priscilasoaressilva
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(2) PRISCILA SOARES SILVA. A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA SAÚDE MENTAL: a experiência dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS de Juiz de Fora - MG.. Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Universidade Federal de Juiz de Fora – MG como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Serviço Social, sob orientação da Professora Dra. Carina Berta Moljo.. JUIZ DE FORA - 2012.
(3) Silva, Priscila Soares. A intervenção do assistente social na saúde mental: a experiência dos Centros de Atenção Psicossocial - CAPS de Juiz de Fora - MG / Priscila Soares Silva. – 2012. 137 f. : il.. Dissertação (Mestrado em Serviço Social)-Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2012.. 1. Serviço Social. 2. Saúde Mental. 3. Intervenção. I. Título..
(4) A INTERVENÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA SAÚDE MENTAL: a experiência dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS de Juiz de Fora - MG.. PRISCILA SOARES SILVA Orientadora: Carina Berta Moljo. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Juiz de Fora, como exigência parcial a obtenção do título de Mestre em Serviço Social.. Aprovado em ___/___/___. ______________________________________________ Profª Doutora Yolanda Aparecida Demétrio Guerra. ______________________________________________ Profª Doutora Claudia Mônica dos Santos. ______________________________________________ Profª Doutora Carina Berta Moljo (Orientadora).
(5) À minha madrinha Joana. Ao meu pai Luizmar. Ao grande amor da minha vida, Luiz Guilherme.
(6) AGRADECIMENTOS Quando comecei a escrever meus agradecimentos, percebi que são muitos aqueles a serem agradecidos, e que esse trabalho não é só meu, mas pertence a cada um que de alguma forma, jeito, modo contribuiu para sua materialização. Em primeiro lugar agradeço a Deus. À minha tia, mãe, amiga, madrinha e principal incentivadora, TIA JOANA. Agradeço pela compreensão, pela força, pelas orações, pelo sim na hora certa, pelo não na hora certa, por entender meus silêncios, meus choros, meus desabafos, meus medos, minhas angústias, por sempre querer minha felicidade, por ser para mim um exemplo de garra, força, um exemplo de mulher. Agradeço por saber que sempre havia um colo me esperando quando o caminho se tornava difícil e árido para ser construído e percorrido. Ao meu pai, Luizmar, que ensinou valores os quais carrego por toda a minha vida. Agradeço a Luiz Guilherme, “meu ném”, que sempre foi mais que um namorado, mas que é um amigo, um irmão, um anjo. Muito obrigada por ser muitas vezes meu leitor, meu digitador, meu travesseiro, o lenço nas horas do choro e angústia (que não foram poucas)... Muito obrigada pela paciência desmedida, pelo carinho contínuo, pelo apoio de sempre. Meu companheiro nesta trajetória, que soube compreender, como ninguém, a fase pela qual eu estava passando, e que durante a realização deste trabalho, sempre tentou entender minhas dificuldades e minhas ausências. Agradeço-lhe, carinhosamente, por tudo isto. Agradeço a minha sobrinha e afilhada Giovanna, por entender que eu precisava estudar e não podia brincar, pelo sorriso sincero e pelo abraço apertado, pela esperança que saltava os olhos. Á Carina, pela paciência, confiança, carinho, respeito. Por ter aceitado juntamente comigo esse desafio de desbravar a intervenção do Assistente Social na Saúde Mental. Por acreditar em mim, quando nem eu mais acreditava. Por não desistir de mim.Valeu Carina! Às professoras Claudia Mônica e Yolanda que aceitaram fazer parte desse processo de aprendizado e que contribuíram com suas colocações e proposições. À Beth. Ah Beth! Valeu pelos e-mails relembrando prazos... Ao Darci (Dadá), aos funcionários da biblioteca, da limpeza, enfim aqueles que tornaram mais agradáveis as horas que foram passadas na universidade. Agradeço aos meus colegas de trabalho da Secretaria Municipal de Bem Estar Social de Paraíba do Sul – RJ, por terem compreendido o quanto terminar esse trabalho era importante para mim. Principalmente as minhas mais novas amigas: Lívia e Paula, que me proporcionaram diálogos ricos e momentos de distração e alegria. Meninas nós somos as meninas SUPER PODEROSAS e de vez em quando somos também as TRÊS PATETAS!.
(7) Agradeço aos colegas Assistentes Sociais, que abraçam a luta por uma sociedade sem manicômios, e fazem de seus trabalhos nos CAPS espaço de defesa de um novo modelo de tratamento aqueles que sofrem no processo de adoecimento mental. Agradeço ainda, as Assistentes Sociais que me ajudaram a construir esse trabalho. Por me receberem e dividirem comigo seus saberes. Agradeço a Edna, que com sua forma de ser amiga, mãe, irmã, conselheira, ouviu tantas vezes meus desprazeres e compartilhou sua sabedoria, generosidade. Agradeço a Sandrinha, elo importante em meus primeiros momentos no mestrado. Pessoinha que compartilhou não só um apartamento em Juiz de Fora, mas também todo o prazer e dor que envolveu o processo de construção desse trabalho. Agradeço aos amigos e colegas que fiz durante o mestrado, pelo apoio, incentivo, pelos momentos de concentração e de distração. Agradeço a Vera, pelas aulas de inglês e pelo incentivo. Foi difícil, mas não impossível. A Andresa, minha amiga, irmã, mocinha que tanto amo e que sempre me disse para eu nunca desistir. Agradeço a Assistente Social Carla Barrígio, por ter sido a minha supervisora de estágio e ter compartilhado seu tempo e seu saber. Suas contribuições em minha formação jamais serão esquecidas. Agradeço ao Bill, pelo carinho e pela torcida desde o término da graduação e principalmente na seleção para o Programa de Mestrado da UFJF. Foram e são tantos que me apoiaram e me ajudaram a construir esse trabalho, alguns já nem estão mais aqui, entre nós, ditos os vivos; outros estão em locais que a distância impera, outros se colocaram mais presentes em minha vida. A todos esses... Estes... E aqueles tantos, o meu MUITO OBRIGADO..
(8) RESUMO Esse estudo pretendeu identificar como se concretiza a intervenção dos assistentes sociais nos Centros de Atenção Psicossocial - CAPS de Juiz de Fora – MG, como esses assistentes sociais lotados materializam seu trabalho, formalizam suas ações e sobre quais fundamentos teórico-metodológico, ético-político e técnico-operativo está assentada sua intervenção. Esse estudo pretende ainda contribuir com o debate sobre a inserção e intervenção do assistente social na saúde mental, principalmente nos CAPSs, entendendo que existe um mercado de trabalho crescente nessa área, desde o processo de desospitalização dos portadores de transtorno mental. Palavras chaves: Intervenção; Assistentes Social, CAPS..
(9) ABSTRACT This study aims to identify how it operates the intervention of social workers in Psychosocial Care Centers - CAPS Juiz de Fora - MG, such as social workers crowded materialize their work, formalize their actions and what theoretical and methodological, ethical, political and technical and operating sits intervention. This study also aims to contribute to the debate on inclusion and intervention of social workers in mental health, especially in CAPS, understanding that there is a growing job market in this area,. since. the. process. of. deinstitutionalization. Keywords: Intervention, Social Assistants, CAPS.. of. the. mentally. ill..
