UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE ENSINO SUPERIOR DO SERIDÓ
DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS EXATAS E APLICADAS CAMPUS DE CAICÓ
FABRINNY CONCEIÇÃO DE ARAÚJO
O BALANÇO SOCIAL DE UMA ENTIDADE DO TERCEIRO SETOR
CAICÓ – RN 2015
FABRINNY CONCEIÇÃO DE ARAÚJO
O BALANÇO SOCIAL DE UMA ENTIDADE DO TERCEIRO SETOR
Monografia apresentada ao Departamento de Ciências Exatas e Aplicadas do Centro de Ensino Superior do Seridó da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do título de Bacharel em Ciências Contábeis.
Orientador(a): Profª. Ms. Luziana Maria Nunes de Queiroz
CAICÓ – RN 2015
Araújo, Fabrinny Conceição de.
O balanço social de uma entidade do terceiro setor / Fabrinny Conceição de Araújo. - Caicó: UFRN, 2015.
112f: il.
Orientador : Ms. Luziana Maria Nunes de Queiroz.
Monografia (Bacharel em Ciências Contábeis) Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ensino Superior do Seridó - Campus Caicó.
1. Balanço social. 2. Terceiro setor. 3. Entidades sem fins lucrativos. I. Queiroz, Luziana Maria Nunes de. II. Título.
FABRINNY CONCEIÇÃO DE ARAÚJO
O BALANÇO SOCIAL DE UMA ENTIDADE DO TERCEIRO SETOR
Monografia apresentada ao Departamento de Ciências Exatas e Aplicadas do Centro de Ensino Superior do Seridó da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para obtenção do título de Bacharel em Ciências Contábeis.
BANCA EXAMINADORA
____________________________________________________ Profª. Ms. Luziana Maria Nunes de Queiroz - UFRN/CERES
Orientadora
_______________________________________________________ Prof. Ms. Carlos José Wanderley Ferreira - UFRN/CERES
Examinador
________________________________________________________ Prof. Esp. Sócrates Dantas Lopes - UFRN/CERES
A todos que me ajudaram a superar este obstáculo, meu muito obrigado!
AGRADECIMENTOS
Primeiramente agradeço a Deus, força maior do universo, sem o qual não teria conseguido chegar até aqui e superado minhas limitações para realização desta monografia.
A minha família pelo apoio, compreensão e incentivo em todos os momentos e decisões de minha vida, sobretudo na minha trajetória de busca pelo conhecimento.
Ao corpo docente do curso de Ciências Contábeis do Ceres/Caicó que ao longo deste, procuraram mostrar a importância e responsabilidade do profissional contábil para a sociedade, economia e desenvolvimento do nosso país. De modo especial a minha orientadora Luziana, que teve comigo a paciência de uma mãe para com um filho e acreditou na minha capacidade em realizar este trabalho quando eu mesma já duvidava. Aos mestres Carlos Wanderley e Sócrates que foram como anjos para mim no decorrer da minha trajetória acadêmica, a vocês toda minha gratidão.
Aos meus amigos e colegas de curso pelas palavras de incentivo e apoio sempre que necessário. A meu amigo-irmão Getúlio, com quem compartilhei todas as angústias e expectativas durante a realização desta monografia.
As minhas colegas de trabalho, na pessoa de Ivaneide, pela compreensão e paciência durante toda fase de execução deste trabalho, além da disponibilidade em tirar minhas dúvidas sempre que necessário.
A equipe do SEAPAC, entidade a qual tive o prazer de trabalhar e vivenciar a realidade do Terceiro Setor.
Enfim, a todos que contribuíram e torceram pela concretização desta monografia, meu muito obrigado.
“Só a participação cidadã é capaz de mudar o país.”
Herbet José de Souza (Betinho)
RESUMO
O presente trabalho pretende mostrar a importância do Balanço Social para uma entidade do Terceiro Setor, tendo em vista que as demonstrações contábeis obrigatórias não conseguem evidenciar os aspectos sociais presentes na realidade da mesma. Desta maneira será possível avaliar a contrapartida da entidade para a sociedade onde está inserida e planejar suas futuras ações de trabalho. A entidade pesquisada foi uma associação privada prestadora de serviço em todo o estado do RN. Primeiramente foi realizada uma pesquisa bibliografia para o devido embasamento teórico e depois foi complementada pela pesquisa documental para o levantamento dos dados da entidade. Em seguida, foi desenvolvido um estudo de caso para elaboração do Balanço Social e posteriormente a análise e interpretação dos dados obtidos. Este foi capaz de evidenciar os indicadores sociais internos e externos, indicadores ambientais e do corpo funcional, como também as iniciativas praticadas e voltadas para cidadania empresarial. Por meio deste demonstrativo simples e facultativo, foi possível mensurar e analisar um conjunto de informações que responderam as expectativas propostas neste trabalho, demonstrando a sociedade como a entidade estudada tem contribuído para o seu desenvolvimento econômico e social.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Quadro 01 – Estrutura Básica do Balanço Patrimonial ... Quadro 02 – Estrutura da Demonstração do Resultado do Exercício ... Quadro 03 – Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido ... Quadro 04 – Demonstração dos Fluxos de Caixa ... Quadro 05 – Modelo da DVA ... Quadro 06 – Impostos por esfera de governo ... Quadro 07 – Balanço Social – Base de Cálculo ... Quadro 08 – Balanço Social – Indicadores sociais internos ... Quadro 09 – Balanço Social – Indicadores sociais externos ... Quadro 10 – Balanço Social – Indicadores sociais ambientais ... Quadro 11 – Balanço Social – Indicadores do corpo funcional ... Quadro 12 – Balanço Social – Indicadores relevantes ao exercício da cidadania
empresarial ... 18 18 20 21 22 34 39 39 41 42 43 44
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... CAPÍTULO I – REFERENCIAL TEÓRICO ... 1.1 A evolução da Contabilidade ... 1.2 A Contabilidade Brasileira ... 1.3 Demonstrações contábeis ... 1.3.1 Balanço Patrimonial (BP) ... 1.3.2 Demonstração do Resultado do Exercício (DRE) ... 1.3.3 Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL) ... 1.3.4 Demonstração do Fluxo de Caixa (DFLC) ... 1.3.5 Demonstração do Valor Adicionado (DVA) ... 1.4 Contabilidade Social ... 1.4.1 Balanço Social ... 1.4.1.1 Balanço Social no Brasil ... 1.5 Terceiro Setor ... 1.5.1 Entidades sem fins lucrativos ... 1.5.2 Títulos e benefícios concedidos ao Terceiro Setor ... 1.5.3 Tributação do Terceiro Setor... CAPÍTULO II – METODOLOGIA ... 2.1 Tipo da pesquisa ... 2.2 Universo e amostra ... 2.3 Instrumentos de coleta e seleção dos dados ... 2.4 Procedimentos de análise e interpretação dos dados ... CAPÍTULO III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 3.1 Balanço Social – Base de Cálculo ... 3.2 Balanço Social – Indicadores sociais internos ... 3.3 Balanço Social – Indicadores sociais externos ... 3.4 Balanço Social – Indicadores ambientais ... 3.5 Balanço Social – Indicadores do corpo funcional ... 3.6 Balanço Social – Informações relevantes quanto ao exercício da cidadania empresarial ... 10 13 13 15 16 17 18 19 21 22 23 24 25 29 31 32 33 36 36 36 37 37 39 39 39 41 42 43 43
3.7 Balanço Social – Outros ... CONSIDERAÇÕES FINAIS ... REFERÊNCIAS ... ANEXOS ... 45 46 47 49
INTRODUÇÃO
Para Marion (2012), a necessidade de analisar o patrimônio é tão antiga quanto à própria contabilidade, isso porque o homem primitivo já observava a evolução de seus rebanhos de um período de tempo para outro. Isso fornecia informações importantes para ele quanto ao aumento ou diminuição de seus animais.
