TÍTULO: O OLHAR DA CRIANÇA PARA O CORPO COM DEFICIÊNCIA NA AULA DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR
TÍTULO:
CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:
ÁREA: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS E SAÚDE ÁREA:
SUBÁREA: EDUCAÇÃO FÍSICA SUBÁREA:
INSTITUIÇÃO: CENTRO UNIVERSITÁRIO ÍTALO-BRASILEIRO INSTITUIÇÃO:
AUTOR(ES): SILVIA CRISTINA PEREIRA BRITO CONDE, SIMONE MARIA PACHECO, THIAGO DA SILVEIRA NASCIMENTO
AUTOR(ES):
ORIENTADOR(ES): RAFAEL JULIO DE PAULO ORIENTADOR(ES):
RESUMO
O estudo teve como objetivo investigar o olhar da criança para o corpo com deficiência na aula de Educação Física, associada à hipótese de que este olhar ainda pode representar a exclusão dentro do contexto das aulas de Educação Física Escolar. Participaram do estudo trinta e oito estudantes, com idade entre 07 e 11 anos do ensino fundamental I de uma escola regular localizada na zona sul de São Paulo. Foi aplicada uma pesquisa qualitativa de cunho descritiva por meio de análise de desenhos produzidos pelas mesmas; o material obtido foi analisado por meio de um protocolo de adaptação do Desenho da Figura Humana Sisto (2005). A análise dos resultados dos desenhos contou com a colaboração de uma Psicóloga com caráter de estudo cego. Constatou-se que as percepções entre os alunos com deficiência e sem deficiência divergem, pois, os alunos com deficiência demonstraram uma autopercepção de um corpo não deficiente; por outro lado, os alunos sem deficiência expressaram de forma clara e expositiva que o corpo deficiente tem uma representatividade marcante nas aulas de Educação Física. Com esses resultados, concluiu-se que este olhar pode se tornar uma barreira para a inclusão.
PALAVRAS-CHAVE: Educação Física, deficiente, inclusão, exclusão. ABSTRACT
The study aims to investigate child's vision towards disability body associated with the hypothesis that this vision can represent the exclusion in the context of Physical Education classes at school. Thirty-eight students, between seven and eleven years old of elementary school, participated in the study in a regular school located in the south zone of São Paulo. A qualitative research, with a descriptive mark, was applied considering drawings performed by them; the obtained material was analyzed based in an adaptation of Human Figure Drawing Protocol. The results were managed and analyzed by a Professional Psychologist, associated with a blind study view. It was verified that the perception between disabled and non-disabled students is divergent, because disabled student demonstrated in his drawing an auto perception of a non-disabled body; on the other hand, the non-non-disabled student expressed, in a clearly and expositive way, that disability body has an outstanding representativeness in Physical Education classes. With our results, we conclude that this vision can become a barrier to inclusion.
KEYWORDS: Physical Education, Disabled person, Inclusion, exclusion. INTRODUÇÃO
A inclusão tem sido um assunto bastante abordado na sociedade
contemporânea, isso nos leva a algumas reflexões de como a inclusão realmente é
relevante para o desenvolvimento de crianças com deficiência. Com a criação da Lei Brasileira da pessoa com deficiência lei 7.853 de 1.989 regulamentada pelo decreto nº 3.298, de 20 de dezembro de 1.999 (Legislação Ministério da Educação), os alunos com deficiência passaram a ter o direito de frequentar escola regular de ensino, mas o cenário atual mostra que nem todas as escolas estão estruturadas para receber o aluno com deficiência.
De acordo com LBI (Lei Brasileira de Inclusão), Art.28, inciso III – o projeto
pedagógico que institucionaliza o atendimento educacional especializado, assim como os demais serviços e adaptações razoáveis, para atender às características dos estudantes com deficiência e garantir o seu pleno acesso ao currículo em condições de igualdade, promovendo a conquista e o exercício de sua autonomia (Lbi-digital 2015).
Nas escolas regulares, o PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais tem como princípio da inclusão a sistematização de objetivos, conteúdos, processos de ensino e aprendizagem e avaliação, tendo como meta a inclusão do aluno na cultura corporal de movimento, por meio da participação e reflexões concretas e efetivas. Busca-se reverter o quadro histórico da área de seleção entre indivíduos aptos e inaptos para as práticas corporais, resultante da valorização exacerbada do desempenho e da eficiência, (Secretaria de Educação Fundamental 1997).
Para Soler (2005) a tarefa do professor de Educação Física é complexa, o mesmo deve se aprofundar no tema da inclusão e incorporar a sua prática pedagógica, para que suas aulas consigam atender a todos, deficientes e não deficientes respeitando a individualidade de cada um.
