FALTA DE ÁGUA
Como o “Dia Zero” está a afetar a vida nas metrópoles mundiais A Cidade do Cabo, primeira grande cidade que está a ficar sem água, é apenas a ponta do icebergue. Especialistas das Nações Unidas e cientistas da NASA apontam para várias cidades do mundo que estão em risco de “stress
hídrico”. Conheça os sinais e as consequências deste fenómeno que está a ameaçar vários pontos do globo.
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A FIGURA
Tomi Lahren, a jovem republicana mais popular (e controversa) do que Trump
O “New York Times” chamou-lhe a “estrela mediática em ascensão na direi-ta” americana. Polémica, conservadora e antifeminista, diz que nunca seria advoga-da, cheerleader ou apoiante do KKK. Tem quatro milhões de seguidores nas redes sociais e tem estado no centro de várias polémicas. Conheça Tomi Lahren, a nova coqueluche do Partido Republicano.
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KARL MARX
A Esquerda ainda é marxista? O bicentenário do pai do marxismo assinala-se no próximo mês de maio e em Portugal a efeméride será assi-nalada pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, já a partir deste fim de semana. A figura de Marx continua a ser venerada pela Esquerda, mas as suas teorias deixaram de figurar nos programas eleitorais e no discurso corrente de comunistas e bloquistas, que aparentemente se converteram em marxistas culturais.
JAMIE’S ITALIAN
O restaurante italiano do inglês Jamie Oliver em Lisboa O chef britânico, popular pelos programas de culinária transmitidos em todo o globo, abriu o seu primeiro restaurante em Lisboa. Fica no Príncipe Real, é italiano e é a nova coqueluche dos restaurantes trendy na capital e é francamente difícil reservar mesa. Mas o Et Cetera conseguiu.
ÍNDICE
ÍNDICE
Rosa
flamingo
onfesso que estou tão preocupa-do com o futuro preocupa-do país que te-nho andado atento a oportuni-dades de emprego noutras geo-grafias. Foi assim que na semana passada, mais exatamente no dia 16, fiquei muito in-teressado num anúncio: procurava-se um CFO para as Bahamas. Isto sim, seria mudar de vida. Como CFO iria ganhar bem, e a vida nas Bahamas deve ser muito agradável. Aqueles que me estão a ler pensarão que não tenho propriamente as qualificações neces-sárias para ser CFO, mas o anúncio era de um resort, portanto admiti que tinha uma boa probabilidade de conseguir o lugar, além de juntar o útil ao agradável – Bahamas e um
resort, que combinação pode ser melhor?
Foi ao ler o resto que me apercebi de que o CFO significava Chief Flamingo Officer. O Gestor de Passarada (avian manager, o outro nome que deram ao CFO no anúncio do Ba-ha Mar Resort) deveria ter “knowledge of avian science, flamingo care and propaga-tion, bird husbandry skills and animal trai-ning & enrichment skills.” Está tudo dito, não é desta que me safo. Pelos vistos, mais vale concorrer para a Cadbury’s, que desde o dia 13 procura “chocolate taste-testers”. Te-ria a vantagem de não apanhar bicadas, que
podem ser – olhem para o bico dos bichos – muito dolorosas, mas em contrapartida ar-risco-me a ficar com os dentes podres e con-trair diabetes. Desta vez pede-se “a passion for confectionery and taste buds for detec-tion” e “eagerness to try new and inventive products.” Foi a parte do “inventive” que me decidiu a pôr esta possibilidade de lado.
Virei-me então para a britânica B&M, que procura um “chicken nugget connoisseur”. Mas desisti porque pediam experiência, es-pecificamente: “Getting the 20 share box of nuggets from McDonalds and keeping them all for yourself; being the first in the office kitchen whenever there’s cake; going to an event because there is free food; you value the importance of a fish finger sandwich in life; e you can conduct a powerpoint presen-tation on curly fries being nicer than chips.” Também não fiquei tentado pela oferta do Weeki Wachee Springs State Park, que quer recrutar sereias por atualmente só ter 17. Achei que não conseguiria concorrer com as raparigas do Continente, mesmo frequen-tando as aulas no Hotel del Coronado, em San Diego, de fitness para sereias; ainda se fosse para unicórnio…
Portanto, resolvi ficar por aquilo que co-nheço: político, se possível deputado euro-peu. É um emprego de futuro, bem pago e em que não é preciso fazer muito. E não te-nho problemas de garganta, o que é bom por se ter de passar muito tempo a emborcar be-bidas geladas. E gostaria até de ser CEO – Chief Elephant Officer, não de elefantes brancos, mas cor-de-rosa.●
OPINIÃO
HEMP LASTRU
Fiquei muito
interessado num
anúncio: CFO para
as Bahamas. Isto
sim, seria mudar
de vida. Mas depois
percebi que CFO
significava
‘Chief Flamingo
Officer’, o Gestor
de Passarada…
Nota biográfica:Hemp Lastru (n. 1954, em Praga) é sobrinho neto de Franz Kafka. Democrata convicto, ativista e lutador político, é preso várias vezes pela polícia secreta checoslovaca, tendo sido sentenciado em 1985 ao corte de uma orelha sob a acusação de “escutar às portas”. Abandona a política em 1999, deixando Praga para residir em Espanha. Mudou-se para Portugal em 2005 porque “gostaria de viver num país onde os processos são como descrevia o meu tio-avô nos livros.”