(10) Lista de abreviaturas. BPC: Benefício de Prestação Continuada CAPS: Centro de Atenção Psicossocial CAPS ad: Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas CAPS IJ: Centro de Atenção Psicossocial Infância e Juventude CFESS: Conselho Federal de Serviço Social CRAS: Centro de Referência de Assistência Social CREAS: Centro de Referência Especializado em Assistência Social CRESS: Conselho Regional de Serviço Social CID: Código Internacional das Doenças CRESS: Conselho Regional de Serviço Social ESF: Estrategia de Saúde da Família FAMINAS: Faculdade de Minas IFB: Instituto Franco Basaglia MS: Ministério da Saúde NASF: Núcleo de Atenção a Saúde da Família NAPS: Núcleo de Atenção Psicossocial OMS: Organização Mundial da Saúde ONG: Organização Não-Governamental PNASH: Programa Nacional de Avaliação dos Serviços Hospitalares PSF: Programa Saúde da Família PTM: Portador de Transtorno Mental SM: Saúde Mental SMS: Secretaria Municipal de Saúde SRT: Serviço Residencial Terapêutico.
(11) SUS: Sistema Único de Saúde TO: Terapia Ocupacional UBS: Unidade Básica de Saúde UFJF: Universidade Federal de Juiz de Fora.
(12) SUMÁRIO. I. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 14 II. Capítulo I – RESGATE HISTÓRICO DA LOUCURA ...................................... 24 2.1 Questão social e loucura ................................................................................ 24 2.2 O surgimento dos manicômios e a institucionalização do “louco” .............. 28 2.3 A desinstitucionalização do “louco” ............................................................. 33 2.4 Lei Paulo Delgado ......................................................................................... 40 2.5 Serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico .............................................. 42 2.6 A Reforma Psiquiátrica hoje .......................................................................... 48 III. Capítulo II – SERVIÇO SOCIAL E SAÚDE MENTAL EM DEBATE ............ 53 3.1 Gênese histórica da profissão de Serviço Social no Brasil ............................ 53 3.2 Serviço Social e saúde mental: Aproximações e debates .............................. 58 3.3 Política de saúde mental em Juiz de Fora - MG ............................................ 65 IV. Capítulo III – ENTENDENDO O QUE SE FAZ E COMO SE FAZ E PORQUE SE FAZ ..................................................................................................... 70 4.1 Perfil Profissional das entrevistadas .............................................................. 70 4.2 Participação e mobilização popular – a visão das entrevistadas .................... 74 4.3 Intervenção Profissional – referências de conhecimento ............................... 79 4.3.1 Constituição Federal e Reforma Psiquiátrica – a visão das entrevistadas ........................................................................................................ 79 4.3.2 Concepção de Saúde Mental – a visão das entrevistadas ........................ 81 4.4 Caracterização e avaliação dos serviços prestados – a visão das entrevistadas ........................................................................................................ 86 4.5 A intervenção na saúde mental: permeada por intervenções conservadoras? ..................................................................................................... 88 4.5.1 Intervenção em Serviço Social ................................................................ 88 4.5.2 Intervenção em Serviço Social: Ruptura com Conservadorismo? .......... 93 V. CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................... 107 VI. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................ 108.
(13) ANEXOS ANEXO I – Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ................................ 117 ANEXO II – Roteiro para entrevistas com os Assistentes Sociais dos Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) de Juiz de Fora – MG................................................ 119 ANEXO III – Roteiro para entrevista com agente fiscal do CRESS MG ........... 123 ANEXO IV – Lei Paulo Delgado ........................................................................ 124 ANEXO V – Portaria nº 336∕ GM – Estabelecimento dos Centros de Atenção Psicossociais (CAPS) ..................................................................................................... 127 ANEXO VI – Lei 12.317\ 2010, que dispõe sobre 30 (trinta) horas semanais de trabalho do assistente social sem rebaixamento de remuneração ............................... 137.
(14) I.. INTRODUÇÃO. “O momento que vivemos é um momento pleno de desafios. Mais do que nunca é preciso ter coragem, é preciso ter esperanças para enfrentar o presente. É preciso resistir e sonhar. É necessário alimentar os sonhos e concretizá-los dia-a-dia no horizonte de novos tempos mais humanos, mais justos, mais solidários. IAMAMOTO: 2005..
(15) A minha trajetória acadêmica, cheia de aventuras pelos caminhos do apreender e do saber, é a linha que atravessa a busca pelo meu objeto de estudo neste trabalho. Parafraseando Vicente (2001), este objeto de trabalho, é, portanto: “Razão de tantas escolhas em minha vida, algumas de forma consciente. Estas, radicalmente constituídas politicamente, a partir de um dado lugar na história”. O gosto pelo campo da saúde mental foi fundamental pela descoberta de um campo de investigação e intervenção como profissional de Serviço Social, a partir disso toda uma história está sendo construída. A minha história acadêmica é uma das razões que me levaram ao PROCESSO DE SELEÇÃO AO INGRESSO NO PROGRAMA DE MESTRADO EM SERVIÇO SOCIAL / UFJF, em outubro de 2008. Iniciei o curso de Serviço Social em fevereiro de 2004, na Faculdade de Minas – FAMINAS, em Muriaé – MG, cidade em que nasci e morava. E ao longo do curso tive momentos de aproximações com a área da Saúde Mental. O meu primeiro contato com a Saúde Mental, enquanto discente do curso de Serviço Social da FAMINAS1, deu-se em março de 2004, com a associação de portadores de transtorno mental, familiares e profissionais CONVIVER, associação essa que tinha como um de seus objetivos montar um Centro Atenção Psicossocial – CAPS em Muriaé – MG e credenciá-lo no Sistema Único de Saúde (SUS). Esse contato se deu devido a uma atividade acadêmica intitulada “Calourada Universitária”, que havia arrecadado em forma de gincana, alimentos não perecíveis, incentivando o trote solidário. Com a arrecadação dos alimentos necessitou-se então fazer a doação dos mesmos. As instituições escolhidas para recebimento das doações foram sugeridas por alunos dos cursos de graduação da FAMINAS, e a entrega das doações foi feita por discentes do curso de Serviço Social e por funcionários da instituição. Nessa situação percebe-se o olhar da instituição sobre o curso de Serviço Social, vinculando o mesmo a ações assistencialistas. Entre as instituições que receberam as doações estava a Associação CONVIVER, que sobrevivia de doações populares e de alguns repasses da Prefeitura Municipal de Muriaé - MG. A escolha dessa instituição estava também relacionada com a precária situação financeira que a associação possuía, situação essa que era do conhecimento da então coordenadora do curso de Serviço Social da FAMINAS, a. 1. Campus Muriaé – MG..
