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(1)

Secretaria Municipal de Saúde

Diretoria Geral de Atenção a Saúde

Diretoria Geral de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde

2010/2011

CURSO DE FORMAÇÃO TÉCNICA

DE AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE

II e III Etapas Formativa

ÿþýüûúþúù úù ùÿùþù þ ùþ úþ þþ

(2)
(3)

Aprende - lê nos olhos, lê nos olhos - aprende a ler jornais, aprende: a verdade pensa com tua cabeça.

Faça perguntas sem medo não te convenças sozinho mas vejas com teus olhos. Se não descobriu por si na verdade não descobriu. Confere tudo ponto

por ponto - afinal você faz parte de tudo, também vai no barco, "aí pagar o pato, vai pegar no leme um dia. Aponte o dedo, pergunta que é isso? Como foi parar aí? Por que? Você faz parte de tudo. Aprende, não perde nada das discussões, do silêncio. Esteja sempre aprendendo por nós e por você.

Você não será ouvinte diante da discussão, não será cogumelo de sombras e bastidores, não será cenário

para nossa ação Bertolt Brecht

(4)

Índice

Apresentação do Eixo ... 08

Ementa do Eixo ... 10

Mapa RPA’s ... .11

TEMA

1

Concepção de Estado, Sociedade e Território

TEXTO 1.

O que é Estado?...

...

...14

TEXTO 2.

Estado... 20

TEXTO

3.

Emenda constitucional garante piso salarial para Agentes Comunitários de Saúde... 23

TEXTO 4.

Territorização da saúde ... 25

TEXTO 5.

Mas o que é território?... 28

TEXTO 6.

Se os tubarões fossem homens ...31

TEMA

2

Mudança social, organização política e controle social na saúde

TEXTO 1.

Movimentos sociais ... 34

TEXTO 2.

ALERJ apova lei das OSS - Organizações Sociais de Saúde para gestão da saúde e servidores protestam...44

TEXTO 3.

Movimentos sociais querem novo modelo de desenvolvimento...45

TEXTO 4.

Agentes comunitários de saúde exigem melhoria salarial...46

TEXTO5.

Um galo sozinho não tece uma manhã ...47

(5)

TEMA

4

Contextos e desafios do sistema público de saúde brasileiro

TEXTO 1.

O sistema de saúde brasileiro:

História, avanços e desafios... 78

TEXTO 2.

O SUS que não se vê ... 81

TEMA

5

SUS: Modelos de Saúde

TEXTO 1.

Modelos Assistenciais em Saúde:

desafios e perspectivas...84

TEXTO 2.

Atenção Básica à Saúde:

Recife em Defesa da Vida...94

TEXTO 2 .

A institucionalização do trabalho

numa pespectiva conjuntural e histórica ... 72

TEMA

3

Identidade e classe social. Papel do ACS junto às comunidades do Recife:

caminhos históricos percorridos e situação atual da categoria

TEXTO 1.

Movimentos Populares instituintes e o surgimento

(6)

Secretário Municipal de Saúde Gustavo Couto

Assessoria Executiva Tiago Feitosa

Diretoria Geral de Assistência a Saúde Bernadete Perez

Gerência de Atenção Básica Thatiane Torres

Diretoria Geral de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde Cinthia Kalyne de Almeida Alves

Gerência de Formação e Educação em Saúde Juliana Siqueira

Gerência Operacional de Educação Permanente Cristiana Almeida

Coordenador Geral do Curso Gustavo Dantas

Equipe Técnica Andreia Moreira Barros Ednaiptan de Souza Silva

Gabriel Pereira Gustavo Dantas

Jarbas Nunes Lélia Cavalcanti Moreira

Mauricéa Santana Patrícia Pessoa Samuel Camêlo Revisão técnica Andreia Moreira Barros Cinthia Kalyne de Almeida Alves

Giliate Coelho Neto Gisele Cazarin Consultoria Técnica Itamar Lages Secretaria Escolar Milena Cazarin Apoio Administrativo Alixandre Antônio da Silva

Elaboração

Secretaria Municipal de Saúde

Diretoria Geral de Gestão do Trabalho e Educação na Saúde Diretoria Geral de Atenção a Saúde

(7)

EXPEDIENTE

Secretário Estadual de Saúde Antônio Carlos Figueira

Secretaria Executiva de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde Fernando Menezes

Diretoria Geral de Educação em Saúde Maria Emília Higino

Escola de Saúde Pública de Pernambuco Patrícia Coutinho Equipe Técnica Irenilda Magalhães Zenóbia Lima Bernadete Carvalho Michelline Lira Emanuella Rolin Patrícia Caline Parcerias

Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das Graças (FENSG)/UPE SINDACS-PE

Faculdade Pernambuca de Saúde Faculdade Maurício de Nassau Universidade Salgado de Oliveira Faculdade Integrada de Pernambuco

(8)

DO EIXO

Seja bem vindo ao Eixo I da Segunda Etapa Formativa do Curso de Formação Técnica em Agente Comunitário de Saúde. O tema geral deste Eixo é: Estado, Sociedade e Políticas Públicas de Saúde. Ele tem como objetivos, além de uma pequena revisão em alguns temas da Primeira Etapa Formativa, contextualizar e problematizar junto com o educando os avanços e desafios do Sistema Único de Saúde na conjuntura atual, seja discutindo o contexto nacional, seja no contexto do município do Recife, no processo de implementação de seu modelo de saúde. O objetivo maior aqui é que o ACS compreenda a relação direta entre os contextos de luta pelo fortalecimento do SUS como garantidor universal do direito à saúde da população e as implicações sobre seu trabalho junto às comunidades do Recife.

Haverá oportunidade também neste Eixo de discutir profundamente os desafios atuais da profissão do ACS em seu processo de institucionalização e de legitimação como personagem importante na consolidação do SUS. Uma história de mais de trinta anos, na qual diversos atores e movimentos sociais do Recife tiveram importante protagonismo, com experiências potentes de medicina comunitária em pleno regime militar. Nesse percurso, a partir dessas experiências desinstitucionalizadas junto às comunidades do Recife, passando pela criação em 1992 do Programa Nacional de Agentes Comunitários de Saúde, até sua inserção junto às equipes multiprofissionais de saúde da família, há uma história que precisa ser contada e problematizada no sentido de fortalecer a identidade do ACS e apontar horizontes na construção de seu devir ético-político. O objetivo é trazer reflexões que possam ajudar na compreensão do importante papel do ACS na garantia do direito a saúde para a população.

Aqui também se iniciará o processo de construção do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), com momentos exclusivos para divisão de grupos, escolha da temática e aproximações teóricas e práticas. Seu docente terá o papel de orientar os grupos neste processo, dando suporte teórico e ajudando na busca de estratégias para implementá-lo. Este Eixo contará com 44 horas, divididas em 11 aulas. Estas 11 aulas terão sete temáticas, dispostas de acordo com o quadro seguinte:

(9)

1

. Concepção de Estado, sociedade

e território. 8h 2 2. Mudança social, organização política

e controle social na saúde. 8h 2 3. ACS: Identidade e classe social.

Papel social do ACS unto às comunidades do Recife: caminhos históricos percorridos

e situação atual da categoria. 8h 2 4. SUS - Contextos e desafiosdo sistema

publico de saúde brasileiro. 4h 1 5. Modelos de saúde e Modelo de saúde

de Recife. 4h 2

6. Construção do Trabalho de Conclusão. 8h 2

Neste caderno, o educando encontrará textos teóricos de apoio, poesias, e reflexões que servirão de apoio ao aprendizado em sala de aula. Ao final de cada texto, o educando encontrará perguntas problemas que ajudarão na condução das reflexões. Todo o material aqui apresentado foi pensado especificamente para o curso, respeitando a complexidade e os potenciais inerentes ao ACS. Por isso, não deixe de ler com atenção, fazer as conexões devidas entre os textos e sua prática, refletir junto com os colegas e buscar ajuda e aprofundamento junto ao seu docente. Isto no sentido de potencializar o seu aprendizado. Toda equipe envolvida no curso e na produção deste material espera que você e sua turma aproveitem bem esta formação, bom estudo.

