Fepal - XXIV Congreso Latinoamericano de Psicoanálisis - Montevideo, Uruguay “Permanencias y cambios en la experiencia psicoanalítica" – Setiembre 2002
A Teoria das Transformações e os Estados Autísticos
Transformações Autísticas: uma proposta
Célia Fix Korbivcher1,
O trabalho integra duas áreas de reflexão: uma em que a autora desenvolve considerações acerca do método de observação dos fenômenos mentais em psicanálise, partindo da Teoria das Transformações de Bion; e outra, em que se ocupa com a investigação dos estados primordiais da mente −estados proto-mentais− mais
especificamente os estados autísticos em pacientes neuróticos, descritos por Frances Tustin Elabora reflexões acerca da postura filosófica subjacente à Teoria das
Transformações, dando ênfase especial à idéia de que um mesmo fenômeno em psicanálise pode ser considerado a partir de diferentes vértices, desde que se situe dentro do referencial teórico ao qual pertence.
Ao adotar a Teoria das Transformações como um vértice de observação dos fenômenos que permeiam o encontro analítico, a autora indaga se é possível destacar os fenômenos autísticos presentes em pacientes neuróticos, e incluí-los compondo um tipo particular de Transformação da experiência emocional, com a qual o analista freqüentemente é confrontado no cotidiano de sua prática clínica. Propõe o termo “Transformações Autísticas” para designá-la.
I
Partindo da experiência clínica, tem sido do meu interesse investigar certos tipos de fenômenos psíquicos particulares em que predominam estados primitivos da mente, estados proto-mentais, muitas vezes inacessíveis ao analista. Há pacientes que, embora se comuniquem predominantemente em níveis mentais neuróticos, conservam uma parte da personalidade em que prevalecem certos núcleos encapsulados impenetráveis, impedindo o
1,
acesso a determinados aspectos mentais e que mudanças reais ocorram ao longo da análise. (Tustin,1986, Klein, S. 1981).
Freqüentemente, nestas situações, segundo a minha experiência, a relação que se estabelece entre analista e analisando ocorre dentro de certos “padrões repetitivos” de comunicação, os quais ofuscam a percepção do novo, do desconhecido, por parte do analista, acarretando assim uma cristalização do processo analítico e a acomodação da dupla a esta situação.
Observo também que algumas manifestações específicas passam despercebidas ao analista e são excluídas do seu campo de observação. Refiro-me às manifestações sensoriais, em que predominam fenômenos proto-mentais e onde não há discriminação entre estímulos físicos e mentais. O impacto destes estímulos sobre a mente do analista é considerável e, dado seu grau de primitivismo, eles não adquirem representação, não se tornando, portanto, passíveis de transformação. As reações do analista a tais estímulos devem ser observadas e incluídas no seu campo de trabalho como um elemento essencial que irá dele fazer parte. Muitas vezes essas reações ocupam o lugar do pensamento. As manifestações corporais, a evasão, são expressões desses estados.
Adotando a Teoria das Transformações formulada por Bion como um método de observação dos fenômenos mentais no encontro analítico, proponho, como hipótese incluir os fenômenos presentes nos estados autísticos e destacá-los, caracterizando um tipo particular de Transformação da experiência emocional, entre aqueles já descritos por Bion. Penso que esta categorização, talvez possa vir a contribuir para uma melhor apreensão destes fenômenos propiciando o destaque de manifestações em pacientes neuróticos que, ao serem confrontados com vivências em que a dor mental não é suportada, recorrem a “manobras” de tipo autístico, como um meio de evitá-la.
II
É do conhecimento de todos que as descobertas no campo da Física Moderna alteraram completamente a visão do ser humano nas mais diferentes áreas do conhecimento. Os conceitos de espaço, tempo, matéria, causa e efeito, sofreram mudanças. (Capra, F., 1975).
Sabemos que um mesmo fenômeno pode ter diferentes interpretações dependendo do ponto de vista a partir do qual for observado. Em psicanálise poderíamos dizer que a apreensão de um fenômeno psíquico e o significado a ele atribuído relaciona-se, entre outras variáveis, ao referencial teórico que é utilizado pelo analista. Este entretanto não
deve ser considerado isoladamente, mas como parte de um contexto mais global; caso contrário, correremos o risco de cometermos enganos de julgamento.
As idéias de Bion, ao desenvolver a Teoria das Transformações, fariam parte de uma “postura filosófica” mais ampla, influenciada a partir deste novo modo de visão dos fenômenos?
É notório que a teoria de Bion gera, muitas vezes, grande perturbação e polêmica nas conversas dentro do meio científico, desencadeando um estado de inquietação.
