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POESÍA BY ÉTRANGERS

a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente.

(João Guimarães Rosa)

Escrever é um caso de devir, sempre inacabado, sempre em via de fazer-se, e que extravasa qualquer matéria vivível ou vivida. (Gilles Deleuze)

Bastidores dos poetas

O projeto de ensino que neste texto exponho - nomeado Rotas Turísticas dos

Afetos - foi realizado através do Idioma Sem Fronteiras pela Universidade Federal do

Rio Grande do Sul, o programa IsF - criado no ano de 2012 a pedido da Secretaria de Educação Superior do Ministério da Educação (MEC) - propicia a formação e capacitação em diversas línguas estrangeiras, tais como francês, alemão, inglês, etc. destinadas a alunos de nível superior interessados em programas de mobilidade, bem como também oferta cursos de língua portuguesa para estrangeiros em território brasileiro.

O projeto Rotas Turísticas dos Afetos aconteceu no segundo semestre do ano de 2017, teve a duração de um mês e carga horária de 16 horas. Contou com a presença de alunos provenientes de diferentes países: Colômbia, Venezuela, Benin e Uganda, o que sinaliza o fato de os encontros terem acontecido entre falantes de português, espanhol, inglês e francês. O objetivo do projeto foi de propiciar um território fértil ao sujeito e sua palavra de estrangeiro, marcada, por vezes, pelo entre, tanto territórios geográficos quanto de linguagem.

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Porto Alegre; as rotas turísticas pessoais; e a licença poética. A partir de cada um desses eixos textos foram lidos e produzidos. No primeiro tempo desse projeto passamos pela leitura poesia e escuta de canção; já no segundo tempo nos dedicamos à confecção de um mapa das rotas turísticas, momento no qual conhecemos através de relatos pessoais os lugares ao redor do globo já visitados; e finalmente no terceiro tempo demos seguimento o projeto com uma intensa-leve leitura de poetas brasileiros e discussão acerca de o que é a licença poética, exercícios fundamentais para a produção final do curso: a leitura de um livro de poesia autoral, escrito por estrangeiros..

Leitura em voz alta de poesia autoral

A brincadeira muito séria - se faz necessário ser dito - que neste texto narro já é desde o título anunciada: uma brincadeira feita com palavras, num território transitório, num jogo entre linguagem e sujeito. Conto uma estória-experiência sobre leitura, leitura de poesia acontecida em roda, poesia escrita por estrangeiros, e também brasileiros, leitura feita em voz alta, leituras feitas entre camaradas.

E aconteceu assim: poesias a postos, olhos todos atentos, corpos-lado-a-lado, voz e respiração e ouvidos em ação. Maria fala em voz alta o título de seu poema

Lembranzas1 de uma guria e se ouve e se segue a leitura: [...] aprendi a viver sozinha/ conheci o mundo/ não em fotos, foi em palabras [...]. Mais adiante no tempo

cronometrado que passava incessantemente Colina or Declive irrompe da boca de Will e sua voz segue: Uma vida vivemos/ É uma colina or declive? [...]. E na medida em que poesia era lida, conversávamos sobre os sentidos do escrito, imagens criadas, recepções dos poemas; ainda: se ria, se lia, se lia a si próprio em roda e se movimentava sujeito e linguagem.

A brincadeira-séria - essa leitura de poesia em roda - foi fruto do empenho de sete pessoas, sujeitos provenientes de territórios geográficos diversos: Venezuela, Colômbia, Congo, Benin e Brasil. Juntos, nós sete, nos encontramos no decorrer de 30 dias, nesses encontros poesias foram lidas, canções escutadas, linhas de rotas turísticas