(10)

EMENTA DO EIXO

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TEXTO 1 _________________________________________________

Texto escrito para o Curso Técnico de ACS 2ª e 3ª etapas Recife

Recortes literais de: FERREIRA, S. M. A formação do Estado Moderno. In:PARANÁ, Secretaria Estadual de Educação. Vários autores. Sociologia. Curitiba, SEED-PR, p207, 2006

O QUE É ESTADO?

Há várias formas de poder do homem sobre o homem e o poder político é apenas uma delas. Para compreendê-lo, é preciso buscar o conceito de Estado e os significados do mesmo. Para a sociologia, uma das definições de Estado é a seguinte:

Um Estado existe como um mecanismo político de governo (instituições como o Parlamento ou Congresso, alem de servidores públicos), controlando determinado território, cuja autoridade ampara-se num sistema legal e na capacidade de utilizar a força militar para implementar suas políticas. (Adaptado de GIDDENS, 2005, p. 34)

Desde que homens e mulheres passaram a viver em grupos e a trabalhar coletivamente, várias formas de organização social foram se configurando, sendo que uma das mais recentes e que permanece até hoje em várias sociedades, chama-se Estado.

Mas, por que isso aconteceu? Se retornarmos aos filósofos que realizaram as primeiras análises acerca do Estado, iremos perceber que esses chegaram a algumas conclusões, mas principalmente a uma, que fala da necessidade que os homens têm, como um todo, quando vivem em sociedade, de estar sob a responsabilidade de uma instância ordenadora, que lhes dê o direcionamento de determinadas decisões

Assim, o Estado se consolidou como uma instituição que no decorrer do desenvolvimento das sociedades, apresentou características as mais distintas, que foram desde o poder de um único homem, até o Estado que buscava representar a coletividade.

PARA PENSAR...

Nesse sentido, O Estado surgiu segundo o interessede uma pessoa? De um grupo? Da necessidadede um povo? Existia o Estado no mundo antigoe medieval?

Definir o conceito de Estado de acordo com as realidades políticas de nosso tempo e transportar a definição para o passado de nada serve, porque o Estado apresentou formas distintas em culturas e momentos diferentes. Também não ajuda muito investigar sobre a historia do vocábulo - que data do século XVI -, porque a realidade que apresenta foi conhecida anteriormente sob outras denominações, como a de "republica". Portanto, necessitamos analisá-lo historicamente.

Concepção

de Estado,

(15)

O Estado, entendido como a forma de organização civil das coletividades humanas estáveis, nasce quando grupos de homens mais numerosos do que os que compõem uma tribo ou um bando se coordenam sob um comando único. No mundo antigo, conhecemos as cidades-estado da Mesopotâmia (onde a hierarquização social que consolidava a desigualdade e colocava a violência legal nas mãos de um chefe parece que surgiu ha oito mil anos) e da Grécia, o império egípcio, o de Alexandre, o império romano. Todos são Estados: em cada caso, ha território com limites - não exatamente uma fronteira, que e um conceito mais moderno - e um poder que controla com suas regras, de modo mais ou menos efetivo, o conjunto de pessoas que nele vive.

(Adaptado de FONTANA, 2000, pp. 238-239).

A partir do início do desenvolvimento do capitalismo, temos a formação dos Estados Nacionais Modernos, os quais são caracterizados por mecanismos políticos que facilitam o governo de determinado grupo sobre determinado território. Esses mecanismos baseiam-se em sistemas de leis e regras sociais, mas principalmente na capacidade do governo de usar a "força" com a finalidade de implementar suas políticas. Essa capacidade de atingir objetivos (com o uso da força), inclusive diante de fortes resistências, chama-se poder. O poder, para ser efetivado (bem -sucedido em seus objetivos) faz uso do que conhecemos como ideologia.A ideologia pode ser definida como o conjunto de idéias ou como a "visão de mundo" de um grupo (ou classe social) que se impõe, ou procura se impor sobre outro.

A sociedade capitalista é organizada a partir de leis, da ideologia, das instituições, que vão se desenvolvendo na medida em que os seres humanos vão atuando sobre elas e vice-versa. Como vivemos em uma sociedade capitalista, estas leis estão determinadas pelos interesses daqueles que dominam a sociedade: os capitalistas. Em contrapartida existem aqueles que se organizam em movimentos sociais e que estão contrários a esses interesses. Neste embate, entre quem domina e quem é dominado, o Estado - uma instituição com muitas ramificações - aparece para as pessoas como além deste conflito, como se fosse um juiz.

Esta aparência reside na concepção disseminada na sociedade de que o Estado é uma entidade acima dos seres humanos como se fosse superior aos interesses das classes sociais. Mas ele não é, pois é administrado por pessoas que representam os interesses dominantes, ficando para os dominados a tarefa de denunciar essa situação e tentar mudar o Estado e a sociedade. Isso fica observável quando entendesse que esta ação aparece no Estado via políticas governamentais, isto é, via governo.

A concepção de Estado demonstrada acima, como um conjunto de instituições, é diferente da concepção Marxista (baseada nas idéias do pensador Karl Marx) que entende o Estado como um aparelho, ou um instrumento a serviço da dominação capitalista, formado por aparelhos repressores e ideológicos.

É muito importante você entender a existência destas duas concepções, e analisar que o Estado é um conjunto complexo de instituições, mas que essas instituições são administradas por pessoas, que vão representar os mais variados interesses na sociedade. Sendo este um complexo de instituições, vamos compreender que existe uma dinâmica no funcionamento do Estado que vai variar na medida em que variam as pessoas e as propostas que elas utilizam para governar.

(16)

que as políticas adotadas impulsionam mudanças no conjunto de instituições que o constituem, modificando-o.

ESTADO E AS RELAÇÕES DE PODER

fig. 1

O Estado, para assegurar o cumprimento das "obrigações" pertinentes dentro de um sistema de organização coletiva, usa como artifício o poder, ancorado por um lado na institucionalização e na legitimação da autoridade e, por outro, na possibilidade efetiva do recurso à ameaça. Como extrema medida, pode ainda recorrer ao uso da violência.

Um dos objetivos diretos da utilização da violência pelo Estado pode ser a destruição dos adversários políticos ou deixá-los na impossibilidade física de agir com eficácia. Têm essa função as guerras de extermínio, os genocídios, a eliminação da velha classe governante por parte de um movimento revolucionário, a expulsão dos opositores do território do Estado e todas as formas de reclusão e deportação para campos de concentração ou para lugares de isolamento. O Estado usa a violência, não somente em sua comunidade, mas também contra o exterior, no confronto com outras comunidades políticas e outros Estados. Muitas vezes a tensão pode intensificar-se numa espiral de violência cada vez maior e explodir num conflito direto e geral, como por exemplo, a guerra no relacionamento entre Estados.

Foi a partir do século XV, que o Estado passou a deter a prerrogativa do monopólio da violência legítima. Ele utilizou a violência com continuidade e de maneira tendencialmente exclusiva, seja por meio de um ou mais aparelhos especializados que dispõe (tribunais, polícia, exército, etc.), ou da força, não no sentido da violência física, mas como capacidade de estimular ou inibir ações pelo processo de formação do comportamento, da assimilação de valores, autoridade e disciplina.

Mas, se os homens sempre procuraram ser livres,por que organizaram um meio de serem controlados?

(17)

fig. 2

1 - Teorias Contratualistas: Hobbes, Locke e Rousseau

Um ponto comum perpassa o pensamento desses três filósofos a respeito da política: a idéia de que a origem do Estado está no contrato social. Parte-se do princípio de que o Estado foi constituído a partir de um contrato firmado entre as pessoas. Aqui entende-se o contrato como um acordo, consenso, não como um documento registrado em cartório. Além disso, a preocupação não é estabelecer um momento histórico (data) sobre a origem do Estado. A idéia é defender que o Estado se originou de um consenso das pessoas em torno de alguns elementos essenciais para garantir a existência social. Porém, existem algumas divergências entre eles, que veremos a seguir:

Hobbes acreditava que o contrato foi feito porque o homem é o lobo do próprio ho-mem. Há no homem um desejo de destruição e de manter o domínio sobre o seu semelhante (competição constante, estado de guerra). Por isso, torna-se necessário existir um poder que esteja acima das pessoas individualmente para que o estado de guerra seja controlado, isto é, para que o instinto destrutivo do homem seja dominado. Neste sentido, o Estado surge como forma de controlar os "instintos de lobo" que existem no ser humano e, assim, garantir a preservação da vida das pessoas. Para que isso aconteça, é necessário que o soberano tenha amplos poderes sobre os súditos. Os cidadãos devem transferir o seu poder ao governante, que irá agir como soberano absoluto a fim de manter a ordem.

