UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM GEOGRAFIA
PÉRICLES ALVES BATISTA
A DINÂMICA COMERCIAL NOS EIXOS VIÁRIOS DE CAMPINA GRANDE
NATAL 2019
A DINÂMICA COMERCIAL NOS EIXOS VIÁRIOS DE CAMPINA GRANDE
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (PPGe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Geografia.
Área de Concentração: Dinâmica Socioambiental e Reestruturação do Território. Linha de Pesquisa: Dinâmica Urbana e Regional.
Orientador: Prof. Dr. Ademir Araújo da Costa.
NATAL 2019
A DINÂMICA COMERCIAL NOS EIXOS VIÁRIOS DE CAMPINA GRANDE
Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (PPGe) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Geografia.
Área de Concentração: Dinâmica Socioambiental e Reestruturação do Território.
Aprovada em / /2019.
Prof. Dr. Ademir Araújo da Costa - PPGe - UFRN Orientador
Profª. Dra. Rita de Cássia da Conceição Gomes - PPGe - UFRN Examinadora interna
Profª. Dra. Ione Rodrigues Diniz Morais - PPGe - UFRN Examinadora interna
Prof. Dr. Fabio Ricardo Silva Beserra - UERN Examinador externo à instituição
Prof. Dr. Lincoln da Silva Diniz - UFCG Examinador externo à instituição
Ao meu filho, Heitor Batista ... Mesmo nos momentos em que eu não estava presente, eu estava com você!
AGRADECIMENTOS
Ao final de um trabalho como este, gostaria de agradecer a pessoas que, direta ou indiretamente contribuíram de várias maneiras para sua realização. Mesmo sabendo que a lista das pessoas que nos acompanharam nesse período é enorme e não caberia nesse espaço. Nesses quatro anos, muitas foram as viagens entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, além de muitas pesquisas, leituras, visitas a bibliotecas e aprendizados.
Por ora, quero aqui deixar registrados alguns agradecimentos muito especiais.
Agradeço a Deus por ser a força que me anima e me protege em todas as horas.
Aos que caminharam comigo desde o início, pessoas que lutaram para que eu chegasse até aqui: Edmilson e Penha (Pai e Mãe). O esforço deles valeu a pena!
E aqueles que já partiram desse plano terreno, mas que me apoiaram incondicionalmente: Seu Eié e Dona Miriam (Avós); e Zé de Eié (Tio). Não há como esquecê- los. Foi um privilégio conviver com vocês.
Agradeço aos meus colegas de trabalho nas instituições de ensino por onde passei enquanto cursava o doutorado. Entre convergências e divergências, caminhamos costurando dias, semanas e semestres.
Aos professores do PPGE/CCHLA, meus sinceros agradecimentos acadêmicos. Com vocês aprendi muito, cresci como estudante e como pesquisador. Portanto, agradeço pela companhia e contribuições de Ademir, Edna, Adriano, Aldo, Celso, Edu Silvestre, Eugênia, Fransualdo, Ione, Maria Helena e Rita de Cássia.
Aos colegas (foram muitos ...) também agradeço. Com alguns partilhei as dúvidas e incertezas, com outros apenas os olhares. Todos foram importantes na caminhada.
Agradeço aos componentes da banca de qualificação, Profa. Dra. Rita de Cássia da Conceição Gomes (UFRN) e a Profa. Dra. Ione Rodrigues Diniz Morais (UFRN), pelas observações feitas ao texto e pelas excelentes sugestões oferecidas.
Agradeço muito aos componentes externos da banca de defesa, o Prof. Dr. Fabio Ricardo Silva Beserra (UERN) e o Prof. Dr. Lincoln da Silva Diniz (UFCG), por terem aceitado o convite em participar dessa etapa final do trabalho com suas valiosas contribuições.
Ao meu orientador, Professor Dr. Ademir Araújo da Costa, um agradecimento mais do que especial. Por ter acreditado na proposta do trabalho desde o projeto de pesquisa até a etapa final da tese. Pelo seu compromisso, pela sua dedicação, pela sua pessoa humana, pelo seu profissionalismo e, claro, pelas suas observações pertinentes ao texto, sempre construtivas e incentivadoras.
Tu nessa idade e não sabes Tudo é sertão e cidade Tudo é cidade e sertão Campina Grande - vereda geral Eh! vila eh! cidadão Campina Grande - vereda geral Eh! civilização Tudo é interior tudo é interior Tudo é interior Interior interior Inté a capital inté a capital Que babiloniou (Belchior, Cemitério)
O trabalho é resultado da pesquisa acerca dos principais eixos viários de expansão do comércio de Campina Grande, na Paraíba. O objetivo é entender a reestruturação do comércio nos principais eixos viários de Campina Grande, na perspectiva da produção do espaço. O estudo foi baseado na Teoria da Produção do Espaço, do filósofo Henri Lefebvre, a partir das relações sociais ocorridas no espaço. O texto tem a intenção de apresentar reflexões acerca do nosso objeto de estudo à luz dessa teoria. A tese parte do princípio de que o expansionismo comercial periférico, para além da Área Central de Campina Grande, ocorre através dos eixos comerciais, a partir da disseminação de atividades terciárias (de 1999 a 2019) que têm ajudado a estruturar a dinâmica socioespacial local. Foi estudado as alterações que tem desencadeado a produção do espaço urbano, nas vias que possuíam características residenciais, mas que passaram por reformulações intensas, configurando-se em eixos comerciais nesse período. Como procedimentos metodológicos, realizou-se o levantamento do uso do solo urbano nos seguintes eixos comerciais: Manoel Gonçalves Guimarães; Floriano Peixoto; Severino Bezerra Cabral; Manoel Tavares e Assis Chateaubriand. Ao se considerar a reestruturação comercial, depreendeu-se que as mudanças no espaço ocorrem com o processo de descentralização, que tem se intensificado a partir da instalação de redes comerciais de capital externo nesses eixos comerciais, alterando as funções, os usos e a composição social destas avenidas.
Palavras-chave: Produção do espaço. Eixos comerciais. Reestruturação comercial.
Grande, Paraíba. The objective is to understand the restructuring of commerce in the main roads of Campina Grande, from the perspective of space production. The study was based on the Theory of Space Production, created by the philosopher Henri Lefebvre, from the perspective of social relations that occurred in space. Our study intends to present reflections about our object of study based on this theory. This thesis assumes that the peripheral commercial expansionism, which occurs for beyond the Central Area of Campina Grande in direction of the commercial axes, had spread tertiary activities (from 1999 to 2019) and had helped to structure the local socio-spatial dynamics. It was studied the changes that triggered the production of urban space, by the roads that had residential characteristics, but which underwent intense reformulations, becoming commercial axes in this period. As methodological procedures, it was conducted a survey in the following commercial axes: Manoel Gonçalves Guimarães; Floriano Peixoto; Severino Bezerra Cabral; Manoel Tavares and Assis Chateaubriand. Considering the commercial restructuring, the changes in space occur with the decentralization process, which has intensified since the installation of external capital commercial in these trade axes, changing their functions, uses and social composition.
Ce travail est résultat de la recherche sur les principales routes d'expansion du commerce de Campina Grande, Paraíba. L'objectif est de comprendre la restructuration du commerce dans les principales routes de Campina Grande, par le percpective la production spatiale. L'étude était basée sur la théorie de la production spatiale, crée por le philosophe Henri Lefebvre, à partir des relations sociales qui se sont produites dans l'espace. Notre texte entend présenter des réflexions sur notre objet d'étude à la perspective de cette théorie. La thèse suppose que l'expansionnisme commercial périphérique, au-delà de la zone centrale de Campina Grande, se produit à travers les axes commerciaux s’est produit por la propagation des activités tertiaires (de 1999 à 2019) qui ont contribué à structurer la dynamique socio-spatiale locale. Il a été étudié les changements qui ont déclenché la production de l'espace urbain, sur les routes qui avaient des caractéristiques résidentielles, mais qui ont passé par intenses reformulations, devenant des axes commerciaux à cette période. Comme procédures méthodologiques, on a utilisée l'enquête sur ces axes commerciaux suivants: Manoel Gonçalves Guimarães; Floriano Peixoto; Severino Bezerra Cabral; Manoel Tavares et Assis Chateaubriand. Il apparaît que ces changements d'espace se produisent avec le processus de décentralisation s'est intensifié depuis l'installation de de capitaux commerciaux externes dans ces axes commerciaux, modifiant les fonctions, les usages et la composition sociale de ces avenues.
