YURI MARQUES MACEDO
RISCO DE DESABASTECIMENTO HÍDRICO NO RIO GRANDE DO NORTE, BRASIL
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em Geografia - PPGE, do departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do título de Doutor em Geografia.
Área de concentração: Dinâmica
Socioambiental e Reestruturação do Território. Orientador: Prof. Dr. Adriano Lima Troleis. Coorientador: Prof. Dr. Lutiane Queiroz de Almeida.
NATAL/RN 2020
Macedo, Yuri Marques.
Risco de desabastecimento hídrico no Rio Grande do Norte, Brasil / Yuri Marques Macedo. - 2020.
341f.: il.
Tese (doutorado) - Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, Programa de Pós-graduação e pesquisa em Geografia, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, 2020. Orientador: Prof. Dr. Adriano Lima Troleis.
1. Risco - Tese. 2. Vulnerabilidade - Tese. 3. Colapso Hídrico - Tese. 4. Índice - Tese. I. Troleis, Adriano Lima. II. Título.
RN/UF/BS-CCHLA CDU 911:628.1(813.2) CCHLA
A Deus por todo o suporte emocional e apoio para evolução dos pensamentos e atitudes que nos trouxe até aqui, além da saúde e bênçãos alcançadas.
Também aos meus pais Ned e Gerusa Macedo por todo o apoio, orientações e ensinamentos ao longo dos meus 32 anos, sendo o alicerce para meu desenvolvimento pessoal e profissional, além de serem um exemplo de vida para mim e para meus irmãos Igor e Vitor Macedo, aos quais agradeço a cumplicidade, embates e alegrias que fizeram parte de nosso desenvolvimento ao longo de nossa criação. Também aos meus avós maternos Vânia e Etevaldo e minha avó paterna Berenice pelo disciplinamento, conselhos e apoio de sempre. Foi um privilégio ter todos vocês ao meu lado sempre.
À minha esposa Ana Beatriz Maciel, minha companheira na vida e na academia, pois também é minha colega de turma no doutorado, me dando suporte emocional, além de ensinamentos, troca de conhecimentos, discussões e orientações. Também por ser um exemplo de vida e compartilhá-la comigo, agora sendo uma excelente mãe para o nosso filho Noah Macedo, a quem também agradeço, pois só sua presença já é uma injeção de energia e vontade de vencer todos os desafios a que nos propomos. Este trabalho é dedicado a vocês, os amores da minha vida.
Ao meu orientador e amigo, Adriano Troleis, sempre presente, atencioso, disponível, com orientações pertinentes e responsável direto pela evolução de nossa pesquisa e pelo produto que alcançamos. Não esquecerei seus ensinamentos. Muito obrigado, professor, e vamos juntos nos próximos desafios!
Também ao meu coorientador (e amigo) Lutiane Almeida, que esteve comigo desde a graduação quando, em 2010/11, iniciamos um projeto de pesquisa de iniciação científica – PIBIC do qual fui bolsista. Desde então, foi aberto um caminho acadêmico na temática do risco geográfico de desastres, o qual seguimos no mestrado e agora no doutorado. Muito obrigado pelo suporte de sempre, professor. Também a todos os integrantes do nosso grupo de pesquisa “Georisco”, meus parceiros acadêmicos e da vida, principalmente Marysol, Léo, Leila, Vinicius, John e Carol, entre outros, não menos importantes, os quais são sempre proativos e disponíveis para nos ajudar a desenvolver as pesquisas, seja em campo ou com ideias de metodologias. Enfim, este doutorado é mais uma conquista do nosso grupo.
Aos companheiros da gloriosa Companhia de Águas e Esgotos do RN – CAERN, na qual trabalhei durante 4 anos como técnico em geologia, na Gerência de Hidrogeologia e perfuração de poços, onde desenvolvi toda a concepção desta tese a partir das viagens pelo
Estado pesquisando novas possibilidades de captação subterrânea para os municípios, executando serviços emergenciais de instalação de poços, entre outros trabalhos relacionados aos recursos hídricos subterrâneos, e onde pude observar os problemas do sistema de abastecimento hídrico do RN e vivenciar o sofrimento da população afetada. Agradeço à companhia pelo suporte, fornecimento de dados e orientações que estruturaram nossa pesquisa.
Ao departamento de Geografia (DGE) e ao Programa de Pesquisa em Geografia (PPGE) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na figura de todos os professores e técnicos administrativos, os quais foram marcantes em nosso processo de desenvolvimento acadêmico, cada um em sua área de atuação, produzindo um trabalho de alto nível acadêmico, desenvolvendo a Geografia enquanto ciência no Rio Grande do Norte, produzindo trabalhos de relevância social e contribuindo para o desenvolvimento socioespacial do Estado. Muito obrigado.
Agradeço ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN, no qual sou professor de Geografia, por todo o suporte por meio do reconhecimento desta tese em edital de pesquisa (Edital nº 09/2018 - 3ª chamada, PROPI/RE/IFRN), o que nos possibilitou ter um tempo regular de trabalho semanal para nos concentrarmos exclusivamente na tese. Especificamente, muito obrigado aos amigos do campus Macau, os quais entendem minhas angústias, me dão conselhos e me apoiam, pois trabalhar e realizar uma tese de doutorado não é fácil, mas é possível. Estamos juntos, queridos (as): João Helis, Léo, Alana, Leandro, Danilo, Rafael, Arthur, Aledson, Moabe, Jakson Nei, entre outros tantos, companheiros de trabalho e amigos que cultivo com muito apreço.
Por último, mas não menos importante, agradeço aos amigos de sempre, do grupo “black point”, com os quais é possível a descompressão das responsabilidades acadêmicas e profissionais, com conversas sempre bem-humoradas e churrascos pelo bairro Ponta Negra, nosso reduto, abraço Rafael, Ygor, Filipe, Pedro, entre outros.
Por fim, gostaria de mencionar uma famosa frase de Isaac Newton que diz: “Se cheguei até aqui foi porque me apoiei no ombro de gigantes”, com a qual concordo plenamente. Todos vocês, citados ou não, que têm consciência de que fizeram parte da minha história de trabalho e amadurecimento (pessoal, acadêmico e profissional) até aqui, muito obrigado, valeu à pena!
“Estamos condenados à civilização. Ou progredirmos ou desaparecemos. (...) Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora. (...) Nada se perde abandonando uma estrela para abraçar um amigo. (...) O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
RESUMO
O desabastecimento hídrico urbano é um desastre socioambiental recorrente no Brasil que incide, principalmente, na região de clima semiárido (semiárido brasileiro), o qual tem secas periódicas em seu comportamento climático. Os problemas decorrentes desse desastre, na atualidade, são de ordem financeira e material, com mortalidade de rebanhos, estagnação econômica nos municípios e fuga de capital - as empresas, sobretudo agrícolas, migram para outros territórios deixando de contribuir para o município e gerar empregos. Apesar do desenvolvimento social e tecnológico atual da sociedade, as perdas e investimentos públicos relacionados(as) ao problema do desabastecimento hídrico continuam crescendo, denotando a vulnerabilidade da população, com destaque para o último período de seca, entre 2012-2017, o qual foi referência para esta pesquisa. A hipótese de que a relação entre fatores ambientais, infraestruturais, socioeconômicos e de planejamento estatal produz territórios de risco de desabastecimento hídrico no RN direcionou os trabalhos de pesquisa, cujo principal propósito consistiu em analisar o risco de desabastecimento hídrico no Rio Grande do Norte (RN) a partir do Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico (IRDH) gerado pelo sistema de indicadores socioambientais. Nesse contexto, a pesquisa foi realizada de forma qualitativa e quantitativa, avaliando e analisando o risco de desabastecimento hídrico do RN nos 153 municípios que compõem o sistema de abastecimento realizado a partir da concessionária estadual (representando 92% dos 167 municípios do Estado), em suas sete regiões de abastecimento hídrico. Esta análise foi possível através do IRDH, que foi estruturado em uma perspectiva sistêmica e fundamentada, que estruturou 19 variáveis, correspondendo a 4 indicadores inerentes aos fatores presentes na hipótese. Foram classificados 5 níveis de risco: ‘Muito Baixo’; ‘Baixo’, ‘Médio’; ‘Alto’; e ‘Muito Alto’. O resultado do IRDH do Rio Grande do Norte comprovou a relação entre fatores ambientais, infraestruturais, de planejamento hídrico e socioeconômicos na problemática do desabastecimento hídrico, classificando 49% dos municípios analisados nas classes ‘alto’ e ‘muito alto’ risco, o que os coloca em situação de maior atenção quanto aos potenciais problemas derivados do desabastecimento hídrico, além de 40,5% risco ‘médio’ e 10% ‘baixo’, não havendo ocorrências de ‘muito baixo’ risco. Em valores absolutos, 1 município foi classificado como ‘muito alto’; 74 classificados como ‘alto’; 62 como ‘médio’; e 16 considerados de ‘baixo’ risco de desabastecimento hídrico, conforme a classificação do IRDH. Com a finalidade de diminuir/mitigar os resultados do IRDH no Estado, foram propostas ações e medidas em cada região de abastecimento hídrico e na análise geral do Rio Grande do Norte.
