DE
PRÉDIOS HISTÓRICOS
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C o l e t â n e a d e C a s o s d e R e c u p e r a ç ã o
d e E d i f i c a ç õ e s P a t r i m o n i a i s
Alcio daCosta Pereira & Alexandre da Costa Pereira (orgs.)
Natal, 2019
DE
PRÉDIOS HISTÓRICOS
C o l e t â n e a d e C a s o s d e R e c u p e r a ç ã o
d e E d i f i c a ç õ e s P a t r i m o n i a i s
Alcio da Costa Pereira & Alexandre da Costa Pereira
INSTITUTO FEDERAL Rio Grande do Norte
Capa, Projeto Gráfico e Diagramação Hanna Andreza Fernandes Sobral Proposta de Capa (baseada em foto): Mauro de Macedo Pereira
Capa inspirada em fotografia de capela er-guida em 1867 no povoado de Igreja Nova, município de São Gonçalo do Amarante (RN), em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, padroeira da localidade. A capela foi erguida pelo Sr. Joaquim Félix de Lima no ano de fundação do povoado, com a data de construção fixada na facha-da principal e cruzeiro antigo implantado
no adro, conjunto com relevante interesse arquitetônico.
Coordenação de Design Charles Bamam Medeiros de Souza Revisão Linguística
Laianni Vitória Cosme e Silva Coordenação de Revisão Rodrigo Luiz Silva Pessoa Prefixo editorial: 94137 Linha Editorial: Técnico-científica Disponível para download em: http://memoria.ifrn.edu.br
Contato
Endereço: Rua Dr. Nilo Bezerra Ramalho, 1692, Tirol. Natal-RN. CEP: 59015-300. Telefone: (84) 4005-0763 l E-mail: [email protected]
Ministro da Educação Abraham Weintraub
Secretário de Educação Profissional e Tecnológica Ariosto Antunes Culau
Reitor
Wyllys Abel Farkatt Tabosa Pró-Reitor de Pesquisa e Inovação Márcio Adriano de Azevedo Coordenadora da Editora IFRN Kadydja Karla Nascimento Chagas
Conselho Editorial Albino Oliveira Nunes Ana Paula Borba Costa
Anderson Luiz Pinheiro de Oliveira Anisia Karla de Lima Galvão Carla Katarina de Monteiro Marques Cláudia Battestin
Emiliana Souza Soares Fernandes Fabrícia Abrantes Figueredo da Rocha Francinaide de Lima Silva Nascimento Fábio Alexandre Araújo dos Santos Genoveva Vargas Solar
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Kadydja Karla Nascimento Chagas Lenina Lopes Soares Silva Luciana Maria Araújo Rabelo Maria da Conceição de Almeida Márcio Adriano de Azevedo Nadir Arruda Skeete Paulo de Macedo Caldas Neto Ramon Evangelista dos Anjos Paiva Regia Lúcia Lopes
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As opiniões são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores. É permitida a reprodução total ou parcial desde que citada a fonte.
Esta obra foi submetida e selecionada por meio de edital específico para publicação pela Editora IFRN, tendo sido analisada por pares no processo de editoração científica.
O mundo editorial acadêmico brinda os profissionais da área da preservação dos bens culturais construídos com o livro “Obras de Restauro de Prédios Históricos: Coletânea de Casos de Recuperação de Edifícios Patrimoniais”. A edição surge em boa hora, pois aborda questões sobre a teoria e a prática de obras em edificações de valor histórico que vêm sendo discu-tidas no âmbito das instituições nacionais e internacionais de preservação.
As discussões sobre esse tema podem parecer paradoxais, pois a maioria dos teóricos e dos práticos concordam com o aforismo: “as boas práticas se sustentam em boas teorias”. As polarizações orbitam nas escolhas dos princípios emanados por esse ou aquele teórico, considerado mais importante para a atualidade. Os Brandinianos são loquazes quando advogam a mínima intervenção necessária e as garantias da integridade e autenticidade do bem cultural pela legitimação do restauro da sua materialidade. Os Muñozistas, equivocadamente consi-derados liberais, buscam a preservação dos aspectos e funções simbólicas dos objetos, se preocupando com os gostos e as ne-cessidades intangíveis dos usuários. As conciliações com essas antinomias nem sempre resultam soluções de intervenções que satisfaçam seus adeptos, configurando as práticas recortes de alguns dos aspectos desse, daquele ou de ambos teóricos.
Por outro lado, há profissionais que não conseguem via-bilizar aspectos fundamentais dos seus projetos, quando da realização das obras e dos serviços de conservação e restauro, devido às superveniências imprevisíveis que deflagram, às
ve-de muitas horas ve-dedicadas às instrumentalizações ve-de projetos de restauro, no atendimento de normativas e manuais que de-terminam como deve ser elaborado um projeto.
Entretanto, na fase de análise do projeto nas entidades responsáveis pelos alvarás de aprovações, não há linhas ge-rais de princípios que orientem os analistas sobre as condutas que devem prevalecer nos julgamentos. Assim, os projetistas ficam submissos, compulsoriamente, à autoridade do analista de plantão que firma sua simpatia por determinado gosto es-tético ou viés teórico, sem que haja amparo normativo explíci-to, mas apenas no reductio ad absurdum do “eu acho que fica melhor assim”. Aliás, há situações ainda mais absurdas quan-do o projeto, já aprovaquan-do, é questionaquan-do após iniciadas as in-tervenções. Essas situações vêm sendo observadas há mais de dez anos nas viagens de estudos e visitas técnicas pelos parti-cipantes do Curso Gestão de Restauro/CECI/UFPE.
Esse livro apresenta a experiência dos autores em projetos, destacando-se a realização do projeto de reabilitação estrutu-ral do antigo Grupo Escolar “Augusto Severo”, reconhecido pelo seu valor patrimonial, que se pautou no respeito à autentici-dade e integriautentici-dade da edificação. No seu estudo, são traçadas as principais técnicas disponíveis de reabilitação estrutural, associando-as às reflexões sobre conceitos de autenticidade e integridade e estudos de referência, de modo a obter subsídios para o embasamento e fundamentação teórica para a escolha da melhor solução a ser adotada.
O livro está dividido em quatro capítulos: (1) Restauração do Patrimônio Edificado: Conceitos Fundamentais, (2) A
Pre-tudos de Referência: Casos de Obras de Reabilitação Estrutural em Edificações Patrimoniais.
No primeiro capítulo, é feita a revisão da literatura no âmbito da restauração do patrimônio cultural edificado, tergiversando sobre os principais aspectos e conceitos uti-lizados pelos teóricos sobre autenticidade e integridade, que constam em documentos nacionais e internacionais de preservação. No capítulo seguinte, são abordados con-ceitos e definições mais atuais sobre reabilitação de es-truturas, mostrando a importância do conhecimento dos materiais e das técnicas construtivas utilizados na constru-ção do edifício histórico, como os disponíveis no mercado, para possibilitar soluções inteligentes nas intervenções de reabilitação estrutural. Os autores discorrem sobre as ca-racterísticas dos materiais e dos processos de deterioração dos componentes construtivos, como a madeira, o ferro/ aço, o concreto armado, compósitos de fibras naturais e sintéticas, concluindo com as questões sobre as variáveis que devem ser consideradas na escolha dos materiais e das técnicas.
O caso da recuperação do prédio do Grupo Escolar Augus-to Severo, localizado no Centro de Natal, na Ribeira, situado entre o prédio da antiga Escola Doméstica de Natal e o Teatro Alberto Maranhão, também é abordado.
Inicialmente, a obra traz considerações iniciais para a con-textualização do caso, mostrando a ficha técnica com um bre-ve histórico, as características arquitetônicas da edificação e seu valor como patrimônio protegido pelo Poder Público.
Inú-do estaInú-do de conservação, apresenta as escolhas das áreas ob-jetos da proposta de reabilitação estrutural e faz uma análise pormenorizada das possibilidades de intervenção restaurativa de reabilitação dos diversos espaços e componentes, levando em consideração as possíveis interferências na autenticidade e integridade da edificação.
