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A CONSTRUÇÃO DO CENCEITO DE EDUCAÇÃO EM ANTONIO GRAMSCI

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Academic year: 2021

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A CONSTRUÇÃO DO CENCEITO DE EDUCAÇÃO EM ANTONIO 

GRAMSCI 

 

 

 

  Resumo 

O  objetivo  deste  ensaio  é  refletir  sobre  o  conceito  de  educação  na  perspectiva  marxista  de  Antonio  Gramsci  elencando  alguns  de  seus  conceitos  e  as  possíveis  contribuições destes para a área educacional. Em síntese, a  forma  de  compreender  e  pensar  a  educação  no  Brasil  recebe  influência  de  várias  correntes  teóricas  e  podemos  constatar  que  Antonio  Gramsci  trás  contribuições  para  a  construção  de  um  conceito  de  educação  voltado  para  um  viés  crítico.  Apoiados  na  literatura,  concluímos  que  a  as  teorizações  gramscianas  abrem  amplas  possibilidades  para  uma  educação  voltada  para  superação  da  dominação  e  disseminação  de  saberes  que  levem  a  formação  humana  a  partir  de  um  processo  dialético  do  real  no  âmbito  de  toda  sociedade civil.    Palavras‐chave: Antonio Gramsci. Educação. Conhecimento.      Daiane Grando  Faculdade Guairacá  [email protected]           

 

 

 

 

 

 

 

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PRESSUPOSTOS INICIAIS 

A  análise  das  concepções  de  educação  e  sociedade  através  dos  tempos  é  crucial  para que possamos identificar os teóricos que contribuíram nas discussões sobre o ensino  e  aprendizagem.  O  foco  desta  análise  está  voltado  para  a  corrente  teórica  atrelada  as  produções de Antonio Gramsci. Elencamos conceitos e refletimos sobre a forma como o  autor pensa a educação, o conhecimento e a sociedade.  

O  intuito  é  desvelar  as  contribuições  da  teoria  Gramsciana  e  a  gênese  de  seu  pensamento, pois sabemos que este influenciou e norteia diferentes formas de pensar a  educação mesmo na contemporaneidade. Para tanto, é necessário destacar as reflexões  pedagógicas de Gramsci e alguns dos conceitos discutidos pelo autor como: filosofia da  práxis, hegemonia, bloco histórico e intelectual orgânico, entre outros conceitos que se  fazem passiveis de análise e revelam seu posicionamento historicista que visou uma luta  constante pela formação cultural humana. 

Gramsci  inicia  sua  história  de  jovem  revolucionário  após  ganhar  uma  bolsa  de  estudos  na  universidade  de  Turim,  não  tendo  condições  de  se  manter  na  universidade  passa a escrever artigos para jornais. O momento pelo qual perpassa a cidade italiana é  de revolta, de luta entre os donos das fabricas e a classe operária. É nesse contexto que  ele sente a necessidade de estar à frente do movimento dos trabalhadores e auxiliar em  um processo revolucionário de esquerda (GUILHERME, 2009). 

Gramsci defende assim seu ponto de vista e aliando‐se ao movimento trabalhador  estabelece  vínculos  políticos  e  existências  com  essa  classe.  Seu  posicionamento  em  relação  ao  socialismo  fica  explicito  quando  este  se  coloca  a  frente  de  um  jornal  com  sessões voltadas para esses ideais. Isso se explicita ainda com mais efervescência quando  também assume a liderança de um partido de cunho comunista (GRAMSCI, 1995).  Não obtendo sucesso em sua luta e com a ascensão da classe burguesa no poder é  acusado de incitar a guerra civil e é condenado a vinte anos de prisão. Nesse período em  que está em cárcere utiliza de seu pensamento militante para escrever sobre o contexto  em que estava inserido.  

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Os cadernos do cárcere, assim chamados e publicados após sua morte expressam  seu  pensamento  revolucionário  marcado  por  influências  da  tradição  Marxista  e  sua  oposição à sociedade nos moldes capitalistas. Em condições desumanas e de isolamento  o autor não deixa seu espírito intelectual adormecer e mesmo sem recursos para produzir  consegue deixar o legado de seus cadernos e suas cartas. 

