PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
Liliana Espinosa Hurtado
EXPRESSÕES DA DIVERSIDADE CULTURAL NA PRÁTICA
PROFISSIONAL DOS ASSISTENTES SOCIAIS:
O caso do CRAS de Parelheiros (SP)
MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL
(PUC
–
SP)
Liliana Espinosa Hurtado
EXPRESSÕES DA DIVERSIDADE CULTURAL NA PRÁTICA
PROFISSIONAL DOS ASSISTENTES SOCIAIS:
O caso do CRAS de Parelheiros (SP)
Dissertação de Mestrado apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em Serviço Social, sob a orientação da Professora Doutora Maria Lúcia Martinelli.
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BANCA EXAMINADORA:
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la rutina es después de todo una crisálida una comarca de posibilidades e imposibles, de la costumbre puede estallar lo insólito, del hábito el deshabito, por eso este viernes de opaca textura es casi un campamento de recuerdos un filtro de presagios uno de los confines del futuro tallo ritual de lo ordinario y también bulbo de lo extraordinario.
(Mario Benedetti. Cotidiana 3. Cotidianas 1978-1979)
Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade
de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente… (Carlos Drummond de Andrade)
Revelar a riqueza escondida sob a aparente pobreza do cotidiano, descobrir a profundeza sob a trivialidade, atingir o extraordinário do ordinário, esse é o desafio.
A Deus, porque da sua mão tudo é possível.
À minha mãe, minha força eterna, pessoa que me ama incondicionalmente e que sempre acreditou em mim e de diversas formas me ajudou para poder realizar este sonho.
À minha família, em especial à minha avó, minha tia, aos meus primos/irmãos Jorge e Alejandro e à minha afilhada Ana Maria, eles, na distância, sempre estiveram comigo de mente e coração.
À minha querida orientadora, professora Maria Lúcia Martinelli, mulher admirável, profissional incansável, ela que sempre me deu espaços acolhedores para ser eu, me ofereceu sua escuta atenta, me deu luzes, me guiou e levou até o final.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que possibilitou os elementos materiais para a consecução deste projeto.
Ao Programa de Estudos Pós-graduados em Serviço Social da PUC-SP, em especial a Vânia, por sua paciência, ajuda, e amabilidade.
À professora Carmelita e à professora Malu, pelo carinho, abraços e amabilidade, pelas ótimas sugestões e o conhecimento transmitido e compartilhado.
A Kelly, minha amiga da alma, minha irmã da vida, que, com seu sorriso e palavras sinceras, me deu força nos momentos mais difíceis.
A Eucaris, pelas conversas maravilhosas, pelos mágicos momentos, por sempre ter um sorriso, por seu apoio e compreensão.
Ao Miguel, por ter compartilhado a construção e materialização deste sonho e sempre ter me dado uma mão amiga, por ser absolutamente incondicional. A Wesley, por ter entrado na minha vida da forma mais simples, carinhosa e desinteressada e ter ficado para me mostrar novos significados da amizade. Aos queridos amigos da faculdade, pelo carinho e parceria, em especial a Tiago, Sandra, Aldemar, Alexandre, Douglas, Kleber, Roberta, Milene, Lucilene, Fabiane, Rodrigo.
À família Amorim Carvalho, por se converter na minha família, aqui no Brasil, por ter sempre abertas as portas do seu lar, os braços dispostos para me abraçar e criar laços fortes de amor e amizade.
O Serviço Social, como profissão sócio-histórica que se transforma na mesma medida das transformações da sociedade, reflete sobre sua prática profissional, tanto nas suas permanências quanto nas suas mudanças. Esta dissertação apresenta um estudo de caso em que se realizou uma análise baseada na percepção dos assistentes sociais sobre as expressões da diversidade cultural na sua prática profissional, como um campo cheio de possibilidades, rupturas e desafios, que são mediados pela diversidade nas suas múltiplas manifestações e que dão novas facetas à questão social, matéria-prima da profissão. O trabalho de campo foi desenvolvido no Centro de Referência de Assistência Social (Cras) de Parelheiros, por meio de entrevistas realizadas com os assistentes sociais que trabalham nesse local. Nessa medida e demonstrando a relevância da temática para a profissão, se vêem as repercussões que, sobre a prática profissional, têm os contextos e sujeitos, assim como as lutas e o trabalho intenso dos profissionais para dar conta dos mesmos.Uma das propostas da dissertação é situar a interculturalidade, de tal forma que possa ser contemplada como uma possibilidade de intervenção válida que contribua para a prática profissional em contextos diversos.
The Social Work as a profession, historical-social turns in the same measure of the changes in society, reflect on their profissional practice, both in its permanence and its changes. This dissertation presents a case study where analysis was performed based on the perception of social workers on the expressions of cultural diversity in their professional practice as a field full of possibilities, challenges and breakthroughs, which are mediated by the diversity in its many manifestations that given new facets to the social question, the raw material of the profession. The fieldwork was carried out at Cras Parelheiros through interviews conducted with social workers who work at this location. In this rating and demonstrating the relevance of the topic for the profession, are seen the impact that has on professional practice contexts and subjects, as well as the struggles and work are intensified on the part of professionals to handle them. One proposal of this dissertation is to situate the interculturality as a form that it can be regarded as a valid possibility of intervention that contributes to professional practice in different contexts.
INTRODUÇÃO ... 11 Contando um pouco do trabalho de campo ... 19
Capítulo I ... 25
SERVIÇO SOCIAL: UMA PROFISSÃO SOCIALMENTE DETERMINADA NA HISTÓRIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA ... 25
1.1 A história como o momento presente: aproximação à formação sócio-histórica do Brasil ... 27 1.2 O serviço social no contexto da sociedade brasileira ... 30 1.3 O serviço social nos anos 2000: mudanças e permanências ... 34 1.4 O pluralismo como constitutivo da categoria profissional e da sociedade ... 38 1.5 Construções sociais fundamentais: a cultura e a diversidade cultural como determinantes das sociedades. ... 41
Capítulo II ... 45
O CENTRO DE REFERÊNCIA DE ASSISTÊNCIA SOCIAL (CRAS) COMO OBJETIVAÇÃO DA POLÍTICA NACIONAL DE ASSISTÊNCIA SOCIAL ... 45
2.1 Os centros de referência de assistência social: objetivações da política 53 2.2 O Cras de Parelheiros: efetivação da política em um contexto
culturalmente diverso ... 58
Capítulo III ... 74
A INTERCULTURALIDADE COMO UMA PROPOSTA DE TRABALHO COM GRUPOS DIVERSOS ... 74
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 82
INTRODUÇÃO
Numa sociedade em que as diferenças estão inseridas em seu próprio seio, se faz necessário reformular constantemente a prática profissional.
Devemos assinalar que essa prática profissional está se referindo à “concretização de um processo de trabalho que tem como objetivo o enfrentamento de inúmeras expressões da questão social” (MARTINELLI, 2009: 150). Nessa mesma perspectiva, Iamamoto (2007) amplia o debate sobre a prática profissional, entendendo-a como “trabalho e o exercício profissional inscrito em um processo de trabalho” (p. 57). Captar a prática profissional de tal forma que se supere a visão limitada que dela se possa ter; em que a prática seja apreendida como “um conjunto de determinantes que interferem na configuração social desse trabalho (dessa prática) e lhe atribuem características particulares” (p. 70); em que fatores como a sua matéria-prima, os meios ou instrumentos de trabalho e a atividade propriamente dita, configurem um plano específico do exercício profissional.