ABSTRACT
Urban water shortages are a recurring socio-environmental disaster in Brazil, which mainly affects the semi-arid (Brazilian semi-arid) region, which has periodic droughts in its climatic behavior. The problems resulting from this disaster, today, are of a financial and material nature, with mortality of livestock, economic stagnation in the municipalities, and capital flight - companies, mainly agricultural, migrate to other territories failing to contribute to the municipality and generate jobs. Despite the current social and technological development of society, the losses and public investments related to the problem of water shortages continue to grow, denoting the population's vulnerability, with emphasis on the last drought period, between 2012-2017, which was a reference for this research. The hypothesis that the relationship between environmental, infrastructural, socioeconomic and state planning factors produces territories at risk of water shortages in RN, directed the research work, in which, the main purpose was to analyze the risk of water shortages in Rio Grande do Norte (RN) from the Water Shortage Risk Index (IRDH) generated by the system of socio-environmental indicators of risk to water shortages. In this context, the research was carried out qualitatively and quantitatively, evaluating and analyzing the risk of water shortages in the 153 municipalities of RN that make up the supply system carried out by the state concessionaire (representing 92% of the 167 municipalities in the state), in its seven water supply regions. This analysis was possible through the IRDH, which was structured in a systemic and grounded perspective, which structured 19 variables, corresponding to 4 indicators inherent to the factors present in the hypothesis. Five levels of risk were classified: ‘Very Low’; ‘Low’, ‘Medium’; 'High'; 'Very High'. The result of the Rio Grande do Norte IRDH proved the relationship between environmental, infrastructural, water planning and socioeconomic factors in the problem of water shortages, classifying 49% of the state's municipalities in the classes 'high' and 'very high' risk which puts them in a situation of greater attention as to the potential problems arising from water shortages, in addition to 40,5% 'medium' risk and 10% 'low' risk, there are no occurrences of 'very low' risk. In absolute values, 1 was classified as 'very high'; 74 classified as 'high'; 62 as ‘medium’; and 16 considered to be 'low' risk of water shortages, according to the IRDH classification. To reduce/mitigate the results of the IRDH in the state, actions and measures were proposed in each water supply region and the general analysis of Rio Grande do Norte.
Figura 2 – Quadro conceitual da estrutura do IRDH a partir do sistema de indicadores sociais e
naturais ... 42
Figura 3 - Esquema de um sistema convencional de abastecimento de água urbano ... 43
Figura 4 - Quadro teórico-metodológico simplificado da tese ... 45
Figura 5 - Regionalização adotada para análise do IRDH do Rio Grande do Norte ... 50
Figura 6 - Carregadores de água de Rugendas (1835) ... 92
Figura 7 - Série de obras sobre a Seca no Semiárido Brasileiro: A) Os Retirantes (1944); B) Criança Morta (1944); C) Enterro na Rede (1944)... 97
Figura 8 - Imagem ilustrativa do trabalho cotidiano de sertanejos em meio à construção de pequenos açudes particulares, ainda sem o auxílio do DNOCS, na transição do século XIX para o século XX ... 103
Figura 9 - Obras da Barragem Gargalheiras em 1922. Na foto, o guindaste destinado ao transporte de blocos de granito, para o represamento do rio Acauã (à direita) e canteiro de obras (à esquerda)... 105
Figura 10 - Mapa de climas do Rio Grande do Norte ... 113
Figura 11 - Climogramas Ombrotérmicos de Natal, Touros, São Paulo do Potengi, Currais Novos, Sítio Recanto (Cerro Corá), Macau, Caicó, Martins e Luiz Gomes. ... 115
Figura 12 - Perfil geológico-geomorfológico esquemático do transect Tibau do Sul-Pau dos Ferros (RN) ... 122
Figura 13 - Formações Vegetais do Rio Grande do Norte ... 128
Figura 14 - Formações Vegetais do Rio Grande do Norte – A) Caatinga; B) Cerrados; C) Manguezais; D) Mata Atlântica – Parque das Dunas, Natal/RN; E) Floresta das Serras – João do Vale; F) Vegetação de Praia e Dunas em Natal/RN; G e H) Floresta Ciliar de Carnaúbas ... 130
Figura 15 - Situação de abastecimento hídrico dos municípios do Rio Grande do Norte abastecidos pela CAERN, entre janeiro de 2015 e abril de 2018 ... 140
Figura 16 - Mapa de Situação de abastecimento hídrico dos municípios do Rio Grande do Norte abastecidos pela CAERN em março de 2017 ... 142
Figura 17 – Climogramas da região Seridó potiguar, normal climatológica do período entre 1991-2010: A) climograma de Caicó; B) climograma do Sítio Recanto – Cerro Corá; C) climograma de Currais Novos. ... 225
Figura 18 – Localização da barragem Oiticica, Armando Ribeiro Gonçalves e infraestrutura hídrica da região Seridó. ... 241 Figura 19 - Localização da proposta de integração do sistema de abastecimento hídrico da adutora Médio Oeste ao Sistema Alto Oeste, em destaque adutora proposta. ... 264 Figura 20 - Localização do eixo de transposição norte do Rio São Francisco, em destaque a conexão com o sistema de abastecimento hídrico da região Alto Oeste do RN ... 267 Figura 21 – A) ETE – Jaguaribe, bairro Redinha, zona norte de Natal (48% de obras concluídas); B) ETE – Guarapes, bairro Guarapes, zona oeste de Natal (4% das obras concluídas) ... 272 Figura 22 – A) Aterro Sanitário da Região Metropolitana de Natal ... 272
década de 1980. ... 105 Tabela 2 - Municípios mais populosos do Rio Grande do Norte. ... 132 Tabela 3 - Quantitativo populacional urbano municipal - Região Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 147 Tabela 4 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador ambiental por nível de risco - Região Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 150 Tabela 5 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador infraestrutura por nível de risco - Região Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 153 Tabela 6 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador planejamento estatal por nível de risco - Região Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 156 Tabela 7 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador socioeconômico por nível de risco - Região Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 159 Tabela 8 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH - Região Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 163 Tabela 9 - Quantitativo populacional urbano municipal - Região Agreste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 165 Tabela 10 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador ambiental por nível de risco - Região Agreste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 168 Tabela 11 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador infraestrutura por nível de risco - Região Agreste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 171 Tabela 12 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador planejamento estatal por nível de risco - Região Agreste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 175 Tabela 13 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador socioeconômico por nível de risco - Região Agreste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 178 Tabela 14 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH por nível de risco - Região Agreste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 181 Tabela 15 - Quantitativo populacional urbano municipal - Região Mato Grande de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 184 Tabela 16 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador ambiental por nível de risco - Região Mato Grande de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 187
