GABRIELA CUSINATO (5.538Mb)
Texto
(2) O CHÃO DA CIDADE A vida ao rés-da-Augusta.
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(4) GABRIELA CAMARGO CUSINATO. O CHÃO DA CIDADE A vida ao rés-da-Augusta. Monografia, apresentada ao curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como parte das exigências para a obtenção do título de Arquiteta e Urbanista. Orientadores: Prof.º: Heraldo Borges (monografia) Prof.º: Lucas Fehr (projeto). São Paulo 2019. 4.
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(6) “A cidade é feita de pedaços de pedra, de terra, de vidro e de aço que a nossa consciência teimosa anima por meio da linguagem. A cidade é onde o homem mais se ilude em sua grandeza divina de dar nomes às coisas. Um imenso mosaico onde as partes estão constantemente tentando definir um mutável todo.” (Vik Muniz, janeiro 2018). Ao meu avô Nico..
(7) AGRADEC IME NTOS.
(8) A muita coisa sou grata nessa vida, mas com certeza minha maior gratidão vai ao tempo que me permitiu conhecer pessoas incríveis ao longo dessa caminhada turbulenta e alucinante que comecei a percorrer há 5 anos. Sou grata inicialmente a minha família que sempre esteve presente, mesmo com alguns quilômetros nos separando, depositando confiança quando sentia que tudo estava perdido e amor quando a solidão se fingia minha amiga. Quero agradecer minha mãe Rita por me atirar ao mundo mesmo eu pedindo para ficar, ao Adriano, meu pai de coração por todo cuidado e despedidas as 2:50 da madrugada semanalmente na porta da rodoviária, a minha irmã Laura por me ler tão bem, mesmo minha boca não dizendo nada e pelas palavras que me traziam, muitas vezes, de volta a lucidez. As minhas avós, as quais carinhosamente chamo de Zazá, por todo afeto, orgulho e incentivo. E aos meus tios, Raquel e Rogério, pelo acolhimento em dias chuvosos ou ensolarados e apoio incondicional. A gratidão se estende aos amigos que cativei, em especial ao Clube dos Cinco a quem compartilhei muitas horas de trabalho e outras tantas de noites em claro. A vocês devo as minhas melhores gargalhadas, os cafés mais. 8.
(9) sinceros e um dos maiores aprendizados que adquiri: a vida só é boa se compartilhada. Então, meus queridos e amados, Larissa Aoki, Karina Onishi e Samuel Ng, a saudade existe, mas maior do que ela é nossa amizade. Um agradecimento especial a minha amiga, Noelly Pedrosa, por me mostrar que diferenças são completudes, que sentir é uma virtude e que o gostar se estende para além das similaridades. Obrigada por sempre ter um tempo sobrando e uma palavra a dizer. Obrigada pelos momentos compartilhados e disponibilidade de estar por perto. Não tenho como não enfatizar uma pessoa em especial quando o assunto é amizade, durante esses cinco anos além de um diploma, ganhei também uma família e uma irmã que não existe palavra no mundo que defina o tamanho de minha gratidão. Só posso dizer obrigada a minha amiga da vida, Giovanna Czumoch, que se tornou a minha pessoa persona, a quem não preciso nunca pedir desculpa e mesmo assim faço questão de dizer. Obrigada pela companhia nos dias finitos de angústia e nos infinitos e eternos dias de alegria e risadas genuínas. Obrigada por me levantar todas as vezes que caí, por me dar a mão todas as outras que tropecei e por me deixar fazer de sua casa meu refúgio.. 9.
(10) Obrigada pela ajuda, pelo carinho, pelo amor, amizade e companheirismo. Obrigada de todo o meu coração por ter escolhido ficar. E enfim, os meus mais sinceros agradecimentos, aos meus orientadores, Heraldo Borges e Lucas Fehr, pelas conversas inspiradoras e conselhos sábios, pela riqueza dos aprendizados que adquiri, pela confiança no meu potencial e paciência durante esse um ano de trabalho, crises e respiros. Obrigada por me mostrarem o caminho e acenderem a luz quando a escuridão cegava meus olhos. Obrigada pela liberdade de defender o que acredito e pelas cobranças amigas que me fizeram chegar até aqui. Obrigada a todos vocês por tudo e por tanto, foi um prazer tê-los presente durante esse processo e a vida por me permitir chegar até aqui. A caminhada foi longa, mas de uma beleza rara e recompensadora.. 10.
