t i v o s

s e e s p a l h e m e n t r e t r a b a l h a d o r e s , e n t r e i n s t i t u i ç õ e s c o m o i g r e j a s e u n i v e r s i d a -d e s , e fi n a l m e n t e p e l a S O C i e d a d e c i v i l . D o c o n t r á r i o , fa l t a r á a p o i o p a r a p o l í -t i c a s d e a u m e n -t o d a p r o d u t i v i d a d e q u e d e s a fi e m d i r e i t o s a d q u i r i d o s . (Porter, 2002,

p.63).

Que seriam, no entanto, "crenças, atitudes e valores positivos"? Aqui, entramos num terreno também pouco seguro. Até agora, havíamos considerado dois fatores culturais bastante objetivos e até mensuráveis: o nível de instrução e a propensão à poupança, como dizem os economistas. "Crenças, atitudes e valores", contudo, são componentes da visão do mundo que orientam o comportamento humano, percebidos de forma variada por diferentes observadores. É natural que daqui em diante o consenso seja mais difícil, mas não podemos recuar. O exame já realizado por alguns autores nos fornece clareza suficiente para a continuidade

do debate sem grandes riscos.

N o s s a h i p ó t e s e éq u e d e fi n i t i v a m e n t e a m o l a d o d e s e n v o l v i m e n t o r e s i d e n a c o n fi a n ç a d e p o s i t a d a n a i n i c i a t i v a p e s s o a l , n a l i b e r d a d e e m p r e e n d e d o r a e

c r i a t i v a - n u m a l i b e r d a d e q u e c o n h e c e s u a s c o n t r a p a r t i d a s , s e u s d e v e r e s , s e u s l i m i t e s , e m s u m a , s u a r e s p o n s a b i -l i d a d e , o u s e j a , s u a c a p a c i d a d e d e r e s p o n d e r p o r s i m e s m a (Peyrefitte,

1999,

p. 32).

Q u e r s e t r a t e d e i n s t i t u i r a d e m o c r a c i a , q u e r s e t r a t e d e c o n s o l i d a r u m a e c o n o m i a d e m e r c a d o ,

o

p r i n c i p a l fa t o r d e s u c e s s o

é o e s t a b e l e c i m e n t o d a c o n fi a n ç a n o

interior; c o n fi a n ç a n o e x t e r i o r (Maurice

Allais, apud Peyrefitte,

1999,

p.

449),

W e b e r c h a m o u d e 'publicana' a c o r r e n t e r e l i g i o s a ( e s s e n c i a l m e n t e a c a t ó l i c a r o -m a n a ) q u e m o s t r o u preferência p e l o s

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p o b r e s , e d e fa r i s a i c a ' a c o r r e n t e q u e

p r e fe r i u

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os r i c o s e os b e m - s u c e d i d o s ( e s s e n c i a l m e n t e a p r o t e s t a n t e ) .

O n d e a r e l i g i ã o p u b l i c a n a éd o m i n a n t e ,

vutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

o d e s e n v o l v i m e n t o e c o n ô m i c o s e r á d i fí

-c i l , p o r q u e op o b r e s e s e n t i r á j u s t i fi c a d o e m s u a p o b r e z a , e o r i c o s e s e n t i r á d e s c o n fo r t á u e l p o r q u e e n x e r g a r á a s i p r ó p r i o c o m o p e c a d o r . E m c o m p a r a ç ã o ,

os r i c o s n a s r e l i g i õ e s fa r i s a i c a s c o m e -m o r a -m s e u s u c e s s o c o m o p r o v a d a b ê n ç ã o d i v i n a , e osp o b r e s t ê m u m fo r t e i n c e n t i v o p a r a m e l h o r a r s u a c o n d i ç ã o d e v i d a , p e l a a c u m u l a ç ã o e p e l o i n v e s t i -m e n t o " (Grondona, 2002, p.

93),

Começando com esta observação sobre as religiões, Mariano Grondona, professor da Faculdade de Direito da Universidade Nacional de Buenos Aires, aponta mais dezenove fatores culturais do desenvolvimento. Sua conclusão, como ele mesmo diz, é "controvertida: em última análise, desenvolvimento e subdesenvolvimento não são impostos a uma sociedade de fora para dentro; é a sociedade que escolhe o desenvol-vimento ou o subdesenvolvimento". Vale a pena relacionar alguns fatores:

- fé no indivíduo, na sua criatividade, e na sua capacidade de trabalho;

- o imperativo moral: leis e normas que não exigem o impossível são obedecidas; do contrário, predominam a imoralidade furtiva e a hipocrisia generalizada;

- o conceito de riqueza: aquilo que ainda nào existe e que será criado nos promissores processos de inovação;

- a competição: ela é fundamental para o sucesso da empresa, do político, do intelectual, do profissional. Sua condenação leva à inveja e ao sonho de uma igualdade utópica;

- a noção de justiça: é preciso pensar nas gerações futuras e não apenas nos que estão vivos; só assim é possível reduzir o consumo e

- o valor do trabalho: o trabalho deve estar no topo da escala de prestígio;