A Contabilidade desde os primórdios busca informar seus usuários de maneira clara e objetiva, a respeito da situação do seu patrimônio em um dado momento. Inicialmente usou as pinturas rupestres como instrumento para tais registros, com o passar do tempo foi aprimorando suas técnicas conforme as necessidades da época e hoje utiliza as demonstrações contábeis para mensurar e registrar o valor patrimonial das entidades.
Atualmente a sociedade vive na era da informação e com a Contabilidade não poderia ser diferente, já que é ferramenta fundamental para o desenvolvimento e continuidade das entidades. Sendo essencial para tomada de decisão, sobretudo no campo econômico e destinada aos diversos usuários que buscam avaliar a realidade das mesmas. Nesse sentido, as demonstrações contábeis como o Balanço Patrimonial (BP), Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL), Demonstrações dos Lucros ou Prejuízos Acumulados (DLPA), Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) e Demonstração do Valor Acionado (DVA), figuram como a base para avaliação econômico-financeira das entidades em geral.
As demonstrações contábeis ou financeiras obrigatórias são exigidas pela Lei das Sociedades Anônimas 6.404/76, pelo Conselho Federal de Contabilidade (CFC), pela Comissão de Valores Imobiliários (CVM) e pelo Regulamento do Imposto de Renda. Todavia, a obrigatoriedade de elaboração está diretamente associada ao formato jurídico de constituição e ao porte da entidade.
Partindo desse pressuposto e tendo em vista as especificidades de cada entidade, em alguns casos são necessários relatórios ou demonstrações não obrigatórias que sejam capazes de complementar as informações econômico-financeiras, como é o caso do Balanço Social e da DVA que é apresentada em conjunto com o mesmo.
Segundo Iudícibus (2010, p. 7) o Balanço social busca evidenciar:
[...] o grau de responsabilidade social assumido pela empresa e assim prestar contas à sociedade pelo uso do patrimônio público, constituído de recursos naturais, humanos e o direito de conviver e usufruir dos benefícios da sociedade que atua.
Deste modo, o referido demonstrativo busca complementar as informações contábeis, fornecendo mais transparência e evidenciando o retorno social que a entidade proporcionou a sociedade, sendo uma forma de prestar contas aos seus funcionários, clientes, colaboradores, fornecedores, gestores e demais envolvidos na sua dinâmica operacional.
Diante da importância das demonstrações contábeis para as entidades em geral e levando em consideração que o Terceiro Setor compreende as organizações sem fins lucrativos, é fundamental que seja utilizada uma ferramenta capaz de evidenciar os aspectos sociais desenvolvidos pelas mesmas durante a execução de suas atividades. No entanto, a maioria dos sistemas contábeis vigentes limita-se a geração de informações patrimonial, financeira e econômica, desconsiderando as de origem social e ambiental.
Partindo desse pressuposto e tendo em vista que as entidades do Terceiro Setor dependem de investimentos público ou privado, para o desempenho de suas atividades, é interessante que elas elaborem demonstrativos capazes de mensurar as ações sociais que desenvolvem como é o caso do Balanço Social. Então, surgiu a indagação: Qual a relevância do Balanço Social para uma entidade do Terceiro Setor?
O presente trabalho pretende mostrar a importância do Balanço Social para uma entidade do Terceiro Setor, tendo em vista que as demonstrações contábeis obrigatórias não conseguem evidenciar os aspectos sociais presentes na realidade da mesma. Desta maneira será possível avaliar a contrapartida da entidade para a sociedade onde está inserida e planejar suas futuras ações de trabalho.
Levando em consideração que o Terceiro Setor na maioria das vezes depende do investimento de terceiros para sua continuidade, o Balanço Social aparece como um demonstrativo complementar e facultativo, cuja função é mostrar à sociedade uma série de informações de caráter econômico, financeiro e social de interesse em geral, sendo um de seus objetivos fornecer transparência e informações que satisfaçam as necessidades de quem dele precisar.
A Demonstração do Valor Adicionado (DVA) e o Balanço Social, como uma de suas vertentes, são os instrumentos capazes de evidenciar tanto os aspectos econômicos, quanto os sociais, inovando o enfoque utilizado até então, e se constituindo nas mais ricas demonstrações para aferição dessas relações.
Além disso, a divulgação de ações sociais por parte das organizações contribui para promover e fortalecer as relações de cooperação entre grupos de interesse, instituições públicas e privadas e a sociedade, em âmbito nacional e internacional.
Visando responder ao problema ora mencionado, o objetivo geral desta monografia é identificar a relevância do Balanço Social para a entidade pesquisada e a sociedade. Sendo seus objetivos específicos: abordar a origem e evolução do Balanço Social no Brasil; mostrar as especificidades na Contabilidade das entidades do Terceiro Setor em relação à mensuração do Balanço Social; e analisar os resultados obtidos com a elaboração de Balanço Social numa entidade do Terceiro Setor.
Esta monografia encontra-se dividida em três capítulos. No primeiro capítulo é desenvolvido o referencial teórico, onde são abordadas as principais Demonstrações Contábeis, os conceitos e características da Contabilidade Social e do Terceiro Setor. O segundo capítulo descreve a metodologia que foi utilizada na pesquisa e no terceiro capítulo são analisados os resultados obtidos a partir da elaboração do Balanço Social de uma entidade sem fins lucrativos.
CAPÍTULO I – REFERENCIAL TEÓRICO
1.1 A evolução da Contabilidade
A Contabilidade é tão antiga quanto a origem do homem, alguns pesquisadores dizem que os primeiros sinais objetivos da sua existência datam de mais ou menos 4.000 a.C. As primeiras expressões utilizadas pelo homem primitivo para evidenciar sua riqueza patrimonial ocorreram através do uso da arte, com inscrições nas paredes das grutas e também em pedaços de ossos. De forma rudimentar, as inscrições procuravam, com desenhos, representar a qualidade da coisa e com rabiscos ou riscos a quantidade. Desse modo, nasceram os primeiros registros de uma escrituração contábil, antes mesmo do aparecimento da escrita e dos números, ficando conhecida como a fase empírica da Contabilidade.
Para Franco (1996, p. 19):
A Contabilidade, desde seu aparecimento como conjunto ordenado de conhecimentos, com objeto e finalidades definidos, tem sido considerada como arte, como técnica ou como ciência, de acordo com a orientação seguida pelos doutrinadores ao enquadrá-la no elenco das espécies do saber humano.
Por tais motivos a Contabilidade é considerada uma ciência social, pois engloba várias características que são fruto da ação humana e surgiu da necessidade do homem primitivo em registrar seu patrimônio.
À medida que o homem começou a formar riqueza, também mais complexas foram ficando as inscrições, o que propiciou o aprimoramento do registro de contas. Entre os sumero-babilonos era feito em pedaços de argila, com técnica bastante apurada. Os egípcios tinham seus registros mais sofisticados, no papiro, que deu origem aos livros contábeis. Os gregos e romanos tiveram um sistema muito evoluído de escrituração da riqueza, pois ampla era a análise dos fatos e a invenção da escrita o que desenvolveu ainda mais o sistema de registros. Na Antiguidade, o conhecimento contábil estava limitado ao do registro e suas normas, mas já era aprimorado e também ensinado nas escolas, junto aos cálculos matemáticos. A partir desses registros que foi possível mensurar, acompanhar a variação e controlar o patrimônio, utilizando para isso dos métodos quantitativos para sistematização das informações obtidas.
Mas, os registros das operações comerciais, industriais e públicas alcançaram uma ampla sistematização a partir da Idade Média, quando a Contabilidade atingiu sua maturidade,
em virtude do comércio com as Índias, burguesia, renascimento, mercantilismo, etc. Assim, os registros simples eram insuficientes diante da complexidade dos registros derivados das inúmeras transações comerciais; esta foi a razão básica e histórica que alimentou o aparecimento da evolução técnica dos registros duplos em Contabilidade, que deram origem ao método da partida dobrada.
Segundo Sá (2010, p.26):
A partida dobrada se apoia, pois, no princípio da equação, não há dúvida, mas, logicamente, ela representa a explicação de origem e de efeito do fenômeno patrimonial, uma igualdade de valor em causa e efeito de um fenômeno ou acontecimento havido com a riqueza patrimonial.
