Lorraine Heath Amélia e o Fora da Lei

Texto

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Amélia e o Fora da Lei

Lorraine Heath Lorraine Heath

Amélia e o Fora da Lei Amélia e o Fora da Lei

Disponibilização: Ana Claudia Rocha Tradução: YGMR

Revisão: Denise Barros Revisão Final: Sky

Formatação: Gisa

PPROJETOROJETOREVISORASREVISORASTRADUÇÕESTRADUÇÕES

Amélia disse a si mesma que qualquer um que cometesse um crime merecia um tratamento severo.

Ainda assim, aquele jovem a intrigava.

Ela se perguntava por que ele havia se unido a famosa quadrilha dos Cavaleiros da Noite.

Foi a excitação? O dinheiro? O perigo? Desrespeito para com a lei?

Certamente só alguém que não tivesse respeito pela lei ousaria infringi-la.

Embora Jesse Lawton não parecesse ser desrespeitoso.

Ela pensou que talvez, a prisão incutisse esse respeito.

Mas, o que a incomodava era: e se houvesse um outro motivo para a inesperada cortesia na estação.

Talvez alguém tivesse cometido um engano.

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Amélia e o Fora da Lei

O fora da lei fixou o olhar nela, um estremecimento involuntário a percorreu.

Ele não parecia nada inocente.

Ele parecia absolutamente perigoso.

CONTEÚDO Capítulo Um

A primeira coisa Jesse Lawton notou quando o trem parou…

Capítulo Dois

O crepúsculo estava descendo sobre a terra quando o…

Capítulo Três

- Amélia, pare de brincar com sua comida,- seu pai ordenou.

Capítulo Quatro

Amélia permaneceu na cozinha. Há três anos atrás seu pai…

Capítulo Cinco

Amélia nunca iria entender porque os homens não gostavam de ir as compras.

Capítulo Seis

Durante a viagem de volta ao rancho, Jesse tentou não … Capítulo Sete

Na manhã seguinte Amélia pôs as selas em seu cavalo Estrela e cavalgou…

Capítulo Oito

Amélia Harper tinha o sorriso mais bonito que Jesse alguma vez havia visto.

Capítulo Nove

- O que, com todos os raios, você pensou que estar fazendo … Capítulo Dez

Amélia fez a Duquesa parar próxima ao curral. David…

Capítulo Onze

- Eu vi o mustangue novamente esta manhã.

Capítulo Doze

Amélia não podia compreender porque Jesse estava assustado…

Capítulo Treze

Parecia que uma manada de mustangues selvagens … Capítulo Quatorze

- Durante mais de vinte anos, eu estive envolvido com o…

Capítulo Quinze

Jesse segurou o arame esticado enquanto Frank martelava o…

Capítulo Dezesseis

Amélia achou Colleen em seu quarto. O quarto do Colleen era somente … Capítulo Dezessete

Em pé na varanda dos fundos, Amélia olhava a noite.

Capítulo Dezoito

Deitada na cama, Amélia não podia parar de pensar em Jesse.

Capítulo Dezenove

No celeiro, escondido nas sombras da noite, Jesse assistia…

Capítulo Vinte

Com o amanhecer surgindo no horizonte, Jesse levou seu cavalo…

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Amélia e o Fora da Lei

CAPÍTULO UM Forte Worth, Texas Maio de 1881

A primeira coisa que Jesse Lawton notou quando o trem parou na estação foi a garota de pé na plataforma.

Ela era a coisa mais bonita que ele havia visto nos últimos cinco anos.

Seu cabelo loiro estava arranjado e preso, por baixo de um gorro sofisticado, decorado com fitas e laços. As pontas minúsculas de seus sapatos de couro pretos apareciam por baixo da bainha de seu vestido verde.

Ele achou que os olhos eram azuis, mas não podia ter certeza, não desta distância, e pelas janela de um trem sujo.

A garota fez sobressair o lábio inferior em um beicinho que causou contrações dentro dele.

Sua boca o fez lembrar dos morangos suculentos que ele saboreava no início verão há muito tempo atrás. Ele os pegava num jardim, que ficava ao lado de uma casa com cortinas de algodão tremulando nas janelas e uma cerca de estacas brancas.

Ele tinha se convencido que a dor no seu intimo era o resultado de estar com fome. não da falta que sentia de todo aquele conforto, que as pessoas daquela casa nem se davam conta. Ele se forçava a engolir as frutas suculentas e não pensar sobre as camas suaves ou as roupas limpas ou um banho morno.

A garota se movia de um lado para outro sobre os saltos de seus sapatos, girando sua pequena bolsinha verde como se estivesse esperando por alguém.

Ele não podia tirar os olhos dela, o que era uma bênção. Olhar para ela o prevenia de ter que reconhecer os olhares dos passageiros que desciam do trem. Ele mantinha as mãos fechadas entre as coxas, para que as correntes em seus pulsos não ficassem tão visíveis. Mas as pessoas as notavam de qualquer maneira. Podia sentir quando percebiam, porque ele os ouvia prender a respiração, ou sussurrar asperamente para seu companheiro de viagem que um criminoso tinha viajado entre eles.

- Eh, senhor, você é um bandido? - Um menino de repente perguntou em voz alta.

Hesitando interiormente, Jesse focou sua atenção mais atentamente na garota. Ela agora estava batendo o pé, sua impaciência aparentemente aumentando.

- Continua em frente, filho, - Disse o homem que se sentava ao lado dele. Jesse não sabia seu nome. O guarda não havia se dado o trabalho de se apresentar quando colocou as algemas.

- Ele é um bandido? - A criança perguntou novamente, sua excitação ecoando no compartimento pequeno. - Não é?

- Costumava ser, - o homem disse. - Não, não é mais não. Agora ele é um prisioneiro do

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Amélia e o Fora da Lei

Jesse se sentia como se tivesse sido um prisioneiro do estado a maior parte de sua vida. Sua mãe o deixou na porta de alguém, embrulhado em um cobertor esfarrapado com uma nota que simplesmente se lia: Por favor o ame.

Ninguém se preocupou em atender seu pedido. Ele foi passado de um para o outro, nunca sentindo que alguém verdadeiramente o quisesse. Pelo menos não até que ele se uniu a quadrilha dos Cavaleiros da Noite. Sob a liderança do Pete-as-vezes-caolho, por um tempo, pelo menos, ele achava que afinal havia achado seu lugar.

Mas um assalto a banco que deu errado, o levou a ser condenado a passar dez anos na Prisão de Huntsville. Ele já havia sobrevivido cinco anos naquele buraco miserável. Agora ele tinha a chance de passar o tempo restante sob o céu azul do Texas. Ele não pretendia perder esta oportunidade, não importava o que o custasse.

O guarda se levantou. - Vamos, garoto.

Jesse ergueu o corpo, se moveu para o corredor, e se dirigiu para a porta. O guarda seguiu atrás dele com o rifle em baixo do braço, preparado para qualquer eventualidade. Jesse sabia que o homem poderia tanto atirar como acompanhá-lo a descer do trem, então ele manteve seus passos curtos, lentos, sem evidenciar nenhuma perigo.

Ele passou pela porta e parou nos degraus que levavam a plataforma. Colocar uma das mãos no corrimão o forçou a pôr ambas lá por que suas mãos estavam algemadas. Ele desceu com cuidado, sem jeito.

Ele não ousou olhar para a garota bonita agora. Ele rezou que ela tivesse partido e não o visse com as correntes humilhantes, algemadas em seus pulsos.

Com um toque do rifle, o guarda o empurrou para frente.

- Mantenha-se andando. O juiz Harper está parado logo ali em frente.

Ainda que o guarda não o tivesse assinalado, Jesse teria reconhecido o Juiz Harper. Ele perdeu a conta dos dias que haviam passado, desde que ele foi escoltado a sala do diretor da prisão, onde ele se encontrou com o juiz pela primeira vez.

O juiz Harper, só recentemente, havia substituído o Juiz Gray, mais conhecido como o Juiz Carrasco: o homem que condenou Jesse a dez anos de dureza. Jesse não sentiu nem uma faísca de piedade, quando correu pela prisão a notícia que o Juiz Carrasco tinha encontrado seu fim.

O juiz Harper tinha revisado os registros do Juiz Carrasco. Aparentemente o antigo juiz manteve relatórios detalhados de todos os criminosos que apareceram em sua sala do tribunal e de todas as sentenças que deu.

- Eu não gosto de ter dúvidas sobre o meu predecessor, - Juiz Harper disse, - mas eu acho que possivelmente ele foi um pouco severo demais quando condenou você.

Um pouco severo? Jesse pensou, isso era uma forma de minimizar. O homem tinha sido malévolo, com um olhar duro e frio que fez Jesse temer que o Juiz Carrasco fosse fazer jus a sua reputação e sentenciar Jesse a balançar ao sabor do vento pendurado no carvalho mais próximo.

- Eu não estou disposto a comutar sua sentença, - Juiz Harper continuou, - mas estou disposto a deixar você cumprir esse tempo em condições menos desoladoras.

Então aqui estava Jesse, sua boca de repente tão seca como o vento oeste no Texas, caminhando em direção ao homem que tinha sua liberdade nas mãos. O juiz Harper parecia imponente e sinistro quando se encontrou com Jesse em Huntsville.

