O GTT Memórias da Educação Física e do Esporte do CBCE: Uma Análise a Partir das Práticas e da Produção (1989-2005)

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Texto

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O G T T M E M Ó R I A S D A E D U C A Ç Ã O F Í S I C A E E S P O R T E D O C B C E : U M A A N Á L I S E A P A R T I R D A S P R Á T I C A S E D A P R O D U Ç Ã O ( 1 9 8 9 - 2 0 0 5 )

ANDREA MORENO* MARIA CRISTINA ROSA** VERONA CAMPOS SEGANTINI***

G T T 7 M E M Ó R I A S D A E D U C A Ç Ã O F Í S I C A E E S P O R T E

O

s Grupos de Trabalhos Temáticos (GTTs) são instâncias

orga-nizativas do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE) vinculados à sua Direção Científica. Foram instaurados e m 1997, a partir do X Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (Conbrace), em Goiânia e, segundo a entidade, devem se configurar como

pólos aglutinadores de pesquisadores com interesses comuns em temas específicos; pólos de reflexão, produção e difusão de conhecimento acerca do referido tema e pólos sistematizadores do processo de pro-dução de conhecimento com vistas à parametrização das ações políticas das instâncias executivas do CBCE (COLÉGIO..., 1997).1

A o completar dez anos de implementação, em setembro de 2007, os GTTs foram convidados pela atual diretoria2 a fazerem uma reflexão e avaliação de sua existência, continuidade, constituição, e natureza

1 Além dessa configuração, vale lembrar que os Grupos de Trabalho Temático são "dirigidos por um comitê científico formado por pesquisadores [...] e são regulamentados pelo Estatuto da entidade" (COLÉGIO..., 1997).

2 O convite foi formulado no âmbito da Reunião dos GTTs, pela sua Coordenação Geral, na pessoa da Professora Meily Linhales, durante a Reunião Anual da SBPC, em julho de 2006, em Florianópolis (SC).

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científica, apresentando estratégias de auto-avaliação. Parte da motiva-ção para este estudo nasceu, então, a partir dessa demanda.

Embora os GTTs tenham sido instituídos e m 1997, o GTT Memó-rias da Educação Física e Esporte, hoje GTT 7 - doravante, no presente texto, referido como GTT Memórias - foi constituído como tal em 2005, fruto do desmembramento do GTT Memória, Cultura e Corpo, criado em agosto de 1998, e implementado no Conbrace de 1999.

O curto período de sua existência, propicia-nos efetuar uma análi-se ampliada, que nos permitisanáli-se visualizar as maneiras como foi possível consolidar a existência do GTT Memórias. Neste sentido, intentamos, além de mostrar como o grupo se houve nesses dois anos, refletir sobre as formas, as estratégias e as instâncias que construíram a possibilidade de sua implementação. Este trabalho de análise, então, tem início com u m olhar sobre a produção com perspectivas historiográficas no âmbito do CBCE, temas que caracterizam este GTT no período de 1989 a 2005.

A escolha desse recorte temporal ampliado justifica-se pela com-preensão que o GTT vai-se constituindo pela crescente produção quan-titativa e qualitativa de trabalhos com esse recorte temático, ainda que o GTT não existisse como instância organizativa. O recorte temporal inicial é delimitado pela marcada presença, e m 1989, no V I Conbrace, realizado em Brasília, de trabalhos com perspectivas historiográficas.3 O recorte final, e m 2005, refere-se à data do último Conbrace, realizado em Porto Alegre.

Dessa forma, o presente estudo objetivou investigar, com base na produção historiográfica veiculada nos Anais dos congressos,4 a maneira

3 Como se pode observar, os congressos de 1979 a 1983 são configurados por trabalhos que trazem "questões colocadas no âmbito das medidas e avaliações de componentes corporais e valências físicas" (PAIVA, 1993, p. 126). Nos anos de 1985-1987, período de transigência entre "médicos/biológicos" e "pedagogos/sociais", predominam, ainda, temas de ordem biológica, embora haja trabalhos "que versam 'mais confortavelmente' sobre pressupostos pedagógicos da metodologia do ensino e temas ligados ao compromisso político e à educação (física)" (PAIVA, 1993, p. 183). É, especialmente, a partir de 1989 que há modificação na produção do conhecimento veiculada nos congressos, com a presença de novas perspectivas.

4 Foram pesquisados os Anais de 1989 a 2005. Apesar das fontes analisadas serem primordialmente os trabalhos apresentados no GTT, consideraram-se também outras iniciativas no âmbito do CBCE e dos Conbraces que ajudaram a visualizar a implementação e constituição do GTT, como, por exemplo, a Revista Brasileira de Ciências do Esporte (RBCE), palestras, simpósios, cursos e temas dos congressos. Em alguns momentos, tivemos de recorrer a informações diretamente com os envolvidos ou a anotações de seus arquivos pessoais, pois não havia registros - ou não conseguimos ter acesso a eles - sobre alguns fatos/nomes.

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pela qual essa produção contribuiu para a criação e implementação do GTT Memórias. Em u m duplo movimento, entendemos que essa produ-ção ajuda a constituir o GTT, ao mesmo tempo em que ela vai ganhando contornos definidos e características próprias, a partir da consolidação do grupo.

A escolha da produção teórica para efetuar a análise está rela-cionada a dois motivos que não se excluem: u m , c o m a observação inquestionável do incremento das produções ligadas à História da Edu-cação Física nos últimos tempos, que merece ser analisada. Como afirma Taborda de Oliveira (2006, p. 1):

É inegável o aumento quantitativo e qualitativo da produção em História da Educação Física hoje no Brasil. Seja aquela produção oriunda dos Programas de Pós-graduação em Educação Física, Educação, História, Ciências Sociais, o fato a ser reconhecido é que há, hoje, um conjunto de pesquisadores que se dedica à História da Educação Física, seja de forma esporádica, seja de forma sistemática.

Outro, parte do pressuposto de que a produção científica de pes-quisadores, expressa na forma de trabalhos apresentados e m u m dos eventos de maior fôlego da área de Educação Física, confere legitimi-dade à existência de u m grupo de trabalho. Analisados, os trabalhos publicados nos Anais, permitem ver os avanços, os limites e as possi-bilidades, as perspectivas apontadas no trato com u m conhecimento específico, nesse caso, dos temas relativos à memória e à história.

Além da produção científica, foi necessário também considerar a documentação elaborada por membros do GTT quando da solicitação de sua criação, b e m como outros textos e documentos que ajudaram a com-preender a sua trajetória. Por fim, prestamos especial atenção às práticas desenvolvidas no âmbito do GTT, que auxiliaram a constituí-lo.

O estudo f o i dividido em duas fases. Uma primeira fase, na qual se mapeou, c o m base nos Anais, todos os trabalhos que se aproximam de alguma forma da temática da história. Para isso, foi necessário o estabelecimento de critérios que permitissem identificar e categorizar os trabalhos, considerando-se aspectos como recorte temporal, uso de fontes, referencial teórico, entre outros. Esses critérios nos permitiram dividir os trabalhos publicados em dois grandes grupos: aqueles que de-nominamos "com perspectivas historiográficas" e outro que "dialogam

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com a história". Esse procedimento f o i realizado com a leitura dos títu-los, resumos e trabalhos completos constitutivos dos Anais.5 Foi possível também identificar autores, suas titulações e as instituições envolvidas na constituição do GTT. Identificaram-se e mapearam-se também, nessa fase, outros espaços, no âmbito do CBCE, nos quais as temáticas relati-vas à memória e à história apareciam. Essa identificação f o i considera-da relevante, pois, a nosso ver, esses espaços contribuíram, de alguma maneira, para a constituição do GTT, seja porque possibilitaram a reu-nião de pesquisadores desejosos de discutir a memória/história e m u m espaço específico destinado para tal - os cursos, seminários e painéis que tematizaram a história são exemplos disto - , seja por que indicaram que o tema era relevante para o CBCE - os temas dos congressos o u a constituição de mesas são também exemplos - , criando, portanto, u m clima favorável para a constituição do GTT.

O primeiro levantamento ofereceu subsídios para a segunda etapa do estudo, que foi uma análise qualitativa. As interrogações que nortea-ram esse processo fonortea-ram construídas ao longo do estudo, c o m o mergu-lho nos dados, os quais nos permitiram identificar o perfil dos trabamergu-lhos apresentados e dos pesquisadores, as fontes utilizadas, as tendências historiográficas predominantes, o trato metodológico, os recortes tem-porais privilegiados, as temáticas mais recorrentes, entre outros.

Vale lembrar que não tivemos a pretensão, no presente trabalho, de analisar pontualmente o conteúdo de cada trabalho publicado, mas de, com base neles, identificar tendências, de forma que essas ajudassem a compreender a constituição do GTT como u m lugar de produção.