(11) RESU MO.
(12) Este trabalho busca investigar a importância do térreo urbano para a cidade e como é possível difundir o uso público no espaço privado afim de conciliar a vida urbana com o incentivo privado, percursor do desenvolvimento dentro da cidade contemporânea. Com o objetivo de gerar espaços mais humanos que busquem, além de expandir a rua para dentro do lote, criar diretrizes projetuais que conciliam a cidade, em todo o seu âmbito urbano, com as necessidades que ela possui referente a sua evolução e desenvolvimento. Para isso foram realizadas algumas análises e levantados alguns conceitos que possibilitaram o entendimento do cotidiano da cidade e como é dada essa ocupação do espaço fornecedor de uso público e o que ele proporciona as pessoas que o habitam e a cidade a quem ele pertence. Posteriormente esses conceitos foram aplicados na área de estudo escolhida, a qual teve sua própria análise e investigações que buscaram entender de forma mais direta e objetiva a sua realidade viva e construída. Também foram realizados alguns levantamentos para fins projetuais, os quais esclareceram as necessidades, potencialidades, condicionantes e deficiências da região, que neste caso se resume a Rua Augusta, mais especificadamente ao Baixo. 12.
(13) Augusta. E finalmente, quais são as conclusões, tanto em relação ao âmbito de projeto arquitetônico e urbano quanto em relação a vida dentro da cidade, proporcionada e definida, muitas vezes, pelos próprios habitante, além de suas consequências e atributos para a cidade contemporânea.. 13.
(14) SUMÁRIO. INTRODUÇÃO: A VIDA AO RÉS-DO-CHÃO O RÉS-DO-CHÃO DA CIDADE Térreo: Entre duas dimensões urbanas (p.24) Porosidade urbana. (p.30) O balé das calçadas. (p.34) A RUA AUGUSTA O térreo da Augusta. (p.40) A porosidade da Augusta. (p.50) O balé da Augusta. (p.54) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA O chão da Augusta I - Mapa da rua. (p. 76) O chão da Augusta II - Projeto Arquitetônico. (p.82) CONSIDERAÇÕES FINAIS: DO RÉS-DO-CHÃO AO RÉS-DA-CIDADE. (P.1 08) BIBLIOGRAFIA (P.110). 14.
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(18) Muito disso ocorre pelas novas formas de expansão e urbanização que vem causando, progressivamente, alterações em relação a escala da cidade, que se distancia do seu padrão espacial tradicional e dissolvendo pelo espaço, transformando-se nessa massa fragmentada que temos nos deparados atualmente. Não podemos negar essa realidade urbana que tem nos atordoado dia-a-dia, os espaços urbanos vêm sendo construídos pelas dinâmicas contemporâneas e a cidade necessita de territórios articulados, lugares que tenham potencial para serem centralidades integradoras, cujos tecidos urbanos ofereçam uma heterogenia social e funcional. O fato é que, a configuração espacial e social da cidade altera o papel das esferas pública e privada no contexto das dinâmicas urbanas, já que este modelo de construção de cidade busca difundir o espaço público no espaço privado e vice-versa, afim de atribuir caráter urbano e público, tanto aos edifícios quanto ao lugares, que sem essa preocupação de torná-los patrimônio coletivo, seriam apenas privados e esta é a função dos espaços públicos: urbanizar o privado. Todos os lugares onde a vida coletiva se desenvolve possui uma riqueza civil, urbana,. 18.