Até era muito mais agora, parado na plataforma com calças compridas pretas, uma jaqueta preta, e um chapéu preto, com os olhos escuros em cima de Jesse, analisando cada pequeno detalhe de sua existência. Jesse era quase tão alto quanto o juiz, mas debaixo daquele seu escrutínio intenso, ele se sentiu indubitavelmente menor.

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Amélia e o Fora da Lei

O juiz Harper apertou os lábios em uma linha dura de desaprovação, e Jesse pressentiu que iria ser mandado direto de volta para o trem e em direção a Huntsville antes do por do sol.

- Ele deu algum trabalho a você? - O juiz Harper perguntou.

- Não, senhor, - o guarda disse. - Eu não estava disposto a passar qualquer risco com um condenado.

O juiz Harper franziu os olhos, e Jesse se perguntou se o homem estava fazendo um esforço para ler a sua alma.

- Você está planejando causar alguma problema? - O juiz Harper perguntou.

- Não, senhor, - Jesse respondeu.

O juiz mexeu a cabeça.

- Retire as correntes dele.

- Com todo devido respeito, Juiz, se ele escapar…

- Meus rapazes o perseguirão, - Juiz Harper o interrompeu.

Jesse notou os dois homens parados um de cada lado do juiz. Com cabelos escuros e posições semelhantes, eles se pareciam com o Juiz Harper o suficientemente, de tal forma que ele acreditou que eram seus filhos.

- E ele iria lamentar o dia em que nasceu, - Juiz Harper terminou.

Jesse não acreditava que o juiz, ou seus filhos, seriam capazes de o fazer lamentar aquele dia, mais do que ele já o fazia.

Ele se encolheu quando o guarda inseriu a chave na fechadura e o barulho de metal ecoou ao redor ele. Qualquer um que não tivesse notado suas correntes antes com certeza as estaria notando agora. Ele suspeitava que o guarda fez deliberadamente tanto barulho quanto possível.

Assim que as correntes caíram, Jesse deixou os seus braços caírem ao lado, recusando-se a esfregar seus pulsos doloridos e dar ao guarda qualquer satisfação de saber o desconforto que lhe causou. Ele se manteve encarando o juiz, quando o que ele queria desesperadamente era olhar para longe.

- Obrigado, Thaddeus, você pode ir agora, - o juiz disse para o guarda.

- Mas se ele escapar…

- Você vai tentar escapar? - O juiz Harper perguntou.

- Não, senhor.

Eles tinham um acordo, e embora o juiz não tivesse nenhuma razão para acreditar o contrário, Jesse nunca havia quebrado sua palavra. Burlado a lei, sim, mas nunca voltou atrás com a sua palavra.

O juiz balançou a cabeça, e Jesse por um segundo achou ter visto um abrandamento naqueles olhos escuros.

- Isso é tudo, Thaddeus.

- Sim, senhor.

Encostado próximo a Jesse, o guarda sussurrou em voz baixa,

- Mantenha o nariz limpo, rapaz. Você não vai querer acabar voltando para minha prisão.

Se isso não fosse a verdade nua e crua, Jesse não sabia o que seria. Depois do guarda ter subido de volta no trem, parte da tensão que Jesse sentia diminuiu.

O juiz olhou Jesse novamente de cima a baixo, um olhar lento e cuidadoso antes de dizer, - Estes são meus filhos. Robert e David.

Ambos os homens deram a ele um aceno com a cabeça. Nem mentiram dizendo que era um prazer conhecer Jesse. Eles pareciam ser um pouco mais velhos que os dezenove anos de Jesse.

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Amélia e o Fora da Lei

- Nós temos várias coisas para conversar, - o Juiz Harper disse, - mas nós podemos fazer isto lá no rancho. O carroça está aqui. Amélia?

Ao som de passos se aproximando, Jesse girou sua cabeça…e lá estava ela, a garota bonita que ele tinha olhado fixamente enquanto estava sentado no trem. Sua cara caiu direto até o chão.

Ela o viu descer os degraus do trem, ouviu o barulho terrível de suas correntes, e deveria saber de seus crimes.

- Esta é minha filha, Amélia, - o juiz disse.

De perto ela era muito mais adorável que de longe. Seus olhos eram verdes, não azuis.

Verdes como o campo de trevos em que uma vez ele dormiu.

Ele tirou o chapéu da cabeça e esmagou a borda com suas mãos.

- Madame. - Sua voz soou como se ele não fizesse uso dela há pelo menos doze anos.

Os olhos dela brilharam e a sua boca se curvou ligeiramente.

- É um prazer lhe conhecer, Sr. Lawton.

Diferentemente de seus irmãos, ela, aparentemente, não teve nenhum problema em mascarar a verdade, embora ele tivesse alguma dificuldade em acreditar que uma voz tão melodiosa quanto a dela pudesse articular uma mentira. Ela era uma coisinha delicada, mas ela também emitia um ar de confiança de quem sabia quem era.

- Eu não gostei muito daquele guarda, - ela disse. - Ele parecia meio perverso.

Jesse olhou fixamente para ela. Ele nunca ouvira ninguém, exceto prisioneiros, dizer alguma coisa desabonadora sobre um guarda.

- É sua função ser severo, - David Harper disse. - Caso contrário os condenados estariam escapando por todo lado.

- Papai é severo - ela disse. - Mas ele não é perverso. Existe uma diferença. Você não concorda, Sr. Lawton?

Jesse não conseguia pensar em nada para dizer já que ela o encarava.

- O gato comeu a sua língua? - Ela perguntou.

- Isso já é o bastante, Amélia, - Juiz Harper disse.

- Você vê, - ela disse. - Severo mas não mau.

Sua boca se abriu num sorriso que roubou a respiração dele tão seguramente, quanto ele roubou dinheiro de meia dúzia de bancos. Ele gostaria de pegar aquele sorriso dobrar e por em seu bolso, assim ele podia tirar para fora e olhar de vez em quando.

O juiz limpou a garganta, e Jesse fixou o olhar em suas botas bem gastas. Ele acreditava que se o juiz pensasse que ele tinha interesse em sua filha, ele o poria direto de volta no trem.

E isso não seria bom mesmo. O último lugar que Jesse queria voltar novamente era prisão.

Quando a carroça pegou a estrada empoeirada, Amélia Harper se sentava no banco ao lado de seu pai enquanto seus irmãos iam amontoados atrás com o fora da lei.

O fora da lei.

Jesse Lawton, para ela, certamente não parecia com um criminoso. Seu rosto ficou corado quando ele tirou o chapéu ao ser apresentado a ela. Ela nunca havia visto um homem ruborizado antes, e ela passava bastante tempo com muitos homens ao seu redor: Seu pai, seus irmãos, e todos os vaqueiros que trabalhavam no rancho do seu pai.

Mas eram os olhos azuis do fora da lei que capturaram e mantiveram sua atenção. Cansados do mundo. Como se ele tivesse visto demais da vida e não se importava se ainda ia ver muito mais.

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- Papai, o quantos anos você disse que Jesse tinha? - Ela perguntou em voz baixa, esperando que o sacolejar da carroça e o barulho dos cavalos impedisse que o som de sua voz chegasse aos ouvidos do bandido.

- Dezenove, - seu pai disse em uma voz de igualmente baixa.

- Ele parece mais velho que Robert com vinte e quatro anos, - ela disse.

- Ele tem tido uma vida dura. O Juiz Carrasco não fez nada para facilitar. - Ele olhou com desconfiança para ela. - Você não vai namoriscar com ele. Ele não é um dos peões que você pode ter na palma da mão.

Jesse tinha sulcos em sua testa, como se ele se preocupasse frequentemente. Ele também não tinha nenhuma linha de expressão ao redor da boca que indicasse que alguma vez tivesse sorrido.

Embora ela bem pudesse imaginar que ele tinha muito pouco do que sorrir.

- Eu simplesmente queria assegurar a ele que o seu latido é pior que sua mordida, ela explicou.

- Até que eu consiga ter uma verdadeira noção deste jovem, - seu pai disse baixinho, - deixemos ele pensar que minha mordida é algo com que deva se preocupar.

A maioria das pessoas viam seu pai como duro e inflexível. Ela sabia que era só seu jeito de ser. Mas às vezes ele podia ser assustador

Ela olhou fixamente para frente, revendo em sua mente suas primeiras impressões do bandido.

Seus irmãos estavam vestidos quase da mesma forma de seu pai: camisas brancas engomadas corretamente, jaquetas pretas, gravatas finas pretas, e calças compridas pretas. Eles representavam, sem dúvida nenhuma, exatamente o que eles eram: os filhos bem sucedidos, de um homem bem sucedido.

Por outro lado, para Jesse Lawton, sucesso parecia ser algo totalmente estranho. Suas roupas estava em péssimo estado, dando a impressão que alguém as havia surripiado do fundo de uma caixa abandonada. Amélia pensava que o estado deveria fornecer aos prisioneiros libertados roupas novas. Na verdade, Jesse Lawton, entretanto, não estava sendo libertado.