Este estudo considera dois grandes movimentos: o primeiro, ca-racteriza-se pela fase embrionária dos estudos históricos e m Educação Física e esportes, configurado, em u m primeiro momento, pela incipien-te quantidade de trabalhos com perspectivas historiográficas e, em u m segundo momento, pela paulatina ampliação quantitativa e qualitativa de trabalhos, pelo aumento e pela permanência de pesquisadores qua-lificados, de demandas específicas para atender a interesses comuns. O período abrange os congressos realizados entre 1989 e 1997, ano e m que ocorre a institucionalização dos GTTs. O segundo movimento, que

5 Ressalte-se que a precariedade das informações contidas nos resumos dificultou a identificação, fato atenuado a partir do momento em que os Anais passam a publicar os textos completos, o que acontece no ano de 1997.

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abarca os Conbraces de 1999 a 2005, caracteriza-se pelo aparecimento do GTT que tematiza a memória; em uma primeira fase, o GTT Memória, Cultura e Corpo e, depois, Memórias da Educação Física e Esporte. PRIMEIRO MOVIMENTO: PRODUZINDO A NECESSIDADE

DE U M LUGAR PARA A MEMÓRIA/HISTÓRIA

Realizado e m Brasília, em 1989, o V I Conbrace, ao privilegiar como temática o esporte, discute com base no conhecimento científico possibi-lidades de mudanças das condições em que esse fenômeno se encontra na América Latina. N o editorial dos Anais, é salientada a importância para as pessoas que abordam diretamente o tema de "conhecê-lo em sua tra-jetória histórica, podendo assim, compreender radicalmente os diferentes contornos por ele traçados e m diferentes momentos da sociedade latino-americana" (COLÉGIO..., 1989, p. 4). Tal perspectiva - o olhar a partir da história - é ressaltada pela diretoria6 e coordenação do evento, que busca ampliar e qualificar o debate científico privilegiando outras abordagens para além da "médico/biológica", então predominante.7

Destaca-se nesse congresso a realização de u m simpósio, ofe-recido pelo professor Mário Ribeiro Cantarino Filho, sobre "A vida e a obra do professor Inezil Penna Marinho", importante intelectual da Educação Física brasileira e estudioso da História da Educação Física e do Esporte.8 A ocorrência desse simpósio, mesmo que ainda isolada, é indício, encontrado no conhecimento produzido e veiculado no âmbito do congresso, da inserção da História e contribui para o fazer científico da área, o que será posteriormente legitimado por ações diversas, entre elas a criação d o GTT Memórias, no ano de 2005.

Vale lembrar que nesse congresso os GTTs ainda não existiam, situação que permanece até 1997. Por essa razão, todos os trabalhos

6 Celi Taffarel (Presidente), José Alberto Aguilar Cortez (Vice-Presidente), Michele Ortega Escobar (Diretora Científica), Antonio Roberto Rocha Santos (Diretor Administrativo), Adroaldo Cesar de Araujo Gaya (Diretor de Divulgação), Cláudio Hiroshi Miyagima (Diretor Financeiro). 7 A temática da memória/história já aparece no III Conbrace, realizado em Guarulhos, em 1983.

A Mesa Redonda sobre "Ciência do Esporte" contempla o tema abordando o "ontem, o hoje e o futuro". Mário Cantarino Filho participou da mesa, discorrendo sobre o "passado".

8 O CBCE, no XIV Conbrace realizado em Porto Alegre no ano de 2005, fez uma homenagem ímpar ao prof. Inezil, publicando o livro Inezil Penna Marinho: coletânea de textos, organizado por Silvana Vilodre Goellner.

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publicados nos Anais nesses anos foram analisados e foram seleciona-dos, para maior aprofundamento, os que apresentam perspectiva histo-riográfica o u dialogam c o m a História. O fato de termos acesso apenas aos resumos não nos permitiu identificar os trabalhos como pesquisas historiográficas, demarcando se há recorte temporal e uso de fontes pri-márias, além de trato metodológico. Entretanto, eles marcam época por apresentarem abordagens históricas.

Da totalidade de trabalhos publicados, que compreende resumos de 85 temas livres,9 foram identificados 5 temas livres com perspectivas históricas (anexo 1) e 2 que dialogam c o m a história (anexo 2). Não f o i possível distinguir as fontes utilizadas nesses trabalhos, o trato meto-dológico e o suporte teórico. Os recortes temporais, quando definidos, muitas vezes privilegiam marcos políticos e econômicos.

O conjunto de trabalhos apresentado pelo professor Mário Ribeiro Cantarino Filho (1989a, 1989b, 1989c, 1989d, 1989e), da Universidade de Brasília, é referência e demarca o início de uma produção científica, no âmbito do CBCE, que pensa a Educação Física e o Esporte a partir do referencial teórico da História. Os seus trabalhos, que parecem trazer elementos de uma "história tradicional" e m que conceitos como evolu-ção e comprovaevolu-ção são importantes, privilegiam, com base e m objetos de estudos diversos, como a Reforma Francisco Campos e a educação militar, o estudo da Educação Física nas décadas de 1930 e 1940, espe-cialmente durante o Estado Novo.

Cabe, aqui, ressaltar o importante papel que esse pesquisador exerce junto à Educação Física, quando elege a história como tema de suas pesquisas e constrói seus estudos tomando por base uma aborda-gem crítica, o que, segundo Melo (2005), é algo ainda incomum nos estudos históricos da Educação Física da época.1 0

Em 1991 é realizado, em Uberlândia, o V I I Conbrace. Com o tema "Produção e Veiculação do Conhecimento na Educação Física, Esporte e Lazer no Brasil: Análise Crítica e Perspectivas". O colégio convida a co-munidade científica para realizar uma avaliação "crítica e radical" da

pro-9 No editorial dos Anais, há uma observação dando conta de que, devido ao alto volume de trabalhos aprovados, haveria publicação de outros trabalhos desse congresso em números posteriores da RBCE. Essa informação não foi considerada no âmbito do presente trabalho.

10 O CBCE reconhece essa importância e, no Conbrace de 1997, realizado em Goiânia, o homenageia.

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dução dessa área de conhecimento, perspectivando, com base na iden-tificação e superação de lacunas e distorções, futuros desdobramentos (COLÉGIO..., 1991)- Essa proposta pode ser lida como u m convite para o exercício histórico; afinal, realizar uma avaliação e perspectivar desdo-bramentos é, em última análise, u m fazer próprio do campo da História. Cabe, então, perguntar se seria a interlocução entre as Ciências do Espor-te e a História, nesse momento, uma perspectiva em construção?

Desse evento foram analisados 110 comunicações orais/temas l i -vres, 28 comunicações coordenadas e 17 painéis. Todos na forma de re-sumos.1 1 Embora tivéssemos acesso apenas aos resumos dos trabalhos, pudemos vislumbrar a ampliação do número de autores que se ocupam com questões concernentes à História, seja a partir da Educação Física, do Esporte o u d o Corpo, temas privilegiados. No entanto, poucos traba-lhos revelam se há utilização de fontes e recorte temporal, b e m como a metodologia adotada. Nos resumos é recorrente a utilização do termo "histórico-crítico", seja para se referir à metodologia, seja para se referir ao embasamento teórico, ainda que os trabalhos não se configurem como historiografia - o que parece ser conseqüência e influência do fortalecimento de novas perspectivas para além da biomédica.

Das comunicações orais, três apresentam perspectiva historiográfi-ca, uma vez que têm a história como referencial para as análises de seus objetos, sobressaindo a temática da Educação Física (anexo 3). Destaca-se o trabalho pioneiro da professora Carmen Lúcia Soares (1991) que, ao delimitar o recorte temporal e explicitar as fontes utilizadas, como atas de reuniões científicas, relatórios de pesquisa, conferências e moções votadas e m congressos, indica o rigor metodológico de sua pesquisa. Circunstância também encontrada em uma comunicação coordenada com perspectiva historiográfica que também traz esses elementos funda-mentais para o fazer histórico e, ainda, infreqüentes nas pesquisas (ane-xo 4). Outras três comunicações orais, ao explicitarem a preocupação em compreender o desenvolvimento histórico o u analisar historicamen-te os seus objetos, estabelecem u m diálogo com a história, (anexo 5).

Nesse momento, evidenciam-se autores determinantes não só para a constituição e subsistência do GTT Memórias, mas também para

11 Vale lembrar que foram analisados, na presente pesquisa, os trabalhos que apresentam texto completo ou resumo. Foram excluídos trabalhos, simpósios ou painéis que aparecem somente com o título na programação.