Tabela 17 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador infraestrutura por nível de risco - Região Mato Grande de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 190 Tabela 18 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador planejamento estatal por nível de risco - Região Mato Grande de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 193 Tabela 19 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador socioeconômico por nível de risco - Região Mato Grande de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 196 Tabela 20 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH por nível de risco - Região Mato Grande de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 199 Tabela 21 - Quantitativo populacional urbano municipal - Região Sertão Central de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 202 Tabela 22 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador ambiental por nível de risco - Região Sertão Central de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 205 Tabela 23 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador infraestrutura por nível de risco - Região Sertão Central de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 208 Tabela 24 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador planejamento estatal por nível de risco - Região Sertão Central de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 211 Tabela 25 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador socioeconômico por nível de risco - Região Sertão Central de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 214 Tabela 26 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH por nível de risco - Região Sertão Central de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte... 217 Tabela 27 – Quantitativo populacional urbano municipal - Região Seridó de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 220 Tabela 28 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador ambiental por nível de risco - Região Seridó de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 223 Tabela 29 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador infraestrutura por nível de risco - Região Seridó de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 228 Tabela 30 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador planejamento estatal por nível de risco - Região Seridó de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 231 Tabela 31 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador socioeconômico por nível de risco - Região Seridó de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 234 Tabela 32 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH por nível de risco - Região Seridó de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 237 Tabela 33 – Quantitativo populacional urbano municipal - Região Alto Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 243
Tabela 34 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador ambiental por nível de risco - Região Alto Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 246 Tabela 35 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador infraestrutura por nível de risco - Região Alto Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 250 Tabela 36 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador planejamento estatal por nível de risco - Região Alto Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 254 Tabela 37 - Quantitativo populacional urbano municipal do indicador socioeconômico por nível de risco - Região Alto Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 257 Tabela 38 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH por nível de risco - Região Alto Oeste de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 260 Tabela 39 – Quantitativo populacional urbano municipal - Região Natal de abastecimento hídrico, Rio Grande do Norte. ... 268 Tabela 40 - Quantitativo populacional urbano municipal do IRDH por nível de risco - Rio Grande do Norte. ... 299
Mapa 2 – Expansão da rede de adutoras no Rio Grande do Norte ... 109
Mapa 2 - Hidrografia do Rio Grande do Norte ... 118
Mapa 3 - Aquíferos do Rio Grande do Norte ... 125
Mapa 5 - IDHM - Rio Grande do Norte ... 135
Mapa 6 - Situação Pluviométrica do RN entre 2012 e 2018. ... 138
Mapa 7 - IRDH - Indicador Ambiental/Região Oeste do RN ... 149
Mapa 8 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Região Oeste do RN ... 152
Mapa 9 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Região Oeste do RN ... 155
Mapa 10 - IRDH - Indicador Socioeconômico/Região Oeste do RN ... 158
Mapa 11 - Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Oeste do RN ... 161
Mapa 12 - IRDH - Indicador Ambiental/Região Agreste do RN ... 167
Mapa 13 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Região Agreste do RN ... 170
Mapa 14 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Região Agreste do RN ... 174
Mapa 15 - IRDH - Indicador Socioeconômico/Região Agreste do RN ... 177
Mapa 16 - Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Agreste do RN ... 180
Mapa 17 - IRDH - Indicador Ambiental/Região Mato Grande do RN ... 186
Mapa 18 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Região Mato Grande do RN ... 189
Mapa 19 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Região Mato Grande do RN ... 192
Mapa 20 - IRDH - Indicador Socioeconômico/Região Mato Grande do RN ... 195
Mapa 21 - Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Mato Grande do RN ... 198
Mapa 22 - IRDH - Indicador Ambiental/Região Sertão Central do RN ... 204
Mapa 23 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Região Sertão Central do RN ... 207
Mapa 24 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Região Sertão Central do RN... 210
Mapa 25 - IRDH - Indicador Socioeconômico/Região Sertão Central do RN... 213
Mapa 26 - Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Sertão Central do RN ... 216
Mapa 27 - IRDH - Indicador Ambiental/Região Seridó do RN ... 222
Mapa 28 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Região Seridó do RN ... 227
Mapa 29 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Região Seridó do RN ... 230
Mapa 30 - IRDH - Indicador Socioeconômico/Região Seridó do RNN ... 233
Mapa 32 - IRDH - Indicador Ambiental/Região Alto Oeste do RN ... 245
Mapa 33 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Região Alto Oeste do RN ... 249
Mapa 34 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Região Alto Oeste do RN ... 253
Mapa 35 - IRDH - Indicador Socioeconômico/Região Alto Oeste do RN ... 256
Mapa 36 - Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Alto Oeste do RN 259 Mapa 37 - Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Natal do RN ... 275
Mapa 38 – Variáveis individualizadas do Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico-IRDH/Região Natal do RN ... 279
Mapa 39 - IRDH - Indicador Ambiental/Rio Grande do Norte... 284
Mapa 40 - IRDH - Indicador Infraestrutura/ Rio Grande do Norte ... 288
Mapa 41 - IRDH - Indicador Planejamento Estatal/ Rio Grande do Norte. ... 291
Mapa 42 - IRDH - Indicador Socioeconômico/ Rio Grande do Norte ... 294
por classe de risco; B: Porcentagem de Municípios por classe de risco... 286 Gráfico 2 - Distribuição dos resultados do indicador infraestrutura. A: Quantidade de Municípios por classe de risco; B: Porcentagem de Municípios por classe de risco. ... 290 Gráfico 3 - Distribuição dos resultados do indicador planejamento estatal. A: Quantidade de Municípios por classe de risco; B: Porcentagem de Municípios por classe de risco. ... 293 Gráfico 4 - Distribuição dos resultados do indicador socioeconômico. A: Quantidade de Municípios por classe de risco; B: Porcentagem de Municípios por classe de risco. ... 295
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
ANA Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico
ASA Articulação do Semiárido
CAERN Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte
CDM Companhia de Desenvolvimento Mineral
CE Estado do Ceará
CONAMA Conselho Nacional do Meio Ambiente
CPRM Serviço Geológico do Brasil
CPTEC/INPE Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
DNOCS Departamento Nacional de Obras Contra a Seca DRIB Disaster Risk Indicators in Brazil
EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
EMPARN Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte
ETA Estação de Tratamento de Água
ETE Estação de Tratamento de Esgoto
EUA Estados Unidos da América
FIDE Formulário de Informações de Desastres
FUNASA Fundação Nacional de Saúde
GMS Graus, Minutos e Segundos
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IDEMA Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte
IDH Índice de Desenvolvimento Humano
IDHM Índice de Desenvolvimento Humano Municipal
IGARN Instituto de Gestão das Águas do Estado do Rio Grande do Norte IOCS Inspetoria de Obras Contra a Seca
