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20 - Princípios de uma Nova Ética - Pietro Ubaldi (Volume Revisado e Formatado em PDF para iPad_Tablet_e-Reader)

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APRESENTAÇÃO ... 1

I. DEUS – DUAS CONCEPÇÕES ... 3

II. EVOLUÇÃO DA ÉTICA ... 28

III. MÉTODOS DE VIDA ... 49

IV. A PERSONALIDADE HUMANA ... 72

V. OS TRÊS BIÓTIPOS TERRESTRES ... 98

VI. O DESTINO ... 122

VII. PSICANÁLISE ... 146

VIII. A NOVA PSICANÁLISE ... 164

IX. TÉCNICAS DE TRATAMENTO ... 187

X. ÉTICAS DO SEXO ... 211

XI. A ÉTICA SEXÓFOBA DO CRISTIANISMO ... 226

XII. O SEXO COMO PROBLEMA ATUAL ... 247

XIII. CONCLUSÕES. AMOR E CONVIVÊNCIA SOCIAL... 264

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APRESENTAÇÃO

Princípios de uma Nova Ética é o 10o volume da II Obra, que foi chamada

de brasileira, porque escrita no Brasil. Este livro segue o recém publicado,

Queda e Salvação, que é o 9o volume da II Obra. Assim está sendo publicada

esta segunda série de 12 volumes, paralela à primeira, já quase toda editada no Brasil, também de 12 volumes.

Estamos, desse modo, nos aproximando do encerramento desta gigantes-ca Obra, que é composta de duas partes, a I e a II Obra, formando um con-junto com cerca de 10.000 páginas. Por isso, a fase atual de desenvolvimen-to do pensamendesenvolvimen-to central da Obra não é mais aquela das teorias gerais ori-entadoras do conhecimento a respeito do imenso problema do universo, mas é a fase do estudo das consequências das afirmações gerais e das suas apli-cações no terreno prático, para iluminar quem queira viver com inteligência e honestidade, compreendendo o pensamento das leis que dirigem a existên-cia de todos os seres.

É neste ponto que o leitor amadurecido poderá ver a importância destes úl-timos livros conclusivos, escritos para nos dirigir na ação, o que significa agir com inteligência, evitando erros que, depois, pelos princípios de equilíbrio e justiça da Lei, é inevitável ter de pagar, duramente, cada um às suas custas, com a própria dor.

Nestes livros, porém, não queremos impor conduta alguma. Cada um per-manece livre, e ninguém pode constranger o outro. Podemos apenas aconse-lhá-lo, mostrando-lhe qual a consequência fatal de não se viver de acordo com a Lei, mas contra ela, e indicando-lhe o melhor caminho para evitar a reação da Lei, que é a dor, saudável aviso para não voltar ao erro. O destino de cada um está nas próprias mãos, e não nas de quem, pensando e escre-vendo, pode com isso explicar, pelas leis que dirigem a vida, o que acontece ao indivíduo como consequência de seu livre comportamento. Para um ser inteligente, que sabe raciocinar, tal demonstração poderia bastar. Mais do que isto o escritor não pode fazer. Se o leitor não entender, terá depois de ler um outro livro, escrito por si mesmo, com a sua dor, no seu destino. No en-tanto é bom oferecer-lhe uma explicação preliminar, servindo como um avi-so, para que ele, conhecendo o funcionamento das leis que regulam a sua vida, possa assim evitar o seu próprio prejuízo.

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As teorias gerais de que acima falávamos estão contidas nos livros básicos da obra: A Grande Síntese, Deus e Universo, O Sistema e Queda e Salvação. Eles oferecem um sistema científico-filosófico-ético-teológico completo, cujos pormenores os outros livros da Obra explicam, ampliando aspectos particula-res. Nesses livros básicos, o leitor encontrará as demonstrações que nos auto-rizam a chegar às conclusões contidas no presente volume. Isto prova que não chegamos a elas levianamente, fantasiando, mas sim amadurecidos pelo pen-samento desenvolvido em milhares de páginas, que constituem a premissa positiva das conclusões.

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I. DEUS – DUAS CONCEPÇÕES

Deus existe. Uma prova poderia ser a que nos é oferecida pelo materialismo ateu, que O nega. Assim como a sombra implica a presença da luz, também a negação pressupõe a existência do que se nega. Só se pode afirmar a não-existência daquilo que sabemos que existe. De outra maneira, de que se afir-maria a não-existência? Do nada? Mas o nada já não existe por si próprio, e para que ele não exista, não é necessário afirmar a sua não-existência. Nada se pode dizer do que não conhecemos, porque não existe. Como se pode afirmar que não existe o que não sabemos o que é? Se não sabemos o que é o nada, é porque ele não existe. Como se pode afirmar a sua não-existência, quando nin-guém sabe da sua existência? Portanto, se negamos uma coisa, é porque ela existe. A negação de Deus prova a Sua existência.

No caso do materialismo ateu, porém, essa negação não representa a ne-gação de Deus no que Ele é – porque, para o homem, isto está além do seu conhecimento e porque, no absoluto, Deus está acima de toda a nossa nega-ção ou afirmanega-ção – mas somente a neganega-ção da ideia que o homem, num dado momento histórico, tem de Deus, isto é, da representação que ele, num de-terminado tempo, faz de Deus, conforme o grau de evolução atingido. Assim, por exemplo, um materialista entre os selvagens seria quem nega a existência do Deus do feiticeiro, representado por um boneco com a cara e as qualida-des do selvagem.

Há, então, dois pontos bem diferentes na questão: 1) Deus em Si mesmo, no absoluto, acima da compreensão humana; 2) Deus como ideia concebida pelo homem no seu relativo, constituindo a imagem que ele faz de Deus conforme os seus poderes de representação. O primeiro caso nos foge completamente, porque está além do nosso conhecimento. O segundo caso representa tudo o que conseguimos saber de Deus, isto é, uma representação a nós relativa, mas progressiva em função do grau de evolução por nós atingido.

Que negou, então, o materialismo da ciência? Negou somente a única coisa que ele podia negar, isto é, o que o homem conhecia: o conceito relativo de Deus, sustentado pelas religiões no período histórico em que o materialismo apareceu. No entanto, pelo próprio fato de que aquele conceito, sendo relativo, está em evolução e de que hoje a humanidade entrou numa fase mais adiantada de amadurecimento mental, o qual leva tudo a ser concebido, e também Deus, com outra forma psicológica e diferentes pontos de referência, eis que o velho

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materialismo ateu acabou por se encontrar perante uma nova ideia de Deus, e não mais aquela que ele estava negando. Com a evolução, que tudo arrasta no seu caminho, esta ideia havia-se transformado, devido a um amadurecimento evolutivo geral, do qual a própria ciência materialista, com a sua negação do velho conceito de Deus, faz parte. Disto se segue que o clássico materialismo ateu não representa, hoje, senão uma negação da velha concepção de Deus sustentada pelas religiões, enquanto a própria ciência acabou desembocando numa concepção mais adiantada de Deus, a qual ela não pode mais negar, ten-do, pelo contrário, de aceitá-la, porque esta ideia explica e funde em unidade os resultados parciais da ciência, dando a eles um sentido orgânico e telefina-lista, sem o qual tudo fica abandonado na desordem do acaso e no mistério dos incontáveis problemas ainda não resolvidos.

Assim, na economia da vida, o materialismo ateu não foi um meio para chegar à negação de Deus, mas apenas para destruir a velha ideia que Dele era feita pelo homem nas religiões e, com isso, atingir uma nova concepção, mais evoluída, completa e convincente. Tal processo ainda está realizando-se. De fato, a nova ciência destruiu a concepção materialista da matéria, a qual ela desintegrou, desmaterializando-a em energia. Hoje, como estamos vendo acontecer, a ciência está sendo constrangida pelos fatos, os quais ela não pode negar, a abstrair-se cada vez mais da materialidade sensória para chegar a en-tender a matéria como uma realidade imaterial, explicando a substância das coisas com um conceito que cada vez mais se aproxima e tende a coincidir com aquele imponderável inteligente, chamado de espírito no passado.

O que nos interessa agora é observar quais são essas duas concepções de Deus, com tudo o que delas decorre, sobretudo a respeito da conduta huma-na, o que nos conduz ao terreno da ética, nosso atual assunto desenvolvido neste volume. Como sempre acontece entre o que está morrendo e o que está nascendo no seu lugar, as duas concepções estão em luta. A primeira está fixada nas religiões e na respectiva forma mental, filha do passado menos evoluído. A segunda é representada pelos espíritos mais amadurecidos, que se rebelam contra o passado, antecipando a nova maneira de conceber Deus e as relações do homem com Ele.