Locke (1632-1704) parte do princípio de que o Estado existe não porque o homem é o lobo do homem, mas em função da necessidade de existir uma instância acima do julgamen-to parcial de cada cidadão, de acordo com os seus interesses. Os cidadãos livremente esco-lhem o seu governante, delegando-lhe poder para conduzir o Estado, a fim de garantir os direitos essenciais expressos no pacto social. O Estado deve preservar o direito à liberdade e à propriedade privada. As leis devem ser expressão da vontade da assembléia e não fruto da vontade de um soberano. Locke é um opositor ferrenho da tirania e do absolutismo, colocan-do-se contra toda tese que defenda a idéia de um poder inato dos governantes, ou seja, de pessoas que já nascem com o poder (por exemplo, a monarquia).

Rousseau (1712-1778) considera que o ser humano é essencialmente bom, porém, a sociedade o corrompe. Ele considera que o povo tem a soberania. Daí, conclui que todo o

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em nome do povo. Rousseau defende que o Estado se origina de um pacto formado entre os cidadãos livres que renunciam à sua vontade individual para garantir a realização da vontade geral.Contudo, posteriormente houve grandes críticas ao pensamento de Rousseau.

Uma delas diz respeito ao que ele entende por povo, que nada mais é que modelo "ideal" de sociedade (sociedade burguesa), que desconsidera que a sociedade "real" é feita por si só de diferenças e conflitos. Para ele o Estado deve moldar a sociedade em nome de um modelo ideal, abrindo espaço para o uso da força em nome de um bem comum.

2 - Teoria Marxista

Relaciona a existência do Estado às contradições das classes sociais existentes na sociedade. Assim, em vez do Estado imanente e superior, acima dos homens, Marx apresenta-o capresenta-omapresenta-o um merapresenta-o instrumentapresenta-o da classe dapresenta-ominante. A gênese dapresenta-o Estadapresenta-o reside papresenta-ortantapresenta-o na divisão da sociedade em classes, sendo sua principal função conservar e reproduzir esta divisão, garantindo os interesses da classe que domina as outras classes.

Esta descoberta de Marx, alterou significativamente as relações sociais, em decorrência das diversas inferências que a classe trabalhadora pôde daí extrair, principalmente no sentido de estimular a luta pela superação das contradições internas da sociedade, assumindo uma posição de nova classe dominante, extinguindo-se assim a sociedade de classes.

3 - O Estado Ampliado De Gramsci

Gramsci desenvolve uma visão mais elaborada e complexa sobre a sociedade e o Estado. Para ele o Estado é força e consenso. Ou seja, apesar de estar a serviço de uma classe dominante ele não se mantém apenas pela força e pela coerção legal; sua dominação é bem mais sutil e eficaz. Através de diversos meios e sistemas, inclusive e principalmente, através de entidades que aparentemente estão fora da estrutura estatal coercitiva, o Estado se mantém e se reproduz como instrumento de uma classe, também construindo o consenso no seio da sociedade. Assim Gramsci amplia a visão marxiana do Estado, interpretando-o como um ser que a tudo envolve, o qual é composto pela sociedade política e a sociedade civil.

Dessa forma o Estado se compõe de dois segmentos distintos, porém atuando com o mesmo objetivo, que é o de manter e reproduzir a dominação da classe hegemônica: a sociedade política (Estado em sentido restrito ou Estado - coerção) a qual é formada pelos mecanismos que garantam o monopólio da força pela classe dominante (burocracia executiva e policial-militar) e a sociedade civil, formada pelo conjunto das organizações responsáveis pela elaboração e difusão das ideologias, composta pelo sistema escolar, Igreja, sindicatos, partidos políticos, organizações profissionais, organizações culturais (revistas, jornais, meios de comunicação de massa, etc).

Percebe-se aqui, que aquilo que os clássicos vinham tentado interpretar e explicar como Estado, é apenas a sociedade política do Estado gramsciano. A sociedade civil representa o novo momento teórico, a nova determinação descoberta por Gramsci. Ou seja, até Marx, se imaginava o Estado como algo distinto da sociedade civil, que deveria ser extinto no momento que se extinguisse a divisão de classes dentro da sociedade, uma vez que era esta divisão que produzia a necessidade de se ter um Estado. Percebe-se a

(19)

Em Gramsci porém, quando ele agrega também a sociedade civil ao Estado-coerção, nada fica de fora do Estado. Este "todo" entretanto não é homogêneo, é rico em contradições e é mantido por um certo "tecido hegemônico" que a cada momento histórico é criado e recriado em um processo constante de renovação dialética.

SISTEMATIZANDO: DUAS FORMAS DE PENSAR O ESTADO

O que é o Estado? Quais são as principais teorias sobre o Estado. Por um lado, o Estado pode ser visto como um instituição criada pela sociedade para a realização do bem comum. Por outro lado, pode ser entendido como um instrumento do qual um grupo ou classe social se serve para dominar outros grupos ou classes.

Visão positiva

A concepção que se tem da visão positiva do estado é ora como agente distinto, superior, tutor e independente da sociedade, ora como guradião das regras do jogo ou árbitro acima dos conflitos, responsável pela manutenção da ordem, da segurança, do bem estar comum, da justiça social e do consenso geral.

Visão Negativa

A concepção que se tem da visão negativa do estado é de ele ser um poder político repressivo e autoritário inserida numa sociedade dividida em relações sociais conflitivas, impondo-se como instrumento que reflete determinado modo de produção econômica materializando as pretensões particulares de uma classe dominante exploradora.

DIFERENÇA ENTRE GOVERNO E ESTADO

Os governos são formados por pessoas que são eleitas (existem governos não eleitos como foram os sucessivos governos militares entre os anos de 1964 e 1984 no Brasil) para administrarem o Estado com uma proposta política. O Estado Moderno surge durante os processos revolucionários dos séculos XVII e XVIII. Alvo de polêmicas constantes dentro do pensamento filosófico e sociológico, vai-se consubstanciar em um complexo de leis, instituições, os três poderes - legislativo, executivo e judiciário - sendo também representado pela idéia de nação com um território com fronteiras, idioma, moeda e cultura.

O governo não é o Estado; ele é o conjunto de propostas políticas que determinado grupo de pessoas, organizadas nos partidos políticos, vai executar quando está administrando o Estado. As propostas políticas são realizadas vias os programas assistenciais, educacionais, econômicos.

(20)

TEXTO 2 _______________________________________________

Texto retirado de:

Revista Poli - Saúde Educação e Trabalho. Nº 17 - mai/jun 2011 Página 25

ESTADO

Diz-se o tempo todo que direitos como saúde e educação são deveres do Estado, garantidos pela Constituição brasileira. Exige-se ainda que diversos problemas da população, a exemplo da segurança pública e da habitação, sejam objetos de políticas de Estado, e não apenas ações de governos. Mas, afinal, qual a diferença?

Não há uma resposta única: de acordo com o Mauro Iasi, professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o conceito de Estado varia de acordo com as concepções de política e sociedade que compõem as diferentes correntes de pensamento. "Existe o pensamento contratualista, por exemplo, que compreende o Estado como uma força colocada acima da sociedade e que teria surgido porque, sem a existência de normas e de um poder capaz de manter a sociedade, ela se tornaria uma terra de todos contra todos - o chamado 'estado de natureza'. Essa é a posição de Thomas Hobbes, um autor clássico da política, entre outros. E é também a posição que fundamenta o pensamento liberal", explica.