C
o centro de convenções de Pa-sadena, em Los Angeles, o pai-nel mais concorrido pelos dez mil participantes da Politicon (encontro político não partidário) juntou a apresentadora Chelsea Handler e a republi-cana Tomi Lahren. Estávamos em julho de 2017 e a administração Trump encontrava--se no início. Neste painel, o momento mais sarcástico do dia aconteceu quando Chelsea perguntou a Tomi qual era o seu seguro de saúde. “Como tenho 24 anos, ainda estou co-berta pelo seguro dos meus pais”, respondeu. A audiência reagiu com um violento coro de apupos. A conversa azedou ainda mais quando Tomi apoiou a decisão de banir transexuais do exército norte-americano, medida que afetaria até 15 mil militares já em funções. “O exército não é um lugar para ex-periências sociais. Só não quero ter de pagar DE ARMA EM PUNHO
NAS REDES SOCIAIS Formada em Jornalismo e Ciência Política, Lahren já é considerada uma das novas vozes da direita americana. É fã dos rappers Pusha T e Kendrick Lamar. Gosta de “comida de plástico” e já apareceu de arma em punho nas redes sociais. Tornou-se num rosto conhecido a nível nacional, mas também internacional, quando foi a convidada do Daily Show With Trevor Noah. Tem quatro milhões de seguidores no Facebook e mais de dois milhões no Twitter e Instagram.
Foto
cedida
por isso”, disse. Tomi, que foi despedida do site TheBlaze após ter dito que era pró-esco-lha no aborto, fartou-se de dizer que a sua lealdade não está com Trump, mas com a América. No entanto, de acordo com o jor-nal “The New York Times”, Lahren terá contribuído não oficialmente para a campa-nha presidencial de Trump como especialis-ta em social media.
Os vídeos da jovem geram frequentemen-te mais utilizações do que os colocados, por exemplo, na página oficial do presidente norte-americano. Talvez o de maior sucesso tenha sido o comentário em que ataca o jo-gador de futebol americano Colin Kaeper-nick.
Em 2016, o quarterback dos San Francisco 49ers recusou-se a escutar o hino de pé, ini-ciando o gesto de ajoelhar, como forma de protesto contra as injustiças raciais no país. Repetiu-o várias vezes durante a pré-tempo-rada, que também teve destaque no futebol feminino, através de Megan Rapinoe, uma das maiores estrelas da modalidade.
Lahren, por sua vez, despejou toda a sua fúria contra o atleta: “Se este país o enoja tanto, vá-se embora. Parece-me que culpar os brancos por todos os seus problemas pode fazer com que seja você o racista”. O vídeo foi visto mais de 66 milhões de vezes.
A reação valeu-lhe um séquito de fãs, críti-cos e muita reprovação por parte dos libe-rais. “White Power Barbie” é um dos insul-tos mais comuns – muiinsul-tos outros são impu-blicáveis. “Quer me ame quer me odeie, con-tinue a assistir”, costuma responder. Lahren critica igualmente os negros americanos pelo desemprego, uso de drogas e outros problemas sociais. Em 2016 estalou mais uma polémica, desta vez com a cantora
Beyoncé. A artista surpreendeu os fãs com a sua atuação no intervalo do Super Bowl. A cantora interpretou o novo single “Forma-tion” e prestou homenagem ao movimento político Panteras Negras, um grupo político negro dos anos 60. O Partido das Panteras Negras foi um partido radical que se formou em 1966 e permaneceu ativo nos Estados Unidos até 1982. Poucos meses depois, To-mi publicou um tweet onde comparou as Panteras Negras ao Ku Klux Klan.
Lahren cresceu numa família rural em Dakota do Sul e tem ascendência norueguesa e alemã. Depois de estudar na Universidade de Nevada ganhou um programa no canal conservador “One America News” até ser contratada pelo site “The Blaze”. Jornalismo tradicional, afirma, não é para ela. Hoje em dia, aos 25 anos, é colaboradora da Fox News. A jovem republicana faz sempre questão de referir: “Sou americana, primeiro e antes de tudo”.
Numa entrevista à BBC contou que os pais não eram muito ligados à política, mas que discutiam a atualidade. “Foi ali que aprimo-rei minhas habilidades para o debate”, expli-cou. “Foi ali que tudo realmente começou, muito, muito jovem.”
Com mais de quatro milhões de seguido-res no Facebook, os inimigos de Tomi tam-bém fazem questão de mostrar a sua raiva atribuindo-lhe declarações falsas. Numa das mensagens mais recentes no Twitter, colo-cada pelo utilizador “Born Miserable”, apare-cia uma foto da jovem com a seguinte frase: “Se morrer num tiroteio, a culpa não é do atirador. A culpa é sua por não acreditar o suficiente em Deus”. O post tornou-se viral mas, desta vez, a mensagem da ultraconser-vadora era falsa.●
TOMI LAHREN
A jovem
republicana
mais popular
do que Trump
Tomi Lahren foi
considerada pelo
“The New York Times”
como “a estrela mediática
em ascensão da direita”
americana. Polémica,
conservadora
e antifeminista diz que
nunca seria “advogada,
‘cheerleader’ ou apoiante
do KKK”.
ANTÓNIO SARMENTO [email protected]FIGURA
N
KARL MARX
200 anos depois,
a esquerda
continua a ser marxista?
O bicentenário do pai do marxismo assinala-se no próximo mês de maio e em Portugal a efeméride
será assinalada pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, a partir deste fim de semana. A figura de Marx
continua a ser venerada pela Esquerda, mas as suas teorias deixaram de figurar nos programas
eleitorais e no discurso corrente de comunistas e bloquistas, que aparentam ter-se convertido
em marxistas culturais, ou não praticantes. Mas até que ponto as ideias de Marx continuam
a ser relevantes e a servir de referencial para a esquerda portuguesa e europeia?
JOANA ALMEIDA E JOSÉ VARELA RODRIGUES
MARXISMO
onde começa a desenvolver um pensamento materialista, em que já abordava contradi-ções sociais e apontava para uma união das massas e do proletariado.