Seguindo essa perspectiva, pensamos a prática profissional desde sua complexidade como trabalho, sendo um processo carregado de múltiplas determinações e contradições, mas que não se refere apenas à atividade do assistente social, mas, sim, aos elementos que a compõem e influenciam, que dão sua direcionalidade.
Desta forma, se são os sujeitos que passam a ser o centro dos debates e do interesse da profissão, é a cultura, toda a trama simbólica que eles têm e trazem consigo nas suas relações sociais, que pode ser o ponto de partida para o relacionamento, para o acompanhamento, para o trabalho, com o objetivo de promover processos diversos e qualificados, argumentados nos valores que guiam o projeto ético-político da profissão, como são a liberdade, justiça social e equidade, que promovem a autonomia e emancipação.
O Serviço Social brasileiro, como especialização do trabalho coletivo, tem avançado para uma compreensão crítica da realidade, para uma análise da profissão com reconfigurações que através do tempo se fizeram necessárias, como resultado de lutas, debates, erros e acertos. É uma profissão que se transforma, seguindo as mudanças do contexto sócio-histórico no qual se gesta e desenvolve, respondendo às dinâmicas societárias que são sempre cambiantes.
A partir dos anos 70, e com maior ênfase nos anos 80, o Serviço Social, na construção e modificação de si mesmo, na reformulação do seu trajeto histórico, e como resultado da luta e debates gerados por movimentos sociais e pelos profissionais que se questionam e fazem profundas análises de conjuntura, se reconhece e afiança como uma “especialização do trabalho da sociedade, inserida da divisão social e técnica do trabalho social” (IAMAMOTO e CARVALHO, 1982) (IAMAMOTO, 1992), em que “o exercício profissional participa de um mesmo movimento que tanto permite a continuidade da sociedade de classes quanto cria as possibilidades de sua transformação” (IAMAMOTO, 2006: 171): “A profissão é tanto um dado histórico, indissociável das particularidades assumidas pela formação e desenvolvimento da sociedade brasileira quanto resultante dos sujeitos sociais que constroem sua trajetória e redirecionam seus rumos” (Ibid.: 172).
com vistas a estabelecer a direção social da profissão e da formação profissional. Isto se dá em meio a um processo de luta política, de conquista de hegemonia, no âmbito da sociedade em que a profissão se insere” (MARTINELLI, 2009: 154).
A presente dissertação procura avançar nas análises sobre a prática profissional, sobre as implicações e determinantes que a configuram num campo específico da ação profissional, interessando-se pela percepção que os assistentes sociais têm dessa realidade.
Dessa forma, esta dissertação está inserida e tem sido trabalhada na perspectiva marxista, e apropria a matriz fundante da mesma, a teoria social-crítica e sua dimensão histórica. Consideramos possível, sem romper com esse paradigma, construir as mediações interculturais pertinentes que possam contribuir para o enriquecimento da prática profissional, dos seus processos de conhecimento, como diria Tonet (1995) “daí porque o debate, o confronto teórico (a convivência democrática das idéias) seja absolutamente e sempre imprescindível, não, porém, por uma exigência do sujeito, mas por uma imposição do processo efetivo, real do conhecimento” (p.50).
Partimos do princípio de que a profissão, a partir de seus espaços de explicitação e participação na sociedade, contém em si mesma a interculturalidade, já que os fenômenos interculturais se expressam nas relações sociais fortemente marcadas pelas determinações culturais, que fazem de cada sujeito um mundo diferenciado, com experiências de vida próprias por meio das quais se inter-relaciona com os outros e se localiza no espaço-tempo de forma particular. Assim, os eixos para pensar e analisar a sociedade correspondentes ao mundo do trabalho, à formação sócio-histórica e ao ser social com os quais nos defrontamos, também têm a perspectiva da diversidade cultural e da interculturalidade, na medida em que os sujeitos que criam e recriam os processos, assim como os cenários econômico, político, social e cultural, são diversos, e plurais, contraditórios e cheios de significados.
especificidades quanto à divisão social do trabalho, à propriedade privada, à divisão de classe e do saber, em suas relações de exploração e dominação, em suas formas de alienação e resistência” (ABESS/CEDEPSS, 1997:64), podemos evidenciar inter-relações, nexos a serem aprofundados, pesquisados, que merecem nossa atenção e nossa compreensão, com vistas a obter aproximações mais contextualizadas; numa tentativa de desvendar o cotidiano, lugar onde as mesmas acontecem e se reproduzem.
Perceber a sociedade como conjunto é entender esse cotidiano como processos sociais em movimento que são vivenciados pelos sujeitos; é no cotidiano que se constroem valores, modos de ser e pensar, que se produzem e reproduzem práticas alienantes, mas também se criam possibilidades de resposta, de transformação “O homem da cotidianidade é atuante e fruidor, ativo e receptivo (...) não há vida cotidiana sem espontaneidade, pragmatismo, economicismo, andologia, precedentes, juízo provisório, ultrageneralização, mimese e entonação. Mas as formas necessárias da estrutura e do pensamento da vida cotidiana não devem se cristalizar em absolutos, mas têm de deixar ao individuo uma margem de movimento e possibilidades de explicitação” (Heller, 2008: 31, 56) ou seja, na vida cotidiana se condensam tanto os processos de repetição como de inovação e re-significação da vida e as práticas sociais. É um espaço de alienação mas também de resistência.
É nesse cotidiano que a diversidade cultural se faz explícita e os fenômenos interculturais acontecem e ganham sentido e espaço para os sujeitos, é na relação com eles que a profissão é interpelada; nessas relações, a interculturalidade aparece como uma mediação possível, como uma reconstrução desse cotidiano, como uma forma diferente de aproximação, uma outra forma de movimentar-nos nas tramas da vida, da história, de conhecer, e compreender a realidade como campo profundo de indagações. “É no cotidiano que as determinações conjunturais se expressam e se coloca o desafio de garantir o sentido e a direcionalidade da ação profissional” (MARTINELLI, 2009: 152).
que guia nossas ações? A que lógicas estamos respondendo? De que forma reagimos aos novos contextos? Nossa relação é cada vez mais próxima com os sujeitos? Como se sentem os sujeitos no nosso cotidiano profissional? Que consideram eles das nossas práticas? São perguntas de múltiplas respostas e múltiplas interpretações, com as quais se procura continuar a reflexão de que
é de suma importância impulsionar pesquisas e projetos que favoreçam o conhecimento do modo de vida e de trabalho – e correspondentes expressões culturais - dos segmentos populacionais atendidos, criando um acervo de dados sobre as expressões da questão social nos diferentes espaços ocupacionais do assistente social. O conhecimento criterioso dos processos sociais e de sua vivência pelos indivíduos sociais poderá alimentar ações inovadoras, capazes de propiciar o atendimento às efetivas necessidades sociais dos segmentos subalternizados. (IAMAMOTO, 2006: 188).
No momento de decidir qual tipo de metodologia será utilizada no projeto, a pesquisa mesma remete aos seus objetivos, e procura dar conta deles. É por isso que
A metodologia pode ser definida como o estudo e a avaliação dos diversos métodos, com o propósito de identificar possibilidades e limitações no âmbito de sua aplicação no processo de pesquisa científica. A metodologia permite, portanto, a escolha da melhor maneira de abordar determinado problema, integrando os conhecimentos a respeito dos métodos em vigor nas diferentes disciplinas científicas. (DIEHL e CARVALHO, 2004: 47-48).
