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Rev. Bras. Psiquiatr. vol.25 suppl.1

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Academic year: 2018

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SI 1 Rev Bras Psiquiatr 2003;25(Supl I):1-2

Apresentação

Atualização em estresse pós-traumático

Atualização em estresse pós-traumático

Atualização em estresse pós-traumático

Atualização em estresse pós-traumático

Atualização em estresse pós-traumático

An update on posttraum atic stress

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d i so r d er

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O

conceito de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), como atualmente o definimos, está intima-mente ligado a um tipo particular de vivência trau-mática, qual seja a guerra. Veteranos, no seu retorno da guerra do Vietnam, chamavam a atenção pela expressão peculiar de certos comportamentos e atitudes. Pensamentos e revi-vescências recorrentes de eventos traumáticos, alheamento afetivo e ativação autonômica eram sintomas freqüentes na-queles ex-combatentes. O termo estresse pós-traumático foi cunhado em 1978 para descrever essa forma de mal estar psí-quico e as dificuldades de ajustamento dele provenientes. Nos dias de hoje, está bem estabelecido o fato de que populações civis são acometidas pelo TEPT, secundário a uma variedade de exposições a eventos traumáticos. Mais que isso, existem evidências que populações civis apresentam um melhor prog-nóstico e resposta a tratamentos.

No TEPT, a recorrência de memórias vívidas, incontroláveis, na forma de flashbacks ou pesadelos, sinaliza no sentido de uma memorização defeituosa da situação traumática. Com efei-to, avanços na neurobiologia do TEPT apontam para uma con-solidação excessiva de memórias aversivas, de conteúdo emo-cional. A contínua evocação dessas memórias parece ser um dos mecanismos subjacentes à manutenção dos sintomas de TEPT por longos períodos de tempo. A evocação normal de memórias pressupõe um fluxo relativamente ordenado e ori-entado para questões presentes. As revivescências do TEPT se caracterizam pela desconexão com o fluxo normal do pen-samento. Freqüentemente os pacientes descrevem as memó-rias ligadas ao trauma como autônomas ou parasitámemó-rias. De forma similar às intrusões características do Transtorno Ob-sessivo-Compulsivo, as memórias traumáticas passam a as-sombrar os portadores do TEPT.

Desde as descrições originais dos anos 80, o TEPT evoluiu como uma síndrome bem definida, diferente de outras reações ao estresse pela persistência e intensidade dos seus sinto-mas. No primeiro artigo deste suplemento, os critérios diag-nósticos utilizados internacionalmente para definir o TEPT são apresentados e discutidos. Na seqüência, a evolução his-tórica do conceito de trauma psíquico e do estresse pós-trau-mático é sistematizada. Entretanto, mesmo de posse dos

crité-rios adequados para o diagnóstico do TEPT, são inúmeros os desafios para o diagnóstico dessa entidade clínica. Neste su-plemento, é discutida a questão do diagnóstico do TEPT, sen-do ilustrasen-dos com vinhetas clínicas alguns pontos importan-tes para evidenciar os seus sintomas. Muitas vezes os porta-dores do transtorno associam seus sintomas a uma forma de fraqueza. Algo que deveria ser ocultado por ser vergonhoso, quanto a essência da vivência traumática, ou simplesmente por não ser considerado relevante. Comorbidades freqüentes como a Depressão Maior poderão aparecer como queixa prin-cipal. Dificuldades para trazer à tona o diagnóstico de TEPT podem significar o não tratamento do transtorno e a croni-ficação do quadro.

A forma freqüente com que a Depressão Maior e outros Transtornos do Humor se apresentam como comorbidades do TEPT, e muitas vezes dominam sua expressão clínica, fez com que o assunto fosse discutido em três artigos neste suple-mento. No primeiro deles, são abordadas as mais freqüentes comorbidades do TEPT. A relevância das comorbidades com os transtornos de humor fez com que o tema fosse abordado em mais detalhe em dois capítulos específicos, que se dedi-cam a Depressão Maior e ao Transtorno do Humor Bipolar.

Além da evolução no que tange aos critérios diagnósticos, análise da fenomenologia e comorbidades do TEPT, esse trans-torno tem sido sistematicamente investigado quanto à sua base biológica. Uma síntese dos achados recentes na psicobiologia do TEPT é apresentada neste suplemento. Nes-ta área do conhecimento, surgem alguns dos desenvolvimen-tos mais interessantes na caracterização do TEPT. Foi demons-trado que uma falha no sistema de desativação da reação ao estresse, mediada por níveis reduzidos de cortisol, pode de-sempenhar um papel fundamental na perpetuação dos sinto-mas em pacientes com TEPT.

O tratamento psicoterápico do TEPT é abordado neste su-plemento segundo o enfoque cognitivo-comportamental, psi-canalítico e segundo a perspectiva do Debriefing. O Debriefing

consiste em um procedimento onde, de forma individual ou em grupo, os indivíduos expostos a experiências traumáticas realizam a catarse dessas experiências dentro de um setting

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Rev Bras Psiquiatr 2003;25(Supl I):1-2

Atualização em estresse pós-traumático Kapczinski F

sendo utilizado como rotina em vítimas de desastres e aciden-tes em certos países. O resultado de revisões sistemáticas sobre o assunto tem gerado controvérsias quanto a utilidade do método. Metanálises recentes indicam que o Debriefing

não é um fator de proteção para o desenvolvimento do TEPT e pode estar, inclusive, associado com o aumento de sua inci-dência. Esses achados justificam a busca de tratamentos ba-seados em evidências para a prevenção do surgimento e o tratamento dos sintomas do TEPT. Há um bom número de ensaios clínicos sugerindo que certas medicações, especial-mente antidepressivos com propriedades serotoninérgicas, podem ser úteis no tratamento do TEPT. Novas abordagens terapêuticas, incluindo o uso de novos anticonvulsivantes estão em fase de teste.

Não conhecemos os números exatos relativos aos casos de TEPT em nossa realidade. Estimamos que, diante de

fenôme-nos como a violência urbana, violência contra a mulher e o maltrato de crianças, a prevalência do transtorno no Brasil, e o conseqüente impacto sobre as vítimas do trauma e seus fami-liares, não seja inferior a de outros países. Esperamos que este suplemento aumente a atenção dispensada pelos psiqui-atras brasileiros à importância do desenvolvimento de pro-gramas específicos de educação médica, pesquisa e assistên-cia na área do TEPT.

Flávio Kapczinski

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