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(21) privado e o uso coletivo, nos deparamos com uma exponencial onde tudo está organizado, num grau em que a cidade se une com o território e o objetivo é fundir os espaços e usos públicos e privados que estão por existir dentro desta cidade contemporânea. Vik Muniz (2018) descreve precisamente a compreensão que precisamos ter sobre a nossa realidade urbana, ele diz que: Enquanto a natureza geralmente nos inspira a descrevê-la usando generalizações amplas como céu, terra, mar ou montanha, descrevemos os espaços humanos principalmente por meio da exaltação de seus detalhes. Cidades são percebidas como um intenso fluxo de fragmentos cuja densidade define o centro em relação aos arrabaldes.. Finalmente, para melhor entendimento analítico da pesquisa, a divisão dos capítulos foi feita de forma que mostrasse uma realidade generalizada dos usos, domínios e cotidiano das cidades como um todo, passeando entre alguns conceitos vistos como diretrizes urbanas e agentes transformadores, através de levantamentos em campo, diagramas ilustrativos e mapas que servirão de apoio. 21.
(22) gráfico como parte fundamental do estudo. E depois direcionaremos esta mesma linha de raciocínio ao recorte espacial deste trabalho, a Rua Augusta. Então é através desta estrutura, partindo do macro para o micro, do geral para o específico, que se tentará, nessa monografia compreender a complexidade de relações entre as duas esferas urbanas, entre a relação das pessoas com a cidade, a relevância do chão da cidade para vida social urbana para que este deixe de ser um plano esquecido e passe a ser protagonista dos projetos, diretrizes e desenhos urbanos.. 22.
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(28) TÉRREO: ENTRE DUAS DIMENSÕES URBANAS. que não visem somente o rendimento ou a publicidade, mas as partes estimulantes do tecido urbano multiforme. E como consequência dessa forma de raciocínio do desenho urbano, as cidades conseguiriam dar valor público ao privado, já que este é atribuído tanto para boas casas, bons comércios, bons jardins privados, quanto para bons passeios, monumentos e edifícios representativos. Fazendo com que a qualidade do individual seja condição para que o semanticamente coletivizado, resulte em riqueza coletiva. (Solà-Morales, 2001). Como uma leitura visual clara dessa difusão entre as duas esferas públicas, podemos citar o Mapa Nolli, que fez história quando foi elaborado em 1748, em decorrência de seu foco em espaços públicos. Com ele, Giambattista Nolli destacou o fato de que os lugares públicos não existem exclusivamente na forma de ruas e parques, mas também em espaços fechados. No entanto, a importância destas áreas comuns está sendo constantemente prejudicada. Nossas áreas públicas existem para promover a inclusão e igualdade de oportunidades, mas, apesar disso, elas estão sendo esquecidas e abandonadas, debilitando sua capacidade de conectar comunidades. (ZILLIACUS, 2016).. 28.
(29) O RÉS-DO-CHÃO DA CIDADE. Figura 1: Trecho do mapa de Roma por Giambattista Nolli (1748). Imagem via UC Berkeley Library (Domínio. 29.
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(31) O RÉS-DO-CHÃO DA CIDADE. POROSIDADE URBANA O conceito de tecido urbano, visto em seu significado lato de pele das cidades, é rico de construções, texturas, contrastes, ruas e espaços livres, muros e jardins, perfis e vazios. Os movimentos e encruzilhadas, veículos e fachadas, subsolos, museus, teatros, apartamentos, também constituem o conceito que Solà-Morales denomina de epiderme urbana, mais precisamente, o contato entre nossos corpos e a matéria física proporcionada pela experiência urbana. A urbanidade em si e todo o complexo de seu sistema possui um propósito de hierarquia conceitual essenciais para a interpretação do urbano, desde o pensamento estruturalista, ao formalista e ao econômico ou todos simultaneamente. A superfície da cidade, a denominada pele urbana quando considerada como algo superficial, ou seja, leve, inconsciente, insignificante e incapaz de abrigar conteúdos de interesses sérios são reduzidas a ser apenas portadora de valores subestruturais, estético ou ambientais, a pele da cidade é para os neo-estruturalistas de hoje uma consequência mais que um sujeito, um fenômeno mais que uma matéria. Assim, a origem e a forma de qualquer urbanidade vêm da própria matéria urbana, da superfície das cidades. 31.