É assim que a presente pesquisa é do tipo qualitativo, já que “ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos” (MINAYO, 2002: 22). Assim mesmo, os estudos que tem uma abordagem das problemáticas desde uma perspectiva qualitativa podem
entendimento das particularidades do comportamento os indivíduos. (DIEHL e CARVALHO, 2004: 52)
A escolha da pesquisa qualitativa fundamenta-se no fato de que permite saber como é a vivência das pessoas, suas experiências e os significados que elas mesmas se dão. Permite, assim, trabalhar com o real em movimento, em busca dos significados, das interpretações, dos sujeitos e suas histórias. Essas particularidades fazem com que, na pesquisa qualitativa, se tenha um contato direto com o sujeito da pesquisa, sustentado na oralidade com a qual se privilegiam os fatos mais próximos dos sujeitos (MARTINELLI, 1999).
Ao valer-se da oralidade nessa relação mais próxima com o sujeito, o reconhecimento dele, da sua singularidade, do seu modo de vida e, portanto, da sua experiência social, neste tipo de pesquisa, não se trabalha com suposições mas, sim, se procura desvendar os significados atribuídos por ele à realidade. “Esse é fundamentalmente o motivo pelo qual se privilegia a narrativa oral.” (MARTINELLI, 1999: 23) Essa escolha é uma posição política em relação à realidade pesquisada e, aos sujeitos da pesquisa. Faz-se com a consciência de estar trabalhando com sujeitos políticos, de aprofundar-se em questões que vão além da aparência “não há nenhuma pesquisa qualitativa que se faça a distância de uma opção política. Nesse sentido, ela é plena de intencionalidades, busca objetivos explicitamente definidos” (Ibid.: p.26).
Não se quer negar que, durante o processo da pesquisa, não se possa fazer uso do enfoque quantitativo, mas “o conjunto de dados quantitativos e qualitativos, porém, não se opõem. Ao contrário, se complementam, pois a realidade abrangida por eles interage dinamicamente, excluindo qualquer dicotomia” (MINAYO, 2002: 22).
caso, como unidade significativa do todo “é considerado também como marco de referência de complexas condições socioculturais que envolvem uma situação e tanto retrata uma realidade quanto revela a multiplicidade de aspectos globais, presentes em uma dada situação” (Ibid.: p.102)
Com respeito ao processo, cabe assinalar que, em um primeiro momento, realizou-se uma aproximação bibliográfica dos textos fundamentais da temática, para localizar conceitualmente o debate e verificar a produção sobre a mesma, sendo isso uma dinâmica constante que acrescentou conteúdos até o final da elaboração da dissertação. Posteriormente, realizou-se o trabalho de campo, referente à coleta de informações, o qual se complementou com as análises e com o que se permitiu avançar na consecução dos objetivos propostos primeiramente, visto que
toda monografia científica deve ser necessariamente interpretativa, argumentativa, dissertativa e apreciativa (…) o objetivo de uma pesquisa é fundamentalmente a análise e interpretação do material coletado. É na consecução desse objetivo que se podem aferir os resultados a pesquisa e avaliar o avanço que ela representou para o crescimento científico da área. (SEVERINO, 2000: 152)
No trabalho de campo, partimos de uma delimitação espaço-temporal que nos permitiu apreender uma realidade mais pontual. É assim que se percebe “o campo de pesquisa como o recorte que o pesquisador faz em termos de espaço, representando uma realidade empírica a ser estudada a partir das concepções teóricas que fundamentam o objeto da investigação” (MINAYO, 2002: 53).
Não se pode perder de vista que esse trabalho de campo tem, nas palavras de Portelli (1997) uma “natureza historicamente condicionada”, o que permite ao pesquisador, além de refletir e analisar a situação que é do seu interesse, ver a relação da mesma com a sociedade, com as condições sócio-históricas, com as estruturas de poder implicadas no processo.
processos sociais de forma particular. Isto foi analisado pelo pesquisador, partindo da fala dos sujeitos, da sua forma de relacionar-se com a realidade, e o conhecimento e as informações foram sustento da pesquisa.
Tendo definidos o espaço, tempo e os sujeitos da pesquisa, o pesquisador partiu do fato de que aquilo que se apresenta a ele não é a totalidade da realidade, que o cotidiano deixa de forma latente interpretações e sentidos dados às relações, e que sua função como cientista social é desvendar essas aparências dadas como certas e únicas, e com esses mesmos sujeitos construir novas formas de ver e interpretar o mundo.
Para desenvolver o trabalho de campo da presente dissertação se escolheu, em primeiro lugar, um Centro de Referência da Assistência Social (Cras), por ser um dos espaços de materialização da Assistência Social com maior inserção laboral dos assistentes sociais no Brasil. A escolha do Cras para a pesquisa esteve mediada pela intencionalidade de encontrar elementos que nos permitissem realizar posteriores análises das falas dos sujeitos; por isso, devia ser um Cras que expressasse em si mesmo a diversidade cultural, que lidasse explicitamente com ela.
Foram quatro assistentes sociais escolhidos, dependendo do tempo de experiência de trabalho no Cras, para assim ter diferentes percepções desses movimentos sócio-históricos específicos. Eles são Alexandre Gomes, coordenador do Cras, Sonia Regina Batista de Andrade Patente, Gerlani Bento da Silva Falcão e Irene Pereira de Magalhães, três técnicas do Cras. As entrevistas foram realizadas de forma individual e no local de trabalho, e na transcrição e uso das falas, se realizaram pequenas mudanças de estilo, sem alterar a autenticidade delas.
Partindo, assim, dos objetivos da dissertação, das questões nela geradas, e tendo uma concordância entre método e técnicas, o roteiro de pesquisa se propôs a dar conta dessas questões, procurando aprofundar as mais relevantes.
diversidade cultural encontrada nos seus espaços de prática profissional, as entrevistas foram reflexivas. Assim, os depoimentos dos quatro profissionais do Cras entrevistados, todos eles assistentes sociais, seguiram essa linha de análises.
Também se realizou uma observação sistemática, durante a qual foram anotadas as dinâmicas desenvolvidas no Cras pelas assistentes sociais, nos diferentes espaços de atendimento. Isso permitiu evidenciar algumas das possibilidades e limitações que o Cras tem, neste momento, mais por questões de estrutura (como é o caso da sobrecarga de trabalho e poucos profissionais para atender a essa demanda).
Contando um pouco do trabalho de campo
São Paulo é uma cidade de muitos contrastes. Pode-se encontrar quase tudo nesta cidade que não dorme; nesta metrópole de asfalto.
Este é o caso de Parelheiros, um bairro que é como uma cidade do interior. Localizado a duas horas da zona oeste de São Paulo, com acesso por diferentes meios de transporte, no transcurso da viagem, a paisagem começa a ter um diferencial e se percebe que o local possui características próprias, que serão analisadas a seguir, com outros parâmetros. O ar muda, a vista também, e o visitante vai se sentindo em um lugar que não corresponde às dinâmicas próprias da cidade.
O Cras Parelheiros fica num local (casa) organizado, com diferentes espaços e é um lugar agradável. Apresenta grande movimentação em horas específicas do dia, quando as técnicas do lugar (as assistentes sociais) vão dando atendimento, tanto na parte de plantão, com dúvidas e orientações em geral sendo resolvidas, quanto na inserção das pessoas nos programas do Cras, com o preenchimento de vários formulários, método que reduz um pouco a agilidade do processo, já que é feito manualmente.
outros três são técnicas, realizando trabalhos diferenciados, no entanto, cada um deve passar pelo plantão de forma rotativa.