(16) assistente social Juliana Goulart, que durante algum tempo prestou serviços como assistente social na associação CONVIVER. A associação CONVIVER, possuía uma forma de conceber seus usuários, os portadores de transtorno mental, em uma perspectiva desconhecida até então por mim. Com a proposta de um tratamento humanizado e de desinstitucionalização do portador de transtorno mental, a associação me cativou, porém, em março de 2004, eu ainda estava no primeiro período da faculdade de Serviço Social, e por mais que eu quisesse fazer um estágio no local ou até mesmo um voluntariado, nenhuma dessas opções era possível e viável, devido ao meu nenhum conhecimento sobre a proposta da Reforma Psiquiátrica brasileira, e as minhas condições no momento de não ter como propor alguma contribuição na proposta da associação. Portanto, ainda que pequeno, do contato com a associação surgiu à idéia de fazer um estágio no local, pois a proposta que aquele serviço oferecia, pareceu-me bastante interessante. No ano seguinte, em maio de 2005, fui conhecer em Cataguases – MG, município vizinho a Muriaé - MG, um pouco da dinâmica do CAPS deste mesmo município, e um pouco sobre a luta Antimanicomial. A visita a este CAPS foi uma iniciativa do curso de Terapia Ocupacional da FAMINAS, e o convite aos graduandos de Serviço Social, foi feito pelo então professor de psicologia social do curso de Serviço Social, o psicólogo Luiz Claudio Ferreira Alves. Como eu já tinha algum interesse sobre os caminhos que a saúde mental estava trilhando com a perspectiva de desinstitucionalização, não hesitei em aceitar o convite e ir juntamente com os alunos de Terapia Ocupacional conhecer a dinâmica de trabalho e relações estabelecidas no CAPS de Cataguases- MG. Com essa visita tive a certeza que eu queria fazer meu estágio curricular e supervisionado na área de Saúde Mental em um CAPS. E por meio de simpósios, congressos e oficinas que tinham como tema e/ou finalidade a discussão de novos modelos de atenção e cuidado em Saúde Mental; pude me aproximar do campo pretendido. Ao final de 2005 inaugurava em Muriaé - MG, o Centro de Atenção Psicossocial Adélia Bizzo Xaia. Notícia recebida por mim com grande alegria, pois essa seria a oportunidade de fazer o estágio curricular supervisionado que teria início no ano seguinte. A participação do processo de seleção para a entrada no estágio em março de 2006 foi o passo decisivo para aprofundar meus estudos em Reforma Psiquiátrica e serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico. Atuei como estagiária no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de Muriaé, durante os anos de 2006 e 2007..
(17) Acredito que seja significativo considerar a experiência adquirida por mim dentro de uma instituição que é um equipamento de saúde mental, que visa à diminuição e extinção dos leitos psiquiátricos em manicômio, instituição, onde durante dois anos acompanhei a intervenção do assistente social responsável pela supervisão direta e orientação do meu estágio curricular obrigatório. Durante minha graduação pude me aproximar da política de saúde mental, através do conhecimento teórico, técnico e histórico da área. Gerando assim meu Trabalho de Conclusão de Curso, no qual todo processo vivido em minha graduação está vinculado: Um estudo sobre o processo de trabalho do Assistente Social na Saúde Mental: A experiência do Centro de Atenção Psicossocial de Muriaé – MG.2 As razões que me levaram a construir essa proposta de estudo do trabalho que aqui apresento, são fruto de várias inquietações tecidas durante minha trajetória acadêmica. Este trabalho é resultado de algumas indagações que possuo perante a intervenção dos assistentes sociais na Saúde Mental, especificamente no Centro de Atenção Psicossocial - CAPS. Ressalto que a inserção do assistente social na Saúde Mental contribuiu e contribui para a consolidação dos pressupostos da Reforma Psiquiátrica Brasileira, acredito ainda que se faz necessário uma maior aproximação do assistente social com o amplo campo da Saúde Mental, vinculando assim a construção de uma intervenção profissional arraigada nos pressupostos teóricos e metodológicos da Reforma Psiquiátrica. Esse trabalho buscou conhecer a intervenção do assistente social em equipes de saúde mental, especificamente nos CAPS de Juiz de Fora – MG, e quais eram as contribuições de sua intervenção na saúde mental. Como a realidade está em constante transformação, aproximei ao máximo dela e fiz minha investigação e minhas análises apoiada em uma perspectiva crítica dialética. Parti do princípio que o conhecimento é aproximativo, pois a realidade em que está inserido meu objeto de estudo é dinâmica. Entendo que esse conhecimento existe apenas porque existem sujeito e objeto, que segundo Marx (2004), existe uma interação dialética entre sujeito e objeto. A necessidade de investigar e refletir como o assistente social tem se inserido no campo da saúde mental surgiu a partir de várias interlocuções feitas durante minha 2. Trabalho de Conclusão de Curso de Serviço Social, apresentado na Faculdade de Minas – FAMINAS – campus Muriaé – MG..
(18) trajetória acadêmica e hoje profissional, interlocuções como: Qual é a posição do Assistente Social frente ao saber médico e a equipe em que trabalha? O assistente social é um mero articulador de Benefícios de Prestação Continuada (BPC)? Como o assistente social entende e concebe sua intervenção nos Centros de Atenção Psicossocial? Onde o assistente social se encontra na correlação de forças institucionais?O assistente social sabe realmente o que o Serviço Social propõe na intervenção em saúde mental ou caminha para uma intervenção clínica?Entre outros. Acredito que estas e outras questões que perpassam a inserção do assistente social no CAPS não foram assumidas em sua totalidade durante a execução do projeto de mestrado, pois aqui me fixei em uma questão fundante e as demais ficarão para próximos momentos de aproximações com essas interlocuções. Portanto, a grande questão que perpassa este trabalho é como se concretiza a intervenção dos assistentes sociais nos CAPS de Juiz de Fora – MG, ou seja, como os assistentes sociais lotados nessa instituição materializam seu trabalho, formalizam suas ações e sobre qual teoria está assentada sua intervenção. O debate sobre a intervenção do assistente social na Saúde Mental, especificamente nos CAPSs, faz-se necessário nesse cenário atual caracterizado pela expansão dos serviços substitutivos ao modelo hospitalocêntrico e ao debate no interior da categoria profissional acerca do Serviço Social clínico, debate esse que está sendo feito em fóruns pelo Brasil. Ainda é importante ressaltar que o debate acerca do Serviço Social clínico é objeto de preocupação pela categoria profissional dos assistentes sociais, no que concerne a um retrocesso de práticas que até então fizeram parte do passado histórico da profissão de Serviço Social no Brasil. Neste trabalho abordo de forma sucinta a aproximação e inserção dos profissionais de Serviço Social no grande e complexo campo da Saúde, ressaltando as particularidades brasileiras nas bibliografias e avançando na apreensão da inserção dos assistentes sociais na Saúde Mental. As reflexões aqui expostas foram elaboradas tendo a incorporação do método crítico e dialético para nortear os objetivos, procedimentos e conclusões. Essa pesquisa está vinculada com o pensamento e com a ação, não separando teoria e prática, mas sim acreditando que as formulações teóricas sustentam e viabilizam uma intervenção na realidade que está posta. Assim:.