Há muito que fazer para melhorar a inclusão nas escolas, para isto é necessário preparar melhor os profissionais, segundo Gorgatti (2005), os professores ainda não se sentem totalmente preparados para atuar com os alunos com deficiência e expressam negatividade em relação a uma estrutura adequada das escolas públicas, à falta de materiais apropriados e pela falta de apoio multidisciplinar.
Com base na literatura percebe-se uma tendência à preparação dos profissionais, muitas vezes está atrelado ao pouco conhecimento e vivência, pois durante sua graduação o assunto não é abordado de uma forma tão abrangente, para que este profissional atue dando o suporte necessário à criança deficiente, geralmente recorre a cursos especializados, que nem sempre são oferecidos gratuitamente pelo governo.
De acordo com Aguiar e Duarte (2005) os professores não possuem conhecimentos suficientes. Em sua pesquisa 67 participantes responderam um questionário composto por 10 questões, 97% dos participantes não possuíam conhecimentos suficientes para incluir alunos com necessidades especiais nas aulas de Educação Física e que também, por volta de 97%, acreditavam que a participação do aluno deficiente em aulas de Educação Física pode auxiliar sua inclusão na comunidade escolar. Os resultados também indicaram que para realizar a inclusão os professores necessitam de apoio do governo, no que se refere a oferecer cursos de reciclagem, auxílio técnico pedagógico especializado, estrutura adaptada do espaço físico e material didático adequado.
Na visão de Alves e Duarte, (2014) a inclusão ocorre devido à de três fatores: adaptação da estrutura e materiais; participação social que entra no aspecto da aceitação pelo grupo; e capacidade, que é a percepção do aluno deficiente de sentir-se capaz de realizar as atividades.
Estudos apontam que devido à falta de adaptações de materiais e estrutura nas aulas de Educação Física, alunos deficientes muitas vezes têm dificuldades de aprendizagem e consequentemente não participam das atividades, além disso, experiências negativas como rejeição podem levar os alunos com deficiência a se excluírem das aulas de Educação Física (GOODWIN; WATKINSON, 2000; SPENCER; WATKINSON, 2010).
Assim a hipótese para o presente estudo é que este corpo com deficiência ainda representa, de forma significativa, a exclusão nas aulas de Educação Física.
OBJETIVO
O estudo tem como objetivo investigar o olhar da criança para o corpo com deficiência dentro do contexto das aulas de Educação Física escolar.
METODOLOGIA Desenho do Estudo
O estudo se caracteriza por uma pesquisa exploratória de caráter descritiva analítica qualitativa. Participaram do estudo 38 crianças em fase escolar, 8 (GI) e 30 (GII), com média de idade de ±8 anos (DP= 1,01), estudantes do Ensino Fundamental I, com idade entre 7 e 11 anos de uma escola regular localizada na zona sul da cidade de São Paulo.
Das características clínicas no que se refere às crianças com deficiência (GI), 03 apresentavam Deficiência Física, 01 Deficiência Motora, 02 Deficiência Intelectual e 02 alunos com Deficiência Física e Intelectual.
Característica da Amostra
A seleção dos alunos foi feita da seguinte forma: 11 alunos da segunda série
do ensino fundamental I sendo 09 sem deficiência e 02 com deficiência; 11 alunos da terceira série do ensino fundamental I sendo 09 sem deficiência e 02 com deficiência; 11 alunos da quarta série do ensino fundamental I sendo 08 sem deficiência e 03 com deficiência; 05 alunos da quinta série do ensino fundamental I sendo 04 sem deficiência e 01 com deficiência.
Um dos oito alunos citados acima além da deficiência física apresentava deficiência Intelectual severa, impossibilitando a realização da atividade.
Coleta de dados
Foi utilizado como recursos projetivos para análise da autopercepção e participação nas aulas de Educação Física o desenho, proposto como atividade à amostra participante do estudo: primeira atividade o grupo (GI) desenhou seu grau de autopercepção em relação ao seu corpo e sua deficiência, bem como sua participação nas aulas de Educação Física. Na segunda atividade o grupo (GII) desenhou sobre sua ótica perceptiva as características do colega com deficiência e o grau de participação na aula de Educação Física dos mesmos. Na terceira atividade foi proposto um desenho livre, uma vez que foi solicitado para que os alunos do (GII) realizassem sobre sua percepção o cenário da aula de Educação Física, a fim de não induzir uma obrigatoriedade de identificação do seu colega com deficiência e sim uma identificação espontânea dos mesmos.
A coleta dos dados ocorreu em uma única sessão, uma vez que o aluno realizou o desenho como proposta e objetivo do estudo em folha de papel sulfite branco, utilizando um lápis grafite.
Optou-se pela utilização do desenho como instrumento de coleta de dados devido, tal atividade permitir que a criança se expresse livremente e possibilite a construção e valorização aos sentimentos e significados. Vaisberg (1999) relata que o desenho como instrumento de pesquisa é de fácil utilização podendo ser aplicado para qualquer faixa etária, sendo um recurso facilitador dialógico.