O coordenador do Cras, Alexandre Gomes, foi quem primeiro trabalhou como técnico durante dois anos, e vem ocupando o atual cargo há um ano e dois meses. Possui experiência no trabalho com a proteção especial, e por gostar das características do lugar, das particularidades, decidiu escolher o Cras Parelheiros como o lugar para trabalhar.
Tem realizado forte trabalho com as aldeias indígenas localizadas em Marsilac, aproximando o Cras dessa população, indo até o território, evidenciando interesse por desenvolver um trabalho que até o momento não tinha sido explorado. Ele conhece o território e a população, gosta do trabalho que realiza, e se preocupa por aprimorar a sua prática.
Por sugestão dele, ao solicitar três técnicas para realizar as entrevistas, foram escolhidas segundo o tempo de experiência de trabalho no Cras. Dessa forma, se buscou uma pessoa com ampla experiência, que é Sonia Batista; uma que tivesse um tempo intermediário, que é Gerlani Bento; e uma que estivesse no Cras há pouco tempo, que é Irene Pereira. Cada uma poderia dar uma percepção diferente e contribuir de forma específica à pesquisa.
Sonia Regina Batista de Andrade Patente é a pessoa com mais experiência no Cras. Está trabalhando na região, na área da assistência social, há quase 17 anos; já passou por chefia de setor, supervisora na implantação do Cras, e atualmente atua como técnica.
Gerlani Bento da Silva Falcão está trabalhando no Cras há aproximadamente 3 anos e, neste momento, se encontra realizando atividades de coordenação de projetos e supervisão de equipamentos, assumindo também o plantão um dia da semana.
Como Alexandre, prestou concurso e, por escolha, depois de passar pela Secretaria Municipal da Assistência e Desenvolvimento Social (Smads), chegou ao Cras Parelheiros, gostando da região, da forma de ser dos moradores, da diversidade cultural apresentada no local.
Irene Pereira de Magalhães é a assistente social com menos tempo no Cras, pois está no cargo de técnica aproximadamente há um ano, e já trabalhou na área da saúde, em ambulatório ligado à saúde da mulher.
Ela expressa claramente a sua precaução e preocupação com a questão da diversidade cultural dos usuários, na medida em que reconhece precisar de mais tempo para se apropriar das dinâmicas da região, mas reflete muito sobre sua intervenção, sobre o seu trato, a forma de se inter-relacionar com as pessoas no atendimento, o que considera um bom começo para aprofundar as questões que tem neste momento com respeito à forma de lidar com a diversidade.
Tanto Alexandre quanto as técnicas foram muito amáveis no recebimento, no trato, na disponibilidade para realizar as entrevistas, as quais foram realizadas diretamente nas instalações do Cras, nos intervalos em que os assistentes sociais ficavam livres das atividades que estavam realizando. Permitiram à pesquisadora fazer observação sistemática da dinâmica do Cras na parte da inclusão nos programas e no atendimento individual.
relação a esse fato, porque não depende delas a liberação do dinheiro, mas, pelo menos, tentam explicar à população a situação e dão algumas facilidades para informá-las sobre a chegada do benefício (como ligar para, assim, não se deslocarem até o Cras, sobretudo as pessoas que vivem em lugares afastados).
A equipe de trabalho, no entanto, tenta se organizar para o atendimento dos diferentes serviços, mas reconhece que precisaria de mais profissionais, com os quais poderiam aprofundar e melhorar o trabalho que se realiza tanto no território quanto no próprio Cras.
Com base nas entrevistas e nos eixos que as guiavam, no momento da análise da informação, se evidenciaram uns núcleos temáticos que englobaram as respostas dos sujeitos da pesquisa, entre eles, estão: um grupo de questões que fazem referência a conceitos, mas que tem a ver com a prática profissional e a percepção dos assistentes sociais sobre a variável da diversidade cultural; outro dos núcleos temáticos esteve encaminhado para a análise do território e as implicações do mesmo na atuação do Cras, como se contempla a diversidade cultural, as características do espaço que se refletem nas atividades, redes sociais; e o terceiro núcleo, em que se evidenciaram algumas das expressões da questão social e o condicionamento que isso dá à prática profissional
Constituíram-se as bases para trabalhar e desenvolver a pesquisa tendo por objeto as expressões da diversidade cultural no cotidiano da prática profissional dos assistentes sociais no Cras de Parelheiros.
Para dar conta desse objeto de estudo, pensou-se num objetivo geral, que reunisse a finalidade maior que se esperava alcançar com a pesquisa, ou seja, analisar a percepção dos assistentes sociais no Cras de Parelheiros, em relação à diversidade cultural presente na sua prática profissional.
Analisar como os/as assistentes sociais percebem a diversidade cultural presente na sua prática profissional a partir das suas vivências.
Analisar as influências que os contextos têm na prática profissional.
Evidenciar a importância da questão cultural para a profissão
Situar a interculturalidade como uma possibilidade de realização de uma prática que contemple a diversidade cultural.
Seguindo esses objetivos, a presente dissertação se encontra dividida por capítulos, nos que as análises e reflexões vão se articulando.
No Capítulo I, encontram-se as aproximações a referentes conceituais que evidenciam o caminho percorrido pela pesquisadora para aproximar-se da temática do seu interesse. Assim, explicita-se de forma geral o percurso da profissão nas suas relações com as transformações societárias, as implicações disso na prática profissional e as novas demandas para o Serviço Social; passa-se a analisar o pluralismo como uns dos eixos contidos no projeto ético-político profissional e no Código de Ética, evidenciando-se a mudança de posicionamento em relação à realidade e à mesma categoria profissional. É o pluralismo a porta de entrada para a diversidade cultural, composto por construções sócio-históricas que mediam de forma particular o exercício profissional.
Procurando ter um quadro geral da construção e particularidades dos Cras, abre-se o Capítulo II com uma aproximação à Política Nacional de Assistência Social, sua origem, progressos e mudanças, para assim chegar ao Cras como espaço de concretude da política. Fechamos o capítulo com as análises correspondentes ao Cras de Parelheiros e as reflexões principais das entrevistas com os assistentes sociais em torno da questão da diversidade cultural presente no local e nas suas dinâmicas.
necessita aprofundar suas análises, uns dos diferenciais da presente dissertação é seu caráter propositivo, o qual está expressado no Capítulo III, quando se especifica uma série de propostas a partir da interculturalidade como uma possibilidade de aproximação a contextos culturalmente diversos.
Capítulo I
SERVIÇO SOCIAL: UMA PROFISSÃO SOCIALMENTE DETERMINADA NA HISTÓRIA DA SOCIEDADE BRASILEIRA
A nobreza de nosso ato profissional está em acolher aquela pessoa por inteiro, em conhecer a sua história, em saber como chegou a esta situação e como é possível construir com ela formas de superação deste quadro. Se reduzirmos a nossa prática a uma resposta urgente a uma questão premente, retirarmos dela toda a sua grandeza, pois deixamos de considerar, neste sujeito, a sua dignidade humana.
(MARTINELLI, 2006: 12)
No momento de refletir sobre a prática profissional e, mais particularmente, sobre a percepção que os assistentes sociais têm dela, partindo da diversidade cultural para guiar as análises, devemos pensá-la dentro dos macroprocessos da sociedade que, de forma direta, a constituem. É assim que a realidade, que se nos apresenta como um todo, pode ser pensada nos processos sociais, históricos, econômicos, políticos e culturais, ou seja, na relação contradição/totalidade/historicidade, com o qual afinaremos nossa forma de aproximar-nos dela, e promoveremos melhor compreensão e diálogo com a história, por meio da recuperação da processualidade da mesma.
