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Fátima: mito ou salvação

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Academic year: 2021

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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura

Fátima: Mito ou Salvação

Carina Dias Gonçalves Esteves

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Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro

Dissertação de Mestrado em Ciências da Cultura

Fátima: Mito ou Salvação

Aluna: Carina Dias Gonçalves Esteves

Orientador: Prof. Doutora Orquídea Ribeiro

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Índice

Introdução ... 1

1.1. Conjuntura Sociopolítica na Década de 20 e 30 em Portugal ... 6

1.2 A Implementação da República e o Clero ... 10

1.3 A Política, o Povo e a Igreja ... 15

1.4.A Igreja e as Aparições de Fátima ... 17

1.5 Os Jornais da época e a Igreja ... 18

1.6 As Aparições na Cova de Iria ... 22

1.6.1 A primeira aparição: 13 de maio de 1917 ... 24

1.6.2. 13 de julho de 1917 ... 25

1.6.3. 13 de agosto de 1917 ... 25

1.6.4. 13 de setembro de 1917 ... 26

1.6.5. 13 de outubro de 1917 ... 26

1.7. O Impacto das Aparições ... 27

Capítulo II ... 28

2.1. A Igreja e as aparições da Virgem... 28

2.2. A iconografia mariana no Santuário de Fátima ... 31

2.3 A entrevista ao padre Luciano Cristino ... 42

Capítulo III ... 44

3.1 A versão Óvni ... 44

3.2 Os Ovnis e a quarta Vidente ... 5152

3.3 Fátima I e Fátima II ... 55

Capítulo IV ... 58

4.1. Virgem Maria ou Maria de Nazaré ... 58

4.2 A versão do Padre Mário de Oliveira ... 58

4.3 A entrevista ao padre Mário de Oliveira ... 59

Capítulo V ... 62

5.1 Fátima e a versão do embuste ... 62

Conclusão ... 67

Bibliografia ... 72

Webgrafia ... 73

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Anexo I ... 75

Anexo II ... 85

Entrevista ao Padre Luciano Cristino ... 85

Anexo III ... 92

Entrevista Padre Mário de Oliveira ... 92

Anexo IV ... 96

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Índice de imagens

Figura 1: Lúcia (aos dez anos de idade, ao centro) e seus dois primos: Francisco (nove anos) e

Jacinta Marto (sete anos), segurando seus terços, para rezar o rosário. ... 23

Figura 2: Ícone do Imaculado Coração de Maria, de Lioudmila Tchernetsova (1988) (Duarte 2006: 52) ... 3738

Figura 3: O Segredo de Fátima, de CristinaRubalcava (2003) (Duarte 2006: 56). ... 3839

Figura 4: Nossa Senhora de Fátima, deJosé Ferreira Thedim (1920) (Duarte 2006: 110) ... 3940

Figura 5: Virgem de Fátima, de António Teixeira Lopes (1931) (Duarte 2006: 112) ... 4041

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Resumo

As aparições de Fátima continuam, embora de uma forma muito subtil, a intrigar muitos dos que de alguma forma convivem direta ou indiretamente com a religião. Esta dissertação tem como objetivo analisar todas as teorias existentes acerca do fenómeno de Fátima, tendo como suporte as principais obras que recentemente têm abordado este tema e que serão pontos de referência para este trabalho. As obras em análise serão, entre outras, as de Fina D`Armada e Joaquim Fernandes, As Aparições de Fátima e o Fenómeno Óvni (1995) e Fátima Nos Bastidores do Segredo (2002), respetivamente, e a de Luís Filipe Torgal, O Sol Bailou ao Meio-dia (2011). A contextualização será complementada com a

História Eclesiástica de Portugal (1994) do Padre Miguel de Oliveira.