Sua calças estavam surradas, suas botas muito mais até. Seu chapéu parecia ter sido enfiado numa mala qualquer. De repente lhe ocorreu que isso efetivamente devia ter acontecido. Ela achava que eles não deixavam os prisioneiros manterem suas possessões pessoais.

Seu cabelo—tão negro como uma noite sem luar—estava necessitando desesperadamente de um corte. Ela se surpreendeu por descobrir que ela tinha vontade de corta-lo, e mais, ela queria pegar uma navalha e fazer a barba que sombreava o rosto dele. Mas ela achava que nem uma coisa nem outra iriam suavizar a dureza que parecia fazer parte dele.

Quase tão alto quanto seu pai e Robert, um pouco mais alto que David, ele tinha ombros largos e um tórax que falavam de trabalhos forçados. Ele ainda possuía uma força que lembrava a ela um coiote faminto, que ela uma vez tinha visto atacar o rebanho. Suas roupas caiam soltas de seu corpo, como se ninguém tivesse se preocupado com suas medidas, antes de substituir seu uniforme da prisão por uma roupa que evitaria que ele chamasse atenção na multidão.

Ainda assim, ele se distinguia. Não tanto por causa das correntes terríveis ele usava, mas por causa da sensação de desconfiança que emanava dele. Como se ele não contasse com confiança e não ficasse desapontado por não receber nenhuma.

Ela imaginava que a vida na prisão não devia ser fácil.

De fato, a dureza dessa vida tinha atormentado seu pai, quando descobriu que o Juiz Gray havia enviado um menino de quatorze anos de idade para a prisão. Duas semanas atrás seu pai

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havia convocado uma reunião familiar, para discutir seu plano de pôr um homem condenado no meio deles, antes dele se aproximar de Jesse Lawton com sua oferta.

Ele podia passar os cinco anos restantes debaixo da supervisão do juiz, trabalhando em seu rancho. O trabalho seria tão duro ou mais duro que o trabalho ele tinha na prisão, mas desde que ele não causasse problemas teria uma certa liberdade. Depois dos cinco anos, ele podia ir embora ou ficar. A escolha seria dele.

Amélia imaginava que ele desapareceria para o canto mais longínquo do estado, mais rápido que um gato com o rabo em chamas. Ela não o podia culpar. Ela sabia um pouco o que era a falta de liberdade.

Há dez dias dos seus dezessete anos, ela achava que era adulta o bastante para tomar suas próprias decisões, mas seu pai raramente concordava. Desde que sua mãe falecera quando Amélia tinha doze anos, Amélia não tinha ninguém a quem apelar. As palavras do seu pai eram a lei da família. Alguns princípios ele simplesmente não abria mão.

Amélia queria vestir calças quando cavalgava no rancho. Ele insistia que ela vestisse a uma saia calça .

Ela queria ler romances baratos; Ele insistia que ela lesse Shakespeare.

Ela queria um namorado. Ele a proibiu de receber visitas de cavalheiros até o seu aniversário; como se mais dez dias fizessem um mundo de diferença entre ela ser uma menina e uma jovem mulher.

Suspirando de frustração com a lembrança de suas limitações, Amélia voltou seu olhar em direção a seu pai. Ela o amava muito. Ela só queria que ele desse a ela a mesma liberdade como ele planejava dar a este criminoso. Mas seu pai estava acostumado a ditar regras e tê-las incondicionalmente obedecidas.

Ela o ouviu dizer ao bandido que eles tinham coisas a discutir. Ela sabia exatamente o que ele diria em sua voz alta e ressonante: Não faça isto e não faça aquilo.

Ele usou o esse mesmo tom quando explicou a ela que ela nunca, nunca, se deveria por em uma situação, em que ficasse sozinha com Jesse Lawton. Ela sabia que era simplesmente o modo de ser do seu pai, emitir ordens como um general comandando suas tropas. Provavelmente um hábito que ele desenvolveu durante a Guerra Secessão, quando ele tinha comandado tropas.

Ainda assim, ela se ressentia de todas as regras e do fato que ela tinha que descobrir como dar um jeitinho nelas a fim de ter alguma diversão.

Achar um jeito de evitar a ordem para que ela se mantivesse afastada de Jesse, seria um desafio real. Ela entendia a precaução do seu pai em relação ao bandido. Ela verdadeiramente entendia, mas ela nunca tinha conhecido ninguém que fosse um criminoso, alguém que tivesse sido mandado para prisão. Jesse a fascinava tanto quanto a própria a lei.

Enquanto seu pai estava cuidando do rancho, ele também trabalhava como advogado em Forte Worth. Ele assistiu a mudança da cidade, de um posto avançado do exercito, em uma das cidades mais prósperas e progressivas do estado. Os advogados se beneficiaram de seu crescimento rápido. Amélia frequentemente ouvia seu pai explicando vários aspectos da lei para seus irmãos. Ela até o questionava sobre alguns assuntos, querendo mais informações do que ele fornecia.

Ele respondia suas perguntas com um sorriso indulgente. Então ele dizia,

- É uma pena que você não seja um menino. Você tem a mente afiada e mais interesse na lei que seus irmãos.

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Ela não achava que era uma pena que ela fosse uma menina. Ela simplesmente achava que era injusto que as pessoas achassem que meninas deveriam só se interessar em cuidar de uma casa, casar, e criar filhos. Amélia estava interessada em tantas coisas mais.

Ela estava pensando em se tornar uma advogada. Ela até havia começado a estudar os livros de lei do seu pai. Ela também pensou em eventualmente, talvez, seguir os passos de seu pai, tornando-se juiz. Mas ela não podia evitar se questionar se seria capaz de condenar um homem a prisão. Tirar sua liberdade, quando ela muito estimava a dela.

Pelo canto de seu olho, ela podia ver Jesse. Com uma perna esticada, ele apoiou o pulso com a cicatriz sobre o joelho erguido da outra perna.

Não queria lembrar das correntes que ele usava quando desceu do trem, ou quantas vezes antes dessa, ele teria sido forçado a usá-las. Elas pareciam pesadas quando o guarda as removeu.

Pesadas e desconfortáveis.

Disse a si mesma que qualquer pessoa que comete um crime merece tratamento severo.

Ainda assim, esse jovem a intrigava. Ela se perguntava por que ele se juntou a famosa quadrilha dos Cavaleiros da Noite.

Era a excitação? O dinheiro? O perigo? O desrespeito para com a lei?

Certamente só alguém que não tinha nenhum respeito à lei ousaria infringi-la. Embora Jesse Lawton não parecesse ser desrespeitoso, ela achava que a prisão podia incutir respeito até num cachorro sarnento.

Mas uma outra razão, para sua cortesia inesperada na estação, a estava incomodando. Talvez alguém tivesse cometido um engano. Talvez Jesse Lawton fosse verdadeiramente inocente.

O bandido voltou seu olhar para ela, e um calafrio a percorreu. Ele não parecia de todo inocente.

Ele parecia totalmente perigoso.

CAPÍTULO DOIS

O crepúsculo estava descendo sobre a terra, quando o juiz parou a carroça na frente de uma casa grande de tijolos. Uma casa alta de dois andares, maior que qualquer coisa que Jesse já tinha visto. Uma varanda enorme sustentada por colunas brancas dava boas-vindas aos visitantes.

Um homem com cabelos da cor do barro estava sentado na varanda. Ele se ergueu lentamente quando as pessoas começaram a descer da carroça.

Os pés do Jesse bateram no chão de terra, enviando para o ar uma nuvem de pó. Por um momento ele parecia hipnotizado, observando como o juiz ajudava sua filha. Ela colocou as mãos delicadas nos ombros dele enquanto ele colocava as suas ao redor da cintura dela. Ele a ergueu e baixou como se ela pesasse tanto quanto uma pluma.

Jesse a tinha pego o observando vários vezes, durante a viagem. Todas as vezes, ele a encarou sério, pensando que ela desviasse o olhar. Ao invés disso, ela encarava seu olhar de maneira desafiadora, erguendo o queixo atraente até que ele finalmente desviava os olhos, envergonhado que ela soubesse onde ele tinha passado os últimos cinco anos de sua vida.

O homem que estava sentado na varanda se aproximou. - Juiz.

O juiz deu a ele um curto aceno com a cabeça antes de se voltar para Jesse.

- Jesse, este é Tanner, meu capataz.

O vento e sol haviam tornado o rosto do Tanner, praticamente em couro, mas seus olhos

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Amélia e o Fora da Lei

- Bem-vindo ao H Lento, mas você vai descobrir logo que nós somos tudo exceto lentos por aqui.

Jesse não sabia exatamente o que fazer. Ele havia visto esse gesto mil vezes durante suas incursões nas cidades, sempre que nas calçadas homens paravam para conversar com aqueles que eles conheciam. Mas ele nunca havia estendido a sua mão a um outro homem.

Ele podia sentir Amélia o observando, estudando, enquanto os segundos passavam e seu desconforto com a situação aumentava.

- O costume de apertar as mãos em saudação começou durante o período medieval, - Amélia disse suavemente, como se compreendesse sua hesitação. - Um cavaleiro estendia sua mão para mostrar que ele não estava segurando uma arma.

Jesse voltou a sua atenção para ela.

- Eu não tenho arma.