Mots-clés: Production spatiale. Axes commerciaux. Restructuration commerciale.
Figura 01 - Localização do Município de Campina Grande; em destaque, o Centro da cidade ...18
Figura 02 - Grandes empreendimentos nos eixos comerciais de Campina Grande ... 25
Figura 03 - Imagem panorâmica de Campina Grande no início dos anos 1980 ... 52
Figura 04 - Atacadistas na Av. Manoel Gonçalves ... 54
Figura 05 - Agência Bancária na Av. Manoel Gonçalves Guimarães em Campina Grande ... 55
Figura 06 - Agência Bancária na Av. Manoel Gonçalves Guimarães em Campina Grande ... 56
Figura 07 - Campina Grande- PB, Av. Floriano Peixoto em destaque ... 58
Figura 08 - Hospital Regional de Traumas Dom Luiz Gonzaga Fernandes ... 60
Figura 09 - Hotel construído nas imediações do Hospital Regional de Traumas ... 61
Figura 10 - Condomínio Residencial horizontal, Serra Ville, na Av. Floriano Peixoto ... 61
Figura 11 - Condomínio Residencial horizontal, Park Ville, na Av. Floriano Peixoto ... 62
Figura 12 - Vista aérea do centro comercial de Campina Grande no início dos anos 1980 ... 65
Figura 13 - Supermercado varejista de capital local ... 66
Figura 14 - Supermercado varejista de capital local ... 66
Figura 15 - Shopping Partage na Av. Severino Cabral ... 71
Figura 16 - Galeria Via Mirante na Av. Severino ... 71
Figura 17 - Viaduto Elpídio de Almeida em Campina Grande nos anos 2000 ... 75
Figura 18 - Registro da Av. Manoel Tavares, ainda sem pavimentação no ano de 1986 ... 76
Figura 19 - Empreendimentos gastronômicos – franquia na Av. Manoel Tavares ... 77
Figura 20 - Simulação em programa de computador do Rio Sierra Shopping ... 79
Figura 21 - Localização do Rio Sierra Shopping, em relação ao centro comercial ... 80
Figura 22 - Atacadista na Av. Assis Chateaubriand ... 84
Figura 23 - Agência Bancária na Av. Assis Chateaubriand ... 84
Figura 24 - Indústria na Av. Assis Chateaubriand, no bairro Distrito Industrial ... 85
Figura 25 - Indústria na Av. Assis Chateaubriand, no bairro Distrito Industrial ... 85
Figura 26 - Comércio de bairro na Av. Juscelino Kubitschek ... 91
Figura 27 - Comércio de bairro na Av. Juscelino Kubitschek ... 92
Figura 28 - Bairro Centro de Campina Grande - PB ... 95
Figura 29 - Shopping popular Edson Diniz – Camelódromo localizado no Centro ... 98
Figura 30 - Pedestres e camelôs nas calçadas do Centro. Local: Rua João Pessoa - Campina Grande ... 99
Figura 31 - Vendedor expondo seus produtos no chão - Rua João Pessoa em Campina Grande .99 Figura 32 - Mercado de Baltazar Luna (Mercado Velho) ... 101
Figura 33 - Algodão transportado por tração animal em Campina Grande, início séc. XX ... 103
Figura 34 - Esboço de Campina Grande quando Vila Nova da Rainha (1790) ... 108
Figura 35 - Carta da Vila Nova da Rainha ... 109
Figura 36 - Crescimento Urbano de Campina Grande em 1790 ... 110
Figura 37 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1790 e 1864 ... 111
Figura 38 - Estação Ferroviária de Campina Grande em 1907 ... 113
Figura 39 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1790 e 1907 ... 114
Figura 40 - Produção do Espaço Urbano de Campina Grande em 1918 ... 116
Figura 41 - Prédio do antigo Supermercado Balaio e Bompreço em Campina Grande ... 123
Figura 42 - Supermercado Hiper Bompreço na Avenida Prof. Almeida Barreto, no Centro de Campina Grande ... 124
Figura 43 - Instalações do Hiper Bompreço Mirante no interior do Partage Shopping – Campina Grande 2019 ... 125
Figura 45 - Partage Shopping Campina Grande em 2016 ... 127
Figura 46 - Hiper Todo Dia na Av. Almirante Barroso, paralela à Av. Juscelino Kubitschek .... 129
Figura 47 - Macko Atacadista, na Av. Argemiro de Figueiredo, no Bairro Vila Cabral ... 131
Figura 48 - Extra Supermercado na Av. Severino Bezerra Cabral – Campina Grande 2019... 132
Figura 49 - Empreendimento comercial de capital externo, na Av. Manoel Tavares ... 134
Figura 50 - Empreendimento comercial de capital externo, na Av. Assis Chateaubriand em Campina Grande - 2019 ... 137
Figura 51 - Empreendimento comercial de capital externo na Av. Assis Chateaubriand em Campina Grande - 2019 ... 138
Figura 52 - Empreendimento comercial de capital interno, na Av. Assis Chateaubriand em Campina Grande - 2019 ... 140
Figura 53 - Parte do Centro antigo de Campina Grande entre década de 1920 e 1930 ... 144
Figura 54 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1790 e 1937 ... 145
Figura 55 - Área Central de Campina Grande na década de 1940 ... 147
Figura 56 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1790 e 1943 ... 149
Figura 57 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1960 e 1970do Espaço Urbano de Campina Grande em 1960 ... 152
Figura 58 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1790 e 1985 ... 155
Figura 59 - Crescimento Urbano de Campina Grande entre 1790 e 1992 ... 157
Figura 60 - Eixos comerciais em Campina Grande - 2019 ... 159
Figura 61 - Uso e ocupação do solo, Av. Manoel Guimarães com a Rua João Florentino, Campina Grande em 2017 ... 162
Figura 62 - I parte do uso e ocupação do solo na Av. Floriano Peixoto, Campina Grande em 2017 ... 164
Figura 63 - II parte do uso e ocupação do solo na Av. Floriano Peixoto em 2017 ... 165
Figura 64 - III parte do uso e ocupação do solo na Av. Floriano Peixoto, em Campina Grande em 2017 ... 166
Figura 65 - Uso e ocupação do solo, Av. Severino Bezerra Cabral em Campina Grande em 2017 ... 167
Figura 66 - Uso e ocupação do solo, Av. Manoel Tavares em Campina Grande - 2017 ... 169
Figura 67- Uso e ocupação do solo, Av. Assis Chateaubriand, em Campina Grande - 2017 ... 172
Mapa 01 - Expansão dos eixos comerciais de Campina Grande em 2018 ... 49
Mapa 02 - Traçado viário de Campina Grande, Av. Manoel Gonçalves Guimarães em 2018 ... 51
Mapa 03 - Traçado viário de Campina Grande, Av. Floriano Peixoto em 2017 ... 59
Mapa 04 - Traçado viário de Campina Grande, Av. Severino Cabral em 2018 ... 69
Mapa 05 - Traçado viário de Campina Grande, Av. Manoel Tavares em 2018 ... 74
Mapa 06 - Traçado viário de Campina Grande, Av. Assis Chateaubriand em 2018 ... 82
Tabela 01: Uso do solo urbano da Av. Manoel Gonçalves Guimarães - 2017 ... 56
Tabela 02: Uso do solo urbano da Av. Marechal Floriano Peixoto - 2017 ... 63
Tabela 03: Uso do solo urbano da Av. Severino Bezerra Cabral - 2017... 72
Tabela 04: Uso do solo urbano da Av. Manoel Tavares - 2017 ... 78
Tabela 05: Uso do solo urbano da Av. Jornalista Assis Chateaubriand - 2017 ... 86
Tabela 06: Uso do solo urbano da Av. Juscelino Kubitschek - 2017 ... 90
LISTA DE SIGLAS E ABREVIAÇÕES
BNH Banco Nacional de Habitação
CNEFE Cadastro Nacional de Endereçamento para Fins Estatísticos CURA Comunidade Urbana para Renovação Acelerada
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística LOBRÁS Lojas Brasileiras
SC Shopping Center
MNRU Movimento Nacional pela Reforma Urbana
SEPLAN Secretaria de Planejamento Urbano e Gestão da Prefeitura Municipal SUDENE Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste
UEPB Universidade Estadual da Paraíba
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 17
2 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO, DESCENTRALIZAÇÃO E A REESTRUTURAÇÃO DO COMÉRCIO E DOS SERVIÇOS ... 30
2.1 Produção do espaço ... 30
2.2 Descentralização do comércio e serviços ... 35
2.3 O processo de reestruturação do comércio ... 41
3 OS EIXOS VIÁRIOS E A DESCENTRALIZAÇÃO COMERCIAL EM CAMPINA GRANDE ... 48
3.1 A expansão dos eixos comerciais ... 48
3.1.1 Avenida Manoel Gonçalves Guimarães ... 50
3.1.2 Avenida Marechal Floriano Peixoto ... 57