IPCC Intergovernmental Panel on Climate Change
IPEA Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada IRDH Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico
MDR Ministério do Desenvolvimento Regional
NBR Norma Técnica Brasileira
OMS Organização Mundial de Saúde
ONGs Organizações Não-governamentais
PAC Programa de Aceleração do Crescimento
PB Estado da Paraíba
PIB Produto Interno Bruto
PLANASA Plano Nacional de Saneamento
PMN Prefeitura Municipal de Natal
PMSB Planos Municipais de Saneamento Básico
PRRD Plano de Redução de Risco de Desastre
PVC Policloreto de Vinila
RN Estado do Rio Grande do Norte
RPPN Reserva Particular de Patrimônio Natural
RRD Redução de Risco de Desastres
S2ID Sistema Integrado de Informações Sobre Desastres
SAA Sistema de Abastecimento de Água
SAAE Sistemas Autônomos de Águas e Esgotos
SAB Semiárido Brasileiro
SEADE Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados Estatísticos
Séc. Século
SEDEC Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil
SEMARH Secretaria de Estado do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte
SERHID Secretaria de Estado de Recursos Hídricos
SIG Sistema de Informação Geográfica
SNIS Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento SUDENE Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste
UDH Unidades de Desenvolvimento Humano
UERN Universidade Estadual do Rio Grande do Norte
UFCG Universidade Federal de Campina Grande
UFERSA Universidade Federal Rural do Semi-Árido UFRN Universidade Federal do Rio Grande do Norte UNISDR United Nations Office for Disaster Risk Reduction
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 23
2 REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO ... 33
2.1 Conceitos e categorias de análise ... 33
2.2 Metodologia de análise do Risco de Desabastecimento Hídrico do RN ... 45
2.2.1 Sistema de Indicadores de Risco ao Desabastecimento Hídrico Urbano do RN ... 55
2.3 Análise das variáveis: funcionalidade, limites e ponderação ... 60
2.3.1 Ponderação das variáveis e indicadores do IRDH ... 85
3 RISCO DE DESABASTECIMENTO HÍDRICO NO RIO GRANDE DO NORTE: PANORAMA HISTÓRICO E CONFIGURAÇÃO SOCIOAMBIENTAL ... 91
3.1 Desabastecimento hídrico no Rio Grande do Norte no contexto do Semiárido Brasileiro ... 93
3.1.1 Seca no Semiárido Brasileiro: uma história de sofrimento, convivência e resistência ... 95
3.1.2 Políticas públicas, obras e ações estruturantes para melhor convivência com a seca no Rio Grande do Norte ... 100
3.2 Caracterização Físico-Natural do RN ... 111
3.2.1 Clima e Hidrografia ... 112
3.2.2 Geologia e Relevo ... 119
3.2.3 Solos e Vegetação ... 126
3.3. Caracterização Socioeconômica do Rio Grande do Norte ... 131
3.4 Estiagem prolongada: situação do abastecimento hídrico no RN no período entre 2012-2017 ... 137
4 ANÁLISE DO RISCO DE DESABASTECIMENTO HÍDRICO NO RN. ... 146
4.1 Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico (IRDH) do RN: uma análise regional do IRDH no RN ... 146
4.1.1 Região Oeste ... 147
4.1.2 Região Agreste ... 164
4.1.3 Região do Mato Grande ... 184
4.1.4 Região Sertão Central ... 202
4.1.5 Região Seridó ... 219
4.1.6 Região Alto Oeste ... 242
4.1.7 Região de Natal ... 268 5 ÍNDICE DE RISCO DE DESABASTECIMENTO HÍDRICO GERAL DO RN (IRDH) . 282
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 308
REFERÊNCIAS ... 316
APÊNDICES ... 326
Apêndice A – Questionário destinado às regionais da concessionária de abastecimento hídrico urbano municipal ... 326
Apêndice B – Desabastecimento hídrico do RN em fotos ... 328
Apêndice C – Tabulação dos dados do IRDH ... 338
ANEXOS ... 341
INTRODUÇÃO
A água sempre foi fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade, pois, além de ser um recurso básico à vida, é um insumo necessário para a produção agrícola e industrial, possibilitando a sedentarização da população, próximo à corpos hídricos. Em relação ao abastecimento hídrico, seus primórdios têm registros que datam do apogeu da civilização Mesopotâmica, por volta de 10 mil anos a.C., quando esta sociedade começou a estruturar um sistema de irrigação a partir dos rios Tigre e Eufrates, na região onde hoje é o território do Iraque1. A ocupação humana dependia da proximidade de mananciais, a princípio superficiais,
com disponibilidade por todo o ano (perenes), o que foi o caso da Mesopotâmia na idade antiga. Atualmente, cidades com alto padrão urbano e tecnológico, não necessariamente têm essa dependência, como Dubai, por exemplo, nos Emirados Árabes Unidos, construída no Golfo Pérsico, em região de clima desértico e tem abastecimento hídrico por dessalinização de água do mar, principalmente.
Nesse contexto, ao longo da história, a maioria das sociedades antigas se desenvolveu em territórios próximos a cursos d’água, utilizando-se desse recurso em suas atividades, com níveis tecnológicos cada vez mais avançados, que incidiram diretamente na maior produtividade da relação do homem com o abastecimento hídrico. Cidades estabelecidas na idade média (Séc. V a XV) e moderna (final do Séc. XV até o final séc. XVIII) também tiveram sua origem associada a rios perenes como, por exemplo, Paris (Rio Sena), Viena (Rio Danúbio), Londres (Rio Tâmisa), Lisboa (Rio Tejo) e, no Brasil, São Paulo (Rios Tietê e Pinheiros) e Recife (Rios Capibaribe e Beberibe).
A irrigação influenciou não somente o meio rural, mas também contribuiu para o desenvolvimento de tecnologias para abastecimento dos primeiros aglomerados populacionais, que deram origem ao fenômeno urbano moderno, evoluindo com o tempo, em consonância com o desenvolvimento populacional e tecnológico da humanidade. A construção de reservatórios elevados, abastecendo templos e jardins por meio de canais movidos por gravidade, foi um exemplo do início do abastecimento hídrico urbano ainda nas civilizações antigas, tema abordado na caraterização do histórico de abastecimento hídrico urbano desta tese.
Nesse cenário, os elementos técnicos do abastecimento hídrico urbano evoluíram junto com o aparato tecnológico de cada sociedade e no Rio Grande do Norte (RN), região nordeste
1A Mesopotâmia é o local dos primeiros desenvolvimentos da Revolução Neolítica, de cerca de 10 000 a.C.. Foi
identificada como tendo "inspirado alguns dos desenvolvimentos mais importantes da história humana, incluindo a invenção da roda, a plantação das primeiras culturas cerealíferas e o desenvolvimento da escrita cursiva, da matemática, da astronomia e da agricultura" (MILTON-EDWARDS, 2003).
do Brasil, não foi diferente. O Estado tem características ambientais, em maior parte do seu território, de clima semiárido, o qual tem de 7 a 8 meses por ano de estiagem, podendo chegar até 10 meses secos, com média pluviométrica em torno de 600 mm/ano. Essa característica fez com que a sociedade do Estado tivesse a necessidade de uma densa infraestrutura técnica para promover o abastecimento hídrico urbano municipal de suas cidades, sobretudo no interior do Estado, que é, em toda sua extensão, de clima semiárido.
Além da estrutura de abastecimento hídrico, estão inerentes à análise deste trabalho a forma de abastecimento hídrico urbano municipal2 (a qual foi analisada a partir das regiões de
abastecimento do Estado); a funcionalidade dessas estruturas e formas, com proposições de medidas mitigadoras e soluções para aumentar o alcance deste abastecimento, assim como sua qualidade; e a esfera processual na análise, pois houve um processo histórico de adensamento da rede de abastecimento do Estado, seguindo a disponibilidade de recursos tecnológicos, aumento populacional e investimento em cadeias produtivas no semiárido, as quais têm a água como fundamental para sua realização no território. Seguindo, portanto, as “categorias de análise geográficas”: “Forma, Função, Estrutura e Processo” (SANTOS, 1985).
Nesse contexto, teve-se como objeto desta pesquisa uma proposta metodológica de avaliação e análise do risco de desabastecimento hídrico, utilizando o Estado do Rio Grande do Norte como estudo de caso (Mapa 1), seguido da análise dos resultados especializados regionalmente pelo território estadual.
A escolha do RN se deu por este, historicamente, apresentar condições de vulnerabilidade ao desabastecimento hídrico pela exposição à estiagem prolongada que afeta a região brasileira do semiárido, na qual a maior parte do Estado está inserida, como visto no Mapa 1.