- Claro que você não tem. Eu não quis dizer que você tivesse. Eu estava só explicando…

- Um história para mulheres velhas, - David interrompeu. – Apenas aperte a mão do Tanner.

Com alguma relutância, Jesse enxugou sua mão suada nas suas calças antes de segurar a mão do Tanner. O Tanner deu uma sacudidela rápida na mão do Jesse e largou. Jesse não entendia como aquela pequena ação mostrava a um homem que o outro não estava portando arma. Afinal, um homem tinha duas mãos.

- Não foi tão ruim, foi? - Amélia perguntou.

Antes que Jesse pudesse responder, o juiz disse:

- Eu acho que nós já falamos tudo o que tínhamos que falar aqui fora. Vamos entrar na casa.

Jesse desejava que a ordem não o incluísse, mas quando todo mundo começou a subir os degraus, o deixando mergulhado na poeira, ele percebeu que estava incluído, sim. Ele estava indeciso entre entrar ou permanecer onde estava

Ele nunca tinha estado no interior de uma casa que parecesse com aquela ali. Oh, durante algum tempo, quando ele era pequeno, ele viveu com uma viúva que o mantinha tão limpo quanto a casa, esfregando o corpo dele com a mesma escova que ela usava para esfregar o chão.

- Jesse?

Mas ele nunca tinha entrado numa casa que albergava uma família. Apesar do desconforto que ele sentia tendo que os seguir, ele estava igualmente curioso e desesperado para saber o que outras pessoas possuíam.

- Jesse?

Jesse se assustou com a voz insistente do juiz. O homem esperava na entrada.

Jesse subiu com dificuldade os degraus e entrou na casa. O odor de flores o saudou. Ele nunca havia estado em um lugar que cheirava como um campo de flores silvestres na primavera.

A maior parte do tempo, quando ele esteve em lugar fechado, antes da prisão, ele normalmente ficava em armazéns ou celeiros.

- Nós conversaremos em minha biblioteca, - o juiz disse, indicando um aposento ao lado.

Jesse o seguiu e deu uma parada abrupta. Ele nunca tinha visto tantos livros em sua vida inteira. Em duas paredes, eles se enfileiraram nas prateleiras, do teto até o chão. Ele se perguntou se o juiz havia lido todos eles. Ele se perguntou até mais, como tantas histórias diferentes podiam existir.

Ele voltou sua atenção para a filha do juiz. Com suas mãos dobradas ao colo, ela se sentava elegantemente em uma cadeira ao lado. O olhar dela passeou por ele vagarosamente, fazendo o calor de se sentir embaraçado, crescer dentro dele.

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Amélia e o Fora da Lei

Ele nunca tinha dado muita importância a sua aparência, mas agora mesmo, ele estava sentindo o quanto era carente em tudo, enquanto pessoa. Ele percebeu que ela o estava observando, e se perguntou se ela acharia alguma coisa nele, que a agradaria. Perguntando-se mais ainda, por que ele se importaria se ela achasse ou não.

Ela parecia completamente à vontade aqui, como se soubesse que estava protegida, soubesse que sempre estaria protegida. Ela, provavelmente, nunca teria tido um dia de tristeza em sua vida.

Estranhamente, ele não a invejou por isso. De fato, ele até ficava contente.

Ele não desejava a sua vida, nem a seu pior inimigo.

O juiz pigarreou, e Jesse voltou sua atenção ao homem que o olhava de cara feia, mostrando sua desaprovação. Obviamente, deixando claro, que qualquer interesse na filha do juiz, não era uma boa idéia.

O juiz se sentou em uma cadeira de couro grande atrás de uma escrivaninha de mogno enorme, indubitavelmente presidindo o aposento, da mesma forma como fazia na sala do tribunal.

Seus filhos se posicionaram um em cada lado da escrivaninha, como sentinelas cujas funções eram de proteger seu pai. Com seus braços cruzados sobre o peito, Tanner se posicionava atrás do juiz um pouco mais ao lado, perto da lareira.

À direita de Tanner, em um canto, havia um grande cofre. Antigamente, Jesse havia aberto mais de meia dúzia iguais aquele. Era muito grande e pesado para ser movido… provavelmente por essa razão, o Juiz Harper não se preocupou em esconde-lo. Seu conteúdo estava bem protegido, a menos que um homem tivesse dinamite, ou as pontas dos dedos sensíveis e audição afiada, exatamente o que Jesse possuía.

- Eu posso ser dono destas terras, - Juiz Harper começou, uma vez mais captando a atenção do Jesse, - mas o Tanner é que cuida das coisas para mim. Você receberá suas ordens dele. Ele não vai te dar moleza. Se você o desobedecer alguma vez, será mandado de volta para Huntsville. Está entendendo?

E lá se foi a esperança do Jesse de que a vida aqui seria diferente de vida na prisão.

Ainda assim ele respondeu:

- Sim, senhor.

- Se meus filhos dão a você uma ordem, você segue sem perguntas. Está entendendo?

- Sim, senhor.

- E você tem que se manter afastado da minha filha. - O juiz Harper praticamente cortou o Jesse ao meio com seu olhar. - Está entendendo?

Jesse lutou para não olhar para Amélia.

- Sim, senhor.

O juiz Harper suspirou e se recostou em sua cadeira.

- Você é livre para andar pelo rancho desde que você deixe Tanner ou meus filhos saberem onde você está. Se você não disser a eles, você volta para Huntsville. Está entendendo?

- Sim, senhor.

- Tente fugir e você volta para Huntsville. Note que eu disse ‘tentar’, porque meus filhos são excelentes rastreadores, eu dou a minha palavra. Está entendendo?

Jesse estava começando a parecer um eco.

- Sim, senhor.

- Não beber, não jogar, não brigar, não xingar. Essas são as minhas regras. Quebre uma delas, e você volta para Huntsville. Está entendendo?

Ele já estava achando que seria uma sorte ele durar uma noite. Ainda assim, ele acenou com

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- Sim, senhor.

- Certo. Então, Tanner vai levar você para os alojamentos e apresentará você para os homens.

Eu não tenho nenhuma tolerância com transgressores da lei. Eu estou dando a você aqui, uma chance para provar, que o julgamento do Juiz Gray em relação a você estava errado. Não desperdice esta oportunidade de consertar a sua vida.

- Sim, senhor.

O Tanner descruzou os braços, deixou a sua posição atrás do juiz, deu a volta a escrivaninha.

- Vamos.

Jesse se perguntou se devia dizer alguma coisa para o Juiz Harper antes de sair, mas ele não conseguia pensar em nada que pudesse ser apropriado. As boas intenções do homem eram bem- vindas…ainda que viessem com muitas regras. Mas ele não era capaz de se fazer agradecer ao homem. No que concernia a Jesse, um juiz não era tão diferente de qualquer outro juiz.

Então Jesse simplesmente acenou com a cabeça, e saiu caminhando atrás do capataz, quando ele saiu da biblioteca. Ele estava ansioso para sair de perto dos filhos do juiz, que tinham-no crivado com seus olhares como se eles quisessem ver dentro de sua alma.

E ele, definitivamente, queria ficar longe da filha do juiz, porque não olhar para ela foi a coisa mais difícil que ele já tinha feito em sua vida.

Assim que eles chegaram a varanda, Jesse se sentiu aliviado com o escurecer do crepúsculo.

Parecia sinalizar um dia a menos que ele tinha que pagar pelos seus crimes.

Ele seguia Tanner, que se encaminhava em direção a um edifício de madeira afastado, depois do estábulo. Jesse lançou um olhar saudoso aos cavalos que se encontravam dentro do curral.

Com um deles, ele podia cair fora rapidamente dali…

- Você sabe alguma outra palavra além de “sim, senhor”? - Tanner perguntou, interrompendo os pensamentos de Jesse sobre fugir.

Jesse deixou de olhar para o curral e fixou o olhar no homem que caminhava ao lado dele, caminhava como se não estivesse com pressa de chegar em lugar nenhum.

- Sim, senhor, - ele respondeu secamente.

A prisão o havia ensinado a falar o menos possível, a fim de sobreviver. Nunca diga a um homem, mais que ele precisa saber. Nunca revele o que o mundo não pode ver por si mesmo.

Tanner não diminuiu a passada quanto olhou para Jesse, como se o avaliando.

- Eu conheço o Juiz Harper, parece ser um homem severo, mas ele arriscou muito trazendo você aqui. Sua reputação, seus negócios, sua família. Ele tem um direito de ditar regras. Talvez até obrigação de fazer isso.

Jesse estava ficando cansado de ser lembrado que a sua liberdade era só uma ilusão. Todos estavam preocupados com o quanto custava ao juiz. Ninguém parecia se preocupar com o que custava a ele, ver todas as coisas que ele nunca tinha possuído. E nem nunca iria possuir.

Ele não estava pensando sobre a os adereços luxuosos que decorava as mesas pequenas ou os quadros bonitos pendurados nas paredes. Ele estava pensando na solidariedade e na sensação de proximidade que emanava daquelas pessoas na biblioteca.

Todo mundo parecia seguro de seu lugar, sabia onde pertencia. Jesse não podia imaginar a satisfação que causaria poder vir a preencher os espaços vazios de sua alma com aquelas emoções.