A referida técnica procurava escriturar com maior clareza e segurança o que acontecia no mundo dos negócios, explicando a causa e o efeito de cada ocorrência que afetava o patrimônio; ou seja, um só fenômeno era visto sob dois aspectos contábeis obrigatoriamente correlatos.
Deste modo, na maioria das vezes, o grau de desenvolvimento da Contabilidade e suas práticas estão associados ao desenvolvimento comercial, social e institucional das sociedades, cidades ou nações (IUDICIBUS, 2010, p. 31). Motivo pelo qual se explica o fato da Contabilidade ter seu berço na Europa, nas cidades italianas, em torno dos séculos XIV e XV. Pois naquele momento representavam o que de mais avançado existia em termos de desenvolvimento econômico e intelectual.
Logo, o marco desse período foi a primeira literatura contábil relevante, de autoria do Frei Luca Pacioli em 1494, consolidando o método das partidas dobradas na obra Tractatus de ComputisetetScripturis e que até hoje é referência na área. Nascia a Escola Europeia de Contabilidade que dominou o cenário mundial até o início do século XX.
Nesse período, talvez pela primeira vez, a teoria avança com relação às necessidades e às reais complexidades das sociedades. Surgem os vultos de Fábio Besta, GuiseppeCerboni, Gino Zappa, entre outros, que produziram trabalhos excepcionais para a época. Os italianos e alemães fizeram da Contabilidade ou quiseram dar-lhe uma roupagem excessivamente vistosa, mas, assim mesmo, conseguiram na época vender ao mundo esta imagem.
No entanto, o desenvolvimento da Contabilidade foi notório nos Estados Unidos, no século XX, principalmente após a Depressão de 1929, em virtude do aumento de pesquisas nessa área para melhor informar o usuário da Contabilidade. A ascensão cultural e econômica dos EUA, o crescimento do mercado de capitais e, consequentemente, da Auditoria, a
preocupação em tornar a Contabilidade algo útil para a tomada de decisão, a atuação acentuada do Instituto dos Contadores Públicos americanos, a clareza didática da exposição dos autores em Contabilidade foram, entre outros, os fatores que contribuíram para a formação da Escola Contábil Americana, que domina até os dias atuais.
Já a Contabilidade brasileira recebeu influência de ambas as escolas. A Escola Europeia foi adotada pela primeira escola especializada no ensino da Contabilidade, a Escola de Comércio Álvares Penteado, criada em 1902 em São Paulo. Mas, a fundação da Faculdade de Economia e Administração da USP, em 1946 e com o advento das multinacionais anglo-americanas, a Escola Americana começou a ganhar espaço no país.
1.2 A Contabilidade brasileira
A história recente da Contabilidade no Brasil teve início na década de 1970, após a implementação de leis específicas voltadas para a reforma bancária e para o fortalecimento do mercado de capitais. A mesma foi tradicionalmente vinculada à legislação tributária, e posteriormente, à legislação societária e à regulamentação editada por organismos governamentais como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Banco Central do Brasil (BC), Superintendência de Seguros Privados (Susep) e diversas agências reguladoras como Aneel, Anatel, entre outras. Da mesma forma, a educação contábil foi caracterizada pelo ensino da Contabilidade legalista, com influência europeia, e pouco voltada ao atendimento das demonstrações financeiras.
Diante disso, Niyama e Silva (2011, p.86) ressaltam a fraca atuação política dos órgãos representativos de classe ou institutos voltados à profissão contábil, como também da área acadêmica, que não tiveram força para influenciar a edição de normas e padrões de Contabilidade, dada a sua concentração em medidas legais e regulamentares.
Mas, o alicerce da regulamentação contábil brasileira advém da Lei de Sociedades por Ações (Lei 6.404/76) que regulamentou as demonstrações financeiras das sociedades por ações. Em seguida o Regulamento do Imposto de Renda de 1977 (alterado pela Lei 1.598), em seu art. 274, obrigou todas as empresas que fizeram a opção pelo lucro real e elaborar o Balanço Patrimonial, o Demonstrativo de Resultado e o Demonstrativo de Lucros ou Prejuízos Acumulados de acordo com legislação vigente. Neste momento tinha início a obrigatoriedade de adoção dos princípios contábeis pelas companhias abertas na escrituração mercantil, com reflexos nas demonstrações contábeis.
Atualmente a Contabilidade brasileira caminha rumo à harmonização dos padrões contábeis internacionais, buscando eliminar as diferenças na maneira de escriturar as práticas contábeis e nas formas de apresentação das demonstrações contábeis entre os diversos países. Assim, os usuários da informação contábil são capazes de analisar e compreender as demonstrações de qualquer parte do mundo e evitar possíveis prejuízos. Para tanto, as Leis 11.638/2007 e a 11.941/2009 introduziram algumas modificações na Lei 6.404/76 para melhor adaptação à normatização internacional.
A partir de 2007, com a promulgação da Lei 11.638 foi constituído o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), com membros de diversas entidades, que juntos vem divulgando alguns pronunciamentos relevantes e que estão se tornando instruções da CVM e Normas Brasileiras de Contabilidade.
Portanto, as principais fontes de regulamentação da Contabilidade em nosso país são: Lei das Sociedades por Ações (nº 6.404/76), CPC/CFC (grandes empresas), CPC/CFC (pequenas e médias empresas), CVM (S.A. de capital aberto) e Legislação do Imposto de Renda para empresas optantes do Lucro Real. Também existem outras fontes de regulamentações, como as agências reguladoras brasileiras e as entidades internacionais dos mercados de valores (MONTOTO, 2014).
1.3 Demonstrações contábeis
As demonstrações são relatórios resumidos de todos os fatos contábeis ocorridos em um determinado período e são essenciais para a avaliação da situação econômico-financeira das entidades em geral. Os relatórios contábeis podem ser obrigatórios e não obrigatórios. A obrigatoriedade de elaboração dos mesmos está diretamente associada ao formato jurídico de constituição e porte das entidades. Os obrigatórios são aqueles exigidos por lei para as sociedades anônimas e parte deles estendida a outros tipos societários, por meio do Imposto de Renda. Já os não obrigatórios, apesar de não serem exigidos legalmente, não significa que sejam menos importantes.
As demonstrações financeiras obrigatórias de acordo com a Lei das Sociedades por Ações 6.404/76 estão especificadas no artigo 176:
Art. 176. Ao fim de cada exercício social, a diretoria fará elaborar, com base na escrituração mercantil da companhia, as seguintes demonstrações financeiras, que deverão exprimir com clareza a situação do patrimônio da companhia e as mutações ocorridas no exercício:
I - balanço patrimonial;
II - demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados; III - demonstração do resultado do exercício; e
IV - demonstração dos fluxos de caixa; e (Redação dada pela Lei nº 11.638,de 2007)
V - se companhia aberta, demonstração do valor adicionado. (Incluído pela Lei nº 11.638 de 2007).
Tais demonstrações devem ser publicadas em dois jornais, no Diário Oficial e num jornal de grande circulação e com a indicação dos valores correspondentes as demonstrações do exercício anterior. As demonstrações serão complementadas por notas explicativas e outros quadros analíticos ou demonstrações contábeis necessárias para esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício.
As demonstrações financeiras das sociedades por ações observarão ainda, as normas expedidas pela CVM e serão obrigatoriamente auditadas por Auditores Independentes, registrados na mesma comissão.
A CVM também determina que todas as sociedades anônimas de capital aberto apresentem a Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido em substituição à Demonstração de Lucros ou Prejuízos Acumulados. Para os demais tipos societários é optativa a elaboração de ambas.
Assim as principais demonstrações contábeis obrigatórias são: Balanço Patrimonial (BP), Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL), Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFLC) e Demonstração do Valor Acionado (DVA).
1.3.1 Balanço Patrimonial (BP)
O BP é a peça contábil mais importante, pois apresenta a posição patrimonial e financeira de uma empresa em um dado momento, e servirá como elemento de partida indispensável para o conhecimento da situação econômica e financeira de uma empresa.