Uma posição que o levou a Paris, França, onde conhece Friedrich Engels, com quem participou em atividades de contestação e protesto. É no seguimento dessas ações con-sideradas subversivas que Marx elabora pela primeira vez o que ficaria na história conhe-cido como marxismo. “Miséria da Filosofia”, de 1847, é uma crítica do pensador ao que chamou de “doutrinas do socialismo peque-no-burguês”, onde elaborou a teoria e a tática do socialismo proletário revolucionário – mais tarde designado comunismo. Nesse mesmo ano, ambos os ativistas ter-se-ão fi-liado numa sociedade secreta de propaganda, denominada de Liga dos Comunistas, pelo qual o alemão redige o célebre “Manifesto Comunista”, publicado em fevereiro de 1848. É neste texto que Karl Marx elabora uma nova concepção do mundo: um materialismo consequente aplicado ao domínio da vida so-cial; a dialética como a doutrina profunda do desenvolvimento (dialética marxista); a teoria da luta de classes e do papel revolucionário “his-tórico universal do proletariado, criador de uma sociedade nova, a socidade comunista”.
Contrariamente ao que o próprio Marx pre-viu, a aplicação das suas ideias não surgiram num país industrializado, como Inglaterra, mas sim na Rússia, uma nação semi-feudal. Foi nes-sa Rússia gigantesca, que após a Revolução de Outubro deu origem à União Soviética, que Le-nine lançou as bases da primeira experiência comunista, que difundiu os ideais marxistas por todo o mundo e deu origem a novas revoluções em quatro continentes. Ainda que com dife-renças no modelo, a revolução russa foi expor-tada. Cada uma à sua maneira, China, Cuba e Coreia do Norte são as experiências que persis-tem, depois da Queda do Muro de Berlim.
Os milhões de mortos causados pelo Estali-nismo e pelo Maoísmo, os horrores do Gulag, a pobreza e o atraso em que se encontram países como Cuba, a Coreia do Norte ou os estados africanos que fizeram parte da esfera de in-fluência da antiga URSS, levam a que o marxis-mo tenha sido desacreditado comarxis-mo teoria polí-tica e económica. Mas até que ponto não conti-nua a ser uma referência válida, fora do imagi-nário comunista?
“Quem é mais marxista: um social-democrata alemão, um militante comunista na Coreia do Norte ou um político em Cuba?”, interroga-se o professor universitário Adelino Maltez. E res-ponde: “Não sei. Todos eles foram de alguma
for-ma influenciados pelas ideias for-marxistas e depois houve regimes que se aproveitaram da filosofia de Karl Marx para pôr em prática outros ideais”. Para José Milhazes, “algumas [ideias] são cla-ramente utópicas na sua realização, particular-mente no que diz respeito ao Manifesto, que le-vou à criação de regimes ditatoriais monstruo-sos”. O historiador lembra, contudo, que a “análise de Marx continua a exigir atenção”.
“A influência do pensamento marxista é in-contornável, muito para além do campo dos que hoje se reconhecem nas aspirações emanci-patórias da obra de Marx”, argumenta José Soeiro, deputado do Bloco de Esquerda (BE). “Sem esse horizonte de transformação, sem essa referência a uma sociedade pós-capitalista, o próprio exercício da crítica seria limitado”.
O marxismo em Portugal
Enquanto na Europa os partidos comunistas se iam formando em sequência de ruturas com partidos socialistas, em Portugal a sua génese foi outra. Foi das fileiras do sindicalismo revo-lucionário que saíram os primeiros militantes comunistas, na sequência de uma vaga de lutas reivindicativas dos trabalhadores. Em 1919, o país atravessava uma crise económica, provo-cada pelo fim da Primeira Grande Guerra e pelo mau ano agrícola. A subida vertiginosa dos preços e a escalada do desemprego levaram o proletariado português a sair à rua para contes-tar o agravamento das condições de vida e con-ter a “ofensiva do capital”. O movimento gvista, que se estendeu de norte a sul do país, re-sultou na primeira vitória do proletariado: a jornada de oito horas de trabalho – uma das ideias propostas na obra de Marx, que sugeriu a divisão do dia em oito horas de trabalho, oito horas de lazer e oito horas de descanso. Ao mesmo tempo, desenvolvia-se em Portugal um movimento de solidariedade para com a causa bolchevique, que dois anos antes tinha prome-tido a construção de uma sociedade “sem explo-radores nem explorados” na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). As pequenas organizações sindicais então existen-tes juntaram-se para formar a CGT – Confede-ração Geral do Trabalho. A confedeConfede-ração sindi-cal rapidamente chegou aos 100 mil membros e começou também ela a arriscar os primeiros passos na criação de programa político. Após várias reuniões entre sindicatos, em março de 1921, era anunciada a criação do PCP, com o objetivo de servir de “vanguarda revolucioná-ria” para a classe operária.
O passo seguinte foi a definição da base política do novo partido. Para isso, o PCP foi buscar grande parte dos seus princípios ao marxismo-leninismo, que vigorava na URSS. A força política passou a promover a luta das massas trabalhadoras e a lançar o de-bate acusatório contra o capitalismo, contes-tando os salários injustos, o tempo e intensi-dade do trabalho, o flagelo do desemprego, e o alastrar da pobreza e da miséria.
Durante o Estado Novo, o partido atuou na clandestinidade – tendo em conta que o regime apenas autorizava a existência de um partido. Ferozmente perseguidos pela PIDE, os comu-nistas portugueses fizeram oposição ao regime ditatorial ao longo de 48 anos e mantiveram-se firmemente do lado de Moscovo, mesmo quando os tanques soviéticos invadiram Praga para esmagar a experiência de “socialismo de rosto humano” lançada por Alexander Dubcek. Depois do 25 de Abril, o partido ganhou um lugar à mesa do poder, afirmando-se como um dos pilares do novo regime demo-crático, devido à autoridade moral que ga-Karl Marx nasceu há
200 anos. Apesar do falhanço das experiên-cias socialistas nos paí-ses do antigo Bloco de Leste e dos exemplos caricatos de Cuba ou da Coreia do Norte, os ideais marxistas conti-nuam a mobilizar seguidores um pouco por todo o mundo e o aniversário do seu criador, em maio, será comemorado também em Por-tugal. Mas até que ponto a figura de Marx e as suas ideias continuam a ser relevantes para o debate político? Até que ponto a doutrina mar-xista continua a servir de referencial para a es-querda europeia?