O principal tema presente nas suas idéias, ligado ao desenvolvimento do pensar, acredito que é, em si, perturbador, uma vez que “o pensar” segundo meu entendimento, contrariaria a forte tendência do ser humano no sentido do “não pensamento”. O indivíduo, movido pela necessidade de evitar a dor decorrente do desamparo inerente à sua própria condição de impotência e limitação frente ao imenso universo desconhecido que ele habita, é impulsionado a organizar um mundo ilusório, ou mesmo alucinado, para que certo equilíbrio lhe seja assegurado. A teoria de Bion, sugere que a tarefa do analista é a de alterar esta organização, e tentar desenvolver a sua capacidade de tolerar a dor psíquica, de modo a transformá-la, permitindo-lhe conter os conteúdos que a sua mente produz e talvez, pensá-los.
O campo de trabalho do analista sugerido por Bion é o do aprendizado com a experiência emocional compartilhada pela dupla analítica, e a Teoria das Transformações é proposta como um vértice de observação dos fenômenos nesse campo, permitindo ao analista discriminar frente a que tipo de transformação da experiência emocional ele se situa. Adotando este vértice, o analista passa a incluir na sua observação a distorção intrínseca ao ato de observar, posto que a ferramenta de que dispõe para o trabalho é a sua própria mente, sujeita a movimentos psíquicos equivalentes aos de seu cliente. É a partir do contato com estes movimentos que o analista formula a sua versão da experiência emocional em curso. Dessa forma, ele abandona a posição de autoridade, de dono de um saber, portador de uma visão absoluta do fenômeno mental.
Esse foi, a meu ver, o ponto em que Bion “ousou perturbar” Grotstein, (1981) o que estava estabelecido, inserindo no campo analítico a figura do analista em “movimento”, “ativo”, à mercê do dinamismo que todo contato vivo impõe.
Sob a ótica da Teoria das Transformações, qualquer movimento tanto do analista quanto do analisando é considerado como um elo de uma cadeia de movimentos sucessivos, resultantes da interação que se estabelece entre a dupla analítica desde o
início do encontro. As transformações do analista são efetuadas neste campo. Dessa maneira, não lhe é mais possível atribuir um significado absoluto a determinado fenômeno experienciado na relação, mas sim oferecer ao analisando a sua transformação pessoal, constituindo esta apenas “uma” das possibilidades a ser considerada na abordagem do material.
A participação do analista na sessão é impregnada por elementos de sua própria personalidade, pela bagagem que foi amealhando a partir de experiências vivenciadas ao longo da vida, por sua intuição treinada durante a formação psicanalítica e por sua análise pessoal.
Como sabemos, o conceito de Transformação contém a idéia de invariância. Para que haja a transformação de uma experiência emocional, alguns elementos dessa transformação devem manter-se, não devem variar; caso contrário esta experiência não seria mais uma transformação da primeira, e sim uma outra experiência qualquer. Não se trata, portanto, de uma transformação aleatória, mas de uma transformação à qual estão conjugadas, entre outras, as invariantes próprias do sistema teórico adotado pelo analista, sistema este que direcionará, em parte, o enfoque da sua abordagem.
Penso que Bion ao propor a Teoria das Transformações como um método de observação dos fenômenos mentais, reproduz na situação analítica a experiência que mais se aproxima do que seria um encontro entre duas pessoas: duas mentes em movimento, interagindo, uma modificando a outra, a cada movimento ocorrido.
III
Partindo da idéia de que, em face de uma experiência compartilhada entre analista e analisando, o analista só tem acesso às transformações da emoção presente, uma vez que o contato com a emoção em si mesma não lhe é acessível, a questão que se coloca é: que tipo de transformação da experiência emocional o analista está compartilhando com o analisando a cada movimento? Qual seria a sua transformação daquela vivência?
Bion propõe as Transformações em Movimento Rígido, as Transformações Projetivas, as Transformações em Alucinose, as Transformações em K e (-K) e as Transformações em O. Pretendo deter-me apenas nas três primeiras.
Nas Transformações em Movimento Rígido, o campo dos fenômenos observados abarca o da Transferência clássica, descrita por Freud, na qual situações do passado são transferidas para a figura do analista sem “deformação”. (Symington, 1997).
Nas Transformações Projetivas, predominam os mecanismos de clivagem e de Identificação Projetiva, propostos por Klein, (1946). A mente projeta no interior do objeto o
acréscimo de estímulos internos, procurando, obter alívio. Cabe ao analista receber as projeções do paciente, acolhê-las e transformá-las, dando-lhes algum sentido, a fim de comunicá-las ao paciente, possibilitando-lhe que seu conteúdo possa ser mantido na mente e não mais expelido.
