TRIBUNAL DE JUSTIÇA DÉCIMA NONA CÂMARA CÍVEL APELAÇÃO CÍVEL Nº

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TRIBUNAL DE JUSTIÇA

DÉCIMA NONA CÂMARA CÍVEL

APELAÇÃO CÍVEL Nº 0000025-81.2009.8.19.0005 Apelante: PAMELLA NEVES SWINKA DE CAMPOS Apelado: ESTADO DO RIO DE JANEIRO

RELATOR: DESEMBARGADOR FERDINALDO NASCIMENTO

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE CONHECIMENTO. RITO ORDINÁRIO. INDENIZATÓRIA. Danos morais. Aluna matriculada em Escola Pública da rede Estadual de ensino. Alegação de que vem sendo vítima de chacotas e ameaças de linchamento dentro da sala de aula. Sentença improcedente. Apelo da autora. Manutenção do decisum. Falta de prova quanto ao fato constitutivo do direito postulado. Inobservância do art. 333, I do CPC. Inexistência de uma conduta comissiva ou omissiva por parte dos respectivos responsáveis pela instituição de ensino, a justificar a pretendida reparação de ordem extrapatrimonial. Meras animosidades relatadas entre a autora, colegas de classe e a mãe da aluna, que foram oportunamente dirimidas pela direção da escola. Aluno mais exaltado que foi suspenso pela direção, sendo oportunizada à autora a chance de mudar de turma, o que não foi aceito. Dificuldades de convivência e de relacionamento interpessoal que não podem ser atribuídas ao Estado e sim à própria autora que não facilita a aproximação dos colegas. Razões recursais manifestamente improcedentes e contrárias a prova dos autos a atrair a regra do art. 557, caput, do CPC. NEGADO

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DECISÃO DO RELATOR

Trata-se de ação de conhecimento, sob o rito ordinário, ajuizada em 09/01/2009 por PAMELLA NEVES SWINKA DE CAMPOS, em face do ESTADO DO RIO DE JANEIRO, por meio da qual pugna pela condenação do réu ao pagamento de danos morais de R$ 50.000,00, em razão da conduta do réu que permite que a autora seja alvo de agressões verbais, chacotas e ameaças de linchamento por parte dos demais colegas em seu ambiente escolar.

Alega, para tanto, que em que estuda na 1ª série do Ensino Fundamental, na Escola Estadual Miguel Couto, sito a Rua “O” esquina com Rua Fortaleza, s/n, Vila “C” Nova, em Arraial do Cabo; que a escola possui vultosa deficiência no que concerne a segurança de seus alunos, onde a incolumidade física dos mesmos é exposta a risco, em face da ausência de vigilância; que a adolescente desde o mês de maio/2008 tem sido alvo de chacotas, ameaças de linchamento dentro da sala de aula, o que vem lhe acarretando sérios transtornos psicológicos, dificuldade para estudar e reiteradas notas baixas; que o assunto é tão grave que sua genitora tem que levá-la e buscá-la na escola todos os dias; que com freqüência é agredida por Anderson Jacinto de Lima, Aline de Souza Teixeira, Nathalia Gonçalves Rodrigues, Stephani de Araujo Ferreira, Camila da Conceição Gonçalves e Tuanny Cristina da Silva Fernandes; que embora o colégio

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tenha identificado os respectivos agressores da autora, nenhuma medida eficaz de proibição e prevenção de tais atos foi tomada a contento, o que merece pronta reparação, face a omissão estatal.

A r. sentença a quo de fls. 91/94, proferida em 01/08/2011 pelo Juízo da Vara única de Arraial do Cabo julgou improcedente o pleito autoral, julgando extinto o feito na forma do art. 269, I, do CPC, condenando a parte autora ao pagamento das custas processuais e honorários advocatícios de sucumbência, estes fixados em 10% sobre o valor atribuído à causa, observando-se no que couber o art. 12 da Lei nº 1.060/50, face a gratuidade deferida em prol da parte sucumbente.

Apelo da demandante a fls. 95/111, pugnando pela reforma integral da sentença a fim de que seja julgado totalmente procedente o pleito autoral, com a inversão dos consectários da sucumbência.

Contrarrazões do réu, a fls. 115/122, pelo desprovimento do recurso ora interposto pela contraparte.

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Parecer emitido pela douta Procuradoria de Justiça a fls. 128/135, opinando pela nulidade da sentença, por cerceamento de defesa e, no mérito, pelo conhecimento e provimento do apelo a fim de reconhecer a atitude negligente e imprudente dos prepostos da escola na abordagem do assédio moral de que foi vítima a autora.

É o relatório. Passo a decidir.

Quanto a preliminar de nulidade da sentença em razão de suposto cerceamento de defesa, descabe razão ao Ministério Público, na medida em que as partes, após aberta a fase instrutória, tiveram a oportunidade de arrolar testemunhas, solicitar providência e juntar documentos imprescindíveis ao deslinde da controvérsia.