(32) POROSIDADE URBANA. experimentadas em sua materialidade concreta, em suas sensações físicas e em suas sugestões. É a matéria urbana que nos transmite, tanto em seus pontos mais sensíveis como em suas zonas mais neutras, a energia qualitativa que acumula o caráter coletivo sobre certos espaços, carregando-os de significado íntegro, de experiências culturais, fazendo a ligação entre a matéria semântica e suas construções de memórias intersubjetivas e social. Solà-Morales conclui que é a matéria da epiderme urbana que nos ensina suas características e suas diferenças, seu peso e sua forma, textura, formato, sua morfologia e sua tectônica, mas é preciso certa insistência para enxergá-las, com atenção suficiente para que ela nos revele suas respostas ocultas, suas cavernas. (SOLÀ-MORALES, 2001). Este tecido urbano constitui-se a partir da sobreposição de várias estruturas que agem em diferentes níveis e se oriunda através de três lógicas. A primeira aborda o âmbito viário, ou seja, expressa o papel da via em função do movimento e distribuição; a segunda lógica se aplica em relação ao parcelamento do solo e como ela define as questões fundiárias as quais manifestam as iniciativas públicas e privadas e finalmente a terceira lógica que envolve. 32.
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(34) POROSIDADE URBANA. e do espaço exterior de forma não apenas complementar, mas recíproca, oferecendo liberdade de acesso de modo que um se incorpore ao outro, para que o limite entre interior/ exterior seja disfarçado e a sensação rígida de se estar sobre um domínio público ou privado seja amenizada. (HERTZBERGER, 1996). As intervenções urbanas devem, portanto, serem feitas depois de entender a natureza sistêmica dessa epiderme urbana, que não é apenas uma cobertura, mas sim a estrutura principal desse organismo, neste caso, as cidades. Pois esta pele do tecido urbano nos permitir transformar os metabolismos internos desse organismo, ou seja, as infraestruturas. Projetar na cidade é um ato de atenção, operar na epiderme urbana é um contínuo prestar atenção de como estão as coisas. E continuamente se atentar para como as coisas são e o que fazer, o que remover ou alterar e como organizá-las melhor. Não há outra escolha ou outra inventividade que a incidência na estratégia das coisas urbanas (SOLÁMORALES, 2001).. 34.
(35) O RÉS-DO-CHÃO DA CIDADE. BALÉ DAS CALÇADAS. A arte do caminho pressupõe que a atividade transforme os espaços públicos em lugares que sustentem a interação humana. E sua carga poética afirma-se pela metáfora e paralelismo conceitual da ideia de rede, conexão e superfície urbana, sustentada na realidade construída e na memória dos lugares. Ao caminhar pelo chão da cidade, colocamos o olhar a fim de estabelecer um padrão de percurso que se modifica ocasionalmente por acontecimentos inesperados que exigem um olhar mais atento. Às vezes uma fachada, outras um obstáculo, mas raramente percebemos de forma consciente o elemento urbano que mais se aproxima de nós. O chão que pisamos é quase sempre um plano esquecido no discurso da cidade, mas que suporta tudo que fazemos e todas as atividades e infraestruturas urbanas, além de ser o elemento de contato físico com a cidade, tecido vivo do corpo urbano, elemento permanente, mutante, a impressão digital da sociedade, suporte da morfologia urbana e palco da cidadania. (OLIVEIRA, 2006). Porém, é preciso que haja planejamento para a vitalidade desse caminho, para que a existência nociva de zonas de fronteira desertas seja combatida, além de provocar a identificação das pessoas com seus distritos que são extensos,. 35.
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(37) O RÉS-DO-CHÃO DA CIDADE. Ainda segundo Jacobs: “o balé de uma boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações.” Poderíamos divagar sobre este conceito prosaico estendendo seu significado às múltiplas interpretações que ele possibilita, mas o que vale a pena nos atentar é que o cotidiano das ruas e das calçadas é vital para a construção de uma boa cidade e essa ordinariedade da vida dos habitantes regem uma sinfonia complexa que em seu conjunto compõem a ordem que garante a liberdade e segurança das calçadas. E Não adianta tentarmos estabelecer um padrão para esse balé, pois ele é mutável e característico de cada lugar. Quando Jacobs diz que: “(...) está repleto de novas improvisações” é a isso que ela se refere. Temos que entender qual é a sinfonia de cada canto da cidade e entrar no ritmo e não o contrário. Concluindo, não existe simplicidade nessa ordem, pois há um número atordoante de elementos que a compõem, sendo que a maior parte deles são, de certa, maneira, específicos. E provocam ainda um efeito conjugado sobre a calçada, mas que em si, este efeito não é de modo algum específico. Aí reside sua força. (JACOBS, 1961).. 37.