Nas Transformações em Alucinose, a experiência emocional vivenciada com a figura do analista como um objeto real é transformada de tal modo, que este é substituído por uma outra figura criada pelo analisando; a partir daí, toda a relação que o analisando estabelece com o analista torna-se independente dos fatos em curso, ganhando uma existência própria, autônoma, que desconsidera a realidade.
Esse tipo de Transformações revela-se pela presença de fenômenos em que:
“a rivalidade é uma característica essencial do relacionamento. As ações falam mais alto do que as palavras. O paciente apresenta-se como uma pessoa ansiosa para demonstrar sua independência de tudo o que não sejam as suas criações. Estas são o resultado da habilidade para usar os sentidos como órgãos de evacuação, envolvendo assim o analista num universo gerado por ele próprio, vivenciado como um mundo perfeito. A imperfeição é um sinal para a intervenção de forças hostis e invejosas. Graças à sua capacidade em satisfazer todas as suas necessidades a partir das próprias criações, o paciente é inteiramente independente de qualquer pessoa ou qualquer coisa que não sejam seus produtos...” (Bion, 1965).
Bion salienta que, em qualquer tipo de Transformação, em maior ou menor grau, o fenômeno da Alucinose encontra-se sempre presente, uma vez que considera ser esta uma função da mente.
Ao introduzir as Transformações em Alucinose, penso que Bion amplia consideravelmente o campo de observação psicanalítico, porque este conceito ilumina a presença de fenômenos psíquicos que contêm qualidades diversas daquelas consideradas até aquele momento, principalmente no que diz respeito à Identificação Projetiva descrita por Klein (1946). Penso que a abordagem da Teoria das Transformações deixa em aberto a possibilidade de que outros tipos de Transformações possam ser igualmente observados.
Bion, a partir da experiência com grupos e com pacientes psicóticos atentou para o fenômeno da Alucinose evidenciando-se a necessidade da utilização de um conceito que pudesse dar conta de tais níveis de comunicação e salienta que a presença deste mecanismo em pacientes neuróticos é mais freqüente do que supomos.
Encaro a preocupação de Bion, ao discriminar os diferentes tipos de Transformações, como uma tentativa de auxiliar o analista clínico a orientar-se frente aos
diferentes níveis de comunicação propostos pelo cliente, além de facilitar o intercâmbio científico entre os colegas.
Indago se ao adotarmos a Teoria das Transformações, seria possível nela incluir outros tipos de transformações da experiência emocional em que o fenômeno em evidência possua características de qualidades particulares, diversas daquelas descritas por Bion, e que possam assim ser igualmente destacados e nomeados.
I V
Frances Tustin, −entre outros autores, a partir da experiência de análise com crianças autistas, dedicou-se à investigação dos estados primordiais da mente, particularmente os estados autísticos. Como foi mencionado, Tustin e Klein, S. afirmam que, por trás da parte neurótica da personalidade, há uma parte em que predominam núcleos encapsulados, impenetráveis do self, resistentes a mudanças, acarretando a falta de contato emocional. Esses estados emocionais produzem fenômenos semelhantes às defesas autistas, cuja finalidade é proteger o self primordial de estados intoleráveis de não-integração.
Os fenômenos autísticos caracterizam-se pela presença de um estado de “recolhimento emocional” no interior de uma “concha protetora”, auto-gerada. O self retira-se do contato afetivo com o objeto com o intuito de evitar vivências dolorosas que lhe acarretariam uma sensação de desagregação, e vulnerabilidade intolerável. Os estados autísticos manifestam-se principalmente em indivíduos que apresentam uma sensibilidade extrema e uma auto-sensualidade exacerbada. Para estes a consciência da separação do objeto deu-se de maneira abrupta, sem que tivessem meios para suportá-la. Esta é vivida como se partes do próprio corpo tivessem sido arrancadas, acarretando experiência de aniquilamento, de buracos internos, “de buracos negros, descrita por alguns pacientes”. Tustin (1984,1990)
A hipótese central de Tustin (1990), no final de sua vida, ao referir-se aos estados autísticos, consiste na observação do que denominou de “estados de consciência, estados de sensação, nos quais os sentidos são os órgãos primários de consciência”. Diz ela: “A flutuação desses estados de consciência será a base dos estados de mente futuros”.