Foram respeitados os devido processo legal, contraditório e ampla defesa das partes nos termos do art. 5º, LIV e LV da CRFB, razão pela qual a prejudicial não merece prosperar.

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No mérito, nada a retocar.

Em que pese a irresignação da apelante, não lhe resta melhor sorte senão a insubsistência de suas razões recursais, eis que o douto sentenciante deu à causa a mais acertada solução.

Em nosso ordenamento, tanto a doutrina quanto a jurisprudência são pacíficas no sentido de que, embora a responsabilidade do Estado seja objetiva pelos danos que seus agentes causem a terceiros nessa qualidade (art. 37, §6º, CRFB), mostra-se imprescindível a demonstração do nexo causal entre a conduta do seu agente e o resultado danoso da vítima, o que, na hipótese dos autos, não restou configurado.

In casu, verifica-se que o suposto defeito inexiste, razão pela

qual se aplica a excludente de responsabilidade prevista legalmente.

É manifesta a insubsistência do fato constitutivo do direito invocado, nos termos do art. 333, I, do CPC, razão pela qual se mostra acertada a sentença de improcedência.

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Isso porque, como visto inexistiu uma conduta omissiva por parte dos respectivos responsáveis pela instituição de ensino, a justificar a pretendida reparação de ordem extrapatrimonial. Tratam-se de meras animosidades do cotidiano escolar relatadas entre a autora, seu colega de classe e a mãe da autora, que foram oportunamente dirimidas pela direção da escola, cujo aluno mais exaltado “Anderson” foi suspenso pela direção, sendo oportunizada à autora, inclusive, a chance de mudar de turma, o que não foi aceito pela própria.

Desta feita, verifica-se que as dificuldades de convivência e de relacionamento interpessoal da autora com alguns alunos de classe não podem ser atribuídas ao Estado e sim à própria autora que não facilita a aproximação dos colegas, razão pela qual afasta-se a responsabilidade civil do Estado prevista no art. 37, parágrafo 6º, da CRFB.

A conduta praticada pelos funcionários da Escola Estadual em comento foi correta e dentro dos padrões aceitáveis, no sentido de advertir e suspender os alunos transgressores, tomando medidas objetivas para a transferência da autora para outra classe, o que não foi por ela aceito.

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Assim, quanto aos danos morais, não vislumbro a presença do ato ilícito de que tratam os artigos 186 do CCB e 37, parágrafo 6º da CRFB, inexistindo uma conduta negligente que possa dar respaldo a pretensão autoral.

Por derradeiro, a apelante em nenhum momento foi capaz de demonstrar o fato constitutivo do direito invocado (falha no serviço escolar) no que tange a culpa do réu e o nexo causal entre suposto problema psicológico e conduta desidiosa do Estado.

Não restaram comprovadas, portanto, quaisquer falhas por parte do réu e seus prepostos no tocante aos fatos descritos na exordial.

Posta a questão nestes termos tem-se que o artigo 333, I, do Código de Processo Civil dispõe que incumbe ao autor o ônus de comprovar o fato constitutivo de seu alegado direito, tarefa da qual não se desincumbiu a contento no caso em enfoque, conduzindo seus pedidos, portanto, à improcedência.

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Corrobora com esse entendimento os argumentos contidos na r. sentença guerreada, os quais passam a integrar a presente decisão na forma do permissivo regimental:

“A prova oral colhida em audiência revela que, na realidade, as agressões narradas na petição inicial foram recíprocas, e que não houve repetição dos fatos narrados, que cessaram diante das enérgicas providências adotadas pela Direção da Escola, que procedeu a punições disciplinares e passou a acompanhar o caso mediante uma comissão integrada pela

Diretora, dois Diretores-Adjuntos, uma orientadora

educacional, um dirigente de turno, um inspetor de alunos e um inspetor escolar. Cabe destacar que a situação conflituosa vivenciada no ambiente escolar certamente foi agravada pela conduta indevida adotada pela representante legal da menor, ao ingressar no estabelecimento sem respeitar as normas escolares e proferindo ofensas verbais em detrimento dos funcionários da escola e até mesmo de alunos. Por outro lado, a autora, com quinze anos de idade e ainda cursando a primeira série do ensino fundamental à época dos fatos descritos na inicial, evidentemente não poderia atribuir seu baixo rendimento escolar ao evento narrado nos autos, visto que, muito antes disso, já deveria ter concluído o ensino fundamental e estar cursando o ensino médio, sendo

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absolutamente injustificado que a esta altura ainda estivesse no início do ensino fundamental, fato que mais provavelmente se deve ao exercício precoce da profissão de modelo e à negligência materna, portanto, insuscetível de recondução a qualquer conduta comissiva ou omissiva adotada pelo Estado. Outrossim, o documento de fls. 50 revela que mesmo tendo sido oferecida a possibilidade de mudança de turma à menor, esta manifestou o desejo de continuar na mesma turma, em companhia dos mesmos colegas, ficando evidente que a situação conflituosa já havia sido superada em novembro de 2008. Como se vê, não é possível vislumbrar conduta ilícita ou nexo de causalidade capaz de autorizar o reconhecimento de responsabilidade civil do Estado.”