(19) “O método é entendido como um instrumento de mediação entre o homem que quer conhecer e o objeto desconhecido, como uma parte do real a ser investigado. Para Lukács, o método não é critério de verdade, o critério de verdade encontra-se na própria objetividade do real. O método marxiano tem como base a tese de que “a produção do conhecimento é parte integrante do desenvolvimento histórico do mundo dos homens...”, quando no intercâmbio entre o homem e a natureza (sujeito e objeto), se efetiva, ao mesmo tempo, tanto o sujeito, que se (re)constrói, quanto o mundo dado e transformado pela ação do sujeito, e “nessa relação sujeito-objeto se radica a produção do conhecimento”. (ARAÚJO, 2007).. Minayo (2007) traz em sua análise que toda “investigação se inicia por uma questão, por uma pergunta, por uma dúvida” (Minayo, 2007, p. 16). Neste trabalho o movimento não se fez e não se faz diferente, parti de uma pergunta, de uma grande questão: Como os assistentes sociais estão intervindo nos CAPSs do município de Juiz de Fora - MG? E este COMO, não se traduz apenas no “modo de fazer”, de agir, de intervir, mas em qual aporte teórico estes assistentes sociais estão sustentados ao fazerem suas intervenções; em que condições de trabalho essas intervenções são dadas; assim como quais as demandas postas pela instituição, pelos usuários; enfim, o início de qualquer que seja a investigação, não se detém na questão inicial, mas a cada novo movimento de aproximação da realidade, essa questão inicial se vê transpassada por outras, que em um universo maior compreende a pesquisa que foi realizada. Ainda sobre o método adotado neste trabalho, entendendo a construção do objeto de análise e tendo a perspectiva que esse trabalho não se encerra em aqui “Exatamente porque o objeto não está dado, a incorporação do método crítico dialético para o desvelamento do real me permitiu entender que se deve partir da concepção “[...] preliminar de que a realidade social não se dá a conhecer, a não ser pela reflexão demorada, reiterada e obstinada.” (IANNI, 1986, p.03). Assim, tomando o método marxiano como referência teórico metodológica, foi possível, (...) a análise qualitativa dos dados oriundos da pesquisa junto aos assistentes sociais, tomar o “ponto de chegada” como novo “ponto de partida”. (ORTIZ, 2007: p. 22). Assim o pensamento dialético: “No pensamento dialético o real é entendido e representado como um todo que não é apenas um conjunto de relações, fatos e processos, mas também a sua criação, estrutura e gênese. Ao todo dialético pertence a criação do todo e a criação da unidade, a.
(20) unidade das contradições e a sua gênese”. (KOSIK, 1989, p. 42).. Diante desse todo, que une contradições, e entendendo que o meu objeto de pesquisa faz parte desse todo, fez-se necessário para responder a essa questão fundante deste trabalho e construir uma análise sobre meu objeto de estudo, recorrer a instrumentos e técnicas de pesquisa que já foram utilizados por diversos autores e que para este objeto analisado foi o mais adequado. Nesse sentido, utilizei a metodologia qualitativa e quantitativa, entendendo que: “Os dois tipo de abordagens e os dados dela advindos, porém não são incompatíveis. Entre eles há uma oposição complementar que, quando bem trabalhada teórica e praticamente, produz riqueza de informações, aprofundamento e maior fidedignidade interpretativa.” (MINAYO 2007, p.22).. Recorri à pesquisa quantitativa e qualitativa, pois aqui compreendo que ambas se fundem na busca pelo conhecimento almejado nessa pesquisa, que “ambas as abordagens são importantes e o ideal no campo da pesquisa em saúde é que sejam trabalhadas de forma que se complementem sistematicamente.” (MINAYO 1998, p.34). Portanto, em um primeiro momento, foi realizado um estudo bibliográfico e documental, em revistas, pesquisas, livros, teses e dissertações, leis, portarias e decretos, a fim de reconstruir historicamente o processo de inserção da profissão de Serviço Social no grande campo da saúde, especificando seu trajeto na área da saúde mental, a fim de conhecer como as relações presentes neste percurso histórico configuram atualmente a intervenção dos assistentes sociais nos Centros de Atenção Psicossociais de Juiz de Fora – MG. Ainda recorrendo ao estudo bibliográfico, abordo as configurações da saúde no Brasil, abarcando a origem e questões que perpassam o campo da saúde mental brasileira. Em um segundo momento foi realizada entrevistas com roteiro semi-estruturado com assistentes sociais da equipe dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Juiz de Fora – MG, buscando nesse momento conhecer as particularidades dessa intervenção assim como está estruturado o Serviço Social nos CAPS de Juiz de Fora – MG. A pesquisa foi realizada nos 04 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) de Juiz de Fora - MG, que são de natureza pública e credenciada ao Ministério da Saúde. Tinhase a hipótese que todos os CAPS possuíam em seu quadro funcional um Assistente Social, apesar da PORTARIA/SNAS Nº 224 indicar que na equipe mínima dos CAPS.
(21) poderá ter um assistente social, ou outro profissional de ensino superior, não garantindo assim a obrigação de se ter um profissional de Serviço Social nestas instituições, porém ao fazer os primeiros contatos e ao realizar as entrevistas com foi verificado que todos os CAPSs possuíam em seu quadro funcional o profissional de Serviço Social. As entrevistas abordaram questões como: matriz teórica que norteia a intervenção; concepção de intervenção profissional; atividades diárias do assistente social na instituição pesquisada; demandas da instituição, dos usuários; relação do assistente social com usuários, com a equipe e com a instituição; atribuições privativas do assistente social no CAPS; instrumentos utilizados na intervenção, rotina de trabalho, entre outras. Enfim, questões sobre a intervenção do assistente social na Saúde Mental, assim como os limites, desafios e possibilidades dessa intervenção e as relações estabelecidas nesse espaço sócio institucional. Conforme termo de livre consentimento e esclarecido; e roteiro de entrevistas – (ANEXO 01 e ANEXO 02). Todo o material coletado durante as entrevistas foi devidamente trabalhado e exposto no capítulo 3 deste trabalho. Durante a pesquisa fez-se necessário buscar alguns esclarecimentos com o Conselho Regional de Serviço Social – CRESS, onde foi feito uma entrevista com uma das agentes fiscais do CRESS 6ª região da seccional de Juiz de Fora – MG, essa entrevista teve um roteiro conforme ANEXO 03. A partir de Minayo (1998) levei em consideração que o uso do método dialético para fazer as análises necessárias a essa pesquisa, não é simples, e que aqui tive um cuidado em não cair em análises simplificadas e reducionistas, que sinalizem um retorno ao positivismo. O método de apreensão e análise que é utilizado ao transcorrer deste trabalho é o método materialista histórico dialético, compreendendo a categoria analítica de totalidade. Totalidade essa que para Kosik significa “realidade como um todo estruturado dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de fatos, conjunto de fatos) pode vir a ser racionalmente compreendido” (KOSIK,1976: p.44). Considerando o conhecimento inacabado, e, ao mesmo tempo, reconhecendo a possibilidade de conhecermos o real e no intuito de esclarecermos os usos do método marxiano na atividade da pesquisa científica, tem-se um caminho de ida e volta para a elaboração da síntese que representa a totalidade do ato de conhecer. Marx (1997), em o Método da Economia Política, afirma, então, que o caminho de ida começa no real concreto, mas, através da capacidade do sujeito de analisar, pensar, ele vai construindo abstrações, categorias, que dizem respeito a aspectos desse real, dos complexos que o.