No quarto capítulo, o livro brinda os leitores com mais nove casos, que denomina de Estudos de Referência com a Igreja do Carmo em Olinda (PE), a Fortaleza dos Reis Magos em Natal (RN) o prédio do antigo BANDERN em Natal (RN), a Igre-ja São Cristóvão em São Paulo (SP), a Capela dos Mártires de Cunhaú em Canguaretama (RN), o prédio da antiga Escola de Aprendizes Artífices em Natal (RN), o prédio da antiga Casa do Estudante em Natal (RN), as muralhas da Fortaleza Nossa Se-nhora dos Remédios em Fernando de Noronha (PE) e o Adro da Igreja de São Francisco em Olinda (PE), e, conforme bem regis-tra a obra, “regis-tratam-se de situações em que as edificações fo-ram submetidas a intervenções restaurativas, onde se tornou necessária a utilização de técnicas modernas e tradicionais diversas para a garantia da sua estabilidade por meio da reabi-litação estrutural. São edificações consideradas monumentos do patrimônio histórico construído nacional, relevantes e de grande importância por apresentarem casos diferenciados de reabilitação estrutural”.
Este livro também ser visto como uma provocação aos profissionais que atuam no âmbito das obras e serviços de restauro e requalificação estrutural de edificações de valor cultural, uma vez que incentiva a publicação de suas
experiên-quisa e prática no país. Boa leitura.
Agradecer ao final de uma obra é tarefa difícil quando muitos são os colaboradores e pessoas que apoiaram, de algu-ma foralgu-ma, no projeto de tornar realidade ualgu-ma produção como esta.
Direcionamos os agradecimentos às Instituições que fo-ram importantes para que a obra se tornasse realidade. Agra-decemos, portanto, ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, que viabilizou a edição da obra, ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da Uni-versidade Federal do Rio Grande do Norte, que oportunizou o desenvolvimento da dissertação de Mestrado que fundamen-tou os capítulos 1, 2 e 3 da obra, ao corpo docente do Curso Gestão de Restauro/CECI/UFPE de Olinda/PE, por propiciar a experiência e vivência da Arte e Técnica do Restauro, bem como ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e à Arquidiocese de Olinda e Recife, por possibilitar a divulga-ção científica dos casos elencados no livro como referenciais de obras de restauro de edifícios patrimoniais.
Agradecemos ao Corpo Editorial da Editora IFRN pelo zelo no processo de produção da obra, em especial, à revisora Laianni Vitória pela primorosa tarefa de revisão na finalização do livro.
CAPÍTULO 1:
RESTAURAÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO: CONCEITOS FUNDAMENTAIS 23
» Autenticidade e Integridade – Conceitos fundamentais à prática da restauração ... 29 » Recomendações Internacionais: As Cartas Patrimoniais .. 35 CAPÍTULO 2:
A PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO EDIFICADO 41
» As Características dos materiais e os processos de deterio-ração ... 43 » Reabilitação Estrutural: Definições e Conceitos ... 50 » Técnicas de Reabilitação Estrutural em Intervenções no
Patrimônio Edificado ... 54 » Variáveis a considerar na escolha dos materiais e técnicas ..65 CAPÍTULO 3:
ESTUDO DO CASO DE RECUPERAÇÃO DO EDIFÍCIO DO GRU-PO ESCOLAR AUGUSTO SEVERO 67
» Ficha Técnica à Edificação ... 73 » Características Arquitetônicas do Prédio (GEAS) e seu valor
Patrimonial ... 75 » Análise Preliminar - Condições Gerais do Estado de conser-vação do GEAS ... 88 » Reconhecimento da Edificação - Mapeamento de Danos .. 95 » Escolhas das Áreas a serem Objeto da Proposta de
Reabili-reabilitação nas áreas definidas conforme interferências
na autenticidade e integridade da edificação ... 104
CAPÍTULO 4: ESTUDOS DE REFERÊNCIA: CASOS DE OBRAS DE REABILITA-ÇÃO ESTRUTURAL EM EDIFICAÇÕES PATRIMONIAIS 133 » Caso da Igreja do Carmo – Olinda/PE ... 137
» Caso do Prédio do Antigo BANDERN – Natal/RN ... 149
» Caso da Fortaleza dos Reis Magos – Natal/RN ... 158
» Caso da Igreja São Cristóvão – São Paulo/SP ... 168
» Caso das Obras de Reabilitação Antiga Escola de Artes e Ofícios ... 177
» Caso da Consolidação Estrutural da Fortaleza Na. Sra. dos Remédios ... 203
» Caso da Recuperação da Capela de Cunhaú – Canguareta-ma/RN ... 218
» Caso da Recuperação da Antiga Oficina da Estação Ferrov. de Natal/RN ... 225
» Caso da Recuperação do Adro do Convento São Francisco – Olinda/PE ... 252
CAPÍTULO 5: CONCLUSÕES E COMENTÁRIOS FINAIS 267 » CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 269
O processo de restauro em prédios históricos tem sua rele-vância confirmada por considerar, antes de qualquer premissa, que essas edificações são bens culturais, independentemente da existência de tombamento por órgãos oficiais de patrimô-nio cultural, como bem ressalta Almeida (2013).
No tocante à sua estabilidade, todas as edificações, em especial as de grande porte e de uso público, são projetadas e construídas visando propiciar segurança estrutural e durabili-dade para um determinado período, denominado pela enge-nharia como “vida útil”.
Entretanto, com o transcurso dos anos e a utilização des-sas edificações, ocorre a degradação natural dos seus materiais constituintes, principalmente devido à ação das intempéries e à falta de comprometimento, por parte dos órgãos públicos, com os procedimentos de manutenção e reparos de eventuais patologias, acarretando, dessa forma, uma considerável redu-ção de sua vida útil. Em alguns casos, são executadas obras de reforma e ampliações que podem, além de descaracterizar o seu valor histórico, ocorrer de forma equivocada e comprome-ter a integridade estrutural de toda a edificação.
Interferir estruturalmente em uma edificação antiga con-siste em tarefa difícil e sujeita a diferentes abordagens e opi-niões críticas, em especial nas edificações possuidoras de valor patrimonial reconhecido, cuja intervenção é ensejada de preo-cupações reais constantes, com foco no respeito aos materiais, técnicas e elementos (arquitetônicos) existentes.
Observamos, em diversos estudos técnicos, a existência de uma quantidade cada vez maior de estruturas que atingi-ram ou estão para atingir o fim de sua vida útil de projeto, sen-do, portanto, a intervenção mediante reabilitação estrutural
cada vez mais solicitada e utilizada em edificações integrantes do patrimônio construído, com uma grande tendência de au-mento nas próximas décadas. Essa tendência está diretamen-te relacionada ao reconhecimento de uma maior quantidade de edifícios enquanto patrimônios históricos, bem como do próprio processo de envelhecimento (BORGES, 2001; COIAS, 2002; COSTA, 2002; COSTA, 2005; TEOBALDO, 2004).
De acordo com estudo da Global Heritage Found, mais de 200 locais classificados como patrimônio cultural da humani-dade estão em risco de ruína. O relatório Saving Our Vanishing Heritage1 mostra que o desaparecimento desses locais poderia
representar para os países em desenvolvimento onde eles se situam a perda no montante de 72 bilhões de euros em re-ceitas. O Anfiteatro Flávio, mais conhecido como Coliseu de Roma, é um dos monumentos em risco2. Numa altura em que
se anunciam programas de reabilitação de grande amplitude, faz-se necessário desenvolver, divulgar e aplicar estratégias que permitam que as intervenções, sobretudo as que envol-vam a estrutura, não sejam atentatórias da autenticidade e integridade dos edifícios que estão sendo reabilitados, em particular dos que constituam bens culturais.
A reabilitação estrutural em patrimônio arquitetônico não é um fim por si mesmo, mas um meio para preservação do edifício como um todo, bem como das peculiaridades da estrutura do pa-trimônio, com sua complexidade histórica, o que requer a orga-nização de estudos e propostas segundo métodos semelhantes
1 Tradução: Salvando nosso patrimônio da perda.
2 Informação obtida no site www.globalheritagefound.org <Acesso em 12
àqueles usados em medicina. Anamnese, diagnóstico, terapia e acompanhamento correspondem respectivamente à busca de dados e informações significativas, identificação das causas de danos e degradações, escolha de medidas de reparo e controle da eficiência das intervenções. Para obter adequação de custos e mí-nimo impacto no patrimônio arquitetônico usando os recursos disponíveis de uma maneira racional, é normalmente necessário que o estudo repita esses passos em um processo interativo3.