Tanner parou a porta do alojamento.

- Eu vou ser honesto com você, Jesse. Muitos os homens não estão confortáveis com a idéia de ter você aqui. Você só tem que evitá-los, e eu acho que nós não teremos quaisquer problemas.

Jesse revirou os olhos. Mais uma regra a seguir.

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Amélia e o Fora da Lei

- Quanto a mim, eu acho que todo homem merece uma segunda chance, mas eu estarei com os olhos em cima de você, - Tanner continuou. - Como o Juiz Harper disse, desobedeça uma das regras e você se verá mesmo de volta a Huntsville.

Jesse ouviu uma série de barulhos que emanavam do alojamento: Vozes roucas, risos, o arranhar de cadeiras no chão, e passos. Ele não estava bem confortável com a idéia de enfrentar um novo grupo de estranhos, a sua vida inteira tinha sido sobre lidar com nada além de estranhos.

Ele já devia ter se acostumado a isso, mas seu estômago se contraiu, sua boca ficou seca, e as palmas das ficaram suadas.

Ele engoliu em seco e lutou não mostrar a sua apreensão.

- Você vai falar a noite toda ou vamos logo com isso?

Um canto da boca de Tanner se ergueu.

- Acho que vamos prosseguir. Se você tiver qualquer problema, fale comigo.

Certo. Jesse tinha certeza que em algum lugar, nas palavras tanto do juiz como de Tanner, havia uma advertência não explicita que qualquer reclamação, o levaria de volta a Huntsville. Ele assim entendia sem ter sido falado diretamente.

Tanner abriu a porta e entrou. Jesse o seguiu. Silencio se fez no ambiente. Os caras que estavam jogando pôquer em uma mesa, não mais olharam para as cartas que eles seguraram em suas mãos. Ao invés disso, eles entrecerraram seus olhos e olharam fixamente para Jesse.

Os homens que estavam deitados nos beliches lentamente se sentaram, como se a o desafiar.

- Este aqui é o Jesse, o novo ajudante que o Juiz Harper falou com vocês, - Tanner anunciou, sua voz alcançando os cantos distantes. - Eu não quero qualquer problema, Jesse não quer qualquer problema, e eu garanto a vocês que o juiz não quer nenhum também. Se alguém tiver qualquer problema com essa situação, vem falar comigo.

Tanner virou a cabeça para o lado.

- Aquela será sua cama. Naquele canto, beliche de cima.

Jesse deu um aceno com a cabeça antes de se por a andar naquela direção por entre mesas, cadeira, e pernas estendidas. Ele encarou o olhar de cada homem que o encarava. Ele tinha aprendido na prisão a nunca demonstrar medo ainda que ele estivesse tremendo em suas botas. A sobrevivência dependia de ser o primeiro a ter instalado suas defesas.

O cara sentado na cama abaixo da de Jesse, se ergueu devagar os punhos cerrados de cada lado do corpo, seus olhos nunca se desviando de Jesse.

Ignorando o cara totalmente, Jesse apoiou o pé na cama de baixo e se içou para a cama de cima. Deitou, dobrou os braços em baixo da cabeça e fixou o olhar nos desenhos na madeira do teto.

Ele tinha feito uma contagem rápida e contou dez beliches duplos, então ele percebeu que o rancho provavelmente teria perto de vinte trabalhadores. Ele sentiu a desconfiança e o ódio que emana de cada um deles. A dura verdade o atingiu de frente.

Viver aqui não iria ser muito diferente de estar na prisão afinal.

CAPÍTULO TRÊS

- Amélia, pare de brincar com a sua comida, - seu pai ordenou.

Quando será ele vai parar de me tratar como se fosse uma criança e permitir que eu faça como eu quero? Se eu não estiver com vontade de comer, por que eu tenho que comer?

Deixando de se preocupar com a fatia de cordeiro que estava em seu prato e que ela tinha

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Amélia e o Fora da Lei

mesa. Robert e David se sentavam um de cada lado dele. Ela tinha a honra duvidosa de se sentar ao lado de David.

- Eu não consigo parar de pensar no fora da lei, - ela admitiu. Ela tinha sentido pena dele, de pé na frente de seu pai, enquanto ele listava as condições para que Jesse pudesse ficar no rancho.

- Ele não vai machucar você, - seu pai asseguro a ela.

- Não tenho medo dele - ela disse. Pelo menos, ela não queria ter medo dele. - Eu estava só me perguntando se era realmente necessário dar tantas regras para ele seguir.

- Eu simplesmente não queria dar margens a qualquer desentendimento – o juiz declarou de forma direta.

Ela não achava haver muita chance disso acontecer. Seu pai era um homem que se regia pela lei, mas às vezes achava que ele levava essa sua dedicação ao extremo.

- Por que você acha que ele fez o que fez? - Amélia perguntou. - Roubar o banco, eu quero dizer.

- Era um homem preguiçoso, procurando por dinheiro fácil, - Robert disse.

- Só ele não era um homem, - ela assinalou. - Ele ainda era um menino, uma criança realmente.

- Quatorze anos é velho o suficiente para ser considerado um homem, - David disse. - Nós já tivemos vaqueiros, que não eram muito mais velhos que isso, trabalhando para nós quando nós levamos o gado para o norte.

Ela não estava verdadeiramente interessada na opinião dos seus irmãos. Eles não sabiam mais sobre Jesse Lawton do que ela. Seu pai, por outro lado, leu o relatório que o Juiz Gray fez do caso.

- Papai, por que você pensa que ele fez ? - Ela repetiu.

- Eu acho que o Robert acertou de primeira. O garoto estava procurando por um caminho fácil.

- A prisão não me parece um caminho fácil. - ela replicou.

- Ele não contava em ser pego, Amélia, - David disse, como se ela não tivesse bom senso.

Às vezes seus irmãos eram irritantes. Só porque eles eram mais velhos não significava que eles eram mais espertos.

Ela remexia as cenouras de um lado para outro de seu prato. Ao observar Jesse sair do trem, ela havia sentido um série de emoções. Originalmente ela se tinha sentido assustada à vista das correntes, pensando que ele deveria ser muito perigoso se precisava ser mantido contido.

Mas assim que ela se aproximou dele e viu a solidão em seus olhos, ela sentiu um forte desejo para o confortar. Até que ele deu a ela um olhar quando na carroça, que a fez lembrar de um lobo faminto. Estranhamente, ao invés de a fazer ser cautelosa, ele só serviu para aguçar a curiosidade dela e a deixa-la confusa.

- Eu achei que ele tivesse aparência de mau, - ela murmurou.

Como Jesse conseguiu ser perigoso sem parecer ser assustador? Ela sempre associava medo com perigo. Mas o que ela sentiu agora não era uma sensação de medo, mas mais de uma fascinação excitante.

- Não se deixe enganar, Amélia, - Robert disse. - O Juiz Gray não o mandou para a prisão sem uma boa razão.

Ela mordeu o lábio inferior.

- Se Papai acreditasse nisto, ele não teria trazido Jesse para cá. - Ela se virou para seu pai. - Você acha que o Juiz Gray estava errado, não é?

O pai suspirou.

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Amélia e o Fora da Lei

- Eu não sei. Eu não gosto de questionar outro juiz. Jesse estava envolvido em um assalto a banco a mão armada, no período que o crime em Forte Worth estava crescendo. Um homem foi baleado. Ele não morreu, mas ele quase não escapa. Eu suponho que o Juiz Gray quis fazer um exemplo de Jesse. Eu não o critico por isto. Eu só acho que a sentença foi exagerada para um garoto de quatorze anos de idade.

- Pelo que nós sabemos, talvez não fosse severo o suficiente, - David disse. - Eu só espero, que todos nós não venhamos a nos lamentar, das suas boas intenções.

Seu pai empurrou o prato para longe, como se fazendo assim, ele podia por um fim a conversa.

- Até que nós possamos avaliar bem o rapaz, eu quero que vocês o vigiem de perto, mas dêem a ele alguma folga.

- Ele mesmo vai se enforcar, - Robert disse.

Seus irmãos normalmente não eram negativos, entretanto normalmente não tinham um criminoso misturado no meio deles.

- Será escolha dele se ele assim fizer, - seu pai disse.

- O que você sabe sobre ele? - Amélia perguntou. - Além do fato dele ser um fora da lei, quero dizer.

- Não muito, - seu pai admitiu. - O Juiz Gray escreveu mais sobre o crime do que ele fez sobre o réu.

- Jesse parece bastante educado, - ela acrescentou.

- Eu acho que a prisão é capaz de fazer qualquer um cortês, - David disse.

Amélia odiava admitir que ela havia pensado a mesma coisa anteriormente. Não era frequente ela e David concordarem em alguma coisa, com exceção do prazer de ler os romances baratos. Ele tinha tantos livros, que ela podia sempre pegar um no quarto dele, sem que ele notasse.

Seu pai sacudiu a cabeça ligeiramente, franzindo a testa.

- Ele foi lacônico com suas palavras, mas educado, quando eu o visitei na prisão. Por essa razão eu decidi que era seguro dar-lhe uma chance e deixá-lo cumprir sua sentença aqui. - Ele apontou o dedo na direção dela. - Mas você, moça, é para ficar afastada dele.

