Texto 8. Para uma Mistagogia da Proclamação da Palavra de Deus 1

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Texto 8

Para uma Mistagogia da Proclamação da Palavra de Deus

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1. O RITO

IGMR 128 (Instrução Geral do Missal Romano)

Concluída a oração do dia, todos se assentam. O sacerdote pode, com brevíssimas palavras, introduzir os fiéis na liturgia da Palavra. O leitor, por sua vez, dirige-se ao ambão, e do Lecionário, já aí colocado antes da missa, proclama a primeira leitura, que todos escutam. No fim, o leitor profere a aclamação: Palavra do Senhor, respondendo todos: Graças a Deus.

IGMR 129

[Durante a procissão com o Evangeliário do altar ao ambão] Os presentes voltam-se para o ambão, manifestando uma especial reverência ao Evangelho de Cristo.

OLM 14 (Ordo Lectionum Missae – Elenco das Leituras da Missa)

O que mais contribui para uma adequada comunicação da Palavra de Deus à assembleia por meio das leituras é própria maneira de proclamar dos leitores, que devem fazê-lo em voz alta e clara, tendo conhecimento do que lêem. As

1 Pe. Márcio Pimentel. Estudo realizado como contribuição ao Secretariado Arquidiocesano de Liturgia.

leituras, tiradas das edições aprovadas, segundo a índole dos diferentes idiomas, podem ser cantadas, de tal modo que o canto não obscureça as palavras, mas as esclareça.

OLM 17

Entre os ritos da liturgia da palavra é preciso levar em consideração a veneração especial devida à leitura do Evangelho.

Quando se dispõe de um Evangeliário que nos ritos de entrada tenha sido levado processionalmente por um diácono ou um leitor é conveniente que este mesmo livro seja tirado de um altar por um diácono, ou se não houver diácono, por um sacerdotee seja levado ao ambão, acompanhado pelos ministros que levam velas e incenso e outros sinais de veneração conforme o costume. Os fiéis estão de pé e veneram o livro dos Evangelhos com suas aclamações ao Senhor.

O diácono que vai anunciar o Evangelho, inclinado diante do presidente da assembleia, pede e recebe a bênção. No caso de não haver diácono, o sacerdote se inclina diante do altar e diz em voz baixa a oração: “Ó Deus todo poderoso, purificai-me o coração e os lábios...”

No ambão, aquele que proclama o Evangelho saúda os fiéis que estão de pé, lê o título da leitura, faz o sinal-da-cruz na fronte, boca e no peito; em seguida se for utilizado incenso, incensa o livro e, finalmente, lê o Evangelho. Ao terminar, beija o livro, dizendo secretamente as palavras prescritas.

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2 A saudação Proclamação do Evangelho

de Jesus Cristo e Palavra da Salvação ao terminar, é bom que se cantem para que o povo, por sua vez, possa aclamar do mesmo modo, mesmo quando o Evangelho for lido.

Desta forma, exprime-se a importância da leitura evangélica e se promove a fé dos ouvintes.

OLM 18

No final das leituras, a conclusão Palavra do Senhor pode ser cantada por um cantor, diferente do leitor que proclamou a leitura, e todos dizem a aclamação. Desse modo, a assembleia honra a Palavra de Deus recebida com fé e com espírito de ação de graças.

Doc CNBB 108 n. 80

Antes da proclamação das leituras pode-se fazer uma invocação ao Espírito Santo. Um modelo nos é oferecido pelo Papa emérito Bento XVI (...).

2. APROFUNDAMENTO TEOLÓGICO- LITÚRGICO

O Elenco de Leituras da Missa (OLM)2 n. 13 afirma que “a leitura do Evangelho constitui o ponto alto da Liturgia da Palavra, para a qual a assembleia se prepara com as outras leituras, na ordem indicada, isto é, a partir do Antigo Testamento até chegar ao Novo.” Esta pedagogia oferecida pelo Lecionário é também uma mistagogia. Uma vez que “a Igreja continua na Liturgia o mesmo sistema que usou Cristo na leitura e interpretação das Sagradas Escrituras” (OLM 3) compreende-

2 OLM é abreviação de Ordo Lectionum Missae.

3 Na edição típica altera: “ ‘hodie’ eventus sui”.

se que os ritos que compõem a Liturgia da Palavra recriem o “hoje de seu acontecimento pessoal” (OLM 3) como lugar e ocasião de Deus revelar-se.