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a consolidação da produção historiográfica da Educação Física/Esporte. A propósito, alguns autores já são professores de instituições federais e estaduais n o ensino superior e, hoje, encontram-se vinculados a pro-gramas de pós-graduação. Outros, naquele momento - a chamada fase embrionária - , estavam em formação na pós-graduação. Muitos são, atualmente, membros assíduos nas produções e debates construídos no âmbito do GTT Memórias e ocupam, o u ocuparam, cargos importantes no CBCE, como diretoria científica, editoria da RBCE, coordenação de GTT, vice-presidência, entre outros.

Realizado em Belém em 1993, o V I I I Conbrace privilegia a me-mória. "Que ciência é essa? Memória e tendências". Com esse tema, o colégio perspectiva esquadrinhar seus quinze anos de existência.

De fato, todos sabemos com quantos percalços e sucessos se construiu esta trajetória, de modo que agora, a partir do tema oficial deste novo en-contro, se trata, com paciência e profundidade, de nos debruçarmos so-bre nossa História e mirarmos antecedentes e perspectivas (COLÉGIO..., 1993, p. 3.)

Tendo como principal estímulo a comemoração, fato que também ocorre em 2003 quando o CBCE completa 25 anos, a memória e a his-tória tornam-se elementos essenciais para o debate científico, configu-rando-se, especialmente, e m temas de duas mesas redondas: "Educação Física/Ciências do Esporte no Brasil hoje e CBCE - 15 anos: Memória e tendências". Essa situação possibilita maior visibilidade a essa temática e proporciona o surgimento de novos interesses, financiamentos, recur-sos, e, conseqüentemente, o seu fortalecimento.

Nesse ano, a comissão organizadora do evento, ao constituir gru-pos específicos que agrupam comunicações orais/temas livres e comu-nicações coordenadas, lança os embriões dos futuros GTTs.1 2 Para essa comissão, "as temáticas abordadas tanto revisitam aspectos consolida-dos da prática e da teoria da área, como se lançam ao defrontamento de dimensões mais candentes da atualidade" (COLÉGIO..., 1993, p. 3). Nesse rastro, entre os trabalhos que apresentam perspectiva historio-gráfica, que ainda são poucos, embora possamos vislumbrar o início de

12 Ver na programação constante dos Anais (COLÉGIO..., 1993) a organização de diferentes grupos para reunir comunicações orais/temas livres e comunicações coordenadas com temas afins.

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u m alargamento das pesquisas com esse enfoque, e os que estabelecem diálogos c o m a história, surge pela primeira vez uma discussão meto-dológica. Victor Andrade de Melo (1993), ao suscitar possibilidades de utilizar técnicas da história oral n o âmbito da Educação Física, reflete sobre o papel d o documento e sobre o uso de técnicas documentais tradicionais junto às técnicas orais. Vale lembrar que essas questões são constantes e m suas intervenções, e m especial n o curso introdutório sobre História da Educação Física/Esporte no Brasil: O Uso de Fonte, m i -nistrado n o Conbrace de 1997. Por ações diversas, Victor Melo tem u m papel importante na constituição d o GTT Memórias.

D o material analisado, 4 comunicações orais/temas livres (resu-mos) apresentam perspectiva historiográfica das 163 analisadas e encon-tram-se, predominantemente, reunidas n o grupo "Teorias da Educação Física", uma vez que não há u m espaço institucionalizado para discutir questões relacionadas à memória/história (anexo 6). Destacamos, ainda, a existência de u m a comunicação coordenada (anexo 7) e de 2 pai-néis c o m perspectiva historiográfica d o total de 20 analisados (anexo 8). Nesses trabalhos, novos temas são contemplados, como gênero e Educação Física, lúdico e história oral. Outros permanecem, como os métodos ginásticos. A propósito, vale destacar a importância dos estu-dos historiográficos que problematizam a ginástica, tema muito privile-giado nos estudos iniciais com tal abordagem, o que pode ser verificado no congresso subseqüente, quando há a criação de u m grupo específico para abarcar esse assunto.

Apesar dos limites impostos pelos resumos publicados, podemos identificar que algumas pesquisas citam a utilização de fontes, embora não as nomeiem, e, tampouco, demonstrem a forma como as problematizam. Outros utilizam estudos descritivos e revistas. Algumas pesquisas citam fontes, até então, pouco evidenciadas, como crônicas e boletins. Poucos estudos delimitam o recorte temporal. Principia-se, assim, uma tendência em realizar pesquisas e m arquivos e problematizar temas da Educação Física/Esporte c o m base nas Ciências Sociais, distinguindo u m aporte teó-rico-metodológico específico do campo da história. Embora muitas vezes o trato metodológico não seja especificado, determinados estudos trazem indícios de tendências historiográficas utilizadas, o que pode ser percebido na citação de autores, como E. P. Thompson, o que demonstra o início de um diálogo profícuo com estudiosos importantes do campo da História.

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Foram também identificadas seis comunicações orais/temas livres e seis comunicações coordenadas que dialogam com a história (anexos 9 e 10). Esses estudos privilegiam temas diversos, como produção acadêmica da Educação Física, Educação Física escolar, ciências do esporte, corpo, futebol, voleibol, ginástica e saúde. Alguns são provenientes de pesquisas realizadas em cursos de pós-graduação em nível de mestrado, o que de-monstra melhoria na qualificação dos pesquisadores e, conseqüentemente, das pesquisas. Como os trabalhos anteriormente citados, esses também suscitam novas fontes, como estatutos, atas, congressos e correspondên-cias, revelando novas possibilidades de problematizações e estudos.

Todavia, embora a maioria desses trabalhos fique, no diálogo c o m a história, restrita à necessidade de contextualizar historicamente o seu objeto de estudo, o u de realizar u m resgate histórico para se obter maior aprofundamento de sua trajetória, outros denunciam o uso de aborda-gens específicas, como a histórico-dialética, bem como determinam u m recorte temporal, elementos essenciais no fazer histórico que vão se for-talecendo junto a outros, o que revela, com o passar dos anos, maior rigor metodológico e qualificação dos trabalhos. Entretanto, ainda são poucos os que delimitam o trato metodológico, e é c o m u m aparecer o apontamento de uma "análise crítica". Isso parece demonstrar certa preo-cupação em realizar pesquisas reflexivas vinculadas a questões sociais. Nesse congresso, encontramos, reunidos o u não em u m mesmo gru-po, pesquisadores que têm, até hoje, presença contínua nos congressos. Muitos já apresentam trabalhos com perspectivas historiográficas, suscitam ações metodológicas do campo da história, descobrem arquivos, valori-zam o uso de fontes de diferentes naturezas, constroem outras narrativas para objetos ainda pouco abordados para além da visão médico/biológica. Chamam, portanto, a atenção para o diálogo dos estudos da Educação Física e Esporte com as Ciências Sociais, especialmente a História.

O IX Conbrace é realizado em Vitória, em 1995. Procurando aten-der ao tema central do evento, "Interdisciplinaridade, Ciência e Pedago-gia", foram realizados três painéis e m que convidados dissertavam sobre as contribuições de áreas específicas para a Educação Física e Ciência do Esporte. Em u m dos painéis1 3 o Prof. Pedro Pagni discorre sobre as

contri-13 Nesse ano, os painéis acontecem em horário privilegiado, à noite, com duração de duas horas. Eles são organizados como mesas redondas, com a participação de dois convidados e um mediador, o que denota maior visibilidade à temática desenvolvida.

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buições da História e mostra, em u m tempo maior do que o destinado aos temas livres e comunicações coordenadas, as possíveis relações entre as áreas de conhecimento, revelando que o fazer historiográfico pressupõe, necessariamente, interdisciplinaridade.

Entre as diversas ações que se referem à memória/história, ocorre u m seminário introdutório sobre A Historiografia em Educação Física, ministrado por esse mesmo professor. Vale lembrar que essa é uma ini-ciativa que permanecerá e m anos posteriores.

Nesse ano, embora os Anais tragam apenas os resumos dos trabalhos apresentados em forma de comunicação coordenada e tema livre, houve a iniciativa da diretoria1 4 de solicitar aos autores u m texto no momento da inscrição: uma tentativa de melhor "qualificar este espaço de veicula-ção e discussão de conhecimento" (COLÉGIO..., 1995, p. 5). Destaca-se a participação, como diretora científica, de Silvana Goellner, pesquisadora importante no âmbito do GTT Memórias e no cenário nacional.1 5

Quanto à distribuição de trabalhos, permanecem os grupos. Todavia, surgem novas demandas específicas das quais destacamos, nas Comunicações Coordenadas, o grupo "História da Educação Física", coordenado por Eustáquia Salvadora de Sousa, e, nos Temas Livres, os grupos "História da Educação Física", coordenado por José Tarcísio Grunennvaldt, e "História da Educação Física - ginástica", coordenado por Fernanda S. L. de Paiva. Neste grupo, especialmente, embora haja predominância da temática história da ginástica nem todos os trabalhos apresentam perspectiva historiográfica. Alguns realizam apenas u m apanhado histórico. Uns não apontam o uso de fontes primárias, outros f i -cam restritos à ginástica - conceitos, práticas, exercício físico e atividade física. Da mesma forma, entre as palavras-chave dos trabalhos e m geral, que aparecem pela primeira vez nos Anais, há a recorrência de termos como História e História do homem, entre outros similares. Entretanto, muitas vezes os estudos não remetem a pesquisa historiográfica.