Assim  como  Marx  e  seguindo  seus  pressupostos  faz  análises  da  sociedade  e  a  influência  que  esta  exerce  na  formação  do  sujeito.  Além  da  questão  do  trabalho  e  relações de produção vistas em Marx, Gramsci busca nesses conceitos evidenciar que as  relações  ideológicas  e  culturais  influenciadas  pelo  poder  estatal  e  consideradas  por  ele  determinantes para a vida em sociedade.  

Coutinho  (2011)  salienta  ainda  que  não  fosse  possível  fazer  os  apontamentos  teóricos de Antonio Gramsci sem essa fundamentação no marxismo e que sua concepção  de marxismo como filosofia da práxis parte de um modo novo de relacionar economia e  política,  infraestrutura  e  estrutura  e  de  evidenciar  como  se  da  à  ação  humana  frente  a  estas determinações. 

No artigo “Nosso Marx” publicado em 1918, Gramsci já expressava sua admiração  pela  forma  com  que  Marx  compreendia  a  atividade  cientifica.  Salienta  que  muitas  das  ideias que antecedem seu pensamento estão pautadas na compreensão de que o homem  é  considerado  espírito  e  pura  consciência,  vendo  o  indivíduo  de  forma  isolada,  muitas  vezes os conhecimentos valorizados eram arbitrários, fictícios (COUTINHO, 2011).  Partindo dos pressupostos de Marx a história passa a ser valorizada como domínio  das ideias, do espírito e consequentemente do conhecimento. A atividade científica passa  a ser algo sistemático e consciente vinculada ao indivíduo de forma isolada ou associada,  tem sua origem no concreto deixando de ser abstrações apenas religiosas e sociológicas  arbitrárias (COUTINHO, 2011).  Percebemos a forma como Marx compreende a realidade e o conhecimento como  parte  desse  todo.  Gramsci  partindo  da  análise  dessas  compreensões  vai  traçando  os  caminhos  para  sua  teoria,  reconhecendo  o  valor  do  conhecimento  historicamente  elaborado.  

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Em  Gramsci  assim  como  em  Marx  o  conhecimento  é  vinculado  a  um  corpo  que  pensa  e  que  está  estritamente  conectado  com  as  relações  sócias.  O  autor  se  identifica  com  esta  materialização  e  conceitua  que  existe  uma  concepção  de  mundo  que  é  resultado do processo de vida real (PAZ; BEZERRA, 2007). 

Tudo isso constitui a formação de uma epistemologia voltada para a compreensão  do  real  e  como  em  Marx  está  atrelada  a  conhecimentos  antropológicos,  filosóficos  e  sociológicos expressos no campo das ciências sociais. Em Gramsci é possível desvelar na  essência de seu pensamento a capacidade de mobilizar um quadro epistêmico capaz de  reconstruir  os  processos  históricos  que  se  preocupam  com  o  particular  e  o  universal  (SILVA, 2011). 

A  teoria  do  conhecimento  expressa  na  esfera  particular  nada  mais  é  do  que  um  conhecimento  que  de  acordo  com  o  contexto  histórico,  a  cultura,  a  política,  a  classe  social  pode  se  modificar  e  ser  apropriado  de  diferentes  formas  e  de  acordo  com  as  necessidades  humanas  da  realidade  concreta.  Já  o  que  é  universal  deve  ser transmitido  de geração para geração, é crucial e reconhecido como conhecimento científico ao qual  todo  homem  tem  direito  a  acesso  e  compreensão  e  por  meio  deste  estará  instrumentalizado para modificar a realidade em que vive. 

Gramsci  não  vê  o  conhecimento  como  algo  desvinculado  do  real,  como  algo  estanque e coloca que: 

 

Se  as  verdades  científicas  fossem  definitivas,  a  ciência  teria  deixado  de  existir como tal, como investigação, como novas experiências, reduzindo‐ se a atividade científica a repetição do que já foi descoberto. O que não é  verdade, para felicidade da ciência (GRAMSCI, 1987, p. 70). 