(22) constituem, das suas determinações. Caminho construído pela dialética e ao se trabalhar esse estudo a luz da dialética, tem-se que a mesma: “(...) trabalha com a valorização das quantidades e da qualidade, com as contradições intrínsecas às ações e realizações humanas, e com o movimento perene entre parte e todo e interioridade e exterioridade dos fenômenos.” (MINAYO 2007, p.24).. E com essa forma de pensar, escrever e analisar o objeto desse trabalho, que foi organizada essa dissertação, que se apresenta da seguinte forma: No primeiro capítulo está exposto um breve resgate histórico sobre a problemática da loucura e suas intersecções com a questão social, abordando a temática da institucionalização do portador de transtorno mental, com a criação de manicômios e o processo de desinstitucionalização do mesmo, com a criação de mecanismos para efetivação desse processo, como a Lei 10.216, conhecida popularmente como Lei Paulo Delgado. Nesse mesmo capítulo, têm-se ainda a apresentação dos serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico, como os Centros de Atenção Psicossocial – CAPS; Residências Terapêuticas, etc. No segundo capítulo é abordada a inserção do assistente social no campo da Saúde Mental, e como está estruturada a política de Saúde Mental em Juiz de Fora – MG, expondo quais os mecanismos que a rede que compõe esta política está organizada, dando ênfase aos CAPS, que são os espaços institucionais de inserção e intervenção dos assistentes sociais, intervenção essa que este estudo objetivou estudar, compreender e apresentar. No terceiro capítulo apresento os dados coletados nas entrevistas com os assistentes sociais que trabalham nos CAPSs de Juiz de Fora; fazendo uma sistematização dos dados, a fim de que através dos mesmos, possa-se refletir sobre as minhas conclusões sobre intervenção dos assistentes sociais na saúde mental, e quem sabe a partir das mesmas terem um novo ponto de partida para pensarem suas ações. Ressalto que todos os nomes que são relatados durante a exposição das falas das assistentes sociais são fictícios, a fim de resguardar as mesmas. Acredito que essa pesquisa poderá propiciar aos profissionais de Serviço Social um debate frutífero na área de saúde mental, no que concerne a intervenção dos.
(23) mesmos, entendendo que se faz necessário “fazer pensar para melhor intervir”. (VASCONCELOS, 2002.).
(24) II. Capítulo I: RESGATE HISTÓRICO DA LOUCURA. Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestados os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar-se nessa linguagem emprestada (MARX, 1978). A proposta deste capítulo é elucidar os elementos essenciais da Questão Social, posicionando a mesma como base para as análises que são apresentadas nesse estudo. Apresento ainda a trajetória de institucionalização dos doentes mentais promovido por décadas pelo Estado e Igreja, e que culminou no processo de Reforma Psiquiátrica, reforma essa que possibilitou a criação dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, instituição onde é materializada a intervenção das assistentes sociais pesquisadas nesse estudo.. 2.1 QUESTÃO SOCIAL E LOUCURA. Inicialmente, gostaria de especificar sobre qual base esse estudo está materializado, tendo que essa base, não é um cenário, mas é o fundamento onde as profissões e movimentos estão intervindo. A questão social é essa base, de onde se parte as mais variadas formas de análise e de intervenção e que não se pode identificar de forma simplista com “exclusão social” e∕ou “problema social”. Aqui estamos debruçados sobre a análise de que a questão social tem sua gênese, na determinação da natureza contraditória e essencial do capitalismo, temos, portanto que a Questão Social emerge no capitalismo. Questão Social essa configurada indissociavelmente das configurações assumidas pelo trabalho e pela sociedade burguesa. Assim sendo, temos que a Questão Social condensa o conjunto das desigualdades e das lutas sociais, que estão em movimento constante e alcança sua.
(25) plenitude nos tempos de capital fetiche3, assim sendo a Questão Social é indissociável da sociedade e da luta de classes. Ressalta-se aqui, que essa indissociabilidade da Questão Social com a luta de classes não é caracterizada por uma luta entre ricos e pobres, mas sim luta entre projetos de sociedade, modelos de produção e acumulação. Questão Social intrínseca com as questões políticas, históricas, subjetivas, a ação dos sujeitos, as lutas sociais, aos movimentos, enfim a Questão Social precisa ser apreendida em sua totalidade na arena da luta social. Questão Social que são: “(...) as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão”. (IAMAMOTO & CARVALHO, 2006: p. 77).. Assim temos que a Questão Social é uma categoria que expressa à contradição fundamental do modo capitalista de produção. Contradição expressa na apropriação por poucos da riqueza que é socialmente produzida. “Questão Social apreendida como o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capitalista madura, que tem uma raiz comum: a produção social é cada vez mais coletiva, o trabalho torna-se mais amplamente social, enquanto a apropriação dos seus frutos mantém-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade”. (IAMAMOTO, 2005: p. 27).. Quando se analisa o Serviço Social e a Questão Social, tem-se que: “A formação profissional tem na questão social sua base de fundação sócio-histórica, o que confere um estatuto de elemento central e constitutivo da relação entre profissão e realidade social. (...) A identificação da questão social como elemento transversal à formação e ao exercício profissionais (...) decorre, em primeiro lugar, da necessidade de impregnar a profissão de história da sociedade presente e, em particular, da realidade brasileira, como caminho necessário para superar os dilemas da reiterada defasem entre teoria e exercício profissional cotidiano, qualificando as. 3. Capital Fetiche: categoria cunhada por Marx para designar o capital das finanças. (IAMAMOTO, 2008).
(26) respostas profissionais no enfrentamento das expressões da questão social”. (IAMAMOTO, 2009: p.183 e 184).. Então, faz-se necessário ressaltar que é sobre as mais variadas e complexas expressões da Questão Social que o profissional de Serviço Social é chamado a intervir: “Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas suas mais variadas expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social pública, etc. Questão social que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opõem4. É nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade. (...) Assim, apreender a questão social é também captar as múltiplas formas de pressão social, de invenção e de re-invenção da vida construídas no cotidiano, pois é no presente que estão sendo recriadas formas novas de viver, que apontam um futuro que está sendo germinado.” (IAMAMOTO, 2005: p. 28).. A partir desses elementos tem-se que questões ligadas a Saúde Mental também podem ser consideradas como expressões da Questão Social, atreladas ao desenvolvimento do modo de produção capitalista em sua forma de dominação e exploração, Gonçalves (1983) afirma: “A questão da saúde mental somente poderá, a nosso ver, ser adequadamente compreendida se visualizada dentro de um contexto histórico estabelecido tendo em vista o desenvolvimento do referencial mais amplo em que se processa sua atividade, ou seja, a formação econômica e social brasileira, expressão particular através do qual constitui-se, em nosso país, o modo de produção capitalista5.” (GONÇALVES, 1983, p.23).. Tem-se ainda que há um movimento em medicalizar tais expressões, quando as mesmas surgem como forma de doença, tendo por vezes como solução a medicalização, a internação, ou outros recursos que o capital, através das indústria farmacêutica e de grupos médicos que compartilham do projeto privatista da saúde julgarem necessários:. 4 5. Grifos meus. Grifos meus..
