Tribunal de Justiça de Minas Gerais
1.0105.97.003657-7/001
Número do Númeração
0036577-Des.(a) Silas Vieira Relator:
Des.(a) Silas Vieira Relator do Acordão:
03/03/2005 Data do Julgamento:
13/05/2005 Data da Publicação:
EMENTA: AGRAVO DE INSTRUMENTO DECLARAÇÃO DE AUSÊNCIA -CITAÇÃO - ARRECADAÇÃO DOS BENS - INOBSERVÂNCIA DO PROCEDIMENTO LEGAL. O rito previsto na Lei Adjetiva Civil para a arrecadação dos bens do ausente, independe de prévia citação da pessoa desaparecida, necessitando apenas da declaração por sentença da ausência, compreendendo tal procedimento de três estágios distintos, expressamente disciplinado nos arts. 1.159 a 1169, do Código de Processo Civil.
AGRAVO (C. CÍVEIS ISOLADAS) Nº 1.0105.97.003657-7/001 - COMARCA DE GOVERNADOR VALADARES - AGRAVANTE(S): MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADO MINAS GERAIS - AGRAVADO(A)(S): NEIDE CRISÓSTOMO DOS SANTOS - RELATOR: EXMO. SR. DES. SILAS VIEIRA ACÓRDÃO
Vistos etc., acorda, em Turma, a OITAVA CÂMARA CÍVEL do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais, incorporando neste o relatório de fls., na conformidade da ata dos julgamentos e das notas taquigráficas, à unanimidade de votos, EM DAR PROVIMENTO PARCIAL AO RECURSO. Belo Horizonte, 03 de março de 2005.
DES. SILAS VIEIRA - Relator>>> 24/02/2005
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ADIADO
NOTAS TAQUIGRÁFICAS
AGRAVO (C. CÍVEIS ISOLADAS) Nº 1.0105.97.003657-7/001 - COMARCA DE GOVERNADOR VALADARES - AGRAVANTE(S): MINISTÉRIO PÚBLICO ESTADO MINAS GERAIS - AGRAVADO(A)(S): NEIDE CRISÓSTOMO DOS SANTOS - RELATOR: EXMO. SR. DES. SILAS VIEIRA O SR. DES. SILAS VIEIRA:
VOTO
Trata-se de recurso interposto contra a r. decisão de f. 107/108 - TJ, proferida nos autos do pedido de DECLARAÇÃO DE AUSÊNCIA, ajuizada por NEIDE CRISÓSTOMO DOS SANTOS contra MARIA DE FÁTIMA DOS SANTOS, via da qual a MM.ª Juíza da causa anulou todos os atos processuais a partir da f. 10, determinando a intimação da autora e seu advogado, pessoalmente, para emendar a inicial, nos termos do art. 282, do CPC, no prazo de 10 dias, sob pena de indeferimento.
Inconformado, interpôs o MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MINAS GERAIS o presente recurso, sustentando em apertada síntese que o pedido de declaração de ausência visa resguardar os bens do ausente e não a sua pessoa, asseverando tratar-se de procedimento de jurisdição voluntária, disciplinado nos artigos 1.159 a 1.169 do Código de Processo Civil. Apesar de devidamente intimada, a agravada não apresentou resposta.
Registro que o presente recurso foi recebido apenas em seu efeito devolutivo (f. 128 - TJ).
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A douta Procuradoria-Geral de Justiça opina pelo desprovimento do recurso (f. 134/136 - TJ).
Conheço do recurso, eis que presentes os seus pressupostos de admissibilidade.
Cinge-se a controvérsia instaurada no presente agravo acerca da decisão que anulou todo o processo de DECLARAÇÃO DE AUSÊNCIA, entendendo-o, irregular, uma vez que a ré não havia sido citada para tal fim, bem como não havia sido declarada sua ausência por sentença judicial transitada em julgado, concluindo o Magistrado singular que tais fatos atropelaram o procedimento previsto no Código de Processo Civil.
Pois bem.
Ab initio, cumpre-me esclarecer que o procedimento especial, adotado para a obtenção da declaração judicial de ausência de pessoa desaparecida, encontra-se disciplinado nos arts. 1.159 a 1.169 do CPC e, como bem ressaltou o parquet em sua peça recursal, tem como principal objetivo a preservação dos bens do ausente e não da sua pessoa.