O método utilizado para análise dos desenhos foi através de uma adaptação do Desenho da Figura Humana (Teste de Goodenough) Sisto (2005), que tem a finalidade de analisar e interpretar o desenho como medida do desenvolvimento cognitivo e como expressão de aspectos inconscientes da personalidade. Esse método é especifico para crianças de 5 a 12 anos. Os desenhos foram avaliados com a colaboração da psicóloga Camila Dantas Domingues - CRP-06/119804.
RESULTADO
Os resultados do presente estudo frente à análise dos desenhos produzidos pelos alunos apontam uma condição divergente no que tange a percepção de ambos os grupos participantes, no que se refere à deficiência como característica do corpo, bem como a funcionalidade e desempenho nas aulas de Educação Física, como pode ser observado na figura 1.
Figura 1: Exemplo de desenhos realizados pelos alunos
Os dados encontrados na pesquisa foram divididos em três diferentes dimensões conforme a análise proposta. A tabela 1 foi identificada o grau de autopercepção do aluno com deficiência em relação ao seu corpo e suas
deficiências, bem como sua participação nas aulas de Educação Física. Foi possível identificar como resultado que seis alunos (99%), não se desenharam apresentando características visíveis do seu corpo com deficiência, conforme observado na figura 1 A. Porém quando identificado seu grau participação apenas três (42,85%) se desenharam participando ativamente das aulas de Educação Física.
Tabela 1: Alunos com deficiência e o grau de autopercepção na participação na aula de Educação Física.
GI- Alunos com deficiência Sim Não
Desenhou-se com características da deficiência? 1 6
Desenhou-se participando das aulas de Educação Física?
3 4
Já na análise do (GII), conforme tabela 2 uma vez solicitado sua percepção quanto as características do colega com deficiência e o grau de participação na aula de Educação Física, foi possível identificar que 18 (60%) desenharam o colega com características perceptivas de um corpo com deficiência, conforme observado na figura 1 B . Quando questionado quanto ao grau de participação do colega com deficiência nas aulas de Educação Física 18 (60%) desenhou o colega participando ativamente das aulas de Educação Física.
Tabela 2: A percepção dos alunos sem deficiência com relação às características do aluno com deficiência e o grau de participação nas aulas de Educação Física.
GII-Alunos sem deficiência Sim Não
Desenhou o colega caracterizando a deficiência? 18 12
Desenhou o colega com deficiência participando das aulas de Educação Física?
18 12
Diante de outra análise no (GII) sendo essa de maneira livre, uma vez que foi solicitado para que os alunos realizassem sobre sua ótica o cenário da aula de Educação Física, a fim de não induzir uma obrigatoriedade de identificação do seu colega com deficiência e sim uma identificação espontânea dos mesmos, foi possível identificar que, 28 (93,3%), não desenharam o aluno deficiente no cenário da aula de Educação Física conforme observado na figura 1 D.
Tabela 3: A percepção dos alunos sem deficiência com relação a participação do aluno com deficiência nas aulas de Educação Física.
GII-Alunos sem deficiência Sim Não
O aluno com deficiência estava presente no desenho?
2 28
Estava participando das atividades? 1 1
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os resultados apresentados no estudo são relevantes, uma vez que revelam que o olhar da criança para o corpo com deficiência dentro do contexto das aulas de Educação Física Escolar, ainda é cercado de paradigmas, muitas vezes caracterizando a segregação dos alunos deficientes. Os alunos com deficiência não se sentem participativos nas aulas, estar presente não significa que ele participa da aula de forma inclusiva.
Ainda assim o olhar da criança sem deficiência para o corpo com deficiência representa conflitos marcantes que torna um ambiente com barreiras inclusivas.
Referência:
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AIELLO-VAISBERG, T. M. J. (1999). Encontro com a loucura: transicionalidade e ensino de psicopatologia. Tese de livre docência,Instituto de Psicologia,Universidade de São Paulo,São Paulo.
ALVES, M. L. T.; DUARTE, E. A percepção dos alunos com deficiência sobre a
sua inclusão nas aulas de Educação Física escolar: um estudo de caso. Rev
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GOODWIN D.L.; WATKINSON E.J. Inclusive physical education from the
perspective of students with physical disabilities. Adapt Phys Activ Q.
2000;17:144-63.
GORGATTI, M. G. Educação Física Escolar e Inclusão: Uma Visão a partir do desenvolvimento motor e social de adolescentes com deficiência visual e das atitudes dos professores. São Paulo, 2005
planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L7853.htm planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D3298.htl Lei Brasileira de Inclusão - Lbi-digital
Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1997.
SISTO, Fermino, F. Desenho da Figura Humana – Escala Sisto, 2005
SOLER, R. Educação Física Inclusiva na Escola: em busca de uma escola plural. 2ed. Rio de Janeiro: Sprint, 2005.