Atualmente, existem inúmeros métodos para interven-ções de reabilitação estrutural em edificainterven-ções, porém, a com-plexidade da geometria e a definição dos elementos estrutu-rais, a constituição interna desses últimos, a caracterização e a variabilidade das propriedades mecânicas, os danos ocorridos no passado, as alterações episódicas e as fases evolutivas da construção ao longo do tempo devem ser considerados para a escolha mais fundamentalmente adequada do método a ser adotado para uma intervenção estrutural.
É nesse contexto que esta obra busca realizar uma refle-xão através da realização de um projeto de reabilitação estru-tural de um edifício de reconhecido valor patrimonial, o antigo Grupo Escolar Augusto Severo, pautado pelo respeito à auten-ticidade e à integridade da edificação integrante do patrimô-nio construído. Para tanto, foi realizado um estudo sobre as principais técnicas disponíveis de reabilitação estrutural, uma reflexão acerca dos conceitos de autenticidade e integridade e estudos de referência, de modo a obter subsídios para o emba-samento e fundamentação teórica para a escolha da melhor solução a ser adotada no estudo de caso em questão.
Esta produção é dividida em quatro capítulos. O primeiro se ocupa da revisão da literatura com ênfase na restauração do patrimônio edificado, no qual foi desenvolvida uma breve in-trodução sobre a teoria da restauração. Em seguida, traz uma abordagem dos principais aspectos e conceitos a respeito da autenticidade e integridade fundamentada nos princípios propostos pelos restauradores e complementada pelas reco-mendações contidas nas cartas patrimoniais.
No segundo capítulo, trata-se da importância da tectôni-ca em intervenções restaurativas no patrimônio edifitectôni-cado, o qual aborda as características dos materiais mais utilizados em intervenções de reabilitação estrutural. São apresentados, ainda, uma abordagem sobre definições e conceitos de reabili-tação estrutural, o comportamento estrutural das edificações ao passar do tempo, as ações degradantes nas estruturas e a descrição de algumas técnicas de reabilitação estrutural co-mumente empregadas.
No terceiro, são abordadas questões específicas relacio-nadas ao restauro da edificação do Grupo Escolar Augusto Severo. O quarto capítulo traz a análise de dez casos de inter-venções de reabilitação estrutural em obras do patrimônio edificado, que serão utilizadas como estudos de referências, com a apresentação de considerações a respeito das interfe-rências relativas à integridade e autenticidade do patrimônio edificado construído.
1
ca p í t u l o
Restauração do Patrimônio Edificado: Conceitos Fundamentais
Alcio da Costa Pereira Alexandre da Costa Pereira
O início da discussão da teoria da restauração é marcado pela coexistência de duas correntes doutrinárias bem defini-das e distintas sobre a restauração do patrimônio histórico:
i. A corrente Intervencionista (nascida na França e com grande repercussão na Europa);
ii. A corrente Anti-intervencionista (na Inglaterra).
A primeira corrente é simbolizada por Viollet-Le-Duc4 e a
segunda por Ruskin e Morris (FIGURA 1).
A corrente anti-intervencionista portava-se de forma mais radical, na qual “não se tinha o direito de tocar nos monumentos antigos, que pertenciam, em parte, àqueles que os edificaram e, também, às gerações futuras”. Para os anti-intervencionistas, a “restauração é impossível e absurda”, pois equivaleria a “ressus-citar um morto”, além de romper com a autenticidade da obra. Todavia, esses doutrinadores não excluem a possibilidade da manutenção, desde que imperceptível (CHOAY, 2003: 154-156).
Ruskin5 sustentava que a arquitetura era essencial à
lem-brança, sendo o meio mantenedor das ligações com o passado e com a identidade coletiva. Nos edifícios antigos, por exemplo, pode-se perceber o valor incorporado pelo trabalho das gerações pretéritas, desde as moradias humildes às mais luxuosas. Por ou-tro lado, os intervencionistas consideram que restaurar um edi-fício significa “restituí-lo a um estado completo, que pode nunca ter existido”. Sendo assim, se um edifício não continha todos os elementos necessários a compor um estilo, estes deveriam ser acrescentados no processo de restauração (CHOAY, 2003).
4 As teorias de Viollet-Le-Duc foram resumidas no verbete. “Restauração”,
traduzido por Beatriz Mugayar Kühl em 2000.
5 As teorias de John Ruskin, foram registradas no seu livro “A lâmpada da
FIGURA 1: Breve histórico da teoria da restauração
Posteriormente, observamos as contribuições de Camillo Boito6, que partiu das ideias de Ruskin e Viollet-le-Duc,
chegan-do a uma prática que foi denominada de “restauro filológico”. Entendia que a restauração só deveria ser praticada in extremis, quando todos os outros meios de salvaguarda (manutenção, consolidação, intervenções imperceptíveis) tivessem fracassa-do. Ademais, formulou um conjunto de diretrizes para a con-servação e a restauração dos monumentos históricos na Itália. Na sua prática, aplicava alguns princípios básicos para o reconhecimento do valor patrimonial de edificações, que rela-cionamos a seguir:
• Dar ênfase ao valor documental do monumento;
• Ser preferencialmente consolidados a reparados e repara-dos a restaurarepara-dos;
• Evitar acréscimos e renovações e, se fosse necessário, de-veriam ter caráter diferente do original e harmonioso com o conjunto;
• As obras de consolidação deveriam limitar-se ao estrita-mente necessário: respeitar as várias fases do monumento, removendo somente os elementos de qualidade duvidosa; • Registrar todas as etapas das obras;
• Inscrever e apontar a data de intervenção.
Os seus princípios serviram de base às teorias mais mo-dernas que têm sido reformuladas, adaptadas e melhoradas pelos seus seguidores e alunos.
6 As recomendações de Camilo Boito foram apontadas no seu livro “Os
Outro restaurador que merece grande destaque na evo-lução da teoria da restauração é Cesare Brandi7. Foi, em 1939,
fundador e, posteriormente, diretor durante vinte anos do Ins-tituto de Restauro em Roma e teve como alguns dos seus se-guidores Renato Bonelli e Giovanni Carbonara.
Para Cesare Brandi, o restauro era visto como uma inter-venção em uma obra de arte particular para cada caso, não se podendo generalizar com regras e normas, e constituía um ato criativo e crítico. Para ele, o restauro deve reestabelecer a unidade potencial da obra de arte sempre que seja possível, de modo que não seja cometida uma falsificação artística ou histórica, e sem apagar as marcas do percurso da obra de arte através do tempo (BRANDI, 2004).
O reconhecimento da obra de arte deriva da conscienti-zação do valor que se tem impregnado nela, seja pelo aspec-to material, pela noaspec-toriedade do auaspec-tor ou, ainda, pela técnica utilizada. A restauração, assim, será condicionada pela obra de arte, tendo em vista seu valor estético e histórico fortemente presente, além do aspecto físico (BRANDI, 2004).
Duas instâncias – a estética e a histórica – fixam o limi-te d’aquilo que pode ser o restabelecimento da unidade, sem que se cometa um falso histórico ou uma ofensa estética. A teoria Brandiana traz princípios fundamentais para se atender ao respeito à autenticidade e integridade de obras de arte e tem como princípios básicos a distinção da intervenção sem destruir a unidade da obra; o caráter insubstituível da matéria unicamente enquanto aspecto, não tanto enquanto
estrutu-7 O pensamento de Cesari Brandi está em seu livro “Teoria da Restauração”,
ra; e o princípio de que qualquer intervenção de restauração não deve tornar impossível uma intervenção futura – ao con-trário, deve facilitar (BRANDI, 2004).
Fazendo uma reflexão sobre a evolução da teoria da res-tauração, percebe-se que a formação do seu conceito se ini-ciou no século XVIII. Já no século seguinte, ocorreu a marcante divergência entre duas ideias bastante distintas e definidas: a corrente intervencionista e a não intervencionista.