Para Matarazzo (2010, p. 26):
É a demonstração que representa todos os bens e direitos da empresa- Ativo-, assim como as obrigações- Passivo Exigível- em determinada data. A diferença entre Ativo e Passivo é chamado Patrimônio Líquido e representa o capital investido pelos proprietários da empresa, quer através de recursos trazidos de fora para a empresa, quer gerados por esta em suas operações e retidos internamente.
Esse demonstrativo contábil é constituído de duas colunas: no lado direito está o Ativo, que é dividido em Circulante e Não Circulante, sendo este último subdividido em Realizável a Longo Prazo, Investimentos, Imobilizado e Intangível; e no lado direito estão o Passivo e o Patrimônio Líquido, sendo o Passivo dividido em Circulante e Não Circulante.
Quadro 01: Estrutura Básica do Balanço Patrimonial
ATIVO PASSIVO
Ativo Circulante Ativo Não Circulante
Realizável a Longo Prazo Investimento
Imobilizado Intangível
Passivo Circulante Passivo Não Circulante Patrimônio Líquido Capital Social
Reservas de Capital
Ajustes de Avaliação Patrimonial Reservas de Lucros
Ações em Tesouraria Prejuízos Acumulado Fonte: ASSAF NETO (2010, p.49).
1.3.2 Demonstração do Resultado do Exercício (DRE)
A DRE é a peça contábil de caráter econômico que busca evidenciar de maneira esquematizada, os resultados (lucro ou prejuízo) auferidos pela empresa em determinado período, os quais são transferidos para as contas do Patrimônio Líquido.
Segundo Iudícibus (2009, p.38):
A demonstração do resultado do exercício é um resumo ordenado das receitas e despesas da empresa em determinado período (12 meses). É apresentada de forma dedutiva (vertical), ou seja, das receitas subtrai-se as despesas e, em seguida, indica-se o resultado (lucro ou prejuízo).
Quadro 02: Estrutura da Demonstração do Resultado do Exercício
RECEITA BRUTA DAS VENDAS E SERVIÇOS (–) Devoluções
(–) Abatimentos (–) Impostos
(=) Receita Líquida das Vendas e Serviços
(–) Custo das Mercadorias e Serviços Vendidos
(=) Lucro Bruto
(–) Despesas com Vendas
(–) Despesas Financeiras (deduzidas das Receitas Financeiras) (–) Despesas Gerais e Administrativas
(–) Outras Despesas Operacionais (+) Outras Receitas Operacionais
(=) Lucro ou Prejuízo Operacional
(+) Receitas não Operacionais (–) Despesas não Operacionais
(=) Resultado do Exercício antes do Imposto de Renda (–) Imposto de Renda e Contribuição Social
(–) Participação de Debêntures (–) Participação de Empregados
(–) Participação de Administradores e Partes Beneficiárias
(–) Contribuições para Instituições ou Fundo de Assistência ou Previdência de Empregados
(=) Lucro ou Prejuízo Líquido do Exercício
(=) Lucro ou Prejuízo por Ação Fonte: MATARAZZO (2010, p.31)
1.3.3 Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido (DMPL)
A DMPL evidencia a movimentação de todas as contas do Patrimônio Líquido (PL) ocorrida durante o exercício social. Portanto, todo acréscimo ou diminuição do PL, como também a formação e utilização das reservas são mostrados neste demonstrativo. Além das finalidades próprias, também é muito importante para as empresas investidoras que avaliam seus investimentos permanentes em coligadas ou controladas pelo método da Equivalência Patrimonial. No Brasil é exigida pela CVM para as companhias de capital aberto.
“Para elaboração desta demonstração são obtidas das fichas de razão as movimentações contábeis que exerceram influência sobre os saldos das contas do Patrimônio Líquido” (ASSAF NETO, 2010, p.78).
Quadro 03: Demonstração das Mutações do Patrimônio Líquido
Movimentações Capital Social
Reservas de Capital
Reservas de Lucro Lucros ou
Prejuízos Acumulados Reserva Legal Reserva para Contingências Reserva para Expansão Reservas de Lucros a Realizar Outras Saldo do início do exercício
Ajustes de exercícios anteriores Dividendos extraordinários Aumento de capital por incorporação de Reservas Aumento de capital por subscrição e integralização de novas ações
Reversão de reservas Lucro/Prejuízo líquido do Exercício
Proposta de destinação do lucro Transferência para reserva Dividendos propostos Saldo ao final do exercício
1.3.4 Demonstração do Fluxo de Caixa (DFLC)
A DFC demonstra a origem e a aplicação de todo o dinheiro que transitou pelo Caixa em determinado período e o resultado desse fluxo. Assim, permite que se analise, principalmente, a capacidade da empresa em honrar seus compromissos financeiros, gerar resultados de caixa futuros, e sua liquidez e solvência financeira. A mesma passou a ser obrigatória para as companhias abertas, companhias de grande porte e sociedades anônimas de capital fechado com PL superior a R$ 2,0 milhões, de acordo com a Lei nº 11.638/07.
Para Iudícibus (2010, p.187): “A DFC propicia a elaboração de um melhor planejamento financeiro, de forma que não ocorra excesso de Caixa, mas que se mantenha o montante necessário para fazer face aos compromissos imediatos”.
Quadro 04: Demonstração dos Fluxos de Caixa
ATIVIDADES OPERACIONAIS
Lucro Líquido do exercício
Despesa (receitas) que não afetam o caixa e equivalentes Depreciações e amortizações
Variações monetárias e cambiais Valor residual do imobilizado baixado Resultado de equivalência patrimonial Outros
(Aumento) redução no Ativo Circulante Operacional Contas a receber
Estoques Outros
Aumento (redução) no Passivo Circulante Operacional Fornecedores
Impostos a pagar Salários e encargos Outros
Caixa Gerado (absorvido) pelas Atividades Operacionais ATIVIDADES DE INVESTIMENTOS
Títulos e valores mobiliários Venda de Investimentos/Imobilizado
Dividendos recebidos de controlada e coligada Aquisição de bens do imobilizado
ATIVIDADES DE FINANCIAMENTO
Pagamento de dividendos e juros sobre o capital próprio Captação de empréstimos e financiamentos
Amortização de empréstimos e financiamentos – principal/juros
Caixa Gerado pelas (utilizado) Atividades de Financiamento GERAÇÃO (ABSORÇÃO) LÍQUIDA DE CAIXA
+ SALDO INICIAL DO CAIXA* = SALDOFINAL DO CAIXA*
*Incluem DISPONÍVEL + APLICAÇÕES FINANCEIRAS, OS CHAMADOS CAIXA E EQUIVALENTES.
Fonte: MATARAZZO (2010, p.34).
1.3.5 Demonstração do Valor Adicionado (DVA)
A DVA busca demonstrar o quanto cada empresa criou de riqueza (recursos) e como foi distribuída entre seus agentes, tais como empregados, financiadores, acionistas, governo e outros, como também a parcela retida para reinvestimento.
Assim, a Demonstração do Valor Adicionado é um instrumento de informação que as empresas se utilizam para demonstrarem partes das suas responsabilidades sociais e sua contribuição para a geração da riqueza nacional. Evidencia a sociedade o quanto a empresa gerou de riqueza e como foi distribuída. (IUDÍCIBUS, MARION E FARIA, 2009, p. 200).
Desse modo, representa o quanto a entidade contribuiu para a formação do Produto Interno Bruto (PIB) do país e passou a ser obrigatória para as Sociedades Anônimas de Capital Aberto com o advento da Lei 11.638/07.