(38) O BALÉ DAS CALÇADAS. “Gestos, caminhos, corpos e memória, símbolo e sentido.” Henri Lefebvre.. 38.
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(41) A RUA AUGUSTA. O TÉRREO DA AUGUSTA Antes de mergulharmos nas questões específicas da Rua Augusta, vamos recapitular alguns fatos e conceitos que nos ajudarão a interpretar a Augusta em seu cerne. Começaremos então pela noção de Espaço Público e em que exatamente temos que nos apegar quando pensamos nele. Ao falarmos do espaço como sendo público, devemos considerar aqueles que vão além de propriedade pública, ou domínio público, como ruas, praças e parques, temos que expandir a noção do “ser público” para os espaços que podem abrigar ou não ações da esfera pública, como práticas espaciais da vida do cotidiano, que vão desde manifestações políticas até às grandes festas religiosas (QUEIROGA, 2012). Estes espaços possuem uma conexão física muito forte em relação aos fluxos de pessoas, mercadorias, informações e comunicações, que analisando por um viés mais formal, podemos tratá-los como coletivo. Num sentido mais absoluto, HERTZBERGER (1996, p.12), acrescenta: “pública é uma área acessível à todos a qualquer momento; a responsabilidade por sua manutenção é assumida coletivamente. Privada é uma área cujo acesso é determinado por um pequeno grupo ou por uma pessoa, que tem a responsabilidade de mantê-la”. Assim:. 41.
(42) O TÉRREO DA AUGUSTA. O conceito de “público” e “privado” podem ser vistos e compreendidos em termos relativos como uma série de qualidades espaciais que, diferindo gradualmente, referem-se ao acesso. À responsabilidade, à relação entre a propriedade privada e a supervisão de unidades espaciais específicas. (HERTZBERGER, 1996).. Dito isso, podemos prosseguir a um segundo termo, Galeria Comercial, de suma relevância para nosso objetivo final de compreender o que é a Rua Augusta. Uma área aberta como os miolos de quadras gerados pela formalidade pré-estabelecida se entende como galeria comercial, que por sua vez, pode ser entendida como um lugar mais ou menos público ou mais ou menos privado, dependendo apenas da forma de acesso a esse espaço e como é dada sua vivência. Portanto, é numa escala públicoprivado na qual os espaços se classificam a partir da proximidade e forma de apropriação dos seus usuários. Muitas vezes o espaço central dessas quadras podem proporcionar uma apropriação coletiva, sem perder a característica de um lugar com uso individual, isto é, um lugar socializado dentro de uma esfera privada, como é o caso de alguns térreos de galerias comerciais, pois apesar da. 42.
(43) A RUA AUGUSTA. galeria em si ser privada, o uso interior do lote, ao nível da rua é um lugar de apropriação coletiva. Agora, uma contextualização para analisarmos quando e por que este movimento de apropriação no interior de lotes surgiu. Durante a década de 40 iniciou-se um deslocamento de um alto fluxo de pessoas em direção à Região do Centro Novo. A possibilidade de circular e penetrar pelos espaços do térreo dos novos edifícios criou um conceito na cidade moderna: a permeabilidade. A continuidade espacial capacitou o prolongamento para o interior dos edifícios da vida urbana dos espaços públicos (COSTA, 2015). A ideia de realizar uma passagem por dentro das quadras foi muito difundida nos espaços urbanos nesse Centro Novo, cujo térreo de alguns edifícios modernos funcionavam como área de permanência bem como de circulação, dinamizando e facilitando o caminho. Segundo Sabrina Costa (2015), essa ideia de fluidez entre as quadras surgiu na Europa no século XIX e foi incentivada pelo poder público em São Paulo pelo projeto urbano do prefeito Prestes Maia em 1940. O térreo dos edifícios como espaços de convivência e lazer começou na Europa e se. 43.