O rito previsto na Lei Adjetiva Civil para a declaração de ausência, independe de prévia citação da pessoa desaparecida, bem como de sentença judicial transitada em julgado', compreendendo tal procedimento de três estágios distintos que, na lição do Professor HUMBERTO THEODORO JÚNIOR são os seguintes:
a) o primeiro consiste na nomeação de curador ao ausente e arrecadação dos bens por ele abandonados, bem como na convocação edital do ausente para retomar a posse de seus bens (arts. 1.160 e 1.161);
b) no segundo estágio, que pressupõe o não comparecimento do ausente, procede-se à abertura de sucessão provisória entre os seus herdeiros (arts. 1.163 a 1.166)
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c) o último estágio, que pressupõe ainda o não comparecimento do ausente e a não comprovação de sua morte efetiva, destina-se à conversão da sucessão provisória em definitiva, à base da presunção de morte do ausente (art. 1.167). (Curso de Direito Processual Civil, 32ª ed. Forense, vol III, p. 388)
Do acima exposto, conclui-se que, peticionada a declaração de ausência noticiando o desaparecimento de alguém do seu domicílio, o juiz, se julgar necessário, poderá adotar medidas para sua comprovação, em caso contrário, se já convencido do fato, declarará a ausência, nomeando, incontinenti, um curador, arrecadando os bens deixados em abandono. Depois de adotadas tais providências, o juiz determinará a citação do ausente por edital, noticiando a arrecadação e convocando-o para retomar a posse de seus bens, sendo certo que, tal procedimento foi efetivamente observado nos autos, conforme se vê do documento de f. 33 - TJ.
Ao lecionar sobre a primeira fase do procedimento de declaração de ausência, o Professor HUMBERTO THEODORO JÚNIOR assevera que a petição inicial, elaborada por qualquer interessado, comunicará ao juiz o desaparecimento de alguém do seu domicílio, deixando bens sem representante para administrá-los. Tomando por termo a afirmação de ausência, "o magistrado nomeará curador ao ausente e mandará arrecadar os seus bens (art. 1.160). A escolha do curador será feita com observância das regras de preferência, constante dos arts. 466 e 467 do Cód. Civil de 1916 (CC de 2002, art 25)", concluindo que:
"Ultimada a arrecadação, do qual se lavrará auto circunstanciado, publicar-se-ão editais durante um ano, reproduzidos de dois em dois meses, anunciando a arrecadação e chamando o ausente para retomar a posse de seus bens (art. 1.161)." (op, cit.)
No caso em comento, observa-se da documentação colacionada para o presente instrumento que o rito previsto no CPC foi inteiramente
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observado pela autora, não havendo nenhuma irregularidade no processamento da ação de declaração de ausência, devendo-se, pois, ser reformada a decisão que anulou o processo, retomando, via de conseqüência, seu curso normal.
Diante do exposto, dou provimento ao recurso. Custas, ex lege.
É como voto.
O SR. DES. EDGARD PENNA AMORIM: De acordo.
O SR. DES. DUARTE DE PAULA: Sr. Presidente,
Peço vista dos autos.
SÚMULA: PEDIU VISTA O SEGUNDO VOGAL. O RELATOR E O PRIMEIRO VOGAL DAVAM PROVIMENTO AO RECURSO.
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NOTAS TAQUIGRÁFICAS
O SR. PRESIDENTE (DES. ISALINO LISBÔA):
O julgamento deste feito foi adiado na Sessão do dia 24/02/2005, a pedido do 2º Vogal, após votarem o Relator e o 1º Vogal dando provimento ao recurso.
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VOTO
Como se sabe, verificado o desaparecimento de determinada pessoa, deve ser declarada judicialmente sua ausência, com a arrecadação de seus bens e a nomeação de curador que os administre. Da decretação da ausência tratam os artigos 22 a 39 do Código Civil e 1.159 e seguintes do Código de Processo Civil.
O Código Civil estabelece:
"Desaparecendo uma pessoa do seu domicílio sem dela haver notícia, se não houver deixado representante ou procurador a quem caiba administrar-lhe os bens, o juiz, a requerimento de qualquer interessado ou do Ministério Público, declarará a ausência, e nomear-lhe-á curador" (art. 22). "Também se declarará a ausência, e se nomeará curador, quando o ausente deixar mandatário que não queira ou não possa exercer ou continuar o mandato, ou se os seus poderes forem insuficientes" (art. 23).
Tal procedimento desmembra-se em três fases: a da curadoria dos bens do ausente, a da sucessão provisória e a da sucessão definitiva. A cada uma corresponde processo próprio.
Na primeira fase, de natureza cautelar, arrecadam- se os bens do ausente, providência que o juiz pode determinar de ofício, em face do seu relevante interesse público. Procede-se à arrecadação da mesma forma que a da herança jacente (CPC, art. 1.160). É nomeado curador o cônjuge, desde que não separado judicialmente ou, de fato, por mais de dois anos; em sua falta, o pai, a mãe ou os descendentes, precedendo os mais próximos os mais remotos; na falta das pessoas mencionadas, compete ao juiz a escolha do curador (CC, art. 25).
Este procedimento encerra-se com uma sentença que reconheça a ausência daquela determinada pessoa. Dita sentença que se profere nesta fase tem a natureza constitutiva da curatela e deve ser registrada no Registro Civil de Pessoas Naturais (Lei nº 6.015/73, art.
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29, VI), no cartório do domicílio anterior do ausente, produzindo os mesmos efeitos do registro de interdição (art. 94).