Assim resta claro e evidente que o Estado somente será responsável civilmente por conduta omissiva quando estiverem presentes os elementos que caracterizam a culpa, que origina-se, na espécie, do descumprimento do dever legal, atribuído ao Poder Público, de impedir a consumação do dano, o que não é o caso do presente processado.

Nesse sentido, direcionam-se os seguintes julgados deste E. TJRJ:

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0387825-86.2009.8.19.0001 - APELACAO

DES. LEILA ALBUQUERQUE - Julgamento: 10/04/2012 - DECIMA OITAVA CAMARA CIVEL

RESPONSABILIDADE CIVIL.PLEITO INDENIZATÓRIO

FORMULADO EM FACE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. BRIGA ENTRE ALUNOS ADOLESCENTES NO INTERIOR DE ESCOLA DA REDE PÚBLICA DE ENSINO. SENTENÇA DE IMPROCEDÊNCIA. CULPA DA VÍTIMA.O Autor pretende reparação de danos morais em razão de lesão sofrida por estilete de colega, sob o fundamento de que o evento danoso ocorreu ante a negligência e omissão do Réu que detém o dever de guarda e vigilância dos menores no interior de estabelecimento de ensino da rede pública.Diante da análise dos autos, verifica-se que a conduta praticada pelo próprio Apelante foi a causa determinante para a eclosão do evento danoso, eis que foi ele quem iniciou as agressões a seu colega, dando-lhe um soco.Responsabilidade Civil do Ente

Público corretamente afastada.DESPROVIMENTO DO

RECURSO.

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DES. ROBERTO GUIMARAES - Julgamento: 26/10/2011 - DECIMA PRIMEIRA CAMARA CIVEL

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE RESSARCIMENTO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. AUTOR, ALUNO DA REDE MUNICIPAL DE ENSINO QUE FOI AGREDIDO POR COLEGA DE TURMA, VINDO A SOFRER LESÃO NO PÊNIS, OCORRENDO SANGRAMENTO. SENTENÇA DE

IMPROCEDÊNCIA. INCONFORMISMO DA PARTE

AUTORA. APELO SUSTENTANDO

A RESPONSABILIDADE OBJETIVA DO ENTE ESTATAL.1-"O principio da responsabilidade objetiva não se reveste de caráter absoluto, eis que admite o abrandamento e, até

mesmo, a exclusão da

própria responsabilidade civil do Estado, nas hipóteses

excepcionais configuradoras de situações liberatórias - como o caso fortuito e a força maior - ou evidenciadoras de culpa atribuível à própria vítima." Assim, na ótica da teoria do risco administrativo, "os elementos que compõem a estrutura e delineam o perfil da responsabilidade objetiva do Poder Público compreendem (a) a alteridade do dano, (b) a causalidade material entre o "eventus damni" e o comportamento positivo (ação) ou negativo (omissão) do agente Público, (c) a oficialidade da atividade causal e lesiva,

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condição funcional, incidindo em conduta comissiva ou omissiva, independente da licitude, ou não, do comportamento funcional (RTJ 140/636) e (d) a ausência de cláusula excludente da responsabilidade estatal " (RE 109615/RJ, Rel. Min. Celso de Mello, STF - 1ª Turma, julg. 28/05/1996 sublinhei).2 - Inexistência de omissão dos agentes administrativos, uma vez que a professora logo procurou separar as rusgas entre os coleguinhas de classe de apenas cinco anos de idade e a administração da escola logo contatou a responsável legal do autor. Fato de terceiro ("alteridade do dano") não imputável ao agente público. 3 - Autor que fora submetido à uma cirurgia de postectomia em 03/03/2007, o que facilitou a ocorrência de sangramento na região atingida, embora o desentendimento entre os dois coleguinhas tenha se dado em 26/04/2007, data bem posterior ao período médico de recuperação do autor-apelante.4-Inexistência de nexo de causalidade entre o dano verificado e a alegada omissão

administrativa, excluindo-se assim a obrigação de

reparabilidade por parte do Município réu, ora apelado.6-Desprovimento do recurso.

No que toca o ônus da sucumbência, correta a aplicação do percentual de 10% sobre o valor da causa, ex vi, o disposto no art. 20, parágrafo 4º do CPC.

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Quanto ao dano pretendido, portanto, este não decorre de qualquer ação comissiva ou omissiva praticada pelo réu, apresentando-se correta a sentença que houve por bem desacolhê-lo.

Por tais razões, NEGO SEGUIMENTO de plano ao apelo, com fulcro no caput do art. 557, do CPC, dada a manifesta improcedência das razões recursais, mantendo-se in totum a r. sentença vergastada, por seus próprios termos e doutos fundamentos.

Rio de Janeiro, 06 de março de 2013.

Desembargador FERDINALDO NASCIMENTO Relator

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