O conceito de Deus e a respectiva ética que nos oferecem as religiões atu-ais, corresponde ao grau de amadurecimento evolutivo atingido pela humani-dade atual. Esse é o único conceito que as religiões nos podem oferecer, por-que é o único por-que a maioria pode entender, apor-quele com o qual ela concorda,

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porque ele, não importa se atrasado, corresponde aos seus instintos naturais. Um conceito mais adiantado a massa não poderia aceitar, porque está fora da sua forma mental, que estabelece quais são as ideias vigentes em nosso mun-do. Como já explicamos em outros livros nossos, o biótipo dominante na Ter-ra é o involuído e, sendo ele a maioria, tem todos os direitos, afirma e pTer-ratica a verdade que quer, não importa qual seja a sua fé teoricamente professada nas verdades eternas, as quais, por longa experiência, ele sabe torcer, para adaptá-las às suas comodidades.

Qual é então esse conceito que acabamos de mencionar? Uma vez que aqui falaremos de ética, iremos examinar tal conceito sobretudo no que se refere à nossa conduta humana, tendo como ponto de referência Deus e a nossa con-cepção Dele, da qual depende a ética. A ideia que o homem possui de Deus, herdada do passado, está ligada, sobretudo, a um ser todo-poderoso, que, por isso, pode fazer o que bem entender, violando arbitrariamente e à vontade as leis que Ele próprio estabeleceu para o funcionamento da fenomenologia uni-versal. Assim o homem, com a sua forma mental, tinha construído um Deus com as suas próprias e bem humanas qualidades, de dominador rebelde, cujo poder se realiza e se manifesta pela imposição da sua vontade a todos, seja ela qual for cioso dos rivais e egoisticamente preocupado apenas em dominar seus súditos, para ser obedecido por eles. O poder deste Deus, então, não estava na ordem, e sim na violação da ordem. Mas isso é justamente o poder da revolta, que gera desordem e destruição, representando o poder negativo do anti-Deus, e não o positivo de Deus. Estamos nos antípodas. Instintivamente, o homem criou para si uma ideia de Deus feita à sua imagem e semelhança, ideia deri-vada da posição do próprio homem, invertida pela queda no Anti-Sistema. (Que o universo está cindido nos dois termos opostos do dualismo, Sistema e Anti-Sistema, já foi explicado em nosso volume O Sistema. Também no pre-sente livro, quando falarmos de Sistema, abreviaremos com S; e quanto falar-mos de Anti-Sistema, abreviarefalar-mos com AS).

Tal Deus faz milagres, contrapondo-se arbitrariamente à Sua própria or-dem, o que leva a uma contradição absurda, possível na criatura que se revol-ta contra Deus, mas inadmissível em Deus, que, neste caso, esrevol-taria revolrevol-tan- revoltan-do-se contra Si mesmo. Mas o homem não podia sair da sua forma mental e, nada mais possuindo, teve de construir para si a sua ideia de Deus somente com os conceitos que lhe forneciam as suas experiências terrenas, ficando fechado dentro do seu inexorável antropomorfismo. Esse Deus favorece, com

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a Sua graça, apenas quem Ele quer, infringindo o Seu princípio de justiça. Ele cria do nada as almas e as envia, pelos Seus imperscrutáveis desígnios, para viver na Terra, cada uma em condições bem diferentes da outra, muitas vezes submetidas a sofrimentos diversos, sem que elas saibam o porquê des-sa diferença e de tal condenação. Esse Deus pode fazer qualquer coides-sa, pelo direito do mais forte, na mais desordenada e injustificável arbitrariedade, e a criatura tem de obedecer cegamente, sem ter o direito de saber, obedecendo não porque entendeu e aceitou convencida, mas porque é constrangida, pelo cálculo egoísta, a fugir do terror do inferno e, pela cobiça, a buscar os delei-tes do paraíso. Entender não é possível, sendo até mesmo proibido, porque considera-se ousadia querer desvendar os mistérios. Não resta, assim, senão a fé cega, o terror e a ignorância.

De tudo isto não se pode culpar ninguém, porque nada disso foi feito com propósito de maldade. Este é o nível evolutivo tanto dos chefes como de seus rebanhos, e, neste nível, o homem não sabe conceber e funcionar com outra forma mental. Mas é lógico que, se desta psicologia sai tal conceito de Deus, dela saia também uma proporcionada concepção de ética, dada por uma moral egoísta e de arbítrio, com base nos mesmos princípios, tanto o da força, que autoriza Deus a mandar, como o da astúcia, que permite o homem se evadir daquele comando. Essa é uma posição falsa e emborcada da ética. Estamos num terreno escorregadio, que, em lugar de levar em subida para o S, leva o ser em descida para o AS. Isso representa o triunfo do involuído, que tudo cri-ou no seu mundo para si, à sua imagem e semelhança. No seu plano evolutivo, tudo é regido pela lei da luta, pela seleção do mais forte e pelos instintos que ela constrangeu o homem a desenvolver, nos quais se baseia a sua ética atual. Nesta fase primitiva não é possível apoiar-se na inteligência e exigir que ela funcione, quando ainda não está suficientemente desenvolvida.

Se o conceito de Deus é esse, bem terreno, de um patrão que manda, punin-do quem não lhe obedece, só pelo direito que lhe vem da sua força de topunin-do- todo-poderoso, a lógica posição do fiel é, por equilíbrio e defesa da vida, a do servo que procura evadir-se, seja amansando a ira do patrão, que ele provocou com a sua desobediência (fazendo de tudo para arrancar seu perdão, com preces, ar-rependimentos, promessas, ofertas, honras etc., mesmo que mentirosas), seja procurando subtrair-se à dura lei do patrão, com enganos e todas as escapató-rias possíveis. Essa atitude é fatal consequência dessa posição em que o ho-mem se coloca perante Deus, de antagonismo, e não de fusão de interesses,

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posição devida ao estado de revolta, na qual, pela queda, a criatura se colocou perante o Criador. Essa posição invertida vai-se endireitando cada vez mais com a evolução. E assim se explica como a condição do atual ser primitivo seja de inimizade com Deus, isto é, a situação do mais fraco que foge do mais forte, e não de amizade com Deus, isto é, a situação de um amigo que colabora para uma finalidade comum.

Explica-se desse modo a estrutura das religiões atuais, feitas, sobretudo, de práticas exteriores, que são fáceis de realizar com pouco sacrifício e, o mais importante, não incomodam a liberdade de conduta do indivíduo, dei-xando a cada um a possibilidade de satisfazer os seus instintos e realizar os seus negócios. É reconhecido, desta maneira, e respeitado o direito de pecar, isto é, de violar a Lei, constituindo esta prática sempre a grande atração dos primitivos, que formam a maioria. Tal violação é, assim, prevista de antemão por uma organização encarregada de eternamente remendar tais pecados, para os quais fica, então, amplo lugar no seio das religiões, sem que eles produzam graves consequências para quem os praticou. Em vez de ter, ine-xoravelmente, de pagar aquelas consequências até o último ceitil em outras encarnações, sem escapatória possível, é lógico que convém mais rezar uma leve penitência e, com um provisório e fortuito arrependimento de relativa duração, considerar-se quite, pronto a repetir o erro, continuando assim a satisfazer-se. Adaptado à comum psicologia atual, este método é aceito por-que o pagamento é barato, convindo como bom negócio. Permanece assim, com tal método, o defeito de ser ele um engano que o homem desejaria prati-car à custa da justiça de Deus, tentativa inútil, pois tudo acaba recaindo sobre o culpado, que nem por isso pode escapar àquela justiça, tendo da mesma forma de pagar nas reencarnações futuras a sua dívida, e isto sem entender nada. E Deus não aparece na Terra para esclarecer e impor à força a Sua lei, mas deixa que o ser a descubra às próprias custas, experimentando. Assim, não obstante o homem acredite que lhe escapa com a sua astúcia, a Lei con-tinua funcionando do mesmo modo, porque, para isso, ela não precisa do nosso conhecimento. E o homem, enquanto não tiver consciência da Lei, terá de pagar com o seu sofrimento o preço da sua ignorância.