3.1.3 Avenida Severino Bezerra Cabral ... 67
3.1.4 Avenida Manoel Tavares ... 73
3.1.5 Avenida Assis Chateaubriand ... 81
3.1.6 Avenida Juscelino Kubitschek ... 87
4 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO DE CAMPINA GRANDE: DO PRESENTE AO PASSADO ... 93
4.1 A Área Central de Campina Grande hoje e ontem ... 94
4.2 A gênese urbana e a produção do espaço campinense ... 105
5 RELAÇÃO ENTRE A ÁREA CENTRAL E A EXPANSÃO DOS EIXOS COMERCIAIS EM CAMPINA GRANDE ... 118
5.1 A descentralização do comércio atacadista e varejista ... 118
5.2 A atuação do Estado na produção do espaço nos eixos comerciais ... 141
5.3 Análise sobre a expansão dos eixos comerciais ... 158
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 180
REFERÊNCIAS ... 185
APÊNDICE A - SÍNTESE DOS PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS ... 191
ANEXO B - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 193
ANEXO C - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 194
ANEXO D - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 195
ANEXO E - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 196
ANEXO F - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 197
ANEXO G - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 198
ANEXO H - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 199
ANEXO I - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 200
ANEXO J - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 201
ANEXO K - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 202
ANEXO L - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 203
ANEXO M - NOTÍCIAS PUBLICADAS NA MÍDIA ... 204
1 INTRODUÇÃO
Os eixos comerciais, de acordo com Souza (2009), são, entre as novas centralidades, as categorias até hoje menos estudadas no âmbito da Geografia urbana. O autor afirma que são poucos os trabalhos que se debruçam sobre os eixos comerciais, com suas características, de modo que as poucas produções acadêmicas existentes, quando muito, limitam-se quase que exclusivamente a descrever o uso do solo de algumas cidades em determinados eixos comerciais. Nessa perspectiva, o trabalho trata da pesquisa realizada nos principais eixos comerciais de Campina Grande.
Esta cidade, localizada no interior do estado da Paraíba, ocupa uma posição singular, dada sua localização e a influência que exerce sobre boa parte do interior do estado. A pesquisa empreendida se realizou no espaço urbano da referida cidade, em particular nas principais vias de acesso a sua área central, aqui entendidas como eixos de expansão de comércio, a fim de estudarmos as transformações presentes na produção do espaço urbano campinense entre 1999 e 2019.
Ainda a respeito da cidade escolhida para a realização da pesquisa (Figura 1), tem-se que ela se destaca na Paraíba dada a sua importância no contexto regional, reforçado no estudo realizado pelo IBGE, denominado Regiões de Influência das Cidades Brasileiras (2008), que mostra a influência exercida diretamente sobre uma considerável área do território estadual. A condição de cidade polo será enfatizada nesta pesquisa, sobretudo, no que tange ao comércio que tem alcance regional e que é uma das razões pelas quais o escolhemos para estudar nesta cidade, também devido ao processo recente de descentralização terciária. Também pela importância tanto do ponto de vista urbano, quanto num contexto regional, foram outras das outras razões pelas quais resolvemos escolhê-la, na condição de cidade a ser estudada na pesquisa de doutorado.
É importante ressaltar, ainda, que Campina Grande é a segunda maior e mais populosa cidade da Paraíba, com uma população de 409.731 habitantes, segundo a estimativa do IBGE (2019). Além do seu destaque comercial, é referência na prestação de serviços de saúde e de educação, afora os aspectos da conformação industrial, com a geração de milhares de empregos, o que a diferencia de outros municípios interioranos da Paraíba.
Figura 01 - Localização do Município de Campina Grande; em destaque, o Centro da cidade
Fonte: ReCiMe - Equipe Campina Grande – PB.
Organização e elaboração: Equipe ReCiMe – Campina Grande. 05/2009.
A cidade apresenta características variadas que definem e redefinem o seu espaço cotidianamente. Sua conexão, numa escala global, ocorre a partir de uma série de fatores, como a produção tecnológica, a exemplo de programas de softwares, que são exportados para outros países, bem como pela comercialização internacional do algodão colorido, pelo intercâmbio e pesquisas através das instituições de ensino superior, além das várias empresas multinacionais nela localizadas (BATISTA, 2011).
Em relação aos eixos comerciais, frisa-se que são vias de acesso do centro aos bairros, onde a circulação de veículos e de pessoas promove um intenso tráfego diário de um ponto a outro da cidade. Pequenas lojas de bairro são atraídas para estas vias principais que, com o passar do tempo, atraem vários outros tipos de serviços, como caixas eletrônicos ou agências bancárias, clínicas médicas até, um comércio mais sofisticado, como lojas de departamento, hipermercados, supermercados ou atacarejos, galerias comerciais ou shopping centers, pertencentes ao capital externo.
A pesquisa desenvolvida estudou a dinâmica comerciail, sobretudo a expansão dos principais eixos comerciais de Campina Grande, cidade localizada no interior da Paraíba, no Nordeste brasileiro, na perspectiva da produção do espaço. A referida cidade, na medida em que ocorre um processo de reestruturação do comércio, dialeticamente, se evidencia a
descentralização do comércio na Área Central de Campina Grande, com a necessidade de entendermos a expansão dessa atividade nos últimos vinte anos (1999-2019), em Campina Grande, considerando os eixos comerciais. Sobre os eixos de comércio, Salgueiro (2001), quando trata do caso de Lisboa, diz que:
A localização das empresas de serviços recentemente constituídas revela o declínio do centro tradicional, e a “decolagem” definitiva do novo centro cuja malha terciária se adensa, para além da saliência de alguns eixos preferenciais. (SALGUEIRO, 2001, p. 154).
Definitivamente, este não é o caso de Campina Grande, em que, mesmo ocorrendo uma dispersão da malha terciária para além do centro tradicional, através de seus eixos comerciais principais, até o presente momento, não apresenta um centro tradicional decadente. O centro tradicional ainda concentra boa parte do comércio, embora já se vislumbre um processo incipiente de descentralização e, consequentemente, de reestruturação da atividade comercial.
Com a produção do espaço, em que as relações sociais não cessam, tem-se, como consequência, o espraiamento desses eixos comerciais, fato que decorre da reprodução do capital em consonância com a atuação dos agentes produtores do espaço. Para se compreender a produção do espaço, é necessário entendermos o papel do Estado, que ao conceber o espaço, em muitos casos, é o responsável direto pelo ordenamento territorial da cidade, como foi o caso de Campina Grande. Assim, a análise do papel do Estado, tido como agente da produção do espaço urbano campinense é motivada pela necessidade de entendermos a implantação e a execução de políticas públicas em seu espaço ao longo do tempo. O planejamento urbano, ou a falta dele, pode ajudar a entender a produção do espaço numa cidade como Campina Grande. Tais iniciativas implantadas pelo Estado, seja em qualquer um dos níveis administrativos (municipal, estadual ou federal), ajudam a refletir sobre a organização do espaço.