Cada espaço-tempo vai ser resultado das dinâmicas que tiveram lugar anteriormente, reformuladas, redimensionadas, e que, nas palavras de Ianni (1992), “revelem-se aspectos básicos das diversidades regionais, desigualdades raciais, urbanização, industrialização, questão agrária, imperialismo e outros dilemas de grupos e classes sociais, além da sociedade como um todo. Assim se traçam as linhas principais da história da sociedade nacional, enraizando dilemas e perspectivas do presente”1 (p. 52).
Seguindo essa linha de análises, pensamos então o presente em suas intersecções com o passado, já que isso proporcionará melhor compreensão, possibilitando a recuperação da processualidade histórica, uma vez que “a
1
história não é única, homogênea. Modifica-se com as alterações das forças que predominam interna e externamente” (Ibid.: 55)
As forças e os processos sócio-históricos têm repercussões em todas as esferas da vida e suas conseqüências se dão nos planos econômico, social, político e cultural. De forma particular no sistema capitalista, os benefícios e privilégios se acentuam de forma determinante, em alguns países, sendo a riqueza socialmente produzida mas apropriada só por uns poucos, o que reproduz expressões da questão social. Nas palavras de Iamamoto (2007)
Questão Social apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos torna-seus frutos mantém se privada, monopolizada por uma parte da sociedade. (p. 27)
Por isso, para Wanderley (2009),
Constatam-se efeitos perversos (...) tais como: aumento da pobreza e da exclusão social; aumento das desigualdades sociais (entre as classes e os setores sociais em geral e entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos); desemprego estrutural; desindustrialização; aumento das desigualdades sociais, etc. (p. 87)
No caso particular da América Latina e sua realidade, evidencia- como ela não é homogênea:
A realidade latino-americana é una e diversa. Se ela comporta características comuns, derivadas exatamente dos referidos traços, ela se compõe simultaneamente de um mosaico diferenciado de elementos derivados dos modos como os povos construíram e estão construindo suas trajetórias. (WANDERLEY, 2007: 52)
Por isso, é preciso ver tanto as mudanças como os traços que, através do tempo, vem se mantendo, assim como as injustiças e desigualdades que são constantes na estrutura social deste continente, processos que respondem às
na elaboração do pensamento e da cultura, considerando principalmente os processos de exploração econômica e dominação política, ao lado de outros fatores importantes, tais como territoriais, demográficos, étnicos, de gênero. (Ibid. 54)
A questão social, nesse contexto, se expressa através de manifestações cada vez mais variadas, e se localiza em “determinados componentes da organização da sociedade – nação, estado, cidadania, trabalho, gênero – que historicamente passam a ser considerados como críticos para a continuidade e mudança da sociedade” (Ibid. 60). É por isso que essa questão social latino-americana não pode ser analisada a partir dos parâmetros europeus ou norte-americanos, mas precisa ser contextualizada. Nesse sentido, “a problematização da questão social requer sua inserção espaço-temporal, verificar as forças sociais em jogo, datá-la de acordo com o se desenvolvimento, analisando tendências e contradições postas em cada momento” (Ibid. 61).
Para o caso da “esfera cultural”, como o apresenta Wanderley (2009), há duas perspectivas em curso: “homogeneização e diversidade cultural” (p. 90). A homogeneização será feita sobre os valores, idéias, costumes e realidades ocidentais, e a diversidade será vista a partir de quem a desqualifica e de quem a valoriza, por isso “abriram-se oportunidades para o exercício do cosmopolitismo, do multiculturalismo, da tolerância, do respeito à diversidade e, contrariamente, irromperam novas facetas de xenofobia, de intolerância, de perseguição” (Ibid.).
Para o caso particular do Brasil e da conformação da sua sociedade, há uma série de elementos que de forma histórica marcaram sua construção, e que deixam heranças que se chocam e se misturam com novas forças em jogo, sendo imperativo analisá-las para ampliar o entendimento desses fenômenos.
1.1 A história como o momento presente: aproximação à formação sócio-histórica do Brasil
em torno das pessoas (indígenas, negros e brancos); idéias que foram sustentadas em uma suposta naturalidade de identidades impostas
passa-se, então, a afirmar a natural indisposição do índio para a lavoura e natural afeição do negro para ela. A natureza reaparece, ainda uma vez, pela mãos do direito natural objetivo – pelo qual é legal e legítima a subordinação do negro inferior ao branco superior – e do direito natural subjetivo, porem não mais sob a forma de servidão voluntária e sim pelo direito natural de dispor dos vencidos de guerra” (Chauí, 2000: 66)
A história do Brasil apresenta uma característica “especial” que marcou de forma determinante o seu presente: a escravatura. “Foram séculos de escravatura, determinando a organização do trabalho e vida, a economia, política e cultura”, foi assim que se “produziram todo um universo de valores, padrões, idéias, doutrinas, modos de ser, pensar e agir” (IANNI, 1992: 57-58).
Dessa forma, seguindo Ianni (1992), citando a Caio Prado, deu-se uma divisão na sociedade brasileira “duas polarizações que se complementam, desconhecem ou antagonizam”, o escravo e o amo, o que se desdobrou na história brasileira e é assim que “boa parte da cultura, em seus valores, padrões, idéias, doutrinas, explicações, ideologias, ficou vincada por essa determinação essencial” (Ibid. 59). Chauí (2000) a apresenta da seguinte forma:
relações sociais se realizam sob a forma do mando-obediência e do favor” (84)
As relações se sustentaram nessa diferenciação, resultando não só em práticas, como também em modos de pensar, pois como afirma Ianni (1992) “acontece que há sempre alguma contemporaneidade entre as formas de pensamento e as de ser, os modos de vida e trabalho e os de pensar, sentir e agir” (p. 59). Esse processo pode ser visto de forma sintética nas seguintes palavras:
a sociedade brasileira é marcada pela estrutura hierárquica do espaço social que determina a forma de uma sociedade fortemente verticalizada em todos seus aspectos: nela as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mando-obediência. O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem como alteridade (...) quando a desigualdade é muito marcada, a relação social assume a forma nua da opressão física e/ou psíquica. A divisão social das classes é naturalizada por um conjunto de práticas que ocultam a determinação histórica ou material da exploração, da discriminação e da dominação, e que, imaginariamente, estruturam a sociedade sob o signo da nação uma e indivisa, sobreposta como um manto protetor que recobre as divisões reais que a constituem. (CHAUÍ, 2000: 90)
Chauí (2000) observa que esses acontecimentos do passado marcam o nosso presente, e que esses processos de organização social, como a escravatura, ou o afiançamento de um tipo de desenvolvimento desigual e combinado, nos constitui e configura “a nossa história ainda é, por isso, em muitos casos, uma atualidade (...) O Brasil moderno parece um caleidoscópio de muitas épocas, formas de vida e trabalho, modos de ser e pensar” ( p. 60-61), é assim que “toda a sua história está contida no seu presente, como se fosse um país que não abandona nem esquece o pretérito; memorioso” (p. 63).
que produzem e reproduzem nela modos de ser e pensar, que aliás, são resultado de processos históricos “O processo histórico de que resulta o presente, portanto, se torna indispensável para que se possa compreender as condições e as possibilidades de organização e transformação da sociedade”2 (Ibid.: p.63).