Esse poder soberano teria, assim, o direito de impor as normas e também de punir quem não as cumpra, de modo a manter um 'estado civil' em vez do estado de natureza. E, segundo Iasi, a legitimidade desse Estado é afiançada na medida em que ele garanta aos membros da sociedade os seus 'direitos naturais': "Trata-se do direito à vida e à integridade, à liberdade, à igualdade e, especificamente a partir do liberalismo, o direito à propriedade, que é também transformado em direito natural", enumera.

A professora Sonia Mendonça, do programa de pós-graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), observa ainda outra característica importante da visão clássica-liberal: ela vê tanto o Estado quanto a sociedade como somatórios de indivíduos e desconsidera a existência de classes sociais. Dessa forma, não admite os conflitos de classe. "Para essa visão, a sociedade não é formada por grupos de indivíduos inseridos em um processo deprodução, mas sim por indivíduos autônomos, que têm livre arbítrio. Trata-se de uma matriz conveniente, porque esvazia o potencial de conflitividade que existe no mundo social real. E o Estado se legitima o tempo todo, já que a sociedade 'precisa' dele para se preservar", diz.

Onde entram as classes?

A visão liberal é contestada pela posição marxista do Estado, que questiona se ele é mesmo algo acima e fora da sociedade. "O marxismo defende que o Estado é, na verdade, um produto do desenvolvimento da própria sociedade, num momento histórico em

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que ela se divide por interesses antagônicos - esses interesses, por sua vez, são a base da existência das classes sociais. Para o marxismo, o Estado é produto desse antagononismo inconciliável entre classes", afirma Iasi.

Ele explica: o desenvolvimento da propriedade privada e da apropriação da riqueza por apenas parte da sociedade, e não por todos, gera uma contradição. "Essa contradição exige um corpo armado especial que se imponha à sociedade. Por isso, para o marxismo, o Estado é sempre o Estado de uma classe social - nas palavras de Marx, o Estado de uma classe economicamente dominante que, graças a ele, se torna também politicamente dominante", diz. Outra novidade da leitura marxista, segundo Sonia Mendonça, é a ideia de que não existe a tal dicotomia entre estado de natureza e estado civil vista pela corrente clássica-liberal. "Marx diz que não existe estado de natureza, porque a sociedade sempre se organizou a partir das formas de produção dos homens. A partir daí é que se caminha para uma compreensão da sociedade e do Estado como sendo interrelacionados", conclui.

Desdobramentos

De acordo com Iasi, uma das linhas questionadoras da teoria marxista é a socialdemocracia, que relativizou o caráter de classes sociais. Um dos pressupostos de Marx é o de que, como o Estado é de uma classe dominante, ele não pode ser simplesmente reformado pela sociedade. "O que pode acontecer é, em um processo de mudança social, a classe revolucionária derrubar esse Estado e construir um novo, como propôs Lênin, dirigente da revolução russa, que visou à constituição de um Estado proletário. Entretanto, a social-democracia prega que essa ruptura e destruição não são necessárias, pois é possível que o Estado mude de qualidade, dependendo da correlação de forças na sociedade. Trata-se, portanto, de uma linha reformista", explica o professor.

Quem também discutiu a concepção de Estado de Marx, mas por dentro do campo marxista, foi o filósofo italiano Antonio Gramsci. "Embora Marx tenha desmontado a noção de estado de natureza, desfazendo a dicotomia entre estado de natureza e estado civil, e embora considerasse que o Estado era produto da sociedade e fizesse parte dela, sua visão ainda era um pouco dicotômica: havia uma separação entre sociedade civil e o Estado, mesmo que eles estivessem interrelacionados", diz Sonia.

Gramsci compreendeu que o Estado capitalista do século XX era muito mais complexo e deveria ser entendido em outros termos, ainda que mantivesse seu caráter de classe. Assim, o autor desenvolveu uma teoria ampliada do Estado, em que, como explica Sonia, "não há separação efetiva - a não ser para fins didáticos - entre a sociedade civil e o Estado restrito, que é aquilo que chamamos de Estado mesmo". "O Estado restrito só funciona na exata medida em que a própria sociedade civil se constitui e se move. E qualquer mudança na correlação de forças da sociedade civil gera mudanças no Estado restrito", completa a professora. De acordo com ela, essa visão é interessante porque atribui à sociedade civil uma capacidade de atuação política maior.

Mas uma observação é necessária: "Gramsci só considera como verdadeira sociedade civil os homens que se encontram nela organizados, produzindo seus próprios projetos de transformação. Os que não estão organizados são chamados homens-massa - não num sentido

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pejorativo, mas no sentido de que são enfraquecidos politicamente. Eles não fazem parte do Estado ampliado", diz Sonia. E os meios que a sociedade tem para organizar a vontade coletiva são os chamados aparelhos privados de hegemonia. "Podem ser clubes, associações de moradores, imprensa, partidos políticos e outras formas de organização", explica. (para saber mais sobre esse tema, veja o verbete Hegemonia no Dicionário da Poli nº11). Sonia explica que, num momento de maior complexidade do Estado capitalista, há mais aparelhos privados de hegemonia e é cada vez mais difícil fazer uma revolução tradicional, nos moldes da revolução russa. "Isso porque as classes dominantes têm mais facilidade de criar e manter seus aparelhos de hegemonia, já que têm mais recursos e até mais tempo. Esses aparelhos das classes dominantes organizam a vontade coletiva e elaboram projetos que se tornam consensuais - inclusive aos dominados. A saída, para Gramsci, é justamente que as classes dominadas e suas várias frações se organizem também em aparelhos. A revolução viria daí", explica. Assim, Gramsci não só desenvolveu uma nova concepção de Estado como também uma nova visão de vias de transformação social.

Estado e governo

O Estado é um conceito. Na prática, segundo Iasi, ele se materializa em um conjunto de instituições que englobam "o poder executivo, o legislativo, os elementos do judiciário, as forças armadas". "Os governos são os homens que ocupam as funções do Estado momentaneamente", completa Sonia.

De acordo com a professora, mesmo que as classes dominadas não estejam presentes nos governos, é preciso que sejam feitas concessões a elas, para manter a legitimidade: "Qual foi a primeira coisa que Getúlio Vargas criou após o golpe de 1930? O Ministério do Trabalho. Porque já havia um problema grave de movimentos grevistas, com contestações da classe operária o tempo todo", exemplifica.

Para Iasi, é preciso tomar cuidado com a ilusão de que o controle do governo geraria, por si só, o controle do Estado. "O Estado tem determinações mais profundas, está ligado às classes econômica, política e ideologicamente dominantes. Se, num Estado capitalista, a correlação de forças na sociedade permite que um grupo de orientação socialista ou popular chegue ao poder do governo, ainda assim ele estará constrangido pelo poder econômico e pela hegemonia político-ideológica que se mantém na sociedade. Chegando ao governo, terá que desenvolver políticas que respondam à ordem capitalista e sejam pautadas e constrangidas por ela. O cientista político Adam Przeworski diz: a social-democracia percebeu, na sua experiência histórica, que estar no governo confere muito pouco poder. Isso porque qualquer Estado capitalista é dependente, em última instancia, do capitalismo", afirma Iasi.

É por isso que, segundo o professor, as políticas de Estado, embora importantes, acabam respondendo à lógica da forma societária em que se encontram. "A correlação de forças pode produzir políticas que atendam a interesses da classe trabalhadora, como de fato aconteceu na história. Houve regulação da jornada de trabalho, das férias e dos salários, por exemplo. Essas trincheiras são, sem dúvida, importantes. Mas elas são sempre constrangidas pela perpetuação ou não das formas econômicas de propriedade e de acúmulo de riqueza próprias do capitalismo", diz. Ele salienta ainda que, durante muito tempo, se acreditou que esses direitos conquistados, uma vez acumulados, não seriam perdidos. "A conjuntura atual tem mostrado o inverso. Há vários pontos, mesmo no centro do sistema, como na Europa e nos EUA, em que patamares de direitos alcançados nos últimos períodos históricos estão hoje em franco regresso", observa.