Este período notabilizou-se pelo restauro tratado como disciplina, com forte influência no desenvolvimento de diver-sas teorias, entre as quais se destacaram as formuladas por Camilo Boito e Cesari Brandi, que fundamentam os princípios básicos que mais influenciam nas intervenções de restauração do patrimônio edificado até os dias atuais
1.1 AUTENTICIDADE E INTEGRIDADE – Conceitos
fundamentais à prática da restauração
No dicionário Aurélio (2010), encontramos os seguintes significados para os termos integridade e autenticidade:
Significado de Integridade:
s.f. Estado de uma coisa que tem todas as suas partes: a integridade de uma soma. / Qualidade do que é inteiro, completo. / Fig. Qualidade de uma pessoa íntegra. Hones-ta, incorruptível.
Significado de Autenticidade:
s.f. Caráter do que é autêntico, legítimo, verdadeiro: negar, contestar a autenticidade de um ato.
A consulta dos significados no dicionário Aurélio, tem como principal finalidade facilitar o entendimento desses con-ceitos, aplicados ao campo disciplinar do restauro, de acordo com os critérios definidos pela UNESCO8.
A partir do momento em que a UNESCO incorpora a exi-gência de um “teste de autenticidade” para inscrição na lis-ta de Patrimônio Mundial, no final dos anos 70, abre-se uma lacuna para a discussão mais ampla sobre esse conceito (JO-KILEHTO, 2006).
O teste de autenticidade possuía, inicialmente, quatro atributos fundamentais: a forma ou o desenho, o material, a habilidade do artífice e as características de implantação e or-ganização de determinado sítio. Tais atributos se referem basi-camente ao patrimônio tangível e material.
Após passar por revisões em 2005 e em 2008, o teste pas-sa a incluir, além dos atributos citados anteriormente, os se-guintes novos atributos: tradições, técnicas, língua e outras formas de patrimônio intangível (VIEIRA, 2008).
Com relação ao atributo técnica, pode-se dizer que é o modo de fazer e de executar uma determinada ação, ou seja, refere-se ao tipo de mão de obra empregada para a execução de uma determinada obra, dos acabamentos, dos elementos e das peças estruturais que compõem a sua estrutura. A manuten-ção da técnica no ato do reparo do dano ocorre com a utilizamanuten-ção da mesma técnica empregada no edifício original (SILVA, 2012).
Segundo Brandi (2004), a imagem de uma obra de arte não depende, exclusivamente, do corpus, da substância
mate-8 UNESCO - Tradução: Organização das Nações Unidas para a Educação,
rial que a compõe. Ao contrário, uma mesma substância pode apresentar-se ora como obra de arte, ora como simples maté-ria prima, dependendo de sua trajetómaté-ria histórica.
Uma pedra de mármore, não trabalhada, tem valor distin-to do de uma escultura, porque à última se agregam valores ar-tísticos, culturais e históricos herdados da técnica utilizada na sua execução, que a tornam mais que simples matéria. Tem-se, assim, que a matéria atua mais como um veículo de transmis-são da imagem do que como um condicionante desta.
Com isso, torna-se possível a preservação da autenticida-de da técnica e da integridaautenticida-de do objeto. Para que o objeto seja autêntico, há o conceito da distinguibilidade. Ao utilizar outra tecnologia para reabilitação estrutural (o uso do perfil metá-lico para complementação da tesoura de madeira), há uma perda (total ou parcial) da autenticidade da técnica. Atinge-se a integridade, o objeto. Não significa que a solução não seja adequada, o que se deseja é que seja preservada a autentici-dade e integriautentici-dade do edifício como um todo, fragmentando o edifício como parte de uma metodologia de avaliação, mas mantendo objetivo de avaliar o bem.
De acordo com os princípios descritos nas recomendações para análise – conservação e restauração estrutural do patri-mônio arquitetônico – o valor e a autenticidade do patrimô-nio arquitetônico não podem ser baseados em critérios fixos, porque o respeito devido a todas as culturas requer que seu patrimônio físico seja considerado dentro do contexto cultural ao qual pertence.
Para Stovel (2007), em seu artigo Effective Use of Authen-ticity and Integrity as World Heritage Qualifying Conditions, o termo autenticidade é utilizado quando se refere à
capacida-de capacida-de uma propriedacapacida-de para transmitir o seu significado. Essa definição se reflete na abordagem de autenticidade usada du-rante as discussões do Documento de Nara9, apresentada por
Stovel (2007: 3) como “uma medida do grau em que os valo-res de uma propriedade do patrimônio podem ser entendidos como sendo a verdade, verdadeira e credível, expressos pelos atributos que transportam os valores”.
Em resumo, o texto afirma que a autenticidade é dirigida à capacidade da propriedade para transmitir o significado e, mais adiante, em outro trecho desse documento, a integrida-de se apresenta como relacionada à capacidaintegrida-de integrida-de assegurar esse significado, podendo ambos os conceitos serem igual-mente empregados, tanto na análise para nomeação de um bem, como na análise pós inscrição/conservação (STOVEL, 2007).
Podemos identificar a preocupação com a preservação da autenticidade nas intervenções restaurativas em citações de vários teóricos da restauração, como em Ruskin (1901 apud DOURADO, 1996, p. 17), quando diz que “a glória verdadei-ramente maior de um edifício não reside nas pedras nem no ouro de que é feito, [...] reside na sua idade”, como também em BOITO (1998, apud Kühl, 2003, p. 25), que diz que “os comple-mentos de partes deterioradas ou faltantes, mesmo que
se-9 O Documento de Nara foi rascunhado pelos participantes na Conferência
sobre a Autenticidade em Relação à Convenção Mundial do Património, re-unida em Nara, Japão, entre 1 e 6 de Novembro de 1994, a convite da Agên-cia Para os Assuntos Culturais (Governo do Japão) e da Prefeitura de Nara. A Agência organizou a Conferência de Nara em cooperação com a UNESCO, o ICCROM e o ICOMOS. A sua versão final foi editada pelos redatores gerais da Conferência, Raymond Lemaire e Herb Stovel (www.international.icomos. org, 2007).
guissem a forma primitiva, deveriam ser em material diverso ou ter a data de restauro ou ter as formas simplificadas”.
Gustavo Giovannoni defendeu o recurso das técnicas mo-dernas, inclusive a utilização do concreto armado, em inter-venções de consolidação, reparação e reforço do edifício, de modo a aumentar a sobrevida da construção.
Além da autenticidade, o outro conceito fundamental para a identificação patrimonial é exatamente o conceito de inte-gridade. A integridade está necessariamente relacionada às qualidades que são valorizadas em determinado ambiente. A sua definição, observada no Operacional Guidelines for the im-plementation of the World Heritage Convention10, diz que
“inte-grity is a measure of the wholeness and intactness of the natural and/or cultural heritage and atributes”, que, traduzido por Viei-ra (2008), indica que a integridade é a medida da completude e integridade de um patrimônio ou atributo natural ou cultural.
Segundo Jokilehto (2006), a identificação dos elementos que documentam essas funções e processos ajuda a definir a “integridade estrutural” do lugar, referindo-se ao que sobre-viveu de sua evolução ao longo do tempo. Esses elementos proporcionam um testemunho da resposta criativa e da conti-nuidade nas estruturas construídas, fornecendo o sentido do conjunto espacial e ambiental da área (VIEIRA, 2008). Neste contexto e segundo a UNESCO-WHC (2005):
Integridade é uma medida da totalidade de in-tacto do patrimônio natural e/ou patrimônio cul-tural e seus atributos. Examinando as condições
de integridade, exige, portanto, a avaliação da extensão em que a propriedade: a) inclui todos os elementos necessários para exprimir o seu valor universal excepcional, b) é adequado asse-gurar a representação completa das caracterís-ticas e processos que transmitem o significado da propriedade, c) sofrem efeitos negativos de-correntes do desenvolvimento e/ou negligência.
Alguns teóricos e antigos restauradores trouxeram contri-buições importantes para a compreensão do conceito de inte-gridade.