(27) “O desemprego, a ameaça de demissão, a sobrecarga de trabalho e a perda da autonomia desvanecem os projetos de vida pessoais e comunitários, conduzindo a quadros de depressão (Stolkiner, 1994). E a solução apresentada pelos mesmos algozes do poder, do discurso médico aliado à ordem internacional, é a do neobilogicismo, que se é distinto da Higiene Mental do início do século, aponta para as velhas formulações genéticas e hereditárias como gênese do transtorno mental (Rose, 1997).” (BISNETO, 2009, p.183). Compreendendo que os rebatimentos do modo de produção vigente recaem muitas vezes na saúde dos sujeitos, podendo afetar tanto a saúde física, quanto a saúde psíquica, e que a forma de dominação proposta por este modo de produção acaba por desenfrear um processo de “loucura” nesses sujeitos, temos que a saúde mental não pode deixar de ser analisada como um campo de atuação do assistente social, que também é manifestação e expressão da questão social. “Se os problemas sociais6 podem ser desencadeadores de sofrimentos mentais, agora, na situação de monopolização da ordem econômica e de ajustamento das nações ao imperativo da globalização financeira, as circunstâncias apontam para o aumento dos padecimentos mentais por conta da alienação das relações sociais de trabalho e de vínculos afetivos: além da informalidade no trabalho, há a precarização das relações sociais em todas as formas de institucionalização social. Em termos de trabalho, quem não está desempregado está com medo de ser demitido. E os empregados com contrato de trabalho estável têm que suportar uma grande sobrecarga de trabalho e a sua manipulação econômica por conta de interesses poderosos da ordem globalizadora, monopolista, financista e neoliberal.” (BISNETO, 2009, p.182). Entendendo que esses problemas sociais são manifestações e expressões da questão social, temos que questão social é produto da desigualdade de classes, que marca a nossa sociedade, através do modo de produção capitalista. Questão social que marca e objetiva a nossa intervenção como assistentes sociais, assim sendo, entende-se que: “O assistente social não trabalha com fragmentos da questão social, mas trabalha com indivíduos que condensam, nas suas vidas singulares, as dimensões universais e particulares das relações de classe”. (Iamamoto, 2004, p.55). Seja na assistência social, na saúde, no sócio-jurídico, nas empresas, ou em qualquer área de ação e intervenção do assistente social, o profissional trabalha com as 6. Aqui, entendo que os problemas sociais fazem parte da questão social e a questão social não se resume aos problemas sociais..
(28) contradições da relação Capital x Trabalho. Nessas relações engendram-se as resistências, em tempos de barbárie. O próximo item apresenta como a institucionalização do “louco” deu-se por vezes como forma de mascarar problemas como pobreza, indigência, falta de moradia, entres outros; fatos que são expressões inequívocas das contradições expressas pela relação Capital X Trabalho.. 2.2 - O SURGIMENTO DOS INSTITUCIONALIZAÇÃO DO “LOUCO”. MANICÔMIOS. E. A. Para melhor compreensão da criação dos serviços substitutivos ao manicômio, faz-se necessário compreender como foi a criação dos mesmos e como foi gestado o processo de institucionalização o “louco”. Assim, esse item pretende elucidar tais fatos. No século XV na Itália e na Espanha inicia-se um processo cientifico com os primeiros estabelecimentos destinados aos “loucos”. Até o final do século XVII, segundo Foucault (2005), loucura e razão não estavam ainda separadas. Não havia um vazio entre elas. Loucura e não-loucura, razão e “des-razão” estariam confusamente implicadas. Para Foucault (2005), durante a Época Moderna, o renascimento científico, buscou progressivamente cercar a loucura. Assim ocorreu a passagem da experiência medieval da loucura para a atual, que a confina com o estatuto de doença mental. Para Foucault, no século XVIII ocorre a experiência-limite entre a razão e a “des-razão”. Desde então, o homem contemporâneo deixou de se comunicar com o louco. Com o estabelecimento desta divisão originária, a ciência transformou a loucura em um acidente patológico. No século XVIII surgiu uma espécie de asilos, que abrigavam de forma subumana os loucos. “O hospício nascia para que o tratamento pudesse recuperar ou corrigir a razão” (Lucarelli et al., 1995, p.10 ), assim esse cenário do modelo asilar europeu, sobreviveu até a metade do séc. XIX. Segundo Amarante (1995), até o século XVIII, na Europa, os hospitais não possuíam finalidade médica. Eram grandes instituições filantrópicas destinadas a abrigar os indivíduos considerados "indesejáveis" à sociedade, como os leprosos, sifilíticos, aleijados, mendigos e loucos. Portanto, eram lugares de exclusão social da pobreza e da miséria produzidas pelos regimes absolutistas da época, os pobres que traziam.
(29) desconforto para o regime absolutista e que eram ditos como indigentes eram asilados em instituições. A necessidade de criação de hospitais psiquiátricos no século XVIII evoca a não reflexão de graves problemas do ser humano e da sociedade, esta última que como resposta aos inúmeros “incivilizáveis”, cria instituições de violência que tinham como procedimentos usuais a inflição de sofrimentos físicos e morais àqueles que não se ajustavam ao modelo de modo de produção e sociedade impostas, os mais alterados sofriam torturas e eram imobilizados com lençóis úmidos e choques. No Brasil, no início do século XVIII, a questão da loucura foi tratada com uma questão estritamente da “medicina” e no qual os chamado “loucos” não possuíam nenhum tipo de escolha, ficando a mercê da benesse da população e de almas caridosas. A forma principal de tratamento era a retirada do convívio social por meio de internações, através do processo de institucionalização. De acordo com Basaglia, “A institucionalização é o complexo de danos derivados de uma longa permanência coagida no hospital psiquiátrico, quando o instituto se baseia sobre princípios de autoritarismo e coerção. Tais princípios, donde surgem essas regras sob as quais o doente deve submeter-se incondicionalmente, são expressão e determinam nele uma progressiva perda de interesse que através de um processo de regressão e restrição do EU, o induz a um vazio emocional. (BASAGLIA, 1985, p.259). De acordo com Barrígio (2006), podemos dizer que a institucionalização trouxe inúmeras conseqüências sobre as doenças mentais como, por exemplo, a fragmentação e/ou extinção do convívio familiar; perda da identidade, liberdade; negação da subjetividade e de todos os direitos; incapacidade de exercer a cidadania. E com a fundação do Instituto Franco Basaglia (IFB). 7. novas e diretas formulações de políticas. em saúde mental ocorreram a fim de que a institucionalização fosse repensada como um modelo arcaico e incapaz de propor um tratamento humano e com bases de resgate da cidadania dos portadores de transtorno mental. O Instituto Franco Basaglia: 7. O IFB foi fundado em 1989, no Rio de Janeiro, sendo uma entidade sem fins lucrativos voltada basicamente para a prestação de assessoria, elaboração de pesquisa, informação e divulgação na área de saúde mental. Realiza ainda a promoção de atividades culturais em defesa dos direitos dos usuários de serviços psiquiátricos e, a geração de novas formas de atendimento a pessoa portadora de transtorno mental..