Amélia decidiu que aquela tarefa seria mais fácil de falar do que de fazer. Ela estava fascinada com o bandido, e com seus olhos azuis profundos, que refletiam uma tristeza, que ela não acreditava que pudesse ao menos imaginar.

Desde que havia entrado no alojamento, Jesse não havia falado uma única palavra com ninguém, e ninguém falou com ele. O peão que dormiria no beliche em baixo do seu, finalmente retornou para a sua cama, quando percebeu que Jesse não iria brigar com ele.

Logo depois das oito horas, Tanner anunciou que estava na hora de se recolher. As cartas foram colocadas no lugar e as lamparinas apagadas, antes que a maior parte dos homens se enfiassem em suas camas.

Alguns roncavam. Entretanto Jesse conseguia bloquear o barulho,. Os homens roncavam na prisão. Outros prisioneiros choravam ou gritavam em seus sonhos. A prisão nunca estava quieta, nunca em silêncio. Existia sempre um som, um movimento inquietante, um desejo louco de estar em outro lugar ….

E agora mesmo ele não queria estar em nenhum outro lugar mas exatamente ali, onde estava.

Ele passou o seu olhar pelas sombras que dançavam no teto para aquelas que se moviam acima da porta. O luar penetrava pelas persianas que cobriam as janelas. Não muita luz, mas o suficiente

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Amélia e o Fora da Lei

Tanner deixou o alojamento, depois de gritar outra ordem: para todo mundo ficar quieto, e tentar dormir. Ele não retornou. A tentação de ir lá fora subjugou Jesse. Há um pouco mais de cinco anos que ele não podia sair de um lugar, simplesmente por que quisesse.

A cama rangeu quando ele se sentou e jogou as pernas para fora do beliche. Ele prendeu a respiração, esperando alguém mandá-lo deitar novamente.

Mas tal ordem não veio. E ele percebeu que não tinha que prestar contas a esses homens. Ele só tinha que se reportar ao Tanner, e ele não estava por ali.

Cuidadosamente, em silêncio, ele se escorregou do beliche, até que suas botas tocaram o chão com uma pancada surda. Ele até pensou em remove-las, mas onde ele queria ir, ele iria precisar delas. Além disso, remove-las provavelmente faria mais barulho que só se arrastar para a porta.

Então ele se arrastou. Ele ouviu alguém mexer e outra pessoa bufar. Uma tosse abafada. Uma cama rangendo.

Mas ninguém apareceu para o parar.

As dobradiças rangeram como ele abriu a porta ligeiramente e deslizou na noite.

Ele deu um suspiro fundo com o ar fresco. Ele sabia que coisa alguma podia cheirar tão doce.

- Indo a algum lugar? - Uma voz rouca perguntava, quase o fazendo saltar fora da varanda.

Ele olhou em volta. Nas sombras em baixo do beiral, ele consegui descortinar a silhueta do Tanner.

- Eu precisava de algum ar, - ele disse defensivamente.

- Sim, eu sei o que é isso. Alguns daqueles meninos não lavam suas meias com frequência suficiente.

Não era o cheiro dos pés ou suor ou corpos que o fizeram querer sair. Era tudo se fechando ao redor dele…ficando menor, e menor, até que não era maior do que um armário.

- Você sempre guarda a porta? - Jesse perguntou, o ressentimento queimando nele como a bílis em chamas. Ele sabia que não tinha nenhuma razão para que confiassem nele, mas ele odiava ter todos os seus movimentos vigiados e avaliados. Quando o juiz fez a sua oferta, Jesse pensou que ele estaria saindo da prisão. Ao invés disso ele estava descobrindo que a prisão simplesmente tinha tomado um formato diferente.

- Eu sempre tiro um tempo à noite para relaxar aqui fora antes de deitar - Tanner disse. - Você tem algum problema com meus hábitos?

- Não, senhor.

Jesse olhou em direção ao curral. Ele precisava caminhar para algum lugar, escapar por alguns minutos, fingir que ele não estava algemado aos seus crimes do passado.

- Eu posso dar uma volta por ali? - Ele perguntou.

- Eu não sou seu carcereiro, rapaz.

Ele girou a cabeça . - Eu achei que era.

- Eu devo vigiar você, mas eu não planejo ficar com o olho preso em você como um falcão.

Mas deixa que eu te diga uma coisa: se entretanto você fugir, eu mesmo vou caçar você, caso os dois rapazes de Harper não te encontrem primeiro.

- Eu não tenho nenhum plano para escapar. Por pior que isso seja , é muito melhor que prisão.

- Eu sei disso por experiência - Tanner disse.

A respiração do Jesse ficou suspensa.

- Você esteve na prisão?

- Meu passado é da minha conta. Vá dar o seu passeio.

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Amélia e o Fora da Lei

Com uma um suspiro profundo, Jesse desceu da varanda e dirigiu-se ao curral. Na prisão, seu trabalho tinha sido de tratar das necessidades dos cavalos dos guardas: Escovando-os, alimentando-os, e mantendo os estábulos limpos. Seu desejo de se aproximar de alguma coisa familiar era quase opressivo.

Ele apreciava tratar dos animais. Ele não sabia quais tarefas ele teria aqui no rancho, mas talvez ele pudesse tomar conta dos animais também.

Ele olhou em direção à casa. Luz pálida se derramava para fora de um par de janelas no segundo andar. Ele se perguntou se alguma das janelas que ele podia ver, pertenciam a Amélia.

Seria muito mais fácil fora pagar sua sentença aqui, se ela não estivesse por perto.

Na biblioteca do juiz, ele estava dividido entre querer olhar para ela, e tendo vergonha que já tivesse sido mandado para prisão.

Ele alcançou o curral e apoiou os braços em cima da cerca. Vários paddocks se estendiam em leque partindo daquele. Os outros alojavam vários cavalos cada, mas dentro deste principal, ao fundo, um cavalo solitário se agitava próximo da cerca, como se sentisse tão inquieto quanto Jesse.

Como se ele, também, quisesse escapar. O luar se refletia no pelo preto lustroso.

Jesse estalou a língua atrás dos dentes, fazendo um pouco estalido soar enquanto estendia a mão.

- Venha aqui, - ele disse suavemente. - Venha aqui.

Ele sempre conseguia se sentir confortado pelos animais que ele atendia. Eles não julgavam um homem até quando ele merecia julgamento.

O cavalo se aproximou cautelosamente. Jesse o alcançou e esfregou o seu focinho. Ele gostaria de ter um pedaço de maçã ou uma cenoura para lhe oferecer.

- Ela morde, - disse uma voz suave feminina.

Jesse retirou sua mão rápido e se virou. A filha do juiz se encontrava ao lado dele, o cabelo não mais preso na cabeça, mas preso por sobre o ombro em uma trança longa.

Ele enfiou as mãos nos bolsos das calças e deu um passo atrás. Ele estava próximo o bastante para sentir o cheiro de madressilva dela.

- O gato comeu sua língua? - Ela perguntou.

Ela havia perguntado a ele a mesma coisa na estação de trem, e ele também ainda não sabia o que dizer. Sentiu a boca tão seca que era possível que alguma coisa estivesse prendendo sua língua. A última vez que falou com uma mulher mais do que uma saudação, ele tinha quatorze anos. Ele não podia nem recordar o nome da menina agora. Seu pai era dono do armazém central da última cidade que ele parou, antes do roubo de banco falhado.

Nos fundos do armazém, ele beijou mais que conversou com ela. Ela era fogosa, e tinha sido atraída pelo perigo que sentiu nele. Ou pelo menos, foi isso que sussurrou entre os beijos.

Mas agora, ele não era mais tão perigoso quanto a garota que estava na sua frente. Tudo que ela tinha que fazer era estalar os dedos, e ele voltaria para trás das grades da prisão.

- Eu devo me manter longe de você. - Ele soou ofegante, como se tivesse vindo correndo para o curral.

- Então volte para o alojamento se você está com medo.

- Eu não tenho medo Seu orgulho respondeu ao desafio.

Mas ele estava. Ele não queria voltar para a prisão, e manter-se afastado dela era uma regra.

Ele apontou na direção do alojamento.

- O Tanner está sentando na varanda.

- Conhecendo bem o Tanner, ele não interferirá a menos que eu grite. Ele acredita mais em

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Amélia e o Fora da Lei

Ainda assim, Tanner estava vendo, e tudo que ele tinha que fazer era dizer o juiz que Jesse tinha estado aqui fora, com Amélia, e ele voltaria na prisão. Ele sabia que devia ir embora, mas ele não queria que ela pensasse que ele tinha medo. Ele aprendeu na prisão que para sobreviver, ele não podia deixar ninguém saber que ele tinha medo.

Então, ele ficou, com seu estômago embrulhado, e o sangue latejando em sua cabeça.

Ela se afastou dele, colocou o pé na parte inferior da cerca, e cruzou os braços por cima da cerca. O cavalo se aproximou, e Amélia estendeu a mão.

Até na escuridão, Jesse podia perceber que ela tinha algo na palma da mão. Ele viu o cavalo empurrar a mão e então ouviu o som da mastigação de alguma coisa crocante.