O arquiteto deve proceder como um cirurgião hábil e ex-perimentado que não toca um órgão sem ter tomado cons-ciência da função sem ter previsto as consequências imedia-tas e futuras da operação, antes que ter azar é melhor não fazer nada. Para ele, é melhor deixar morrer do que matá-lo – deve-se conhecer a estrutura, a anatomia, características fí-sico-materiais, ou seja, o “temperamento” do edifício (VIOLLE-T-LE-DUC, 2000, apud BOITO, 2003).
Viollet-le-Duc (2000) diz, ainda, que restaurar um edifício não é mantê-lo, repará-lo ou refazê-lo, é restabelecê-lo em um estado completo que pode não ter existido nunca em um dado momento. Para Brandi (2004, p. 31), “restaura-se somente a matéria da obra-de-arte”. Apesar da postura radical anti-in-tervencionista, Ruskin (1996) afirmou que o restauro pode ser uma necessidade, mas só estruturalmente: “mais vale uma muleta do que um membro perdido” (RUSKIN, 1996, p. 87).
Já Boito (2003) defendeu a manutenção do edifício ao lon-go do tempo de modo a preservá-lo e evitar o restauro com
acréscimos e renovações, mas sem deixá-lo cair em ruínas pas-sivamente, comentando que obras de consolidação deveriam limitar-se ao estritamente necessário, evitando, assim, perdas.
1.2 RECOMENDAÇÕES INTERNACIONAIS: As Cartas
Patrimoniais
A história recente está repleta de ideias diversas e prota-gonistas diferentes em vários países e, por isso, se percebeu a necessidade de estabelecer regras aceitas internacionalmen-te, tendo em vista os problemas complexos de salvaguarda dos patrimônios artístico, histórico e cultural.
Entre os diversos congressos e eventos ocorridos, pode-mos destacar como de grande relevância para este estudo, dos quais resultaram algumas das cartas patrimoniais: a Confe-rência de Atenas, em 1931 (Carta de Atenas); o II Congresso In-ternacional de Arquitetos Técnicos de monumentos históricos, em 1964 (Carta de Veneza); o Congresso Europeu do Patrimô-nio Arquitetônico, em 1975 (Carta de Amsterdã); o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios – Comitê Australiano, em 1979 (Carta de Burra); a Conferência sobre a Autenticida-de em Relação à Convenção Mundial do Património, em 1994 (Nara, Japão) e a 12ª Assembleia do ICOMOS ocorrida em ou-tubro de 1999 no México (recomendações sobre conservação de estruturas históricas de madeira).
Para esta obra foram escolhidas as Cartas de Atenas e de Veneza como as mais relevantes, por serem os documentos que reservam o maior número de citações referentes à reabili-tação estrutural em intervenções restaurativas em patrimônio edificado. Vale destacar que o Documento de Nara e as
reco-mendações defendidas na 12ª Assembleia do ICOMOS ocor-rida no México em 1999 também foram escolhidos como do-cumentos referenciais neste trabalho, considerando a análise de algumas intervenções atuais que envolveram intervenções de reabilitação estrutural em edificações patrimoniais, bem como em estudos científicos de pesquisadores.
Em 1921, no Congresso Internacional de História e de Arte em Paris, manifesta-se essa necessidade de estabelecer regras de aceites internacionais, assim como aconteceu em Roma, em 1930. Mas foi em Atenas, no ano de 1931, que se realizou uma conferência com resultados significativos para o futuro (LUSO, 2004).
Nela participaram vinte países europeus, tendo-se discuti-do a tutela e o restauro discuti-dos monumentos arquitetônicos e ela-borado um documento, a Carta de Atenas, na qual se expõem as ideias fundamentais relacionadas à reabilitação estrutural que descrevemos (LUSO, 2004, p. 38-39):
(a) Manutenção e conservação regular das obras de arte e monumentos como medida eficaz para assegurar a durabilidade dos objetos e evitar as restituições integrais. Quando seja inevitável a intervenção, pela degradação do monumento, é aconselhável respeitar todas as obras históri-cas e artístihistóri-cas do passado sem excluir estilos de qualquer época [...];
(e) O monumento antes da intervenção deve ser alvo de estudo e análise de toda a documenta-ção, de modo a realizar um diagnóstico correto
e trabalhos de restauro adequados. Para esta tarefa é fundamental o trabalho interdiscipli-nar entre arqueólogos, engenheiros e arquitetos restauradores, assim como a colaboração de re-presentantes de ciências físicas, químicas e na-turais, de modo a analisar futuras degradações provocadas pela passagem do tempo e por efei-to dos agentes atmosféricos;
(f) Preocupação especial na educação dos povos, desde as primeiras idades, no sentido de trans-mitir a importância da preservação do patrimô-nio arquitetônico construído.
A Carta de Atenas foi de grande importância para o início e afirmação dos princípios básicos da teoria da restauração, pois contou com a expressiva participação de diversos países na sua formulação e objetivou advertir sobre a necessidade da manutenção de bens patrimoniais e como preservá-los.
O II Congresso Internacional de Arquitetos Técnicos de monumentos históricos, que resultou a Carta de Veneza, foi o evento que marcou o início da discussão sobre a importância da preservação da autenticidade e da integridade em bens pa-trimoniais. A Carta de Veneza, documento internacional que trata da conservação e restauração de monumentos e sítios, redigida em 1964, descreve no seu artigo 9º o seguinte:
A restauração, uma operação que se deve man-ter caráman-ter excepcional, tem por finalidade con-servar e revelar os valores estéticos e históricos
do monumento, fundamentando-se no respeito à substância antiga e na autenticidade dos do-cumentos. Deve deter-se onde começa a hipóte-se, e no plano das reconstituições conjunturais, o trabalho complementar, considerado indispen-sável por razões estéticas ou técnicas, deverá se destacar da composição arquitetônica, levando consigo a marca de nosso tempo.
Logo adiante, no seu artigo décimo, complementa:
Quando as técnicas tradicionais se revelarem inadequadas, a consolidação de um monumen-to será assegurada, com o recurso de monumen-todas as técnicas modernas de conservação e de constru-ção, cuja eficácia tenha comprovação cientifica e garantia firmada pela experiência.
Em 1994, durante a conferência de Nara, mencionada an-teriormente, quando, na ocasião, as discussões envolveram um aprofundamento sobre o significado de autenticidade, a edição de sua versão final foi elaborada em cooperação com a UNESCO, o ICCROM e o ICOMOS, passando a ser um docu-mento de referência e de fundamental importância para um entendimento, de forma universal, a respeito do significado da autenticidade.
Mais recentemente, influenciadas pelas cartas patrimo-niais, as regulamentações defendidas na 12ª Assembleia do ICOMOS, ocorrida em outubro de 1999 no México, descrevem que o objetivo básico da preservação e da conservação é
man-ter a autenticidade e a integridade histórica do patrimônio cultural, portanto, uma intervenção restaurativa de uma edi-ficação histórica deve se basear em estudos e avaliações ade-quados. Os problemas devem ser solucionados de acordo com as condições e necessidades mais relevantes, respeitando, de-vidamente, os valores estéticos e históricos e a integridade fí-sica da estrutura ou sítio histórico. Qualquer intervenção deve, pela ordem:
a) seguir métodos tradicionais;
b) ser reversível se for tecnicamente possível, ou;
c) pelo menos, não prejudicar ou impedir futuros traba-lhos de preservação sempre que forem necessários; e d) não encobrir a possibilidade de acesso posterior às evi-dências incorporadas à estrutura.
A formulação da Carta de Atenas marcou o início da dis-cussão e a tentativa de unificação de ideias em torno dos prin-cípios básicos para restauração, abrindo as portas para outros debates sobre o tema, com o surgimento posterior das demais cartas.
2
ca p í t u l o
A Preservação do Patrimônio Edificado
Alcio da Costa Pereira Alexandre da Costa Pereira
Para Karl Boticher e Gottfred Semper a escolha da melhor técnica de reabilitação estrutural em edificações do patrimô-nio histórico deve levar em consideração não só a propriedade do material e estrutural de uma obra, mas também a sua ex-pressão artística e a lógica construtiva como uma exex-pressão de relações entre a forma e a força estática das construções (SEKLER apud FRAMPTON, 1990).