Do Padre Mário de Oliveira, serão discutidas obras incontornáveis como Fátima

Nunca Mais (2000), Quando a Fé Move Montanha (2008) ou o mais recente (e silenciado)

Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação (2009) e também um dos mais polémicos e bem documentados livros sobre a criação da mitologia fatimista da autoria de João Ilharco,

Fátima Desmascarada. A Verdade Histórica Acerca de Fátima Documentada com Provas

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Abstract

The Fatima apparitions continue to intrigue many who somehow coexist more or less directly with religion, albeit in a very subtle way.

This dissertation aims to analyze all existing theories, supported by the major works that have recently addressed the phenomenon of Fatima and that will be a reference point for this work. The works in question are, among others, by Fina D'Armada and Joaquim Fernandes, The Apparitions of Fatima and the UFO Phenomenon (1995) and

Behind the Scenes of the Fatima Secret (2002), respectively, and The Sun danced at mid

day (2011) by Luís Filipe Torgal,. The context will be complemented with the

Ecclesiastical History of Portugal (1994) by Father Miguel de Oliveira.

Father Mario de Oliveira’s compelling works will be discussed, such as Fatima

Never Again (2000), When Faith Moves a Mountain (2008) or the newest (and muted) New

Book of Revelation or the Apocalypse (2009) and also one of the most controversial and well documented books on the creation of the Fatimist mythology by João Ilharco, Fatima

Unmasked The Historical Truth About Fatima with Documented Evidence (1971) as well as Father Anibal Pereira Reis Lady of Fatima (1991).

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Dedicatória

Dedico este trabalho ao meu marido e aos meus filhos, que me apoiaram e compreenderam a minha ausência para que este projeto se pudesse concretizar. A eles agradeço toda a paciência e ânimo que me deram nos momentos menos positivos com que me deparei nas investigações que tive de realizar e todo o recolhimento que me privou de estar mais presente nestes dois últimos anos das suas vidas.

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Agradecimentos

Quero agradecer a Professora Doutora Orquídea Ribeiro sem o seu apoio e ajuda não teria sido possível de realizar este trabalho.

Gostaria de agradecer à minha mãe e irmãs que me substituíram quando não pude estar presente com os meus filhos, aquando das minhas deslocações para a realização do trabalho de campo (entrevistas e recolha de informações importantes para o estudo). Agradeço ainda a todos aqueles que acreditaram e me incentivaram de qualquer forma para a realização e finalização deste trabalho.

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Introdução

O golpe de estado de 1910 em Portugal, que derrubou a monarquia e consequente instauração da República, acabou por trazer grandes mudanças na Igreja que via todos os seus privilégios acabados. Após a aprovação da separação do Estado e da Igreja, a Igreja católica viu abolida a participação da instituição no ensino, viu ainda instituída a permissão do divórcio e a supressão das ordens religiosas, a proibição de usar a batina e assistiu ainda a uma multiplicação de ações anticlericais, como saques a igrejas e conventos. Assim, o clero perdeu o direito de comunicar com o povo e deixou de receber as tão generosas ofertas dos seus crentes da Igreja.

A Igreja católica estava desacreditada e com a implementação da República não tinha qualquer hipótese de sobreviver com escândalos atrás de escândalos, capelas destruídas e o povo cada vez mais revoltado.

Durante o período da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), Portugal teve várias revoltas contra a República e contra o facto de o Corpo Expedicionário Português (CEP) estar na guerra sem condições. Uma dessas revoltas dividiu Portugal em dois, com o Norte a proclamar episodicamente D. Manuel II como rei (Monarquia do Norte), enquanto o Sul continuava em regime republicano.

A década de 20, ou os “loucos anos 20”, ficou marcada pela evidente perda de poder da Inglaterra, pelo “crash” da Bolsa de Valores de Nova Iorque em 1929, pela grande depressão que se lhe seguiu e por uma Europa que sofria as consequências da Primeira Guerra Mundial.

Na década de 30, Adolf Hitler ascende ao cargo de chanceler na Alemanha e tem início o genocídio das ditas “raças inferiores”, em especial dos judeus, por si patrocinado. Eclode a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), na sequência da Guerra Civil de Espanha (1936-1939).