14 Valter Bracht (Presidente), Elenor Kunz (Vice Presidente), Silvana Goellner (Diretora Científica), Iracema Soares (Diretora Administrativa), Sérgio Carvalho (Diretor de Divulgação) e Wilton Trapp (Diretor Financeiro).

15 Atualmente, ela coordena o Centro de Memória do Esporte (CEME), implantado desde 1996, na Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que abriga a coleção CBCE.

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Foram publicados sessenta resumos de comunicações coordena-das,16 dos quais sete apresentam perspectiva historiográfica (anexo 11), revelando u m aumento significativo n o número de trabalhos. Também a qualidade melhorou significativamente, uma vez que foram envia-dos textos completos para apreciação. Entre os pesquisadores, alguns freqüentam cursos de pós-graduação e m Educação Física e Educação, especialmente nas linhas de pesquisas vinculadas à história.17 A pre-sença de uma pesquisadora de Portugal marca o início de u m frutífero intercâmbio entre pessoas de diferentes países interessadas na temática História/Educação Física.

A maioria dessas comunicações coordenadas e também dos temas livres está localizada no grupo "História da Educação", o que prenuncia o estabelecimento e fortalecimento de u m grupo de pessoas preocu-padas com tal abordagem. Várias pesquisas resultam de dissertações. Isso mostra u m movimento contínuo na qualificação dos pesquisadores. Aparece pela primeira vez u m estudo que tem a preocupação de levan-tar fontes sobre Educação Física/esporte e ginástica, desvelando uma temática essencial, ainda inexplorada. Vale dizer que pesquisas dessa natureza também devem ser privilegiadas, como as que realizam análi-ses interpretativas, porque, ao produzirem o mapeamento e a cataloga-ção de fontes, organizam arquivos, evidenciam acervos, delineiam pos-sibilidades de caminhos e suscitam novos objetos e questionamentos. Além disso, despertam pesquisadores para a necessidade de conhecer e explorar arquivos e, conseqüentemente, realizar pesquisas com base nas fontes ali encontradas. Como evidencia Taborda de Oliveira (2006, p. 11), "da massa documental resultante desse esforço coletivo de pes-quisa poderiam [ou podem] advir estudos históricos e historiográficos de grande relevância, uma vez que os esforços de busca, localização e catalogação de fontes seriam compartilhados entre diversos pesquisado-res, instituições e grupos de pesquisa".

16 Embora os nomes das formas de apresentação de trabalhos (comunicação, tema livre, etc) muitas vezes permaneçam, isso não significa que os formatos - tamanho do texto, tempo de apresentação etc. - sejam mantidos. Da mesma maneira, há mudanças de formatos de um congresso para o outro.

17 Ainda que os Anais não tragam a titulação dos pesquisadores, essa informação pode ser observada em outras produções que circularam na época.

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Capítulo XI

Entre os temas privilegiados nos trabalhos, destaca-se a Educação Física, contemplada por enfoques diversos, como a prática pedagógica e as relações de gênero. Há uma ampliação da natureza das fontes utili-zadas, destacando-se para além das escritas - como legislação, livros de ensaio, teses de medicina, publicações periódicas, registros impressos e reportagens de jornais e revistas - e orais, as iconográficas, como a fotografia.

Ainda poucos trabalhos delimitam o recorte temporal, predomi-nando estudos sobre o século XIX. Muitas vezes não há preocupação em definir o trato das fontes e é apontada apenas a realização de uma consulta sistemática o u u m estudo. Da mesma forma, não são identifica-das tendências historiográficas predominantes. Nesse momento, parece não existir ainda preocupação de utilizar métodos próprios da historio-grafia.

Dos 184 resumos de temas livres analisados, 9 apresentam pers-pectiva historiográfica (Anexo 12). U m , especialmente, problematiza a utilização nos estudos da Educação Física de teorias e metodologias da história, o que parece ser muito pertinente nesse contexto, pois, como se pode observar nas comunicações coordenadas, os resumos não revelam o trato metodológico utilizado, b e m como as tendências historiográficas.

O tema mais recorrente é a Educação Física e, e m segundo lugar, a ginástica. Surge aí uma fonte que, posteriormente, será mais explo-rada: a literatura. Predominam estudos que privilegiam os séculos XIX e XX. Os pesquisadores mantêm as mesmas características citadas no âmbito das comunicações coordenadas, o que denota a manutenção da qualidade dos trabalhos, mesmo que e m formatos diferentes.

Nesse congresso, como nos anteriores, há trabalhos que, ao de-senvolver u m breve relato histórico ou fazer referência ao objeto estu-dado c o m base e m seu processo histórico, dialogam com a história. Essa postura pode ser encontrada entre as comunicações coordenadas (ane-xo 13) e entre os temas livres (ane(ane-xo 14), situação ainda recorrente na Educação Física, pois, como afirma Taborda de Oliveira (2006, p. 12),

ainda é comum observarmos trabalhos que recorrem à malfadada "contex-tualização histórica" para depois passar a discorrer sobre políticas públi-cas, etnografia, formação de professores [...]. Ou fazemos a sua história ou deixamos o seu estudo para aqueles "especialistas" desses temas.

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No X Conbrace realizado em Goiânia, e m 1997, com o tema "Re-novações, Modismos e Interesses", nascem os GTTs, instância organi-zativa do CBCE, pólos aglutinadores de pesquisadores com interesses comuns em temas específicos, que "estabelece o processo de reflexão coletiva sobre o conhecimento que é produzido no campo da educação física"(COLÉGIO..., 1997).

Sobressai a realização de u m curso introdutório, ministrado por Victor Andrade de Melo, intitulado História da Educação Física/Esporte no Brasil: O Uso de Fontes. Segue a ementa:

O curso terá por objetivo discutir a importância da utilização de fontes nos estudos históricos ligados à Educação Física e ao Esporte. Para tal, pretende-se fazer um panorama do uso de fontes na história dos estu-dos históricos na área, apresentando discussões metodológicas básicas, experiências recentes no uso de fontes de diferente natureza, bem como novas possibilidades que se apresentam com o uso dos recursos da in-ternet como ferramenta para o pesquisador.18.

Esse espaço constituiu-se de problematização e debate, e privile-giou a discussão acerca de fontes, tema ainda pouco abordado. Entre as suas diversas contribuições, há, na avaliação final, u m indicativo da neces-sidade de criar u m GTT que abarque trabalhos sobre memória/história.

Nesse congresso foram apresentados 294 trabalhos, entre textos e resumos, dos quais 22 apresentam perspectiva historiográfica (anexo 15), Esses trabalhos foram expostos nos diversos GTTs existentes, pois ainda não havia u m espaço institucionalizado que abarcasse estudos dessa natureza.1 9

A publicação de textos na íntegra nos Anais, que ocorre pela pri-meira vez, possibilita-nos confirmar a melhora na qualidade dos traba-lhos. A maioria são pesquisas historiográficas em que muitos autores se preocupam em explicitar as fontes utilizadas, o recorte temporal adota-do, a bibliografia utilizada e em definir o trato metodológico adotado.

18 As informações sobre o curso foram acessadas no arquivo pessoal de Victor Andrade de Melo, pois não tivemos acesso ao livro de programação. Não sabemos, portanto, se há informações no programa a esse respeito.

19 A leitura dos Anais não possibilita identificar o formato em que os trabalhos foram apresentados. Por essa razão, optamos por não nomear os formatos dos respectivos trabalhos.

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Capítulo XI 259

Esse congresso mostra-se, portanto, como local de veiculação e avalia-ção de uma produavalia-ção científica mais qualificada.

Os temas abordados são ampliados, fato que revela o dinâmico estágio em que se encontram os estudos históricos sobre a Educação Física/Esporte, embora muitas vezes os problemas suscitados sejam re-petidos. Alguns temas, c o m enfoques diversos, persistem, como a gi-nástica, a Educação Física, o corpo, o esporte e a discussão acerca das fontes. Surgem outros, como a disciplina História da Educação Física, a recreação, o lazer e o movimento estudantil, transparecendo u m vasto universo de objetos e estudos.