Para a recuperação de edificações antigas, são obviamen-te válidos os mesmos princípios da física e da química, assim como a boa técnica construtiva das instalações, como nos pré-dios novos. Porém, as edificações antigas impõem restrições ao uso de materiais, técnicas construtivas e detalhes pela in-compatibilidade com materiais e técnicas antigas.
Na recuperação de obras históricas, métodos de recupe-ração com menor ingerência devem ser buscados. As leis que regulamentam a preservação do acervo histórico não proíbem a adaptação da edificação histórica às necessidades atuais, desde que haja respeito aos valores patrimoniais identificados. Devem ser atendidas as necessidades de hoje interferindo o mínimo possível na edificação histórica, ou seja, prezando pelo respeito mútuo à autenticidade e à integridade das edificações.
2.1 As características dos materiais e os processos de
deterioração
Uma estrutura, muitas vezes, não é constituída por um único material; por exemplo, elementos metálicos ou de con-creto podem ser preenchidos com alvenaria de tijolos, que po-dem ter uma importante função de enrijecimento (ICOMOS, 2001). Paredes de alvenaria podem ser reforçadas com
estru-turas de metal, ou de madeira, ou podem incorporar às abertu-ras molduabertu-ras que agem diferentemente do resto da alvenaria e, assim, afetar o comportamento como um todo.
É importante considerar o comportamento relativo desses diferentes materiais sob carregamento, tanto em um período mais curto, quanto em um período mais longo, e suas diferen-tes características de degradação.
As propriedades do material (em particular, a resistência), que são os parâmetros básicos para qualquer análise, podem ser reduzidas por processos de deterioração por causa das ações química, física ou biológica. A velocidade de deterioração depende das propriedades dos materiais (tais como a porosi-dade) e a maneira pela qual a estrutura é protegida (a projeção do telhado, etc.) bem como sua manutenção (ICOMOS, 2001).
Embora a deterioração possa se manifestar na superfície e, assim, ser imediatamente aparente de uma inspeção super-ficial (eflorescência, aumento de porosidade, etc.), há também processos de deterioração que somente podem ser detectados por meio de testes mais sofisticados (degradação bioquímica por ataques que organismos, atmosfera com elevado grau de acidez ou alcalinidade, etc.).
2.1.1 A Madeira
Conforme discutido na assembleia do ICOMOS, ocorrida em 2001, na França, a madeira tem sido usada em uma grande variedade de formas estruturais, como em estruturas autopor-tantes e em estruturas mistas de madeira e alvenaria.
O contato com a alvenaria é, na maioria das vezes, uma fonte de umidade. Isso pode ocorrer onde a alvenaria sustenta o madeiramento ou onde a madeira foi usada para reforçar a
alvenaria. Contudo, a pouca manutenção dos edifícios ou as mudanças, como desmontar e remontar estruturas de madei-ra, são operações delicadas por causa do risco de danos, con-correndo, dessa forma, para a possível perda de valores patri-moniais devido à perda de materiais associados.
As medidas de reparo mais comuns consistem em refor-çar os nós ou adicionar elementos diagonais suplementares, quando necessário, para melhorar a estabilidade contra as for-ças laterais (ICOMOS, 2001).
2.1.2 O Ferro e o Aço
Para a análise das características e condições de utilização do ferro em intervenções de reabilitação estrutural, é necessá-rio, inicialmente, distinguir o ferro fundido e as estruturas de aço. O primeiro é menos resistente a esforços de tração e pode conter tensões internas resultantes do processo de fundição. O ferro e o aço usados na construção são ligas metálicas, cuja suscetibilidade à corrosão depende da sua composição. Note--se que a corrosão é sempre acompanhada por um aumento volumétrico do material que pode resultar em aumento de tensões nos materiais associados, por exemplo, a ruptura da pedra ou concreto devido à corrosão das barras de ferro ou co-nectores inseridos no seu interior (ICOMOS, 2001).
Os aspectos mais vulneráveis das estruturas de aço são suas ligações, nas quais as tensões são geralmente mais altas, especialmente nos furos. A proteção contra a corrosão do ferro e do aço requer primeiro a eliminação da ferrugem da super-fície (jatos de abrasivos, escovas de aço, etc.) e então a pintura da superfície com um produto apropriado. Estruturas de ferro e aço muito danificadas e deformadas geralmente não podem
ser reparadas. O reforço de estruturas fracas pode ser obtido adicionando novos elementos, dando especial atenção à sol-dagem (ICOMOS, 2001).
2.1.3 O Concreto Armado
O concreto armado e o protendido são materiais bási-cos de muitos edifícios modernos, agora reconhecidos como sendo de valor histórico. Contudo, no início de sua utilização, a partir da segunda metade do século XIX, uma total com-preensão do desempenho desses materiais ainda estava em desenvolvimento e eles apresentavam problemas específicos de durabilidade (misturas pobres em cimento, recobrimento inadequado da armadura, etc.). Os aspectos mais delicados geralmente dizem respeito à carbonatação do concreto que concorre para tornar o concreto mais poroso e, consequente-mente, reduz sua capacidade de proteger o aço.
Consolidar um elemento de concreto armado afetado por esses fenômenos requer, geralmente, a eliminação do concre-to deteriorado, a limpeza das armaduras antigas (jaconcre-to d’água, escova de aço, etc.) e a adição de novas (barras de reforço).
Atualmente, o concreto armado é comumente utilizado para intervenções de reabilitação estrutural em edificações históricas, contudo o seu uso para reabilitar estruturalmente edifícios de alvenaria como uma regra deve ser evitado, pois toda intervenção deverá ser precedida de uma análise, deven-do ser consideradas algumas particularidades, como a sobre-carga que será adicionada à estrutura, normalmente já debi-litada, e as dimensões das peças e sua robustez, que poderá comprometer a integridade do ambiente a que o elemento de reforço será inserido (ICOMOS, 2001).
2.1.4 Compósitos de Fibras (carbono, kevlar, vidro,
aramida)
Os materiais compósitos são definidos como uma com-binação macroscópica de dois elementos principais, distintos entre si: uma matriz e um material de reforço, usualmente constituído por fibras. Cabe às fibras suportarem o máximo possível do esforço aplicado por apresentarem maior resistên-cia e rigidez, enquanto a função principal da matriz é ligá-las e transmitir as cargas externas para as mesmas através das ten-sões tangenciais na interface fibra/matriz (CARNEIRO, 2004).
Selecionando-se dentre as diversas fibras, geometrias e polímeros disponíveis, as propriedades mecânicas e de dura-bilidade de um material podem se adequar a uma aplicação específica. Os desempenhos estruturais dos materiais compó-sitos dependem principalmente do tipo e da quantidade de fibras utilizadas numa dada direção (CARNEIRO, 2004).
Existem diversos tipos de sistemas de reforço com Com-pósitos de Fibra de Carbono (CFC), sendo os principais descri-tos a seguir:
a) Chapas ou Fitas:
São chapas de CFC de alta resistência, impregnadas com resina epóxi ou poliéster, que resultam em perfis contínuos dos mais diversos e complexos formatos, colados sobre a su-perfície do concreto.
b) Mantas e tecidos pré-impregnados:
Possuem espessura similar à do papel de parede, colados sobre a superfície do concreto com resina epóxi, seguindo exatamente a curvatura do elemento e permitindo a aplicação em “cantos vivos”.
c) Barras:
As fibras de carbono, que as compõem, são envolvidas em matriz epóxica, havendo 65% de fibra. A superfície externa das barras é revestida por uma camada adicional de epóxi e grãos de areia selecionados, de modo a dar-lhes condição ativa de aderência. Esses sistemas só podem ser usados para reforço após o devido tratamento adequado na área, como a consoli-dação de trincas e fissuras, o combate à corrosão de armadu-ras, a recomposição de trechos danificados, para depois entrar com o reforço da fibra. A recuperação estrutural convencional é indispensável (CARNEIRO, 2004).