Quadro 05: Modelo da DVA
Item CONTAS Valores Monetários $
1 RECEITAS
Vendas de mercadorias, produtos e serviços
2
( - ) Insumos Adquiridos de Terceiros
Materiais consumidos Outros custos de produtos Energia
Serviços de terceiros Outros
4
Retenções
Depreciações Amortizações Exaustões
5 VALOR ADICIONADO LÍQUIDO PRODUZIDO PELA
ENTIDADE (3 – 4)
6
VALOR ADICIONADO RECEBIDO EM TRANSFERÊNCIA
Resultado da equivalência patrimonial Receitas financeiras
7 VALOR ADICIONADO TOTAL A DISTRIBUIR (5 – 6)
8
DISTRIBUIÇÃO DO VALOR ADICIONADO
Pessoal e encargos
Impostos, taxas e contribuições Juros e aluguéis
Juros sobre capital próprio e dividendos Juros retidos e prejuízos do exercício Fonte: ASSAF NETO (2010, p. 88).
Outra vantagem dessa demonstração é que pode ser utilizada como forma de avaliação de desempenho e de acompanhamento de agregação do valor para a sociedade, ou seja, o quanto a empresa agregou de valor efetivamente para a sociedade no exercício.
Portanto, a DVA figura como uma demonstração de cunho econômico e social, que dispõe de uma complexidade de informações essenciais para a elaboração de relatórios sociais, como o Balanço Social.
1.4 Contabilidade Social
Diante do contexto de mudanças significativas que o mundo contemporâneo vem atravessando nas áreas social, política e econômica, com reflexos diretos no ambiente empresarial, através da imposição de novos padrões de competitividade, da necessidade de alterações nos processos de trabalho e nas práticas de gestão. Surge, pois, uma pressão que se traduz na solicitação de informações específicas que mensurem a participação e a influência das empresas na sociedade.
Dessa forma, as informações – antes limitadas ao aspecto financeiro e destinadas aos administradores, investidores e ao fisco – tornam-se mais abrangentes, contemplando os
benefícios e as contribuições da empresa para a sociedade. A responsabilidade social surge como um novo diferencial para o setor empresarial nas suas relações com os seus usuários.
De fato a responsabilidade das empresas na sociedade é fundamental para a continuidade das gerações, pois a empresa como membro da sociedade pode influenciar tanto negativa como positivamente, todos os agentes que com ela dividem o meio ambiente, tomando atenção que não só os aspectos internos são importantes para o bom funcionamento das organizações, mas considerar também todos os aspectos que externamente podem afetar a empresa. (SILVA e PIRES, 2012, p. 10).
Assim, as empresas vêm assumindo uma posição de protagonistas sociais, onde as ações sociais passam a ser definidas em função de uma estratégia estabelecida, e os resultados quantificados e avaliados a partir de indicadores determinados no planejamento. Neste contexto a informação contábil tradicional não responde totalmente às novas demandas dos usuários com interesses diferentes daqueles contemplados nos relatórios contábeis clássicos.
Para Kroetz (2000, p.54):
A Contabilidade Social visa criar um sistema capaz de inventariar, classificar, registrar, demonstrar, avaliar e explicar os dados sobre a atividade social e ambiental da entidade, de modo que, no final de cada exercício, ou a qualquer momento, se possa preparar informes, como o Balanço social e a DVA
Para tanto, tem recorrido à publicação de relatórios de cunho social, sendo o Balanço Social o instrumento mais comumente utilizado, pois é capaz de descrever de forma ampla a realidade econômica e social de uma entidade, sendo essa passível de avaliação.
1.4.1 Balanço Social
Na década de 60, nos EUA e na Europa, o repúdio da população à Guerra do Vietnã deu início a um movimento de boicote à aquisição de produtos e ações de algumas empresas ligadas ao conflito. Os movimentos estudantis na França e na Alemanha, e o aumento dos problemas sociais fizeram com que as iniciativas se multiplicassem e procurassem uma forma cientifica de prestar essas informações. A sociedade exigia uma nova postura ética, e diversas empresas passaram a prestar conta de suas ações e objetivos sociais. A elaboração e divulgação anual de relatórios com informação de caráter social resultaram no que hoje se chama de Balanço Social.
“O Balanço Social é um instrumento de gestão e de informação que visa evidenciar, da forma mais transparente possível, informações econômicas e sociais, do desempenho das entidades, aos mais diferenciados usuários.” (CASTRO et al., 2013, p. 3).
Além de ser um instrumento de medição econômico e social, também é um valioso instrumento de planejamento e marketing, pois divulga a imagem da empresa e suas atitudes éticas para os trabalhadores, acionistas, diretores/administradores, fornecedores, clientes, governo, concorrentes, sindicatos, estudiosos e a sociedade em geral.
Para KROETZ (2000, p.78):
O Balanço Social representa a demonstração dos gastos e das influências das entidades na promoção humana, social, e ecológica, dirigidos aos gestores, aos empregados e à comunidade com que interage, no espaço temporal passado/presente/futuro.
Os americanos, europeus e latinos americanos, desde o final da década de 70, desenvolveram modelos de Contabilidade Social, Auditoria Social e Balanço Social seguindo interesse, particularidades e culturas próprias.
Nos Estados Unidos, os estudos partiram das universidades, e as características principais dos modelos eram os aspectos sociais públicos, as questões da diminuição da violência e da melhoria da relação das empresas com os consumidores.
Já na Europa, as propostas eram direcionadas à solidariedade econômica do bloco europeu em formação e enfatizavam os aspectos de planejamento humano e social na empresa, com destaque para Alemanha e França por seu pioneirismo. Em 1971, a companhia alemã Steag produziu uma espécie de relatório social, um balanço de suas atividades sociais. Porém, o que pode ser considerado como marco na história dos balanços sociais, surgiu na França, em 1972, quando a empresa Singer fez o primeiro balanço social da história das empresas.
Na América Latina, o Balanço Social apareceu mesclando a experiência americana/europeia, buscando um modelo de humanizar a empresa e criar propostas participativas no sentido de desenvolver focos de democracia possíveis, tendo em vista que nesse período a maioria dos países latino-americanos viviam sob regimes fechados e autoritários.
No Brasil, a ideia do Balanço Social começou a ser discutida na década de 70, mas somente no final da década de 80 que foram publicados os primeiros relatórios no rumo do verdadeiro Balanço Social. A Fundação Instituto de Desenvolvimento Empresarial e Social (Fides) chegou a elaborar um modelo. Porém, só a partir do início da década de 1990 que algumas empresas passaram a levar a sério esta questão e divulgar, sistematicamente, em balanços e relatórios sociais, das ações realizadas em relação à comunidade, ao meio ambiente e ao seu próprio corpo de funcionários (as).
O primeiro documento brasileiro considerado como Balanço Social foi realizado e publicado em 1984, pela empresa estatal baiana Nitrofértil. Em seguida foi o Sistema Telebrás, que acompanhado do Banespa em 1992, compõem a lista das empresas precursoras em Balanço Social no Brasil (BALANÇO SOCIAL DEZ ANOS: O DESAFIO DA TRANSPARÊNCIA, 2008, p.16).
A década de 1990 foi marcada pelo amadurecimento da ideia de “responsabilidade social das empresas” e a necessidade de realização e publicação do balanço social anual nas organizações empresariais brasileiras. Este movimento sofreu diversas influências nacionais e internacionais, como: a pressão por parte das agências internacionais; as campanhas de várias instituições de preservação da natureza para que as empresas privadas e públicas reduzissem o impacto ambiental; a Constituição de 1988 – que representou um grande avanço tanto em questões sociais como ambientais –; o exemplo de programas educacionais, esportivos e de apoio cultural realizado por grandes empresas multinacionais; e, por último, mas não menos importante, a atuação de grandes empresas públicas nacionais.
Em 1997, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, levantou a bandeira do Balanço Social e lançou uma campanha nacional por sua publicação, divulgando assim, amplamente, a ideia do Balanço Social e promovendo grande debate entre as associações de empresas e empresários, tais como Abresca (Associação Brasileira das Empresas de Capital Aberto) e PNBE (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), além da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), órgão regulamentador das companhias abertas. Para isso, o sociólogo contou com o apoio do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE).
