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Conclusões da conferência: Planeamento do Território e Protecção da Floresta contra Incêndios

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Academic year: 2021

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Conclusões da conferência:

“Planeamento do Território e Protecção da

Floresta contra Incêndios”

Lisboa, 5 a 8 de Maio de 2004

Organização:

Instituto Superior de Agronomia Universidade Técnica de Lisboa

Patrocínio:

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Informações sobre a conferência: Data: 5, 6, 7 e 8 de Maio de 2004

Local: Casa do Ambiente e do Cidadão, Lisboa

Organização: Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa Patrocínio: Banco Totta

Comissão Científica: Professor João Santos Pereira, Professor José Miguel Cardoso Pereira e Professor Francisco Rego, Instituto Superior de Agronomia

Comissão Executiva: Eng.º João Neves Silva e Eng.º Tiago Silva, Instituto Superior de Agronomia

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Conclusões da conferência:

“Planeamento do Território e Protecção da Floresta contra Incêndios”

A extensão sem precedentes da área afectada por incêndios no Verão de 2003 desencadeou a mais intensa discussão (e comoção) sobre um fenómeno natural, que se registou nos últimos anos em Portugal. Foi um acontecimento marcante do ponto vista político e social, que veio, em larga medida, expor a inadequação de uma política vocacionada mais para a florestação do que para a gestão da floresta e o planeamento do espaço rural.

Este encontro internacional organizado pelo Instituto Superior de Agronomia da Universidade Técnica de Lisboa, reuniu especialistas de Portugal, Espanha, Reino Unido, Austrália e Estados Unidos da América e resultou da colaboração entre o Banco Totta/Grupo Santander e a Universidade Técnica de Lisboa. O objectivo do encontro foi proceder a uma caracterização multidisciplinar dos incêndios catastróficos que ocorrem em Portugal, em comparação com o que acontece noutras partes do mundo, em particular nas regiões onde os fogos florestais também têm grande impacto.

Para além de uma caracterização geral da floresta portuguesa e do fogo, foram abordados: (1) o contexto sócio-económico e os impactos dos incêndios, (2) os cenários possíveis para o futuro, quer de um ponto de vista ambiental quer do ponto de vista social e (3) o planeamento do espaço rural e a gestão do fogo, incluindo o seu combate. Os trabalhos apresentados visaram contribuir com instrumentos teóricos e práticos que ajudem a definir estratégias para redução do risco de incêndio nas áreas florestais.

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A floresta portuguesa e o fogo

Depois de longos séculos de desarborização, as florestas assumiram no último século uma grande importância no nosso território do continente. Portugal é porventura o país da Europa em que a transição entre a desarborização e a reflorestação foi mais drástica: a área florestal, que era de 4 a 7% em 1870, passou, num século, para mais de 30% território. Acresce que, se as florestas de produção cobrem cerca de 1/3 do território, outro 1/3 está coberto de matos, que constituem ecossistemas afins da floresta, pelo menos em termos de susceptibilidade ao fogo.

Em Portugal, as florestas representam um grande valor económico e social, sendo sustentáculo da economia de muitas regiões e contribuindo de modo significativo para o equilíbrio da balança de pagamentos do País. A percentagem de floresta privada é das mais elevadas na Europa, mas as atitudes dos proprietários/empresários são muito diversas. Oscilam entre a ausência de investimento e o absentismo, em cerca de 1/3 do total de proprietários (que detém uma área florestal estimada em 7% do total), e verdadeiras empresas. Em muitos casos, nomeadamente nas regiões onde ocorrem frequentemente grandes incêndios, a pequena dimensão da propriedade e a atitude dos proprietários, criam dificuldades inerentes de gestão florestal e de planeamento do território favorecendo uma maior vulnerabilidade aos incêndios.

O fogo é uma consequência inevitável da presença de vegetação, desde que as condições atmosféricas o permitam e haja uma fonte de ignição. Com elevadas produtividades de biomassa vegetal e um longo Verão quente e seco, Portugal tem condições favoráveis para a ocorrência de fogos florestais. A maior parte da área queimada concentra-se na metade Norte de Portugal, com a excepção da Serra de Monchique, no Algarve. O grande número de fogos não está correlacionado com a área ardida pois os grandes incêndios são relativamente poucos. Por exemplo, em 2003, 0.43% do número total de incêndios queimou 86% da área total. Com

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alguma regularidade os grandes incêndios localizam-se no centro do país. O êxodo rural e consequente abandono progressivo das actividades agrícolas são factores determinantes da grande dimensão das áreas percorridas anualmente pelos incêndios rurais.

O conhecimento disponível sobre o regime contemporâneo do fogo em Portugal, embora incompleto, porque é parcelar e incide sobre um período de tempo relativamente curto, permite identificar alguns padrões que, se devidamente interpretados, permitirão a formulação de estratégias e programas de acção para a gestão do fogo.

Os futuros possíveis

Qualquer tentativa de antever cenários futuros para a floresta e os incêndios implica uma análise cuidada das alterações climáticas projectadas, da conjuntura económica e de modificações nas atitudes e nos valores sociais. As projecções de mudança climática sugerem um acentuado agravamento do risco meteorológico de incêndio, à escala das próximas décadas. Os planos, projectos e medidas de gestão do fogo a desenvolver deverão ser suficientemente flexíveis para responder a esta dinâmica.