Tustin (1986) diferencia a mente do esquizofrênico da mente autista. A primeira encontra-se em um estado emaranhado, confuso com o objeto onde os mecanismos de Identificação Projetiva são muito ativos. O sujeito tem consciência de interior e de exterior e de que os objetos por ele fantasiados encontram-se no interior do corpo da mãe. Há um
anseio pelo objeto. O funcionamento da mente autista o caracteriza-se pelo fato do indivíduo situar-se num mundo dominado pelas sensações. Seu anseio é mais por sensações do que por objetos reagindo às pessoas pelas sensações que elas lhe provocam..
A noção de objeto no âmbito da parte neurótica da personalidade é muito diferente da noção de objeto nos estados autísticos. Nestes a noção de objeto interno, nem de objeto externo não se constitui, uma vez que a sua representação a nível psíquico como também a representação das fantasias ligadas a ele. As relações de objeto ocorrem, principalmente, através de relações com “objetos e formas autísticas”, ambos fortemente impregnados de sensações.
As relações com os objetos autísticos se caracterizam por experiências com objetos
duros e pelo contato com bordas. O contato sensorial com estes objetos é essencial, não por representarem outro objeto ou pela fantasia que eles podem desencadear, mas por eles se tornarem o próprio objeto. A consciência da falta do objeto é tampada pelo objeto autístico, de forma que os sentimentos de terror advindos da sua ausência sejam suprimidos. As relações de objeto através de formas autísticas consistem em experiências sensoriais que adquirem formas; estas, inteiramente pessoais, particulares daquele indivíduo, criadas a partir de substâncias corporais ou de objetos que são experimentados como tal. Não se trata de formas compartilhadas com outras pessoas, são “formas sentidas” que adquirem uma função apaziguadora e rudimentos da noção de limites, contendo em seu interior um espaço. Constituem predominantemente experiências de objetos macios e de substâncias corporais sentidas como reconfortantes e calmantes. (Tustin, 1980, 1984).
É freqüente na clínica depararmo-nos, com configurações como as que estou considerando. A partir da experiência com alguns pacientes, percebi que por muito tempo desconsiderei, na apreensão de seus estados mentais, algumas comunicações pré-verbais, expressas através de manifestações corporais. Posteriormente, percebi que essas comunicações idiossincráticas revelavam vivências muito profundas na relação analítica, para as quais o cliente não possuía uma linguagem verbal suficientemente desenvolvida. Dado o grau de não-integração dessas manifestações, o analista é muitas vezes engolfado pela situação, sendo a evasão um modo por ele encontrado de manter-se num estado coeso e de certo equilíbrio psíquico.
O reconhecimento e a inclusão, por parte do analista, de tais fenômenos na clínica ampliam consideravelmente o campo de observação dos estados mentais, possibilitando-lhe adentrar etapas primordiais do desenvolvimento emocional. A consciência destes estados de mente e o acesso aos mesmos, permitem que a separação entre o self e o objeto seja
encorajada, possibilitando que a análise prossiga, de modo a promover a elaboração desses estados e a evitar sua mera repetição.
Se utilizarmos a Teoria das Transformações como referência, penso que a apreensão dos estados autísticos se modifica. Abandona-se a visão descritiva de um fenômeno isolado, em que o analista, como um observador externo, irá interpretá-lo segundo os conceitos teóricos. O analista passa a ser inserido no contexto da experiência emocional compartilhada com o cliente e suas observações emergem como um elo de uma cadeia de sucessivos movimentos, decorrentes da interação, entre a dupla. Assim, a tarefa do analista fica circunscrita a vivenciar com o analisando os movimentos e suas “conseqüências”, presentes no encontro analítico.
Reunindo, os elementos descritos, e, destacando os fenômenos que caracterizam a presença desses estados na clínica, observa-se que o cliente, imerso nos estados autísticos, não inclui nem exclui a figura do analista na sessão; antes ignora a sua presença, permanecendo freqüentemente absorto em atividades ligadas ao próprio corpo, através das quais obtém prazer e conforto, e a sensação de bastar-se a si mesmo.
Estas “manobras” são geradas de forma a entreter a idéia de continuidade com o objeto e manter, assim, um estado mental minimamente organizado.
A atmosfera vivenciada pelo analista nesta configuração é a de “ausência de vida afetiva”, o que provoca, em sua mente, um alto nível de angústia tendendo à evasão, o que lhe dificulta manter-se em contato com a situação e comunicar-se. Tais vivências requerem da parte da sua parte uma disciplina de auto-observação constante, condição esta essencial para que sua mente seja resgatada, e para que possa permanecer na situação. Resta-lhe inicialmente comunicar ao paciente que suas manobras autísticas são decorrência de seu estado de terror.