 

Para  que  o  conhecimento  seja  verdadeiro  é  necessária  uma  revisão  continua  da  atividade  cientifica.  Como  observamos  na  colocação  do  autor  as  verdades  não  são  definitivas e devem ser ressignificadas em suas múltiplas dimensões em todo processo de  ensino e aprendizagem. 

Ao  analisar  de  forma  sucinta  aspectos  epistemológicos  da  teoria  gramsciana  é  possível  compreender  que  em  seus  estudos  existe  uma  indissociável  relação  entre 

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conhecimento  histórico,  práxis,  política,  luta  cultural  e  processos  de  formação  humana.  Podemos evidenciar tais aspectos ao aprofundarmos nossas reflexões na compreensão e  análise  de  alguns  de  seus  conceitos,  evidenciando  também  a  relação  deste  com  a  educação e com o compromisso de formação humana apregoado pelo autor. 

 

TRANSFORMAÇÃO E COMPREENSÃO DA REALIDADE EM GRAMSCI 

Gramsci  faz  uma  análise  do  estado  e  da  sociedade  civil como  pertencente  a  esta  estrutura. Destaca que o estado deve zelar por equilíbrio, pela não dominação, assim, o  intuito é disseminar o espírito revolucionário para que a divisão de classes não se de por  meio da dominação de uma classe considerada fundamental sob uma classe subordinada. 

Partindo  disso,  podemos  dizer  que  Gramsci  é  contra  o  predomínio  de  normas  e  valores  ideológicos  da  classe  burguesa  sobre  a  classe  proletária.  É  deste  princípio  que  nasce o conceito de hegemonia o qual: 

 

[...] têm por objetivo compreender os fundamentos e as estratégias que  a  classe  dominante  se  utiliza  para  obter  o  consentimento  ativo  das  massas  através  de  sua  “auto‐organização”  na  sociedade  civil  (Carnoy,  1988, p. 95, apud NÉSPOLI, 2012, p. 68).  

 

É  desta  hegemonia  concebida  por  Gramsci  que  podemos  destacar  as  influências  dos  dominantes  sob  os  dominados,  desde  os  aspectos  políticos  bem  como  culturais  e  históricos que influenciam diretamente na formação humana. Deste modo, estabelecem‐ se estratégias para disseminar concepções sociais voltadas para os interesses do capital.  

Gramsci vai contra essa aceitação passiva de ideias e concepções, contra um poder  coercitivo  de  impor  formas  de  ser  e  pensar  socialmente.  A  sociedade  civil  deve  ser  um  extenso  e  complexo  espaço  público  composto  por  identidades  coletivas,  com  iniciativa  própria,  composta  por  sujeitos  capazes  de  construir sua  própria  cultura  e  valores  e  que  possam ter autonomia em relação ao poder estatal (SEMERARO, 1999). 

Com a finalidade de superar a hegemonia dominante e atingir uma transformação  social a partir de identidades coletivas podemos destacar o papel do bloco histórico. Esta  hegemonia  se  da  no  interior  do  bloco  histórico,  conceituado  por  Gramsci,  como  uma 

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aliança de grupos voltados à construção de um projeto histórico e classista tendo como  ponto de partida uma vontade coletiva (BARBOSA, S/A). 

Essa  consciência  de  classe  esta  atrelada  ao  que  Gramsci  chama  de  Filosofia  da  práxis,  união  teoria‐prática  que  leva  o  sujeito  a  compreender  e  intervir  no  mundo  que  vive. Assim, a filosofia da práxis é “uma concepção na qual os homens são sujeitos reais  da  história  e  não  instrumentos  passivos  de  determinações  materiais  ou  espirituais”  (SEMERARO, 1999, p. 73). 

A  importância  dada  por  ele  à  liberdade  e  a  vontade,  mostra  que  isso  só  será  possível  a  partir  de  uma  reforma  intelectual  e  moral,  sendo  a  escola  e  a  cultura  as  principais  formadoras  da  consciência  coletiva.  Consciência  esta  que  leva  a  participação  social ativa das classes menos privilegiadas construindo fundamentos éticos e políticos de  consenso, assim os homens se tornam sujeitos reais de sua história (SEMERARO, 1999). 