- Achei que você tivesse dito que ela morde, - ele disse, irritado que o comentário anterior dela, tivesse feito com que ele tirasse a mão do cavalo, rapidamente.

- Ela não é tola o suficiente para morder a mão que a alimenta. Você seria?

- O que você quer dizer?

Ela virou o rosto na direção dele, e ele viu o luar dançando em seus olhos e delineando as curvas de suas bochechas.

- Você olha para meu pai como se você se ressentisse dele.

- Eu me ressinto das regras, - ele admitiu.

- Eu mesmo não sou muito fã delas - ela disse.

Jesse sabia que ele devia voltar logo para o alojamento, mas seu peito doía com as suas carências. Só por alguns minutos, se ele se mantivesse a distância, talvez nada de mal fosse acontecer, se ele só fingisse que era como qualquer outro cara do alojamento, verdadeiramente livre para perseguir seus sonhos.

Ele olhou por cima dos ombros. Nenhum sinal de Tanner. Talvez ele pudesse ficar um pouco mais.

Amélia tirou a mão do bolso e deu outro pedaço de maçã para o cavalo.

- Você não acha que ela é bonita? - Ela perguntou.

Ele nem se lembrava da última vez que alguém perguntou a sua opinião sobre algum coisa.

Por que ela se importaria com o que ele pensava sobre seu cavalo?

- Talvez, - ele respondeu.

- Você muito não é muito falador, não é?

- Eu falo quando eu tenho algo para dizer.

- O que, aparentemente, não é muito frequente. Você não tem nenhuma curiosidade sobre meu cavalo?

Ele podia imaginar Tanner olhando, e contando os minutos.

- Eu preciso voltar para o alojamento.

- Nós temos a Duquesa aqui há quase dois meses, - ela disse depressa, - mas ninguém consegue montá-la. O papai disse que você trabalhava com os cavalos da prisão.

- E daí? - Ele perguntou, irritado que ela soubesse seus negócios privados. Embora ele achasse que como um prisioneiro, ele realmente não tinha nenhum negócio privado.

- Você sabe muito sobre cavalos?

- Um pouco

- Se ela não se deixar montar logo, ele vai se livrar dela. Ele não tem muita tolerância com rebeldia, em animais ou nas pessoas.

Ele achou que sentia uma dose de ressentimento em sua voz. Não conseguia imaginar que ela fosse muito rebelde, embora tinha que admitir: ela estava ali fora, no meio da noite, conversando com ele.

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Amélia e o Fora da Lei

- Duquesa, - ela disse suavemente, um tremor o percorreu do queixo aos dedões do pé. Ele teve inveja do cavalo, porque ela estava fazendo carinhos nele. - Por que você não deixa ninguém te montar?

- Alguns cavalos não foram feitos para serem montados - Jesse disse.

- Mas ela era para ser meu presente de aniversário. - Ela se debruçou e beijou a fronte do cavalo. - Eu quero monta-la, mas estou proibida até de tentar, antes que um dos homens seja capaz de monta-la sem ser atirado para longe.

- E você sempre faz o que te dizem, - ele instigou.

- É óbvio que não. Eu estou aqui fora conversando com você, não?

- Você está conversando com seu cavalo. Eu, por acaso, só estou por perto.

Ela lhe deu um sorriso.

- Eu duvido que essa desculpa seja suficiente, no tribunal de meu pai.

Ele pareceu não gostar muito de ser lembrado do pai dela. Deu um passo atrás.

- Foi um dia longo. Eu preciso dormir um pouco. - Ele precisava voltar ao alojamento antes que o Tanner viesse a procura dele.

- Eu estive pensado, - ela disse em voz baixa. - Para mim, você não parece um criminoso.

Você é inocente, não é?

- Não, Madame, não sou.

E assim, ele girou nos calcanhares e voltou para o alojamento, suas palavras frias reverberando no ar, ecoando no seu coração. Até aquele momento, ele nunca experimentara a vergonha de ser culpado. Oh, ele ficou envergonhado quando o prenderam, até mesmo com raiva.

Mas nunca a vergonha o incomodou tanto assim.

Ele não estava gostando nada, da filha do juiz, fazê-lo se sentir daquele jeito.

CAPÍTULO QUATRO

Amélia permaneceu na cozinha. Há três anos atrás seu pai tinha contratado Colleen O 'Fallon para cuidar da casa e cozinhar as refeições. Mas Colleen era muito mais que uma empregada. Ela também era a coisa mais parecida com melhor amiga que Amélia alguma vez teve, razão pela qual Amélia decidiu contar a Colleen seu pequeno plano, para reabilitar Jesse. Ele tinha falado tão pouco, que tentar determinar o que o havia motivado a se tornar um bandido era quase impossível, ainda mais se ela tinha que se esgueirar para fora, para conversar com ele. Ela precisava de várias horas ininterruptas.

- Eu acho que você está brincando com fogo, - Colleen disse. Seu sotaque refletia sua pátria:

Irlanda. Ela era praticamente uma mulher do mundo, tendo viajado até ali sozinha em um grande navio.

Frequentemente, Amélia se sentia como uma criança. quando ela comparava a liberdade que tinha, com a que a família de Colleen tinha concedido a ela. Ela certamente não era capaz de ver seu pai deixando que ela atravessasse um rio sozinha, muito menos um oceano.

Amélia observava o alvoroço de Colleen a volta da cozinha, colocando os pratos do café da manhã que ela lavou no lugar. Com seus cabelos vermelhos presos num coque apertado na nuca, Colleen parecia mais velha que seus vinte e um anos.

- Mas você me ajudará, se eu conseguir? - Amélia perguntou.

Colleen parou abruptamente e colocou as mãos nos quadris.

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Amélia e o Fora da Lei

- No que diz respeito ao fora da lei. Honestamente, Colleen, conversar com ele é como arrancar dentes. Você tem que fazer muita força mas quase não tem retorno.

- Eu acho que você não devia conversar com ele de forma alguma. Se seu pai descobrir sobre ontem a noite…

- Ele não vai descobrir, - Amélia assegurou.

Ela sabia que Jesse não diria. E ela deliberadamente se colocou no caminho de Tanner, quando ele se dirigia ao refeitório. Ele prometeu não dizer nada, embora confessasse que ficaria de olhos abertos, observando os dois como uma águia. Ele também a advertiu a não se aproximar de Jesse novamente.

- Eu sei que fui um pouco maliciosa - ela concordou com Colleen. - Eu queria visitar a Duquesa, e quando eu vi o Jesse parado lá, deveria ter voltado direito para a casa, mas nada de mal aconteceu por eu ter conversado com ele. Exceto, querer conversar com ele um pouco mais, mas eu preciso que você me ajude com meu plano.

- Está certo, eu ajudarei você, mas anote naquele diário que você escreve que eu tenho fortes reservas sobre este seu esquema louco, - Colleen insistiu.

Com um sorriso encantador, Amélia lançou seus braços a volta dela.

- Obrigado, Colleen. Eu prometo que nós vamos nos divertir.

- Eu não tenho tanta certeza - Colleen disse, se soltando do abraço da Amélia.

- Você verá. Enquanto isso, por que você não começa a preparar uma cesta de piquenique para mais tarde?

Ela piscou para Colleen e se dirigiu para a porta.

- No caso de eu conseguir por meu plano em funcionamento hoje, eu vou voltar e ajudar você, tão logo eu tenha conversado com Papai.

Amélia caminhou pelo corredor em direção a biblioteca de seu pai. Toda manhã antes dele se dirigir ao tribunal do município de Forte Worth, ele se encontrava com Tanner e seus irmãos para discutir a escala de trabalho do dia. Para que ela tivesse sucesso com seu plano, ela precisava pega-los antes de seu pai terminasse a reunião.

A noite passada ela não tinha conseguido dormir. depois de retornar de sua excursão à meia- noite, até o curral. Ela simplesmente não conseguia tirar Jesse da cabeça.

Através de seu pai, ela sabia que os criminosos se declaravam enfaticamente inocente, até quando eles eram obviamente culpados. Que tipo de homem era Jesse Lawton para não negar sua culpabilidade?

Ela tinha esperanças de ter uma noção mais clara ao final do dia. Achava que isto era fundamental para entender a mente criminosa, se algum dia decidisse ser advogada.

Ela entrou na biblioteca. Seu pai estava em pé ao lado da escrivaninha com a sua maleta de couro na mão, que demonstrava que ele estava pronto para terminar a reunião e se por a caminho.

Seu controle do horário tinha sido perfeito.

- Papai?

Todos os homens viraram e olharam para ela. Ela sorriu docemente.

- Papai, Colleen se ofereceu para fazer um vestido novo para mim para a festa de aniversário que você vai dar. Eu estava me perguntando se alguém poderia nos levar a cidade hoje para comprar um pouco de tecido e um molde.

Seu pai franziu os lábios. Ela sabia que aquilo significava que ele estava contemplando os méritos de seu pedido.

- Os homens têm o horário preenchido, - ele disse.

(21)

Amélia e o Fora da Lei

- Mas se nós não iniciarmos o vestido logo, Colleen poderá não ser capaz de terminar a tempo, - Amélia disse.

Robert encolheu os ombros.