Por outro lado, as atitudes e os valores sociais do Portugal urbano e desenvolvido já não correspondem aos do país tradicional, agrário, nem tão pouco aos do “produtivismo” moderno, que valoriza predominantemente a função de produção lenhosa da floresta. Nas sociedades urbanizadas “pós-modernas” da União Europeia, têm cada vez maior peso ideias e políticas para a gestão do espaço rural que tendem a enfatizar a prestação de serviços ambientais e de recreio, a troco de menor produção de bens industriais. Assim, a preocupação com o problema dos incêndios, passa da esfera do privado para o domínio público, alargando a base social de apoio para as decisões necessárias e partilha dos custos inerentes.

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Impactos dos incêndios

Os impactos sociais dos incêndios florestais de 2003 foram analisados no que respeita à perda de vidas humanas e de habitações na interface urbano-florestal. De entre os impactes ambientais consideraram-se como especialmente importantes os que afectam os solos, agravando a sua erosão. Para a mitigação destes impactes reconheceu-se como fundamental a intervenção recorrendo a técnicas adequadas para a reabilitação das áreas afectadas pelo fogo.

Sugeriu-se ser economicamente justificável a criação de 500 brigadas de sapadores florestais no país, no caso da actividade destas conseguir reduzir para metade a área florestal queimada em cada ano. Foi também proposta uma metodologia inovadora para facilitar a participação pública na formulação de escolhas entre bens tangíveis e intangíveis, inerentes à gestão do fogo no espaço rural.

Estratégias de prevenção de incêndios e reabilitação de áreas ardidas

A gestão dos meios disponíveis deve tomar em consideração o regime de incêndios. Sendo o fogo inevitável nas regiões com clima do tipo Mediterrânico, como Portugal, é necessário criar condições para minimizar a probabilidade de ocorrência de incêndios catastróficos. São estes poucos incêndios, tipicamente concentrados num reduzido número de dias com condições meteorológicas muito desfavoráveis, que constituem o problema do ponto de vista da protecção florestal. Basta que um número ínfimo de ocorrências escape ao ataque inicial, para que a área queimada total em cada ano venha a ser muito grande. Este facto cria enormes dificuldades à organização do combate e é um argumento decisivo em favor da prevenção e do planeamento territorial. Estes deverão basear-se numa multiplicidade de abordagens, incluindo o uso preventivo do fogo. Não se conclua todavia que a ênfase no planeamento do território e na prevenção, dispensa a necessidade de um sistema eficaz de supressão dos incêndios.

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A prevenção de incêndios deve ser objecto de uma abordagem holística, isto é, sendo um problema complexo não pode ser abordado de forma isolada da envolvente ambiental e social. Por outro lado, as actividades de gestão do fogo devem observar as regras de segurança adequadas, ser exequíveis sob o ponto de vista orçamental e contribuir para uma correcta utilização dos recursos naturais. A definição de estratégias e de tácticas a adoptar na prevenção e combate a incêndios no âmbito da gestão e planeamento florestal deve apoiar-se em sistemas de informação com uma arquitectura que permita tirar partido de forma eficiente e eficaz da funcionalidade integrada de tecnologias actualmente disponíveis. O investimento em tecnologia pelas instituições envolvidas na prevenção e combate a incêndios em Portugal deve ser feito no âmbito de um planeamento e de uma arquitectura para os sistemas de informação que ofereçam a possibilidade de gerir de uma forma integrada a enorme diversidade de sistemas já disponíveis no conjunto das instituições e de adaptar estes sistemas por forma a confrontar de forma eficaz o problema dos incêndios. No âmbito desta adaptação destaca-se o desenvolvimento de modelos económicos e de gestão (e das correspondentes aplicações) que contribuam para apoiar de forma inovadora os processos de decisão em prevenção e combate a incêndios florestais.

Em virtude da natureza e da dimensão dos danos causados pelos incêndios, o mercado dos seguros florestais (hoje restrito aos povoamentos das empresas da celulose e do papel) só é viável num sistema de partenariado. Os objectivos deste sistema deverão ser o aumento do investimento florestal, da receita dos produtores e da protecção dos recursos. Os seus pilares serão necessariamente um seguro subsidiado (para riscos devidamente tipificados) e um sistema de compensação de perdas (para compensação das seguradoras em situações excepcionais), e acessoriamente um fundo de calamidade (para compensação de danos causados por riscos não susceptíveis de serem segurados).

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A determinação da necessidade e viabilidade da reabilitação ambiental das áreas ardidas pressupõe a análise cuidadosa da vulnerabilidade ao fogo e capacidade de regeneração natural dos ecossistemas, bem como a definição de objectivos de planeamento e de gestão. Os objectivos prioritários a observar em termos de reabilitação das áreas ardidas deverão ser: (1) a conservação do solo e da água; (2) a manutenção da resiliência dos ecossistemas face ao fogo e (3) a preservação da biodiversidade e valor paisagístico das áreas afectadas.

O carácter transversal da política ambiental da União Europeia e a sua progressiva integração nas políticas sectoriais permitiram a estruturação de algumas medidas que, devidamente enquadradas e utilizadas, podem ter um impacte altamente positivo em termos de prevenção de incêndios, nomeadamente: (1) as ajudas directas ao desenvolvimento rural; (2) o aconselhamento agrícola para o cumprimento das normas; (3) as medidas agro-ambientais; (4) as indemnizações compensatórias; (5) os apoios aos agricultores em zonas ambientalmente condicionadas; (6) o apoio transitório ao cumprimento de novas normas (ambientais, segurança alimentar, bem-estar animal, etc.) e, finalmente, (7) o apoio ao investimento de adaptação ambiental.

Uma coisa é certa: o conhecimento científico é fundamental para uma análise do problema que permita soluções integradas (planeamento, prevenção, supressão e reabilitação). A implementação destas soluções exige recursos humanos com formação adequada e operacionalidade.

Referências

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