Podemos conjecturar, nos termos de Bion, que o analista ao ser submetido a este tipo de experiência, encontra-se frente a um tipo de Transformação da experiência emocional cuja especificidade se liga à presença de fenômenos autísticos, e se o termo “Transformações Autísticas” poderia ser utilizado para designá-la.
. V
Partindo de fragmentos clínicos de dois clientes, exponho a distinção entre a qualidade da experiência emocional compartilhada pela dupla analista-analisando nas Transformações Projetivas, nas Transformações em Alucinose e nas “Transformações Autisticas”.
Mariana, uma criança de oito anos, chega ao consultório carregando uma grande
sacola repleta de papéis, pastas e cadernos. Ainda do lado de fora da sala, na porta, inicia uma conversa com seus alunos: oi, turma! A tia já chegou! Joga beijinhos para todos. Ignorando completamente a presença da analista e em meio a um clima de enorme satisfação e importância, espalha tudo sobre a mesa e começa a falar, dirigindo-se a interlocutores imaginários. De dedo em riste e com um ar autoritário, diz: gente, hoje a tia
quer todos quietinhos! A tia está cansada,silêncio! Vou ensinar contas para vocês! ...A
seguir, de forma muito brava, diz: já contei até quatro e quem piscar já sabe: vai ficar de
castigo! Estão todos hoje? André, Fernando? Que pena, a Carolina não veio! E você, o que quer da tia? Olha como ela é fofinha! Rapidamente a analista encontra-se na sala
acompanhada de todos esses seres criados por ela, seres que adquirem existência, vida própria. A superioridade, o ar de triunfo demonstrado por Mariana é imenso!
A analista ao tentar qualquer comunicação, é imediatamente interrompida e Mariana diz: você aí, quieta, nenhuma palavra, já sabe! Bate com sua régua sobre a mesa e, dirigindo-se aos outros alunos, diz: Olha como ela é bobinha, não sabe nada! Ela é a pior de
todas! Frente a esta situação a analista permanece imobilizada, impossibilitada de pensar,
reagir, trabalhar; resta-lhe apenas aguardar! A analista é engolfada por aquela atmosfera, sentindo-se impotente, sem ação, pois nem mesmo “piscar” podia. Vivencia momentaneamente a personagem que Mariana lhe atribui: a pior de todas as suas alunas. A sessão transcorre neste clima. Terminado o tempo, ela recolhe seus pertences e, da porta, dá um tchauzinho, dizendo: fiquem todos quietinhos, a tia vai embora e, quando voltar, quer
encontrar tudo em ordem.
Neste fragmento clínico, penso que a analista encontra-se predominantemente frente às Transformações em Alucinose, embora se observem também as Transformações Projetivas. A cliente cria, com muita habilidade e astúcia, um cenário em que seus “personagens” adquirem vida própria. A analista, como uma pessoa separada, não faz parte deste cenário, a não ser como mais um dos personagens, desempenhando exatamente o papel que lhe é reservado em meio aos seus alunos: a pior de todas! A atmosfera predominante nesta experiência é a de rivalidade e de superioridade da analisanda em relação à analista. Seu empenho é manter esta relação a qualquer preço, reagindo violentamente frente a qualquer ameaça de ruptura deste estado. O clima emocional da sessão é intenso, a situação é muito viva. A ação caracteriza-se por uma atividade evacuatória, cuja função é tentar manter o controle sobre a analista, de modo a
torná-la um objeto de sua criação, evitando assim o contato com a sua presença viva e dinâmica. Recorre para isso aos mecanismos da alucinose, sem os quais seria levada a se confrontar com a vivência de desamparo acarretada pela sua real condição de fragilidade e de impotência. O triunfo sobre a analista, ao “confirmar a superioridade de seus métodos” (Bion,1965), é significativo. Todos estes elementos reunidos nos indicam que as transformações efetuadas pela analisanda caracterizam-se pela presença dos fenômenos de alucinose. Nesta circunstância, a analista encontra-se frente a Transformações em Alucinose.
A analista vivencia um estado de impotência imposto pela intensidade da situação. Guardando no entanto uma distância, resta a ela apenas a possibilidade de, no momento oportuno, informar à cliente que do seu ponto de vista, toda a sua ação e a emoção em que estivera envolta é fruto de um estado de alucinose. A consciência desse fato talvez permita que o estado alucinatório se atenue. A analista deverá então aguardar com paciência até que surja a possibilidade de que a situação se altere, e emerja um interlocutor, de modo a que a comunicação entre a dupla se estabeleça em outro nível.