(44) O TÉRREO DA AUGUSTA. relacionavam diretamente com a tipologia das galerias comerciais, que formaram uma nova perspectiva sobre a função do comércio nas cidades no século XIX. Na Paris do século XIX, devido à primeira Revolução Industrial e consequentemente, o início da produção industrializada, surgiu à necessidade de uma nova maneira de vender esses produtos. Assim, a ideia de galeria surgiu para fazer a interação entre o negociante e o interessado, de forma mais segura, pois os pedestres podiam circular livremente dentro desses espaços protegidos do tempo e do trânsito, tornando-se um lugar excelente para o comércio e o principal ponto de encontro das pessoas (COSTA, 2015). É importante ressaltar que esse tipo de empreendimento não era popular na cidade de São Paulo antes da década de 50. Eles surgiram a partir da ocupação do Centro Novo, que entre as décadas 20 e 50 sofreu grande transformação em relação à produção industrial, desenvolvendo-se principalmente no aspecto comercial, devido à instalação das indústrias no país e o emprego de novas técnicas adotadas na agricultura, que obrigaram parte da população rural vir para a cidade, acarretando na transformação de alguns territórios e a ocupação de outros, como é o caso da região. 44.
(45) A RUA AUGUSTA. que estamos abordando, que foi ocupada por torres de escritórios, comércio e serviços. Junto com essa ocupação foram construídas as primeiras galerias comerciais, que vieram como resposta à demanda por espaços comerciais centrais, condizentes com os novos usuários dessa região: a elite paulistana e a nova classe de profissionais liberais (ALEIXO, 2005). No fim dos anos 50, os edifícios e as galerias comerciais eram de presença marcante e determinante da paisagem central. Atendiam a um exigente público consumidor que buscava mercadorias, mas também espaços para o lazer e serviços e a um público investidor, que não se restringia mais ao proprietário da casa comercial, reformando ou construindo uma nova loja e, sim, abrangia outros personagens: os industriais, estrangeiros recém-chegados, proprietários de importadoras, enfim, pessoas que passaram a aplicar parte de seus lucros na indústria da construção civil voltada ao mercado comercial. (ALEIXO, 2005, p.43).. A primeira galeria comercial do Centro Novo foi construída no térreo do edifício Guatapará através de uma reforma em 1933. Porém somente entre as décadas de 1950 e 1960 que este tipo de empreendimento teve incentivo. 45.
(46) O TÉRREO DA AUGUSTA. legal do poder municipal no Centro, que também viram como uma forma de incentivo ao polo comercial criado na região, pois as galerias ofereciam novos caminhos, que além de servirem como “atalhos” serviam como proteção ao clima tão recorrente na cidade de São Paulo naquele período. (COSTA, 2015). Na Rua Augusta existem vários edifícios representantes deste tipo de arquitetura, que começaram a ser construídos na década de 1960 com o objetivo de otimizar o espaço e unir diversas lojas em um único conjunto, como por exemplo, a Galeria Augusta inaugurada em 1960 e a Galeria Le Village, inaugurada em 1959. Galeria Augusta inaugurada em 1960, a Galeria Le Village, inaugurada em 1959 e a Galeria Ouro Velho, foi construída em 1962, projetada pelo conceituado arquiteto modernista Jorge Wilheim . A expansão dessas galerias para a Augusta é reflexo do processo de descentralização do comércio e de algumas funções do centro de São Paulo. A rua começa a absorver a parcela do comércio de luxo voltado à elite que morava nas proximidades. E diferentemente das galerias do centro de São Paulo as galerias da rua augusta são em sua maioria localizadas em lotes fechados e apesar de contarem com um espaço. 46.