As palavras “o hoje de seu acontecimento pessoal” 3 aplicadas ao contexto celebrativo transmitem a noção de que a pessoa de Jesus, morto e ressuscitado,

“acontece” mediante o proceder ritual da assembleia reunida. E isso se dá como fruto ou prolongamento do “sistema” que o próprio Jesus usou para experimentar e revelar a presença de Deus em seu contato com as Escrituras. Deus fala quando proclamamos as Escrituras (cf. OLM 12) não porque a letra morta do Lecionário o garanta, mas pela atuação do Espírito Santo no Corpo de Cristo que é a Igreja. Isto é, a Revelação plenamente realizada em Jesus de Nazaré se prolonga, nos alcança e envolve aqui e agora porque seus discípulos e discípulas se deixam guiar pela maneira4 de Jesus ler e interpretar as Escrituras. Isso se dá por duas razões correlatas:

a) primeiro, porque o Mestre estabeleceu o seu modo de ler e interpretar as Escrituras como norma para obtermos a “inteligência” do Mistério Pascal, isto é, para penetrarmos no acontecimento de sua vida doada por amor até o fim. O OLM 3 cita como referência dois episódios do evangelho de Lucas: o serviço na Sinagoga de Cafarnaum – Lc 4,16-21 - e dois trechos da narrativa de Emaús – Lc 24,25-35.44-49.

O texto de Emaús nos faz perceber que é o uso do “método” de leitura e interpretação

4 A CNBB traduziu “modus” por “sistema”: “Sic in Liturgia Ecclesia fideliter sequitur modum legendi et interpretandi Scripturas Sacras” (OLM 3).

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3 das Escrituras que Jesus usa que faz “arder o

coração” dos discípulos. Arder o coração tem relação com o “abrir a inteligência” de Lc 24,45. Jesus estimula a percepção dos discípulos para que se deem conta do percurso revelador que é o acontecimento de sua pessoa, sobretudo, na morte e ressurreição.

De fato, se trata de um “percurso” que precisa ser participado pelos discípulos conscientemente: “começando por Moisés e por todos os profetas, interpretou-lhes em todas as Escrituras o que a ele dizia respeito”

(Lc 24,27); “era preciso que se cumprisse tudo que está escrito sobre mim na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos” (Lc 24,44). Sabemos hoje que há métodos rabínicos muito antigos que tem suas raízes nesta maneira de estudar a Palavra de Deus, como o Harizá, o Guezará Shavá e o PaRdeS. A própria liturgia sinagogal seguia esta maneira de harmonizar as passagens das Escrituras para revelar a presença do Senhor e descobrir sua vontade para Israel. Lia-se uma porção da Torá (Parashat), seguida de uma passagem dos Profetas (Hatfarah) entremeados de salmos e orações de bênção.

Para os sábios judeus, quando dois ou três justos se ocupam das Escrituras a presença

5 Cf. Pirkei Avôt 3,1. “Quando dois homens sentam juntos e não há entre eles palavras da Torá, eis uma reunião de frívolos, pois foi dito: (“Bem aventurado o homem que...) não se assenta numa reunião de frívolos”. Mas quando dois homens sentam juntos e pronunciam as palavras da Torá, a Providência Divina (shekiná) pousa entre eles, pois foi dito: “Então os que temem ao Eterno falavam uns aos outros e o Eterno atentava e ouvia; e havia um memorial escrito diante dEle para que os que temem ao Eterno honrem Seu nome”. Certamente, com base nesta passagem da Mishná é que temos a preciosa passagem de Mateus 18,20: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu ali estou eu no meio deles”.

do Senhor manifesta-se, sua Shekiná faz morada entre eles.5

Santo Agostinho interpreta o versículo 27 (“interpretou-lhes as Escrituras”) afirmando que o objetivo de Jesus era despertar a fé dos discípulos para a sua presença: “Começou, pois, a expor-lhes as Escrituras para que reconhecessem a Cristo precisamente ali onde o haviam abandonado”6. Noutra obra, dirá que

Todas as coisas que se leem na Sagrada Escritura para nossa instrução e saúde, convém ouvi-las atentamente... Há pouco ouvistes que dois dos seus discípulos, a quem encontrou no caminho, tinham os olhos velados, de modo que não o reconheciam. (...) Explicou-lhes as Escrituras (...).

Abarcou todo o Antigo Testamento, pois todo ele apregoa a Cristo; mas é necessário ouvidos que o percebam”78

b) depois, porque a condição para que seu

“modus” se repita é a atuação do Espírito Santo: “O Paráclito, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse” (Jo 14,26).

A função do Paráclito é dupla, mas – devemos sublinhar – que se refere

6 AGOSTINHO, Sermão 236,2.

7 AGOSTINHO, Tratados sobre a primeira Carta de João 2,1

8 ZUMSTEIN, Jean. El Evangelio según Juan (13-21).

Salamanca: Sigueme, 2016, p. 104. Há uma nota muito interessante que este exegeta nos apresenta sobre o versículo em questão: “Os verbos da memória upomimnésko (14,26), mimneskomai (2,17.22; 12,16) descrevem a anamnesis pós- pascal do Cristo encarnado. O Paráclito não ensina nada novo, senão que conserva viva o ensino do Jesus terreno durante o período pós-pascal.”.