“O marxismo foi um dos pensamentos mais determinantes na História e continuará a ser fruto de intensas discussões”, afirma ao Jornal Económico o jornalista e historiador José Mi-lhazes, que viveu na antiga URSS durante mais de uma década e viveu as consequências práti-cas do “socialismo real”.
“As ideias de Karl Marx devem ser alvo de sé-rio estudo, nomeadamente no sentido de anali-sar as formas como foram interpretadas e leva-das à prática”, indica.
O que assegurou a Marx um lugar na Histó-ria foi a sua crítica ao modelo de sociedade capi-talista e o consequente apelo à luta de classes pelo fim da “exploração do homem pelo ho-mem”. A ideia era criar uma sociedade “mil ve-zes mais democrática do que a mais democráti-ca das democracias burguesas”.
É no “Manifesto Comunista” que Marx e Engels propõem a criação de uma nova or-dem política e económica e é em “O Capital”, que o primeiro desenvolve a teoria econó-mica que sustenta o ideal comunista. A teo-ria económica elaborada em “O Capital” é o espelho do estudo das relações de produção de uma sociedade. Para Marx, as relações en-tre produtor e produto determinavam-se à
medida de quem detinha os meios de produ-ção – uma realidade que queria transformar. Publicada em quatro tomos (1867-1905), a obra pretende “desvendar a lei económica do movimento da sociedade moderna”, como escreveu o filósofo no prefácio do livro.
O século XIX foi uma época de transforma-ção social e política, de fascínio com as novida-des tecnológicas e científicas e Marx era um fi-lho do seu tempo, numa Europa que se indus-trializava a passos largos.
“Podemos dizer que há um ‘antes’ e um ‘pós’ Marx”, afirma Albano Nunes, histórico mili-tante do Partido Comunista Português (PCP). “Sujeitando a uma análise crítica demolidora as conceções ideológicas e políticas dominantes, Marx não se limitou a denunciar a natureza de-sumana do capitalismo, pôs em evidência as suas insanáveis contradições e o papel histórico do proletariado na sua superação e na constru-ção de uma nova sociedade livre da exploraconstru-ção e da opressão de classe, a sociedade socialista e comunista”, acrescenta.
Karl Marx, o ideólogo
Para falar de Marx é preciso compreender as suas circunstâncias. O filósofo e sociólogo, nasceu a 5 de maio de 1818 em Trier, Ale-manha, no seio de uma família abastada des-cendente de judeus convertidos ao protes-tantismo. Os estudos de Marx nas Universi-dades de Bona e Berlim, na Alemanha, cen-traram-se em três pilares: Direito, História e Filosofia. O pensador que pretendia seguir uma carreira de docente universitário dou-torou-se com uma tese sobre a filosofia de Epicuro, afirmando-se, no início da década de 1840 seguidor do pensamento de Hegel – “racional por si só é real”.
É a filosofia de Hegel que leva Karl Marx a enveredar pelo jornalismo político, em di-versos títulos da especialidade, encaminhan-do-o depois para o pensamento económico,
“Quem é mais
marxista: um
social-democrata
alemão, um
militante
comunista na
Coreia do Norte
ou um político
em Cuba?”,
interroga-se
o professor
universitário
José Adelino
Maltez
Jason Lee/ Reuters >>O
nhara durante meio século de ditadura. Até hoje, o PCP mantém-se relevante do ponto de vista eleitoral e influente sobretudo no meio sindical, sobrevivendo assim ao colap-so da maioria dos seus pares que, após a que-da do Muro de Berlim, ou desapareceram ou aproximaram-se da social-democracia.
Mas o comunismo português não é repre-sentado apenas pelo PCP. Os maoístas, trotskistas e outras forças comunistas exis-tem em Portugal de forma organizada desde os anos 60, quando começou a surgir algum desencanto com a linha oficial do partido, subsistindo atualmente no Bloco de Esquer-da (BE), partido que nasceu Esquer-da fusão entre a UDP, o PSR e o Política XXI.
“O BE tenta ser uma versão mais light de in-terpretações aberrantes do marxismo. Mas princípios como ‘confiscar e repartir’ conti-nuam vivos, mesmo sabendo-se os custos hu-manos que tentativas anteriores tiveram. Pou-co ou nada os distingue”, acusa José Milhazes. “Estão unidos pelo facto de terem ido buscar a Marx as ideias mais utópicas e, mesmo depois de se ver em que resultaram princípios como ‘revolução’, ‘ditadura do proletariado’, ‘demo-cracia popular’, continuam a afirmar que vale a pena repetir”, defende o jornalista, que na sua juventude foi comunista e passou grande parte da sua vida na antiga URSS.
Marx não é mencionado nos programas eleitorais do PCP e do Bloco
O PCP e o BE vão promover iniciativas nos próximos meses para assinalar o bicentenário de Karl Marx, que se comemora a 5 de maio. São também os dois únicos partidos com as-sento parlamentar que conservam as teorias de Marx nos seus manifestos. Mas o Jornal Económico passou a pente fino os programas eleitorais dos dois partidos nas últimas elei-ções legislativas e não encontrou uma única referência a Marx ou ao marxismo nos dois documentos. Os tempos mudaram e as ban-deiras são outras, com a luta de classes a ser substituída por temas como as questões de gé-nero e as preocupações ambientais. Hoje, o PCP e o Bloco parecem ser marxistas cultu-rais, ou “não praticantes”, que reclamam uma determinada herança ideológica mas, aparen-temente, deixaram de defender abertamente a luta de classes, o marxismo científico e a dita-dura do proletariado.
E será que o próprio Marx, se estivesse vivo, rever-se-ia no PCP ou no Bloco?
Adelino Maltez lembra que Karl Marx era militante de um partido social-democrata ale-mão, “um partido como o de Rui Rio”, e “não consta que Marx tenha alguma vez desertado do partido”.