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TEXTO 3______________________________________________

EMENDA CONSTITUCIONAL GARANTE PISO SALARIAL PARA

AGENTES COMUNITÁRIOS DE SAÚDE

Postedo em 8 de fevereiro de 2010

Os agentes comunitários de saúde (ACS) são profissionais peculiares, que trabalham fazendo a ponte entre a população e o Sistema Único de Saúde (SUS). A profissão surgiu na década de 80, em alguns municípios e estados brasileiros, sendo depois expandida para o país inteiro através do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). Com a PARA PENSAR...

• Vovê vê o sus como programa de governo ou como política pública?

• Reflita: quando se pensa num direito como o de saúde, quantos interesses podem estar em jogo na tensão entre as diversas classes e grupos políticos.

• Dentre as diversas concepções de estado colocadas no texto, como se articularia em cada uma delas a luta por direitos sociais?

• Reflita sobre a contradição entre a luta pelo direito universal de saúde e a co-existência com um estado capitalista?

• Que direcionalidades podemos vislumbrar neste cenário na luta pelo direito a saúde?

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incorporaçãode médicos e outros profissionais de saúde às equipes, o PACS deu origem ao Programa Saúde da Família (PSF), que hoje atende a mais da metade da população brasileira, e se tornou a estratégia prioritária para a organização da atenção básica à saúde no Brasil. (Leia também minha explicação sobre o que é a estratégia Saúde da Família.) Certamente os ACS têm sido uma das experiências mais inovadoras do SUS, e agora com o piso salarial eles vão abrir ainda mais um precedente.

Como o ACS têm que morar no local em quem trabalham, foi necessário criar uma Emenda Constitucional (a EC 51) para regularizar a profissão. A regulamentação da EC 51, ou seja, a lei que diz como a Emenda Constitucional será aplicada, é a Lei nº 11.350, de 5 de outubro de 2006. Dia 4 de fevereiro de 2010 os ACS foram motivo de mais uma Emenda Constitucional, a EC 63, que atribui à União o poder de decidir o piso salarial e o plano de carreira dos ACS e dos agentes de controle de endemia (ACE), mesmo eles sendo contratados pelos municípios.

Paralelamente já tramitava o Projeto de Lei do Senado nº 196/09, que altera a Lei nº 11.350 de forma a exigir nível médio (2º grau) para os novos ACS e ACE, e a estabelecer o piso salarial nacional de R$ 930,00 para ambos. Esse Projeto de Lei não especifica se ou como será corrigido esse valor ao longo do tempo, e não contempla a questão do plano de carreira, previsto na Emenda Constitucional. O PLS nº 196/09 já foi aprovado pelo Senado, e agora tramita na Câmara dos Deputados. Se for aprovado sem alterações, deverá ainda ser sanci-onado pelo Presidente da República, e então poderá entrar em vigor.

Não é pouco dinheiro. De acordo com a Confederação Nacional de Municípios (CNM), se o projeto de lei for aprovado como está, as despesas anuais dos municípios com os ACS aumentarão em quase R$ 1 bilhão (como a nota fala em 238 mil agentes, presumo que esteja referindo-se apenas à remuneração dos ACS). A entidade se queixa de que mais uma vez, o Congresso aprovou uma proposta sem indicar a fonte dos recursos, mas na verdade a Emenda Constitucional não especifica o valor; quem o faz é o Projeto de Lei, que na sua versão atual também diz: A União deverá efetuar, por meio de recursos de seu orçamento, repasse financeiro [...] a fim de garantir o piso mínimo de vencimento [...].

Atualmente o Ministério da Saúde já tem um repasse aos municípios que é proporcional ao número de ACS, mas quando o repasse per capita aumenta o município não é obrigado a aumentar o salário dos ACS.

Reflita sobre quais interesses e impasses podem estar em jogo numa questão como a apresentada pelo texto.

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TEXTO 4 _______________________________________________

Texto retirado de:

Revista Poli - Saúde Educação e Trabalho. Nº 6 - jul/ago 2009 Página 25

TERRITORIZAÇÃO EM SAÚDE

Todos "os grandes princípios do Sistema Único de Saúde têm um reflexo no território". A afirmação de Christovam Barcellos, geógrafo e pesquisador do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), evidencia a importância da compreensão do conceito de território para que se consiga fazer, na prática, aquilo que as políticas de saúde vêm preconizando: segundo Barcellos, universalização, descentralização e integralidade estão diretamente relacionados à ideia de território.

Antes de entender essa relação, é preciso responder à pergunta: afinal, o que significa território? Uma porção de terra demarcada legalmente; a extensão de um país, estado ou município; um local habitado e organizado pelo homem; um espaço delimitado por animais; uma área subordinada ao poder de determinada autoridade? Não existe uma acepção única, tampouco uma definição que seja isenta de críticas. Mas a tendência é que os estudiosos da área de saúde passem cada vez mais a entender o território para além da delimitação por fronteiras físicas: no Dicionário da Educação Profissional em Saúde, editado pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/ Fiocruz), Maurício Monken e Grácia Maria Gondim, pesquisadores da EPSJV, explicam que os territórios são estabelecidos por e a partir de relações de poder, e que "quando coexistem em um mesmo espaço várias relações de poder, dá-se o nome de 'territorialidades', de modo que uma área que abriga várias territorialidades pode ser considerada vários territórios".

Assim, um único bairro ou município pode ser composto por diferentes territórios, de acordo com os 'poderes' que ali existem: "O presidente de um país, um governador e um prefeito são responsáveis por territórios. Mas também uma equipe de saúde da família e um agente comunitário de saúde são responsáveis por outros territórios, ouvindo a população, outras organizações e reforçando os poderes locais nessa gestão", exemplifica Barcellos.

Há, portanto, territórios em diferentes escalas, e nem sempre é fácil reconhecê-los. Uma coisa é ter limites mais ou menos estáveis e claramente demarcados, como as fronteiras de um país ou de um estado - mas, como lembra Maurício Monken, nem sempre é dessa forma: a maior parte dos territórios não estão estabelecidos nos mapas. "Muitas vezes, eles obedecem a limites não muito objetivos, como cultura ou características socioeconômicas. Exemplo disso é quando, em um bairro, há territórios em que não entram pessoas de determinado nível social. Mesmo que não haja uma barreira física, existe uma fronteira cultural, que nem sempre é óbvia", diz o pesquisador.

Para Ricardo Ceccim, professor do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), outra questão que dificulta o reconhecimento de territórios é a sua instabilidade: "Território é configuração - de táticas, de estratégias, de pensamentos. É sempre um 'estar', atravessado por variados interesses, como questões políticas, culturais e redes de conversação. O território nunca é totalmente fixo. Ele é maleável, configurado,

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desconfigurado e re-configurado o tempo todo", explica. Esses processos, chamados territorialização, desterritorialização e reterritorialização, são, segundo Grácia, cada vez mais comuns num contexto de globalização. "Uma empresa transnacional, que põe sua marca em determinado território, constrói fábricas, gera empregos, muda o local. Se vai à falência ou simplesmente fecha uma filial, há uma desterritorialização. Isso também é comum quando, para construir usinas hidrelétricas, é preciso inundar uma área e os moradores da região precisam se reterritorializar em outro espaço", exemplifica a pesquisadora.

Quando se reconhece que o ambiente interfere na saúde, torna- se fundamental entender o espaço e pensar políticas públicas que levem em conta essas ideias. "É preciso usar o espaço do território e localizar os elementos que podem produzir saúde ou doença", diz Grácia.

O BRASIL E A TERRITORIZAÇÃO EM SAÚDE

Como afirma Barcellos, o SUS tem estreitas ligações com o território. No Dicionário, Maurício Monken e Grácia Gondim explicam que o sistema local de saúde brasileiro redesenhou suas bases territoriais "para assegurar a universalidade do acesso, a integralidade do cuidado e a equidade da atenção". A territorialidade, segundo os autores, se coloca como "uma metodologia capaz de operar mudanças no modelo assistencial e nas práticas sanitárias vigentes". De acordo com Barcellos, o conceito sempre é importante em países que pretendam ter um sistema de saúde baseado nesses princípios. "Para viabilizar a universalização, delimitam-se áreas com unidades básicas de saúde, que encaminham para hospitais de referência quando há casos mais complicados - o que também demanda a descentralização. Além disso, a divisão em Pequenos territórios possibilita a integração de ações: o saneamento básico, o controle de vetores, a construção de áreas de lazer são planejados nesses espaços", afirma.