(30) “... É uma instituição civil sem fins lucrativos que atua na área da saúde mental e da reforma psiquiátrica no Brasil. Reconhecido como de utilidade pública municipal, o IFB foi fundado em 1989 no Rio de Janeiro, e tem como sócios profissionais e usuários de serviços de saúde mental. Seu principal objetivo é desenvolver ações estratégicas de incentivo à formulação de políticas públicas que possam resgatar os direitos de cidadania dos portadores de transtornos mentais.” (INSTITUTO FRANCO BASAGLIA, 18/09/2007).. Segundo o Instituto Franco Basaglia foi deste modo que surgiu o hospital psiquiátrico, ou manicômio, como instituição de estudo e tratamento da alienação8 mental. O chamado "tratamento moral" praticado pelos alienistas incluía o afastamento dos doentes do contato com todas as influências da vida social, e de qualquer contato que pudesse modificar o que era considerado o "desenvolvimento natural" da doença. Desta forma, pressupunha-se que a alienação poderia ser mais bem estudada e sua cura poderia ser atingida. Ressalta-se ainda que a institucionalização fazia com que as pessoas fossem retiradas do convívio familiar e ficassem por anos ou até mesmo por toda vida presas, ou como alguns estudiosos afirmam, “em regime de internação” até a morte. Cabe ainda ressaltar que inúmeras das internações eram compulsórias e que os institucionalizados além de não terem direito de escolha, também não havia outra forma de tratamento, ou de resposta a doença mental. O poder institucionalizante, por conseguinte, “é o conjunto de forças, mecanismos e aparatos institucionais que ocorrem quando o doente fechado no espaço augusto da sua individualidade perdida, oprimido pelos limites impostos pela doença, é forçado, pelo poder institucionalizante da reclusão, a objetivar-se nas regras próprias que o determinam, em um processo de redução e de restrição de si que, originariamente sobreposto à doença, não é sempre reversível”. (BASAGLIA 1981, p. 250).. Segundo Basaglia, “o internamento particular nem sempre interrompe a continuidade da vida do doente; tampouco diminui ou abole de maneira irreversível sua função social. Por 8. Aqueles considerados doentes mentais, aqui não se trata da categoria alienação de Marx..
(31) isso, superado o período crítico será fácil reinserí-lo na sociedade. O poder destruidor, institucionalizante em todos os níveis da organização manicomial, aplica-se àqueles que não têm outra alternativa que não o hospital psiquiátrico.” (BASAGLIA 1981, p.250).. O autor explicita claramente o significado da institucionalização à qual o doente mental é submetido à opressão e vítima do abuso de poder dos técnicos. Não se pode negar que os hospitais psiquiátricos eram depósitos insalubres e cruéis e, que os mesmos não reabilitavam e muito menos devolviam a dignidade e promoviam a emancipação do indivíduo. “O hospital Psiquiátrico passou a existir e florescer a partir da revolução industrial. As fábricas apareceram em grande quantidade e com elas cresceu a classe operária. A marginalidade aumentou assim como aumentaram os problemas sociais e o sofrimento psíquico. Os determinantes do aparecimento da doença mental provocaram o aparecimento das instituições. A nova ordem social precisava estruturar-se e proteger-se contra os chamados doentes mentais; bem por isso internados em instituições fechadas, “totais”, como diz Erving Goffman, onde se vive dia e noite, sob regras e em grupo.”(BRANT 1984, p.85).. Infere-se, portanto, que a problemática da saúde mental tem como suas questões centrais, a internação dos doentes mentais em manicômios visando atender, sobretudo, a segurança da ordem e da moral pública. Assim o processo de institucionalização dos “loucos” no Brasil se deu através da via de marginalização e exclusão, não diferente do que aconteceu na Itália e Espanha. Esta análise pode ser feita através das obras de Franco Rottelli (1990) e Franco Basaglia (1981) dentre outros, que esmiuçaram as estruturas psiquiátricas na Europa e sinalizam para o processo de desinstitucionalização. Os autores sinalizam que os hospitais psiquiátricos eram depósitos de: indigentes, pobres, ex-escravos, ladrões, andarilhos, mendigos, pessoas com desvios de conduta (mulheres não casadas, desvirginadas), portadores de lepra (encarnando o mal e representando o castigo divino, a lepra se espalha rapidamente causando pavor e sentenciando seus portadores à exclusão.), bruxos, possuídos pelo demônio; enfim a “parte podre” que a sociedade queria esconder. Até o início do século XIX, a assistência médica dispensada aos doentes mentais centrava-se na criação de asilos. As Santas Casas de Misericórdia reservavam locais e celas para os cuidados dos chamados loucos. Segundo Bastos (2007), somente a partir.
(32) de 1830, que médicos higienistas começam a pedir medidas de cuidados específicos criticando ao mesmo tempo as formas de tratamento empregadas pelas pessoas dessas instituições. Considerados “fundadores” da Psiquiatria no Brasil, sem que realmente tivessem uma formação psiquiátrica, são citados José Martins da Cruz Jobim, Joaquim Cândido Soares de Meirelles, Luis Vicente de Simoni, Jean –Maurice Faivre e Francisco Xavier Sigaud. Nos hospitais, os institucionalizados sofriam agressões físicas, morais e psíquicas, comprometendo assim sua desinstitucionalização. Dentro desse espaço esquadrinhado, percebe-se uma institucionalização das relações lá exercidas, tornandose um mundo à parte, afastando cada vez mais o indivíduo de suas relações exteriores. A atenção específica ao doente mental no Brasil teve início com a chegada da Família Real (1808). Em virtude das várias mudanças sociais e econômicas ocorridas e para que se pudesse ordenar o crescimento das cidades e das populações, fez-se necessário o uso de medidas de controle, entre essas, a criação de um espaço que recolhesse das ruas aqueles que ameaçavam a paz e a ordem social. Posteriormente, em 1852, é criado o primeiro hospício brasileiro na cidade do Rio de Janeiro – RJ, intitulado Hospício Pedro II, como consequência de protestos médicos pela maneira como as Santas Casas administravam os cuidados aos chamados loucos. A construção desse manicômio segue a orientação e os propósitos da escola alienista francesa. Com proclamação da República em 15 de novembro de 1889, o Hospício Pedro II é entregue ao Estado, que muda o nome do mesmo para: Hospício Nacional dos Alienados. Em 1903, a assistência médico-legal aos chamados loucos passa a pertencer à esfera do Ministério da Justiça e Negócios Interiores, que através da Lei nº. 1132 reorganizam a assistência aos “alienados” e que estabelece em seus primeiros artigos que o “indivíduo que, por moléstia mental, congênita ou adquirida, comprometer a ordem pública ou a segurança das pessoas, será recolhido a um estabelecimento de alienados”. (Lei nº1132 de 1903). Com o desenvolvimento do capitalismo industrial, ocorreu uma grande atração populacional aos centros urbanos, tendo como conseqüência a proliferação de doenças e epidemias. Assim as péssimas condições de vida em que viviam a classe operária rebateriam no trabalho e reduziriam a produtividade e, conseqüentemente o lucro, preocupando assim os detentores do capital. Cabendo ao Estado assumir alternativas para contribuir no atendimento necessário aos doentes, incluindo as consideradas como.