- o papel da heresia: a mente indagadora é a que cria a inovação e esta é o motor do desenvolvimento;

- a educação: nos sistemas de valores resistentes ao desenvolvimento, a educação é um processo de transmissão de dogmas, produzindo conformistas e seguidores;

- a pontualidade, a cortesia e o asseio: hábitos valorizados nas sociedades avançadas;

- o futuro imediato: é o único tempo para o qual se pode planejar;

- a racionalidade: o mundo moderno se caractetiza pela ênfase na racionalidade. O progresso é a conseqüência de LIma vasta soma de pequenas realizações;

- autoridade: nas sociedades racionais, o poder vem da lei e não de um caudilho ou de um deus irascível e imprevisível;

- visão do mundo: o mundo é um cenário para a ação e não o resultado de forças misteriosas e irresistíveis,

- a salvação: o símbolo da visão católica é o monge; o da visão protestante é o empresário;

- o otimismo: o otimista não é aquele que espera a sorte ou os favores dos poderosos mas o que faz o necessário para assegurar um destino melhor;

- a democracia: o poder político deve ser disperso por diferentes setores e a lei é suprema.

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A

JIHGFEDCBA

R T ' . G O

reciso saber se as crianças e os jovens estão . estimulados a assumirem a responsabilidade re seu futuro ou se estão aprendendo apenas

os políticos não prestam, que os problemas sileiros não têm solução, que a origem disso

está na colonização e que somos dominados o capital estrangeiro.

Este diagnóstico - certo ou errado - leva pessimismo, à baixa auto-estima, à inação, e, que é pior: justifica a atitude passiva e o entimento improdutivo uma vez que a fonte .• nossas desgraças estaria fora do nosso

biente temporal e espacial. Não seria melhor ixá-Io de lado ainda que contivesse alguma erdade?

Uma agenda de valores positivos deveria xistir no setor público e nas empresas, articularrnente nos setores formadores de _pinião (escolas, colégios, meios de comunicação

c).

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A insistência exclusiva na luta por mais ireitos supõe que tudo já está construído e que

guém deve ceder parte do que está em suas mãos em benefício de outros menos afortunados. Ora, um país como o Brasil, com seu vasto

erritório e sua grande população, tem que se considerar bastante atrasado em seu processo de construção e a luta por uma melhor distribuição do produto deve ser orientada justamente por um esforço conjunto em torno de um projeto comum. Pode parecer contraditório, mas o projeto comum é a prosperidade de cada indivíduo. Quando cada brasileiro desejar sua própria prosperidade, o país estará pronto para acelerar seu crescimento. Deixo de lado conscientemente a discussão sobre as noções de prosperidade ou desenvolvimento econômico. Creio haver consenso em torno de aspirações tais como saúde, conforto, liberdade, educação, segurança e justiça. Para haver desenvolvimento, no entanto, não basta adotar uma política econômica adequada ou promover uma maior entrada de poupança externa; é indispensável que todos desejem alcançar uma vida melhor a partir de seus próprios talentos. O desenvolvimento é o resultado do esforço de cada indivíduo. Sejam empresários, sejam empregados,

sejam autônomos, todos têm um potencial a ser revelado, a ser externado. Cada membro da sociedade (inclusive as crianças) pode fazer melhor o que vem fazendo. Nisto não há nenhum esquecimento da miséria em que se encontra boa parte da população, pelo contrário; é o único caminho para uma situação melhor. Vivemos como se, um dia, alguém viesse salvar-nos. Basta observar o comportamento de importantes grupos que chegam ao sistema de ensino, a única chance que têm para garantir dias melhores. Desprezam oportunidades e se queixam da qualidade do ensino; criticam tudo e nada fazem de concreto para melhorar o ambiente em que atuam. Esperam tudo do Estado, do Poder Público, sem pensar que os recursos do Estado saem dos bolsos dos cidadãos. Sem considerar que quanto maiores forem as reivindicações por mais serviços públicos, maiores serão os impostos. Parecem sonhar com uma situação em que tudo fosse provido por este ente todo-poderoso, ao preço da renúncia às suas próprias preferências, à sua individualidade, à diversidade de escolhas, sem mercado, sem dinheiro, sem opinião, sem gosto. Uns, movidos por ideologias mal assimiladas; outros, ainda vítimas da herança maldita da escravidão; passivos, céticos em relação as suas próprias forças. Esta gente precisa despertar e assumir a responsabilidade pelo seu próprio destino, o que vale dizer, pelo destino do Brasil.

HGFEDCBA

N o ta s

1 Para o acesso a este autor fundamental

no estudo da questão, recorri à biblioteca do meu caro amigo, professor Eduardo Diatahy B. de Menezes, a quem consigno aqui os meus agradecimentos.

R e fe r ê n c ia s B ib lio g r á fic a s

FANFANI, Amintore.

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C a t o l i c i s m o

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p r o t e s t a n t i s -m o e n I a g e n e s i s d e i c a p i t a l i s m o . Madrid:

Ediciones Rialp, 1953.

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WEBER, Max. A

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