Entre as fontes, agora mais freqüentemente anunciadas, aparece a cultura material, como troféus, medalhas, placas comemorativas e uni-formes, indícios da utilização de tendências historiográficas não tradicio-nais. Alguns trabalhos aproximam teorias a práticas culturais cotidianas. A aproximação entre ciência e arte ocorre mediante a problematização de fontes de naturezas diversas, como a literatura e as artes plásticas, a fotografia e o desenho. A imagem como fonte é evidenciada. Alguns trabalhos, ainda que poucos apresentam u m refinamento no fazer histó-rico. Os recortes temporais privilegiam os séculos XIX e, especialmente, o XX. Há trabalhos que tratam da história recente, geralmente privile-giando períodos curtos. Começam a aparecer metodologias específicas do campo da história.

Alguns estudos, preocupados em realizar uma reconstituição histó-rica do seu objeto, apresentam elementos de uma "história geral", crono-lógica, com a utilização de uma abordagem positivista. Uns se propõem a realizar uma análise crítica, que, em geral, não fica bem definida. A o mes-m o temes-mpo, algumes-mas pesquisas, sob influência de pesquisadores do cames-mpo da educação, como Dermeval Saviani e Jean-Claude Forquin, estabelecem interlocução com estudos sobre história das disciplinas/matérias escola-res. Já outros sinalizam interlocuções com a História Cultural e fazem re-ferência a autores importantes, como Lynn Hunt. Ressalta-se a influência da Escola de Annales, quando são referenciadas contribuições de Lucien Febvre e Mare Bloch. Há referência a autores importantes, como Walter Benjamin, Eric Hobsbawn, Peter Burke e Gilberto Freire, o que parece demonstrar u m fortalecimento no referencial teórico utilizado.

A maioria dos pesquisadores é vinculada a instituições de ensi-no superior. Alguns estão em qualificação em nível de pós-graduação - especialização, mestrado e doutorado - , o que denota a permanente

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formação e, conseqüentemente, melhoria na qualidade e rigor científico dos trabalhos. Vale destacar que alguns programas têm linhas de pes-quisas concentrados no campo da História, como Teoria da História e História e Filosofia da Educação.

Entre os autores, há nomes que, desde o final da década de 1980, problematizam a Educação Física e o esporte a partir do referencial da História. Todavia, há também pesquisadores e m início de formação, o que manifesta novos estímulos, b e m como novas narrativas e novos objetos de estudos.

Outros quatro textos dialogam com a história (anexo 16). O perfil dos pesquisadores aproxima-se do já mencionado. As temáticas abor-dadas são: criança, olimpíadas, Educação Física e profissionalização do esporte. Predominam as mesmas características e configurações ante-riormente citadas de trabalhos que dialogam c o m a história.

SEGUNDO MOVIMENTO: Q U A N D O A MEMÓRIA/HISTÓRIA APARECE INSTITUCIONALIZADA COMO GTT

O X I Conbrace foi realizado em Florianópolis, em 1999, c o m o tema "Educação Física/Ciências do Esporte: Intervenção e Conhecimen-to". Fruto da decisão tomada na Reunião Institucional do CBCE, durante a Reunião Anual da SBPC, em agosto de 1998, na cidade de Natal, apa-rece, pela primeira vez, o GTT 12 - Memória, Cultura e Corpo. E nasce em meio a certa tensão, pois parte da diretoria da é p o c a2 0 não concor-dava com a criação de GTTs que tivessem características disciplinares. O Estatuto do CBCE também não permitia.

A proposta para a criação desse GTT resultou da articulação de pesquisadores ligados ao campo da História - Carmen Lúcia Soares, Vic-tor Andrade de Melo e Silvana Vilodre Goellner - baseados, sobretudo, no argumento de que havia uma considerável produção científica sobre o tema capaz de dar vida a u m Grupo de Trabalho Temático. A ementa que caracterizou o GTT nesse momento f o i : "Estudos das diferentes

20 Elenor Kunz (Presidente),Tarcísio Mauro Vago (Vice-presidente), Iara Regina Damiani de Oliveira (Diretora administrativa), Paulo Ricardo do C. Capela (Diretor Financeiro), Carmen Lúcia Soares (Diretora Científica), Osni Jacob da Silva (Diretor de Divulgação), Silvana Vilodre Goellner (Coordenadora Ggeral dos GTTs). Na composição dessa diretoria observa-se a presença de três pesquisadores envolvidos com o campo da história - Tarcísio Vago, Carmen Soares e Silvana Goellner.

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Capítulo XI 261

manifestações da cultura corporal desenvolvidos a partir de distintos matizes teóricos próprios ao campo das ciências sociais" (GRUPO..., 2001, p. 33). A redação dessa ementa tentava atenuar a discussão sobre a natureza d o GTT - temático ou disciplinar?21 Os debates ocorridos na ocasião, de algum m o d o , sustentavam-se na idéia de que as disciplinas História e Antropologia - ou os temas da cultura e da memória - eram imprescindíveis para compreender o corpo, não podendo o CBCE dei-xar de lado essa possibilidade de abordagem.2 2

A coordenação do GTT ficou a cargo de Victor Andrade de Melo, e o comitê científico, formado posteriormente, era composto por Silvana Goellner, Andrea Moreno, Carmen Lúcia Soares e Eustaquia Salvadora de Souza.23

No Congresso foram apresentadas 22 comunicações,2 4 com textos completos, e 39 pôsteres,2 5 resumos, n o GTT Memória, Cultura e Cor-po. Analisados os textos das comunicações foram encontrados quinze trabalhos, portanto a maioria, com metodologia própria do campo da História (anexo 17).

Percebe-se que, dos quinze trabalhos apresentados, dois eram de doutores, oito de doutorandos, dois de mestres, dois de mestrandos, u m de magister.2b Dois trabalhos são de pesquisadoras estrangeiras -

Portu-gal e Argentina. Dos quinze, treze eram professores de ensino superior. Esse perfil é revelador. Há uma quantidade considerável de pesquisa-dores e m contínua formação - dez estão em processo de qualificação, predominando o nível de doutorado. Esses dados permitem pensar que o GTT tinha, como se argumentou por ocasião de sua criação, uma quantidade "estável" de pesquisadores que vinham se dedicando ao estudo dos temas relativos à Educação Física, ao esporte e ao corpo, c o m base e m uma perspectiva da memória e da cultura. De fato, boa parte desses pesquisadores está presente, até hoje, não só produzindo

ZLVer mais em http://www.cbce.org.br/br/acontece/materia.asp?id=33, A natureza científica dos GTs. 22 Ver o capítulo "Memória, cultura e corpo: intervenção e conhecimento" (GOELLNER, 1999), em

que aparecem argumentações similares.

23 Informação pessoal do então coordenador, pois esses dados não constam dos Anais. 24 Um dos textos está sem autor e não está elencado na programação. Outro está na programação,

mas não se encontra nos Anais. Estes não foram analisados.

25 Dois pôsteres elencados na programação não estão nos Anais. Estes não foram analisados 26 Título conferido na Argentina para tese de maestria, equivalente ao título de mestre no Brasil.

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trabalhos no campo da história da Educação Física e do esporte, mas também freqüentando o GTT, como membro pesquisador, como mem-bro do comitê científico.2 7

Parece significativo também o fato de a maioria dos trabalhos do GTT serem pesquisas historiográficas com recorte temporal e uso de fontes primárias. Os trabalhos apresentados demonstram avanços consideráveis no que se refere à qualidade e ao rigor. O rompimento com determinadas escritas da história, seja aquela identificada como u m "amontoado de datas e fatos", seja aquela identificada por uma visão fortemente ideologizada, também aparece. Há, significativamente, uma preponderância de trabalhos que dialogam com a História Cultural.2 8 Boa parte dos trabalhos procura, explicita o u implicitamente, se inserir em u m conjunto de estudos sobre educação física, esporte e corpo, e suas relações com a educação, com a cidade, com as instituições, i n -formados por u m campo conceituai da história da cultura. Autores que marcam esse campo historiográfico, tais como: Roger Chartier, Michel de Certeau, Walter Benjamin, Edward Palmer Thompson, entre outros são recorrentes. Antes da constituição do GTT, os trabalhos eram iden-tificados por uma marcante fragilidade no trato com a história, muitas vezes apenas para justificar uma "abordagem histórica". Essa realidade vai chegando ao f i m .

A preocupação com a metodologia própria do campo da histó-ria vai ganhando mais lugar e é possível apreender isso da leitura dos trabalhos. Em dois textos, no de Fernanda Paiva (1999) e no de Victor Melo (1999), aparecem mais fortemente as discussões de caráter teórico-metodológico.