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4 sempre à palavra de Jesus. A primeira

função faz referência ao ensino de todas as coisas, e o conteúdo deste ensino pleno é claro: a anamnesis das palavras do Cristo terreno. O Paráclito é, simultaneamente, artesão da memória – faz memória entre os discípulos da revelação do Cristo encarnado – e hermeneuta; esta lembrança é fecunda:

se dá em um ensino.9 Conforme ensina Bento XVI,

não é possível uma compreensão autêntica da revelação cristã fora da ação do Paráclito. Isto deve-se ao facto de a comunicação que Deus faz de Si mesmo implicar sempre a relação entre o Filho e o Espírito Santo, a Quem Ireneu de Lião realmente chama «as duas mãos do Pai».

Aliás, é a Sagrada Escritura que nos indica a presença do Espírito Santo na história da salvação e, particularmente, na vida de Jesus (...) (VD 15).

Concretamente, esta atuação do Espírito Santo se faz notar na retomada concreta que a comunidade faz do ensino de Jesus9, não só do conteúdo mas da maneira de Jesus realizá-lo. Como paráclito protege a memória de Jesus e também a própria comunidade, de modo que não se utilizem

“sistemas” de leitura e interpretação que destoem da prática do Mestre e sua herança se perca:

O Espírito é realidade dinâmica e pessoal (...) cuja atividade se estende no tempo.

Não fala de si, faz recordar e compreender o que Jesus ensinou. (...) no seio da comunidade, ensina recordando e explicando a mensagem de Jesus (14,26) em relação com a missão, dá testemunho

9 Ibidem, p. 104.

em favor de Jesus (15,26), acusa o mundo (16,8) e interpreta a história para os discípulos, orientando-os no seu trabalho.

Fará com que os discípulos penetrem no que Jesus lhes disse, tornando-o presente:

o ensino do Espírito é o do próprio Jesus, sua recordação é a renovação de sua presença.10

3. RETORNANDO AO RITO

Com base naquilo que nos oferecem os livros litúrgicos e os documentos que os explicam (Instrução Geral ao Missal Romano, Introdução ao Elenco de Leituras da Missa, Documento da CNBB 108) podemos estruturar a ação ritual em torno da proclamação da Palavra de Deus do seguinte modo:

1. Depois de concluída a Oração do Dia, todos se assentam. O grupo de canto entoa um refrão orante, que pode ser de invocação ao Espírito Santo, para que os fiéis estejam abertos, disponíveis e atentos para ouvir e acolher a Palavra de Deus.

2. Terminado o refrão, o leitor aproxima-se do ambão, onde já está disposto o Lecionário e proclama a primeira leitura.

O próprio ministro ou um outro cantor (salmista, por exemplo), conclui com a aclamação “Palavra do Senhor” à qual a assembleia assente laudatória com a expressão “Graças a Deus”.

3. Depois de um breve silêncio, o Salmista entoa o refrão do Salmo Responsorial, que é retomado em seguida pela assembleia. A

10 MATEUS, Juan. BARRETO, Juan. O Evangelho de João. São Paulo: Paulus, 1999, p. 632-633. (Grande Comentário Bíblico)

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5 cada estrofe, a assembleia celebrante

intervém com o mesmo refrão.

4. Em seguida, após breve silêncio, o leitor sobe ao ambão e proclama a segunda leitura. À conclusão, procede-se como na primeira leitura.

5. Logo após, observado breve silêncio, entoa-se o Aleluia ou outro refrão conforme o tempo litúrgico e o que estiver estipulado no Lecionário, com o respectivo versículo. Este canto pode ser entoado pelo cantor de seu lugar ou pelo salmista, do ambão. Enquanto se entoa a Aclamação ao Evangelho, o ministro que proclamará o Evangelho toma o Evangeliário do altar e o conduz, processionalmente, até o ambão. Pode-se usar sinais de veneração como incenso, velas e outros que sejam do hábito da comunidade. A assembleia fica de pé e volta-se para o ambão.

6. Terminada a aclamação, o ministro abre o livro dos Evangelhos e saúda a assembleia, estabelecendo o diálogo introdutório previsto. Assinala o livro e a si mesmo, persignando-se. Depois, incensa o livro e passa à proclamação que pode ser cantada. Para concluir, aclama diante da assembleia com a expressão

“Palavra da Salvação” à qual todos respondem: “Glória a vós Senhor”. Pode ser, introdução e conclusão, cantadas, mesmo quando o trecho evangélico propriamente dito for recitado.

7. Terminada a proclamação, todos retornam aos seus lugares. Pode-se retomar a Aclamação ao Evangelho. O Livro dos Evangelhos pode ser conduzido a um

lugar venerável e, a depender do contexto, ao próprio altar.

Análise Mistagógica

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Referências

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