Partículas: a dança da matéria e
dos campos
Aula 20 – Núcleos, átomos, moléculas e vida – 3
Sumário
Escalas de tamanho Escalas de energia
Primeiros modelos nucleares
Entra em cena o nêutron
Energia de ligação
Gota líquida Fissão & Fusão
Interações nucleares
Panorama das interações da Natureza Interação Forte
Alguns dados
Mais de 99% da massa
conhecida do Universo está sob a forma de núcleos atômicos.
3/4 dessa massa são
prótons e quase todo o resto é composto por núcleos de hélio, com
pequenas quantidades de deutério, carbono, ...
História dos núcleos
Os núcleos atômicos não existiram
desde sempre:
Os mais leves (deuteron, hélio, ...)
foram formados poucos minutos
após o Big Bang.
Os demais, muito mais tarde,
durante a vida e a morte das
estrêlas.
Escalas de tamanho
Se os prótons ou os nêutrons fossem do
tamanho de uma moeda de 10 centavos, os núcleos teriam o tamanho de uma bola de handebol e os átomos seriam objetos com cerca de um quilômetro de raio.
Escalas distintas de tamanho acarretam
Escalas de energia
P. Curie & A. Laborde (1903): um grama
de rádio libera suficiente energia para
aquecer em uma hora cerca de 1,3 gramas de água do ponto de congelamento à
ebulição.
Pouco? Um grama de rádio libera em um
ano o mesmo que 100 gramas de carvão. MAS: o carvão é consumido e o rádio
Escalas de energia
Entrou-se em uma nova escala de energia:
a nuclear, cerca de 1.000.000 de vezes maior do que a atômica.
Questões importantes:
De onde vem essa energia?
O que produz o decaimento dos elementos
Escalas de energia
Já em 1905, Einstein, em um dos cinco
trabalhos publicados nesse “
ano
miraculoso”,
escrevia: ... se um corpo emite energia E na forma de
radiação, sua massa decresce de E/c2 ... a
massa de um corpo é uma medida do seu
conteúdo de energia ... Não está excluída a possibilidade de se testar essa teoria
utilizando-se corpos cujo conteúdo de
energia seja bastante variável (por exemplo, sais de rádio).
Primeiros modelos nucleares
Em 1911, E. Rutherford colocou em cena o núcleo: seu modelo
atômico demandava a existência de um objeto extremamente denso e massivo localizado no centro do átomo.
Logo ficou claro também que o núcleo era a origem das
emanações radioativas e fonte dessa energia.
MAS, qual a estrutura desses núcleos?
A construção de modelos para o núcleo esbarrou numa
dificuldade:
Prótons e elétrons eram as únicas partículas fundamentais
conhecidas.
Gravitação e eletromagnetismo eram as únicas interações
conhecidas.
Os primeiros modelos nucleares foram construídos a partir
Primeiros modelos nucleares
Pensemos como um físico da época:
Os núcleos têm carga positiva igual ao número
atômico (i.e., o número de elétrons), ou seja: +Ze.
A massa nuclear é aproximadamente um número
inteiro, A, vezes a massa de um próton.
A~2Z
As partículas fundamentais são o próton e o elétron. No decaimento b, elétrons são emitidos pelo núcleo. A massa do elétron é muito (~2000 vezes) menor que
Primeiros modelos nucleares
Assim, nada mais natural do que:
O núcleo atômico ser constituído por 2Z
prótons e Z elétrons.
A massa nuclear ser M=Ampróton+(A-Z)me
MAS, as energias típicas do decaimento b
nuclear estão na faixa de poucos MeV. (1 MeV ~ 0,16 pJ = 0,16x10-12 J).
Núcleos não podem conter elétrons
O Princípio da Incerteza nos diz que:
ΔpΔx ~ Ñ
cΔp ~ (E2-(mec2)2]1/2
~ [(1,0)2-(0,5)2]1/2 ~ 0,9 MeV
Δx ~ cÑ/(cΔp) ~ 197/0,9 ~ 227 fm
Os núcleos têm raios de cerca de 10 fm
(10x10-15 m)
Conseqüência: os elétrons não “cabem”
O nêutron
O nêutron era uma
necessidade!
Vemos claramente que:
Até Z~20, A~2Z. Para Z>20, A>2Z.