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(49) A RUA AUGUSTA. aberto e contínuo a rua, elas terminavam no limite do lote. (Pissardo, 2013). Juntamente com essa expansão comercial, a cidade de São Paulo é tomada por uma ebulição social e cultural, motivada pela figura de universitários e jovens que vai impulsionar o desenvolvimento de estabelecimentos voltados ao entretenimento. A Rua Augusta enquanto centro de via de grande circulação e aglomeração de estabelecimentos comerciais, passa a juntar diversos estabelecimentos culturais e de lazer voltados para os jovens e elite. (Pissardo, 2013). O convívio cada vez mais frequente entre os jovens paulistanos associado ao entretenimento proporcionado, em sua grande maioria pela música, fez com que o um novo padrão estético surgisse o qual, pela primeira vez, incentivava o jovem a se enxergar como um agente de transformação e criador de um grupo social com uma cultura própria, códigos estéticos e comportamentais a parte do mundo adulto. É válido notar que é através desse mesmo tipo de convívio e interação, que a Rua Augusta passará por mais mudanças em relação ao seu perfil, mais tarde por volta da década de 1990, o qual atrairá diferentes grupos sociais. (Pissardo, 2013).. 49.
(50) O TÉRREO DA AUGUSTA. Enfim, todo esse histórico e desenvolvimento que citamos anteriormente é suficiente para entendermos qual é o Balé que a Rua Augusta dança, quais são as atividades presentes, sejam comerciais, como ocorre predominantemente em seu período vespertino, ou mais boêmias, como ocorrem na calada da noite. Sejam quais forem as atividades que compõem o cotidiano na Rua Augusta, elas existem e são únicas desse lugar e dessa rua e cabe a nós sabermos identificá-las.. 50.
(51) A RUA AUGUSTA. A POROSIDADE DA AUGUSTA Para a realização deste trabalho foi feito um levantamento em campo, inicialmente, com o intuito de averiguar quantas e quais eram as galerias comerciais presentes na Rua Augusta. Porém ao decorrer do processo foi identificado um número exorbitante de estacionamentos e de empreendimentos, em sua maioria residenciais, frutos de investimentos da iniciativa privada. A partir disso, foram feitos mais 2 levantamentos derivados deste primeiro. O primeiro que pretende ilustrar quantas barreiras existem na Rua Augusta e por barreiras, entende-se: os muros gradeados dos novos empreendimentos residenciais, e as tipologias desses lotes de estacionamentos que atualmente estão subutilizados, vistos como lotes em potencial para investimentos terceirizados, e o Mapa 01, ao lado, é resultado destes levantamentos.. 51.
(52) A POROSIDADE DA AUGUSTA. 52.
(53) A RUA AUGUSTA. O intuito dos levantamentos foi visualizar qual a área da Augusta, efetivamente, é pública, ou seja, a área das calçadas e da rua em si; qual a área de uso semi-público e por ela entendemos: os lotes privados que agem como extensão da rua, ou seja, aqueles fornecendores de uso público; e qual a área em potencial existente para o mesmo uso, ou seja, quanto que poderia ser o ganho em m² se todos os lotes que estão subutilizados, fossem apropriados, afim de favorecer a cidade com mais espaços da mesma esfera. Diagrama de área do chão. 53.
(54) A POROSIDADE DA AUGUSTA. 54.
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(77) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. 77.
(78) O CHÃO DAAUGUSTA I - MAPA DA RUA. A partir do levantamento realizado, foram detectadas quatro tipologias de estacionamentos, são elas: esquina, transposição, miolo de quadra e lote lindeiro. E para fins projetuais, a tipologia escolhida para ser detalhada mais adiante foi o miolo de quadra e por este motivo, a área de projeto foi restringida ao Baixo Augusta, como poderemos ver pelo desenho do térreo urbano proposto a seguir:. 78.
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(83) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. O CHÃO DA AUGUSTA II PROJETO ARQUITETÔNICO. MAPA MENTAL. ESTUDOS I 83.
(84) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. CARTOGRAFIA SENSITIVA. 84.
(85) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. ESTUDOS II 85.
(86) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. ESPACIALIDADE. VOLUMETRIA. DIAGRAMA DE FLUXO 86.
(87) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. O PROJETO. TÉRREO RUA AUGUSTA (+ 0.00). 87.
(88) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. AMPLIAÇÃO: TÉRREO RUA AUGUSTA (+ 0.00). 88.
(89) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. PRIMEIRO PAVIMENTO: GALERIA (+ 6.00). 89.
(90) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. AMPLIAÇÃO: PRIMEIRO PAVIMENTO: GALERIA (+ 6.00). 90.