A produção do espaço a partir da ação de agentes ocorre não apenas por proprietários de grandes empreendimentos comerciais, mas através do próprio Estado, que é responsável pelo planejamento e execução de obras públicas, como o caso das reformas urbanísticas realizadas em Campina Grande na primeira metade do século XX, que alteraram definitivamente a configuração do seu espaço urbano. Esta análise do passado torna-se importante para o entendimento da atual configuração da Área Central, como da evolução do traçado da cidade, que se expandiu via periferia impulsionada pela atividade terciária, sobretudo o comércio, que reflete a consequência do processo de descentralização.
A menção ao termo “periferia” não representa, necessariamente, uma área da cidade excluída do ponto de vista social de fato. Ao nos referirmos à expansão dos eixos comerciais em direção à periferia, no sentido de distanciamento de centro. Inclusive, algumas dessas periferias não são necessariamente pobres; pelo contrário.
Marx (1972, p. 288), ao tratar do comércio e da relação centro e periferia, afirma: “Em consequência, os ‘fluxos no espaço’ crescem de modo notável, enquanto os mercados se expandem espacialmente, e a periferia em relação ao centro [...] fica circunscrita por um raio constantemente em expansão”. Ainda tratando dessa questão, Harvey (2005, p.53) continua: “Certo tipo de relação centro-periferia surge da tensão entre concentração e expansão geográfica”, o que ajuda a explicar a expansão do comércio para além do centro, a partir da produção capitalista do espaço.
Ainda sobre Campina Grande, sobretudo quanto à sua relação entre área central e periférica, além da conformação viária, é imprescindível tratarmos da sua gênese na busca do entendimento da configuração atual expansão dos eixos comerciais, que se faz à luz da produção do espaço. Para isso, é importante fazermos algumas considerações gerais sobre a Geografia do comércio local, a partir da Área Central.
São mais do que justificáveis as novas centralidades (apesar de a abordagem desse conceito não ser o objetivo do nosso trabalho), embora não ocorram necessariamente em todos os eixos comerciais estudados. Essas áreas periféricas e de novos fluxos intensos, contribuem a explicação da transformação do comércio local. Sobre esse aspecto, Freire (2010, p. 28) destaca que:
[...] algumas inovações, como novas técnicas de comercialização, a exemplo do self service, com a popularização do uso do automóvel, com o aperfeiçoamento de equipamentos eletrodomésticos, que facilitaram o armazenamento de produtos, etc. foram possibilidades para descentralizar certos setores do comércio, isto é, muitos passaram a se localizar em áreas afastadas do centro da cidade, numa espécie de periferização ou suburbanização do comércio.
Para este trabalho, baseamo-nos na Teoria da Produção do Espaço1 do filósofo francês,
Henri Lefebvre2, que explica as relações sociais no espaço. É importante salientar que esta tese tem a intenção de apresentar novas reflexões a partir do nosso objeto de estudo, à luz dessa teoria, ao levarmos em consideração a dinâmica urbana da cidade estudada, bem como rever as
1 Originalmente “La production del’espace”. 2 Lefebvre (2001).
mudanças na sua estrutura comercial, que tem desencadeado um processo de descentralização nas últimas duas décadas.
Para o entendimento do processo de descentralização que vem ocorrendo na cidade estudada, tomamos por ideia as considerações de Corrêa (2011, p. 129), segundo o qual a descentralização aparece como um processo espacial associado às “deseconomias de aglomeração da Área Central”3.
Em Campina Grande, a primeira manifestação, do tipo de deseconomias de aglomeração, ocorreu ainda nos anos 1960, com a construção de dois distritos industriais afastados da Área Central, com recursos da Superintendência para o desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), o que ajudou no ordenamento territorial da cidade, ao refletir no traçado urbano local. Essa foi uma das primeiras ações do Estado que ajudou a descentralização industrial, o que também repercute na produção do espaço. Todavia, o foco da pesquisa será o comércio nessa produção.
Analisa-se a produção do espaço de Campina Grande, a partir da lógica da reprodução capitalista do espaço nos principais eixos comerciais, percebemos que com a implantação de empreendimentos de capitais externos, sobretudo, aqueles que se instalaram na cidade nos últimos vinte anos, alterou definitivamente a produção do espaço urbano local. Tal característica, coincide com a afirmação de Sposito (1991, p. 11):
São constatados níveis de especialização funcional em eixos ou trechos de avenidas, as quais geralmente desempenham o papel de acesso das rodovias às áreas mais centrais, que se caracterizam pela incidência de oficinas automobilísticas, lojas de autopeças, concessionárias, enfim, comércio e serviços ligados ao setor de veículos.
Em Campina Grande, a expansão e a reestruturação do comércio local é perceptível desde o final dos anos 1980, com a ocupação desses principais eixos comerciais por empreendimentos variados, quase todos na direção centro-periferia. Essa afirmação tem a ver com as palavras de Salgueiro (2001, p. 153), segundo a qual “Quando um centro urbano não pode expandir localmente por renovação, com substituição dos imóveis e crescimento vertical, estende-se em superfície por invasão das zonas contíguas”. Esses espaços – que outrora possuíam um perfil exclusivamente residencial –, têm passado por transformações intensas com
3 Fenômeno comum nas grandes cidades, a partir dos anos 1970, que explica a fuga de indústrias das áreas
centrais para as áreas periféricas, devido a uma série de vantagens locacionais, como a existência de novos mercados consumidores, menor tráfego de veículos, pouca influência dos sindicatos, além da presença de mão- de-obra abundante e qualificada. Isso ajudou a atrair investimentos empresariais para fora do centro.
relação ao uso solo, configurando-se vias de interesse do capital, ajudando a reestruturar o comércio local.
Para o entendimento da produção do espaço de Campina Grande, torna-se importante estudar a atual reestruturação do setor terciário da economia. Soma-se a isso, a influência do Estado na produção do espaço, por meio das intervenções urbanísticas em alguns períodos da história campinense.
Ao se estudar a expansão dos eixos comerciais viários, para além do centro comercial de Campina Grande, dá-se pela necessidade de entendermos a implantação de atividades comerciais nessas vias. Este processo tem se intensificado na última década, sobretudo a partir do ano 2000, com a chegada, na cidade, de empreendimentos de capitais comerciais de origens variadas, ora do próprio estado da Paraíba, ora de outros estados vizinhos, de outras regiões ou até mesmo de fora do país.
A reestruturação dos eixos comerciais, antes vias predominantemente residenciais, se faz através do processo de descentralização comercial para além da área central, a partir da instalação de empreendimentos comerciais variados, tais como: supermercados varejistas e atacadistas; shopping centers; galerias comerciais; lojas de franquias; emprendimentos imobiliários; como condomínios fechados, além de outros equipamentos de serviços em geral. Desde o início dos anos 1990, observamos uma lenta descentralização de algumas atividades de comércio e serviços em Campina Grande. Porém, este processo tem se intensificado a partir da reestruturação do seu setor terciário, ocorrida com mais intensidade a partir do começo do século XXI, com a chegada de grandes empreendimentos comerciais na cidade, a exemplo do shopping center, como trataremos adiante. A partir do final dos anos 1990 ocorreram mudanças nas funções comerciais da área central, que alterou a relação centro- periferia, de maneira que esse “novo” comércio especializado passa a necessitar de espaços mais amplos relativamente afastados do Centro e próximos a bairros mais afastados, alguns de padrão médio e até elevado, com relativa distância da Área Central.
A intenção em estudarmos a expansão dos principais eixos de comerciais de Campina Grande é do início dos anos 2000. Desde 1999, a partir da instalação do seu Shopping Center (na época da sua inauguração com o nome de Iguatemi, que (em 2008) passou a se chamar
Boulevard, e, atualmente, com o nome de Partage), quando realizávamos as primeiras
observações empíricas a respeito do processo de descentralização comercial em Campina Grande.
Em 2009, é que passamos a estudar esse fenômeno com mais atenção, especificamente nas adjacências do shopping center, a partir de uma análise do uso e ocupação do solo na
avenida Severino Bezerra Cabral. Esse eixo comercial passou a ter, em 2011, a presença de outro empreendimento de capital externo, que é o Supermercado Extra, que reforçou o processo de reestruturação comercial na cidade.