O modelo proposto pelo IBASE é um demonstrativo anual publicado pela empresa reunindo um conjunto de informações sobre projetos, benefícios e ações sociais dirigidas aos empregados, investidores, analistas de mercado, acionistas e à comunidade. Hoje, tal modelo é hegemônico no Brasil e ainda é bem atraente, sendo sua principal característica a simplicidade e caráter voluntário. Conforme o esquema a seguir:
Figura 01: Modelo do Balanço Social proposto pelo IBASE
De acordo com a publicação Balanço social dez anos: o desafio da transparência (2008), o Balanço Social elaborado segundo a metodologia do IBASE apresenta dados e informações de dois exercícios anuais por meio de uma tabela simples e direta, que deve ser publicada e divulgada. O modelo atual é composto por 43 indicadores quantitativos e oito indicadores qualitativos, organizados em sete categorias descritas a seguir:
1) Base de cálculo: são as três informações financeiras – receita líquida, resultado operacional e folha de pagamento bruta – que servem de base de cálculo percentual para grande parte das informações e dos dados apresentados, informando o impacto dos investimentos nas contas da entidade, além de permitir a comparação entre empresas e setores ao longo dos anos.
2) Indicadores sociais internos: são apresentados todos os investimentos internos, obrigatórios e voluntários, que a empresa realiza para beneficiar e/ou atender ao corpo funcional (alimentação, encargos sociais compulsórios, previdência privada, saúde, segurança e medicina no trabalho, educação, cultura, capacitação e desenvolvimento profissional,creches ou auxílio-creche, participação nos lucros ou resultados e outros).
3) Indicadores sociais externos: são os investimentos voluntários da empresa, cujo público-alvo é a sociedade em geral (projetos e iniciativas nas áreas de educação, cultura, saúde e saneamento, esporte, combate à fome e segurança alimentar, pagamento de tributos e outros). São as ações sociais privadas realizadas por empresas visando à sociedade ou à alguma comunidade externa relacionada, direta ou indiretamente, com os objetivos ou interesses das corporações.
4) Indicadores ambientais: são os investimentos da empresa para mitigar ou compensar seus impactos ambientais e também aqueles que possuem o objetivo de melhorar a qualidade ambiental da produção/operação da empresa, seja por meio de inovação tecnológica, seja por programas internos de educação ambiental. Também são solicitados investimentos em projetos e ações que não estão relacionadas com a operação da companhia e um indicador qualitativo sobre o estabelecimento e cumprimento de metas anuais de ecoeficiência.
5) Indicadores do corpo funcional: são as informações que identificam de que forma se dá o relacionamento da empresa com seu público interno, quanto à criação de postos de trabalho, utilização do trabalho terceirizado, número de estagiários(as), valorização da diversidade – negros(as), mulheres, faixa etária e pessoas com deficiência– e participação de grupos historicamente discriminados no país em cargos de chefia e gerenciamento da empresa (mulheres e negros).
6) Informações relevantes quanto ao exercício da cidadania empresarial: são as ações relacionadas aos públicos que interagem com a empresa, com grande ênfase no público
interno. Em sua maioria, são indicadores qualitativos que mostram como está a participação interna e a distribuição dos benefícios. Também aparecem nesta parte do balanço algumas das diretrizes e dos processos desenvolvidos na empresa que estão relacionados às políticas e práticas de gestão da responsabilidade social corporativa.
7) Outras informações: é o espaço reservado e utilizado pelas empresas para divulgar outras informações que sejam relevantes para a compreensão de suas práticas sociais e ambientais.
Além do modelo proposto pelo IBASE, são usados mais dois tipos no Brasil, o do Instituto Ethos e da GRI (Global ReportingInitiative - Iniciativa Global para a Apresentação de Relatórios). O primeiro é baseado num relatório detalhado dos princípios e das ações da organização, incorpora a planilha proposta pelo IBASE e sugere um detalhamento maior do contexto da tomada de decisões, dos problemas encontrados e dos resultados obtidos. O Instituto Ethos defende a necessidade de os Balanços Sociais adquirirem credibilidade e consistência em relação aos Balanços Financeiros. Já o segundo, tem como objetivo adotar um modelo-padrão internacional e a missão de aumentar e difundir globalmente as diretrizes mais adequadas à elaboração de relatórios de sustentabilidade. Estas diretrizes são de uso voluntário para as organizações que desejam expor – para além dos aspectos financeiros das suas atividades – produtos e serviços, e também as extensões sociais e ambientais.
Apesar da existência desses três modelos, várias entidades preferem criar formatos próprios, definidos dentro de suas estratégias de comunicação. Outras adotam um cruzamento de mais de um tipo de modelo, buscando sempre maior transparência e qualidade.
Embora algumas empresas tenham adotado a prática de elaboração e publicação do Balanço Social, este demonstrativo não é exigido legalmente, sua apresentação é totalmente voluntária. Portanto, “A demonstração de informação do balanço social é de sociedade para a sociedade, pois nela estarão representados os recursos que foram obtidos e destinados à promoção humana, social e ambiental.” (KROETZ, 2000). Configurando este como um importante instrumento de prestação de contas das entidades com a sociedade.
1.5 Terceiro Setor
Existem três setores distintos que de forma diversificada movimentam a economia e trabalham para evolução da sociedade, conforme aponta Tachizawa (2007, p.30) são eles:
O Primeiro Setor seria o Estado cuja ação é organizada e delimitada por um arcabouço legal, sendo dotado de poderes coercitivos em face da sociedade para que possa atuar em seu beneficio, devendo ter sua atuação dirigida a
todos os cidadãos, indiscriminadamente, promovendo de modo universal suas necessidades sociais. O Segundo Setor seria o mercado, no qual a troca de bens e serviços objetiva o lucro e sua maximização. O Terceiro Setor, por sua vez, reuniria as atividades privadas não voltadas para a obtenção de lucro e que mesmo fora da órbita de atuação estatal, ainda assim visariam ao atendimento de necessidades coletivas e ou públicas da sociedade [...].
Desse modo o Primeiro Setor compreende o setor público, que através de seus órgãos e entidades, exercem múltiplas atividades, com o objetivo de cumprir suas finalidades básicas. O Segundo Setor são as atividades da iniciativa privada, que tem como finalidade a obtenção de lucros para serem distribuídos aos seus investidores. E por fim, o Terceiro Setor que atua na sociedade fornecendo bens e serviços de caráter público, mas sem fins lucrativos.
O fluxograma a seguir demonstra com maior clareza a relação existente entre os setores público, privado e o Terceiro Setor.
Figura 02: Demonstrativo da interação entre os três setores
Fonte: MACHADO (2008, p.32).
SETOR PÚBLICO – (ESTADO)
Tem as ações organizadas e delimitadas por um arcabouço legal. É dotado de poderes em face da sociedade, para que possa atuar em seu beneficio, devendo ter sua atuação dirigida a todos os cidadãos.
SETOR PRIVADO – (MERCADO)
Tem como objetivo a troca de bens e serviços que busca o lucro e sua maximização
TERCEIRO SETOR (publico, porém privado)
É composto de organizações privadas de fins não econômicos, que visam o atendimento de necessidades coletivas da sociedade cf. art. 44 do Código Civil brasileiro (Lei 10.850, de 22 de dezembro de 2002).
Pertecem ao Terceiro Setor: associações, fundações,
organizações religiosas, organizações sindicais e os partidos políticos.
A existência dos três setores é indispensável para sociedade, visto que interagem entre si e um supre as necessidades do outro, buscando a harmonia entre ambos e reconhecendo a impossibilidade de atingirem seus objetivos de forma isolada.
O Terceiro Setor é conceituado por Paes (2003, p.88) como o conjunto de organismos, organizações ou instituições sem fins lucrativos dotados de autonomia e administração própria, cuja função e objetivo principal são atuar voluntariamente junto à sociedade civil. Deste modo, é caracterizado como um segmento intermediário que não é público, nem privado, mas mantém uma relação de parceria com ambos em prol de melhorias para a sociedade.