2 Atualmente o abastecimento hídrico no Brasil segue a Lei nº 11.445/2007, que estabelece as diretrizes nacionais
para o saneamento básico. Portanto, o abastecimento hídrico é realizado por convênio de concessão em que os municípios (ou regiões metropolitanas) delegam a uma concessionária - uma empresa majoritariamente pública - o serviço, associado ao tratamento de esgoto, na maioria dos casos. Além desta modalidade, os municípios podem operar os seus sistemas, configurando os Sistemas Autônomos de Águas e Esgotos (SAAE’s),
Brasil Peru Arg entin a Bo livia C olom bia Venezuela Chile Paraguay Uruguay Suriname Guyane Ceará Pernambuco Pernambuco Paraíba Açu Apodi Mossoró Caicó Lajes Touros Acari Macau Caraúbas Jucurutu Baraúna Angicos Upanema São Tomé Santana do Matos Pureza Patu Pe dro A ve lin o Paraú Ta ipu Florâ
nia Currais Novos
Ceará-Mirim Macaíba C am po G rande Pare lhas Santa Cruz João C âm ara Jandaíra Bodó Serra do M el Itajá Carna ubais Japi Tang ará São Raf ael Galin hos Govern ador Dix-Sep t Rosado Janduís Cru zeta
Afonso Bezerra
Alexandr ia Pen dências Ipang uaçu Cerro Cor á Itaú Na tal Equado r Tibau São Fern ando Guam aré Areia Bran ca Parazinho R iachu elo Nova Cruz Pedr a Pr eta Arês Umarizal M artins Serrinha N ísia F lores ta Jardim do Seridó Santo Antônio Ipueira Po ço B ran co Bento Fernandes Fernando Pedroza Pau dos Fe rros Pedro V elho 35°0'0"W 36°0'0"W 37°0'0"W 38°0'0"W 5° 0' 0" S 6° 0' 0" S 7° 0' 0" S
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Municípios RN Semi-árido do RN (ANA, 2018)Dados sobre as localidades - CPRM, 2010; Base Vetorial CPRM (2012); IDEMA (2018);
ANA (2018)
Programa de Pós-graduação e Pesquisa em Geografia
Rio Grande do Norte / Nordeste - BRASIL
RISCO DE DESABASTECIMENTO HÍDRICO NO RIO GRANDE
DO NORTE, BRASIL.
Localização do Rio Grande do Norte e Semiárido Potiguar Elaboração: Yuri Macedo Escala: A4 1:2.000.000 Padrão: GMS Datum: SIRGAS 2000 O c e a n o A tl â n ti c o Bahia Ceará Pia uí RN Pernambuco Paraíba Alagoas Sergipe Maranhão O c e a n o A tlâ n tic o 0 15 30 60 90 120 Km Adriano Lima Troleis Projeto: Local: Título: Coordenadas: Orientação:
Conforme visualizado no Mapa 1, o Estado localiza-se, em sua maior parte, na região climática do semiárido brasileiro (SAB), a qual é caracterizada pela ocorrência de estiagem prolongada, popularmente conhecida como “Seca”, que é um fenômeno climático natural, sazonal, também considerado como um desastre do tipo “gradual ou de evolução crônica” (BRASIL, 1999), afetando a população local ao longo dos anos, que aprendeu e estruturou ações de convivência e resistência com o fenômeno. Nesse contexto, a região mencionada se configura como a região semiárida mais povoada do planeta3.
As perdas humanas e materiais num lugar a partir de um evento danoso à população, com causas naturais, agravadas ou produzidas pelo homem em sociedade, caracterizam um desastre4, como nesse caso da seca no Estado. O desperdício no uso de água é visto nas escolhas por formas de produção econômica mais consumptivas de água, como a fruticultura irrigada; e as festas no interior semiárido, como carnaval e outras, que levam grandes contingentes populacionais aumentando a demanda hídrica, são alguns exemplos de como esse desastre pode ser agravado pela sociedade, aumentando a demanda hídrica nas cidades onde ocorrem, mesmo em tempo de escassez nos mananciais.
Associada a esse contexto, há, na região semiárida do nordeste e do Rio Grande do Norte, alta pressão exercida nos recursos hídricos pela população residente, associada à deficiência natural de disponibilidade hídrica, o que configura o conflito e a necessidade histórica de obras estruturantes e políticas públicas sobre a temática, como no caso da criação da SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste), obras de açudagem, perfuração de poços e construção de cisternas, que serão abordados no desenvolvimento da pesquisa.
Seguindo essa problemática, especificamente no Rio Grande do Norte, esse clima corresponde a dois terços do Estado, associado ao arcabouço geológico com rochas cristalinas, em sua maior parte, o que limita o acesso à água subterrânea pelas características de disponibilidade e qualidade do aquífero fissural. Portanto, os recursos hídricos superficiais e subterrâneos têm limitações de disponibilidade à população.
3O geógrafo francês Jean Dresch, um dos participantes da excursão realizada aos sertões semiáridos por ocasião
do Congresso Internacional de Geografia, ocorrido no Rio de Janeiro em agosto de 1956, afirmou, na oportunidade, que o semiárido brasileiro era o mais povoado do mundo, o que marca a percepção de resistência e convivência com a seca, assim como problemas sociais decorrentes do coronelismo e da estrutura agrária elitista (AB’SABER 1999, p. 60).
4Resultado de eventos adversos, naturais ou provocados pelo homem, sobre um ecossistema vulnerável, causando
danos humanos, materiais e ambientais e consequentes prejuízos econômicos e sociais. Os desastres são quantificados em função dos danos e prejuízos em termos de intensidade, enquanto os eventos adversos são quantificados em termos de magnitude (CASTRO et al, 1999).
Em nível estadual, medidas para convivência e mitigação desse problema foram adotadas ao longo da história de crescimento populacional e desenvolvimento socioeconômico do Estado, como a transposição de bacias hidrográficas e a integração de sistemas de abastecimento e infraestrutura hídrica, que marcaram a gestão do risco de desabastecimento hídrico no RN, com mais de 1.200 km de adutoras instaladas, por exemplo. Contudo, essa infraestrutura não atende a todos municípios do Estado e não foi capaz de resistir à “seca dos seis anos” (entre 2012 e 2017). É preciso deixar claro que esta periodização se refere à seca climática e não a dos recursos hídricos, pois, até meados do ano 2019, vários municípios do RN haviam sidos caracterizados como em colapso hídrico5 pela concessionária estadual, denotando problemas de abastecimento hídrico a partir de seus mananciais.
Nesse cenário, até o primeiro trimestre de 2019, o Governo do Rio Grande do Norte renovou, por mais 180 dias, o decreto de situação de emergência6 por causa da seca em 152 dos 167 municípios do Estado – o que representa 91% dos municípios. Essa foi a 12ª vez seguida que isso aconteceu, já que a duração de cada decreto era, geralmente, de 180 dias, desde 2012, quando se iniciou o período dos seis anos de seca até 2017 (G1-RN, 11/03/2019)7. Os decretos de calamidade pública ou situação de emergência são regulamentados pelo Decreto nº 7.257/2010, os quais têm diferentes níveis de intensidade de danos de um desastre que incidem no comprometimento “parcial ou substancial” da capacidade de resposta do poder público (BRASIL, 2010).
Nestes decretos os municípios ou estados, expõem que não conseguiam lidar com o desastre sem recorrer ao auxílio externo do governo federal, caracterizando dificuldades para a gestão da administração pública, que afeta a sociedade estadual diretamente, e brasileira indiretamente, em virtude da destinação de recursos emergenciais pelo governo federal. Sobre o conceito de decreto de calamidade pública e situação de emergência:
Art. 2º Para os efeitos deste Decreto, considera-se: (...) III - situação de emergência: situação anormal, provocada por desastres, causando danos e prejuízos que impliquem o comprometimento parcial da capacidade de resposta do poder público do ente atingido; IV - estado de calamidade pública:
5Por colapso hídrico entende-se, neste trabalho, a falência, esgotamento, o fato de ruir, de interromper temporária
ou permanentemente o abastecimento hídrico urbano de um município por questões de falta do recurso hídrico em seu manancial de captação.