Entre 2009 e 2011, percebeu-se uma nova dinâmica comercial nas adjacências do
Partage Shopping, sobretudo, uma mudança no que diz respeito à chegada de novos
empreendimentos comerciais de capitais externos, além de empreendimentos imobiliários e novos serviços na avenida Severino Bezerra Cabral que é uma das principais vias de acesso ao centro comercial. Inclusive, já contava desde o final dos anos 1990 com a presença de um grande supermercado, que é o atual Hiper Bompreço Mirante, que se encontra no interior do referido shopping center.
Posteriormente, observamos que o mesmo processo de descentralização das atividades comerciais e de serviços passava também a ocorrer em outras avenidas da cidade, embora numa menor proporção daquela que ocorria na avenida Severino Cabral. Em 2015, buscamos expandir nossa análise para outras avenidas comerciais de Campina Grande, além de buscarmos uma reflexão teórica. Procuramos nos aprofundar teoricamente na questão da produção do espaço, tomando como partida um recorte espacial mais amplo, a partir de seis eixos comerciais que, na nossa concepção, vêm passando pelo processo de reestruturação. A produção do espaço nessas vias ocorre em vários sentidos da cidade, através da reprodução do capital comercial, na medida em que se espraia em direções diferentes, rumo à periferia, tendo o Estado como agente que contribuiu para que esse processo ocorresse, dotando essas áreas de infraestrutura e serviços.
Algumas redes comerciais, aqui discutidas mais adiante, continuavam a procurar os eixos comerciais estratégicos para desenvolverem suas estratégias de mercado, de modo que cada uma delas passou a se “apropriar” de frações específicas da cidade, seguindo os vetores de investimento e reprodução do capital num prolongamento, espraiando-se nas mais variadas direções. Com a instalação desses estabelecimentos comerciais, passa a ocorrer uma série de modificações no uso do solo urbano nessas vias, algumas das quais, ao se reestruturarem, ganharam status definitivo de eixos comerciais, à luz do processo de produção do espaço, ora em curso.
Tivemos algumas indagações em forma de problema a serem refletidas. Como compreender a reestruturação do comércio e serviços nos principais eixos comerciais de Campina Grande, no contexto da produção do espaço? De que forma têm se estruturado as atividades terciárias nas principais vias de Campina Grande? Quais os fatores que impulsionaram a descentralização da atividade comercial e a consequente reestruturação
comercial em Campina Grande? Qual a relação entre o centro comercial e esses eixos comerciais e de serviços? E, por fim, quais as perspectivas e projeções socioespaciais no comércio campinense? Essas foram as questões em forma de problema respondidas no decorrer da pesquisa.
Como hipótese central do trabalho, partimos do princípio de que a reestruturação comercial periférica em Campina Grande, para além do centro, ocorre através dos eixos comerciais, que se constituem como um prolongamento contínuo no tempo e no espaço, a partir da disseminação de atividades terciárias recentes (de 1999 a 2019), que tem ajudado a estruturar a dinâmica socioespacial local. Neste sentido, estudamos o processo de restruturação comercial que tem desencadeado várias alterações no espaço urbano de Campina Grande, particularmente nas vias que antes possuíam características exclusivamente residenciais, mas que passaram por reformulações intensas no uso do solo urbano, configurando-se na expansão dos eixos comerciais com características variadas, como consequência da produção do espaço urbano.
Ao levarmos em consideração a reestruturação comercial, compreendemos que as mudanças no espaço urbano local ocorrem a partir do processo de descentralização que se iniciou a partir dos anos 2000. Esse processo tem se intensificado mediante a instalação de grandes redes comerciais de capital externo que têm se instalado nesses eixos comerciais, a saber: Av. Manoel Gonçalves Guimarães; Av. Floriano Peixoto; Av. Severino Bezerra Cabral; Av. Manoel Tavares; Av. Assis Chateaubriand e Av. Juscelino Kubitschek, alterando as funções, os usos e a composição social destas avenidas, ajudando a produzir o espaço. Conforme foi dito, a instalação desses empreendimentos ocorreu a partir de 1999, quase que simultaneamente em todos os seis eixos comerciais estudados.
Isto ocorreu com a chegada de diferentes empresas comerciais ligadas ao setor varejista e atacadista, todos fora da Área Central, tais como a rede Makro, em 2008; o Atacadão, em 2009; o Maxxi Atacado, em 2012; o Assaí Atacadista em 2013; o Hiper Todo Dia, em 2017, e o Atacarejo Rio do Peixe, em 2018. Com isso, temos um processo visível de descentralização comercial, embora imperfeita, que passou a ficar cada vez mais evidente nesses eixos viários de reprodução do capital, com a instalação dessas grandes redes de capital externo, num curto período de vinte anos (Figura 2)
Figura 02 – Grandes empreendimentos nos eixos comerciais de Campina Grande
A partir desses fatos e diante da presença e da localização desses empreendimentos de capital externo, verificamos a necessidade de estudarmos o processo de descentralização que ocorre em Campina Grande por meio da expansão comercial nos seus principais eixos comerciais. Esses eixos comerciais localizados em direções diferentes e com perfis funcionais distintos, transformaram-se com o tempo, alterando assim a dinâmica urbana campinense, tornando-se tornaram-se aglutinadores de fluxos intensos.
O recorte temporal do presente trabalho, corresponde ao período de 1999 a 2019. Sabemos que o fenômeno da reestruturação do setor terciário em cidades de porte médio, decorrente do processo de descentralização do comércio, também ocorre em outras cidades do país. No entanto, o que procuramos estudar foram as particularidades próprias desse processo em Campina Grande, com a preocupação crítica do entendimento da expansão comercial nesses eixos em Campina Grande, à luz da produção do espaço.
Ao fazermos uma leitura atual a respeito da expansão dos eixos comerciais, a descrição da paisagem urbana se fez necessária na tentativa de entendermos as transformações ocorridas com o tempo, para assim compreendermos o espaço atual.
O objetivo geral é compreender a reestruturação dos principais eixos comerciais de Campina Grande, no contexto da produção do espaço. Quanto aos objetivos específicos, buscamos descrever as atividades de comércio nos principais eixos viários de Campina Grande a partir do uso e ocupação do solo; compreender os fatores que impulsionaram a descentralização da atividade comercial e sua reestruturação nos principais eixos comerciais da cidade; analisar a relação entre o centro comercial e essas vias de comércio.
O aprofundamento das discussões teóricas nesta pesquisa, tanto acerca da produção do espaço, como desses eixos comerciais, da descentralização, da reestruturação comercial e da geografia do comércio, foi estabelecido a partir de pesquisa bibliográficas, bem como através das disciplinas cursadas junto ao Programa de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia da UFRN, no intuito de expandir o nosso embasamento, tomando como referência os seguintes autores: Berry (1968); Carlos (1994; 2011; 2014); Castells (1983); Corrêa (2000; 2011); Gottdiener (1997); Harvey (2005); Lefebvre (1991), (1999; 2008); Pintaudi (1992; 1999); Salgueiro (2001); Salgueiro e Cachinho (2009); Soja (1993); Souza (2013); Sposito (1991; 2001; 2007; 2011) e Villaça (1998).
Em relação à metodologia, começamos pela pesquisa bibliográfica feita a partir desses autores citados, além da consulta em periódicos, artigos, dissertações, teses e livros. Como pesquisa documental, utilizou-se de representações cartográficas, a partir de imagens de
mapeamento cedidas pela Secretaria de Planejamento Urbano e Gestão da Prefeitura Municipal de Campina Grande (SEPLAN), para demonstrar a expansão dos eixos comerciais.
Ao tratarmos da organização territorial urbana, bem como das transformações ocorridas no espaço intraurbano campinense, fizemos uma discussão sobre o papel do Estado na produção do espaço da cidade. Acompanhamos as transformações espaciais a partir da atuação do Estado no espaço urbano em questão, com o uso do acervo da base cartográfica da SEPLAN, que permitiu a compreensão da produção do espaço urbano campinense ao longo do tempo. Fizemos pesquisas documental ainda em sites de empresas atacadistas e varejistas, para fins de levantamento de informações primárias a serem utilizadas no capítulo 5 do trabalho.
Para um melhor entendimento da reestruturação dos seus eixos comerciais de Campina Grande para além da Área Central, fizemos várias visitas de campo a fim de obtermos um melhor entendimento sobre a realidade específica desses espaços. Como um dos recursos técnicos para essa pesquisa, utilizou-se o registro fotográfico para fins de análise da paisagem urbana local, além do uso de técnicas de geoprocessamento para mapeamento das vias em questão.