1.5.1 Entidades sem fins lucrativos
O novo Código Civil (Lei nº 10.406/2002), em seu art. 44, enumerou as pessoas jurídicas de direito privado como sendo as associações, as sociedades e as fundações. A Lei nº 10.825/2003 ainda incluiu nesta lista as organizações religiosas e os partidos políticos. Assim, com exceção das sociedades, as demais pessoas jurídicas de direito privado não tem fins lucrativos ou econômicos (VIOLIN, 2010, p.187).
Todas as entidades citadas são de interesse social e apresentam como característica comum a ausência de lucro e o atendimento de fins públicos e sociais. Isso significa que as organizações não têm o resultado financeiro positivo de suas operações distribuído entre os associados, porém pode almejar retorno financeiro dessas mesmas operações. Pois, a finalidade lucrativa não depende da existência eventual de lucro, mas sim, de sua destinação e de quem dela se beneficia.
As organizações de fins não econômicos, também denominadas de organizações não governamentais (ONGs), podem ser constituídas como:
a) Associação: é a pessoa jurídica criada com base na união de ideias e esforços de pessoas em torno de um propósito que se organizam para fins não econômicos. Mas é permitida a atividade econômica, ou seja, aquela em que haja circulação de bens ou direitos de forma onerosa ou não, desde que não gere lucro e este seja distribuído. Os recursos gerados são aplicados nas atividades da instituição. Esta pode ser criada independente da existência de patrimônio próprio e não depende da aprovação do Ministério Público.
b) Fundação: é uma constituição especial de pessoa jurídica, pois pode ser criada pela vontade de um único individuo. Pode ser definida como o patrimônio destinado a servir sem o intuito de lucro, a uma causa de interesse público determinado (apenas fins religiosos, morais, culturais e de assistência) que adquire personificação jurídica por iniciativa de seu instituidor. Podem ser criadas pelo governo, por indivíduos e por empresas, e seu estatuto necessita de aprovação do Ministério Público.
Tais organizações e agrupamentos sociais cobrem um amplo espectro de atividades, campos de trabalho ou atuação, seja na defesa dos direitos humanos, na proteção do meio ambiente, assistência à saúde, apoio a populações carentes, educação, cidadania, direitos da mulher, direitos indígenas, direitos do consumidor, direitos da criança etc. (PAES, 2003, p.89).
Em razão de sua atuação, o Terceiro Setor possui um conjunto de normas e leis que procuram delimitar sua ação e impedir que seu propósito seja desviado. Mas do que isto, algumas destas regras têm por finalidade incentivar as entidades que atuam neste setor. Esses incentivos podem incluir a imunidade e a isenção.
1.5.2 Títulos e benefícios concedidos ao Terceiro Setor
A outorga de títulos jurídicos a entidades do Terceiro Setor propicia o estabelecimento de um regime jurídico diferenciado das pessoas jurídicas sem qualquer título.
Segundo Albuquerque (2006, p.44) são eles:
a) Utilidade Pública Federal: poderão solicitar ao Ministério da Justiça a declaração de Utilidade Pública Federal as sociedades civis, associações ou fundações, desde que sirvam à coletividade e cumpram os requisitos legais (Lei Federal nº 91/35, regulamentada pelo Decreto nº 50.517/61). Ao receber esta declaração a entidade tem que apresentar anualmente um relatório de serviços prestados, além de demonstrativos de receitas e despesas do exercício. Tendo como vantagens a possibilidade de oferecer dedução fiscal no imposto de renda para doações de pessoas jurídicas e o acesso a subvenções e auxílios a União Federal e de suas autarquias. Também pode realizar sorteios mediante prévia autorização do Ministério da Justiça;
b) Registro no Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS): poderão solicitar este registro as entidades sem fins lucrativos que promovam as atividades descritas na Resolução nº 31/99, como; integração de trabalhadores ao mercado de trabalho, assistência educacional ou de saúde, entre outras. O pedido pode ser concedido a entidades com menos de um ano de existência legal, desde que seu estatuto estabeleça que as mesmas apliquem os recursos integralmente no Brasil e na manutenção ou desenvolvimento de seus objetivos institucionais, não distribuindo dividendos ou patrimônio sob nenhuma forma; que diretores, conselheiros, sócios, instituidores e benfeitores não sejam remunerados ou recebam vantagens ou benefícios, direta ou indiretamente e em caso de dissolução ou extinção, a entidade destinará
o patrimônio remanescente a uma organização congênere registrada no CNAS ou entidade pública e prestem serviços permanentes e sem nenhuma discriminação de clientela;
c) Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (Cebas): para conseguir o registro a entidade deve demonstrar que nos três anos imediatamente anteriores ao pedido esteve legalmente constituída e em funcionamento, que esteve inscrita no Conselho Municipal de Assistência Social de sua cidade sede e registrada no CNAS. Depois de aprovado o pedido, será expedido o certificado de entidade de fins filantrópicos, com validade de três anos, podendo ser renovado por igual período;
d) Organização social (OS): é um modelo ou uma qualificação de organização pública não estatal criada dentro de um projeto de reforma do Estado, para que associações civis sem fins lucrativos e fundações de direito privado possam absorver atividades publicizáveis mediante qualificação especifica de lei. Sua existência está atrelada à concessão de um título publico – o titulo de OS – fornecido pelo Estado para a organização que reúne as condições impostas pelo concedente;
e) Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP): são organizações do Terceiro Setor que por intermédio de lei, relacionam-se com o Estado através de termo de parceria, ou seja, tem finalidade pública. Para obter a qualificação, a organização deve ser pessoa jurídica de direito privado sem finalidade lucrativa, atender aos objetivos sociais e às normas estatutárias previstas na Lei nº 9.790/99.
Todos os títulos mencionados são concedidos a pessoas jurídicas de direito privado, devidamente constituídas, em forma de associações e fundações privadas, nos termos da legislação civil, os quais permitem a concessão de benefícios às entidades qualificadas, via subvenções, auxílios, convênios, contratos de gestão, termos de parceria, etc.
1.5.3 Tributação do Terceiro Setor
Um aspecto importante na gestão financeira de uma entidade do Terceiro setor é a renúncia fiscal de tributos por parte do setor público. Como forma de incentivar a atuação destas entidades na sociedade, é usual que o setor público reduza ou elimine a carga tributária das mesmas. (NIYAMA; TIBÚRCIO, 20011, p.289).
A algumas atividades da economia podem ser concedidas regimes tributários especiais, que impliquem desonerações tributárias, normalmente quando são consideradas estratégicas para o desenvolvimento do Estado e da sociedade. É o caso das entidades do
Terceiro Setor, que pelo cunho social de suas atividades, precisam ser incentivadas, pois complementam a atividade estatal.
A não-tributação de organizações do terceiro setor pode ocorrer de duas formas: por meio da imunidade e por meio da isenção. Mas vale ressaltar ainda a concessão de benefícios fiscais a terceiros que venham a transacionar com essas organizações.
A imunidade tributária pode ser definida como um benefício concedido a alguém, desde que previsto na Constituição Federal, é vista como uma limitação ao poder de tributar. Desta forma, a imunidade esta relacionada com o não-alcance de quaisquer tributos instituídos ou que venham a sê-lo, por quaisquer dos entes públicos que tenham poderes para tal.
Os casos de imunidade para as entidades do Terceiro Setor estão previstos na CF nos arts. 150, inc. VI e 195 § 7 e abrangem respectivamente: os impostos sobre o patrimônio, renda ou serviços das instituições de educação e assistência social sem fins lucrativos; a seguridade social das entidades beneficentes de assistência social.
O quadro abaixo apresenta de forma resumida os impostos, por esfera de governo, que não podem ser cobrados de entidades imunes por força do art. 150 da CF/88:
Quadro 06: Impostos por esfera de governo
FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL
Imposto de Renda Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e sobre Prestação de Serviços (ICMS)
Imposto sobre Serviço de Qualquer Natureza (ISS) Imposto sobre Produtos
Industrializados (IPI)
Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA)
Imposto sobre a Propriedade Territorial Urbana (IPTU) Imposto Territorial Rural (ITR) Imposto sobre Transmissão
Causa Mortis ou Doação de Bens e Direitos (ITCD)
Imposto sobre a Transmissão Inter Vivos de Bens Imóveis (ITBI)
Imposto sobre Exportação (IE) Imposto sobre Importação (II) Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)
Fonte: ARAÚJO (2005, p.35).