Consumadas tais providências, publicam-se editais durante um ano, reproduzidos de dois em dois meses, anunciando a arrecadação e chamando o ausente a entrar na posse de seus bens (CPC, art. 1.161). A curadoria cessa, por sentença averbada no livro de emancipação, interdições e ausência (Lei nº 6.015/73, art. 104): comparecendo o ausente, seu procurador ou quem o represente; sobrevindo a certeza da morte do ausente; ou sendo aberta a sucessão provisória (CPC, art. 1.163).
Decorrido um ano da arrecadação dos bens do ausente, ou três anos, havendo ele deixado representante ou procurador, inicia-se a segunda fase do procedimento, qual seja, a da abertura da sucessão provisória, que pode ser requerida pelo cônjuge não separado judicialmente; pelos herdeiros presumidos, legítimos ou testamentários; pelos que tiverem sobre os bens do ausente direito dependente de sua morte, como o nu-proprietário e o fideicomissário de bens de que o ausente seja, respectivamente, usufrutuário ou fiduciário; ou pelos credores de obrigações vencidas e não pagas.
Requerida a abertura da sucessão provisória, citam-se pessoalmente os herdeiros presentes na comarca, bem como o curador e, por edital, os demais (CPC, art. 1.164). Também devem ser citados o cônjuge e o Ministério Público. A citação dos herdeiros faz-se para que ofereçam artigos de habilitação, isto é, para que comprovem sua qualidade de sucessores do ausente. A habilitação obedece ao processo do artigo 1.057 do Código de Processo Civil (CPC, art. 1.164). Passada em julgado a sentença que determinou a abertura da sucessão provisória, procede-se à abertura do testamento, se houver, e ao inventário e partilha dos bens. Não comparecendo herdeiro ou interessado que requeira o inventário, a herança será considerada jacente (CPC, art. 1.165 e parágrafo único).
Cessada a sucessão provisória é aberta e iniciada a sucessão definitiva, terceira fase do procedimento. A sucessão definitiva
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acontece: quando houver certeza da morte do ausente; a requerimento dos interessados, dez anos depois de passada em julgado a sentença de abertura da sucessão provisória; provando-se que o ausente possui oitenta anos de idade, e que de cinco datam as últimas notícias suas (CC, artigos 37 e 38; CPC, art. 1.167), casos em que se presume a morte do ausente (CC, art. 6º).
Feitas tais considerações acerca do trâmite legal da declaração de ausência, passa-se à análise do caso concreto.
In casu, como bem observado pelo eminente Relator, tanto a arrecadação dos bens como a nomeação de curador especial ao ausente foram realizadas nos termos da lei (f. 24; 30/31). Da mesma forma, foram publicados os editais, anunciando a arrecadação e chamando o ausente a entrar na posse de seus bens (f. 33 e outras), o que, todavia, não ocorreu.
Nesse contexto, passado mais de um ano da arrecadação de bens e do primeiro edital, legítimo o pedido de abertura de sucessão provisória requerida pela herdeira da ausente (f. 57/58). Todavia, este não poderia ter sido deferido sem a prévia declaração de ausência pelo Juízo, nos exatos termos do art. 26, CC e 1.163, CPC, providência que não se verificou nestes autos para encerramento da primeira fase.
Assim sendo, ao chamar o processo à ordem, deveria o MM. Juiz, tão-somente, declarar formalmente a ausência de MARIA DE FÁTIMA SANTOS, e invalidar ou determinar que se aguardasse a abertura da sucessão provisória, requerida pela herdeira da desaparecida, não havendo irregularidade formal nos demais atos praticados naquela primeira fase de arrecadação e curatela.
Pelo exposto, dou parcial provimento ao recursopara, de ofício, declarar a ausência de MARIA DE FÁTIMA SANTOS, determinando que esta decisão seja levada a transcrição no Registro Civil das Pessoas Naturais do domicílio, convalidando todos os atos da primeira fase do processo e os que lhe seguiram até o requerimento de abertura da sucessão provisória, que susto até o cumprimento das determinações
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acima.
Custas ex lege.
O SR. DES. SILAS VIEIRA: Senhor Presidente, pela ordem.
Usando da faculdade regimental, nesta oportunidade, retifico, em parte, o voto antes por mim proferido, adequando-o ao entendimento esposado pelo eminente Des. Duarte de Paula, de maneira a suprir a irregularidade apontada no sentido de que se tenha por declarada a ausência de Maria de Fátima Santos pelo Juiz, em atendimento ao art. 22 e seguintes do Código Civil.
É como voto.
O SR. DES. EDGARD PENNA AMORIM: Senhor Presidente, pela ordem.
No uso do autorizativo regimental, e, tendo em vista o reposicionamento parcial do eminente Relator, também retifico, em parte, o voto que proferi para, na esteira da decisão do eminente Des. 2º Vogal, dar parcial provimento ao agravo.