Essa visão progressista em relação ao sujeito e a sociedade esta atrelada a cultura  como também a educação e a forma que está relação se da no seio social, para que assim  ocorra  à  práxis,  ou  seja,  os  sujeitos  a  partir  de  suas  experiências  podem  vir  a  ser  e  pertencer a esse meio social. 

É  crucial  então  compreendermos  pontualmente  as  contribuições  que  Gramsci  proporciona a educação, pois, partindo dos conceitos sucintamente elencados é possível  destacar  o  papel  das  instituições  sociais  e  principalmente  da  escola  como  ferramenta  para produção de cultura partindo de um viés critico. 

 

APONTAMENTOS SOBRE A FUNÇÃO DA EDUCAÇÃO EM GRAMSCI 

A essência de sua teoria esta pautada no marxismo originário. Podemos dizer que  isto  se  deu  em  conformidade  com  as  idéias  de  Marx,  mas  não  da  mesma  forma,  pois  a  sociedade  está  em  constante  transformação  e  Gramsci  se  depara  com  outro  contexto  histórico,  outra  estrutura  social.  Tendo  em  vista  estas  transformações  ele  consegue  inovar de forma significativa as concepções marxistas (MARTINS, 2008). 

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Diante  da  conjuntura  social  da  época  dentre  as  várias  análises  de  Gramsci  podemos destacar sua visão e compreensão sobre o valor pedagógico do conhecimento.  Pensar  a  função  da  Educação  e  da  escola  em  Gramsci  é  desvelar  a  importância  do  conhecimento  científico  em  sua  esfera  cultural,  política  e  histórica,  o  qual  pode  levar  a  emancipação humana. 

A classe subalterna, assim denominada por Gramsci tem no conhecimento a ponte  para  por  meio  da  práxis,  de  suas  ações  teóricas  e  praticas  cotidianas,  ampliar  suas  concepções de mundo. Por meio da cultura o homem sai da sua condição de “marginal”,  excluído e se faz pertencente ao contexto em que vive. 

Para  Gramsci,  a  humanidade  é  o  reflexo  do  conhecimento  historicamente  elaborado  presente  nas  relações  humanas.  Para  o  autor,  “a  mente  que  desenvolve  o  conhecimento  está  indissoluvelmente  vinculada  a  um  corpo  situado  e  conectado  às  relações sociais” (BEZERRA; PAZ, 2007, p. 14).  

Diante disso, o princípio educativo deve constantemente fazer as relações com as  diversas facetas do conhecimento, aproximando o homem de seu mundo empírico. 

O  estado,  o  partido  e  o  ser  em  sua  essência  individual  cumprem  funções  de  hegemonia  cultural.  Partindo  dessas  interfaces  Gramsci  analisa  as  ações  educativas  na  escola  tendo  em  vista  que  a  partir  de  uma  compreensão  do  pedagógico  é  possível  ter  uma compreensão mais geral do pensamento político (MANACORDA, 1990). 

Já  em  seus  primeiros  cadernos,  Gramsci  elucida  a  relevância  das  instituições  que  incitam  atividade  cultural,  contribuindo  para  a  formação  do  ser  social  e  entre  estas  destaca  o  papel  da  escola.  Historicamente  o  processo  educativo  é  influenciado  por  interesses  sociais,  políticos,  ideológicos,  portanto  as  transformações  ocorridas  na  sociedade  no  decorrer  do  tempo  fazem  com  que  a  função  da  educação  também  se  modifique de acordo com o contexto. 

Em  um  primeiro  momento,  o  caráter  intelectual  de  algumas  atividades  era  desconsiderando  e  isso  influência  diretamente  na  forma  que  se  pensa  à  educação  em  determinada  época.  O  distanciamento  entre  teoria  e  prática,  ciência  e  trabalho,  esse 

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processo  de  diferenciação  provocou  uma  crise  do  princípio  cultural  e  educativo  (MANACORDA, 1990). 