Analisados os 37 resumos de pôsteres, foram encontrados 11 tra-balhos com perspectiva historiográfica (anexo 18). Os autores eram: u m doutor, 5 doutorandos, u m mestre, u m mestrando e 3 graduandos. São possíveis as mesmas reflexões sobre o perfil dos apresentadores reali-zadas para as comunicações. Os números parecem reveladores, pois demonstram que, à época, existia u m grupo de pesquisadores e m

for-27 Ainda é notória a presença de membros do GTT, pesquisadores do campo da História, em diretorias do CBCE. Esse dado, embora não tenha sido foco de análise, parece dar ao GTT Memórias alguma visibilidade, além de respaldar decisões tomadas no interior do Grupo de Trabalho Temático.

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Capítulo XI 263

mação no campo da História realizando pesquisas historiográficas. O nível da titulação dos pesquisadores que apresentaram comunicações e pôsteres é, em sua maioria, de doutores e doutorandos.

O fato de todos os membros do comitê científico serem pesquisado-res do campo da história da Educação Física e Esportes e serem pesquisado- respon-sáveis por definir a forma de apresentação dos trabalhos encaminhados pode sugerir a predominância de trabalhos com perspectivas historiográfi-cas nas comunicações coordenadas29 - 15 trabalhos em 20 analisados - e bem menos e m relação aos pôsteres - 11 em 37.

Na programação do evento, há ainda a participação de duas histo-riadoras - Denise Bernuzzi Santana e Margareth Rago - na mesa-redonda "Corpo e Racionalidades". A presença das pesquisadoras, conhecidas por trabalharem a temática do corpo em uma perspectiva historiográfica, re-vela que há, no âmbito mais geral do CBCE, u m interesse pela temática. Nesse aspecto, é b o m ressaltar a presença da professora Carmen Lúcia Soares na Direção Científica do CBCE. O fato de essa professora ser mem-bro do GTT, pesquisadora do campo da história e ocupante de u m cargo de influência sobre a programação do evento, sem dúvida, concorreu para a formação dessa mesa e para a participação das historiadoras no congresso. Cabe ressaltar que a presença dessas pesquisadoras no even-to, ainda que e m outra atividade fora do âmbito do GTT, possibilitou a sua participação na programação do Grupo de Trabalho, qualificando o debate e legitimando o espaço do campo da História no GTT.

A décima segunda edição do Conbrace foi realizada em 2001, na cidade de Caxambu (MG), com o tema "Sociedade, Ciência e Ética: De-safios para a Educação Física".3 0 O GTT 6 Memória, Cultura e Corpo era coordenado pelo professor Ricardo Lucena.3 1

29 Apesar de o CBCE divulgar insistentemente que a forma de apresentação dos trabalhos não era definida pela sua qualidade, mas pela sua natureza, essa compreensão não era efetivada pela comunidade acadêmica. Nesse evento, observaram-se muitas controvérsias em relação aos encaminhamentos do comitê científico.

30 À época a diretoria era composta por: Lino Castelllani Filho (Presidente), Tarcísio Mauro Vago (Vice-Presidente), Gabriel Palafox (Diretor Administrativo), Nivaldo Antônio Nogueira David (Diretor Financeiro), Amarílio Ferreira Neto (Diretor Científico). Não há informação sobre a coordenação geral dos GTTs.

31 Victor Melo era coordenador do GTT até o ano 2000, quando se afasta por discordar da diretoria do CBCE quanto à gestão dos GTTs. Ricardo Lucena assume, convidado pelo Prof. Amarílio F. Neto, então diretor científico. Ricardo e Amarílio eram da mesma instituição (Universidade Federal do Espírito Santo - UFES), e o convite foi também motivado pela facilidade do processo

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Como já havia ocorrido no congresso de 1997, organiza-se u m espaço, fora do âmbito do GTT, neste caso u m Seminário Introdutório, i n -titulado "Tendências da pesquisa histórica e m Educação Física e Esporte no Brasil", ministrado por Rucardo Lucena. O seminário possibilitou a discussão da temática da história para pesquisadores iniciantes. Tais ini-ciativas, ao se configurarem como espaços de formação, seja para novos pesquisadores, seja para pesquisadores já experientes, ajudam a agregar pessoas interessadas na temática da história, possibilitam a criação de espaços de sociabilidade e trocas de informações e auxiliam, portanto, a consolidar o GTT.

De m o d o diverso do ocorrido n o congresso anterior, neste, os autores, ao enviarem seus trabalhos, já indicavam a modalidade de apre-sentação - poster ou comunicação oral. O GTT Memória, Cultura e Corpo organizou suas comunicações e m forma de mesas, procurando com isso qualificar o debate. As mesas reuniam trabalhos c o m temáticas próximas, o que facilitou a interação entre os pesquisadores.

Foram apresentados 32 trabalhos, dos quais 15 com perspectivas historiográficas (anexo 19). Mais uma vez, essa temática predomina no GTT, ainda que dividindo espaço c o m outros campos. Assim como no Conbrace anterior, chama atenção a titulação dos apresentadores de tra-balhos com perspectivas historiográficas. Percebe-se também a presença de muitos pesquisadores que já estavam presentes no GTT em 1999-Mais uma vez, corrobora a hipótese de que há u m grupo de pessoas que sistematicamente se dedica ao estudo da História. A participação contínua desse grupo no GTT ajuda a qualificar o debate nesse espaço, rompendo definitivamente com o modelo de temas livres.

É nítida a existência de u m perfil disciplinar no GTT: a maioria dos trabalhos apresentados tem caráter historiográfico e aborda diversos temas: ginástica, Educação Física, lazer, corpo, intelectuais.3 2 Mantém-se a inspiração teórica na História Cultural, e há uma tendência do recorte regional dos estudos, notadamente de acordo com a região e m que o pesquisador está inserido. O fato de as fontes estarem localizadas em

de recebimento e avaliação dos trabalhos. Não encontramos registros de nomes dos membros do comitê científico.

32 Esse perfil fará parte do argumento que sustentou a posição do GTT sobre a criação de Grupos de Trabalhos disciplinares. Esse encaminhamento foi debatido em 2006, na SBPC de Florianópolis e será abordado mais adiante.

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Capítulo XI 265

arquivos próximos ao pesquisador pode demonstrar que há no desen-volvimento dos estudos uma "prática de arquivo", necessária ao fazer historiográfico. Isto também demonstra u m grau de maturidade das pes-quisas apresentadas no GTT. Parece ser também significativo o fato de os trabalhos constituírem-se na sua maioria em pesquisas desenvolvidas em cursos de pós-graduação.3 3

Analisados os vinte resumos de pôsteres foram encontrados qua-tro trabalhos c o m perspectiva historiográfica (anexo 20). A escolha da forma de apresentação pelos pesquisadores não afeta a predominância de trabalhos com recorte historiográfico no GTT. Estes continuam sen-do encaminhasen-dos e aprovasen-dos, e m sua maioria, para comunicações. O comitê científico continuava a ser preponderantemente do campo da História.

No GTT Memória, Cultura e Corpo há, dessa forma, uma predomi-nância da "memória", e é esse o espaço, legitimado pouco a pouco, que pesquisadores elegem para o debate de estudos com recorte histórico. Ainda que seja possível encontrar outros trabalhos dessa natureza em outros GTTs, é este o que acolhe a ampla maioria dos trabalhos - fato que ajuda a gestar a idéia de desmembramento do GTT em dois: u m que abarque os estudos ligados ao corpo e à cultura, e outro, que acolha os trabalhos relativos à Memória da Educação Física e do esporte. Ressalte-se que o desmembramento motiva debate no interior do GTT3 4 e é, a prin-cípio, apoiado pelos pesquisadores tanto do campo da Cultura quanto da História. Esse debate ganhará maturidade no congresso de

2003-Realizado na cidade de Caxambu (MG), com o tema "25 Anos de História: O Percurso do CBCE na Educação Física Brasileira", o XIII Congresso d o CBCE. e m 2003, é particularmente importante para o GTT. Nele se decide pelo seu desmembramento. Mais uma vez é em uma data

33 Escapava ao objetivo do trabalho identificar os Grupos de pesquisa, vinculados aos diferentes programas de pós-graduação, que, pouco a pouco, vão aparecendo. Mas começa a ser possível perceber grupos de estudo e pesquisa, no campo da história, enraizados em diversos estados: Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.

34 Em 2002, na cidade de Belo Horizonte, o comitê científico do GTT reunido discutia a necessidade de seu desmembramento e a criação de um GTT com um recorte mais preciso do campo da história. Na SBPC de Goiânia, em 2002, uma proposta é apresentada formalmente por Carmen Lúcia Soares.

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comemorativa que a História ganha destaque. A diretoria3 5 da época en-fatiza, pelo tema, a importância da preservação e d o resgate da memória do CBCE: "expressa a vontade coletiva de que não sejam esquecidos os esforços de todos aqueles pesquisadores, desde os seus fundadores até os seus agregados mais recentes, no sentido de construírem a história dessa sociedade científica"(CONGRESSP..., 2003).