Deveria existir algo para
compensar a repulsão coulombiana dos prótons e ajudar a “grudar” os constituintes nucleares 0 20 40 60 80 0 20 40 60 80 100 120 140 Núcleos Estáveis A-Z=Z A-Z Z
Raio Nuclear
Experiências à la Rutherford mostraram
que o raio nuclear tinha um comportamento peculiar:
R=r0A1/3
Em outras palavras:
A densidade nuclear é constante
Conhecemos um sistema com essas
características: LÍQUIDOS! 0 50 100 150 200 0 1 2 3 4 5 6 7 R=1,12A1/3
R [
1
0
-15m]
A
Nomenclatura
Número de massa: A=Z+N
Os núcleos são representados por:
Alguns exemplos: 21H, 168O, 73Li, 147Ni Núcleon: constituinte do núcleo;
designação genérica dos prótons e nêutrons
X
Elemento
ZA massa de Número prótons de Número→
Energia de Ligação
Um núcleo que tenha recebido uma certa
quantidade de energia (e.g., aravés da colisão com outro núcleo) vai devolvê-la ao fim de um certo tempo.
A Natureza é econômica e sempre busca
Energia de ligação
Da mesma forma, dois ou mais
constituintes somente formarão um
núcleo atômico se for energeticamente favorável.
Por exemplo, o dêuteron (21H) é o núcleo
mais simples: é formado por um próton e um nêutron. Quando ambos se juntam,
energia é liberada na forma de um raio gama.
Assim, um nêutron e um próton têm mais massa
do que um dêuteron.
De uma maneira geral, a massa de um núcleo é
dada por:
A energia de ligação, B, é a quantidade de energia a ser fornecida para quebrar o núcleo nos seus
constituintes.
Energia de ligação
B c Nm c Zm Mc2 = p 2 + n 2 −Energia de ligação
B/A é mais conveniente do que B para
indicar a maior ou menor estabilidade de um núcleo em relação aos demais.
B/A: quanto maior for, mais ligados
estarão, em média, os constituintes e, portanto, mais estável será o núcleo.
Gota líquida
Vimos que o núcleo apresenta
comportamentos de um líquido.
Uma gota de um líquido incompressível e
carregado.
Sua energia de ligação tem as seguintes
B = av A - as A2/3 – a
B = av A - as A2/3 – a
B = av A - as A2/3 – a
c Z(Z-1)A-1/3- asim (A-2Z)2/A +δ(Z,A)
emparelhamento
δ(Z,A) é: negativo (diminui B) 0 em núcleos ímpar-pares ou par-ímparesem núcleos ímpar-ímpares
Fissão e fusão
Saltam aos olhos algumas características:
A curva tem um máximo próximo ao número de massa
A=56. Na verdade, o 56Fe é o núcleo mais estável
existente na Natureza.
Se um núcleo situado à direita desse máximo for dividido
em dois, os núcleos resultantes terão uma energia de ligação por constituinte maior do que o núcleo que lhes deu origem e, portanto, serão mais estáveis.
Inversamente, se núcleos à esquerda do máximo
juntarem-se, o núcleo resultante será mais estável.
Isso talvez fique mais intuitivo se olharmos a figura da
energia de ligação de cabeça para baixo e pensarmos que o sistema nuclear “gosta” de buscar a maior estabilidade.
Fissão e fusão
As setas indicam os processos de fissão
Modelo
de camadas
A análise dos acertos da fórmula de massa,
Modelo
de camadas
É sintomático o desvio da fórmula de
massa em relação aos dados
experimentais sempre que N ou Z assumem determinados valores. Vários dados experimentais de outros
observáveis (energias dos primeiros estados excitados, energias de separação (equivalente à energia de inonização atômica) também apresentam evidências semelhantes.
Esses “números mágicos”, indicativos
de maior estabilidade, trazem
imediatamente à mente a lembrança dos gases nobres da física atômica e o seu conseqüente nexo com órbitas. Um campo médio nuclear é gerado
pela coletividade dos prótons e nêutrons, que constituem esse núcleo.
Ingrediente importante: interação
spin-órbita.
E agora?
Órbitas & Liquidos?
Dois aspectos de difícil convivência simultânea.
Como é possível que um sistema ligado por uma força com
um caroço repulsivo apresente órbitas? Como tal interação pode dar origem a órbitas?
A compatibilização entre os dois extremos, órbitas vs
líquidos, pode ser efetuada se entendermos que as colisões “ocorrem”, mas o Princípio de Pauli proíbe que as “órbitas” sejam alteradas.