(91) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. SEGUNDO PAVIMENTO: GALERIA (+ 11.00). 91.
(92) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. AMPLIAÇÃO: SEGUNDO PAVIMENTO: GALERIA (+ 11.00). 92.
(93) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. TÉRREO RUA BELA CINTRA (+ 16.00). 93.
(94) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. AMPLIAÇÃO: TÉRREO RUA BELA CINTRA (+ 16.00). 94.
(95) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. AMPLIAÇÃO: SOLÁRIO (+ 21.00). 95.
(96) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. AMPLIAÇÃO: PAVIMENTO TIPO ( A PARTIR DO NÍVEL + 25.00). 96.
(97) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. CORTE A.A 97.
(98) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. 98.
(99) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. CORTE B.B 99.
(100) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. VISTA FRONTAL 100.
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(103) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. 103.
(104) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. 104.
(105) O RÉS-DA-CIDADE DA RUA AUGUSTA. 105.
(106) O CHÃO DAAUGUSTA II - PROJETO ARQUITETÔNICO. 106.
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(109) CONSIDERAÇÕES FINAIS. DO RÉS-DO-CHÃO AO RÉS-DA-CIDADE Os lugares na cidade contemporânea têm cada vez mais se desvinculado do bem-estar humano, a cidade tem sido construída através de uma política construtiva que privilegia o automóvel e o lucro. Precisamos nos desconstruir dia após dia para não sucumbirmos a esse frenesi contagioso que é a rotina dentro de uma metrópole. Temos que, todos os dias, ao pisar na calçada lembrar que a cidade é para as pessoas e olhá-la ao nível dos nossos olhos. A configuração do espaço urbano precisa atender a demanda que ele exige. Ao tratarmos do Chão da Cidade, neste caso, o chão da Rua Augusta. Sua reinvindicação é clara, espaços que promovam uso público, convivência social e oferta de serviço. Vimos que essa é a característica dessa rua, seja pelo dia com a variedade inexplicável de comércios ao longo de toda rua ou à noite quando a boêmia vem à tona e os comércios nesse período servem ao lazer. A Augusta tem essa demanda extremamente rica e multifacetada e não cabe a nós ignorarmos essa realidade ao tratarmos ela como apenas mais uma rua dentro de mais um bairro na cidade. O intuito deste trabalho foi apontar a importância da permeabilidade urbana, mostrar o Chão como protagonista da cidade e não consequência do vazio não-edificado. As. 109.
(110) DO RÉS-DO-CHÃO AO RÉS-DA-CIDADE. conexões, as interações sociais que o caminho possibilita, os atalhos urbanos viabilizados pelas quadras abertas, as conexões pelo térreo dos edifícios, a expansão da rua para dentro do lote, seja ele privado ou não, pois o que está em jogo é sua ocupação e não a esfera que este lote pertence, ou seja, o uso que ele oferece à cidade e as pessoas que nela habitam. E a maneira de concretizar e viabilizar essas intenções dentro de uma cidade e de uma região cujo maior incentivo provém da iniciativa privada é mostrar como unir um projeto que insere a cidade dentro dessas edificações sem que isso prejudique ou impeça o retorno financeiro imediato fruto desse investimento privado, ou seja, como se projetar nesses centros urbano sem que a cidade seja ignorada, usando o incentivo econômico à favor de todos, de quem vai receber esses lucros, isto é, as grandes incorporadoras, e de quem vai gerar esses lucros: a cidade.. 110.
(111) BIBLIOGRAFIA ALEIXO, Cynthia Augusta Poleto. Edifícios e galerias comerciais. 2005. 283 f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Carlos, 2005. COSTA, Sabrina Studart Fontenele. Edifícios Modernos e o Traçado Urbano no Centro de São Paulo (1938-1960). São Paulo: Annablume, 2015. 251 p. GRAÇA, Miguel Silva. Espaços públicos e uso colectivo do espaço privado. 2006. 1 v. Tese (Doutorado) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade Independente, Lisboa, 2006. HERTZBERGER, Herman. Lições de arquitetura. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 272 p. JACOBS, Jane M. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2001. 510 p. (Coleção A). 111.
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