Eis, então, o que se encontra na realidade dos fatos. Temos, de um lado, a casta sacerdotal, que justifica, enquanto representante de Deus, a sua existên-cia e posição de domínio, apoiada em poderes espirituais dos quais depende a nossa vida futura. Do outro lado, temos o termo oposto, representado pela

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massa dos fiéis, que procuram os meios para assegurarem as melhores condi-ções de vida na sua continuação depois da morte. Uns e outros são impulsio-nados pelo mesmo instinto vital, que exige viver e sobreviver, e lutam por is-so. Mas todos, uns e outros, vivem num mundo e pertencem a um nível de evolução onde não há ser que não seja rival de outro. Para satisfazer a necessi-dade fundamental de todos, que é viver, torna-se indispensável concordar nu-ma convivência, à qual não é possível chegar sem se estabelecer um equilíbrio entre as exigências opostas, o que pode ser atingido com o método da troca, pelo qual, para que seja possível coexistir, cada um dos dois dá alguma coisa, para receber outra. Cada um, então, dá o que tem. Assim, a casta sacerdotal oferece ao mundo a solução do problema da vida de além-túmulo com a salva-ção eterna, recebendo em troca os recursos materiais e o domínio que precisa para viver. Do outro lado, a massa dos fiéis recebe da autoridade espiritual, para isso encarregada por Deus, a garantia de uma vida futura feliz, executan-do apenas algumas praticas exteriores e afirmanexecutan-do que acredita em coisas que não entende nem lhe interessa entender. Com isto, a classe sacerdotal, pelo princípio da troca, tem direito que a sociedade lhe retribua essa dádiva, reco-nhecendo o seu poder terreno com todas as suas decorrências.

Realiza-se, assim, a troca que permite a convivência, constituindo o meio necessário para, nesse nível evolutivo e conforme suas respectivas leis, chegar à simbiose. Assim, cada um é pago com a moeda que o outro lhe oferece. Simbiose entre o espiritual e o material, na qual cada um dá o que tem e recebe o que lhe falta. O espiritual concede o paraíso e obtém a sua posição material. O material dá vantagens concretas, mas exige por isso ser pago, tomando as vantagens espirituais. Mas cada um faz as suas contas, e o mundo, sabendo muito bem o valor do que ele concede e do que ele calcula receber, procura dar o menos possível, sobretudo em relação a qualquer incômodo esforço indivi-dual. Como em tudo na Terra, há luta também entre os dois termos da simbi-ose, cada um procurando para si a maior vantagem possível à custa do outro. Então, para receber a sua posição na sociedade e nela se manter, era necessário que o poder religioso não pedisse sacrifícios demasiados ao mundo, permitin-do-lhe a possibilidade de atingir o seu objetivo de salvação final, praticando uma moral que consentisse muitas escapatórias, com as quais, mantendo o mais profundo respeito pelas práticas exteriores, fosse possível dar suficiente satisfação aos instintos involuídos, a principal exigência da maioria.

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Deste modo, todos ficam satisfeitos, porque cada um acredita ter sido o mais astuto, recebendo mais do que dá. O espiritual, dando promessas de salvação, mas recebendo a vantagem bem positiva da sua posição social; o material, ganhando a salvação com o mínimo de incômodo e esforço possí-vel. O único que não ficou satisfeito foi Deus, cuja justiça reclama e exigirá pagamento de ambas as partes. Pela grande sabedoria das astúcias humanas, parece que o único, neste jogo, a ficar enganado é Deus com a Sua lei. Isto é o que pode pensar o homem com a sua forma mental de involuído e de rebel-de à orrebel-dem, julgando, com tal psicologia rebel-de primitivo, que possa haver van-tagem em intrujar a Deus. Mas o homem não sabe que o único a não ser en-ganado é exatamente Deus e que o engano cairá em cima dos enen-ganadores, os quais não poderão deixar de pagar os terríveis efeitos da sua astúcia. So-mente a ignorância do primitivo pode acreditar que seja possível intrujar a Deus. Assim, o involuído é espontaneamente levado a tal absurdo pelo seu instintivo impulso de revolta, ao qual ele, inconscientemente, obedece sem ter conhecimento da Lei nem suspeitar das suas reações, pelas quais querer enganar a Deus significa apenas enganar-se a si próprio. No entanto, as reli-giões ainda desconhecem o conteúdo da Lei e os princípios que regem a vi-da, de modo que não os podem ensinar. Enquanto não entender tudo isto, o mundo continuará vivendo satisfeito com esse acordo, que, embora lhe ofe-reça a vantagem de satisfazer o seu instinto de aproveitar-se de tudo com a sua astúcia, condena-o depois a pagar inexoravelmente o seu erro e saldar a dívida com a justiça divina. O jogo é bem combinado. As castas sacerdotais podem ficar nas suas posições, e a massa dos fiéis pode, pagando apenas com práticas exteriores e seguindo nas suas comodidades, satisfazer-se durante a vida, assegurando, ao mesmo tempo, sua salvação para depois da morte. Desse modo, todos estão contentes, porque puderam continuar vivendo, atin-gindo o maior resultado com o menor esforço, o que representa para todos um grande ideal. A maioria fica satisfeita apenas com o presente, interessan-do-se somente com a vantagem imediata. Para ela, porquanto desconhece a Lei e o seu conteúdo, o futuro – que constitui o nosso presente de amanhã – é algo inconcebível, desaparecendo nas neblinas do mistério.

◘ ◘ ◘

Esse jogo corre bem, enquanto o homem permanece nas suas atuais con-dições de involução e de ignorância, as quais não lhe permitem aperceber-se quão prejudicial é para ele tal método de enganos, que, no fim, não deixará

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de levá-lo a pagar esse erro, à sua custa e com o seu sofrimento. Se, hoje, ele sabe apenas entender o que se verifica no presente imediato, sem se aperce-ber, devido à sua miopia, das consequências do seu método atual, é fatal que elas acabem chegando e que, assim, ele acabe pagando. Desse modo, a dor cumpre a tarefa de lhe ensinar a conhecer a Lei, para que ele não erre mais, ou seja, não vá mais contra ela. É assim que, pela dor, a mente humana irá aprendendo cada vez mais e, com isso, começará a entender quão louco e perigoso é o seu método atual.

Mas, por enquanto, estamos bem longe de chegar aí. O homem ainda fun-ciona impulsionado irresistivelmente pelos seus instintos, fruto do seu passa-do. Ainda não soube libertar-se deles, evoluindo, e continua satisfeito em obedecer-lhes cegamente. O fato é que a lei desse plano de vida é a luta pela conquista de uma posição superior à dos outros, e quem se encontra situado nesse nível de evolução aceita e vive essa lei. É por isso que tal método tende a prevalecer em todas as raças, religiões e partidos, ou seja, onde quer que exista o homem. Esta é a razão pela qual quem tem o poder e manda é, muitas vezes, levado a se aproveitar dessa posição não para cumprir uma tarefa dire-tiva, mas para dominar e levar vantagem sobre os seus dependentes, que, por sua vez, procuram pagar aos chefes na mesma moeda, defendendo-se o mais que podem e tentando todas as escapatórias para se evadir das leis. É assim que o povo busca enganar os ministros das religiões, mostrando-se fiel nas práticas, mas fazendo ao mesmo tempo os seus negócios e aproveitando as oportunidades, enquanto os chefes ficam com o poder, prometendo em troca a salvação eterna. Esta é a lei deste nível, que a forma mental humana deseja. Esta é a posição na qual tantos ficam satisfeitos, porque a ela corresponde a natureza do homem, que, desse modo, fica ao sabor dos seus instintos. E to-dos se julgam, assim, inteligentes e sábios. É neste esforço de superação recí-proca que está o seu maior trabalho, a satisfação do seu orgulho, a demonstra-ção da sua inteligência e a prova do seu valor.

Há, porém, outro fato. A lei do progresso trabalha continuamente para tirar o homem dessa sua triste condição, impulsionando-o a evoluir. Através de incessantes e duras experiências neste baixo nível de vida, o homem acabará forçosamente atingindo o amadurecimento necessário para compreender a es-tupidez de tal método, pelo qual cada um sabe agir somente em obediência cega aos instintos do inconsciente. O homem terá assim de aprender a pensar, para depois, então, comportar-se com inteligência e consciência. A lei da

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evo-lução, que o está incansavelmente impulsionando de baixo para cima nesse sentido, não pode tolerar que tão involuído jogo dure para sempre e que o ho-mem continue sendo apenas um menino, dirigido pelo seu subconsciente ani-mal, como um menor que não sabe o que faz, incapaz de receber de Deus as suas liberdades, por não sabe assumir as suas responsabilidades. A vida so-mente pode permitir tudo isto a seres primitivos, no atual baixo nível biológi-co. Pela fatal lei do progresso, a mente humana terá de se abrir, a fim de poder chegar a dirigir a vida com métodos mais inteligentes, honestos e vantajosos.

Essa é exatamente a mudança que hoje se começa a realizar. A mente hu-mana está saindo das névoas de sua menoridade. Ela, agora, faz perguntas e pede respostas, não mais aceitando, somente por fé cega, verdades apoiadas no mistério. Começa a raciocinar, olhando as coisas com espírito crítico, e, antes de obedecer, quer ver claramente com a lógica e a razão, exigindo de quem manda que justifique a sua posição. Insatisfeita com as tradicionais palavras e afirmações teóricas, quer ver o que está atrás dos bastidores das verdades pro-clamadas e da autoridade que, nelas, pretendem se apoiar.