A preocupação em relacionar saúde e território começou a se consolidar no Brasil nos anos 1980. Nessa época, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) propôs uma estratégia de organização baseada no conceito de território - eram os Sistemas Locais de Saúde (Silos), tendo como foco a municipalização. O Brasil elaborou essa proposta a partir de uma releitura, pensando na divisão de espaços em distritos sanitários: "Estabelecemos uma divisão não em municípios, mas em uma perspectiva de regionalização. Tínhamos como base o conceito de vigilância em saúde, levando em conta a ideia de que a saúde é socialmente produzida", lembra Eugênio Vilaça, que, na época, coordenava a área de serviços de saúde da Opas. De acordo com ele, alguns projetos piloto foram implantados no Brasil para colocar a proposta em prática: Curitiba, Fortaleza e Belo Horizonte foram divididas em distritos sanitários a partir dos quais era possível organizar a atenção primária à saúde e montar os fluxos.

Mas, quando a Constituição de 1988 foi promulgada e o SUS foi instituído, a municipalização foi uma das diretrizes estabelecidas. Na opinião de Vilaça, essa não é a configuração ideal: "Ainda que tenha conseguido aumentar a oferta de serviços, ela traz um grave problema devido à falta de escala: 75% dos nossos municípios têm menos de 20 mil habitantes. Não dá para organizar uma rede em cada um deles, uma vez que é inviável ter hospitais, laboratórios e centros de especialidades médicas em cidades muito pequenas. A municipalização encheu o país de pequenos hospitais e laboratórios, que são muito caros e ineficientes", critica. Para ele, uma solução é pensar em sistemas microrregionais de saúde. Nesses sistemas, todos os municípios pequenos devem oferecer atenção primária, mas a média e alta complexidade devem ficar a cargo de municípios próximos, que Sejam maiores e atendam a todos os integrantes do sistema.

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Para Ceccim, no entanto, existe ainda um outro problema: apesar de haver delimitações espaciais a serem levadas em conta nas políticas públicas, outros fatores são importantes. Ele acredita que, como os territórios são maleáveis, é necessário observar a forma com que os movimentos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização ocorrem e as conseqüências que geram, para que se possa, assim, pensar políticas que melhorem a qualidade de vida da população. E, na opinião do pesquisador, essa ainda é uma deficiência da saúde no Brasil. "A saúde hoje ainda pensa o território principalmente como uma questão de delimitação espacial. Fala-se em áreas de inscrição e áreas de adscrição, por exemplo, na hora de direcionar as políticas. Na verdade, elas são inscritas em regiões que se consegue desenhar no mapa, mas é interessante pensar um território cuja cartografia seja móvel", critica. Grácia Gondim completa: "Além dos limites - mesmo imaginários - dos territórios, há também os poderes. É importante compreender que a saúde tem um poder, mas que há outros envolvidos, como o das associações. Isso possibilita o fortalecimento da comunidade", diz.

TERRITÓRIO NA FORMAÇÃO

Para que a territorialização seja concebida de forma ampla, é preciso que esse conceito esteja presente também na formação dos profissionais de saúde. "É necessário mostrar ao estudante que todo local de atuação tem um componente de cultura e práticas sociais, para que ele reconheça que as pessoas que ali habitam não são apenas marcadores das políticas de treinamentos, não são apenas um certo número de hipertensos, diabéticos, bebês ou gestantes", defende Christovam Barcellos, explicando: "Crianças, por exemplo, estudam em escolas e interagem com outras. Então, elas não são apenas uma faixa etária, mas, sim, redes de conexões. Se, ao longo do processo de formação, conseguirmos trabalhar com o estudante uma exposição forte ao componente da cultura, das linguagens, da subjetivação, podemos começar a pensar um território mais vivo do que apenas ruas, casas e prédios".

Grácia acredita que, embora a formulação de políticas públicas como a Estratégia Saúde da Família levem o território em consideração, essa formação ampla ainda não é uma comum. Mas existem experiências positivas: de acordo com a pesquisadora, o território tem sido trabalhado com profissionais de nível superior, por meio de especializações em saúde da família; o Programa de Formação de Agentes Locais de Vigilância em Saúde (Proformar), que ofereceu cursos entre 2003 e 2006, também tinha essa preocupação. Segundo Maurício Monken, a vigilância em saúde é justamente a área que mais se apropria do conceito de território. "Ela trabalha em cima do planejamento estratégico, com o conceito de saúde ampliada, estudando determinantes sociais da saúde. Todas as ações, teoricamente, devem partir dessa compreensão", explica.

SAIBA MAIS

• A natureza do espaço, de Milton Santos - Eduff, 2006

• O território e o processo saúdedoença, organizado por Angélica Fonseca e Anamaria Corbo -editado pela EPSJV/Fiocruz, em 2006

• Saúde Movimento - A geografia e o contexto dos problemas de saúde, organizado por Christovam Barcellos - Editora Abrasco em 2008

• Território, ambiente e saúde, organizado por Ary Carvalho de Miranda, Christovam Barcellos, Josino Costa Moreira, Maurício Monken - Editora Fiocruz, 2008.

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PARA PENSAR...

• Tente elaborar critérios e parâmetros diversos (locomoção, afetos, redes sociais de internet, identidades) para perceber formas variadas de se conceber seu território?

• Reflita: de que forma a mudança destes parâmetros influenciaria no trabalho do acs?

• Como pensar em estratégias de acesso aos serviços da unidade para cada configuração pensada? • Reflita sobre como o acolhimento das famílias pode levar em consideração o território como vivo e em constante mudança?

TEXTO 5 _______________________________________________

MAS O QUE É TERRITÓRIO ?

Para Marcelo Souza (1995), o conceito de território tanto deve ser entendido no sentido do território nacional, como do ponto de vista de uma delimitação de um espaço a partir de relações de poder e de controle que um grupo exerce sobre este. O território não deve ser tomado somente em relação ao Estado. Pode e deve ser pensado numa escala menor, como: a rua, o bairro, a casa, a cidade; ou mesmo numa escala internacional, como: a área formada pelo conjunto dos territórios de países membros de uma organização. Um elemento importante para pensar o território é o controle do espaço. Como o controle é obtido, aí é outra conversa. Que tal buscar a resposta para isto? Quem controla os territórios de algumas favelas do Rio de Janeiro? Como esse grupo faz esse controle?

Um outro elemento importante para pensar o território é sua duração. Para Marcelo Souza, estes podem ter escalas temporais diferentes: séculos, décadas, anos, meses ou dias. Assim, os territórios podem ter um caráter permanente, mas também podem ter uma existência periódica (SOUZA, 1995, p.81), durante o dia, controlado por um grupo, à noite, por outro. Nas grandes cidades encontramos com mais freqüência este tipo de território, as "territorialidades flexíveis", que se alteram. Como exemplo disso, pode-se citar os territórios da prostituição feminina ou masculina (prostitutas, travestis, michês), que dominam uma certa porção da cidade à noite, cedendo lugar durante o dia para o comérciode rua, como feiras livres e camelôs.

Outro aspecto bem ligado ao território é a disputa do mesmo por grupos concorrentes para expandir sua área de influência. Por exemplo: travestis que invadem a área das prostitutas; feirantes que passam a vender os mesmos tipos de mercadorias que os camelôs e vice-versa, disputando os clientes. Dessa forma a cidade fragmenta-se em diferentes territórios nos quais o espaço das convivências fica restrito, especializado.