(33) mentais. Todavia, estas não conseguiram atingir as expectativas, mas sim excluí-los, escondê-los em instituições agrícolas, uma vez que, constituíam seres perturbadores aos olhos da sociedade. Com a revolução de 1930 a assistência da saúde mental conquistou espaço através do decreto da lei nº. 3171 (de 02 de abril de 1941) expandida com a lei 05 de julho de 1953. Em 1954 a Lei nº. 2312 que dispunha sobre as normas de proteção à saúde: ”Art.1º é dever do estado, bem como da família defender e proteger a saúde do individuo. Art.2º... “Incube a união manter um órgão de saúde e assistência, que realizará inquéritos, estudos e pesquisas sobre as condições e saúde do povo e as endemias brasileiras”. (lucarelli et al., 1995, p. 15).. Inúmeras foram às modificações no tratamento dos doentes mentais, a conquista e a afirmação dos direitos deu-se através da negação de experiências que eram incapazes de reabilitar, socializar, respeitar, tratar. Tratando de resgate de cidadania e pensando na realidade posta: precisa se afrontar o sistema: “... No sentido de que o contrato direto com a eloqüente condição de violências, afrontas injustiças exige que um sistema que produz e permite tais condições seja tratado com violência: ou se é cúmplice ou se age destrói” (BASALIA, 1985, p. 10).. Quando nada é feito para garantir os direitos dos portadores de transtorno mental, pode-se afirmar assim como Basaglia (1985) que acabamos sendo cúmplices permitindo que o portador de transtorno mental seja tratado com violência e exclusão; sem condições de vida social, psíquica e política. Neste item buscou-se apresentar o processo de institucionalização dos “loucos”, no próximo serão elucidadas as protoformas da desinstitucionalização dos mesmos, como novas formas de conceber a saúde mental.. 2.3 – A DESINSTITUCIONALIZAÇÃO DO “LOUCO” A ciência que reconhecia o “louco” como um indivíduo que necessitava de um aprisionamento e que o coloca dentro de muros, é tomada como debate, ou seja, as formas de hospitalização, de institucionalização são repensadas e analisadas, não é mais a clausura, a distância, a negação do “louco” que irá conceber um novo paradigma de.
(34) tratamento para o mesmo, e sim uma leitura dos aspectos apresentados durante a história da loucura e a necessidade de criação de uma nova história, onde o chamado “louco” terá a oportunidade de um tratamento humano, em comunidade, dentro do seio familiar, enfim, saindo do caos dos hospitais, colônias, e diversas formas de prisões para estar em tratamento junto aos que têm assim como o “louco” o direito de ser livre. Para esta liberdade se concretizar foi e ainda se faz necessário um percurso de quebra de estigmas e de barreiras, como o preconceito, a não aceitação do outro e uma estrutura capaz de sustentar a desinstitucionalização que foi iniciada por Franco Basaglia, médico Psiquiatra, italiano. Durante o período de 1961-68, Basaglia, iniciou um processo de transformação no Hospital de Gorizia na Itália, com a finalidade de quebra do paradigma de tratamento existente, onde implantou um projeto de Comunidade Terapêutica, neste momento inicia-se um debate sobre o modelo de tratamento existente e a viabilização de novas formas de tratar o “doente mental”. Através do serviço de Saúde Mental de Trieste, principal unidade psiquiátrica Italiana onde a bandeira do processo de desinstitucionalização e a quebra do paradigma de tratamento existente foram repensados, analisados e remodelados através da visão de Franco Basaglia, a experiência Italiana foi tomada como exemplo a ser seguido mundialmente. Segundo Amarante e Rotelli: “Após um ano de trabalho em Parma, Basaglia chega a Trieste em outubro de 1971. Aí começa a verdadeira demolição do aparato manicomial com a extinção dos tratamentos violentos, abertura dos cadeados e das grades, a destruição dos muros que separavam o espaço interno do externo, a constituição de novos espaços e formas de lidar com a loucura e a doença mental. o trabalho desenvolvido em Trieste não propugnava a suspensão dos cuidados aos que deles necessitavam, mas a construção de novas possibilidades, de novas formas de entender, de lidar e de tratar a loucura. E ainda “a negação da instituição” não é a negação da doença mental, nem a negação da psiquiatria, tampouco o simples fechamento do hospital psiquiátrico, mas uma coisa muito mais complexa, que diz respeito à negação do mandato que as instituições da sociedade delegam à psiquiatria para isolar, exorcizar, negar e anular os sujeitos a margem da normalidade social.”(AMARANTE e ROTELLI, 1995, p. 43-44)..
(35) Podemos assim inferir que a experiência de Gorizia e de Trieste foi um passo inicial para a desconstrução do manicômio, bem como as formas violentas de institucionalização. Tomaz (2009), embasada em estudos de Barros (1994) e Rotelli e Amarante (1992), expõe que o movimento de Reforma Psiquiátrica chegou ao Brasil, em meados doas anos de 1970; momento em que Franco Basaglia fez três visitas ao Brasil: “Das três visitas que Basaglia fez ao Brasil na década de 70, mais precisamente nos anos de 1975, 1978 e 1979, a última teve uma maior repercussão em função de o momento político ser favorável à maior participação social e política. O contexto de abertura política que o país vivia naquele momento, a reorganização partidária e sindical e o movimento pela anistia formaram o quadro político para os movimentos sociais e pela reivindicação por maior participação social e política. no campo da saúde, ganhou sempre destaque o processo de mobilização, através do Movimento pela Reforma Sanitária, que segundo Bravo (2006, p.32) “consiste na organização dos setores progressistas de profissionais de saúde pública, que colocou em debate a relação da prática em saúde com a estrutura da sociedade”, e no campo especifico da saúde mental surgiram as reivindicações contra o cotidiano de violência e segregação no interior das instituições psiquiátricas. (TOMAZ, 2009, p. 95-96).. As visitas de Basaglia marcaram momentos de denúncia, mobilização e luta por uma nova política de saúde mental, principalmente a de 1979, ano que foi criado em diversos lugares do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental – MTSM. “O Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM), movimento plural formado por trabalhadores integrantes do movimento sanitário, associações de familiares, sindicalistas, membros de associações de profissionais e pessoas com longo histórico de internações psiquiátricas, surge neste ano. É, sobretudo este Movimento, através de variados campos de luta, que passa a protagonizar e a construir a partir deste período a denúncia da violência dos manicômios, da mercantilização da loucura, da hegemonia de uma rede privada de assistência e a construir coletivamente uma crítica ao chamado saber psiquiátrico e ao modelo hospitalocêntrico na assistência às pessoas com transtornos mentais.” (BRASIL, 2005, p.7).. São apontados, em todas as décadas, muitos aspectos considerados "desumanizantes", relacionados a falhas no atendimento dentro do contexto de tratamento em saúde mental. Cabe ressaltar que até a década de 80, o modelo de.
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