Chegou a hora de explicar tudo com sinceridade e justiça, se quisermos que os indivíduos obedeçam às leis. Até ontem, foi necessário o método da fé cega, porque não se pode dar explicações a meninos incapazes de entendê-las, já que isso geraria naqueles cérebros primitivos complicações e mal-entendidos peri-gosos. Mas hoje, que o homem começa a amadurecer, é cada vez mais neces-sária uma verdade demonstrada, que explique tudo e responda aos porquês, resolvendo os problemas, isto se não quisermos que ele vire as costas a qual-quer princípio superior, entregando-se ao ceticismo. Mas, infelizmente, é o que está acontecendo. De fato, o homem atual encontra-se perante sistemas velhos, adaptados a outras formas mentais, que ele não aceita mais. O que ele pede hoje é um pão verdadeiro, um nutrimento vivo, aderente à realidade biológica e proporcionado ao seu estômago mais exigente, que está pronto para digerir novos pratos, no qual sejam completadas e explicadas nos seus mistérios as mesmas verdades eternas, porém demonstradas para convencer, atualizadas a par do grande progresso da ciência, atrás da qual hoje as religiões, outrora na vanguarda do pensamento mundial, ficaram atrasadas, quase que abandonadas como coisa velha, destinadas a um sótão ou a um museu. Ao invés de satisfa-zer essa legítima nova fome espiritual, as religiões continuam a repetir as mesmas coisas antigas, com as velhas palavras de sempre, nas quais os séculos

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passados adormeceram, deixando, assim, de levar em conta e acompanhar essa renovação que se está verificando na forma mental humana.

Os jovens pedem esse nutrimento novo e fresco, apresentado numa forma mais vigorosa, como os tempos apocalípticos o exigem, e vão procurá-lo alhu-res, sobretudo na ciência, porque, nas religiões, encontram apenas um nutri-mento rançoso, que hoje ninguém mais digere, apresentado naquela forma estereotipada pela longa repetição e consumida pelo uso dos séculos, própria para os adormecidos, feita de palavras aprendidas de cor, cansadas pelo peso do tempo, com o sentido já perdido para o ouvido moderno. Não é que na al-ma, sobretudo na dos jovens, falte a sede de verdades eternas. Mas as velhas teologias não são adequadas aos problemas dos tempos modernos. Quantos não gostariam de ser esclarecidos, para poderem resolver os problemas máxi-mos do conhecimento e, assim, tornarem-se capazes de se dirigir inteligente-mente com a sua conduta! Todavia, existem ideias velhas, feitas para nos em-balar no sono da indiferença, com conceitos que, no decorrer do tempo, esgo-taram o seu impulso vital e que o progresso abandonou ao lado do caminho da evolução. Os jovens de hoje cansaram-se e não prestam mais ouvidos. Eis de onde nasce a hodierna indiferença, o desinteresse de quem, por falta de con-vicção, não toma mais a sério tais coisas, assumindo o absenteísmo espiritual. Mantém-se assim uma indiferença cheia de respeito, como exigem as religiões, o mesmo respeito que se deve ter para com os monumentos do passado e os túmulos dos mortos. Indiferença que desemboca no materialismo ateu, no epi-curismo, na filosofia animal do primitivo, triste substituto de tudo que em vão se procura, mas não se encontrou; fruto do desespero da alma insatisfeita que, precisando de uma filosofia qualquer para se dirigir, não achou coisa melhor.

Os jovens estão famintos de sinceridade, honestidade e justiça; estão desi-ludidos do passado, que muitas vezes lhes soa a engano, pelo mau uso que foi feito de tantas verdades. E, se eles estão revoltados, não é por maldade sua, mas porque encontram falta de bondade. Eles, que agora aparecem no palco da vida, vão observando o que há de verdade por detrás das aparências, e ficam tristes, desnorteados pela falta de uma orientação sadia, coerente e convincen-te, que os ajude a navegar no oceano desconhecido da vida, dando a esta um significado e uma finalidade a atingir, que justifique e valorize tantos esforços, lutas e sofrimentos. Esse é o pão substancial que é urgente dar ao mundo, um pão de honestidade e de verdade. Disto o mundo precisa muito mais do que de atingir a Lua ou ir a outros planetas (quem sabe para levar até lá as suas

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guer-ras!), ou então de fazer novos inventos para destruir a humanidade e a sua civi-lização. O indispensável, hoje, é uma moral que corte até às raízes toda a pos-sibilidade de violência e de mentira – como lamentávamos acima – mostrando que há leis na vida que ninguém pode enganar.

No nível animal-humano, a vida se desenvolve num regime de luta, porque esta é a lei desse plano evolutivo. Disto decorre que, em tal ambiente, a regra é que os bons, por não serem fortes nem astutos, são explorados e eliminados. Para o nosso mundo, a bondade é uma forma de fraqueza que todos têm o di-reito de explorar, utilizando-a para sua própria vantagem. Na prática, até se assiste ao absurdo de se tentar aproveitar da bondade de Deus, pois tal mundo sabe que Ele é infinitamente bom. É necessário então desvendar esta tão peri-gosa ilusão, filha da ignorância e dos instintos primitivos. Se o mundo, porque lhe convém, gosta de imaginar Deus dessa maneira, é necessário entender que Ele não é bom somente para que seja possível explorar Sua bondade com o engano, mas que Ele é, sobretudo, inteligente, de modo que ninguém, com a sua astúcia, pode lográ-Lo e se evadir da Sua lei, como o homem, de acordo com a sua forma mental, almejaria. É preciso compreender que o fato de Deus ser bom não significa que, por isso, Ele seja um simplório, a quem se pode enganar. Este tipo de psicologia é terrena e somente serve para atingir as fina-lidades da lei da seleção do mais forte. Na sua concepção de Deus, o homem não sabe sair desta sua forma mental, produto do seu grau de evolução, adap-tada para promover, neste ambiente, o trabalho de seu progresso biológico.

Perante Deus e a Sua lei, é loucura querer ser astuto, porque não há escapa-tórias. Quem faz o mal tem de pagá-lo à sua custa, não importando se é crente ou não. A nossa opinião, fé religiosa ou filosofia não podem fazer mudar as leis da vida. Ninguém pode embrulhar Deus e a Sua lei. Mas o homem não gosta de semelhante conceito, preferindo antes, e por isso imaginou, um Deus bom, que se pode enganar. Mas isso não corresponde à verdade, sendo apenas um produto do subconsciente instintivo, uma redução do conceito de Deus dentro dos limites da psicologia terrena de luta, uma criação da mente humana para satisfazer um desejo seu. Deus é o que é, em forma positiva para todos, incluindo os ateus, e não o resultado do que cada um, conforme a sua natureza, gosta mais de crer. O homem aceita o conceito de um Deus ludibriável porque lhe agrada pensar que pode aproveitar-se desse Deus, satisfazendo assim o seu instinto de prevalecer acima de todos. Ora, é necessário não cair nesse engano, pelo qual quem quer enganar acaba sendo enganado. O que de fato ocorre é o

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contrário do que o homem pensa. Deus abandona ao poder da reação da Lei quem quer fugir à obediência, enquanto defende os sinceros e honestos, que, seguindo o método da justiça, não querem se aproveitar de ninguém, prote-gendo-os contra um mundo que, seguindo o método da luta, explora-os e es-maga-os, pois, naquele nível, eles são considerados simplórios etolos, isto é, o biótipo do fraco a ser eliminado pela lei da seleção.