Tendo como base esses pressupostos, e visualizando a profissão a partir de sua inserção na sociedade, nos aproximamos dela por seu percurso histórico, já que o sentido e a direcionalidade do Serviço Social está em constante movimento e é fonte do tecido social, resultado das circunstâncias históricas em que ocorrem construções e mudanças no interior da profissão.
1.2 O serviço social no contexto da sociedade brasileira
O Serviço Social historicamente surge em um momento de crise do capitalismo. Para o caso brasileiro, se situa nos anos 30, quando a intervenção do Estado procurava regular a vida social e dar conta das novas dinâmicas que dita conjuntura tinha desencadeado. Pensando então no enfrentamento da questão social, o Serviço Social se institucionaliza e legitima, profissionalizando-se como uma das ferramentas que o Estado e o empresariado, sustentados na Igreja Católica, instauraram com essa finalidade.
As condições estavam dadas: o inconformismo da população com as injustiças sociais, trabalhadores e setores empobrecidos engajados nas lutas sociais, ações assistencialistas e filantrópicas que não dão conta das necessidades da população, entre outras, vem a ser o contexto propício para que o Serviço Social encontre seu espaço de ação e tome a questão social como a sua matéria-prima (YAZBEK, MARTINELLI e RAICHELIS, 2008).
Afiançam-se, então, como sustentadores da ação dos assistentes sociais o Estado, a Igreja Católica e grupos sociais com forte presença feminina, dando características particulares ao perfil e à organização dos profissionais. Depois da criação da primeira Escola de Serviço Social, em São Paulo, em 1936, evidencia-se uma direção particular da visão sobre a questão social, “a contribuição do Serviço Social, nesse momento, incidirá sobre valores e comportamentos de seus „clientes‟ na perspectiva de sua integração à
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sociedade, ou melhor, nas relações sociais vigentes. Trata se de um enfoque psicologizante e moralizador centrado no indivíduo e na família” (Ibid.: 11).
É assim que o Estado, como ente regulador, após a fundação de outras escolas e com ampla demanda laboral, se vê instigado a pensar e ampliar uma série de ações sociais, as quais serviriam, por sua vez, tanto para possibilitar o processo de acumulação capitalista como de resposta às demandas da população, dando assim espaço à implementação das políticas sociais.
Abre-se um novo campo estatal de mercado de trabalho para os assistentes sociais, sustentado numa nova perspectiva de atuação.
Há então uma reorientação da profissão, que para atender às novas configurações do desenvolvimento capitalista avança na perspectiva de ampliar seus referenciais técnicos e sistematizar seu espaço sócio-ocupacional. Esse processo mantém a profissão no caminho do pensamento conservador pela junção do discurso humanista cristão com um suporte técnico-científico de base positivista. (Ibid.: 14)
(PUC-SP e PUC-RJ), ampliando-se o número de profissionais qualificados para docência, onde
O Serviço Social desenvolveu-se na pesquisa sobre a natureza de sua intervenção, de seus procedimentos, de sua formação, de sua história e, sobretudo, acerca da realidade social, política, econômica e cultural onde se insere como profissão na divisão social e técnica
do trabalho. (YAZBEK, MARTINELLI e RAICHELIS, 2008: 20)
O projeto ético-político do Serviço Social brasileiro, como construção coletiva e em estreita relação com o projeto societário, resultado de um debate que vinha se desenvolvendo desde a década de 1970 com a luta contra o conservadorismo profissional, e que teve sua materialização nos anos 90, responde assim de forma particular ao contexto e dá um enquadramento específico e marcos de ação determinados, já que
Nesse contexto, tensionado pelas mudanças em curso, enfrentando novos interlocutores nos espaços públicos, convivendo cotidianamente com a violência da pobreza e com as incontáveis faces da exclusão social, o assistente social brasileiro avança na construção de seu projeto ético-político na direção de uma sociabilidade justa, igualitária e onde direitos sociais possam ser assegurados. (Ibid.: 23)
Martinelli (2009) assinala uns requisitos que foram atingidos no processo de construção e consolidação do projeto ético-político, e que foram constitutivos do contexto no qual esse processo se gestou e desenvolveu:
- uma concepção clara de profissão;
- uma concepção ideopolítica explícita e assumida como hegemonia conquistada legitimamente;
- uma legislação profissional substantiva;
- um conjunto de diretrizes para a formação profissional; - um currículo de curso capaz de viabilizar essas diretrizes;
O Código de Ética, como uma das materializações do projeto ético-político, aprovado em 1993, sustentou-se em valores como a liberdade, em suas intrínsecas relações com a autonomia e emancipação, visando atuar sempre na defesa de direitos humanos; assim mesmo, na procura da justiça social e a equidade, recusando também qualquer tipo de preconceito, promovendo a ampliação e efetivação da cidadania e uma nova relação com os usuários, comprometendo-se com a melhoria na prestação dos serviços. Da mesma forma, deu-se um avanço em relação à busca de fazer efetiva das competências e atribuições que estavam previstas na Lei de Regulamentação da profissão.
Assim, o Código de Ética estabelece-se como uma referência para a ação profissional, alimentando debates acadêmicos para a sua efetivação e materialização na prática cotidiana, em consonância com as dinâmicas próprias da profissão e da sociedade.
É um código vigoroso, que fundamenta o projeto ético-político profissional e o articula a um projeto social mais amplo. É um código que pressupõe um profissional competente, crítico, qualificado teoricamente e, sobretudo, com muita coragem para lutar contra os obstáculos que se interpõem em sua trajetória. (MARTINELLI, 2009:
158)
Para Yazbek (2009),
É assim desafiado pelas mudanças em andamento, convivendo cotidianamente com a violência da pobreza e com as incontáveis faces da exclusão social que o assistente social trava o embate a que se propõe: o de avançar em seu projeto ético-político na direção de uma sociabilidade mais justa, mais igualitária e em que direitos sociais sejam observados (p. 119)
atuação do Estado na esfera pública, e, de forma especial, nas políticas sociais.
O foco na efetivação dessas políticas e na filantropia com seu acionar reativado são algumas das formas de responder a esse contexto de retrocesso em termos das políticas agenciadas pelo Estado. O campo social sofre um déficit no seu investimento, os trabalhadores se desenvolvem em situações de pauperização das condições de trabalho, das condições de vida. Assim, a profissão
se vê confrontando com esse conjunto de transformações societárias, no qual é desafiado a compreender e intervir nas novas configurações e manifestações da questão social, que aprofundam a precarização do trabalho e agravam as condições de vida dos trabalhadores. Enfrenta processos e dinâmicas que trazem para a profissão novas temáticas, novos (e os de sempre) sujeitos sociais e questões como o desemprego estrutural, os sem-terra e os sem-teto, o trabalho infantil, a violência doméstica, a discriminações de gênero e etnia, as drogas, a Aids, as crianças e adolescentes em situações de rua, os doentes mentais, os portadores de deficiências, os velhos, e outras tantas questões e temáticas relativas à exclusão. (YAZBEK, MARTINELLI e RACHELIS, 2008: 23)
1.3 O serviço social nos anos 2000: mudanças e permanências
Como se pode ver, o Serviço Social no Brasil surge e se desenvolve a partir da realidade que o constitui, é assim que dá respostas às demandas que estão postas nessa realidade, pois “o fundamento das profissões é a realidade social, parte-se do pressuposto de que as profissões são construções históricas que somente ganham significado e inteligibilidade se analisadas no interior do movimento das sociedades nas quais se inserem” (YAZBEK, MARTINELLI, RAIHELIS, 2008: 6). Nas palavras de Netto (2006),
Por tudo isso, os projetos profissionais igualmente se renovam, se modificam (144).