Manacorda  (1990)  salienta  ainda  que  partindo  desta  perspectiva,  a  classe  subalterna a qual trabalha com atividades consideradas sem um cunho intelectual e com  fins  produtivos,  práticos,  acaba  não  tendo  acesso  ao  conhecimento  cientifico  e  cultural  ficando este restrito à classe dominante. 

Gramsci  é  contra  essa  escola  voltada  aos  interesses  burgueses  que  trata  o  conhecimento de forma técnica e enciclopédica, que instrumentaliza o trabalhador para  exercer determinadas funções nas quais não se vê como parte do processo. 

Com  o  intuito  de  transformar  essa  educação  o  autor  faz  uma  crítica  à  educação  tradicional.  No  caderno  12  ele  aborda  como  a  escola  tradicional  vem  tratando  o  conhecimento científico de forma abstrata e enfatiza ainda a importância do papel dessa  instituição para o desenvolvimento social como um todo: 

 

A escola é instrumento para elaborar os intelectuais de diversos níveis. A  complexidade  da  função  intelectual  nos  vários  estados  pode  ser  objetivamente  medida  pela  quantidade  de  escolas  especializadas  e  pela  sua  hierarquização:  quanto  mais  extensa  for  a  “área”  escolar  e  quanto  mais  numerosos  forem  os  “graus”  “verticais”  da  escola,  tão  mais  complexo será o mundo cultural, a civilização, de um determinado estado  (GRAMSCI, p. 19, 2000).  

 

Diante  destes  pressupostos  é  possível  evidenciar  as  potencialidades  da  escola  diante da sociedade. O estado conceituado como sociedade política e sociedade civil em  Gramsci  é  capaz  por  meio  da  educação  de  desenvolver  seu  mundo  cultural  e  consequentemente usar isso como ferramenta de poder. 

Para  além  da  análise  de  uma  instituição  em específico  Gramsci  enfatiza  que  é  na  estrutura  e  na  superestrutura  que  se  da  dá  esse  desenvolvimento.  Os  planos  superestruturais desenvolvidos na sociedade civil são organismos de origem privada que  tem relação com os meios de produção capitalista e se consolidam nas relações pessoais,  já a superestrutura, caracterizada como a sociedade política ou estado, tem a função de  consolidar a hegemonia exercendo um domínio direto sobre toda sociedade (GRAMSCI,  2000). 

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Esse domínio direto pode ser capaz de levar a hegemonia, a uma disseminação de  formas  de  ser  e  pensar  como  já  foi  discutido anteriormente,  podendo  a  escola  ser  uma  ferramenta  para  esses  fins.  Por  isso  a  importância  em  refletirmos  sobre  os  objetivos  dessa instituição social e a função que esta desempenha na formação do indivíduo. 

A escola deve trabalhar com a cientificidade, instrumentalizando as massas. Nesse  sentido,  a  ciência  esta presente  em  todos  os  momentos  da  vida  humana  e  se consolida  nas  relações  sócias  e  no  seio  das  estruturas  como  evidenciamos.  Educamos  a  partir  da  realidade viva, cultura e ciência são conceitos indissociáveis dessa realidade. 

Em  suas  obras  encontramos  análises  voltadas  para  diferentes  pressupostos  de  educação  e  de  escola  como:  escola  ativa,  escola  técnica,  escola  tradicional,  escola  humanista, escola mecânica e jesuítica, escolas profissionalizantes, escola única, escolas  especializadas, escola clássica e escola elementar e média.  

Não analisaremos cada denominação elencada anteriormente, mas evidenciamos  o olhar revolucionário de Gramsci para essas diferentes formas de pensar a educação. A  partir  das  análises  Gramsciana  das  diferentes  escolas  e  métodos  de  ensino  é  possível  destacar  a  escola  unitária  a  qual  expressa  à  vertente  do  seu  pensamento  em  relação  a  uma educação que pode levar a superação do status quo. 

