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POLÍTICAS EDUCACIONAIS DE INCLUSÃO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA

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Academic year: 2021

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POLÍTICAS EDUCACIONAIS DE INCLUSÃO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA EM LUANDA

Daniela Lobo D´avila Universidade de Brasília – UnB Selma Alves Pantoja Universidade de Brasília – UnB Paulo de Carvalho Universidade Agostinho Neto – UAN Eixo Temático: Política educacional inclusiva

Palavras-chave: Políticas Públicas; Angola; Pessoas com Deficiência.

1. Introdução

Esta pesquisa analisa as políticas educacionais de inclusão e direitos das pessoas com deficiência em Luanda. A proposição desse trabalho faz parte da minha pesquisa de doutoramento no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional da Universidade de Brasília (UnB), sob a orientação da Profª Drª. Selma A. Pantoja (UnB, Brasil) e do Prof. Dr. Paulo de Carvalho (Universidade Agostinho Neto - UAN, Angola), que co-orienta esta pesquisa.

Carvalho (2008) pesquisou a situação de exclusão social das pessoas com deficiência na cidade de Luanda e demonstrou que elas são alvo de marginalizações diversas, uma vez que a condição da deficiência conduz a limitações no acesso aos bens socialmente pretendidos, como a instrução acadêmica, o emprego e o prestígio social. Para o autor, a estigmatização das pessoas com deficiência está relacionada com o contexto cultural de cada sociedade, uma vez que é esse contexto que determina o grau de desvalorização social ao qual essas pessoas são expostas. Nessa direção, Carvalho (2008, p. 27) observa que “a sociedade cria barreiras complementares a quem possui incapacidade física ou intelectual”.

Estudar outras realidades sócio históricas amplia os diálogos com as realidades vivenciadas em nosso próprio país sobre os processos relacionados ao imaginário, aos significados das práticas, aos poderes e aos conhecimentos transmitidos entre gerações. Isso acrescenta à pesquisa olhares múltiplos e transversais de mundos que dialogam sobre o direito

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da pessoa com deficiência nas suas diversas especificidades e amplitudes, na medida que essas realidades compõem significado ao vivido.

Esta pesquisa reflete sobre as estratégias de participação e mobilização de mulheres angolanas na construção de políticas de inclusão social e educacional das pessoas com deficiência em Luanda.

As inquietações que conduzirão o campo da pesquisa em Luanda são as seguintes:

Quais serão as representações sociais a respeito da pessoa com deficiência a partir das memórias, culturas e suas pertenças identitárias de mães e avós em Angola, ou de maneira mais específica, em Luanda? Como essas angolanas participam da mobilização na construção de políticas de inclusão social das pessoas com deficiência? Quais são os limites de sua participação? Até que ponto as pertenças culturais cerceiam essa mobilização?

2. Desenvolvimento

A análise qualitativa desta pesquisa tem como ponto de partida a investigação das representações sociais dos indivíduos a respeito das pessoas com deficiência no campo de estudo. A metodologia de trabalho contemplará 3 fases relevantes de organização. A primeira fase consistirá na revisão bibliográfica e estudo teórico a respeito das questões aqui levantadas (fase atual do projeto); a segunda fase consistirá na pesquisa de campo a ser realizada na cidade de Luanda de junho a dezembro de 2016, contemplando a análise de documentos e realização de entrevistas semiestruturadas e acompanhamento da realidade dos indivíduos da amostra de pesquisa para a produção dos dados qualitativos, e a terceira fase versará a análise dos dados.

Os 27 anos de guerra civil em Angola deixaram milhares de pessoas com deficiência, principalmente deficiência física, além de órfãos de guerra e ainda milhões de deslocados. Ademais, houve uma crescente debilidade dos serviços de saneamento e de assistência sanitária, a diminuição da qualidade do ensino, o aumento da pobreza e uma concentração cada vez maior da riqueza entre um pequeno grupo de pessoas, que pode ser traduzido no contraste abusivo de um país potencialmente rico, mas com altos índices de extrema pobreza (Carvalho, 2002; Bittencourt, 2002; Pantoja, 2011) 1.