Nos Estados Unidos, Franklin Roosevelt dá início ao New Deal, o plano de recuperação económica após a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. Muitos foram os que denominaram os anos 30 como a pior década do século XX, que começou com a Grande Depressão e terminou com a Segunda Grande Guerra.

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A guerra deixou marcas profundas na economia. Saídos de um conflito mortífero os povos depararam-se com uma crise política, económica e social profunda. A economia mundial parecia não conseguir estabilizar depois do primeiro conflito mundial.

Movimentos totalitários tinham entretanto começado a impor-se em vários países europeus, com Benito Mussolini na Itália, António de Oliveira Salazar em Portugal, Francisco Franco em Espanha e José Estaline na União Soviética, além de Adolf Hitler na Alemanha.

Perante estes cenários, a crença no sobrenatural, na aparição da “mãe de Jesus” era um prenúncio. Fátima aparecia como o mito, mas também como a salvação para um povo que via o mundo em constante mudança.

A complexidade desta investigação prende-se essencialmente com o período histórico em que ocorre, particularmente a década que a envolve, com um povo algo cético, muito religioso mas também analfabeto e acrítico, na sua maioria, com a necessidade de acreditar em algo superior que acalentasse os momentos aflitivos de pobreza, fome e doença que o país atravessava nessa altura.

Lúcia revela que existiram aparições anteriores às da Virgem, aparições de um anjo, intitulado posteriormente como anjo de Portugal. Estas revelações vêm com alguns anos de atraso, pois as condições em que aparecera o anjo foram em tudo iguais às da Virgem. Lúcia escreve a sua segunda crónica e partilha, com todos os seus seguidores, as aparições do anjo, e ao manuscrito só mesmo os membros da igreja tiveram acesso.

Em 1942, Lúcia dava a este acontecimento não só um enriquecimento comparando-o com a versão original e sendo de certa forma encarada como uma profecia mundialmente acolhida. Esta nova versão introduz três novos dados importantíssimos antes não revelados, nem pelos três pastorinhos em 1917 nem pelo Padre Correia da Silva em 1930, quando o próprio reconheceu como verídicos os fenómenos de Fátima.

De acordo com a tradição das aparições de Nossa Senhora, durante o decorrer dos anos, a Senhora das Aparições indicava como oração o rosário que pode ser definido como a oração da Virgem Maria.

Após o tão esperado milagre ter acontecido, o povo estava mais interessado em ver concretizadas as previsões que Lúcia pronunciara no dia 13 de Outubro de 1917 do que efetivamente pensar se realmente o sol tinha “bailado”.

Investigadores como Fina D´Armada e Joaquim Fernandes tendem a fazer cair por terra as aparições marianas, tentando mostrar factos que se adequem essencialmente com os fenómenos ovnilogistas. Estes acontecem em paralelo, pois uns acreditam que se

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trata de acontecimentos religiosos, enquanto outros acreditam e tentam provar que se trata de fenómenos óvnis.

O fenómeno óvni torna-se numa história em que todos os que acreditam, especulam e os que não acreditam, ignoram todos os argumentos utilizados; segundo estes últimos não passa de pura especulação desvirtuada da realidade.

Aprofundando mais este facto e todo o seu conjunto relevante, D´Armada depois de analisar os documentos oficiais de Fátima, aponta para a existência de mais uma vidente (Carolina de doze anos), que de acordo com o que foi possível entender, segundo o Reitor do Santuário de Fátima, destaca-se uma frase de Lúcia relativamente a Carolina dizendo não se recordar de nada sobre este assunto.

À semelhança daquilo que o Padre Mário de Oliveira tinha escrito, Fina D´Armada também aceita o facto de existirem duas versões para o mesmo fenómeno. Assim, Fátima I corresponde aos factos ocrridos em 1917 e Fátima II corresponde aos escritos da Irmã Lúcia em 1942; desde essa altura que foi imposta uma nova teoria dos fenómenos ocorridos na Cova da Iria.