 

EDUCAÇÃO E ESCOLA 

Partindo  da  necessidade  da  formação  de  uma  consciência  coletiva  e  da  importância da escola na formação dos intelectuais, Gramsci propõe algumas formas de  pensar  a  educação  com  o  intuito  de  superar  visões  de  senso  comum  e  religião  que  transformem os modos de pensar.  

Falar em senso comum remete a ideia de que este é um mero significado ingênuo  da  realidade,  de  uma  compreensão  aceita  socialmente  nos  grupos  sociais.  Este  sendo  comum  em  suas  dimensões  éticas  e  políticas  não  possui  nada  de  ingênuo  podendo  influenciar em determinadas visões de mundo e construir consensos que disseminam um  conformismo ativo das classes subalternas (MARTINS, 2008). 

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É preciso superar essas formas limitadas de compreensão da realidade e isso se da  por meio do acesso ao conhecimento. É a partir dele que transformamos nossas ações. A  dialética  entre  conhecimento  e  ação  abre  possibilidades  de  ordem  intelectual  e  moral,  que  entram  em  confronto  com  a  realidade  e  resultam  em  novas  formas  de  pensar  o  concreto  visando  à  assimilação  de  novos  elementos  de  interpretação  (BEZERRA;  PAZ,  2007). 

 Diante  desse  ponto  de  vista  Gramsci  propõe  uma  educação  que  supere  as  desigualdades  de  classe  e  leve  a  apropriação  do  conhecimento  historicamente  construído.  Um  processo  pedagógico  que  zele  pela  formação  de  uma  consciência  coletiva. 

Suas  primeiras  proposições  sobre  a  escola  partem  das  reflexões  sobre  a  necessidade de uma intelectualização das atividades de cunho prático e uma praticização  das de cunho teórico (MANACORDA, 1990). Faz uma crítica a metodologias de ensino que  não contemplem objetivos que possam levar a essas relações. 

Podemos analisar essas ações teóricas e práticas exemplificando a partir da visão  de  Gramsci  sobre  o  trabalho  como  principio  educativo.  É  a  partir  do  trabalho  que  o  homem  se  produz  enquanto  homem  e  de  acordo  com  esse  princípio  o  homem  ao  produzir  trabalho  produz  cultura  e  ciência.  Diante  disso,  este  pode  ser  tomado  como  princípio  fundamental  no  âmbito  escolar  orientando  todo  processo  educativo  (RODRIGUES; HORA, 2012). 

É possível assim destacar um exemplo da articulação do principio educativo com a  realidade social por meio do trabalho. A busca constante por uma educação para e pela  práxis  faz  com  que  Gramsci  discuta  sobre  a  educação  escolar  e  analise  como  esta  se  consolidou no contexto histórico em que viveu. 

O trabalho é para Gramsci a ação concreta e deve estar atrelada a cientificidade.  Partindo dessa preposição: 

 

Realiza sua opção por uma escola única de cultura geral humanística “no  sentido  amplo  e  não  somente  no  sentido  tradicional”,  isto  é,  definida  a  solução  racional  da  crise  do  princípio  educativo,  Gramsci  dispõe‐se  a 

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estudar  os  modos  concretos  segundo  os  quais  essa  escola  poderá  configurar‐se (MANACORDA, p. 158, 1990). 

 

Conceituando  ainda  podemos  definir  de  forma  sucinta  que  a  escola  é  “Unitária,  única, no sentido de união entre ciência e trabalho, cultura e trabalho, técnica e trabalho”  (RODRIGUES; HORA, 2012, p. 7).  Sendo assim, a atividade mesmo que desenvolvida por  uma ação puramente “manual” esta articulada ao intelectual. 

Nessa perspectiva a escola unitária atingiria as massas, fazendo com que o sendo  comum, seus costumes, idéias e crenças não sejam desconsiderados, mas se articulem ao  conhecimento  cientifico.  Partindo  dessa  visão  é  possível  formar  intelectuais  no  seio  da  classe trabalhadora, os quais pudessem lutar por melhores condições de vida por meio de  uma emancipação de compreensões do concreto e do intelectual. 