Por meio de pesquisa de campo, também realizamos o levantamento do uso do solo urbano nas avenidas Manoel Gonçalves Guimarães, Floriano Peixoto, Severino Bezerra Cabral, Manoel Tavares, Assis Chateaubriand e Juscelino Kubitschek. A escolha desses eixos comerciais para esse estudo, que se deu basicamente pelo seguinte motivo: buscamos traçar as principais vias que abarcassem as direções mais distintas da cidade, a fim de analisarmos o espraiamento comercial em Campina Grande, num prolongamento contínuo no tempo e no espaço e não apenas numa fração específica da cidade.
Acrescenta-se, ainda, que as avenidas foram selecionadas por sediarem empreendimentos comerciais de capital externo (supermercados e shopping centers) instalados em Campina Grande nos últimos vinte anos. A pesquisa de campo foi realizada nas avenidas de maior dinamismo comercial e de fluxos variados no interior da cidade, entre os meses de abril e maio de 2017, de modo que catalogamos aproximadamente 2.550 estabelecimentos nas seis avenidas percorridas. Averiguamos os principais ramos de atividades de cada estabelecimento. Tal levantamento do uso do solo urbano resultou na tabulação dos dados em planilhas no Programa Excel, que gerou sete tabelas que foram organizadas de acordo com os critérios funcionais de cada avenida.
Na pesquisa de campo, foram catalogados, criteriosamente, as características físicas e funcionais de todos os pavimentos térreos e superiores nas edificações distribuídas ao longo das
seis vias. Com isso, foi possível contabilizar o número de estabelecimentos comerciais, industriais, de serviços, terrenos e residências situadas nessas vias.
As informações obtidas a partir da pesquisa de campo realizada nesses eixos comerciais, permitiu uma descrição detalhada das atividades desenvolvidas. Isso nos possibilitou a produção de representações cartográficas criadas a partir de técnicas de geoprocessamento a fim de demonstrar a origem e o traçado urbano, bem como a configuração atual dessas vias. Esse mapeamento encontra-se no quinto e último capítulo da tese, com os seis eixos comerciais apresentados e comentados individualmente, destacando as variáveis em cores diferentes.
A metodologia utilizada para a composição dos mapas foi possível graças a espacialização das variáveis apresentadas nas tabelas de cada eixo viário. Criamos shapes dessas avenidas, imóvel por imóvel, observando as sequências contidas nas planilhas com os dados de campo. Se levarmos em consideração que algumas das avenidas estudadas apresentam uma média aproximada de 500 imóveis em apenas um dos lados, ao passo que outras vias chegam a ter até 1.000 imóveis, criamos, para cada imóvel, uma shape específica para se chegar ao mapeamento de uso e ocupação do solo das seis avenidas e suas categorias, sendo elas: Residencial; Residencial/comercial; Residencial/serviços; Comercial; Comercial/serviços; Serviços; Fechados; Ruínas; Terrenos; Construção e Indústria. Contamos também com o auxílio de outras ferramentas de geoprocessamento, como Google Street View e o ARQGISS, necessárias para se fazer o cruzamento de dados junto ao software utilizado.
Os dados coletados em campo foram discutidos em dois momentos distintos do trabalho: inicialmente, no segundo capítulo denominado “A expansão dos eixos comerciais”, de maneira meramente descritiva (como propõe o método de Lefebvre), e, de maneira conclusiva, no quinto e último capítulo da tese, nos quais fizemos uma “análise sobre a expansão dos eixos comerciais”, com uma discussão qualitativa, buscando levantar projeções acerca desse objeto de estudo. Os resultados apresentados nessa última etapa do trabalho, além da confecção de mapas com um detalhamento do uso do solo urbano, foi a nossa reflexão teórica acerca do fenômeno da reestruturação comercial em Campina Grande, à luz da produção do espaço. A síntese dos procedimentos metodológicos se encontra no Quadro 1 (Apêndice).
A presente tese está estruturada em cinco capítulos. No primeiro capítulo, que corresponde à introdução, buscamos mostrar não apenas a estrutura do trabalho, mas a parte metodológica da tese, a começar pela definição da problemática através de perguntas que se desdobraram nos objetivos geral e específicos do trabalho. Além disso, apresentar a justificativa da tese, a hipótese, os procedimentos metodológicos, os conceitos e as categorias de análise geográficas que foram utilizadas no decorrer do trabalho.
No segundo capítulo, intitulado “A produção do espaço, descentralização e a
reestruturação do comércio e dos serviços” fizemos uma análise teórica inicial sobre as
temáticas da produção do espaço, do processo de descentralização e da reestruturação do comércio e dos serviços, sem a preocupação de uma necessidade de esgotamento desses conceitos.
O terceiro capítulo intitulado “Os eixos viários e a descentralização comercial em
Campina Grande”, contém o seguinte subcapítulo: “A expansão dos eixos comerciais”.
Descreve as novas formas de comércios e serviços nos eixos comerciais, com a análise das variavéis dos dados colhidos em pesquisa de campo, a partir do levantamento do uso do solo urbano. O conteúdo apresentado tem, por finalidade, delinear a realidade atual do objeto de estudo (a reestruturação dos eixos de comércio em Campina Grande), por meio da descrição e observação da paisagem urbana. Com este capítulo, tivemos a finalidade de pensarmos o que está posto no presente, utilizando-nos da descrição da paisagem a partir dos dados levantados. No quarto capítulo, intitulado “A produção do espaço de Campina Grande: do presente ao
passado”. Neste capítulo discutimos sua gênese urbana, tratando do comércio atual
na sua Área Central, desde o seu surgimento.
No quinto capítulo, retomamos o presente descrito para compreendê-lo em suas contradições. Intitulado “Relação entre a área central e a reestruturação dos eixos
comerciais em Campina Grande”. Ao abordar o presente, analisamos a relação do Centro
com a expansão comercial nos eixos viários, a partir da ação do capital e do Estado e seus reflexos na produção do espaço urbano, tratando do processo de descentralização das atividades comerciais. E, por fim, apresentamos as considerações finais do trabalho nos quais são discutidas algumas soluções alternativas ao problema investigado.
2 A PRODUÇÃO DO ESPAÇO, DESCENTRALIZAÇÃO E A REESTRUTURAÇÃO DO COMÉRCIO E DOS SERVIÇOS
2.1 Produção do espaço
Do ponto de vista teórico, baseamo-nos na Teoria do Espaço, contida na obra "The
production of space", do filósofo neomarxista francês, Henri Lefebvre (1991). Esta teoria não
trata separadamente acerca das dimensões econômica e política, mas sim da teoria e da prática4, justamente por analisar o espaço socialmente produzido. Na última década, vários estudos acadêmicos estiveram ligados à análise de processos internos e externos, seja de urbanização ou de globalização, trazendo à tona novas geografias em escalas diferenciadas, de modo que a teoria da produção do espaço se encaixa nessa realidade atual da globalização. Lefebvre afirma que o espaço social é transformado, apropriado e produzido pela sociedade e, sendo assim:
Não pode haver dúvida de que a problemática do espaço resulta de um crescimento das forças de produção [...]. As forças de produção e tecnologia agora permitem a intervenção em todos os níveis do espaço: local, regional, nacional, mundial. O espaço como um todo, espaço geográfico e histórico, é então modificado, mas sem nenhuma abolição concomitante desses suportes – aqueles “pontos” iniciais, aquelas primeiras forças ou nexos, aqueles “lugares” (localidades, regiões, países) encontrados em diferentes níveis do espaço social no qual a natureza do espaço tem sido recolocada por um espaço-produto. (LEFEBVRE, 1991, p. 90, tradução nossa, Grifos do autor)
No que diz respeito à proposta de Lefebvre, sua teoria é conhecida por constituir uma economia política do espaço. Souza (2013, p. 39), ao se referir a Lefebvre, a sua obra (A Produção do Espaço) e à teoria contida nela (Teoria da Produção do Espaço), afirma:
[...] que [o autor] dá continuidade a um veio que já vinha sendo explorado desde obras anteriores [...], o filósofo francês sistematiza o insight sobre a importância crescente da produção do espaço (e não somente no espaço) para a acumulação capitalista.