“As ideias comunistas nasceram de novo, de-pois de Marx ter concluído os escritos, como o ‘Manifesto Comunista’ e ‘O Capital’, e estes não têm necessariamente de ser lidos à letra. O mar-xismo evoluiu em função das circunstâncias”, defende o politólogo.
E se hoje o PCP e o Bloco são os únicos parti-dos com assento parlamentar que se afirmam marxistas, no período que se seguiu ao 25 de Abril a ideologia marxista estava presente nos principais partidos, com exceção do CDS.
Adelino Maltez lembra que quando o Par-tido Social Democrata (PSD) foi criado, em maio de 1974, o próprio partido – posiciona-do mais à direita entre os partiposiciona-dos posiciona-do hemi-ciclo – afirmava ser marxista e defensor dos direitos dos trabalhadores. O mesmo tinha acontecido, um ano antes, com o Partido So-cialista (PS). “As ideias marxistas
influencia-ram uma boa parte dos partidos em todo o mundo e, em Portugal, todos eles têm algu-ma inspiração algu-marxista”, explica.
Mais tarde, as referências ao marxismo fo-ram retiradas da declaração de princípios do PS e PSD. “Estavámos então num contexto de Guerra Fria e, tendo em conta que Portugal in-tegrava a aliança militar liderada pelos Estados Unidos, foi a solução encontrada por estes par-tidos para se afastarem da URSS”, nota Adelino Maltez. O PS, pela mão de Vítor Constâncio, foi o primeiro a retirar as menções marxistas dos documentos oficiais do partido. Pouco tempo depois, o PSD fazia o mesmo.
“Os sociais-democratas souberam utilizar o potencial reformista das ideias de Marx para criarem sociedades modernas e prósperas na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Junta-mente com os democratas-cristãos, não só re-sistiram à pressão comunista que vinha do Les-te do Velho ContinenLes-te, mas conseguiram neutralizá-la e vencê-la no campo económico, social e político”, indica José Milhazes.
Um partido marxista pode aliar-se com as “forças da burguesia”?
Também a estratégia dos partidos ditos marxis-tas, que outrora rejeitavam qualquer aliança com “partidos da burguesia”, mudou. Nas elei-ções de 2015, o PCP e BE vieram a viabilizar o Governo socialista de António Costa. Para José Milhazes, contudo, isso “é retórica obsoleta”. “No fundo, o BE e o PCP cumpriram um sonho antigo e de difícil realização: influir na política do Governo”, considera o jornalista.
“António Costa, pelo seu lado, fez esta aliança pois seria a única forma de formar um Governo puramente socialista. Uma aliança que vai con-tra o bom senso que terminará logo que surge uma crise económica e social”.
Já Albano Nunes defende que “Marx não nega a importância de alianças do proletaria-do”, se servirem “para combater o capital”. “Quanto ao PCP, não se aliou nem coligou com o PS, coisa impossível dada a conhecida dependência deste partido em relação ao grande capital e às imposições externas. A po-sição do PCP em relação à solução política que saiu das eleições de 2015 está balizada na posição conjunta PCP/PS, visando o afasta-mento do PSD/CDS do governo e a reposição de direitos e rendimentos de que os trabalha-dores e o povo haviam sido violentamente es-bulhados”, explica.
“Resta uma questão: é em Marx que se en-contra o guia para cada escolha tática de cada momento? Seria um pouco ridícula a pergun-ta”, argumenta José Soeiro. “O pensamento de Marx continua a ser um instrumento crítico para os dias de hoje e para a luta emancipatória, para libertar o trabalho, aumentar o salário, lu-tar contra as injustiças, defender serviços públi-cos, combater o racismo e o machismo, lutar pela justiça climática ou contra a dominação imperial num mundo em que (imagine-se!) se multiplicam os monstros que manifestam a ir-racionalidade do sistema. Precisaria de falar de Trump?”, remata.●
“O BE tenta
ser uma versão
mais ‘light’
de interpretações
aberrantes do
marxismo”, acusa
José Milhazes
PUB PUB
Wikipedia
Albano Nunes
Histórico militante do PCP
“As ideias centrais e a célebre palavra de ordem ‘Proletários de todos os países uni-vos!’ passaram a prova do tempo e continuam a ser bandeira dos partidos comunistas na atualidade”
OPINIÃO
MARX HOJE EM DIA
José Adelino Matez Professor universitário e politólogo
“As ideias comunistas nasceram de novo, depois de Marx ter concluído os escritos [‘Manifesto Comunista’ e ‘O Capital’], que não têm de ser lidos à letra. Todos os partidos em Portugal são inspirados nas ideias de Karl Marx”
José Soeiro Deputado do BE
“O pensamento de Marx continua a ser um instrumento crítico para os dias de hoje e para a luta emancipatória contra a dominação imperial”
STRESSE HÍDRICO
Como o “Dia Zero” está a afetar
a vida nas metrópoles
ATUALIDADE
em imaginam o que consegui hoje! Con-segui comprar água. Seis litros ao certo. Porque raio isso me faz feliz? Aqui em Ca-pe Town, estamos a passar por uma dura crise. Aquilo a que cha-mamos o “Day Zero” aproxima-se: no dia 16 de abril deixará de haver água. A primeira grande cidade no mundo que está a ficar sem água”, contou Aurélie, uma mulher que vive na Cidade do Cabo, África do Sul, citada pela imprensa internacional.
Desde o início deste mês apenas é permitido gastar 50 litros de água por dia e o banho não pode ultrapassar os 90 segundos. No entanto, a cidade sul-africana conseguiu adiar até ju-nho o prazo para se esgotarem as suas reservas de água, graças a uma intensa redução do con-sumo, adiantaram as autoridades do país.
Se o ‘Dia Zero’ se concretizar os habitantes da Cidade do Cabo deverão abastecer-se nos 200 pontos de recolha de água, onde podem receber, no máximo, 25 litros de água por dia por cada pessoa.