Surge  assim  a  gênese  da  discussão  do  papel  dos  intelectuais  na  organização  da  cultura,  clamados  por  Gramsci  de  Intelectuais  orgânicos.  São  categorizados  nesses  termos, pois se originam de grupos sociais diferenciados, ou seja, cada grupo possui seus  intelectuais, estes pertencem à mesma classe (GRAMSCI, 2000). 

O autor considera que as universidades e a escola da época em seus moldes não  conseguiam  cumprir  com  a  tarefa  de  formar  lideres,  defensores  políticos  atingindo  as  massas. Coloca que essas instituições não estavam permeadas pelos ideais dos partidos e  não  eram  capazes  de  formar  bons  dirigentes  já  que  assumiam  uma  posição  apolítica  permeada por um discurso vazio (MANACORDA, 1990).  Percebemos assim a importância atribuída por Gramsci em articular a vida política  aos sistemas de ensino salientando que esta essência faz parte do real, do concreto esta  estritamente ligada a uma formação que leve o indivíduo a compreender seu papel, que  proporcione uma formação social.  Há então uma recusa de uma escola de caráter “desinteressado” que não objetive  tais análises. Por meio da visão de Gramsci a educação pode ser utilizada para diferentes  finalidades,  pois,  não  tem  um  caráter  desinteressado  mais  sim  um  duplo  sentido  ético‐ político.  Este  sentido  é  utilizado  socialmente  para  manter  consensos  atribuídos  pela  classe dominante em uma disputa constante por poder, ou vista por outro viés, pode ser 

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o  instrumento  para  romper  com  essa  hegemonia  e  construir  uma  nova  sociedade  (MARTINS 2008). 

É necessário romper com concepções de mundo que vinculam os seres humanos  entre  si  e  a  natureza  e  que  são  é  questionadas.  É  necessário  romper  com  as  verdades  existentes  e  apropriadas  socialmente,  principalmente  na  sociedade  capitalista.  Nesta,  a  cultura  é  organizada  e  centralizada  pelas  unidades  de  produção  e  influência  na  personalidade e potencialidades culturais do ser humano (BEZERRA, PAZ, 2007).  

Essas concepções não podem se esmiuçar como algo objetivo. A sociedade não é  fundada  na  objetividade,  mas  sim  em  uma  trama  de  relações  sociais  complexas  e  subjetivas. Pensar a sociedade objetivamente é ver o mundo de forma acrítica, mecânica,  a‐histórica  e  anti‐humanista  sendo  isso  prejudicial  ao  processo  de  transformação  (MARTINS, 2004). 

Podemos  tomar  as  palavras  de  Gramsci  como  pressuposto  de  um  convite  a  assumir um posicionamento crítico sobre o real. Precisamos ser capazes de assumirmos a  condição de sujeitos históricos imersos em um contexto em que a realidade é subjetiva e  influenciada por fatores que são determinantes e que devemos estar instrumentalizados  para interpretá‐los.   

ALGUNS APONTAMENTOS 

Partindo das discussões elencadas evidenciamos a importância dada por Gramsci  em  desenvolver  as  potencialidades  culturais  do  ser  humano  sem  distinção  de  classe.  Refletindo sobre o atual momento histórico percebemos que a sociedade continua sendo  constantemente  vinculada  a  interesses  de  classe  e  protagonizada  pela  influência  de  políticas  neoliberais,  assim  muitos  princípios  discutidos  por  em  Gramsci  parecem  fazer  referencia a atualidade. O desafio de mudança estabelecido por ele está historicamente  posto  e  em  constantemente  discussão,  contribuindo  nas  produções  dos  intelectuais  contemporâneos. 

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Em Gramsci é possível encontrar diferentes maneiras de visualizar a escola e seu  papel frente aos grupos sociais. O processo de mobilização das massas pode ocorrer por  meio da educação escolar que valorize o homem como ser social. 