6O decreto de situação de emergência estadual foi motivado pelo decreto de Calamidade Pública municipal, que
visa recorrer aos recursos estaduais para poder mitigar os efeitos da falta de abastecimento hídrico. Nesse sentido, o próprio Estado declarou situação de calamidade ou emergência solicitando recursos federais por não ter condições de lidar com o desastre do desabastecimento hídrico. Todos os municípios inseridos no Decreto Estadual realizaram preenchimento do Formulário de Informações de Desastres (FIDE) na Plataforma do Sistema Integrado de Informações de Desastres (S2ID) da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (SEDEC) do Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).
7Disponível em <
situação anormal, provocada por desastres, causando danos e prejuízos que impliquem o comprometimento substancial da capacidade de resposta do poder público do ente atingido (BRASIL, 2010)
Conforme citado, a caracterização de um desastre tem dois pontos fundamentais: a perda de vidas humanas e as perdas financeiras/materiais à população e/ou Estado. Nesse último período de estiagem prolongada (seca) citado, o Rio Grande do Norte não teve registros de perdas humanas diretamente associados, como na grande “seca de 1915”8, por exemplo, quando os responsáveis pela administração desse fenômeno não dispunham dos níveis tecnológico e de desenvolvimento socioeconômico atuais. Na atualidade, existe maior estrutura de assistência social e transmissão de renda que fazem com que a população resista por mais tempo no campo semiárido sem necessidade de migrar e tenha acesso à água potável, além de ter maior acesso a políticas públicas emergenciais, com carros pipas e perfuração de poços, dessedentando a população mais pobre necessitada.
As políticas públicas contribuem para a resistência e a resiliência da população ao desastre do desabastecimento hídrico, o qual tem, em sua essência, características inerentes ao meio social e natural. No concernente ao meio natural, o Rio Grande do Norte pode ser caracterizado, de maneira geral, a partir dos seguintes ambientes: agreste, próximo ao litoral oriental; semiárido, na região central do Estado; e áreas serranas9. Cada um desses ambientes, quanto à ocupação humana, tem um nível de vulnerabilidade de utilização dos recursos hídricos para abastecimento urbano. Fatores como a disponibilidade hídrica superficial e/ou subterrânea e a demanda hídrica elevada em algumas sedes municipais, quando associados, contribuem para ampliar o risco de desabastecimento hídrico urbano nessa região semiárida do Brasil, que é a mais populosa do mundo.
Ainda em relação ao ambiente natural, o agreste é uma região de transição entre o semiárido e o clima úmido do litoral oriental do Estado, na qual a vegetação natural é mais frondosa e fechada, com espécies de mata atlântica do tipo perenifólia. Junto com o litoral oriental, essa região é caracterizada por dois tipos de clima: o úmido e semiúmido (ou
8A seca de 1915 foi o cenário para obras escritas como o livro “O Quinze”, de Rachel de Queiroz, bem como para
a implantação do primeiro campo de concentração no Ceará, no Alagadiço, ao oeste de Fortaleza. No Alagadiço, estima-se um ajuntamento de 8 mil pessoas, cuidadas com alguma comida e sob a vigília de soldados. A razão para o uso desta estratégia foi os temores de invasões e saques dos flagelados da seca em Fortaleza — isso já acontecera na seca de 1877, quando sertanejos famintos invadiram a capital cearense, aterrorizando a população urbana. Esse campo foi desfeito e as vítimas foram dispersadas em 18 de dezembro do mesmo ano. Durante essa seca, muitos cearenses também migraram para a Amazônia (ROCHA, 2008).
9As áreas serranas do RN têm características associadas ao seu relevo, com clima diferenciado, mais úmido do que
o entorno, com vegetação de floresta tropical, semelhante à mata atlântica, sendo caracterizadas como refúgios desse bioma no semiárido potiguar.
subúmido), variando entre 3 meses secos no clima úmido e de 3 a 5 meses secos para o clima semiúmido. No agreste, a pluviosidade média anual é superior à 800mm, podendo chegar a médias de 1562,7 mm na capital Natal, por exemplo, um dos municípios mais úmidos do Estado (DINIZ; PEREIRA, 2015).
Já a região interiorana do Estado tem clima semiárido, que pode ser do subtipo brando, com 6 meses secos; mediano, com 7 a 8 meses secos; e forte, com 9 a 10 meses secos. No semiárido, a pluviosidade geralmente não ultrapassa a isoieta de 800 mm (a não ser nos platôs serranos do Estado como os municípios de Martins e Luiz Gomes), podendo chegar à média anual de 400,8 mm na comunidade de Sítio Recanto, município de Cerro Corá, uma das menores pluviosidades do Estado.
Entre 2012 e 2017, período em que houve a maior seca do Estado até o momento, com maior quantidade de tempo de chuvas abaixo da média normal, tanto no semiárido quanto no litoral oriental úmido do Estado, o RN teve problemas de abastecimento hídrico urbano em 88% de seus municípios (RIO GRANDE DO NORTE, 2019), com colapso ou ameaça disso em seus principais mananciais (CAERN, 2017). Esse período recente, de seis anos, com grandes problemas para o abastecimento hídrico urbano municipal, os quais foram visualizados em campo, nas notícias locais e nos trabalhos emergenciais pela concessionária de abastecimento hídrico do Estado, foi o que despertou o interesse pela temática desta pesquisa, sendo enfatizados a caracterização da infraestrutura e o ambiente natural que envolvem o risco de desabastecimento hídrico no Rio Grande do Norte. Mesmo tendo uma das mais desenvolvidas redes de infraestruturas de abastecimento hídrico urbano municipal de um Estado do semiárido brasileiro, o RN não tem suportado períodos longos de seca, o que faz emergir a necessidade de um estudo que analise, mapeie e detalhe o risco deste tipo de desastre.
Os problemas derivados do desabastecimento hídrico urbano municipal afetam, principalmente, a economia da população e, por consequência, dos municípios, com mortandade de animais (rebanhos). Além disso, promovem migrações ou abandono rural nas áreas mais afetadas, assim como prejuízos diversos ao turismo, comércio e serviços. As mesorregiões do Estado mais atingidas pelo desabastecimento hídrico são a central e oeste potiguar, onde se destacam, em 2017, 13 municípios em colapso total de abastecimento reconhecidos pela concessionária, a Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte – CAERN (2017), assim como 91 cidades com dificuldade de abastecimento no Estado. O Estado possui 167 municípios no total e, portanto, aproximadamente 62% dos municípios estiveram com problemas no abastecimento recentes (entre 2012 e 2017).
Nesse contexto, esta pesquisa está direcionada pela hipótese que a relação entre fatores ambientais, infraestruturais, socioeconômicos e de planejamento estatal, materializados no espaço, produz territórios de risco de desabastecimento hídrico no RN. Diante dessa hipótese, destacam-se as seguintes premissas que servirão de base para o desenvolvimento da tese:
1. Os estudos e planos sobre a temática do risco de desabastecimento hídrico são incompletos, inexistentes ou precisam de atualização em função do surgimento de novas áreas de risco ou aumento do risco nas regiões reconhecidas como mais preocupantes para este tipo de desastre;
2. É urgente a necessidade da proposição de uma metodologia de análise de risco a partir de um sistema de indicadores socioambientais de risco de desabastecimento hídrico para utilização no planejamento governamental, das empresas públicas e/ou utilização pela sociedade civil organizada;
3. O Estado do Rio Grande do Norte é um território de risco socioambiental ao desabastecimento hídrico e entre 2012-2017 passou por esse desastre, com danos materiais à população e ao Estado, em função dos elevados gastos públicos alocados na sua mitigação.