A Cidade do Cabo conta agora com mais dois meses de margem até que a maioria da população fique sem água, adiando mais uma vez o “Dia Zero”, apontado para abril,
A Cidade do Cabo, a primeira grande cidade que está a ficar sem água, é apenas a ponta do icebergue.
Especialistas das Nações Unidas e cientistas da NASA apontam para várias cidade do mundo
em risco de “stresse hídrico”. A ameaça da desertificação terá impacto em diversas partes do globo.
ANTÓNIO SARMENTO
como o primeiro dia em que os sul-africanos não terão água nas torneiras.
Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), só num duche de cinco mi-nutos, gastam-se cerca de 100 litros de água. Lavar as mãos, a roupa ou o carro tornaram--se atividades quase proibidas para os habi-tantes da Cidade do Cabo.
Mais de mil milhões de pessoas não têm
acesso a água potável e 2,7 mil milhões ficam sem ela pelo menos uma vez por mês. A BBC refere num estudo realizado em 2014 que, entre as 500 maiores cidades do mundo, uma em cada quatro está sob “stresse hídrico”, ou seja, numa situação em que a procura de água por habitante é maior do que a capacidade de oferta.
A Cidade do Cabo é apenas a ponta do
ice-bergue: especialistas das Nações Unidas apontam para várias cidade do mundo em risco de “stresse hídrico”. Em 2015, São Pau-lo enfrentou a pior seca alguma vez vista em 80 anos, quando um dos principais reserva-tórios caiu 4% abaixo da sua capacidade nor-mal. O reservatório de Cantareira, um dos principais que abastece o Estado de São Pau-lo, estava, em fevereiro desse ano, 6% abaixo
N
da sua capacidade total. A água foi cortada durante algumas horas duas vezes por sema-na e foi necessário recorrer a camiões para fazer o abastecimento das populações.
A China é outro dos países problemáticos. Os dados mostram que em 2014, os 20 mi-lhões de habitantes de Pequim tinham acesso apenas a 145 metros cúbicos de água por pes-soa – segundo o Banco Mundial, menos de mil metros cúbicos por cada pessoa é conside-rado escassez de água. 40% da água que cobre Pequim está tão poluída que não pode sequer ser utilizada na agricultura ou na indústria.
Já na Cidade do México, 20% da população tem água corrente apenas em certos momentos do dia e outra parte da população vive a horas de distância de locais com água potável. Na Euro-pa, as reservas de água da Catalunha, que abaste-cem a região metropolitana de Barcelona, atin-giram um nível crítico. Estão atualmente a 45% da sua capacidade, quando a média deveria ser 71%. Em 2008, a cidade espanhola foi abasteci-da de água por navios-tanque, numa operação que custou 22 milhões de euros por mês.
Aquecimento global
Em dezembro de 2015, firmou-se em Paris um acordo em que representantes de 195 países se comprometeram a um esforço cole-tivo para conter o aquecimento global a um aumento de 1,5ºC em relação ao período pré-industrial. Se não for invertido o atual ciclo de aquecimento global, a Península Ibérica poderá transformar-se num deserto até 2100. É isso que diz um estudo elaborado
por Joel Guiot e Wolfgang Cramer, do Cen-tro Nacional de Investigação Científica fran-cês, e já publicado na “Science”.
Em 2016, Joel Guiot disse à revista cientí-fica Nature que se tivessem tido “a possibili-dade de incluir esses impactos humanos [como, por exemplo, a degradação do solo através da urbanização], seria ainda pior do que o que nós simulámos”. Isto porque, na investigação, apenas foram utilizados mode-los climáticos que incluem o impacto do au-mento da temperatura no clima junto às zo-nas em redor do Mar Mediterrâneo.
De acordo com a NASA, um estudo levado a cabo por Kevin Anchukaitis e Ben Cook, explica que “se uma região estiver a sofrer as consequências da seca, é provável que essas condições existam também em toda a bacia do Mediterrâneo”.
A equipa de cientistas ainda descobriu que quando a zona do norte do Mediterrâneo – Grécia, Itália e as costas de França e Espanha – tendia a ser seca, o nordeste africano – Corno de África – estava seco e vice-versa. Estas relações leste-oeste e norte-sul ajuda-ram a equipa a compreender que o oceano ou as condições atmosféricas podem provo-car os períodos de seca ou de chuva.
“O Mediterrâneo é apontado, por unani-midade, como uma das áreas que vai secar no futuro”, alertou Yochanan Kushnir, cientista do clima do Observatório da Terra Lamont Doherty, que não esteve envolvido na inves-tigação. “Este estudo mostra que o comporta-mento durante este período recente da seca é
diferente do que vemos no resto do registo”, comentou. Já este ano, um estudo de várias universidades publicado na revista científica Nature Climate Change sugere que muitas regiões podem vir a ficar crescentemente mais secas e suscetíveis a incêndios.
“A desertificação é uma ameaça séria, pois pode impactar áreas como a agricultura, a qua-lidade da água e a biodiversidade de forma crí-tica”, alerta Chang-Eui Park, coautor do estudo e cientista da Southern University of Science and Technology (SUSTECH), na China. O es-tudo aponta ainda várias zonas do mundo que, desde o século XX, têm vindo a tornar-se mais secas, transformando-se progressivamente em desertos à medida que o mundo aquece: parte de vários países mediterrâneos, a África do Sul e a costa este da Austrália.●
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A NASA explica
que “se uma região
estiver a sofrer
as consequências
da seca, é provável
que essas
condições
existam também
em toda a bacia
do Mediterrâneo”
Visão, olfato,
paladar,
audição e tato.
É através
dos cinco
sentidos que
apreendemos
o mundo
e abrimos
a porta
a sensações
e experiências
que nos ajudam
a construir
o que somos.