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Para Matos e Ribeiros (2005, p.89), "a cidade se fragmenta em diversas territorialidades de excluídos pela sociedade, formando um verdadeiro "caleidoscópio", onde coexistem diferentes territórios. Entre eles, os de catadores de papel, dos sem-teto, das crianças de rua, dos guardadores de carro, conhecidos como "flanelinhas". São, na maioria das vezes, territórios superpostos com os da prostituição e constituem verdadeiros "territórios do medo", em decorrência da violência praticada pelos diversos grupos neles atuantes, bem como da ação da polícia".

Mas estas muitas divisões, em diferentes áreas de controle, são importantes para cada um dos grupos ou tribos urbanas, pois o território é a base para a afirmação do seu poder sobre aquele espaço, é o que vai permitir e definir até onde podem ter a postura social que dá identidade ao grupo, ou seja, o que marca o grupo. Fora daquele território, manter a mesma postura pode gerar problemas, pois provavelmente estará invadindo território de outro grupo.

Um grupo que deixa claro onde está seu território são os pichadores, que, para alguns pesquisadores, compõem uma tribo urbana. Estes grupos buscam demarcar e consolidar o território frente aos adversários. Para isto utilizam-se de uma simbologia própria e, muitas vezes, é apenas reconhecível pelos outros pichadores. Você consegue decifrar tudo o que picham por aí?

Nas palavras de José Renato Masson (2005), "as pichações caracterizam formas de expressão que possuem dupla significação, dependendo do olhar". Elas representam uma forma de comunicação que, além de transmitir informações, demarcam o território e poder, mas também podem ser compreendidas como formas de escandalizar,"zoeira, só bagunça".

Outra questão ligada aos pichadores, que tem um caráter duplo, é em relação ao reconhecimento do ato. Para o Estado e seus instrumentos de repressão (mais conhecido por polícia), o pichador não quer ser reconhecido, mas perante o grupo de pichadores, este busca o reconhecimento de seu ato.

Outro tipo de territorialidade extremamente importante em relação ao domínio do es-paço é o praticado pelo tráfico de drogas. A cidade do Rio de Janeiro, quando se fala em tráfico de droga, é a mais divulgada pela mídia, mas a ação dos traficantes traçando seus territórios, infelizmente, não ocorre só no Rio de Janeiro.

Pesquisador da Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ), Helio de Araujo Evangelista, aponta que a origem do tráfico de drogas no Rio de Janeiro está ligada ao fato de a cidade ser passagem da droga a ser enviada para os Estados Unidos da América e Europa e ao "jogo do Bicho". A relação com o jogo do bicho será explicada, mas, antes, você precisa responder o que o Rio de Janeiro tem que o fez um local de envio de droga para fora do país?

Segundo Helio de Araujo Evangelista, em entrevista para a revista Momento - UFF/RJ, o "jogo do bicho" é um jogo ilegal, uma contravenção e quem o pratica está desobedecendo a lei 3.688, de 1941. Mas, apesar da proibição, continuou a ser praticado. Os bicheiros, que há muitos anos agiam na ilegalidade, já tinham a "manha" de como trabalhar tranqüilo fora da lei.

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Por volta de 1970, o tráfico de droga já ganhava muito dinheiro no Rio de Janeiro. Os bicheiros desenvolveram conhecimento sobre como atuar na ilegalidade e ofereceram sua rede de contatos aos traficantes. Em troca participavam dos lucros da nova "economia". Esta relação foi mantida até 1990, aproximadamente, quando os bicheiros passaram a ser enqua-drados na lei. Mas o fim desta relação permitiu que aparecessem outras ligações ou lideran-ças chamadas comandos ou facções. Você já ouviu falar destes grupos? Qual é o objetivo deles? Como controlam o território?

Os conflitos são muitos entre os grupos rivais e sempre com o objetivo de manter o território ou de expandi-lo. Esta disputa por mais territórios é vista em todos os grupos urbanos (as tribos urbanas, os pichadores, a prostituição masculina ou feminina, etc.), mas geralmente não é violenta.

O território do tráfico de drogas não se limita a algumas partes da cidade. As zonas de fronteira entre países também são territorializadas entre os traficantes e produtores de droga. O tráfico, nas últimas décadas, segue modelos empresariais de atuação. Segundo o pesquisador Dalcy Fontanive (In: ARCHONTAKIS e BRAGA, 2004), "Ele está armado das tecnologias e conhecimentos que toda empresa e toda grande organização precisam para se manterem". Que conhecimentos são estes que as empresas devem ter para se manterem?

A população dos bairros, vilas ou favelas que compõe o território do tráfico, muito freqüentemente, sofre com a falta de infra-estrutura, como: escolas, água encanada, energia elétrica, etc. Esta ausência do Estado permitiu ao traficante uma relação de ajuda a esta população. O que o Estado não faz os traficantes fazem. Assim, estes ajudavam os moradores e os moradores "não os viam". Mas esta relação tem se alterado nos últimos anos. O silêncio dos moradores tem sido obtido pelo medo.

Como a idéia de tráfico de drogas está muito ligada à cidade do Rio de Janeiro, a favela também sofre do mesmo preconceito. É preciso lembrar que nenhum destes espaços é território exclusivo do tráfico, ou seja, estes espaços não são dominados em sua totalidade pelo tráfico, nem o tráfico ocorre somente nestes espaços.

O termo "favela" surgiu para identificar uma forma de habitação popular construída nas encostas do Rio de Janeiro, ainda no final do século XIX, por uma população majoritariamente composta de ex-escravos que antes viviam nos cortiços existentes em áreas ao redor do centro da cidade. Originalmente, a palavra favela foi utilizada como apelido do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, que começou a ser ocupado para moradia por ex-combatentes da Guerra de Canudos, que teriam trazido da campanha uma planta chamada "favella", muito comum em Canudos.

Hoje elas estão presentes nas maiores e nas menores cidades do Brasil. Para o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), o conceito adotado para favela é um aglomerado "sub-normal", constituído por um mínimo de 51 domicílios, que ocupa terreno de propriedade alheia e as construções ou arruamento estão dispostos de forma desordenada e bastante próximo (áreas adensadas), além da carência de serviços públicos essenciais. As favelas são áreas de habitações irregulares, pois seus moradores não possuem título de propriedade, a

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PARA PENSAR...

• Tente elaborar critérios e parâmetros diversos (locomoção, afetos, redes sociais de internet, identidades) para perceber formas variadas de se conceber seu território?

• Reflita: de que forma a mudança destes parâmetros influenciaria no trabalho do acs?

• Como pensar em estratégias de acesso aos serviços da unidade para cada configuração pensada? • Reflita sobre como o acolhimento das famílias pode levar em consideração um território vivo e em constante mudança?

TEXTO 6 _______________________________________________

Texto baseado na obra de Bertold Brecht Se os tubarões fossem homens

SE OS TUBARÕES FOSSEM HOMENS

Se os tubarões fossem homens eles seriam mais amáveis com os peixinhos. Certamente. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e tomariam toda espécie de medidas sanitárias. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, lhe fariam imediatamente um curativo, para que não morresse

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antes do tempo. Para que os peixinhos não ficassem melancólicos, haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar. O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista, e avisar imediatamente os tubarões, se um deles mostrasse tais tendências. Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Cada peixinho que na guerra matasse alguns outros, inimigos, que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia um título de herói. Se os tubarões fossem homens, naturalmente haveria também arte entre eles. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores soberbas, e suas goelas como jardim que se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos nadando com entusiasmo para as gargantas dos tubarões. Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa apenas na barriga dos tubarões. Além disso se os tubarões fossem homens também acabaria a idéia de que os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores poderiam inclusive comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles teriam com maior freqüência, bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, construtores de gaiolas, médicos, enfermeiras, ACS, etc. Em suma, só e apenas só, se os tubarões fossem homens, haveria cultura no fundo do mar.

• Que instituições podem ser localizadas no texto? • Como se estabelace as relações de poder no texto?

• Como pensar uma educação para liberdade no mundo apresentado no texto?

• De que forma o mundo apresentado no texto me faz pensar minha realidade junto a comunidade? PARA PENSAR...