Na sua ignorância, o homem acredita que a sua pequena biologia terrestre representa toda a biologia do universo, em todos os seus níveis, e não entende que, em níveis superiores de existência, situados ao longo do caminho da evo-lução, possam vigorar leis tão diferentes na proteção da vida, que, perante elas, os nossos atuais métodos se tornam absurdos e prejudiciais, a ponto de parece-rem emborcados, tamanha a distinção e a oposição entre eles. De fato, trata-se de um progressivo processo de endireitamento das qualidades do AS nas do S. Acontece então que, num mais adiantado plano de existência, os primeiros de hoje serão os últimos de amanhã e os últimos de hoje serão os primeiros de amanhã. Verifica-se o fato de que o ser, ao progredir do AS para o S, em vir-tude da evolução, vai-se gradualmente harmonizando no seio da Lei, encon-trando-se, por isso, cada vez menos no estado de separatismo – qualidade dos involuídos que os deixa sozinhos e abandonados, entregues apenas aos seus recursos individuais – e cada vez mais no estado de unificação, qualidade dos evoluídos, que os funde no organismo universal, permitindo-lhes desse modo utilizar os seus recursos e os meios de defesa. O homem não entende que a Lei é viva e representa um pensamento querendo manifestar-se, estando sempre pronta a entrar em ação, tão logo o ser, com os seus movimentos, ative o seu funcionamento. A Lei atua em relação a tais movimentos, sendo estes depen-dentes da natureza do indivíduo, que é, por sua vez, consequência da posição ocupada por ele na escala da evolução. É lógico então que a lei feroz da sele-ção do mais forte no plano físico funcione só no plano animal-humano, no seio da biologia desse nível, ao passo que outra lei, aquela de harmonia e de justiça, funcione num plano superior, no seio da biologia desse outro nível. Assim, verifica-se que, no plano inferior, quem é julgado o melhor (o mais forte, vcedor) torna-se o pior no plano superior (o rebelde à ordem, delinquente), en-quanto no plano inferior, quem é julgado o pior (o homem bom e honesto, jul-gado fraco) torna-se no plano superior o melhor (o mais forte, vencedor, por-que defendido pela Lei). A Lei apenas aceita o método da luta pela seleção do mais forte nos níveis inferiores, onde tal método representa uma defesa da

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vida. Mas tudo se transforma na evolução do AS para o S, inclusive o método de defesa, que deixa de ser representado pela supremacia bestial de um indiví-duo sobre outro, como convém num mundo em estado de caos, para se consti-tuir numa posição de obediência na ordem, como convém num mundo que atingiu o estado orgânico, onde os impulsos inimigos (AS) chegaram, através de tanta luta, a coordenar-se em harmonia (S).

Eis a técnica do fenômeno. Como se diz em palavras simples, Deus defende com a sua justiça os honestos, que o mundo condena e persegue. Deus protege quem Lhe obedece. Quem observa a Sua lei, está defendido por Ele. A arma para salvar os honestos está na defesa proporcionada por Deus, na qual se en-contra o grande poder dos que abandonaram as armas da força e da astúcia. Isto é importante, sobretudo com relação ao tema que estamos tratando aqui, a ética, porque aqueles julgados os mais fracos pelo mundo podem, de fato, com tal jogo de elementos, tornar-se os mais fortes. E isso acontece devido à exis-tência de uma lei positiva que rege a vida e que está sempre pronta para funci-onar, tão logo o indivíduo se coloque nas devidas condições.

Tudo isto está escrito na Lei, que representa o pensamento de Deus e a Sua vontade para realizá-lo. Assim, essa lei é formada não apenas pelos princípios que dirigem os caminhos da vida, mas também pelos impulsos que realizam estes princípios. Essa lei foi escrita por Deus no funcionamento do universo, através da Sua criação, e toda a fenomenologia a cumpre. Tudo e todos têm de obedecer à Lei, se não lhe querem sofrer as reações. Mas o primeiro a obede-cer – e eis a grande maravilha – é o próprio Deus, que, assim, apenas obedece livremente à Sua própria vontade, por Ele codificada na Sua lei. Ora, obedecer a si mesmo não é obedecer, mas sim mandar. É por essa obediência de Deus, que o ser tem o mesmo dever de obediência dentro da mesma ordem universal, que não admite ser violada pela vontade descontrolada do arbítrio de Deus. Perante a Sua ordem, isso não representaria liberdade, mas sim violação e erro. Ora, essa violação pode suceder com o ser, que por essa culpa terá de pagar (assim se redimindo), mas não é possível em Deus, pois Ele não pode errar.

A Lei, então, representa não somente um princípio de ordem universal invi-olável, mas também um compromisso entre o Criador e a criatura, com a ga-rantia absoluta para esta de que a Lei sempre responderá com exatidão aos movimentos do ser, consoante os princípios estabelecidos e em proporção ao merecimento do ser. Esta conclusão, que também diz respeito ao nosso atual tema da ética, é de grande importância para a nossa conduta, porque,

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conhe-cendo este fato, o indivíduo sabe que, ao cumprir o seu dever de obediência à Lei, ele tem o direito de receber em troca uma ajuda para defendê-lo. Esse é o princípio pelo qual funciona a Providência de Deus. O real apoio do homem honesto, condenado pelo mundo, é a certeza de que Deus, acima de todos, também respeita a Sua lei, merecendo por isso toda a confiança.

Há também outra razão em que nos podemos apoiar para ter essa confian-ça, e ela está na segurança que nos vem dos resultados, necessária para nos resolvermos a praticar todos os sacrifícios da obediência e o esforço de uma conduta correta. A ideia a respeito de Deus oferecida a nós pelas religiões é a de que Ele criou o universo, tirando-o do nada ou do caos. Mas, depois de haver estabelecido a Sua ordem, Ele ter-se-ia ausentado para os céus, ficando a olhar lá de longe a Sua obra, sem tomar parte ativa no seu funcionamento. Ora, queremos aqui salientar que nada é mais absurdo do que essa ideia da ausência de Deus, a qual permite imaginá-Lo afastado, longínquo e, assim, mais facilmente ludibriável, quando, na verdade, a lógica exige e tudo nos fala da Sua presença viva e contínua entre nós no funcionamento orgânico do todo, dirigindo tudo de perto, vigiando, controlando, velando e realizando. Este fato acarreta importantes consequências no terreno da ética, porque um Deus tão próximo penetra toda a nossa vida por dentro e por fora, constituin-do uma atmosfera em que toconstituin-dos estamos mergulhaconstituin-dos e toconstituin-dos respiramos, da qual não há possibilidade de nos separarmos. Trata-se de um Deus que está conosco em todo lugar e a toda hora, inclusive fora dos templos, em meio à nossa vida de lutas; um Deus independente de seus ministros, o que elimina a possibilidade de enganá-Lo.

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Há, portanto, duas maneiras de se conceber Deus, das quais derivam dois métodos de pensar e de viver, duas éticas diferentes, filhas de dois tipos de religião: a do homem atual, ainda involuído, correspondente à sua forma men-tal de primitivo, e a do evoluído, super-homem do futuro, correspondente a uma forma mental completamente diferente. No primeiro caso, o homem con-cebe Deus antropomorficamente à sua imagem e semelhança, rebaixando-O até ao seu nível humano, sujeitando-O à sua lei de luta e tratando-O com o seu método de astúcia e psicologia de engano, com que costuma enfrentar os seus semelhantes. No segundo caso, o homem, possuindo outra forma mental, con-cebe Deus como um ser que está acima das leis do plano humano e das suas maneiras de pensar e agir. Trata-O, por conseguinte, com absoluta sinceridade

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e confiança, adotando um método completamente diferente, apoiado na hones-tidade, no merecimento e na justiça. Não se trata aqui das aparências costumei-ras, que o mundo desejaria tomar por verdades, nem tão pouco das exteriori-dades apresentadas pelas doutrinas das religiões. Estamos falando da substân-cia vivida nos fatos, e não das éticas pregadas. Falamos daquilo que o homem de fato é, pensa e faz, sendo isso a única coisa que interessa e vale.

O que de fato existe no mundo, então, são dois tipos de religião: a vigente, filha do passado, e outra, que antecipa o futuro. Ambas correspondem a dois níveis de evolução e são consequência da forma mental e das leis que regem a vida do involuído e do evoluído. Isso se deve ao fato de ser o homem uma criatura em evolução, ou seja, em estado de transformismo, pelo qual, ao lado do velho, que está morrendo, aparece e existe o novo, que está nascendo. Esta é a razão para existirem duas verdades diferentes, aparentemente contraditó-rias, mas que não passam de posições mais ou menos adiantadas ao longo do mesmo caminho da evolução. São momentos sucessivos da mesma lei, que está sendo cumprida por seres pertencentes a dois níveis biológicos sucessivos, um acima do outro. De cada uma dessas duas verdades deriva, coexistindo lado a lado, uma ética específica correspondente: a inferior, praticada pela maioria involuída, e a outra, que, sendo exceção à regra comum, é seguida por uma minoria de evoluídos.

Isto é apenas uma constatação de fatos, feita sem a intenção de condenar ou reformar. Com efeito, nada pode ser feito neste sentido por um homem ou um grupo, mas somente pelas poderosas e sábias forças da vida, que se mani-festam nos grandes acontecimentos históricos, tratando-se de profundos ama-durecimentos biológicos. E os honestos deste mundo são poucos demais para formar um grupo poderoso, além de não possuírem as qualidades de agressi-vidade necessárias para vencer no terreno animal-humano. Quem segue o método evangélico da não-resistência foge da luta e, consequentemente, não pratica qualquer forma de imposição de ideais, condição que implica em ter de respeitar a ignorância na qual o próximo, pronto a lutar para defendê-la, permanece fechado. Quem não aceita o método da luta tem de repudiá-lo, mesmo quando não haja outro meio para tirar a cegueira aos cegos, rendendo-se a deixá-los rendendo-ser como quirendendo-serem rendendo-ser.