No QUADRO 1, são apresentadas comparativamente as principais propriedades dos materiais mais empregados em projetos de intervenção de reabilitação estrutural e utilizados nas propostas de opções adotadas nesta obra, em que é ob-servada uma considerável diferença quando se relaciona a re-sistência à tração e seu peso específico. Conclui-se, assim, que, com relação ao CFC, para o mesmo peso específico a ser adi-cionado, a resistência do elemento reforçado poderá chegar a quase cem vezes superior ao concreto.
QU ADR O 1: Quadr o de análise c ompar ativ a elemen tos x pr opriedades físicas 11 Pr opriedades Elemen tos utiliz ados em pr ojetos de In ter venção de r eabilitação estrutur al Vi -dr o-E Ar
amida (A) Kevlar 49
C arbono (ER-HS) C arbono (EM-HM) Aç o C A-50 C oncr eto f ck = 40 MP a Resistência à tr ação (MP a) 2400 3600 3300-5000 1500-4700 500 (esc oamen -to )-550 (ruptur a) 40 Módulo de elastici -dade ( GP a) 70 130 230-300 345-590 210 250 Def ormação especí -fica na ruptur a (%) 3,5 2,5 1,5-2,2 0,6-1,40 0,2 (esc oamen -to )-6 (ruptur a) -Peso específic o (KN/ m3) 25,60 14,40 18 19 78,50 25,00 Custo (US$/K g) 2 22 15-22 90 1 0,5 ER/HS – Ele vada R
esistência EM/HM – Ele
vado Módulo 11 F on te: KEN D ALL apud M A C HADO
, 1999; adaptado por PER
EI
2.2 REABILITAÇÃO ESTRUTURAL: definições e conceitos
O conceito de reabilitação estrutural supõe um conjunto de medidas ou técnicas que visam restituir à estrutura danificada a sua capacidade resistente projetada para serviço, ou o mais próxi-mo dela. O objetivo é torná-la apta à sua função original, conside-rando o respeito à autenticidade e integridade de uma edificação integrante do patrimônio histórico edificado (ICOMOS, 2001).
Antes de tomar uma decisão sobre uma intervenção de reabilitação estrutural, é indispensável determinar primeiro as causas dos danos e da deterioração e, em seguida, avaliar o nível de segurança da estrutura. De acordo com os princípios para preservação das estruturas históricas, conforme disposto na 12ª Assembleia geral do ICOMOS, antes de qualquer inter-venção deve ser feito um diagnóstico preciso e criterioso das causas da degradação e, quando for o caso, da ruína estrutural. Esse diagnóstico deve ser fundamentado em evidências docu-mentais, inspeções físicas, análises e medições das condições físicas, preferencialmente com o emprego de métodos não destrutivos, o que não impede a realização de intervenções menores e a tomada de providências emergenciais.
A investigação de uma estrutura requer uma abordagem interdisciplinar. Por exemplo, o enfoque da pesquisa histórica pode, às vezes, ser dirigido por questões de significado estru-tural, enquanto o historiador pode levantar questões que re-querem informações históricas. Portanto, é importante que seja formada uma equipe de pesquisadores com uma série de conhecimentos referentes às características do edifício.
Para ter conhecimento acerca de uma estrutura, é neces-sário obter informações sobre a sua concepção, as técnicas
usadas na sua construção, os processos e os fenômenos que ocorreram e, finalmente, o seu estado presente. Esses conheci-mentos podem ser alcançados, geralmente, por meio dos pas-sos seguintes, conforme indicados pelo ICOMOS (2001):
• Pesquisa histórica cobrindo a vida inteira da estrutura; • Definição, descrição e compreensão do seu significado
histórico e cultural, e dos materiais de construção e téc-nicas originais;
• Descrição da estrutura no seu estado atual, incluindo a identificação dos danos, da deterioração e dos possíveis fenômenos progressivos usando testes apropriados; • Identificação das forças envolvidas, do comportamento
estrutural e de tipos de materiais;
• Relato de todas as intervenções anteriores;
• “Pré-levantamento” do local e do edifício, que deve orien-tar esses estudos.
No caso de intervenções de reabilitação estrutural em edi-ficações históricas, nenhuma ação deve ser realizada sem antes serem averiguados os possíveis benefícios e danos ao patrimônio arquitetônico, exceto em casos nos quais medidas urgentes de salvaguarda são necessárias para evitar o colapso iminente da es-trutura. No entanto, essas medidas devem, quando possível, evi-tar modificar a estrutura de maneira irreversível (ICOMOS, 2001). A intervenção na parte estrutural de edificações históricas deve ser feita de maneira a preservar, ao máximo, as caracterís-ticas originais. Segundo Puccioni (1997), se deve estudar signi-ficativamente para intervir o mínimo com eficiência e seguran-ça. A avaliação da segurança, o último passo do diagnóstico, na
qual a necessidade de medidas de reparo é determinada, deve conciliar as análises qualitativa e quantitativa, por meio de ob-servação direta, pesquisa histórica, análise estrutural e, se for o caso, experiências e ensaios. A terapia deve se dirigir às causas dos problemas, não aos sintomas, e estruturas deterioradas de-vem ser reparadas em vez de substituídas sempre que possível. Muitas vezes, portanto, surge a necessidade de se utilizar materiais inovadores e processos tecnológicos mais avança-dos, condicionada ao respeito à autenticidade e integridade da construção antiga, objetivando a correção, de forma mais rápida e econômica, de anomalias e deficiências estruturais existentes. Contudo, a escolha entre técnicas “tradicionais” e “inovadoras” deve ser pensada considerando cada caso e a preferência deve ser dada àquelas que são menos invasivas e mais compatíveis com os valores patrimoniais, levando em conta requisitos de segurança e durabilidade.
Sempre que possível, as medidas adotadas devem ser re-versíveis e perceptíveis para que possam, além da possibilida-de da sua distinguibilidapossibilida-de, ser removidas e substituídas por outras mais adequadas quando um maior conhecimento for adquirido. Quando não forem completamente reversíveis, as intervenções não devem limitar intervenções futuras.
O comportamento de qualquer estrutura é influenciado por três fatores principais: a forma e as ligações da estrutura, os materiais de construção e as ações. O comportamento es-trutural depende das características dos materiais usados, das dimensões da estrutura, das ligações entre diferentes elemen-tos, das condições do solo e etc.
O comportamento real de um edifício é geralmente tão complexo que o identificamos, obrigatoriamente, através de
um “esquema estrutural” simplificado, isso é, uma idealização do edifício que mostra de uma maneira mais ou menos preci-sa sua função em resistir às várias ações. O esquema estrutu-ral mostra a maneira em que o edifício transforma ações em tensões e garante sua estabilidade (ICOMOS, 2001).
Um edifício pode ser representado por diferentes esque-mas com diferentes complexidades e diferentes graus de apro-ximação à realidade. O esquema estrutural original pode mu-dar devido a danos (fissuras, deformações excessivas, etc.), a intervenções de reforço ou outras modificações do edifício.
O esquema usado para os cálculos precisa levar em con-ta alterações e deteriorações, con-tais como trincas, descontinui-dades, esmagamentos, inclinações, etc., quando o seu efeito pode influenciar significativamente no comportamento estru-tural (ICOMOS, 2001). Essas alterações podem ser provocadas tanto por fenômenos naturais, quanto por intervenções hu-manas, que podem incluir as seguintes particularidades:
• A redução da capacidade portante devido à execução de aberturas, nichos, etc.;
• A criação de forças não equilibradas devido à eliminação de arcos, vigas, paredes, etc.;
• O aumento de peso como resultado do aumento de sobre-cargas à estrutura;
• A redução da capacidade resistente do solo devido a esca-vações, galerias, edifícios vizinhos, etc.
Todas as estruturas, bem como os materiais isoladamen-te, sofrem ações danosas ao longo de sua utilização, que po-dem ser naturais ou provocadas. As ações são definidas como
qualquer agente (forças, deformações, etc.) que produz ten-sões e esforços na estrutura e qualquer fenômeno (químico, biológico, etc.) que afeta os materiais, geralmente reduzindo sua resistência (ICOMOS, 2001).