1 Algumas palavras não dicionarizadas - tal como lembranzas e palabras - que neste texto são expostas

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tracejadas em mapas, territórios visitados através de narrativas. Que é licença poética? perguntou Pierre um dia tão meio-de-repente. Foi essa a pergunta - ocorrida num dia enquanto líamos poesia -, talvez até despretensiosa tenha sido, que serviu como disparo para a criação, para o deslizamento-passeio na e pela linguagem. Importantíssimo foi que essa questão tenha sido colocada para que o projeto Rotas Turísticas dos Afetos tenha tomado o caminho-rota que tomou: rumo à escrita e leitura de poesia, num terreno fértil à criação

Semi-acabada a leitura de Maria, o bate-papo começa: lembranzas e palabras foi

intencional? questiona Gustavo. Interessante o efeito de sentido que se teve com o uso das palavras lembranzas e guria, uma vez que a primeira pertence a tua língua materna e a outra ao falar do gaúcho, comenta Osmar. Interessante é perceber esse se marcar na

linguagem pelas palavras enquanto sujeito entre territórios geográficos e linguísticos, como é possível perceber nos casos de lembranzas, palabras e or; o que me parece vir à tona, o que se mostra, é o sujeito de linguagem em seu estado de trânsito, num processo de se fazer falante de uma língua, no entre, no avizinhamento, em sua singularidade de falante. E a leitura de poesia em roda continuava.

Poesia, por que poesia? Eis: a escolha pela escrita de poesia se deu pelo fato de tal gênero não apenas propiciar a experimentação com as palavras mas também sustentar aquilo que poderia ser apontado como simples erro passível de correção. Nesse sentido, o projeto se preocupou em forjar um terreno fértil ao sujeito e sua palavra. Mais: procurou se afastar de uma noção de erro e dar vazão a algum tipo de boa relação entre sujeito e linguagem. Como muitíssimo bem poetizou Manoel de Barros: há que apenas saber errar bem o idioma.

Osmar, por sua vez, lê seu poema sonoramente ritmado: [...] Os dias passam/ e

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com tesouro, sabe? Guardar algo precioso, como jóias e ouro, num baú, fazer algo virar tesouro.

Necessário foi - para o acontecer das Rotas Turísticas dos Afetos - suportar o sentido por vir, que se encontra em suspenso, ainda a ser atribuído, criado; também suportar esse estar do estrangeiro no processo de devir falante de língua brasileira, um devir na língua que se dá no exercício da fala-escuta e escrita-leitura, numa relação de deslizância entre significado e significante; um suportar sustentado pela brincadeira com palavras.

Nesse semi-final retomo às inspirantes ideias expressas nas epígrafes acima postas: se João Guimarães Rosa traça um laço indissociável entre a linguagem e vida, Gilles Deleuze, por sua vez, propõe um interessante lugar à escrita: o território do devir. No texto A literatura e a vida - inserido na obra Crítica e Clínica - o filósofo é categórico ao afirmar: “Escrever não é certamente impor uma forma a uma matéria

vivida. A literatura está antes do lado do informe, do inacabamento (...). Escrever é um caso de devir sempre inacabado (...). A escrita é inseparável do devir. (DELEUZE,

1997, p. 11). A literatura, para o filósofo francês, está localizada num lugar que extrapola e vai além da matéria vivida, está colada no devir, que por sua vez não se propõe a atingir uma forma, mas sim achar uma zona de vizinhança, ficar no “entre”, no “meio”. Ela - a literatura - produz no sistema da língua dominante uma fuga, põe a língua em variação.

Foi na companhia da poesia que um pacto de escuta-fala-leitura-escrita se fez em nome da tentativa de forjar em conjunto um terreno fértil ao sujeito e a sua palavra; um território arejado o suficiente no qual a experimentação e o extrapolamento com a linguagem coubesse, um lugar no qual fosse possível tomar as palavras em relação umas com as outras num campo de significação em trânsito, entre territórios. Mais: que comportasse as palavras, os sentidos, os estrangeiros, o devir na língua desses. Ainda: que propiciasse uma relação estreita e íntima entre sujeito e palabra e atesouramento.

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