É do balanço entre esses dois extremos, que múltiplas
Interações
no núcleo
As interações que
agem no núcleo são as responsáveis por sua estrutura e seu comportamento.
Quais são elas?
Eletromagnética: atua
entre partículas carregadas.
Nuclear forte: é a
responsável primária pela ligação dos núcleos.
Nuclear fraca: é a
responsável pelo decaimento beta.
Interação nuclear forte
Yukawa (1934) foi o primeiro a propor
uma teoria quântica para a interação forte:
Ele trabalhou em analogia com a nascente
teoria quântica do campo eletromagnético.
Uma partícula, um bóson, seria trocada entre
os participantes.
Ele foi capaz de estimar a massa desse
Interação nuclear forte
Algumas estimativas: Vbóson ~ c
Alcance: Δr ~ c Δt ~ cÑ/ΔE
ΔE ~ massa dessa partícula, mc²;
Δr ~ 1,5 fm, o alcance da força nuclear.
mc² ~ 130 MeV.
Uma partícula com massa dessa ordem de
grandeza foi descoberta anos depois.
La
tt
es, O
cc
hi
ali
ni e
Po
we
ll
Interação nuclear forte
Algumas características: É forte → núcleos são ligados apesar da
repulsão coulombiana.
É de curto alcance → desvios em relação a
Rutherford.
Tem a propriedade da saturação → um
núcleon interage apenas com seus vizinhos mais próximos.
O sistema n-p (nêutron-próton: dêuteron) é
A Natureza não é
autista
A Natureza, não é autista; se perguntada,
ela responde.
Uma das maneiras que temos para
perguntar à Natureza é colocar os
sistemas para interagirem e analisar os resultados.
A tarefa dos físicos é formular essas
questões e interpretar as respostas que a Natureza nos provê.
DISTANTE
RASANTE
Máquinas
Assim, para obter informações sobre a estrutura
e interações do núcleo e seus constituintes, precisamos de equipamentos que aproximem
partículas e/ou núcleos atômicos de modo que as interações daí decorrentes produzam efeitos
mensuráveis.
Pelletron (no IFUSP), RHIC (BNL, USA), LHC
(CERN, Suiça) são exemplos de tais máquinas, mas com escalas de energia muito distintas.
LAFN
O Pelletron é uma dessas máquinas.
Dedica-se à Física Nuclear de baixas energias,
acelerando núcleos leves (alfa, lítio, carbono, etc) e jogando-os sobre alvos constituídos por núcleos dos mais diversos elementos.
Trata-se de um acelerador eletrostático, instalado
muitos anos atrás, mas aqui se faz uma física muito
interessante; perguntas ligadas, por exemplo, às reações nucleares de baixas energias que estão ocorrendo no
interior estelar, podem ser respondidas em uma máquina deste porte.
RHIC
O RHIC (Relativistic Heavy Ion Collider), que em escala
humana é de um tamanho monumental, foi concebido para recriar em laboratório condições que só devem ter
ocorrido nos primeiros instantes após o Big Bang.
Faz colidir frontalmente feixes de partículas (prótons,
núcleos de Au) a velocidades próximas à da luz.
Questões relativas à temperatura e densidade em que a
sacola que contém os quarks dentro do núcleon se dissolve, formando um aglomerados de quarks e de glúons são
essenciais para o entendimento dos primórdios do Universo e da física usada para descrever os sistemas hadrônicos.
LHC
O LHC (Large Hadron Collider) também foi concebido para
recriar em laboratório condições que só devem ter ocorrido nos primeiros instantes após o Big Bang,
entretanto, sua escala de energia permitirá chegar ainda mais próximo desse limiar.
Questões fundamentais sobre a gravitação em nível
quântico, o mecanismo de geração de massas das partículas (busca do bóson de Higgs), a natureza da matéria e da
energia escura, a existência de dimensões extras são alguns dos objetivos de pesquisa desse que é
provavelmente o maior e mais complexo instrumento que a humanidade já construiu.
Física Nuclear e Aplicações
Ciência e Aplicações: um
binômio freqüentemente mal entendido.
Física Nuclear não é apenas
Ciência Fundamental.
Dela resultou uma gama
enorme de aplicações com impacto na sociedade: Radiofármacos, Terapia de cancer, NMR, PET, Métodos de análise de
poluição, etc., etc., etc..
O quê? Com isso vc nem fritar ovos consegue?