O percurso histórico da profissão, redimensionando sua inserção na sociedade brasileira, que a constitui e modifica, evidencia processos dos quais resultam novas aproximações, tanto teóricas quanto práticas. “O serviço social brasileiro é uma construção histórica e coletiva da categoria profissional” (Ibid.) é “uma profissão, histórica, instituinte, uma verdadeira construção social, uma vez que a profissão se transforma ao se transformarem as condições em que se dá o seu engendramento histórico” (MARTINELLI, 2009: 150).
Na medida em que se procura olhar para a profissão e fazer essa inter-relação necessária com o momento atual,
É necessário romper com uma visão endógena, focalista, uma visão
“de dentro” do Serviço Social, prisioneira em seus muros internos. Alargar os horizontes, olhar para mais longe, para o movimento das classes sociais, e do Estado em suas relações com a sociedade; não para perder ou diluir as particularidades profissionais, mas ao contrário, para iluminá-las com maior nitidez (...) para que se possa captar as novas mediações e requalificar o fazer profissional, identificando suas particularidades e descobrir alternativas de ação. (IAMAMOTO, 2007: 20)
Sonia Batista, assistente social do Cras de Parelheiros, tentando fazer esse processo, no seu exercício profissional, de olhar para mais longe, de entender os movimentos dos sujeitos com os quais trabalha assinala:
Eu acho que eu tenho tentado trabalhar de uma forma diferenciada na medida em que a gente está lá no território, estando lá você já tem uma outra visão (...) é um tempo curto mas que me trouxe tanta coisa boa, tanta informação, tanta que quem sabe, vai abrindo sua mente, vai trazendo outras opções, vai traçando outros trabalhos (...) trabalhar no território é você conhecer aquele território, ficar lá o período todo, saber o que está acontecendo, articular com os outros setores que você tem ali na região, é fazer esse trabalho. (depoimento colhido em junho de 2011)
propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de demandas emergentes no cotidiano” (IAMAMOTO, 2007: 20).
Os assistentes sociais, ao aproveitar essas demandas e fazê-las propostas de atuação, como pontos de início para o trabalho com as pessoas e comunidades, podem ultrapassar os requerimentos imediatos e burocráticos que o mesmo mercado de trabalho demanda do profissional, assim, quanto à resposta pontual para uma problemática particular, sem sequer aprofundar-se na mesma.
É estabelecer saídas em conjunto com os sujeitos políticos, criando processos e dando continuidade aos mesmos para “ir além das rotinas institucionais e buscar apreender o movimento da realidade para detectar tendências e possibilidades nela presentes passíveis de serem impulsionadas pelo profissional” (Ibid.), porque nessa mesma realidade é que o profissional pode aprender a mobilizar-se, partindo dela é que poderá saber os alcances e limites da sua ação “as possibilidades estão dadas na realidade, mas não são automaticamente transformadas em alternativas profissionais. Cabe aos profissionais apropriarem se dessas possibilidades e, como sujeitos, desenvolvê-las transformando as em projetos e frente de trabalho” (Ibid.). Sonia Batista, uma das técnicas do Cras, o vê da seguinte forma:
Você precisa conhecer para poder propor, para poder dar algumas coordenadas para essas pessoas, então eu acho que o primeiro passo para um trabalho nosso é extremamente esse, você ir, mas desprovida dos seus preconceitos, das suas visões, das suas coisas, porque é lá que você vai criar vínculos e tentar fazer alguma coisa. (depoimento colhido em junho de 2011)
A nobreza de nosso ato profissional está em acolher aquela pessoa por inteiro, em conhecer a sua história, em saber como chegou a esta situação e como é possível construir com ela formas de superação deste quadro. Se reduzirmos a nossa prática a uma resposta urgente a uma questão premente, retirarmos dela toda a sua grandeza, pois deixamos de considerar, neste sujeito, a sua dignidade humana. (MARTINELLI, 2006: 12)
A prática profissional é um espaço com múltiplas possibilidades, onde os sujeitos políticos produzem e reproduzem as suas vidas, e nós, assistentes sociais, estamos chamados a responder às demandas que se reconfiguram nos cenários, resultado dos posicionamentos desses sujeitos, dos seus questionamentos, tendo como ponto de partida a sua interpretação das situações “assim como precisamos saber ler conjunturas, precisamos saber ler também o cotidiano, pois é aí que a história se faz, aí é que nossa prática se realiza” (MARTINELLI, 2006: 15).
É nesse cotidiano que nós aprofundamos as análises, evidenciamos não só as problemáticas existentes se não também as formas de resistência que esses sujeitos no seu dia a dia vão construindo. “Apreender a dinâmica da vida social, os processos de produção e reprodução da vida social como determinantes da cultura, das lutas, dos enfrentamentos dos sujeitos com os quais trabalhamos é crucial para que não retiremos o seu protagonismo, ou os transformemos em vítimas” (Martinelli, 2011). Somo desafiados e interpelados constantemente a
Redescobrir alternativas e possibilidades para o trabalho profissional no cenário atual; traçar horizontes para a formulação de propostas que façam frente à questão social e que sejam solidárias com o modo de vida daqueles que a vivenciam, não só como vítimas, mas como sujeitos que lutam pela preservação e conquista da sua vida, da sua humanidade. Essa discussão é parte dos rumos perseguidos pelo trabalho profissional contemporâneo. (IAMAMOTO, 2007: 75)
difícil o desvendamento das tramas que limitam o acionar profissional “a preocupação é afirmar a profissão e as particularidades de sua intervenção em face dos novos contornos da questão social e dos novos padrões de regulação com que se defrontam as políticas sociais na contemporaneidade” (YAZBEK, MARTINELLI e RAICHELIS, 2008: 26).
As políticas desenhadas e formuladas para sujeitos específicos da sociedade (idoso, criança e adolescente, família, morador de rua), são a expressão da diversidade, e já que é uma questão transversal no campo de ação dos assistentes sociais, é preciso que seja um elemento de análise e questionamento tanto na academia quanto no cotidiano profissional. Para ver umas das formas nas quais tem sido contemplada essa diversidade cultural, tomamos o pluralismo como categoria constitutiva do projeto ético-político profissional e que nos servirá de porta de entrada para as reflexões e análises sobre a diversidade cultural.
1.4 O pluralismo como constitutivo da categoria profissional e da sociedade
Temos visto como a história se constitui e nos permite ver possibilidades de atuação, dependendo da perspectiva que tenhamos para essa realidade e o entendimento que ganhemos dela.