O que desejamos fazer aqui é apenas indicar àqueles poucos indivíduos inteligentes as tristes consequências do método hoje em vigor, explicar-lhes como, comparado ao que merece, são poucas as dores do mundo; fazê-los ver

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que é a Lei, e não o homem, que manda; mostrar-lhes que é a dor que ensina, fazendo isto com fatos, e não com palavras, deixando cada um acreditar e pregar à vontade, mas fazendo-o pagar sempre como merece. Não há, pois, necessidade de impor à força ideias ou até mesmo a salvação, já que isso excita o instinto de agressividade, provocando reação e luta, o que é um con-vite para a animalidade funcionar. Para que incomodar a fera com sábias pregações, quando ela se ofende em ouvi-las e se revolta contra elas? Para que isto, quando, nas mãos da Lei, está pronta a lição do sofrimento, para ensinar tão bem o que ninguém pode deixar de aprender? A verdadeira ética não depende do homem, mas de Deus. Ela está acima de tudo e de todos, escrita na Lei e dentro da própria natureza das coisas, razão pela qual não se pode fugir-lhe. Então, por que lutar contra os inferiores, se isto serve apenas para excitar neles a ofensa e os artifícios do engano? Por que lutar para que eles entendam, se, pelo seu nível evolutivo, não podem entender? Por que forçar a sua evolução, se o progresso é fatal e se apenas Deus tem o poder de impulsioná-los para frente? Por que, se a nossa pregação da verdade gera na sua forma mental apenas uma procura por escapatórias? Por que, se de fato não se atinge no mundo uma verdade única e total, mas apenas uma disputa entre verdades e religiões, cada uma considerando-se como absoluta e em luta para destruir as outras? Por que nos substituirmos à sabedoria de Deus, quando a correção de todo erro é automática e a dor é o grande mestre, sem-pre pronto a nos colocar no caminho certo?

Nada mais podemos fazer senão explicar, aos que têm ouvidos para ouvir e inteligência para entender, os imensos prejuízos que derivam da ética hoje vigorante. O atual sistema de insinceridade tem o mesmo valor daquele utili-zado tanto pelo patrão capitalista que explora os operários, pagando-lhes o menos possível, como pelo operário que, buscando uma compensação, procu-ra exploprocu-rar o patrão, tprocu-rabalhando pouco e da pior maneiprocu-ra possível. Que ren-dimento pode dar um sistema de enganos e atritos recíprocos, quando a ener-gia tem de ser desperdiçada nessa luta para se explorarem um ao outro? Mas é recolhendo os tristes resultados desse método, que se acaba entendendo quão pouco ele seja rendoso, o que impulsiona a escolher outro, sem tais rivalida-des e atritos, até se atingir um estado de colaboração, que representa a maior vantagem para todos. O mesmo acontece, como já vimos, no caso do método empregado tanto pela casta sacerdotal, que, do seu lado, consegue ficar na sua posição de domínio, empregando a ameaça do inferno e a promessa do

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paraí-so, como pela massa de seguidores, que acredita apenas no seu interesse e busca se compensar, enganando a Deus e seus ministros, com a execução so-mente de práticas exteriores, pensando ganhar com elas a salvação. Chega-se assim a uma religião às avessas, onde se satisfazem os instintos inferiores e se aprende a arte da mentira. Tal método, porém, pelos muitos sofrimentos que gera para todos, persiste apenas enquanto eles não aprendem outro, menos prejudicial – que, sem praticar enganos, não termine no engano – apoiado na sinceridade com Deus e consigo mesmo.

Esta é a religião para a qual o impulso do progresso e a escola de tão duras experiências terá de levar o homem. Religião do futuro, mais livre, porém sem possibilidade de enganos; imaterial, mas inflexível, e não mais flexível como as atuais. Ela não quer destruir as antigas, e sim insuflar no seu cárcere de forma material, com o qual elas se estão fundindo e confundindo, um novo sopro espiritual, para rejuvenescê-las e vivificá-las, libertando-as o mais pos-sível daquela forma, que, quando se troca o vaso pelo conteúdo, representa um perigo. Trata-se de um progresso que nos aproxima mais do verdadeiro concei-to de Deus. Isconcei-to quer dizer conquistar uma posição mais adiantada no caminho da evolução e, por isso, mais poderosa e perfeita, porque mais próxima do S.

É estranho, porém, que as religiões atuais considerem tal progresso uma ameaça e prefiram ficar cristalizadas nas suas velhas formas, o que é morte, ao invés de correr ao encontro da vida, renovando-se. Avaliado com as velhas unidades de medida, quem procura a renovação é julgado irreligioso, rebelde, herético e, como tal, é condenado. E os conservadores não entendem que es-ses indivíduos aparentemente revolucionários não trabalham para destruir o velho, mas sim para salvá-lo, porque a vida está no movimento e na renova-ção. Quem estaciona a fim de se conservar, envelhece e morre. Sobretudo nas horas das mais rápidas mudanças biológicas, como a atual, quem não as segue acaba ficando abandonado para trás, morto no túmulo do passado. E, pela lei da evolução, o novo está destinado a arrombar mais cedo ou mais tarde as portas fechadas de todas as resistências.

Os julgados revolucionários não são destruidores, mas sim construtores, pa-ra que amanhã, das ruínas das velhas religiões, que estão desmoronando jun-tamente com os respectivos sistemas éticos nelas apoiados, alguma coisa de firme e seguro permaneça no mundo, para orientar positivamente o homem do futuro e dirigir com clareza e honestidade a sua conduta. A atual falta de fé, constatada no fato de não se tomar mais a sério as coisas de Deus – não

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impor-ta se disfarçado atrás de aparências formais – represenimpor-ta um grave perigo que ameaça as religiões atuais, anquilosadas na sua imobilidade, num momento em que todo o pensamento da humanidade está em crise e renovando-se. A ciência não soube substituí-las por nada e, portanto, não pode dirigir o homem. Ir à Lua ou a outros planetas não orienta o homem na sua conduta, deixando assim sem solução o problema individual e o social. O homem permanece uma fera, porém armada de recursos terríveis. Sobre a cabeça dos povos que conseguem engordar no bem-estar está suspensa por um fio a espada de Dámocles, amea-çando uma guerra destruidora da humanidade e da sua civilização.

Se nestes livros procuramos explicar tudo, encarando e resolvendo os maio-res problemas, a fim de dar uma maio-resposta hoje ausente, isto não é com a finali-dade de criar uma nova teologia para substituir as antigas, mas sim para lhes dar um conteúdo positivo, demonstrado, de cuja lógica a razão não possa fugir, cumprindo a função não de atingir abstrações filosóficas, mas de chegar a con-clusões práticas, para uma conduta correta, tendo por base princípios clara-mente definidos e convincentes. O que procuramos é uma religião capaz de, sem permitir escapatórias, levar o homem a uma ética que, pela sua justiça evidente, tenha o direito de impor o cumprimento dos deveres exigidos por ela, porque se baseia na realidade da vida, e não em abstrações teóricas, situadas fora dessa realidade e, por isso, entendidas por poucos. Perante uma religião inteiramente demonstrada e a natural ética decorrente dela, formando um con-junto que explica positivamente as consequências fatais de cada ato nosso, com as quais cada erro tem de ser pago, não é possível ficar neutro nem há lugar para a hodierna indiferença. Acreditamos que só assim é possível vencer esse inimigo mortal de toda espiritualidade, que inicia a decomposição final das religiões e preludia a sua morte.

O que desejamos esclarecer é que não se trata de agressividade destruidora, mas sim de uma desesperada tentativa de aplicar uma injeção vital, para salvar da velhice da forma os valores eternos. Quando estes vão caindo, então as reli-giões – porque lhes falta a substância e nada mais resta senão o ceticismo – adoecem e, esvaziadas de todo o conteúdo vital, ficam ameaçadas de morte. O que de fato prevalece hoje é o materialismo religioso, dado por uma aparência formal de religião, praticamente ateia na substância, representando esta a últi-ma fase da decadência. Na Idade Média, os probleúlti-mas religiosos eram perce-bidos vivos, e os homens lutavam naquele terreno. Hoje tais problemas não interessam mais. O mundo voltou-lhes as costas, para tomar a sério os

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proble-mas da ciência, a única fonte que parece oferecer um resultado capaz de satis-fazer as exigências da mente moderna. Como ninguém agride um morto, assim as religiões saíram do terreno da luta, que é o terreno da vida.