As ações originais, que ocorrem desde o início da constru-ção até a conclusão do edifício (cargas passivas, por exemplo), podem ser modificadas durante sua vida e são geralmente es-sas mudanças que produzem danos e deterioração. As ações têm muitas naturezas diferentes com diferentes efeitos na estrutura e nos materiais. Na maioria das vezes, mais de uma ação (ou, talvez, modificação inesperada das ações originais) terá afetado a estrutura e devem claramente ser identificadas antes de decidir as medidas de reparo (ICOMOS, 2001).
2.3 Técnicas de reabilitação estrutural em intervenções
no Patrimônio Edificado
Existem várias técnicas de reforço, algumas delas já con-sagradas e outras que, apesar de já terem se mostrado eficien-tes, ainda estão sob observação e/ou em desenvolvimento. Nos últimos tempos, o desenvolvimento com relação aos re-forços tem estado mais ligado a materiais e procedimentos do que a descobertas de novas técnicas. As principais técnicas de reforço podem ser resumidas nas seguintes:
• Reforço com concreto armado;
• Reforço com perfis metálicos e chapas de aço coladas; • Reforço com compósitos de fibras coladas (carbono, vidro,
kevlar, aramida, etc.); • Reforço por protensão.
As técnicas convencionais de reforço e reabilitação de es-truturas discutidas aqui, são consideradas como aquelas que empregam materiais tradicionais com características seme-lhantes aos materiais utilizados originalmente na edificação que, embora possuam comprovada eficácia, apresentam di-versos obstáculos para sua aplicação. Essas técnicas, em mui-tos casos, necessitam incluir na solução outros elemenmui-tos estruturais, como colunas e vigas de aço ou de concreto, en-quanto as técnicas modernas empregam métodos e materiais de alta tecnologia, não condizentes com os constituintes da edificação, como os compósitos de fibra de carbono.
Contudo, esse conceito pode receber um entendimento diferente, como no caso em que uma edificação com estrutu-ra portante, constituída originalmente por alvenaria de pedestrutu-ra argamassada, utilize elementos de reforço em concreto arma-do. Nesse caso, o uso do concreto poderá ser classificado como técnica moderna.
O tratamento das superfícies da alvenaria com a aplicação de revestimentos resistentes utilizando argamassa armada, concreto armado e chapas metálicas, também podem ser efi-cazes. Outra técnica para aumentar a resistência é o grautea-mento ou injeção de concreto, com ou sem adição de barras de aço. A aplicação desses elementos e materiais tem o objetivo de aumentar a resistência das paredes.
Entretanto, esses procedimentos consomem muito tem-po na sua aplicação, causam transtornos aos usuários da eficação, adicionam uma massa significativa à estrutura, di-minuem o espaço de trabalho disponível e afetam de modo negativo a estética, tanto da área reparada como do edifício como um todo, concorrendo para o comprometimento da
au-tenticidade e da integridade quando aplicadas em obras inte-grantes do patrimônio histórico. Além disso, o excesso de mas-sa incorporada ao edifício pode exigir um reforço também nas fundações (ELGAWADY et al., 2004).
2.3.1 Reforço com Concreto Armado
O concreto, seja ele moldado em formas ou projetado, é, sem sombra de dúvidas, o material mais versátil para o reforço ou recuperação de estruturas de concreto armado, por poder ser utilizado em todos os tipos de peças estruturais e nas mais diversas situações e condições.
Os reforços em concreto armado são muito utilizados principalmente pelo fato de exigirem procedimentos, em sua maioria, análogos aos empregados em obras novas. Mesmo os procedimentos específicos são de fácil execução, não exigindo mão de obra muito especializada, desde que sejam criteriosa-mente detalhados e especificados. Apesar disso, não dispensa os cuidados inerentes a toda e qualquer intervenção de reforço (PIANCASTELLI, 1997). Detalhes de alguns tipos de intervenção de reforço em concreto armado estão devidamente ilustrados nas figuras a seguir (FIGURAS 2 a 6).
FIGURA 2: Aspecto de intervenção de reforço em vigas com con-creto armado.
(a) Concretagem pela lateral (b) Concreto Projetado
(c) Concretagem pela laje (d) Por injeção
FIGURA 3: Aspecto de intervenção com concreto armado: reforço pela face inferior da laje.
Fonte: Adaptado de PIANCASTELLI (1997).
FIGURA 4: Aspecto de intervenção com concreto armado: reforço pela face superior da laje.
FIGURA 5: Nova estrutura de concreto armado em rasgos abertos na alvenaria (NEBAC).
Fonte: COIAS (2006).
FIGURA 6: Reforço através da introdução e uma nova estrutura em concreto armado: sem abertura de rasgos.
O reforço com concreto projetado difere daquele em con-creto armado apenas com relação ao lançamento e adensa-mento do concreto, que é feito numa única etapa, através de equipamento de projeção a ar comprimido, dispensando o uso de formas e escoramentos na sua execução. Entretanto, a ope-ração desse equipamento exige mão de obra especializada, experiente e responsável.
É importante observar que o material a ser utilizado no reforço de um elemento estrutural de concreto, seja ele o pró-prio concreto ou outro qualquer, deve ter suas características analisadas tendo-se em vista as características do concreto e do elemento a ser reforçado. Deve ser analisada também a adição da sobrecarga a que serão submetidos os elementos reforçados (PIANCASTELLI, 1997).
2.3.2 Reforço com Perfis de Aço
Em todo o mundo, mas com maior expressividade na Eu-ropa, o aço é empregado em diversas obras de intervenção. Sua utilização, quando comparada à utilização de outros ma-teriais, é preferida, devido a uma série de vantagens que serão citadas adiante (TEOBALDO, 2007).
De acordo com os regulamentos internacionais, o aço, além de atender às exigências citadas, é um material contemporâneo que mantém clara a distinção entre os materiais originais e o ma-terial atual usado na intervenção, enfatizando a época em que foi utilizado de acordo com as características da edificação analisa-da e com possibilianalisa-dade de manter a harmonia do conjunto.
A utilização do aço como material consolidador da inter-venção proporciona a todas as obras um aspecto contempo-râneo, uma vez que valoriza mutuamente a intervenção
rea-lizada e a obra existente, excetuando-se as intervenções em edificações com características modernistas, nas quais o aço é originalmente empregado (TEOBALDO, 2007). Na FIGURA 7, ilustra-se um tipo de reforço de aço através da introdução de uma nova estrutura metálica à construção existente:
FIGURA 7: Reforço através da introdução e uma nova estrutura metálica.
Fonte: COIAS (2006).
Fazendo uma análise comparativa entre as duas primei-ras técnicas citadas anteriormente, percebe-se claramente a vantagem do aço em relação ao concreto quando se busca a preservação dos espaços nos ambientes internos, onde serão inseridos os elementos de reforço, conforme demonstrado na FIGURA 8. Para o suporte de uma carga de 100t de uma peça em perfil de aço envolvida em concreto, seria necessário
uma seção de 210mm x 210mm, enquanto que em concreto armado (para fck de aproximadamente 15MPa), para o supor-te da mesma carga, seria necessário uma seção de 290mm x 290mm, elevando a carga e suporte para 1000t. A diferença aumentaria de forma geométrica, ou seja, a peça em perfil metálico envolvida com concreto seria com seção de 450mm x 450mm e, para suportar a mesma carga em peças em concre-to armado, seria necessário uma seção com dimensões bas-tante maiores (aproximadamente 920mm x 920mm).
FIGURA 8: Comparação entre colunas de concreto e de aço para cargas de 100t e 1000t (dimensões em mm).
Ao analisar o suporte de carga em função do comprimen-to de vigas com seções equivalentes (FIGURA 9), utilizando viga de concreto armado e vigas em perfis metálicos, verifica--se que o suporte de carregamento da viga formada por per-fis metálicos suportará uma carga vinte vezes maior, ou seja, adicionará um peso próprio vinte vezes menor do que se fosse inserida uma estrutura de concreto.
FIGURA 9: Relação do peso próprio para a sobrecarga em função do comprimento da viga12.
Fonte: Adaptado de TEOBALDO (2007).
12 Demonstrando o suporte de cargas maiores pela viga de aço com seção
equivalente à viga de concreto, devido ao baixo acréscimo de peso próprio em função do comprimento da viga.