Em decorrência da temática do evento, são organizadas mesas que tratam explicitamente da história do CBCE e da Educação Física brasi-leira. Nos Anais eletrônicos estão dois textos de mesas-redondas que abordam a temática: "Do corpo, da Educação Física e das muitas histó-rias", de Carmen Lúcia Soares (2003) e Sobre a experiência e a história, de Marcus Aurélio Taborda de Oliveira (2003).3 6

Outro fato significativo para o GTT foi o lançamento da revista do CBCE que tematizava pela primeira vez a História da Educação Fí-sica e do esporte. Considerando-se a Revista Brasileira de Ciências do

Esporte (RBCE) u m veículo que torna pública a qualidade da produção

científica, e este, o número específico da História da Educação Física e do esporte, merece destaque o editorial assinado pelo Diretor Científico Amarílio Ferreira Neto (2003, p. 7):

A importância de uma revista científica é conferida pela credibilidade que lhe é outorgada pela comunidade científica à qual é vinculada e pela abrangência dos seus canais de difusão, além da relevância dos co-nhecimentos nela tratados. Para os autores, além da contribuição social e da consolidação da área, a importância das revistas científicas assim concebidas reside em dar visibilidade ao trabalho de pesquisa, como um meio de comunicação com seus interlocutores - pesquisadores e pares -,os quais congregam uma certa "sociedade do discurso" 1...] Este número temático de História da Educação Física e Esporte constitui-se em um exemplo do papel de um editor de um periódico que chega a sua maioridade acadêmica. A comunidade científica encaminhou 62 artigos: 41 deles assinados por doutores, 20 artigos assinados por mestres ou doutorandos e apenas um artigo de professor sem essas titulações.

35 Ana Márcia Silva (Presidente), Sílvia Cristina Franco Amaral (Diretora Administrativa), Pedro José Winterstein (Diretor Financeiro), Amarílio Ferreira Neto (Diretor Científico); Marcílio Souza Júnior (Diretor de Divulgação). Não conseguimos informação sobre o coordenador geral dos GTTs. 36 Não foi possível saber se outras mesas tematizaram a história, pois nem todos os palestrantes

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Capítulo XI 1267

Nesse sentido, o lançamento dessa revista temática revela a con-solidação de u m interesse pelo tema da História da Educação Física e do esporte e expõe o panorama que, de alguma forma, já podia ser observado na trajetória do GTT. Ressalte-se que a maioria dos autores dos artigos são membros desse grupo de trabalho. Segundo o editor, os dez artigos selecionados, somados aos quatro encomendados a autores estrangeiros, "compõem u m panorama plural, representativo e qualifi-cado do que v e m sendo feito por esse segmento de pesquisadores da Educação Física brasileira"(FERREIRA NETO, 2003 p. 8 )3 7

O professor Ricardo Lucena3 8 mantinha-se coordenador do GTT Memória, Cultura e Corpo, e o comitê científico era constituído por: A n -drea Moreno, Carmen Lúcia Soares, Eustáquia Salvadora de Souza, Mari-lita Aparecida Arantes Rodrigues, Silvana Vilodre Goellner, Victor Melo, Eliane Pardo Chagas, Carlos José Martins, Luis Otávio Teles Assunção.3 9

Foram apresentados 28 trabalhos, dos quais 19 com perspecti-vas historiográficas (anexo 21). Foi possível identificar, também, dois trabalhos e m forma de comunicação que, não sendo propriamente his-toriográficos, dialogam fortemente com a história (anexo 22). Foram apresentados, ainda, 29 pôsteres, dos quais 7 com perspectivas historio-gráficas (anexo 23).

Dos 28 trabalhos aprovados para comunicação, a ampla maioria, 21, tinha caráter historiográfico o u dialogavam fortemente com a história. A correlação de trabalhos presentes sob a forma de pôsteres mantém-se menor, não por isso com menos qualidade. No que foi possível identificar, todos os trabalhos eram advindos de pesquisas desenvolvidas no âmbito de cursos de pós-graduação o u em programas de iniciação científica. O

37 Devido ao elevado número de artigos encaminhados e aprovados, a RBCE decide lançar mais um número com a mesma temática. Em janeiro de 2004, surge o número 2, do volume 25 da RBCE. Nas palavras do editor, ainda o Prof. Amarílio: "Nesta RBCE publicamos mais 10 artigos sobre História da Educação Física e Esporte, em função da elevada demanda qualificada que recebemos, o que fez com que a direção nacional do CBCE optasse por publicar mais um número com a mesma temática" (FERREIRA NETO, 2004, p. 8). EsSe fato, ocorrido pela primeira vez desde que a RBCE tornou-se temática, fala por si só.

38 Ricardo Lucena não pôde comparecer ao Conbrace por motivos de saúde. O comitê científico encarregou-se de, coletivamente, organizar os trabalhos durante o congresso. Nesse evento estava previsto um seminário introdutório que seria ministrado por Lucena, intitulado

Tendências da pesquisa histórica em Educação Física e Esporte no Brasil. Não nos foi possível saber se houve o seminário, conduzido por outro professor.

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grupo que constitui o GTT mantém-se estável, ainda que u m ou outro autor ainda não tivesse apresentado nos congressos anteriores.

Podemos inferir que é dessa "estabilidade", da constituição de u m grupo que não desenvolve trabalhos com caráter historiográfico apenas esporadicamente, mas sistematicamente - fato que permite, inclusive, o reconhecimento de grupos e a articulação entre pesquisadores indepen-dentemente da realização do congresso - que é possível pensar e m u m grupo de trabalho específico que reúne esses pesquisadores. A criação do GTT Memórias da Educação Física e Esporte é, portanto, u m proces-so que se dá "de dentro para fora", com o reconhecimento de u m grupo de pesquisadores, com a qualificação dos trabalhos desenvolvidos e uma permanência/ampliação desses fatores.

Fruto da discussão no congresso anterior, o encaminhamento d o pedido de desmembramento do GTT foi decidido na reunião final de avaliação do evento. A idéia era que houvesse u m GTT que tematizasse mais especificamente a questão da história e outro que permanecesse com a discussão sobre corpo e cultura. O GTT decidiu que durante o fim do ano de 2003 e início de 2004 iria construir coletivamente argu-mentos para o encaminhamento do pedido.

De fato, isto aconteceu no ano de 2004, depois de u m debate virtual entre os membros do GTT. Em documento, o grupo solicitava à Direção Nacional a criação do GTT 13 - Memórias da Educação Física e Esporte, em função de vários motivos, que p o d e m ser assim resumidos: a criação de vários grupos dentro do GTT, que limita o aprofundamento das discussões com temáticas afins; a considerável ampliação do núro de participantes e a criação de grupos de pesquisa e centnúros de me-mória com essa temática; a dificuldade de estabelecimento de critérios para a seleção de trabalhos, devido à amplitude e imprecisão temática; o esvaziamento conceituai do GTT; a dificuldade de manutenção de u m núcleo permanente de participantes (GRUPO..., 2004).

Nesse documento, o grupo de pesquisadores resgata a organiza-ção dos congressos pelos GTTs. Lembra os vários problemas vividos em sua trajetória, desde o início, em 1997, em torno de uma nova maneira de tratar os estudos apresentados; a cultura de temas livres, que marcava fortemente a área, implicando na grande circulação de espectadores. De maneira explícita, o documento assume a existência de u m grupo de pesquisadores que se dedica à pesquisa histórica e que se sente

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deslo-Capítulo XI 269

cado, sem espaço para dar vazão à sua produção, sobretudo, sem poder desfrutar da interlocução de seus pares (GRUPO..., 2004). Mais ainda, expressa o motivo e a conseqüente estratégia que desenvolveu para se constituir como temático, ainda que, reconhecidamente, tivesse u m forte caráter disciplinar:

Este grupo de pesquisadores propôs, durante a realização da Reunião Anual da SBPC de 1998, na cidade de Natal e no âmbito da Reunião Ins-titucional do CBCE, a criação de mais um GTT que pudesse expressar, ainda que minimamente, as pesquisas que tivessem um recorte no cam-po da História. Como naquele momento havia uma forte resistência em alterar qualquer medida até então tomada no que concerne à forma de organização do Conbrace em GTTs, uma vez que se considerava ainda, uma experiência muito nova, o grupo proponente cuidou para que o GTT proposto, expressasse mais uma temática e não se caracterizasse como um grupo de trabalho disciplinar, receio dos criadores do sistema GTT (GRUPO..., 2004).