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Sentidos
RESTAURANTE
amie Oliver dispensa apresenta-ções. O chef britânico, popular pe-los programas de culinária na tele-visão inglesa, pelo uso de alimentos naturais e orgânicos e por lutar para mudar há-bitos alimentares nas escolas britânicas, abriu o seu primeiro restaurante em Lisboa. É no Prín-cipe Real, é italiano, e é a nova coqueluche dos restaurantes trendy da capital. Por causa de to-dos esses predicato-dos é francamente difícil mar-car mesa. A Et Cetera conseguiu, depois de vá-rias tentativas, e pode-se dizer que valeu a pena o esforço.
“Escolhemos o Príncipe Real por causa do char-me singular da área que valoriza ainda mais o projecto”, refere a equipa de gestão do restau-rante.
Vamos aos pratos. Recomendamos como en-trada as brusquetas de caranguejo. Mas são igualmente especialidades as famosas tábuas, sobretudo a de carnes. Como prato principal o Restaurante Jamie’s Italian recomenda a lasa-nha de rabo de boi que foi cozilasa-nhado ao longo de 12 horas (oxtail lasagne); as costoletas de bor-rego (lamb chops scottadito) e a pizza Julieta. Mas há também uma pizza de trufas, para os fãs do tubérculo. Nas sobremesas as especialidades são o brownie de chocolate e o cheese cake (que é alto e farfalhudo).
O chefdo Jamie’s Italian em Lisboa é o britâ-nico Paul Galli. que trabalha ao lado do gerente Liam Pasley e da restante equipa de 47 elemen-tos no total, formada em Londres e Lisboa. O espaço tem uma decoração rústica, onde so-bressai o verde turquesa que se vê na fachada. É um restaurante de três andares com 174 lugares no total - 112 cobertos em que se inclui uma sala privada com capacidade para 18 pessoas e 2 esplanadas com 62 lugares.
Quisemos ainda saber como é gerida a cadeia de restaurantes por Jamie Oliver. “Cada unida-de tem autonomia unida-de gestão com muito traba-lho de equipa e em parceria. A nossa equipa lo-cal é mista, pois inclui alguns elementos britâ-nicos”, explica a gestão do restaurante que abriu no passado dia 26 de janeiro.
Jamie Oliver, quando vem a Portugal? “Não está prevista nenhuma data mas aguarda-se a sua presença em momento que for oportuno e em data a anunciar. Toda a loja que abre recebe, mais tarde ou mais cedo, a sua visita. Também o esperamos com expectativa”, responde a res-ponsável pela comunicação do restaurante.
Ficamos também a saber que não foi Jamie Oliver que escolheu o espaço, mas a sua equipa ficou muito satisfeita com a escolha.
O único senão é a dificuldade de estaciona-mento, típica da zona.●MTA
J
m 1990, no dia que se seguiu à minha chegada e à do explorador Børge Ousland ao Pólo Norte, apareceu no céu um avião-es-pião americano. Provavelmente, os pilotos ficaram tão surpreendidos como nós por en-contrarem alguém no Pólo Norte. Num ges-to de amabilidade para com dois explorado-res polaexplorado-res esfomeados, o avião fez um cír-culo à nossa roda, e atiraram-nos uma caixa com alimentos antes de prosseguirem via-gem. Depois de 58 dias com temperaturas de cerca de -58ºC, a maior parte da gordura e da massa muscular desaparecera do nosso orga-nismo a fim de atingir o pólo. (…) Abrimos a caixa do avião-espião. Era o almoço deles – sanduíches, sumo, arenque fumado – e dis-pusemo-lo sobre os nossos colchões de cam-pismo e dividimos a comida entre nós.”
O norueguês Erling Kagge foi a primeira
pessoa a alcançar os “três pólos”: Norte, Sul e o pico do Evereste. Com vinte e tal anos, já advogado de sucesso, largou tudo para se lançar nesta aventura, que terminou aos 31 anos. Passou por experiências inesquecíveis e de grande risco, enfrentando a solidão físi-ca e experimentando o isolamento em para-gens remotas e belíssimas, cobertas de bran-co. De volta a Oslo, fundou uma editora de livros, que é hoje um caso de sucesso no mundo editorial norueguês.
Em 1993, passou 50 dias a caminhar, sozi-nho, na Antártida, percorrendo 1.200 quiló-metros para atingir o Pólo Sul e concluindo que este é o local do mundo mais silencioso que conhece. Nos primeiros dias, contou, ainda sentia ruído na sua cabeça, apesar do silêncio que o rodeava. E esse silêncio, que rapidamente se instalou dentro de si, permi-tiu-lhe ver melhor, reparar que a paisagem
não era plana, que o gelo e a neve adquirem estranhas formas abstratas e que o branco tem muitas tonalidades (como muito bem sabem os esquimós, que são capazes de dis-tinguir várias centenas de brancos).
Este livro, editado em Portugal pela Quet-zal, permite descobrir a importância do si-lêncio e dá-nos pistas preciosas sobre como encontrá-lo e aproveitar todo o seu poder – nem que seja numa viagem interior – nesta nossa era em que estamos sempre ligados, sempre à pequena distância de um clique do que quer que seja, e em que a paz e o sossego parecem coisas do passado.
Erling Kagge demorou 18 meses a escre-ver “Silêncio na Era do Ruído”, mas quis que fosse lido numa noite, daí as suas breves 160 páginas, que dão forma a um conjunto de pequenos ensaios. No final, o mais natural é que o objetivo de induzir mudança interior
E
TÍTULO:Silêncio na Era do Ruído AUTOR:Erling Kagge
EDITORA:Quetzal
PALAVRA DE VIAJANTE
Silêncio na Era do Ruído
para
ver o mundo mais claramente
no seu leitor seja atingido e, como diz o au-tor, “não se trata de virar as costas ao que nos rodeia, mas de ver o mundo mais clara-mente”.●
A sugestão de leitura desta semana da livraria Palavra de Viajante
Jamie’s Italian
O restaurante italiano
do inglês Jamie Oliver
em Lisboa
LIVRO
Eles eram muitos cavalos
O som e a fúria de São Paulo
indo o livro, fica a dúvida: ro-mance ou contos? No final dos 68 fragmentos, chamemos-lhes assim, a dúvida persiste, mas dei-xou de ter importância. Em “Eles eram mui-tos cavalos”, de Luiz Ruffato, descobrimos a mestria do autor em justapor cenas, impres-sões, gestos, pensamentos... a que se juntam diversos ready-made, roubando a expressão a Marcel Duchamp, desde a apropriação que faz de textos alheios, como uma previsão as-trológica, anúncios sentimentais e de em-prego, até à lista eclética dos livros alinhados numa estante.