A  forma  de  conceber  o  conhecimento  partindo  do  concreto  revela  sua  luta  por  uma  práxis  revolucionária  e  recupera  pressupostos  da  tradição  marxista  desvelando  todos  os  entraves  e  possibilidades  associados  ao  ato  de  conhecer.  Para  Gramsci  o  conhecimento  é  mutável  e  obrigatoriamente  disseminado  na  busca  constante  pela  mudança do ser social. 

Sabemos  que  mesmo  após  as  contribuições  de  diversos  pensadores  que  objetivaram transformar os moldes de uma educação tradicional e acrítica, o sistema do  capital  ainda  fornece  ações  determinantes  em  todas  as  esferas  sociais.  Pensar  uma  educação  para  alem  do  capital  é  criar  estratégias  principalmente  em  relação  aos  princípios  educacionais,  que  levem  ao  rompimento  com  ideologias  e  verdades  estabelecidas e massificadas como pensamento hegemônico. 

Essa aproximação com o pensamento de Gramsci nos leva a conhecer o valor de  seus conceitos e apontamentos para que se efetive uma educação para a emancipação.  Não  há  como  negar  seu  extraordinário  espírito  revolucionário  o  qual  mesmo  quando  proibido  de  manifestar  suas  opiniões  e  em  cárcere  consegue  continuar  sua  produção  e  posteriormente tem suas concepções difundidas por todo o mundo. 

   

REFERÊNCIAS 

BARBOSA,  W.  Marxismo:  História,  política  e  método.  Monografia  apresentada  no  Instituto Federal de Educação, ciência e tecnologia, S/A.       BEZERRA, C.; PAZ, S. R. Emancipação e apropriação social do conhecimento em Gramsci:  uma reflexão a partir do corpus categorial da filosofia da história. Trabalho & Educação‐ ISSN 1516‐9537/Submissões, Soumissions d'articles, Paper submissions‐2013/2014, v. 16, n.  2, p. 13‐26, 2012.     

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COUTINHO,  C.  N.  O  leitor  de  Gramsci:  Escritos  escolhidos.  Rio  de  Janeiro.  Civilização  Brasileira, 2011. 

   

GRAMSCI,  A.  Caderno  12.  Apontamentos  e  notas  esparsas  para  um  grupo  de  ensaios  sobre  a  história  dos  intelectuais.  O  princípio  educativo.  In:  Cadernos  do  Cárcere.  Trad.  Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro, 2000.      GRAMSCI, A. Concepção Dialética da História. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1987.      GRAMSCI, A. Concepção dialética da história. Trad. Carlos Nelson Coutinho. 10 ed. Rio de  Janeiro: Civilização Brasileira, 1981      GUILHERME, C. A. S. A. O Gramsci político e revolucionário. Revista Urutágua 19 (2009):  117‐126.     

MANACORDA,  M.  A.  O  Principio  educativo  em  Gramsci.  Porto  Alegre:  Artes  Médicas,  1990. 

   

MARTINS,  M.  F.  Marx,  Gamsci  e  o  conhecimento:  ruptura  ou  continuidade?  Campinas,  Autores Associados, Unisal, 2008.      RODRIGUES, J.; HORA, L. C. A. da. A educação em Gramsci e sua influência na Pedagogia  Histórico‐Crítica: a temática da escola e a crítica ao espontaneísmo. CEMARX (Colóquio  Internacional de Marx e Engels).eCampinas,a2012.      SEMERARO, G. Da sociedade de massa à sociedade civil: A concepção da subjetividade em  Gramsci. Educação e Sociedade, ano XX, N°66, Abril/99.     

SILVA,  M.  L.  Antonio  Gramsci  e  as  Ciências  Sociais:  A  Unidade  de  contrários  como  Fundamento  de  uma  nova  epistemologia.  In:  35º  ENCONTRO  ANUAL  DA  ASSOCIAÇÃO  NACIONAL DE PÓS‐GRADUAÇÃO E PESQUISA EM CIÊNCIAS SOCIAIS. Grupo De Trabalho  18: Marxismo E Ciências Sociais. Universidade Estaudal Paulista, Faculdade De Filosofia e  Ciências ANPOCS Campus de Marília, 2011. 

 

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