SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL, AGROECOLOGIA E SUSTENTABILIDADE
RESUMO: No Brasil, o início da discussão da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) data da década de 1990. No entanto,o direito de acesso à alimentação ainda permaneceu pouco discutido. Recentemente o Estado brasileiro tem buscado consolidar uma Política Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, que atrele dimensões emergenciais e ações estruturais, para garantir o acesso à alimentação.
Sendo assim, este estudo buscou analisar a atuação da Associação dos Grupos dos Agricultores Ecológicos de Turvo (AGAECO), enquanto movimento social, na consolidação da SAN no município e na sua experiência de produção sustentável a partir da Agroecologia. Para tanto, este estudo contou com pesquisa bibliográfica, bem como entrevistas, participação e observação das reuniões de articulação da Associação. Sendo assim, os resultados deste trabalho mostram que a AGAECO desempenha papel de fundamental importância para a consolidação da Política de SAN em Turvo, bem como tem se mostrado como uma experiência de desenvolvimento sustentável, pois tem viabilizado estratégias de permanência no campo; autonomia na produção com troca de alimentos e técnicas de produção;
fortalecimento da renda dos agricultores e discussão política com o poder público municipal, principalmente no que se refere aos programas na área de SAN.
PALAVRAS-CHAVE: Alimentação; Movimentos Sociais; AGAECO.
ABSTRACT: In Brazil, the beginning of the discussion of the Food Safety and Nutrition (SAN) data of the 1990s. However, the right of access to food has remained little discussed. Recently the Brazilian government has sought to consolidate a National Policy for Food Security, which binds dimensions emergency and structural actions to ensure access to food. Therefore, this study sought to analyze the performance of the Association of Ecological Farmers Groups Fisheries Society (AGAECO), while movement and the consolidation of SAN in the city and on its experience in sustainable production from the Agroecology. Therefore, this study involved a literature review and interviews, observation and participation in joint meetings of the Association. Therefore, the results show that the AGAECO plays a fundamentally important for the consolidation of the SAN in Turvo and has proven to be an experience of sustainable development strategies has enabled it to remain in the field; autonomy in production in exchange for food and production techniques, strengthening the income of farmers and political discussion with the municipal authorities, especially with regard to programs in the area of SAN.
KEY-WORDS: Food, Social Movements; AGAECO.
1 INTRODUÇÃO
O tema da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) tem ganhado espaço recentemente no Brasil. Desde a década de 1940, com o clássico “Geografia da Fome”, de Josué de Castro, as situações de fome e de insegurança alimentar vêm sendo denunciadas, no entanto, tais demandas não haviam se tornado uma questão pública.
Contudo, ao se pretender uma política que garanta as condições de produção e o pleno acesso a alimentação de qualidade, a Segurança Alimentar e Nutricional brasileira tem enfrentado um grande desafio: o enfrentamento das relações tradicionais de poder, que historicamente têm beneficiado o modelo tradicional e conservador de produção, que concentra terras e riquezas. Isso porque, as ações para a garantia da produção e do acesso aos alimentos de qualidade dependem da democratização do acesso à terra; de um modelo de produção agrícola menos dependente das multinacionais da semente e do veneno; e que apóie e valorize as técnicas tradicionais dos camponeses, que aliam produção agrícola e preservação ambiental.
Diante disto, a Agroecologia tem se mostrado como uma alternativa de promoção da SAN e de sustentabilidade, não apenas para os produtores, mas também para os consumidores.
As reflexões a seguir são a respeito de experiências da Associação dos Grupos dos Agricultores Ecológicos de Turvo (AGAECO). Associação localizada no município de Turvo, o qual se situa na região centro-oeste do Paraná. De acordo com dados do IBGE (2007), dentre seus 14.026 habitantes, apenas 4.179 residem na área urbana, sendo que a maior parte da população reside na área rural. Seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é 0,692, ocupando a posição 355° entre os 399 municípios do Paraná. É importante considerar que o IDH mede os níveis referentes à educação, renda e longevidade numa escala de 0 a 1, em que, quanto mais próximo de 1 melhores são as condições do município. E, de acordo com dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Social – IPARDES, a cidade conta com 52,9% da população em situação de vulnerabilidade social.
Este artigo visa divulgar um pouco da experiência da AGAECO, quanto à comercialização de seus produtos ecológicos, e, também sua experiência quanto à Política de Segurança Alimentar e Nutricional, a nível local e regional. Para tanto, realizaram-se entrevistas abertas com membros da associação envolvidos diretamente na organização e comercialização dos produtos na Feira Ecológica, e também com alguns consumidores. Compreendendo como este movimento entende a Segurança Alimentar e Nutricional e como tem contribuído para tal no município de Turvo – PR, destacando ainda, a importância deste espaço para os agricultores membros no sentido de fortalecerem-se num espaço coletivo, até mesmo como uma estratégia de permanência no campo.