Tudo leva a crer que Ruffato se diverte a questionar o que é um “romance”. Vamos as-sumir que sim nesta obra em que tudo acon-tece num só dia, 9 de maio de 2000, um dia como muitos outros nessa imensa metrópo-le que é São Paulo, a personagem principal deste livro, acompanhada (vivida) pelos “muitos cavalos” do título. Metáfora para se-res humanos, em geral, e para a gente pobre de São Paulo, em particular. Para os migran-tes que foram em busca de trabalho e melho-res condições de vida, e que acabaram na mi-séria, devorados pela dor ou pela desgraça. As nuvens pairam sobre a São Paulo de Ruffato, a espuma do dia prossegue, indo-lente, e quando aquele dá lugar à noite, “o sono não vem”.
Retratos de uma cidade insone, que não pára, não descansa. Retratos daqueles que a vivem, que se deixam devorar por medos,
traumas, preocupações, tensões... Entre a empatia e o olhar acutilante e corrosivo, Ruffato destila um mundo desencantado e sem sentido, fala-nos da invisibilidade, da indiferença e da dissolução do indivíduo na massificação humana, como em Vista parcial da cidade, em que um homem atravessa São Paulo de autocarro. De pé, adormece e des-perta, adormece e desdes-perta, sempre com o pensamento colado às contas por pagar, em constante vigília. Lá fora,
carros e carros
mendigos vendedores meninos meninas carros e carros
assaltantes ladrões prostitutas traficantes carros e carros
mais um dia terça-feira
fim de semana longe e tudo tem a cor cansada
e os corpos mais cansados mais cansados […]
Luiz Ruffato nasceu em Minas Gerais, Brasil, em 1961. É autor de livros como “De Mim Já Nem se Lembra”, “Inferno pro-visório”, “Estive em Lisboa e lembrei de você”, “Flores artificiais”, entre outros. “Eles eram muitos cavalos”, a obra de es-treia de Ruffato publicada originalmente em 2001, é recuperada pela editora Tinta--da-china por ser “um clássico da nova lite-ratura brasileira”. E, acrescentamos, uma leitura estimulante .●AP
F
TÍTULO:Eles eram muitos cavalos AUTOR:Luiz Ruffato
EDITORA:Tinta-da-china
VINHO
s vinhas situavam-se entre a Costa de Caparica e o Lavra-dio. A pressão urbanística usurpou-nos este património e deixou-nos em legado um amontoado de mamarrachos. Por terem sido arrancadas a destempero essas vinhas, à José Maria da Fonseca restaram duas coisas: preservar os últimos 2.300 litros de Bastardinho de Azei-tão que resultaram da derradeira produção desta casta nas vinhas já inexistentes e, desde 2005, para prevenir a sua extinção, plantar meio hectare da casta Bastardinho nas suas propriedades, sendo que a casa vinícola re-conhece que “dificilmente conseguirá condi-ções para produção de um vinho semelhante num futuro próximo”.
Estamos, pois, perante, uma preciosidade. “Este último engarrafamento dos 2.300 litros de Bastardinho de Azeitão surpreendeu o pai-nel de provas da ‘Vinho’ [revista] por ser
“su-blime, de notável complexidade aromática e gustativa, misturando sugestões de biscoito, figos secos, balsâmicos, especiarias”. “Tudo isso mantendo uma frescura que confere leve-za e elegância ao corpo untuoso e rico. Um ex-traordinário ‘canto do cisne’ para um vinho ir-repetível”, destaca um comunicado da José Maria da Fonseca. Na prática, a revista ‘Vinho’ considerou o Bastardinho de Azeitão 40 anos um dos melhores vinhos nacionais de 2017, integrando-o no top 30 das suas escolhas.
“Após longuíssimos anos de envelheci-mento do Bastardinho de Azeitão (Trous-seau), chegamos ao fim deste extraordinário néctar da Península de Setúbal. Durante muito tempo fizemos o 25 anos, mais tarde o 20 anos e a seguir, devido ao envelhecimento das bases, passámos ao 30 anos. Este ano, não sendo possível manter o perfil do mesmo, ti-vemos de avançar para o 40 anos. Aqui, a co-lheita mais nova tem 40 e poucos anos e a
mais velha cerca de 80”, explica o referido co-municado da José Maria da Fonseca.
Com uma cor âmbar muito carregada, o quarentão Bastardinho de Azeitão afirma-se pelo aroma extremamente frutado, a puxar aos frutos secos, como a amêndoa, avelãs e nozes. Mas também com notas de cravinho, figos e mel. A vinificação processou-se com uma fermentação que foi travada por adição de aguardente vínica, tendo-se procedido a uma maceração pelicular de cinco meses. O envelhecimento decorreu em cascos de ma-deira usada, tendo o vinho sido submetido a um processo natural de oxidação.
“Assim, não existe evolução após engarra-famento. Se o armazenamento da garrafa, após aberta, for feito de modo correto, este vinho manter-se-á idêntico por muitos anos”, aconselha a José Maria da Fonseca. Conselho sábio para um bem tão escasso e precioso.●NMS
A
MARCA:Bastardinho de Azeitão 40 anos
REGIÃO:Península de Setúbal CASTA: Bastardo (Trousseau) GRAU ALCOÓLICO:18º ENÓLOGO:Sem indicações