Importa considerar que a noção de “[...] produção do espaço está contida numa totalidade possível em direção à produção do espaço mundial e a constituição da sociedade
4 Com relação à dualidade teoria e prática, o próprio Lefebvre (1991, p. 94 - 95) afirma, em um trecho da sua
obra, que: “To begin with, the split between ‘real’ and ‘true’ serves only to avoid any confrontation between practice and theory, between lived experience and concepts, so that both sides of these dualities are distorted from the outset”.
urbana, como momento de constituição do projeto de uma sociedade ...” Carlos (2014, p. 67) (Grifos do autor). Dessa maneira, utilizá-la para analisar assuntos referentes à descentralização das atividades terciárias, tem sido cada vez mais comum nas pesquisas de geógrafos que têm estudado a questão urbana brasileira, sejam os espaços metropolitanos ou os de porte médio.
Esta tese analisa a expansão comercial em seis eixos viários em Campina Grande, buscando entender o processo de descentralização ocorrido num período de vinte anos (1999- 2019). É uma tentativa de nos debruçarmos sobre a teoria levebvreana, à luz da realidade brasileira, numa escala menor, que é a cidade de Campina Grande.
Apesar de ser utilizada como ponto central do nosso embasamento teórico, o uso das ideias de Lefebvre, que propomos nesta discussão à luz da sua teoria, vai além da análise do livro “The production of space”, de maneira que outras publicações do autor também corroboraram a discussão do espaço, principalmente, as que enfocam o urbano. Para dialogar sobre a produção do espaço, especificamente o urbano, buscamos as contribuições de autores como Gottdiener (1997), Souza (2013) e Carlos (2014), que apresentam visões complementares sobre o espaço social.
Ainda no tocante ao espaço social, Souza (2013, p. 22) alinha seu pensamento com essa discussão, ao afirmar que, não por acaso, muitos autores, inclusive alguns geógrafos, procuraram agora entender o espaço social concebendo-o como totalidade, dada a aproximação com o conceito de espaço geográfico. O autor afirma:
Assim como o espaço geográfico, em uma primeira aproximação, corresponde à superfície terrestre, o espaço social, aqui, corresponde, também em uma primeira aproximação, e que igualmente precisará ser complementada, à superfície terrestre apropriada, transformada e produzida pela sociedade.
Ao fazer uma analogia entre espaço social e espaço geográfico, o autor deixa claro que: “Feitas essas ponderações, é possível valorizar o conceito de espaço social sem, por outro lado, abrir mão do de espaço geográfico” (SOUZA, 2013, p.31-32) Grifos do autor. Usando as palavras desse autor, é como se houvesse duas “camadas” ou “níveis de conceitos primordiais”, em que o espaço geográfico é mais abrangente, ao passo que o de espaço social é mais específico. Ainda sobre a ideia de espaço social, recorremos ao próprio criador da Teoria da Produção do Espaço, Lefebvre, quando este afirma que:
O espaço (social) não é uma coisa entre outras coisas, não é um produto entre outros produtos; em vez disso, ele inclui as coisas produzidas e abrange as suas inter-relações, na sua coexistência e simultaneidade – sua ordem
(relativa) e/ou desordem (relativa). É o resultado de uma sequência e de uma série de operações, e portanto não pode ser reduzido ao nível de um simples objeto. Ao mesmo tempo, não há nada de fictício, irreal, ideal sobre isso (sobre o espaço), quando comparado, por exemplo, com a ciência, as representações, as ideias ou sonhos. Ele é o resultado de ações passadas, algumas servem de produção, outras de consumo (o gozo dos frutos da produção). O espaço social implica numa grande diversidade de conhecimento (LEFEBVRE, 1991, p. 73, tradução nossa).
A especificidade dessa obra reside no fato de que se pode integrar o espaço e a cidade, numa ampla e única teoria social, que nos permite a reflexão dos processos espacialmente produzidos. Já no tocante às categorias espaço e tempo, Lefebvre (2008) os analisa indissociavelmente como produtos sociais, no sentido de que ambos são efeitos e causas da produção da sociedade em sucessivos tempos. Então, defendemos que a reestruturação comercial em Campina Grande constitui, de fato, uma produção contínua no tempo e no espaço, a partir da atuação de agentes produtores do espaço urbano.
Como o próprio Lefebvre (1991, p.73, tradução nossa) afirma: “Considere o espaço de uma cidade – um espaço configurado, moldado e investido por atividades sociais durante um período histórico finito. Esta cidade é uma obra ou um produto?” Tomemos o exemplo da cidade de Campina Grande. Se definirmos o “trabalho” como algo único, singular e original, como algo que ocupa um espaço associado a um tempo particular, definirmos esta cidade como o produto deste trabalho.
O espaço social campinense é produto do trabalho humano, na medida em que gera as condições materiais de vida e mantém relação com as formas de organização social. O produto é um conjunto de relações (entre coisas, pessoas e objetos) que envolve uma produção mas, ao ser produzido, o espaço simultaneamente intervém na sua produção. Ao mesmo tempo em que o espaço é produzido, interfere na produção em si, na organização do trabalho produtivo, no transporte, no fluxo de matérias-primas e de energias e, por fim, na rede de distribuição dos produtos.
De acordo com Carlos (2014, p.63), “Nessa condição, o espaço e tempo aparecem através da ação humana em sua indissociabilidade, uma ação que se realiza como de apropriação”. O espaço é efeito, causa e razão (muda com o modo de produção/muda com as sociedades), vínculo indissociável entre tempo, espaço e história. Essa é justamente a tese do livro “A Produção do Espaço”, de Lefebvre. Assim, de acordo com Carlos (2014, p. 64), sobre essa questão:
A noção de ‘produção do espaço’, [...], importa conteúdos e determinações, obriga-nos a considerar os vários níveis da realidade como momentos diferenciados da reprodução geral da sociedade em sua complexidade. Obriga-nos a considerar o sujeito da ação: o Estado, como aquele da dominação política; o capital, com suas estratégias objetivando sua reprodução continuada [...]. (Grifos do autor).
Afirmamos que o espaço produzido é resultado das relações entre as diversas instâncias dos modos de produção que se transformam na medida em que evoluem e modificam suas forças produtivas. De acordo com Gottdiener (1997):
Assim, o espaço tem a propriedade de ser materializado por um processo social específico que reage a si mesmo e a esse processo. É, portanto, ao mesmo tempo objeto de material ou produto, o meio de relações sociais, e o reprodutor de objetos materiais e relações sociais. Dessa maneira, Lefebvre baseia a multiplicidade da articulação sociedade-espaço numa relação dialética. (GOTTDIENER, 1997, p. 133)
A formação social ou formação socioespacial dá-se através de um conjunto articulado de modos de produção ao longo do tempo, como elucidou o autor. O entendimento da produção do espaço não pode ser possível sem o método regressivo-progressivo, também desenvolvido por Lefebvre (1999), para dissecar/discernir contradições históricas num determinado local. A partir do método regressivo-progressivo, ao fazermos uma leitura atual a respeito dos eixos de expansão de comércio em Campina Grande, a descrição da paisagem urbana se fez necessária, a fim de regressarmos ao passado, na tentativa de entendermos as transformações ocorridas com o tempo, para assim compreendermos o espaço atual dessa cidade. A partir desse ponto, retornamos ao presente já devidamente esclarecido para, em seguida, compreendê-lo dialeticamente a partir das perspectivas e projeções, acerca do nosso objeto de estudo no futuro. Aliás, o próprio estudo do espaço, obedece a esse método para o entendimento de contradições históricas, que seria problematizar a temporalidade e as contradições históricas do espaço.