No fragmento clínico apresentado, foi mencionado que predominavam os fenômenos de alucinose, embora alguns movimentos se caracterizassem pela presença de Transformações Projetivas. Destaco que, nestes, observa-se, da parte da cliente, a projeção sobre a figura da analista de seus conteúdos internos indesejáveis. A analista é submetida ao impacto do que é ser uma criança pequena sujeita à violência de um adulto autoritário. A intensidade desta projeção chega a engolfar a analista e incorporá-la ao cenário montado pela cliente, levando-a a perder momentaneamente a dimensão da separação entre elas e a dimensão de que aquela é uma ação que não lhe diz respeito. Estes elementos apontam para a presença de fenômenos próprios às Transformações Projetivas. Nesta circunstância cabe ao analista acolher as projeções da analisanda e, com a capacidade de reverie e o exercício da função alfa, transformá-la, dotá-las de algum significado. A comunicação deste significado à cliente, permitirá, talvez, que aqueles conteúdos projetados, possam, agora, retornar de maneira a se tornarem mais toleráveis e passíveis de serem mantidos na mente.
Sabemos que os fenômenos de Identificação Projetiva e de Alucinose permeiam, em certa medida, qualquer comunicação. Penso que o importante é o analista discriminar, segundo seu ponto de vista, qual o fenômeno predominante em curso, pois sua abordagem irá diferir frente a cada tipo de transformação.
Ana é uma paciente adulta, encontra-se em análise há vários anos, atualmente
numa freqüência de três sessões semanais. É uma profissional competente, em sua área de trabalho, operando a maior parte do tempo com o que Bion denominou de parte neurótica da personalidade. Sua aparência é bastante cuidada. Masca constantemente um chiclete. Seu olhar é distante, sua expressão facial denota certa “ausência de emoção”. Ao entrar na sala, envolve-se com a sua bolsa, ajeitando-a vagarosamente no divã; deita-se, arruma a saia de um lado e do outro, cruza os pés. Introduz questões ligadas a horários, honorários, próximas férias, dando a impressão de estar se ocupando de algum aspecto prático da situação. Não há evidências de que tais questões se liguem a “ansiedades referentes à separação”; parece, isto sim, que este é um meio que a cliente encontra para se comunicar, uma vez que não dispõe de outros recursos para compartilhar uma experiência viva entre duas pessoas. O assunto rápidamente se esgota e ela se recolhe. Permanece num estado de silêncio absoluto, e mantém-se praticamente imóvel por longo tempo, parecendo estar sob o efeito de um potente anestésico. Além do chiclete, envolve-se com a manipulação do lóbulo da orelha quase o tempo todo. Todas essas observações, ao serem comunicadas a ela, pela analista, provocam-lhe uma reação violenta, como se tivesse sido agredida. Imerge a seguir em novo estado de recolhimento. Caso a analista não intervenha, formulando-lhe alguma idéia, esta situação se mantém por um longo tempo.
Em outras sessões, ao chegar, repete o ritual acima descrito, permanece imóvel, sem dizer uma palavra, até que ela mesma interrompe este estado, espreguiça-se, como se tivesse despertado daquele estado anestesiado, e verbaliza que se dá conta de que é
necessário falar alguma coisa. Inicia uma longa narrativa, plena de descrições minuciosas
de fatos ocorridos, relatados com tal riqueza de detalhes e desdobramentos que é impossível apreender o que está querendo transmitir. A analista tenta agarrar-se ao conteúdo da narrativa para dar algum sentido ao que está presenciando, mas aos poucos se torna claro que a função daquela fala é propiciar um estado de proteção e certo gozo com aquilo que a própria cliente produz, preenchendo assim, seu “estado de vazio” interior. A analisanda, ao escutar as observações da analista quanto à “ausência de emoção” e a função que suas providências práticas têm naquele contexto, reage, como se aquela intervenção ameaçasse romper o precário equilíbrio alcançado a partir do conforto por ela mesma gerado.
A experiência com esta paciente faz com que a analista oscile entre vivências de intensa emoção e um estado paralisado. Caso não se mantenha numa disciplina auto-vigilante, sua tendência é de desligar-se, distanciar-se, abandonando a cliente. Outras
vezes, porém, a analista, ao observá-la naquela situação anestesiada, não tendo com quem falar, sem encontrar meios de atingi-la, imagina “sacudi-la”, na tentativa de despertá-la daquele estado. Nota também que a sua condição de permanecer em contato com o “estado de vazio” da cliente não é estável, dependendo da angústia envolvida, além de outros fatores imponderáveis. Quando este contato é possível, a analista é capaz de resgatar sua função de pensamento, criar certo recuo em relação à situação, e perceber que tais manifestações são providências da cliente para manter-se protegida de um estado de extrema vulnerabilidade interior. Nesta circunstância, a emoção da analista se modifica e passa a observar que a fala minuciosa, o silêncio prolongado, o chiclete, a manipulação do lóbulo da orelha, os movimentos corporais da cliente, adquirem outra dimensão: expressam a vivência de um estado de terror pela consciência de existir psiquicamente separada do objeto. Sendo assim, ela se recolhe num estado encapsulado, gerando um objeto a partir de sensações obtidas no próprio corpo, entretendo a sensação de continuidade corporal com o objeto externo, evitando a intolerável dor mental provocada pela consciência da separação corporal do objeto e garante a preservação de certa coesão do self.