A província de Luanda apresenta o maior número de habitantes do país; os resultados preliminares do Censo demográfico de 2014 demonstram que a população residente em Angola

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é de aproximadamente 24,3 milhões de habitantes. Considerando válida a estimativa da Organização Mundial de Saúde de que, aproximadamente, 10% da população de cada país possua deficiência, estima-se que há em Angola no mínimo 2,4 milhões pessoas nessa condição. Mas esse número é subestimado se considerarmos os resultados da guerra. Outras estimativas mais realistas apontam que a porcentagem de pessoas com deficiência é em torno de 20% em Angola (INE, 2014). Luanda, a capital, concentra a maioria da população com deficiência, essencialmente por ser a maior cidade do país e por possuir os centros hospitalares e educacionais com maior capacidade de tratamento, reabilitação física e educação (Carvalho, 2008).

Cabe destacar que, apesar das difíceis condições de acesso ao sistema educacional ainda enfrentado no país, verificam-se avanços significativos nos últimos 15 anos na área da Educação Especial. Muitas famílias têm acesso a atendimento educacional especializado. Atualmente a modalidade de educação especial atende cerca de 27 mil alunos com deficiência em 14 escolas de ensino especial e 687 salas integradas nas escolas regulares (Angola, 2014).

A trajetória de lutas pelo direito das pessoas com deficiência é retratada mundialmente e tem semelhanças em todas as realidades sociais. Ela carrega o fardo social de abandonos, de ignorâncias, de preconceitos, de culpas, de exclusão como parte da história e da luta desses sujeitos pelos seus direitos. Contudo, o avanço dos temas ligados aos direitos das pessoas com deficiência, provocaram, sem dúvida, um novo olhar em relação a essas questões (Lanna, 2010; Goffman, 1988). Não obstante, essa historicidade é marcada por paradigmas socioculturais que influenciam o comportamento, as atitudes e a representação a respeito das pessoas com deficiência. Esse imaginário encontra-se em constante reconstrução e precisa ser analisado conforme o contexto histórico e cultural de cada local.

Na conjuntura da segregação social, muitas famílias mantêm seus filhos com deficiência em casa ou os colocam em instituições. Para muitas dessas famílias, as instituições que oferecem reabilitação são utilizadas como refúgio contra o estigma social ou mesmo como isolamento (Jacobson, 2005; Angola 2014). Nesse sentido, Jacobson (2005) afirma que as instituições têm um papel importante junto da família, que é o de mostrar a elas o potencial de seus filhos, desmistificar a incapacidade e estimular ações participativas das famílias. O Instituto de Educação Especial de Angola (2006) afirma que no país há uma tendência de se enquadrar a deficiência numa estrutura médica e de assistência social. A ênfase sobre as

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necessidades médicas das pessoas com deficiência conduz a um desprezo correspondente às suas vastas necessidades sociais, resultando no severo isolamento delas e de suas famílias.

Vale ressaltar que em Angola há organizações não governamentais que se dedicam à perspectiva da participação social da pessoa com deficiência. Resultado disso é a criação da Federação Angolana das Associações das Pessoas com Deficiência (FAPED). Essa Federação é constituída por 26 associações representadas pelas próprias pessoas com deficiência, pelos familiares e profissionais que trabalham com a temática, demonstrando que existe o empenho social direcionado à garantia de direitos e igualdade de oportunidades. Entretanto, são poucos os estudos que analisam o trabalho realizado por estas associações e mesmo as iniciativas empreendidas pelas famílias das pessoas com deficiência. Em escala ainda mais reduzida estão os estudos que demonstram as trajetórias dessas famílias, não só das dificuldades causadas pela exclusão, mas da mobilização para saírem da invisibilidade social. Caberia aqui tentar compreender como o nascimento de um filho ou filha com deficiência na família mobiliza as mães angolanas no espaço público de Luanda, uma vez que a historicidade de cada cultura movimenta atitudes, comportamentos e a busca pela compreensão de suas histórias.