2 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Entendendo, de acordo com Minayo (2009), que o objeto de estudo das ciências sociais é essencialmente qualitativo, este estudo buscou na percepção dos sujeitos históricos envolvidos com o tema da SAN e com a AGAECO, principalmente no que
tange à temática da sustentabilidade, compreender as relações sociais que perpassam a temática e, desta forma, apreender aspectos relevantes da realidade pesquisada.
Assim, para a compreensão do objeto de estudo, utilizamos da pesquisa bibliográfica e da observação nas reuniões com as famílias dos agricultores ecologistas, membros da AGAECO. A pesquisa contou ainda com entrevistas de representantes da Associação. Sendo assim, pudemos compreender quais são as bandeiras desta organização coletiva, suas estratégias de atuação e seus objetivos.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para melhor entendermos a Política de SAN no Brasil, é preciso lembrar que é na década de 1980 que o debate da fome e da desnutrição volta-se para o fato de que tais problemas decorrem muito mais de questões de acesso do que propriamente de produção. Reafirmando-se, assim, a necessidade da redistribuição da renda e redução da pobreza como mecanismos essenciais na garantia da Segurança Alimentar. Portanto, o conceito vai além da visão produtivista, e passa a ser visto como um direito humano aos alimentos.
Hoje, a Segurança Alimentar e Nutricional é entendida como um conjunto de políticas públicas destinadas à garantia do direito humano básico à alimentação e nutrição, sendo essa uma responsabilidade do Estado, em parceria com a sociedade civil.
Para que haja SAN exigem-se muito mais do que as políticas existentes atualmente, como por exemplo, o Programa Bolsa Família, o qual se caracteriza como um programa da área da Segurança Alimentar e Nutricional, uma vez, que estudos têm comprovado que a maior parte do recurso é utilizado pelos que recebem para comprar alimentos.
No entanto, ações de redistribuição de renda, como esta, são marcadas como emergenciais, sendo que, para que haja de fato Segurança Alimentar e Nutricional são necessárias mudanças de cunho estrutural, a SAN exige, ainda, a valorização da cultura alimentar, do respeito à diversidade produtiva e à permanência das famílias no campo. Assim, a distribuição equitativa de renda, riqueza e poder são fundamentais.
Agroecologia e SAN
De acordo com Ghizelini (2003) a agroecologia insere-se no campo da agricultura familiar, na defesa de um projeto societário de desenvolvimento mais democrático e solidário, visando principalmente a autonomia dos agricultores enquanto sujeitos históricos desse amplo processo que envolve produção, relações sociais, cultura, economia, entre outros. Neste sentido, o movimento agroecológico caracteriza-se por uma construção coletiva, de um modelo de desenvolvimento alternativo, considerando questões técnico-produtivas ambientalmente sustentáveis e, apoiando a diversidade social e de sistemas agrícolas.
Percebe-se que a Agroecologia representa um desafio no cenário brasileiro, pois vem explicitando relações de forças entre grupos que são contrários às mudanças na estrutura agrária brasileira e organizações sociais populares que defendem uma agricultura de base familiar, autônoma. Sendo que, o interesse dos
grandes latifundiários e industriais do setor agrícola prevalece frente às bandeiras de luta dos movimentos sociais.
Na área da SAN, organizações populares, movimentos ou associações como a AGAECO exercem papel fundamental, já que, diante dos ditames neoliberais, o Estado vem implementando ações emergenciais e pontuais. Neste cenário, os movimentos sociais podem ser atores políticos fundamentais na requisição de ações estruturantes, e não somente compensatórias.
A Experiência da AGAECO: Uma Experiência Contra-Hegemônica
A Associação dos Grupos de Agricultura Ecológica de Turvo (AGAECO) é uma entidade jurídica de direito privado e sem fins lucrativos. É identificada como uma Associação que atua na organização e acompanhamento de agricultores organizados em grupos de produção de alimentos ecológicos. Desde sua fundação, desenvolveu em conjunto com os grupos diversos trabalhos, sobre temas como agroecologia, resgate da biodiversidade de sementes, manejo de agrofloresta, plantas medicinais e feiras de alimentos ecológicos.