Para analisar a profissão como parte das transformações históricas da sociedade presente, é necessário transpor o universo estritamente profissional, isto é, romper com uma visão endógena da profissão, prisioneira em seus muros internos. E buscar entender como essas transformações atingem o conteúdo e direcionamento da própria atividade profissional; as condições e relações de trabalho nas quais se realiza; como afetam as atribuições, competências e requisitos da formação do assistente social (...) extrapolar o universo do Serviço Social para melhor apreendê-lo na história da sociedade da qual ele é parte e expressão. (IAMAMOTO, 2006: 167)
muitas temáticas adquirem importância segundo as conjunturas em que se apresentam. Esse é o caso da pluralidade, categoria que passa a ser um importante componente do projeto ético-político profissional e que faz parte dessas mudanças e novas ordenações da profissão. Essa aproximação ao pluralismo, por parte do Serviço Social, fundamenta-se na idéia de que
A elaboração e a afirmação (ou, se se quiser, a construção e a consolidação) de um projeto profissional deve dar-se com a nítida consciência de que o pluralismo é um elemento factual da vida social e da própria profissão, que deve ser respeitado. Mas este respeito, que não deve ser confundido com uma tolerância liberal para com o ecletismo, não pode inibir a luta de idéias. Pelo contrário, o verdadeiro debate de idéias só pode ter como terreno adequado o pluralismo que, por sua vez, supõe também o respeito às hegemonias legitimamente conquistadas. (NETTO, 2006: 146)
Nas palavras de Iamamoto (2003), “nosso pluralismo não é o pluralismo liberal, mas o pluralismo com hegemonia, que se fundamenta no respeito à democracia, à liberdade, aos direitos humanos, recusando todas as formas de preconceito e orientado para a emancipação dos indivíduos sociais” (p. 109)
Observe-se que o pluralismo, por ser parte integrante da vida social, se nos apresenta como um conceito amplo, de variadas e diversas definições assim como expressões
(...) o grau de heterogeneidade, ou falta de uma unidade teórica sobre o tema, expressa as ciladas de suas elucidações.
Sem redundâncias, é possível afirmar que o Pluralismo possui uma abordagem conceitual plural, isto é, não possui expressão nem conceito unívocos, mas uma diversidade de modelos que não devem restringir entre si. Adquirindo formas e dimensões variadas, este termo é freqüentemente utilizado por intelectuais dos mais diversos campos do conhecimento científico, os quais também lhe atribuem semânticas diversas. (ADRIANO, 2004: 11)
valorizando de forma particular o indivíduo, é assim que “a diferença é vista como um fator positivo na ordem social e no progresso social” (p. 6), isso tudo segundo o pensamento liberal e sustentado no que o autor chama de “valores pluralistas” como são: a perspectiva da positividade do conflito, a ideia de tolerância, a ideia de divisão dos poderes, e a ideia do direito das minorias. Assim mesmo, por ser uma categoria cambiante, foi adquirindo novas formas de se expressar. O autor chama a atenção para a nova dimensão na composição desse pluralismo “formado não apenas por indivíduos, mas também por sujeitos coletivos, por diferentes partidos, diferentes associações” (Ibid.: 9).
Outra forma de ver o pluralismo é a partir da teoria do conhecimento, onde, seguindo Coutinho (1991), pluralismo não implica ecletismo, mas uma “troca de ideias, da discussão com o diferente” porque assim é que “podemos afinar nossas verdades, fazer com que a teoria se aproxime o mais possível do real” (Ibid.: 13). Portanto, o pluralismo remete à “abertura para o diferente, de respeito pela posição alheia, considerando que essa posição, ao nos advertir para os nossos erros e limites, e ao fornecer sugestões, é necessária ao próprio desenvolvimento da nossa posição e, de modo geral, da ciência” (Ibid.).
O Serviço Social apropriou-se do pluralismo, a partir de diferentes “espaços”, como se pode ver no pluralismo profissional, no reconhecimento dos “membros do corpo profissional” como indivíduos diferentes, o que “configura um espaço plural do qual podem surgir projetos profissionais diferentes”, assim como no pluralismo no “plano da produção de conhecimentos”, permitindo que os assistentes sociais fizessem inter-relações com teorias e metodologias críticas em relação às condições econômicas e sociais que o conservadorismo vinha impondo (NETTO, 2006).
A profissão, no seu conjunto, reconhece e trabalha para dar conta desses novos contextos, dos sujeitos complexos que neles interagem, onde se afiançam valores como liberdade e igualdade, sem perder de vista que essa igualdade não impede o reconhecimento da diversidade.
compromisso com a autonomia, a emancipação e a plena expansão dos indivíduos sociais. Consequentemente, este projeto profissional se vincula a um projeto societário que propõe a construção de uma nova ordem social, sem exploração/dominação de classe, etnia e gênero. A partir destas opções que o fundamentam, tal projeto afirma a defesa intransigente dos direitos humanos e o repúdio do arbítrio e dos preconceitos, contemplando positivamente o pluralismo, tanto na sociedade como no exercício profissional. (NETTO, 2006: 155)
Em síntese, destaca-se o fato de que o pluralismo institui-se como uma categoria importante nos próprios eixos do projeto ético-político (nas diretrizes curriculares e no Código de Ética), o que enriqueceu a perspectiva da formação e da prática profissional, e fortaleceu a profissão no seu esforço de conseguir uma ruptura com a tradição conservadora, como também no fato de fundamentar-se teórica e metodologicamente.
Para considerar especificamente o componente do pluralismo que se refere à diversidade implícita nas sociedades, torna-se necessário fazer uma aproximação à concepção de cultura e de diversidade cultural, variáveis com as quais a questão social adquire e mantém sentidos próprios, se transforma e reformula, o que temos que considerar, como assistentes sociais, para uma compreensão real dos campos de trabalho, assim como dos sujeitos que produzem e reproduzem as suas vidas.
1.5 Construções sociais fundamentais: a cultura e a diversidade cultural como determinantes das sociedades.
O termo cultura tem sido trabalhado a partir de diferentes perspectivas e tem tido variações na sua concepção segundo os contextos nos quais é usado. Assim, o associamos com algumas das suas variantes, por exemplo, no caso de culto/a, no sentido de ter muitos conhecimentos sobre uma ou várias áreas, ou ter a capacidade, pela sua cultura, de exercer determinadas funções; nesse aspecto, vemos a associação num sentido positivo.
cultura surge como algo que existe em si e por si mesma e que pode ser comparada (cultura superior, cultura inferior)” (CHAUÍ, 2003: 244).
Foi também ligada ao termo civilização (sendo em sentido oposto em muitos casos), que o grau de cultura de algumas sociedades foi medido para indicar o nível de desenvolvimento. O termo então tem sido entendido por muitos sob uma série de comparações e contradições, para igualar ou para diferenciar, para dar atribuições ou para tirá-las.
Numa “visão múltipla”, Chauí (2006) entende a cultura como uma “prática social que instituiu um campo de símbolos e signos, de valores e comportamentos, acrescentando, porém, que há campos culturais diferenciados no interior da sociedade em decorrência da divisão social das classes e da pluralidade de grupos e movimentos sociais”, assim mesmo é “um campo específico de criação: criação da imaginação, da sensibilidade e da inteligência que se exprime em obras de arte e obras de pensamentos, quando buscam ultrapassar criticamente o estabelecido” (p. 135).
Por isso, ao ver a cultura como uma construção social que pode ser modificada, a consideramos como processos sociais, mutáveis, em que se evidencia a experiência social que a circunscreve, procurando compreender sua singularidade e sua relação com a dinâmica social mais ampla (KHOURY, 2000), cultura entendida, portanto, como “modos como os processos sociais criam significações e como essas interferem na própria história (...) como todo um modo de vida” (KHOURY, 2000: 117).
Dessa mesma forma, a passagem do estado natural, assinalado por Chauí (2006), para o da cultura como modo de vida, implica a atribuição de sentido que se dá às coisas com as quais os sujeitos se relacionam. Desde a sua socialização, onde aprendem a forma de ser no mundo, seu lugar no mesmo, até quando vão se inserindo nas diferentes instituições sociais (escola, igreja, trabalho), nas quais vão formando uma série de valores, de posicionamentos por comparação, na diferença e na igualdade, que insere o sujeito na sociedade.