O pensamento dialético contido na produção do espaço aponta que a realidade social apresenta contradições que só podem ser entendidas por meio delas próprias. Sobre o pensamento dialético, Lefebvre (1975), inspirado no marxismo, escreveu uma formulação detalhada e extremamente sofisticada, que é encontrada em seu livro “Lógica Formal, Lógica Dialética”, ao discutir as características da dialética. Parte do princípio de que não existe separação entre a história da natureza e a história dos homens, de maneira que as relações entre a sociedade e a natureza são dialéticas. Ainda de acordo com o filósofo francês, em se tratando da concepção relativa de espaço, existe um espaço social e um espaço físico construído
socialmente, porém, separados, um construído pelo outro. Para Lefebvre (2008), a relação entre objetos e seres humanos é uma “via de mão dupla”, de maneira que o espaço pode, indissociavelmente, exercer uma lógica formal e dialética. No caso específico de Campina Grande, a reflexão acerca da produção do espaço é resultado de uma reestruturação do comércio local, a partir das relações estabelecidas entre os agentes produtores do espaço nos eixos de expansão de comércio ao longo do tempo.
Gottdiener (1997), em “A produção social do espaço urbano”, elucida bem algumas questões pertinentes ao espaço, ao destacar o pensamento de alguns autores, geógrafos ou não, que contribuíram teoricamente com a discussão a respeito dessa importante categoria de análise para a Geografia. O autor afirma ainda que “o espaço é uma localização física, uma peça de bem imóvel, e ao mesmo tempo uma liberdade existencial e uma expressão mental” (GOTTDIENER, 1997, p. 127). Enquanto, de um lado, o espaço deveria ser considerado como local da ação e da possibilidade social, por outro, não poderia ser reduzido às relações sociais da posse de propriedade ou a uma localização. Portanto, para Gottdiener (1997), o aspecto teórico mais importante da obra de Lefebvre seria essa natureza multifacetada do espaço.
Para Lefebvre (1991), o espaço social não é algo isolado, bem como não é um produto pronto, mas envolve as coisas produzidas, compreende as relações delas na sua coexistência e simultaneidade. Efeito de ações passadas, o espaço permite ações, a sugere ou interdita, ou seja, não dá para diferenciá-las, sendo executadas ao mesmo tempo. Tal como afirmou Carlos (2014, p. 64): “Penso que a noção de produção/reprodução e o deslocamento do enfoque eminentemente econômico da noção de acumulação permitiram considerar o movimento que vai da acumulação à reprodução como questão social [...]”.
A consequência dessa inovação teórica de Lefebvre permitiu uma reflexão conceitual em termos até então inusitados, em que o espaço é ao mesmo tempo, percebido, concebido e vivido, de maneira que nenhuma dessas três dimensões se sobrepõe umas às outras. Portanto, torna-se um desafio, inclusive para os geógrafos, difundir uma leitura de Lefebvre acerca da produção do espaço, que enfatiza os processos macro-econômicos e sociais de produção do espaço, na formação da sociedade econômica e capitalista.
Três pontos são importantes a respeito da contribuição lefebvreana, e merecem ser destacados. O primeiro trouxe à tona o aprofundamento substancial da noção de espaço no meio acadêmico da época (anos 1970); a priori, suas ideias limitaram-se ao continente europeu, e depois difundiram-se para outros países além desse continente; o segundo, a inovação teórica no debate sobre o espaço; o terceiro ponto, as possibilidades teóricas que surgiram a partir dessa noção, tendo novos horizontes no desenvolvimento dos estudos urbanos. Tamanha contribuição
faz com que os estudos urbanos da obra Lefebvre continuem intensos na Europa e no mundo Algo-Saxônico e um pouco menos na América Latina.
Voltando a discorrer sobre a especificidade da obra de Lefebvre (1991), esta reside na questão de que se pode integrar conjuntamente as categorias espaço e cidade, numa ampla e única teoria social, que permite a reflexão dos processos espacialmente produzidos. Já no tocante às categorias espaço e tempo, Lefebvre (2008) os analisa indissociavelmente como produtos sociais, no sentido em que ambos são efeitos e causas da produção da sociedade em sucessivos tempos, de modo que o espaço é inacabado e constituído com o próprio tempo.
Em suma, o entendimento é de que o espaço atual não é o mesmo de ontem, nem será o mesmo amanhã, porque está em constante transformação. Cabe rediscuti-lo teoricamente, à luz da realidade das cidades dos países subdesenvolvidos, da qual Campina Grande faz parte. Este percurso se inicia nos subcapítulos seguintes deste capítulo, a partir de uma análise dialética, com a tentativa de resgatarmos as transformações ocorridas no território de Campina Grande, buscando compreender as ações, muitas vezes conflituosas, outras vezes não, que os agentes produtores deste espaço implantaram ao longo do tempo, produzindo socialmente o espaço urbano.
2.2 Descentralização do comércio e serviços
Ao se reportar ao processo de organização do espaço, Corrêa (2011, p. 121) se refere a Harvey para destacar os “Processos Espaciais e a Cidade”. Tais processos, segundo o geógrafo brasileiro, ocorrem por meio dos responsáveis diretos pela organização do espaço, os atores sociais. Consideramos o espaço urbano um ambiente que apresenta um embate entre interesses diversos dos agentes produtores do espaço. De acordo com Corrêa (2011), os processos espaciais são os seguintes: centralização, descentralização, coesão, segregação, invasão- sucessão e inércia. Neste trabalho, utilizaremos a definição de descentralização para analisar a questão da reestruturação comercial e dos serviços em Campina Grande.
A discussão sobre o processo de descentralização inicia-se nos anos 1920, nos Estados Unidos, por meio da expansão do comércio varejista nas áreas populosas de grandes cidades, distantes da Área Central. Já na década de 1930, um dos primeiros geógrafos a debater essa temática foi Charles Colby, que identificou duas forças modeladoras do espaço urbano, que seriam as forças centrífugas e centrípetas, de modo que as primeiras, que se relacionam a fatores de repulsão das atividades de serviços e comércios para além do Centro; ao passo que as forças
centrípetas agem no sentido da atração ou permanência de certas atividades para a Área Central (RIBEIRO FILHO, 2004, p. 10).
Hall (1988), trata da suburbanização5, e também da consequente descentralização que começava a ocorrer lentamente em algumas cidades nos Estados Unidos nos anos 1920. Com o avanço do automóvel nas cidades, se fazia necessário novos espaços de consumo para além do Centro, devido à popularização do automóvel, que segundo Hirschfeldt (1986, p. 22), permitia os “deslocamentos rápidos, facilita o surgimento de núcleos habitacionais nas regiões periféricas às grandes cidades, para onde deslocam-se as famílias de renda mais elevada, em busca da tranquilidade perdida”.
Ribeiro Filho (2004, p. 10) destaca que a localização dos padrões das atividades varejistas no espaço urbano foi de fundamental importância para as análises do processo de descentralização e das transformações da estrutura comercial das cidades. Esse autor destaca a influência do Malcolm J. Proudfoot (1958), no planejamento das cidades norte-americanas nos anos 1930, quando o processo de descentralização das atividades terciárias encontrava-se em curso.
Tanto os centros comerciais, sejam planejados ou espontâneos, quanto as áreas especializadas e os eixos comerciais, representam as mudanças do processo de descentralização do comércio varejista no Pós-Segunda Guerra Mundial. Além disso, a instalação de empreendimentos comerciais, fora da Área Central, a exemplo dos shopping centers, se proliferaram nos subúrbios das cidades norte-americanas, como forma de compensar a falta de serviços oferecidos por essas cidades na década de 1950. A descentralização comercial, também tinham por objetivo oferecer serviços à população residente nos subúrbios e descongestionar o tráfego intenso de automóveis nos centros das metrópoles norte-americanas (BATISTA, 2017, p. 44).
A esse respeito, Padilha (2006, p. 55), ao tratar do surgimento desse tipo de empreendimento nos EUA, afirma que “os shopping centers surgem, principalmente, como ‘remédios’ para os males urbanos, preenchendo o vazio existencial na vida das pessoas após a guerra”. Outra característica é que estes empreendimentos situavam-se em áreas de cruzamento de rodovias (entroncamentos) somente acessíveis pelas autoestradas.
Sobre a localização dos estabelecimentos comerciais, em princípio, surgiram na periferia urbana das grandes metrópoles e tinham como objetivo descentralizar essas atividades,
5 O subúrbio norte-americano, ao contrário da ideia que se tem do subúrbio brasileiro, em muitos casos, é
habitado por um contingente da população de pessoas brancas e de poder aquisitivo de padrão médio e alto. (BATISTA, 2017, p. 44,).