Hoje a associação encontra-se com 11 grupos organizados, envolvendo 120 famílias, dispõe de uma produção de cinco toneladas de alimentos ecológicos mensais, distribuídas a programas governamentais e comércio local, através da Feira Ecológica. Grande parte dos alimentos ecológicos produzidos na AGAECO atende moradores de bairros carentes, que estão sob o risco de Insegurança Alimentar. Isso é possível devido à dinâmica de funcionamento, que possibilita o desenvolvimento de uma logística de distribuição de alimentos que barateia o custo.
Outro fator é a opção política das famílias, que buscaram atingir este público.
Os principais eixos de atuação da Associação caracterizam-se pela preservação ambiental e pela defesa da Segurança Alimentar e Nutricional.
Ficam explícitas as relações da comunidade com o resgate alimentar e da biodiversidade, respeitando o meio-ambiente, resgatando e preservando modos tradicionais de produção (como sementes crioulas, sem uso de agrotóxico, por exemplo) e também a cultura local (como os mutirões e as festas tradicionais).
Os associados referem-se ao fortalecimento das relações comunitárias como estratégia de permanência no campo permitindo a autonomia na produção, articulação entre os vários grupos participantes, com troca de alimentos e técnicas de produção, possibilitando o fortalecimento da renda dos associados.
A AGAECO tem se mostrado, no espaço local, como uma alternativa para a produção dos pequenos agricultores, mantendo famílias no campo e viabilizando a discussão política da Segurança Alimentar e Nutricional.
Desafios
Os agricultores têm na AGAECO um espaço para ampliar seu debate político, manifestar suas demandas e articular reivindicações, sem, contudo, perder sua individualidade, tendo em vista que esse espaço de coletividade respeita a singularidade de cada um. O alcance das ações desta Associação vai além dos agricultores ecológicos, abrangendo também a população do município, principalmente aqueles em situação de risco de Insegurança Alimentar, que vêem na Feira Ecológica, organizada pelos agricultores membros da AGAECO, uma oportunidade de acesso a alimentos de qualidade, com preço acessível. Muitos
consumidores desta feira são pessoas que residem na periferia do município, advindas do campo pelo processo de êxodo rural, o que tem contribuído para o fomento da discussão da necessidade de ações para a permanência de famílias no campo.
A AGAECO é uma organização autônoma em relação aos órgãos públicos estatais, caracteriza-se como um espaço de participação e articulação popular, em que os sujeitos se reconhecem na coletividade e se utilizam da associação para expressar suas reivindicações. Desta forma, percebemos que este espaço coletivo de participação difere dos modelos institucionalizados, pois garantem a autonomia de idéias e de construção de bandeiras de luta.
Nota-se que estes agricultores têm exercido papel importante, pressionando o governo local pela efetivação de políticas, como o PAA - Compra Direta1, por exemplo, não assumindo um papel de dependência de governos locais (que são temporários e transitórios), por isso lutam por políticas de Estado e também por mudanças estruturais. Isso mostra sua visão não estritamente produtivista e lucrativa, mas sua preocupação que vai além da produção agroecológica, promovendo a preservação do planeta e também a Segurança Alimentar Nutricional das pessoas que acessam esses alimentos.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A AGAECO entende que a agroecologia é bem mais que uma forma de produção ecologicamente correta, mas que também contribui para o resgate da cultura de hábitos alimentares e para o fortalecimento das relações sociais, sendo que, para isso, é preciso posicionamento político, envolvimento e participação ativa nas decisões que afetam a vida da sociedade.
Num mundo tão individualizado, em que se busca excessivamente o lucro, quase que inconseqüentemente, enfim, num mundo onde impera o neoliberalismo, iniciativas de resistência e enfrentamento a esse projeto são raras, a AGAECO tem essa iniciativa, e nos mostra que é possível a luta por um modelo mais justo, auto- sustentável e igualitário.
Por fim, agradecemos à AGAECO pela receptividade e pela oportunidade que nos deram de aprender a partir de suas experiências.
1 O Programa de Aquisição de Alimentos é uma das ações do Programa Fome Zero, cujo objetivo é garantir o acesso aos alimentos em quantidade, qualidade e regularidade necessárias às populações em situação de insegurança alimentar e nutricional e promover a inclusão social no campo por meio do fortalecimento da agricultura familiar, instituído pelo artigo 19 na Lei n° 10.696 d e 2 de julho de 2003.
5 REFERÊNCIAS
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GHIZELINI, A. A. M. Ongs, Agroecologia e Agricultura Familiar: a construção de uma metodologia de acessória. Dissertação de Mestrado em Sociologia. UFPR, Curitiba, 2003.
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Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social. Cadernos Municipais: município de Turvo. Curitiba, 2009. Disponível em
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MINAYO, Maria C. de S. Pesquisa Social: Teoria Método e Criatividade. Coleção temas Sociais. 28° Edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2 009.
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