Com base nessas premissas, foram construídos os objetivos deste trabalho, cujo principal propósito consiste em avaliar o risco de desabastecimento hídrico no Rio Grande do Norte (RN) a partir do Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico (IRDH) gerado pelo sistema de indicadores socioambientais. Para que esse objetivo geral fosse alcançado, foi preciso:
(I) Caracterizar o(s) sistema(s) de abastecimento hídrico urbano municipal do RN a partir de sua funcionalidade físico-natural, socioeconômica e infraestrutural;
(II) Propor o Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico (IRDH) a partir de sistema de indicadores socioambientais;
(III) Demonstrar a importância das variáveis e sua ponderação no IRDH a partir de sua funcionalidade dentro do(s) sistema(s) de abastecimento hídrico municipal do Estado;
(IV) Analisar os padrões regionais da espacialização do IRDH a partir da classificação do risco municipal;
(V) Propor medidas mitigadoras e alternativas para o abastecimento hídrico em cada região.
A organização dos capítulos da tese foi feita para atender aos objetivos propostos, portanto, no primeiro capítulo tem-se o referencial teórico, com os conceitos e categorias de análise que embasaram a pesquisa, assim como o detalhamento dos procedimentos
metodológicos e elementos que compõem o IRDH e sua análise. Este capítulo se relaciona ao objetivo específico II e III, em que é detalhado a proposta do IRDH, em sus base teórica e metodológica, demostrando a importância das variáveis e sua ponderação dentro do sistema de abastecimento hídrico do RN.
No segundo capítulo desta tese, foi feita uma pesquisa em referências bibliográfica que mostram a história do sistema de abastecimento hídrico do RN, como um processo de uso dos recursos hídricos, desde a captação, tratamento e distribuição. Também neste capítulo, tem-se a caracterização físico-natural e socioeconômica do Estado, mostrando como os condicionantes naturais e socioeconômicos contribuem para a configuração do risco de desabastecimento hídrico no RN. Ao final do capítulo, foi feita uma análise da situação do abastecimento hídrico estadual no último período de estiagem prolongada (Seca), nos seis anos entre 2012 e 2017. Com este conteúdo, o capítulo tem como objetivo caracterizar o(s) sistema(s) de abastecimento hídrico urbano municipal do RN a partir de sua funcionalidade físico-natural, socioeconômica e infraestrutural, portanto, objetivo específico I.
No terceiro capítulo da tese foi realizada a avaliação e análise do IRDH, ou seja, do risco de desabastecimento hídrico do Estado, dividido pelas regiões de abastecimento hídrico, seguindo regionalização da concessionária de abastecimento hídrico do RN, esta divisão aumento ou nível de detalhamento da análise dos resultados do IRDH, a partir da consideração das especificidades regionais. Este capítulo tem como objetivo analisar os padrões regionais da espacialização do IRDH a partir da classificação do risco municipal; e propor medidas mitigadoras e alternativas para o abastecimento hídrico em cada região. (objetivos específicos IV e V).
Por último, no quarto capítulo da tese foi realizada a avaliação do IRDH do Rio Grande do Norte, em escala estadual, com uma visão macro do Estado, a partir dos resultados do índice, observando os problemas encontrados, contextualizando-os com a gestão de recursos hídricos no Estado, propondo medidas e sugestões estruturais, e não estruturais, para diminuição do risco de desabastecimento hídrico urbano municipal do estado. O conteúdo deste capítulo, portanto, se relaciona aos objetivos específicos IV e V.
2 REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO
Esta tese estrutura-se a partir de uma análise sistêmica dos elementos que compõem a estrutura e funcionalidade do(s) sistema(s) de abastecimento hídrico do RN, utilizando-se das proposições conceituais e metodológicas dos estudos de risco socioambiental como área aplicada do conhecimento geográfico e, especificamente, dos estudos de risco voltados à problemática do desabastecimento hídrico no Nordeste e Rio Grande do Norte, Brasil.
2.1 Conceitos e categorias de análise
É bastante comum associarmos o termo risco a qualquer situação de perda e acidentes, mas sua origem remonta da Grécia Antiga, quando significava pedra, raiz ou, ainda, corte em terra firme; posteriormente, riscus, já no latim, foi usado para designar falésia, precipício. Porém, nos séculos XVI e XVII, o termo risco deixou de fazer referência a elementos da paisagem natural e passou ter significação mais abstrata, relacionado à incerteza, tendo em vista que nesse período da história ocorreram as Grandes Navegações lideradas por espanhóis e portugueses, que faziam longas travessias em águas desconhecidas sem terem a certeza do regresso a suas terras de origem. (DNV MANAGE RISK, 2011).
O estudo dessa temática em Geografia tem seus primeiros trabalhos de destaque por volta da Década de 1920, com Gilbert F. White, juntamente com Ian Burton e Robert W. Kates, geógrafos e colegas de graduação na tradicional Escola de Chicago (EUA), sendo os precursores das discussões sobre os riscos de desastres na Geografia a partir da produção de estudos, concepções e conceitos em torno dos “Natural Hazards”, traduzido e utilizado no Brasil como “Perigos Naturais”10. Nesse contexto, em 1927, o governo dos Estados Unidos solicita ao Corpo (Conselho) Nacional de Engenharia (U.S. Corps of Enginners) a proposição de estudos e medidas voltadas aos problemas de inundações em áreas rurais e urbanas (MARANDOLA JR; HOGAN, 2004), em que os geógrafos mencionados chefiaram o grupo de trabalho, com a participação de profissionais de áreas diversas correlacionadas ao tema, denotando a natureza transdisciplinar desses estudos.
Neste contexto, a discussão teve um início diretamente ligado ao planejamento estatal, o que é explicável a partir da percepção da necessidade governamental, em todas escalas
10 Há uma discussão sobre a tradução do termo hazard para o português, largamente discutida no âmbito das
chamadas Ciências Cindínicas (Ciências do perigo ou do risco), como é definida os estudos de risco em Portugal. Autores como Fernando Rebelo (2008 e 2010) e Luciano Lourenço (2008) têm defendido que hazard deve ser traduzido por “risco” (PEDRO, 2014 p. 59). Porém, há uma dificuldade em articular esta tradução conceitual, quando Rebelo “tem o cuidado de, na obra Geografia Física e Riscos Naturais, definir hazard como ‘o risco em sentido restrito’, já que o articula, com Dauphiné e outros autores, como uma das duas principais componentes do risco, sendo a outra a vulnerabilidade” (op. cit.).
administrativas, de mitigar os prejuízos de ordem física (vidas humanas) e econômica, sobretudo em um país que visa a um desenvolvimento socioespacial, ambientalmente equilibrado, característicos de uma gestão contemporânea.
Assim, os conhecimentos geográficos relacionando questões sociais e ambientais têm sido importantes na resolução da problemáticas inerentes ao risco de desastre em áreas urbanas e rurais, tanto no contexto mundial quanto no brasileiro. Nesse sentido, a análise crítica do uso que o Homem faz da natureza deve estruturar as intervenções de políticas públicas e planejamento socioambiental. Essa perspectiva direciona a pesquisa desta tese, em consonância com os estudos de risco em geografia, iniciados com White. Sobre o tema, Marandola Jr e Hogan afirmam que:
Os autores apontam para a interação natureza-sociedade-tecnologia, enfatizando assim o caráter integrado das análises e os diferentes níveis de
vulnerabilidade aos hazards, que variam de acordo com os diferentes termos
desta relação.
A contribuição dos geógrafos foi imprescindível por incorporar uma visão integrada do problema, tal como o formulou White (1973: 194): “How does
man adjust to risk and uncertainty in natural systems, and what does understanding of that process imply for public policy?” Assim, a relação
homem-meio/sociedade-natureza é colocada no centro do processo de ocupação humana de um território, estando sua compreensão no cerne dos mecanismos de intervenção e gestão deste território. (MARANDOLA JR; HOGAN, 2004, p. 97).