Quanto mais a mente se desenvolve, tanto mais o homem se torna exigente em querer conhecer as razões pelas quais ele tem de se conduzir de uma dada maneira, suportando os respectivos deveres e sacrifícios. Desponta então um espírito crítico e uma autonomia de juízo que não permitem mais a aceitação cega das ideias simplistas do passado, impostas por sugestão ou princípio de autoridade. Assim, aparece o hábito do controle analítico das coisas e ideias, pelo qual, se o indivíduo se apercebe que os ideais proclamados não corres-pondem à realidade dos fatos e às exigências da vida, então os repele. Quando, com a psicanálise, começa-se a controlar a natureza subconsciente – onde es-tão as raízes de nossas ações – de tantos dos nossos impulsos secretos, aos quais, no passado, o homem obedecia inconscientemente, como uma verdade absoluta, então não é mais fácil convencer e obter obediência. Os pilares da velha lógica não se sustentam mais, porque está mudando por evolução a for-ma mental hufor-mana. Mas, se neles se baseia o edifício dos princípios que diri-gem a nossa conduta, eis que esta fica sem alicerces, e o edifício todo ameaça cair. Então os que são intelectual e espiritualmente mais fortes começam a pensar com a sua própria cabeça, dirigindo-se por si mesmos e assumindo sin-ceramente, perante Deus, as suas responsabilidades. Eles são condenados co-mo rebeldes por saírem das fileiras, o que é escândalo. Mas quem tem uma cabeça não pode deixar de usá-la para pensar, nem pode cortá-la num suicídio espiritual, que é a renúncia ao conhecimento. Quanto mais a evolução produz tal tipo de homem, tanto mais se torna contraproducente para as religiões o velho método absolutista. Concordar somente numa base de recíproca utilida-de, que é o princípio da troca já visto por nós, não pode ser vantajoso, porque não é seguro para durar, nem sólido para construir.

A evolução nunca para neste seu trabalho, lento mas constante, de amadu-recimento da forma mental humana. Chega-se assim a uma nova maneira de se conceber e se orientar com uma nova psicologia, o que significa dirigir-se com uma ética e método de conduta diferentes. O ser aprende então que, para além de todas as formas exteriores, há uma realidade interior independente delas, representada pela existência da mente diretora de tudo, Deus, que fi-xou o Seu pensamento e a Sua vontade de realização na Sua lei. Deus está assim sempre presente, imanente em nosso universo, e, por essa Sua

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presen-ça, o ser existe mergulhado e fundido Nele, que, representando o princípio da própria existência, sustenta e anima tudo. Trata-se de um Deus do qual nin-guém pode sair e do qual nada se pode esconder. Um Deus vivo ao nosso lado e presente a toda hora, com a Sua inteligência e atividade. Quanto mais o ser é evoluído, tanto mais ele se torna consciente dessa presença e vive em contato direto com Deus, fundindo-se na Sua vontade e tornando-se assim, ao contrário da criatura egocêntrica e rebelde, Seu fiel instrumento. Um fato assim tão fundamental orienta de maneira completamente diferente a vida, que se torna outra coisa. Então o ser se faz consciente do funcionamento or-gânico do todo, dos princípios que o regem e da tarefa que lhe cabe realizar. Ele compreende a lógica do plano divino na direção tudo e percebe que a sua maior vantagem está em segui-lo. Profundamente convencido disto, ele julga loucura o espírito de revolta do homem atual e, espontaneamente, coloca-se na ordem, para obedecer à sabedoria da Lei.

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Dessa nova maneira de conceber decorrem consequências importantes. An-tes de tudo, o ser atinge um conceito completamente diferente de Deus, da religião e da ética. Ao princípio antropomórfico do sistema hierárquico se substitui o princípio superior do sistema de tipo unitário. Neste, a criatura não é mais um súdito sujeito à vontade de um rei que se colocou em cima de uma hierarquia de dependentes, perante o qual o indivíduo não tem outro direito a não ser obedecer à lei que o rei quer e faz, transmitida por intermédio dos seus ministros, que o representam, mandando em nome dele. A tal conceito, completamente humano, que é a reprodução da condição encontrada em nosso atual nível biológico, substitui-se outro, de um estado orgânico, segundo o qual a criatura é uma célula do todo, nele harmonicamente fundida numa or-dem superior, ou seja, na Lei, que, com justiça imparcial, tudo dirige e domi-na. A posição natural do ser não é, então, de automática rebeldia – à qual o rebelde é levado pelo fato de seus interesses, como acontece na sociedade humana, não serem os mesmos do chefe, que manda apenas porque venceu como o mais forte – mas, pelo contrário, é de espontânea obediência, porque esta é a condição da sua maior vantagem.

E é lógico que seja assim, porque o conteúdo de um plano evolutivo superi-or não pode ser senão de tipo unitário, como é o S, do qual aquele plano está mais próximo, e porque o conteúdo de um plano evolutivo inferior, como o humano, não pode ser senão de tipo egocêntrico separatista, como é o AS, do

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qual este plano está mais próximo. União, fusão, eis a psicologia de quem atingiu a forma mental superior, que está nos antípodas da psicologia egocên-trica, de oposição a tudo e a todos, dividindo em vez de unificar. Trata-se de duas formas opostas de pensamentos e de existência.

De tudo isto decorre uma diferente forma de conceber e realizar as relações sociais. O indivíduo, então, não é mais um rival do seu semelhante, em luta contra ele, num regime de inimizade, guerra e atritos, mas é seu amigo, num regime de compreensão, paz e colaboração. Tudo isto representa uma grande mudança nas atuais condições da sociedade humana e será a revolução que transformará um mundo de feras num mundo de seres conscientes e civilizados. Tudo isto é diferente da ética e das religiões em vigor. Diferente não do que elas pregam e sustentam em teoria, mas sim do que a maioria faz na prática, devido à natureza involuída do homem atual, que, com sua forma mental, não sabe sair do seu plano e concebe tudo antropomorficamente, reproduzindo o que ele vê acontecer na Terra. A culpa, então, não é das religiões, mas do ho-mem ainda não evoluído, que não sabe pensar de outro modo. Para ele, são necessárias as formas exteriores, os absolutismos dogmáticos, o espírito de grupo para condenar todos os que se encontram fora dele, a exclusividade da verdade, a coligação de interesses, um Deus atingível só através dos seus re-presentantes materiais, bem visíveis e concretos, o terror do dano (inferno) e a cobiça da vantagem (paraíso), sem o que tudo cairia no abuso. Trata-se, então, dada a natureza humana, de um método indispensável, de um mal necessário, pois não se pode permitir liberdade às massas ignorantes, que, não possuindo qualquer instinto de autodisciplina consciente, mas só a desordenada inconsci-ência dos impulsos egocêntricos individualistas, acabariam na anarquia.

Se, porém, num nível superior a este, o ser atinge a consciência da Lei e da presença de Deus e, nesta consciência, encontra a autodisciplina que diri-ge a sua conduta, tudo o que é produto daquela necessidade prática para do-minar os rebeldes com o medo da pena e o desejo do prêmio, como agora mencionávamos, não é mais necessário e, pelo fato de não ter mais razão para existir, tem de desaparecer. Não há mais nada que justifique tais méto-dos, quando o ser conhece a sua posição no todo e obedece a Deus com toda a liberdade, por convicção, sem precisar de ser constrangido, porque sabe que obedecer à Lei representa a sua maior vantagem. Esse novo tipo de ética representa a maioridade das religiões, que a nova civilização do III Milênio

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alcançará. Poderão assim desaparecer por evolução os pontos fracos que vi-mos a respeito das religiões atuais.

Numa religião clara e visível, positiva e racionalmente demonstrada, sem nuvens de mistério, não há mais lugar para enganos. Perante um Deus que a mente concebe verdadeiramente presente, e não só em teoria, não terá mais sentido desenvolver a arte das escapatórias. Quando não houver mais comando praticado com a psicologia de patrão, não haverá mais razão para a revolta que nasce no coração da criatura. Para que então desobedecer a Deus, quando a mente entendeu que isto é absurdo e prejudicial, uma vez que rebelar-se quer dizer ferir-se com as próprias mãos? Quem não procura a sua vantagem e não quer fugir do seu dano? Ninguém pode ir contra a sua própria vida. O proble-ma é só um: chegar a compreender quão contraproducente é o atual método da conduta humana. Quando o homem entender a conveniência de ser honesto, ele só não fará o que mais lhe convém, se for louco.

Apesar de tudo, muitos quereriam ficar parados, descansando nas velhas posições do passado, poupando-se ao trabalho de progredir. Mas a evolução não os deixa em paz, impulsionando-os irresistivelmente para frente. O ho-mem, aos poucos, irá assim entendendo cada vez mais, até se aperceber quão mais satisfatória é uma conduta livre, com a obediência espontânea, dirigida pelo conhecimento e pela convicção, em vez de uma disciplina imposta à for-ça, pelo terror da punição. A isto levará a evolução, o que significa afastar-se do AS e de suas características, para aproximar-se do S, isto é, de Deus.