- Eu podia dispor de algum tempo hoje para levar Amélia e Colleen a cidade.

Amélia sorriu interiormente. Ela suspeitava a algum tempo que Robert estava interessado na Colleen. Ela sabia que ele estaria mais disposto a levá-la, se ela convidasse a Colleen para a acompanhar.

Seu pai acenou com a cabeça.

- Tudo bem então.

Erguendo sua maleta, ele se preparou para sair.

- Eu estava pensando se nós poderíamos levar o Jesse conosco - Amélia disse depressa.

Seu pai se imobilizou no meio da passada, com uma cara de quem foi pego de surpresa e não conseguisse acreditar tê-la ouvido corretamente

- O que é que você disse? - Ele perguntou rispidamente.

Ela deu um passo na direção dele, com as mãos apertadas na frente, e tentou não fraquejar.

Ele tinha um olhar bastante ameaçador quando queria, exatamente como agora.

- Eu percebi que ele não tinha bolsa. E as roupas dele são horrorosas, - ela explicou. - Eu pensei que talvez nós devêssemos comprar algo um pouco mais decente para ele.

- Ele é um criminoso, Amélia, - David disse.

- Eu tenho consciência isto, mas eu não entendo por que nós temos que fazer com que ele se sinta como algo a ser raspado de nossas botas. Você quis dar a ele uma chance de se reafirmar. A mim, me parece que melhorar sua auto-estima, poderia ajudar - ela explicou.

Robert riu.

- Você pensa que roupas novas são a resposta? Mude a camisa e você mudará o homem?

- Não completamente. Mas eu sei que eu me sinto sempre melhor quando eu visto um vestido novo, - ela falou, recusando-se a desistir da sua idéia.

- Ele é da altura aproximada do Robert - Tanner disse. - Talvez seu irmão tenha algumas roupas que ele não se importaria de doar.

Ela chegou mais perto de seu pai e encarou o seu olhar.

- Você acredita que Jesse alguma vez teve roupas novas?

Seu pai apertou mais fortemente a alça da sua maleta antes de dar um curto aceno com a cabeça.

- Certo. Eu vou mandar um dos rapazes levá-lo a …

- Que bobagem - ela interrompeu. - Para que mandar outra pessoa o levar, se nós estamos indo. Se Jesse causar qualquer dificuldade, eu estou certa que o Robert pode pô-lo em seu lugar. - Olhando seu irmão, ela arregalou os olhos com uma falsa inocência. - Não é, Robert?

- Claro, eu posso lidar com ele se for preciso, - ele disse com autoridade.

Os homens e seu orgulho. Ela havia aprendido há muito tempo como tirar vantagem disso.

Exatamente a mesma coisa tinha acontecido na noite anterior. Ela sabia que dizer ao Jesse que se estivesse com medo, devia ir embora, ele não iria. Os homens e seu orgulho, ela pensou novamente.

- Ela tem lógica, Juiz, - Tanner disse. - Eu tenho tarefas que precisam ser executadas. Robert ir com elas é uma coisa. Dispensar um segundo homem de seus afazeres é outra diferente.

Seu pai estendeu a mão e tocou o rosto de Amélia.

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Amélia e o Fora da Lei

- Você tem bom coração, Amélia. Eu aprovarei esta viagem, mas só esta viagem, porque você está com razão. Pode ser bom para ele, se arrumar um pouquinho mais. Mas você tem que obedecer Robert em tudo.

- Eu vou obedecer, - ela prometeu. - Obrigado, Papai.

- Eu verei vocês todos a noite. - Ele saiu a passos largos.

Amélia virou para Robert.

- Eu acho que a gente pode usar a charrete de duas rodas, já que nós não estaremos nos abastecendo de provisões.

Robert negou com a cabeça.

- Eu não quero que Colleen sentada no banco de trás da charrete, ao lado do bandido. A carroça seria melhor. Nós três nos sentaremos no banco e o Jesse poderia viajar atrás.

- Colleen pode se sentar na frente com você. Eu me sentarei ao lado de Jesse - ela se prontificou. - A charrete tornaria a jornada muito mais agradável.

Robert franziu os olhos.

- Amélia, por que eu me sinto como se estivesse sendo manipulado?

Ela sorriu francamente e rebolando foi em direção à porta, falando por cima do ombro, - Porque você está, Robert.

Jesse prestava atenção no trajeto pela zona rural —embora não fosse tão agradável de olhar quanto a jovem sentado ao lado dele.

Amélia estava vestida da mesma forma que estava na estação de trem. Um chapéu pequeno assentava alegremente em cima de seu cabelo preso. Seu vestido amarelo combinava com as flores silvestres que pontilhando a paisagem.

Era difícil para ele compreender que ela se encontrava realmente sentada ao lado dele, perto o bastante para que a brisa suave, constantemente, trouxesse o odor de madressilvas dela, para o provocar.

Robert guiava a charrete pela mesma estrada de terra que eles haviam viajado no dia anterior. Colleen O 'Fallon se sentava ao lado dele.

Jesse não teria percebido que Colleen era uma empregada se Amélia não dissesse. Ninguém a tratava como tal. Eles agiam como ela fosse mais uma amiga, que alguém contratada para trabalhar para eles.

Não fazia sentido para ele. E ele também não conseguia compreender por que eles o estavam levando para Forte Worth para comprar roupas. Ele não gostava de ficar devendo favores a ninguém. Ele teria que manter um registro das despesas de hoje e tentar determinar quantos dias teria que acrescentar a sua sentença, para que assim, ele pudesse reembolsar o juiz. Ele não queria ficar mais tempo do que o que sua sentença determinava, mas ele não via qualquer outra forma de pagar ao juiz.

- Você sabia que Forte Worth é chamada -A Rainha das Cidades da Pradaria ? - Amélia perguntou.

Jesse voltou sua atenção para ela. Ela certamente estava bonita. E falante.

- Não, Madame.

A via férrea chegou em Forte Worth mais ou menos na mesma época em que Jesse tinha sido enviado para a prisão. Ele havia reparado no dia anterior que a cidade tinha mudado consideravelmente desde que ele tinha visto pela última vez .

- Eu acho excitante que esteja se tornando tão importante para a indústria de gado, - ela disse.

(23)

Amélia e o Fora da Lei

- Amélia, você não podia se importar menos com o gado, - seu irmão falou por sobre o ombro. - O que você acha excitantes são todos os donos de gado jovens que vêm para cidade.

Ela estreitou seus olhos verdes escuros e franziu os lábios.

- Robert, eu não me recordo de ter convidado você para esta conversa.

- Eu não me recordo de ouvir uma conversa acontecendo. Tudo o que eu ouvi foi você tagarelando, - ele disse.

Jesse teve a impressão de realmente ver os cabelos da nuca de Amélia se eriçando.

- Eu não sou tagarela, - ela disse séria. - Além disso, se você tomasse conta da sua própria vida, talvez Sr. Lawton e eu pudéssemos manter uma conversa.

Robert riu.

- Eu tenho aulas para aprender como cuidar da minha própria vida, de você, Amélia.

- Oh, você! - Ela se debruçou para frente na charrete e bateu com seu bolsinha no ombro de seu irmão.

Jesse esperava que Robert ficasse bravo. Ao invés disso ele simplesmente sorriu.

Revirando os olhos, Amélia voltou a sentar em seu lugar.

- Irmãos podem ser tão irritantes, - ela resmungou. Ela arrancou um fiapinho em sua bolsinha. - Você tem algum irmão ou irmã, Sr. Lawton?

- Eu preferia que você não me chamasse assim, - ele disse. Ele não se sentia confortável com a formalidade ou o respeito que o título de senhor denotava.

Ela o perscrutou entre suas pestanas.

- Certo…Jesse.

Suas tripas se contorceram ao ouvir o som de seu nome dito por ela, como o mel fresco morno tirado de uma colmeia em uma tarde quente.

- Você não respondeu a minha pergunta, - ela o lembrou.

- Nenhum irmão ou irmã, pelo menos nenhum que eu tenha conhecimento, - ele disse.

- Você é órfão então? - Ela perguntou.

- Eu não tenho nenhuma família.

Ela pareceu ponderar sua resposta, e achando inadequado, perguntou, - Você conheceu seus pais?

- Não.

- Eu sinto muito.

Ele olhou fixamente para ela.

- Não é sua culpa.

- Eu não queria dizer que eu achava que fosse minha culpa. Eu estava simplesmente expressando meu sentimento porque eu tenho pena, que seja órfão, eu quero dizer.

- Eu me viro. - Ele não queria nem seu sentimento nem sua piedade.

- Não muito bem. se você acabou indo para a prisão, - Robert disse.

Jesse lançou um olhar assassino as costas do homem antes de voltar a sua atenção para a paisagem.

- Não foi muito simpático de sua parte falar isso, Robert Harper, - Colleen disse.

- É a verdade. Eu não vejo por que eu deva ter tantos dedos com relação a verdade.

- Você poderia ser um pouco mais educado. Nós estamos tentando fazer que hoje seja um dia agradável para o Jesse, - Amélia disse.

Aquele comentário o pegou de surpresa. Ele rapidamente virou sua cabeça para olhar para ela. Ela estava arrancando um outro fiapo de sua bolsinha.

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