No trecho, White destaca a importância do risco/incerteza nos sistemas naturais e a necessidade de se considerarem essas esferas nas políticas públicas materializadas no território. No concernente ao desabastecimento hídrico do Rio Grande do Norte, tal percepção está presente na análise desse risco, pois as políticas públicas promovem infraestruturas, usos hídricos e funcionalidade do(s) sistema(s) de abastecimento hídrico de maneira diferente pelo território estadual em suas diversas regiões. Nesse contexto, o risco de desabastecimento hídrico se estabelece em níveis diferentes pelos municípios do Estado, com formas diferentes de a população resistir aos seus efeitos ou lidar com suas adversidades.
Desse modo, na perspectiva de discutir os pressupostos teórico-metodológicos e conceituais desta pesquisa, foi preciso definir conceitos como: Espaço geográfico; Território; Região e regionalização; Risco; Vulnerabilidade social; Perigo; e Desastre. Já as categorias de análise elencadas foram: Sistema de abastecimento hídrico; configuração territorial; e Territórios de Risco. Nesse sentido, tanto os conceitos como as categorias de análise pertencem a duas áreas da Geografia, quais sejam: a geografia geral e os estudos de risco e vulnerabilidade aos desastres socioambientais, que eram chamados em origem de “natural hazards”. A segunda
é um campo de análise específico da Geografia, especificamente estabelecida nos estudos de Geografia Física, com conceitos necessários às suas análises, relacionando as esferas social e natural em seus trabalhos.
Sendo assim, os conceitos de Geografia geral utilizados diretamente nesta tese, em suas análises e pressupostos, são Espaço Geográfico, Território e Região. Esses conceitos são necessários para analisar o sistema de abastecimento hídrico do RN, sua infraestrutura, fatores socioeconômicos e ambientais (estrutura e forma) que incidem em sua distribuição e manutenção e alcance (funcionalidade) dentro do contexto histórico e tecnológico (processo) do Rio Grande do Norte.
Inicialmente, propõe-se discutir o conceito de Espaço Geográfico, o qual é percebido “como um sistema de objetos e ações vistos indissociavelmente” (SANTOS, 1996), portanto, o espaço em sua esfera geográfica seria composto por duas dimensões: uma material ou física e outra social. Nesse âmbito, surge o conceito de Território, que é produto da apropriação do espaço geográfico por (e a partir de) relações de poder e dominação (RAFFESTIN, 1993); e a categoria de análise configuração territorial reflete a dimensão material do espaço, que “é dada pelo conjunto formado pelos sistemas naturais existentes em um dado país ou numa dada área e pelos acréscimos que os homens superpuseram a estes sistemas” (SANTOS, 1996, p. 39). Assim, a partir da relação entre espaço e território, Milton Santos destaca:
A configuração territorial não é o espaço, já que sua realidade vem de sua materialidade, enquanto o espaço reúne a materialidade e a vida que a anima. A configuração territorial, ou configuração geográfica, tem, pois, uma existência material própria, mas sua existência social, isto é, sua existência real, somente lhe é dada pelo fato das relações sociais.” (SANTOS, 1996, p. 39).
Nessa perspectiva, o(s) sistema(s) de abastecimento hídrico municipal(is) do RN, por sua vez, é (são) uma construção social a partir de uma base material (natural e artificial), em que seu funcionamento é possível a partir de relações econômicas e sociais estruturadas no território do Estado. Portanto, o sistema de abastecimento hídrico, tanto na esfera infraestrutural (material), quanto funcional (social e econômica), é um elemento da configuração territorial do Rio Grande do Norte. A evolução do nível de desenvolvimento econômico e tecnológico do Estado, ao longo da história, estabeleceu uma configuração territorial com densidade técnica e funcional, como no caso do abastecimento hídrico, o qual tem uma das maiores redes de abastecimento do país em extensão, com mais de 1.000 km de adutoras, integração de bacias hidrográficas, distribuição e tratamento de água.
Por sua vez, o conceito de Região/Regionalização (ato racional e intencional de identificar/construir regiões) será utilizado na pesquisa na análise dos resultados do IRDH – Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico. No caso do Rio Grande do Norte (RN), ao analisar-se a configuração do(s) sistema(s) de abastecimento hídrico urbano municipal, identificam-se diferentes realidades, densidades técnicas distintas, características naturais diversas e formas de uso que atendem a lógicas sociais, econômicas e políticas em cada região de abastecimento do RN. A região, neste trabalho, não é a “região natural” da geografia tradicional, para a qual o critério de diferenciação seria o meio físico. A região é tomada em sua complexidade territorial, a partir da relação entre os objetos técnicos e naturais mais a sociedade.
A região é uma realidade concreta, física, ela existe como um quadro de referência para a população que aí vive. Enquanto realidade, esta região independe do pesquisador em seu estatuto ontológico. Ao geógrafo cabe desvendar, desvelar, a combinação de fatores responsável por sua configuração. (GOMES, 1995, p. 57).
Considerando o que foi dito, os fatores que estabeleceram as regiões de risco de desabastecimento hídrico do RN serão desvendados a partir das variáveis do Índice de Risco de Desabastecimento Hídrico (IRDH), seus resultados especializados em mapas, compartimentados a partir das regiões de abastecimento do Estado, seguindo a classificação da concessionária de abastecimento hídrico.
Já no concernente à área específica da Geografia – o Risco de Desastres –, os conceitos que serão utilizados nesta tese são: Risco; Perigo; Vulnerabilidade social; Desastre; e Catástrofe. Os conceitos de Risco e Perigo utilizados foram os propostos, respectivamente, por Veyret (2007) e Smith (2001), autores que se enquadram como expoentes do desenvolvimento dessa vertente aplicada da Geografia, assim como Blaikie et al. (1994), de quem utilizou-se o conceito de vulnerabilidade. Esses três conceitos compõem a fórmula para classificação do risco socioambiental, inerente à análise pretendida nesta tese.
Nesse contexto, o conceito de Risco é uma função entre vulnerabilidade social e perigos naturais de uma localidade ou município, utilizados nesta tese em relação ao desabastecimento hídrico enquanto desastre socioambiental. Portanto, deve-se ter em mente a necessidade de se compreender tanto a dinâmica dos elementos ambientais – naturais e artificiais (aí se insere a infraestrutura hídrica também) – que compõem um território, como também os condicionantes sociais que expõem um indivíduo (ou grupo) a uma situação de risco. Portanto, o Risco socioambiental pode ser conceituado pela seguinte equação:
R = f (P, V)
Onde: R = Risco; P = Perigo; V= Vulnerabilidade.
O risco seria uma função entre a vulnerabilidade dos indivíduos ou sociedade e o perigo (álea11) a que está exposta (o), conforme representação conceitual na figura 1, que foi adaptada em função das variáveis que compõem o IRDH (Índice de Risco ao Desabastecimento Hídrico), inerentes aos fatores que respondem pelo risco de desabastecimento hídrico do Rio Grande do Norte seguindo a hipótese de pesquisa.
Figura 1 - O risco, uma construção Social
Fonte: Adaptado de Veyret (2013, p. 41).
O risco é uma construção social e está diretamente ligado à concepção da população em relação a algum perigo potencial de causar danos físicos e/ou perdas materiais de grande monta. Nesse contexto, uma população pode não ter a percepção de que está em risco. Esta tese compartilha da perspectiva de prevenção de um perigo potencial e percepção da população quanto ao risco a que está exposta. Conforme aponta Veyret (2007), o
Risco é a percepção de um indivíduo ou Grupo de indivíduos da probabilidade de ocorrência de um evento potencialmente perigoso e causador de danos, cujas consequências são uma função da vulnerabilidade intrínseca desse grupo ou indivíduo. (VEYRET, 2007, p. 24).
11Segundo Veyret (2007, p. 24), álea seria o “acontecimento possível; pode ser um processo natural, tecnológico,
social, econômico e sua probabilidade de realização”. Se vários acontecimentos são possíveis, fala-se de um conjunto de áleas. O termo equivalente em inglês é hazard e em português o termo é “perigo”.