É assim que Ele se aproxima de nós, e nós Dele. É uma sensação deslum-brante a percepção dessa presença. É maravilhoso poder absorver a Sua potên-cia vital, observando o pensamento Dele escrito na Sua lei e lendo esse livro, onde estão os princípios que dirigem a vida de tudo o que existe. Ele represen-ta a atmosfera dinâmica e conceptual que respiramos em todos os momento e lugares, circulando ao nosso redor, penetrando-nos e enchendo-nos por dentro. Que esplendor não ter de imaginar Deus afastado, longínquo nos céus, mas poder senti-lo vivo entre nós, trabalhando ao nosso lado, ajudando-nos em nossa luta para evoluir, com o Seu imenso poder, bondade e sabedoria!

Não pode deixar assim de acabar por si mesmo o jogo interesseiro para nos assegurar a vida futura, quando sabemos que ela está automaticamente garan-tida para quem a mereceu, conforme a justiça exige, e que, seja qual for a nossa astúcia, nada podemos obter, se não for merecido. A massa dos fiéis de hoje, porém, não gosta e não aceita tal verdade, porque não sabe renunciar à

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bela miragem que satisfaz os seus instintos, com a qual lhe parece possível realizar o sonho de receber sem pagar, de obter sem merecer. Neste nível pre-valece o princípio da força e da astúcia, enquanto no nível superior domina o princípio da justiça. Nestes dois níveis biológicos, a vida se defende com ar-mas diferentes. As primeiras são de tipo inferior, mais próximo do AS, e re-presentam, por isso, um método involuído, de superfície, levando a uma vitó-ria mais imediata, porém temporávitó-ria, destinada a acabar na falência, porque baseada no engano, e não no merecimento. Neste caso trata-se de um edifício que tem de cair, porque, não tendo os seus alicerces nos princípios da Lei, é desequilibrado. As armas que defendem a vida no outro nível biológico são de tipo superior, mais próximo do S, e representam, por isso, um método evo-luído, que trabalha na profundeza, com uma vitória em longo prazo, porém estável, que não acaba na falência, porque baseada na verdade e no mereci-mento. Neste caso, trata-se de um edifício que não cai, porque, tendo os seus alicerces nos princípios da Lei, é equilibrado.

Chegando a esse superior plano de evolução, mudam as relações entre o ser e Deus. Nada mais de arbítrio irresponsável, pelo direito do mais forte. Tal conceito não pode existir senão na forma mental humana, em relação ao nível desta e para as finalidades do seu mundo. Chegou a hora de aplicar a psicaná-lise a este e outros conceitos que dominam nas religiões, para ver de que im-pulsos do subconsciente eles nasceram. É absurdo que, mais no alto, domine a mesma desordem e espírito de prepotência reinante no nível humano. Direitos e deveres existem para todos, escritos na Lei. E Deus é o primeiro que dá o bom exemplo de obediência à Lei. Se imaginarmos Deus igual a um chefe humano que pode fazer tudo com o seu arbítrio, então o ser estará, justamente por isso, autorizado a agir da mesma forma, tendo o direito de fazer perante Deus, como de fato acontece, o que fazem os súditos humanos, que procuram, com o engano, evadir-se da lei do mais forte.

É lógico que, em dois níveis biológicos diferentes, seja diverso o conceito de Deus. A concepção antropomórfica do arbítrio descontrolado tem de desa-parecer no nível superior, porque aí, onde reina uma ordem preestabelecida e perfeita, ela se torna absurda. Isto não ofende a liberdade de Deus, pois quem obedece à sua própria vontade não é escravo. A primeira concepção se baseia, de um lado, no princípio da força, que em nosso mundo constitui o direito do patrão, e, do outro, como reação correspondente, no princípio da astúcia, que a criatura utiliza para exercer o seu equivalente direito à vida, porquanto este

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é comum a todos. A segunda concepção não se baseia mais em tal princípio de antagonismos e rivalidades, pelo qual o mais fraco tem de obedecer ao mais forte, mas sim num princípio de equilíbrio estável e de justiça, represen-tado pela reciprocidade dos direitos e deveres. Temos assim uma ordem per-feita para ambos os termos do binômio: Deus e criatura. O conceito de arbí-trio está ligado ao de ignorância, tentativa, escolha entre opostos, dualismo, egocentrismo individualista, desordem, imperfeição, e nada disto é compatí-vel com a perfeição de Deus. Em um nícompatí-vel superior, o ser sabe com clareza o que ele deve fazer, tendo certeza de poder contar com a Lei, que lhe permite calcular os efeitos das suas ações.

A palavra obediência toma outro significado neste nível superior. Nos pla-nos inferiores, o egocentrismo individualista divide e a obediência significa escravidão perante uma vontade inimiga. Nos planos superiores, a obediência do ser representa concordar e harmonizar-se com os princípios que regem a própria vida dele, para sua maior vantagem. Mas ser constrangido à obediência para realizar o próprio bem não é obedecer, mas sim realizar plenamente a pró-pria vontade. A diferença entre os dois níveis está no fato de que, nos planos inferiores, prevalece o antagonismo, o qual divide os seres entre si e contra Deus, tornando a obediência uma opressão antivital, enquanto, nos planos supe-riores, tudo isto desaparece numa unidade na qual os seres se fundem entre si e com Deus, numa só vontade, dirigida para a mesma finalidade de bem, o que transforma a obediência em elemento vital. No segundo caso, então, a obediên-cia não significa, como acontece com os patrões terrenos, que Deus esmaga a criatura sua escrava, mas sim que Ele a ajuda, dignifica e respeita nela a Si pró-prio, todos colaborando juntos para o bem e a felicidade de cada um.

Antes de ter o dever de obedecer, o ser tem o direito de saber em proporção ao seu merecimento, desenvolvendo com o seu esforço a sua capacidade de entendimento. E Deus quer que a desenvolvamos sempre mais, para entender cada vez melhor. Ai de quem adormece por preguiça na fé cega, sustentando que tudo já foi resolvido e é conhecido! A obediência será tanto mais perfeita quanto mais perfeito for o conhecimento. Quanto mais este se desenvolve, tanto mais o ser entende que é sua vantagem obedecer, fundindo a sua vontade com a de Deus, que só quer o bem da criatura. E esta fusão pode ser realizada, uma vez que, subindo, desaparecem os egocentrismos separatistas dos rebel-des, levando os seres a se coordenarem e organizarem dentro do único egocen-trismo de Deus. Então, o maior desejo e satisfação é fazer a vontade do Pai,

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com a qual a nossa vontade se funde, tornando-se uma só, porque Ele quer o que nós mais desejamos, isto é, a nossa felicidade. Neste nível, não fazem mais sentido nem têm mais lugar os métodos praticados no nível atual, basea-dos na ideia da vingança, no terror da pena e nas astúcias para escapar à Lei.

O ser pode então se movimentar com conhecimento, num regime de lógica e clareza, que lhe garante os resultados. Ele se encontra finalmente perante um Deus sobretudo inteligente, que não condena como culpa o desejo de conhe-cimento e que admite perguntas inteligentes, às quais responde para quem tem ouvidos. O ser sabe que tem os seus direitos e quais são eles, porque Deus escreveu tudo na Sua lei; sabe que Deus não é um patrão despótico e capricho-so, como também sabe que pode contar com Ele, porque Ele, honestamente, mantém a Sua palavra. Quando se torna um justo, o ser não tem mais nada a esconder ou a temer de Deus, passando a confiar Nele. Deus, então, não é mais um inimigo a temer, como os rebeldes acham que seja, mas sim um amigo que vem ao nosso encontro para nos ajudar. Então o ser sabe que, obedecendo a Deus, pode, em nome da Sua própria justiça, reclamar perante Ele o cumpri-mento dela, pois ninguém mais do que Deus pode exigir respeito pela ordem estabelecida por Ele mesmo. Então cada um que tenha verdadeiramente cum-prido todo o seu dever e esteja com a consciência limpa, pode dizer: “Senhor, em nome da Tua própria justiça, que procurei realizar com todas as minhas forças, defende-me para eu obter justiça neste mundo de injustiças”. A verda-deira ofensa contra Deus seria se essa justiça não fosse realizada para quem a mereceu e, assim, prevalecesse no lugar da Lei, que é a voz do S, a vontade do rebelde, que representa a voz do AS. O ser pode pecar, rebelando-se contra a vontade de Deus. Mas como pode Deus pecar, rebelando-se contra Sua própria vontade? E como pode ser culpa reclamar perante Deus que seja realizada a Sua lei, isto é, que seja feita a Sua vontade?

Referências

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