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Mudança social,

organização política

e controle social na saúde

TEXTO 1 _______________________________________________

MOVIMENTOS SOCIAIS

Valéria Pilão

APRESENTAÇÃO

Buscaremos compreender aqui quais as características dos mesmos e ainda trataremos de apresentar alguns movimentos que se fazem presentes na história do capitalismo.

Mas por que seria tão importante para a Sociologia a temática dos movimentos sociais? Por que abordar essa discussão e não outra?

Bom, podemos começar a pontuar algumas questões importantes que demonstram a relevância desse tema. Vamos começar discutindo o que querem dizer essas duas palavras

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"movimento" e "social". Pensar todo o desenvolvimento da história da humanidade é pensar todas as transformações que o homem vem produzindo para si mesmo.

Essas transformações estão presentes em todos os âmbitos da vida humana, desde a forma de se comunicar (pense que até o desenvolvimento da palavra e da escrita outras formas de comunicação foram utilizadas, como por exemplo, a pintura na parede das caver-nas até a forma de se alimentar, se vestir, de se organizar socialmente.

Temos, portanto, que a palavra "movimento" nos indica uma série de transformações na vida do homem, e estas garantem que a história seja um movimento que cria novas situações, permitindo que um dia seja diferente do outro.

MAS QUEM REALIZA ESSES MOVIMENTOS?

Essas mudanças, movimentos que acontecem na história são gerados pelos próprios homens que fazem parte da história. Isso quer dizer que todas as alterações que acontecem em nossas vidas são fruto da interferência do próprio homem na mesma.

Isto porque o homem não vive isolado do mundo à sua volta, nós somos seres sociais e, enquanto tais, realizamos as transformações na história de forma social, envolvendo um grupo ou uma classe, mas nunca isoladamente.

Desta forma, já estamos discutindo a segunda palavra: "social". O que ela quer nos dizer? Ela nos traz a idéia de que esses movimentos de transformação que estávamos tratando acima ocorrem junto à sociedade, em situações específicas e em um período específico.

Se agora juntarmos essas duas palavras tem-se que movimento social é a transformação histórica desencadeada pelo homem que vive em sociedade na sua própria história.

Essa afirmação não é incorreta para movimento social. Mas, para a Sociologia essa definição certamente é incompleta. Isso porque, a mesma não explica porquê surgem os movimentos sociais, não nos auxilia a discutirmos sobre o papel que os movimentos sociais cumprem na sociedade contemporânea, não nos ajuda a pensarmos quais são os tipos de movimentos sociais existentes, isso para citar apenas alguns problemas.

O QUE É MOVIMENTO SOCIAL?

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• Por que há pessoas que teimam em se organizar e propor mudanças para a sociedade?

• Você já ouviu falar em movimentossociais, não é? Afinal, o que são os movimentos sociais, e mais, qual a importância deles para nossa vida cotidiana?

Na história contemporânea temos diversos exemplos de formas de organizações coletivas, reivindicando as mais diferentes coisas ou ações caracterizando o que é um movimento social. Como exemplo, citamos o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o Fórum Social Mundial (FSM), o movimento hippie, movimento feminista, o movimento estudantil, o movimento dos sem-teto, o movimento pela "Tradição, Família e Propriedade" (TFP), os movimentos anti-capitalistas, dentre outros. A lista de movimentos sociais existentes é longa, isso pensando apenas nos séculos XX e XXI.

É pelo significado social e político e, ainda, pela quantidade de movimentos sociais existentes que tal tema é de extrema importância para a Sociologia.

Vamos por partes...

É importante dizer que abordaremos a temática dos movimentos sociais sempre pensando na forma de organização social atual em que vivemos. Portanto, estaremos tratando dos movimentos vinculados ao sistema capitalista. Quer dizer, priorizaremos aqueles movimentos sociais que nascem de demandas próprias desta forma de organização social.

As cidades, organizadas na forma que conhecemos hoje, desenvolveram-se a partir do século XII, ligadas às necessidades dos homens medievais de realizarem trocas comerciais. Mas, no entanto, sabendo que durante a Idade Média a forma de organização social dava-se principalmente dentro dos feudos, essas cidades ainda não assumiam a importância que as mesmas possuem numa sociedade industrial.

Com a consolidação do capitalismo a partir do século XVIII, continuou existindo uma separação entre campo e cidade, mas tal distinção não criava um isolamento do campo, ao mesmo tempo em que, o desenvolvimento e o progresso não se restringiam à cidade. Em suma, estamos tratando da importância do rural e do urbano para o desenvolvimento

capitalista, que cria duas realidades diversas, mas que, no entanto, nunca deixam de estar vinculadas e apresentando novas necessidades.

Considerando que a sociedade capitalista tem sua organização e sua dinâmica marcadas pelas disputas e conflitos entre as classes sociais presentes nela, principalmente, entre as duas classes fundamentais, a burguesia e os trabalhadores, boa parte dos movimentos sociais será motivada diretamente, por interesses de classe ou manifestará aspectos daquelas disputas como são os casos dos movimentos sindical, de camponeses, dos sem-teto. Já outros movimentos, como o feminista, os de juventude, o hippie, os ecológicos, podem ou não estar; também, motivados diretamente por "interesses de classe" de seus participantes. Ocorre, muitas vezes,

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de suas razões mais evidentes serem da ordem de outros interesses, como os ligados a lutas contra discriminações de gênero, étnicas, de geração ou culturais.

Assim, na sociedade contemporânea, tanto quem vive nas zonas urbanas, como quem vive nas zonas rurais, organiza-se em torno de seus interesses particulares e forma os mais diversos movimentos sociais.

Não negamos a diferença quanto ao ritmo de vida existente para quem mora no campo e para quem vive na cidade. Por exemplo: quem mora na cidade sempre se assusta, num primeiro momento, com os horários que as pessoas da zona rural acordam, almoçam e jantam, pois, na maioria das vezes, isso ocorre sempre mais cedo, em comparação à vida urbana.

A comparação contrária também é verdadeira: quem sempre morou no campo fica alucinado com o número de pessoas nas ruas, com a quantidade de carros, de prédios e da corrida contra o tempo de quem vive nas cidades.

Diferenças entre o campo e a cidade existem e, certamente vão muito além destes dois exemplos acima, mas há também um elemento que une essas duas formas de vida aparentemente distintas: o fato de que tanto o trabalhador da cidade como o do campo e seus pequenos produtores, para obter a sua sobrevivência,submetem-se às regras e leis da produção de mais-valia. Os primeiros quando vendem sua força de trabalho no mercado, os segundos quando têm a sua produção sujeitada às demandas e obrigações impostas pelas leis de mercado capitalista e da prioridade dos interesses dos capital urbano.

Sendo assim, boa parte dos movimentos sociais que se organizam a partir desta realidade social nasce ou se relaciona, direta ou indiretamente, com questões ligadas à estrutura de classes e aos conflitos de interesses entre as diversas classes e frações de classe. Isto pode ser observado, por exemplo, no movimento feminista, onde demandas pelo fim do machismo estão ao lado de reivindicações pela redução da exploração no trabalho. O mesmo pode ser observado em movimentos como o dos negros no Brasil, onde a luta contra a discriminação por cor da pele está associada a demandas por emprego e escolaridade. Ou, ainda, quando se vê, no movimento social que luta por terra, surgir a organização das mulheres exigindo dos "homens sem-terra" tratamento igualitário dentro da organização do próprio movimento.

Os movimentos caracterizam-se por reivindicações diferentes, mas a idéia do movimento social como forma de organização coletiva é extremamente importante neste sistema, pois é a partir deles que se consegue suprir determinadas necessidades dos mais diversos grupos.

Quando tratamos dos movimentos sociais encontramos diversas características gerais que permeiam a todos eles, uma delas, por exemplo, é o fato de que estes demonstram a possibilidade de atuarem na História de modo a "determinar" como será o seu desenvolvimento. Estamos falando que os indivíduos tornam-se sujeitos históricos quando organizados de forma coletiva e com objetivos em comum, e, portanto, apesar de não terem certezas sobre o futuro do movimento, podem lutar (seja qual for a reivindicação e o projeto) para a inclusão, exclusão ou transformação radical da sociedade.

Referências

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