As aparições marianas vêm estabelecer uma nova doutrina dentro da Igreja onde a Virgem assume um papel idêntico ao de Deus. Esta inversão de papéis gera conflitos no sentido de saber quem deve ocupar o papel principal e a quem se deve orar e fazer o respetivo culto. Nesta mesma perspetiva analisa-se quem perentoriamente diz serem falsas as aparições marianas.

Na tentativa de mostrar as diferenças existentes entre Maria de Nazaré e a Virgem que se apresenta como Nossa Senhora, outras questões se levantam e entoam nas mentes mais sensíveis.

Na entrevista realizada com o Padre Mário de Oliveira, que gentilmente se mostrou disponível para responder a questões relacionadas com este fenómeno, obteve-se respostas diretas e concisas. O Padre Mário de Oliveira diz que ninguém garante que o “sol bailou”; afinal os repórteres que lá estiveram fotografaram um mar de gente, sendo que a própria Lúcia não viu o sol bailar, mas diz ter visto, no sol, S. José, o menino Jesus e mais umas quantas Nossas Senhoras de vários nomes. O verdadeiro milagre, segundo Lúcia, terá sido a informação que a guerra terminara, mas esta só acabou um ano mais tarde. Quanto à reportagem do jornal O Século, o padre afirma que o jornalista aceitou aquela reportagem como sendo um frete, uma vez que era ex-seminarista.

Ainda segundo o Padre Mário de Oliveira, a clausura de Lúcia foi outra monstruosidade dizendo que “quem não deve não teme” e que a verdade irá um dia ser

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revelada. O Padre Mário acredita que todos estes acontecimentos não passaram de uma encenação da própria Igreja que só assim conseguiria manter esta mentira, enclausurando-a e controlando todos os seus passos e as suas palavras. Com a clausura de Lúcia o espaço para alguma fuga de informação seria totalmente controlado e, desta forma, a Igreja manteria todo este enredo controlado.

Já o historiador Aníbal Pereira Reis, ex-padre católico e crítico da sua antiga religião, viria a criar várias controvérsias em todos os livros que publicou. Já Padre, formado e com uma depressão espiritual, decidiu estudar a Bíblia, entendê-la e desta forma obter alguma tranquilidade espiritual. Algum tempo depois conseguiu falar com um outro padre, o mesmo que o ajudaria a sair da Igreja Católica.

Pereira Reis conta a sua versão de como tudo aconteceu, evocando o relato do seu pai que, por padecer de uma doença, não estava na guerra, mas de licença por doença na sua terra natal. No dia do milagre, conta o pai do historiador, era católico desde sempre, que nada tinha acontecido, pois as pessoas que estavam molhadas saíram de lá molhadas e que sol quase que não foi visto, tamanhas eram as nuvens que o cobriam. As pessoas que saíram daquele sítio saíram felizes pelo facto de Lúcia ter dito que a guerra iria acabar. Eram famílias que desejavam que isso realmente acontecesse. Para além do testemunho do pai do escritor, existe ainda o do Padre Dhanis, jesuíta, que em 1951 propôs limpar Fátima de “Incrustações lendárias”, uma vez que o padre “aceitava algumas partes das aparições da Santíssima Virgem aos três pastorinhos em 1917 como sendo autênticas; porém, com respeito às partes da Mensagem de Fátima que foram publicadas mais tarde, exprime dúvidas sobre a sua autenticidade”1.