A atmosfera emocional observada no contato com Ana é bem diferente da descrita com Mariana. Ambas encontram-se imersas em um mundo próprio, no qual a presença do outro é desconsiderada. Fica evidente, porém, que a qualidade do fenômeno em cada uma das situações é bastante diferente e portanto a abordagem também difere.
Na relação com Mariana a analista compartilha uma experiência em que prevalece a presença de emoção. O ambiente é intenso, vivo, impactante predominando, na analista, a sensação de impotência, por encontrar-se desprovida de recursos para alcançar a cliente, a qual se mantém envolta num clima em que o fenômeno da alucinose prepondera.
Na relação com Ana, a analista vivencia a experiência de um “estado de vazio afetivo”. O contato que se estabelece é com um objeto sensorialmente presente, mas psiquicamente ausente, “sem vida afetiva” disponível para relacionar-se. O clima predominante na sessão é o de um estado de acentuado desconhecimento, por parte da analista, do universo que povoa a mente da analisanda. O grau de isolamento que esta situação acarreta, é considerável. Nesta circunstância, a analista necessita desenvolver instrumentos adequados para operar analiticamente. Se requer da sua parte discriminar o fenômeno em curso. Este conjunto de fenômenos reunidos apontam na direção do que estou propondo ser “Transformações Autísticas” .
Neste tipo de configuração a relação de objeto estabelecida por Ana ocorre através de sensações corporais, ou com objetos que são sentidos como físicos, tendendo a
agarrar-se a estas agarrar-sensações, que lhe dão um agarrar-sentimento de proteção. Dependendo da condição do momento, o sentimento de ameaça frente a qualquer tentativa da analista de aproximar-se de aproximar-seu mundo mental aproximar-se exacerba, temendo a analisanda que toda a sua organização se rompa abruptamente e que sua vulnerabilidade fique exposta.
VI
Neste ponto tentarei compartilhar com os leitores algumas inquietações e quanto às idéias que foram propostas.
É útil salientar que nem toda atividade auto-sensual na sessão se liga a “Transformações Autísticas”, mas o que irá permitir identificar a natureza da transformação em curso será a qualidade da experiência emocional determinada pelo analista naquele encontro. Há atividades auto-sensuais que produzem no analista emoções intensas, muito diferentes daquelas que ocorrem nas “Transformações Autísticas”.
Um outro ponto importante para discussão é que o impacto provocado pelos estados autísticos não pode ser confundido com o fenômeno da Identificação Projetiva. O grau de primitivismo presente nos estados proto-mentais provoca no observador reações intensas, igualmente desorganizadas, dando margem a se pensar que se trata de um fenômeno de Identificação Projetiva exitosa. Este é um engano, como disse, porque nos estados autísticos, o objeto não se constitui como um objeto separado. Desta maneira, não há a possibilidade de o cliente se livrar de seus conteúdos indesejáveis, projetando-os sobre o analista. O paciente, imerso nestes estados, está envolto consigo mesmo e com as sensações auto-geradas, sem que haja uma diferenciação entre o “eu” e o “não-eu”.
Esta é uma discriminação fundamental a ser feita, posicionando o analista frente ao nível de desenvolvimento mental em que o paciente se encontra. Acredito que tanto para o analista quanto para o analisando é preferível estar consciente do desconhecido que estas situações impõem, e das limitações para fazer face aos estados mentais envolvidos nelas. O risco de substituí-las por alguma abordagem enganosa e de entreter uma situação que não evolui é considerável. (Korbivcher, 1999).
Retomo algumas considerações em relação às transformações efetuadas pelo analista ao confrontar-se com as “Transformações Autísticas”. Sabemos que os estímulos mentais são poderosos nesta área em que predomina a ausência de emoção. Para o analista, pode ser intolerável permanecer frente ao estado mental de vazio afetivo. A maneira como o analista vai responder à comunicação em curso irá variar, conforme o interjogo de movimentos compartilhados pela dupla.