A isenção tributária é a dispensa do pagamento do tributo, definidos em lei ordinária que pode ser alterada ou revogada a qualquer tempo. Neste caso, ocorre o fato gerador, porém o legislador dispensa o seu pagamento.
Conforme afirma Young (2008, p.128): “A isenção caracteriza-se pelo beneficio fiscal dado a determinadas pessoas, não prevista na Constituição, mas sim em lei. Ocorre o fato gerador, mas existe uma lei que o isenta da tributação”. A mesma deve ser determinada por
lei, especificando sua concessão, sobre quais tributos incide e o prazo de sua duração, conforme o art. 176 do Código Tributário Nacional.
Conforme as Leis 9.532/97, arts. 12 § 2º, “a” a “e” e 15, § 3º, e 9.718/98, as entidades consideradas isentas pela finalidade ou objeto deverão atender aos seguintes requisitos:
I – não remunerar, por qualquer forma, seus dirigentes pelos serviços prestados;
II – aplicar integralmente os seus recursos na manutenção e desenvolvimento dos objetivos sociais;
III – manter escrituração completa de suas receitas e despesas em livros revestidos das formalidades que assegurem a respectiva exatidão;
IV – conservar em boa ordem, pelo prazo de 5 anos, contado da data da emissão, os documentos que comprovem a origem de suas receitas e a efetivação de suas despesas, bem assim a realização de quaisquer outros atos ou operações que venham a modificar sua situação patrimonial;
V – apresentar, anualmente, declaração de informação (DIPJ), em conformidade com o disposto em ato da SRF.
Para obtenção destes benefícios, a entidade deve provar certos quesitos, como seu caráter assistencial. E alguns casos, o governo estipula certos requisitos de desempenho, como um percentual de aplicação em gratuidade sobre o valor total das receitas. Esta é uma função importante da Contabilidade, comprovar se a entidade atende os requisitos exigidos pelo Poder Público.
CAPÍTULO II – METODOLOGIA
2.1 Tipo da pesquisa
A referida pesquisa tem sua natureza caracterizada como uma pesquisa aplicada, já que no dizer de Silva e Silveira (2011) busca o aprofundamento de um determinado tema de uma área específica, ou seja, pretende gerar conhecimentos para aplicação prática, dirigidos à solução de problemas específicos, sendo caraterizada como um estudo de caso. Quanto à forma de abordagem do problema a pesquisa é tanto quantitativa como qualitativa, já que conforme os mesmos autores, a pesquisa quantitativa busca mensurar numérica ou estaticamente um fenômeno e a pesquisa qualitativa objetiva à interpretação de um problema, fato, objeto etc.
De acordo com seus objetivos a pesquisa é enquadrada como descritiva, já que descreve os fatos observados sem interferir neles, ou seja, procura descobrir a frequência com que um fato ocorre, sua natureza, suas características, causas e relações com outros fatos. Quanto aos meios, trata-se de um estudo de caso, pois conforme Silva e Silveira (2011), o estudo de caso se trata de um objeto muito restringido sobre o qual se levanta o máximo possível de informações.
Além disso, será utilizada pesquisa bibliográfica por meio de livros, cartilhas, publicações de congresso e periódicos, teses, dissertações, sites, entre outros que venham auxiliar o estudo a cerca do tema. Aliado ao uso da pesquisa documental, com a utilização de documentos, incluindo suas demonstrações contábeis e relatórios, provenientes da entidade em estudo. Para Gil (apud BEUREN, 2010, p. 89) a principal diferença entre a pesquisa documental e a bibliográfica corresponde à natureza das fontes de ambas. Pois a pesquisa bibliográfica utiliza principalmente das contribuições de vários autores sobre determinada assunto; enquanto que a pesquisa documental se baseia em materiais que ainda não receberam um tratamento analítico ou que podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa.
2.2 Universo e amostra
A pesquisa tem como sujeito de investigação o Serviço de Apoio aos Projetos Alternativos Comunitários (SEAPAC), uma associação de direito privado, sem fins econômicos, inscrito no CNPJ 70.035.209/0001-76 e constituído em 13 de abril de 1993 com
sede na Av. Floriano Peixoto, 381 – A, Tirol – Natal-RN – CEP: 59020-500. O supracitado é um organismo da igreja Católica com atuação em todo o Território Potiguar, dispondo de escritórios nas Dioceses de Caicó e Mossoró, todos com quadro de técnicos qualificados e com infraestrutura suficiente para a realização do trabalho interno e externo, além da sua sede na capital do Estado.
O SEAPAC presta assessoria ao público da assistência social, de forma continuada, permanente, planejada e gratuita, por meio de serviços e projetos voltados para o fortalecimento dos movimentos sociais e das organizações de usuários, como também atua na defesa e garantia de direitos socioassistenciais, construção de novos direitos, promoção da cidadania, enfrentamento das desigualdades sociais, articulação com órgãos públicos de defesa de direitos, dirigidos ao público da política de assistência social.
Suas ações estão delineadas por meio de 03 linhas de atuação: Convivência com o Semiárido; Fortalecimento das Organizações e Fóruns da Sociedade Civil; e Intervenção direta em Políticas Públicas e defesa de direitos. O SEAPAC atua em todo o território do estado do RN, através de suas ações, com presença marcante nos territórios do Trairi, Seridó e Alto-Oeste Potiguar, incluindo comunidades rurais e urbanas. Assim, procura contribuir para que setores populacionais que vivem em situação de vulnerabilidade social, no campo e na cidade, sejam protagonistas na proposição, conquista e acesso de direitos e políticas públicas, investindo na organização e articulação da sociedade civil, no diálogo com o Estado e na construção de amplas parcerias, implementando processos educativos e socioambientais, na perspectiva de uma sociedade solidária, democrática, justa e sustentável.
2.3 Instrumentos de coleta e seleção dos dados
Para elaboração do Balanço Social da entidade já citada foram usadas as demonstrações contábeis do exercício 2014, como também, os relatórios de Auditoria e de atividades do mesmo período, sendo este último emitido pela própria instituição e disponíveis em seu site (www.seapac.org.br) para consulta pública. Tendo em vista o detalhamento das atividades executadas pela entidade e as informações contidas em tais relatórios não foi necessário aplicação de questionário.
Os dados foram coletados diretamente das demonstrações contábeis e processados para responder as indagações do modelo de Balanço Social proposto pelo IBASE. Em seguida foram obtidos os resultados para interpretação e análise das informações produzidas e por último foram elaboradas as considerações finais.
CAPÍTULO III – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
3.1 Balanço Social – Base de Cálculo
A partir do modelo proposto pelo IBASE e dos dados obtidos nas demonstrações contábeis do exercício 2014 e relatórios de Auditória e atividades foram obtidos os seguintes resultados que serão analisados separadamente, de acordo com os indicadores propostos.
Os valores obtidos no referido demonstrativo são todos do exercício 2013, tendo em vista que no ano de 2014 a entidade não obteve superávit, fato este que impossibilitaria a análise de alguns de seus índices.
Quadro 07: Balanço Social - Base de Cálculo
Fonte: Próprio autor.
Os valores da receita líquida, resultado operacional e folha de pagamento bruta serão usados como parâmetro para analise dos demais índices.
3.2 Balanço Social – Indicadores sociais internos
Na sequência são analisados os indicadores sociais internos da entidade.
Quadro 08: Balanço Social – Indicadores sociais internos
Base de Cálculo 2013 Valor [R$]
Receita líquida (RL) 9.250.946
Resultado operacional (RO) 149.803
Folha de pagamento bruta (FPB) 1.601.285
Indicadores Sociais Internos Valor [R$] [mil]
% sobre FPB % sobre RL
Alimentação 59.950 3,74 0,65
Encargos sociais compulsórios 611.782 38,21 6,61
Previdência privada 0 0,00 0,00
Saúde 43.712 2,73 0,47