Sobre esse aspecto ainda, e no caso específico do GTT Memória, Cultura e Corpo, o documento expressava também a insatisfação com os argumentos que sustentavam a justificativa da não disciplinarização: "entende-se hoje que esta proposição inicial não é mais possível de ser sustentada neste caso específico, dada à pulverização das discussões em função da indefinição de u m eixo norteador, seja ele disciplinar o u não" (GRUPO..., 2004) Perspectivando, dessa forma, outras maneiras legíti-mas de organizar u m grupo de pesquisadores e m uma entidade cientí-fica que preserva a pluralidade e respeita as práticas e culturas que se organizam, independentemente de estatutos e regimentos, o documento propõe o desmembramento do GTT Memória, Cultura e Corpo.

A ementa apresentada no documento não mais velava essa con-dição: "Estudo das diferentes manifestações dos campos da Educação Física e do Esporte voltados para a preservação da memória e que te-nham por base suportes teórico-metodológicos da pesquisa histórica" (GRUPO..., 2004).

Com o intuito de responder à solicitação que ora se apresentava, a Direção científica constituiu uma comissão para a avaliação do pedido. Por escrito, e enviada por meio de mensagem eletrônica aos membros do GTT que faziam a solicitação, o professor Marco Paulo Stigger

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sin-tetizava a preocupação da comissão, exatamente na direção do debate acerca da natureza científica dos GTTs:

Um dos principais argumentos teóricos [...] contra o desmembramento trata-se do risco de criarmos GTs disciplinares, quando o princípio que orienta a proposta dos GTs é de grupos temáticos que visam romper com os conhecimentos disciplinares. [...] A própria ementa sugerida pelo grupo parece esquecer ou colocar em segundo plano a natureza não disciplinar dos estudos da memória, quando faz questão de explicitar que o GTT passará a abarcar os estudos que tenham por base o suporte teórico-metodológico da pesquisa histórica.

Baseando-se nessas considerações, a direção do CBCE entendia que os argumentos apresentados no documento, embora legítimos, fe-riam as decisões institucionais anteriores e podefe-riam fomentar a criação de outros GTs com caráter disciplinar, pelo que, solicitavam a revisão da ementa de forma que o novo grupo que estava por se formar deixasse explícita a orientação temática.

No ano de 2005, realiza-se o XIV Conbrace, e m Porto Alegre, com o tema "Ciência para a vida".4 0 Pela primeira vez é implementado o GTT Memórias da Educação Física e do Esporte, após a aprovação de sua constituição em 2004, já com a ementa alterada: "Estudo das diferentes manifestações dos campos da Educação Física e do Esporte voltados para a preservação da memória e que tenham por base suportes teórico-metodológicos de diferentes campos disciplinares e suas relações c o m a história como processo" (CONGRESSO..., 2005b, p. 211).

O coordenador era Kleber do Sacramento Adão, e o comitê cien-tífico, constituído pelos professores Carmen Lúcia Soares, Andrea Mo-reno, Silvana Goellner, Ricardo Lucena.4 1 Constituído com uma ementa mais voltada para o campo da memória/história, o GTT passa a ser mais específico, o que se revela no perfil dos trabalhos apresentados.

40 À época a diretoria era composta por: Ana Márcia Silva (Presidente), Silvana Vilodre Goellner (vice-presidente), Terezinha Petrúcia da Nóbrega (Diretora Administrativa) Sílvia Cristina Franco Amaral (Diretora Financeira), Marco Paulo Stigger (Diretor Científico), Pedro José Winterstein (Diretor de Divulgação). O professor Stigger assumiu, como diretor científico, a coordenação dos GTTs, auxiliado, por ocasião do congresso, pelo professor Vicente Molina.

41 Essa informação não consta nos Anais e também não foi confirmada pelo então coordenador. É possível que haja outros membros não citados aqui.

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Capítulo XI 271

Foram apresentadas 20 comunicações orais; 18 apresentam pers-pectiva historiográfica (anexo 24) e 2 c o m forte diálogo com o campo da história (anexo 25). Quanto aos pôsteres, foram apresentados 11; desses, 8 com perspectiva historiográfica (anexo 26) e 3 apresentam diálogo com o campo da História (anexo 27).

É possível identificar, na maioria dos trabalhos apresentados, re-cortes temporais claros, privilegiando, o século X I X e X X .4 2 Há a utili-zação de diferentes tipos documentais, inclusive com investimento na fonte oral, pouco encontrada anteriormente. Percebe-se também maior maturidade no trato c o m as fontes, revelada pelo cruzamento, e m mui-tos trabalhos. O debate metodológico mantém-se em alguns trabalhos - discussões sobre a concepção de fonte, o trato com elas e a experiên-cia dos arquivos são os temas abordados.

Como já havia ocorrido e m congressos anteriores, registrou-se também nesse a presença de pesquisadores de instituições internacio-nais. Essa marcada presença, tendência já verificada anteriormente, con-tribui para a legitimidade do grupo de trabalho, que auxilia no diálogo com pesquisadores além das fronteiras do Brasil e estreita a relação de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.43

Entretanto, há uma tendência do aparecimento de trabalhos e pes-quisadores que, ou privilegiam u m recorte temporal mais próximo do presente, ou que abdicam de fontes primárias, o u que não deixam claro no recorte teórico o diálogo com autores próprios do campo da História. Essa tendência indica a necessidade de o GTT debater com mais profun-didade os critérios de análise dos trabalhos, sob pena de comprometer a qualidade conquistada ao longo de sua trajetória.

Passando da análise dos trabalhos às práticas, constatou-se ao f i m d o congresso de 2005, na reunião de avaliação do grupo, que esse processo de desmembramento do GTT Memória, Cultura e Corpo e a conseqüente implementação do GTT Memórias ajudou a qualificar o espaço do grupo de trabalho, que agora se constitui, sem sombra de

42 Apenas um trabalho apresenta como recorte temporal o século XVIII.

43 Esse diálogo ficará mais evidente na Mesa-redonda Renovação Historiográfica na Educação Física, organizada pelo GTT Memórias, especificamente pelo Prof. Marcus Taborda de Oliveira, por ocasião do X Congresso Nacional de História do Esporte, Lazer, Educação Física, e Dança, realizado em maio/junho de 2006, na cidade de Curitiba, com a participação, entre os palestrantes, além do próprio Marcus Taborda de Oliveira, também Raumar Rodriguez do Uruguai e Pablo Ariel Scharagrodsky da Argentina.

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dúvida, como pólo aglutinador de pesquisadores em torno de interesses comuns. É possível reconhecer, com isso, instituições e pesquisadores mais afinados com as reflexões e m torno da memória/história e, de fato, reconhecer u m grupo de trabalho envolvido no processo de produção do conhecimento histórico. O GTT está definitivamente consolidado.

Se parte da importância de u m GTT pode ser medida na credibili-dade conferida ao seu espaço, expresso na forma de participação efetiva e apresentação de trabalhos pela comunidade científica, entende-se que a importância desse grupo de trabalho, independentemente de sua nature-za científica, está aí refletida. Ainda mais, sua importância se faz também refletir na sintonia com as orientações da Direção Nacional, que aponta e reconhece os GTTs como lugar de sistematização do conhecimento.

Finalizase esse evento com a eleição de nova coordenadora A n -drea Moreno - e a tomada de decisões importantes que vão balizar as ações do GTT nos dois anos seguintes. Institui-se u m comitê científico com número reduzido - Marcus Taborda de Oliveira, Carlos Fernando Cunha Jr., Ricardo Lucena, Maria Cristina Rosa - , na procura de agilizar os trabalhos. Instituise também u m grupo ampliado de colaboradores -Meily Assbú Linhales, Silvana Vilodre Goellner, Victor Andrade de Melo, Tarcísio Mauro Vago, Eustaquia Salvadora de Souza, Vera Luiza Moro, Antônio Jorge Soares, Kleber do Sacramento Adão, Carmen Lúcia Soares, Marilita Rodrigues - , que ajuda a debater questões relativas ao GTT.4 4

Nesse período, duas discussões foram importantes e construídas co-letivamente por esse grupo: a construção de argumentos para a criação das áreas do CNPq4 5 e o posicionamento do GTT a respeito da alteração de estatuto do CBCE durante a reunião da SBPC de 2006, em Florianópolis.

Sobre este último ponto, os membros do GTT Memórias, após debate em lista de discussão, decidiram encaminhar a proposta de alte-ração da natureza dos GTTs, de forma que eles pudessem se constituir também como disciplinares. Essa alteração possibilitaria a criação poste-rior do GTT História da Educação Física e do Esporte. Os membros do

44 Implementou-se uma lista virtual na qual o grupo troca, continuamente, informações, debate idéias e delibera, quando necessário.

45 Em setembro e outubro de 2006, o comitê ampliado do GTT, atendendo à chamada da entidade na contribuição para alterar a tabela para as áreas de conhecimento proposta pelo CNPq, Capes e Finep, elaborou e encaminhou proposta ao CBCE. Na ocasião, o GTT, após debate, decidiu encaminhar proposta de criação da subárea, História do Esporte, não acolhida pela direção científica.

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