É freqüente o analista criar na sua mente um “outro analisando” com quem se comunicar, ignorando assim a condição mental manifestada pelo cliente. Oferece-lhe interpretações fundamentadas em determinadas teorias na tentativa de alcançá-lo, sem se dar conta do engano cometido. Este é um mecanismo utilizado pelo analista, que o livra do confronto com a situação tal qual ela se apresenta, substituindo-a por outra de sua criação. Considero que, nesta circunstância, os fenômenos de alucinose estariam predominando. Há situações também em que o analista, engolfado pela angústia de não encontrar um interlocutor com quem se comunicar, sem que possa conter os sentimentos que esta situação lhe provoca, tenda a livrar-se do desconforto experimentado. Muitas vezes ele expele, e projeta sobre a mente do analisando seus impulsos hostis decorrentes desta experiência, pressionando-o a operar com recursos que não estão disponíveis naquele momento. Na configuração descrita, penso que predomina o fenômeno da Identificação Projetiva exitosa. Poderíamos considerar as transformações do analista como Transformações Projetivas?
Outras vezes, dependendo do grau de angústia da situação presente, cria-se um abismo entre a dupla analítica. Cada um de seus elementos permanece absorto consigo mesmo, habitando um universo próprio, sem conexão um com o outro. Para fazer frente a esta situação, o analista pode se envolver com atividades ligadas ao próprio corpo, com atividades mentais suas, desvinculadas do cliente. Pode envolver-se também com o gozo pelo ato de falar, produzindo discursos longos que visivelmente atendem mais às próprias necessidades do que às do cliente. Indago se, neste caso, o analista estaria operando em
“Transformações Autísticas”. Outra possibilidade ainda a ser considerada é aquela em que o analista é capaz de
manter alguma distância em relação à experiência proposta pelo cliente, operar uma cisão em sua mente, sem se deixar engolfar por ela, sendo-lhe então possível discriminar a natureza da transformação da experiência emocional em curso. Nesta circunstância o analista resgata sua função de pensamento, e permanece frente a este universo isolado do cliente. Caso o analista possa transformar esta experiência em alguma comunicação e oferecê-la ao cliente, talvez se estabeleça a partir daí algum contato entre eles. A experiência do analisando de compartilhar com o analista este estado de vazio mental, de ausência de vida afetiva, e de ser informado por ele até mesmo quanto à sua ignorância em relação às vivências que habitam seu mundo interior, pode lhe ser extremamente valiosa, sendo esta uma rara oportunidade de sentir-se acompanhado por alguém. Penso que nesta circunstância o analista estaria operando em Transformações em (K).
As idéias desenvolvidas nesse trabalho possibilitam apenas a reunião de um determinado grupo de fenômenos mentais, caracterizados por suas manifestações específicas. Tal grupo, uma vez circunscrito, nomeado, e inserido num referencial teórico já consagrado, ganha existência própria. Tenho plena consciência, porém, de que, apesar do esforço envolvido na tentativa de reunir tais fenômenos −reportando-me à citação de Capra, mencionada na epígrafe−, “este modelo não dará conta por inteiro da descrição integral da situação real” .
BION, W. R. (1957). Differentiation of the psychotic from the non-psychotic
personalities In Second Thoughts. London: Heinemann, 1967. p. 43-64.
__________ (1962a). O Aprender com a Experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991. __________ (1962b). A theory of thinking. In Second Thoughts. London: Heinemann, 1967. p. 110-9.
__________ (1963). Elementos em Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 1991.
BION, W. R. (1965). Transformações: Mudança do Aprendizado ao Crescimento. Rio de Janeiro: Imago, 1983.
CAPRA, F. (1975). O Tao da Física. São Paulo: Ed. Cultrix, 1983.
KLEIN, M. (1946). Notes on some schizoid mechanisms. Int. J. Psychoanal., 27: 99-110.
KLEIN, S. (1981). Autistic Phenomena in Neurotic Patients In: Do I Dare Disturb the Universe?: a Memorial to Wilfred R. Bion. Beverly Hills: Caesura Press.
KORBIVCHER, C. F. (1999). Mente primitiva e pensamento. Rev. Bras. Psicanál, v.33, n.4, p.687-707.
TUSTIN, F. (1986). Barreiras Autistas em Pacientes Neuróticos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.
__________. (1992) The Protective Shell in Children and Adults. London: Karnac Book.
__________ (1984). Autistic shapes. Int. Rev. Psychoanal., 11: 279-90 Celia Fix Korbivcher
Rua João Moura 647, cj. 34. S.P. Tel. (011)30882051