3. Conclusão

Diante desse panorama, evidencia-se não só a importância do desenvolvimento da cooperação Sul-Sul entre Brasil e Angola, mas o desenvolvimento de pesquisas relacionadas às pessoas com deficiência nestes países. Apesar de serem importantes as políticas de cooperação internacional de fomento e qualificação do diálogo sobre os direitos das pessoas com deficiência, que procuram fortalecer a capacidade de ação do Estado e da sociedade civil a esse respeito, urge a necessidade de desenvolvermos uma agenda de pesquisa que investigue desde os significados de viver a deficiência às formas de mobilização dos sujeitos e grupos sociais para verem seus direitos reconhecidos. A ausência de compreensão do que seja o ser e seus arredores da situação de deficiência não permitirá também formas mais amplas de abordar os temas que não seja nas suas maneiras exteriores de ajuda, assistencialistas e paternalistas. As pesquisas sobre o tema poderão evidenciar as agências de tais sujeitos sociais. Nesse contexto, levar a cabo esta pesquisa em Angola se revela uma oportunidade única para se compreender alguns aspectos sócio-histórico-culturais ligados às formas de mobilização de agentes sociais e das representações sociais a respeito das pessoas com deficiência em um país que possui inserção histórica fundamental nessa

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Referências

ANGOLA. Decreto Presidencial n.º 207/2014. Estratégia de intervenção para a inclusão social

da criança com deficiência. Disponível em:

http://www.scm.gov.ao/diploma_texto.php?diplomaID=121703. Acesso em: 12 mar. 2015. BITTENCOURT, Marcelo. “Estamos juntos”: o MPLA e a luta anticolonial. Tese, Universidade Federal Fluminense, 2002.

CARVALHO, Paulo. Exclusão social em Angola: o caso dos deficientes físicos de Luanda. Luanda: Kilombelombe, 2008.

_____________. Angola. Quanto tempo falta para amanhã?: reflexões sobre as crises

política, econômica e social. Portugal: Celta Editora, 2002.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: Guanabara, 1988.

INSTITUTO NACIONAL PARA A EDUCAÇÃO ESPECIAL - INEE. Plano Estratégico de Desenvolvimento da Educação Especial em Angola 2007-2015. Disponível em: http://planipolis.iiep.unesco.org/upload/Angola/Angola_EstrategiaparaEducacaoEspecial.pdf. Acesso em: 12 abr. 2015.

INSTITUTO NACIONAL DE ESTATÍSTICA - INE. Resultados preliminares do recenseamento geral da população e da habitação de Angola, 2014. Disponível em:

http://www.embajadadeangola.com/pdf/Publicacao%20Resultados%20Preliminares%20%20 Censo%202014_FINAL.13.10.14.pdf. Acessado em: 30 mai. 2015.

JACOBSON, E. “An introduction to Haitian culture for rehabilitation service providers in Culture and disability: providing culturally competent services”. Ed. John H. Stone, Thousand

Oaks, CA: Sage Publications (2005): 139–160.

LANNA J. (Comp.). História do Movimento Político das Pessoas com Deficiência no Brasil. Brasília: Secretaria de Direitos Humanos. Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, 2010.

PANTOJA, Selma A.; THOMPSON, E. As Culturas Africanas nas Encruzilhadas dos Mundos. In: Pantoja, Selma; Bergamo Edvaldo;Silva Ana. (Org.). África Contemporânea em Cena. Perspectivas Interdisciplinares. 1ed.São Paulo: Intermedios, v. 1, p. 79-91, 2015.

___________________Identidades, Memórias e História em Terras Africanas. São Paulo/Luanda: LGE/Nzila, v. 01. 212p., 2006.

Referências

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