Para este trabalho de análise, para além da bibliografia referida, serão utilizadas referências de caráter mais teórico como as obras de Andrew Von Hendy, The Modern

Construction of Myth (2001), de Alan W. Watts, Myth and Ritual in Christianity (1954),

The Encyclopedia of Religious Phenomena de J. Gordon Melton publicada em 2008, e de Mircea Eliade, História das Ideias e Crenças Religiosas (1983). Outras obras contribuíram para a contextualização do trabalho, como The Participatory Turn. Spirituality, Mysticism,

Religious Studies (2008) de Jorge N. Ferrer and Jacob H. Sherman, e dos autores Timothy Fitzgerald e Robert C. Fuller, The Ideology of Religious Studies (2000), Spirituality in the

Flesh. Bodily Sources of Religious Experience (2008), respetivamente.

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Foi ainda importante a recolha e consulta de jornais e revistas então publicados e obras que diretamente se têm debruçado sobre o assunto para estabelecer um enquadramento sociocultural e histórico da época. Para o efeito, recorreu-se também a obras que recentemente têm abordado o fenómeno de Fátima e que serão pontos de referência para este trabalho, como de Fina D`Armada e de Joaquim Fernandes, As

Aparições de Fátima e o Fenómeno Ovni (1995) e Fátima Nos Bastidores do Segredo (2002), respetivamente. e ainda a obra de Luís Filipe Torgal, O Sol Bailou ao Meio-dia (2011). Para a contextualização recorreu-se à História Eclesiástica de Portugal (1994) do Padre Miguel de Oliveira; do Padre Mário de Oliveira, as obras, Fátima Nunca Mais (2000), Quando a Fé Move Montanha (2008) ou o mais recente (e silenciado) Novo Livro

do Apocalipse ou da Revelação (2009) são contributos a considerar num estudo como este. Um dos mais polémicos e bem documentados livros sobre a criação da mitologia fatimista é da autoria de João Ilharco e intitula-se Fátima Desmascarada. A Verdade Histórica

Acerca de Fátima Documentada com Provas (1971); de referir ainda a obra A Senhora de

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Capítulo I

1.1. Conjuntura Sociopolítica na Década de 20 e 30 em Portugal

Depois da Primeira Guerra Mundial, alguns países entram numa crise política e social profunda, com destaque para a Itália e a Alemanha por razões diferentes. Nasce uma instabilidade internacional que compromete claramente todos os acordos e compromissos assumidos pela Sociedade das Nações

Em Portugal, vive-se uma crise moral e política desde os finais do século XIX.Os Republicanos tentam a todo o custo recuperar o orgulho perdido e terminar com estas crises massivas promovendo uma ação de controlo da nação a partir de 1909.

A 3 de outubro de 1910 é assassinado Miguel Bombarda, um dos mais influentes republicanos. Alguns líderes militares tentam tomar de assalto o Palácio, mas os grupos estão demasiado isolados e o golpe acaba por não correr da forma como previsto.

A 5 de outubro de 1910 é finalmente proclamada a República anunciada por José Relvas e Eusébio Leão da varanda da Câmara Municipal de Lisboa; a família real foge e Teófilo Braga é nomeado Presidente do Governo Provisório. Este acontecimento abre um precedente, pois é por uma minoria que, pela primeira vez, é derrubado um regime político em Portugal. A República não consegue tirar o país da crise que o está a assolar; no entanto, serve para provocar reformas profundas cortando com atos simbólicos impostos pelo passado.

Nos primeiros meses da existência da Primeira República é concedida amnistia para todos os crimes contra a segurança do Estado. É também criado um novo hino nacional e uma nova bandeira. O exército é reogarnizado e é criada a Guarda Nacional Republicana2. A República tenta reorganizar o estado descentralizando a autonomia para as colónias. O registo civil é sistematizado3.

A reforma fiscal incetada beneficia os mais desfavorecidos, as medidas tomadas para suportar o défice, que a monarquia deixára, começam a dar resultado mas a guerra iria ao esforços em vão. O país adotou o escudo que se tornou na moeda utilizada em todos os

2http://www.gnr.pt/portal/internet/gabinete_imprensa/revista_gnr/edicoes/2006/n4/historias/Hist%C3%B3ria

%20armamento.pdf

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territórios portugueses. A tentativa para aumentar a produção agrícola fracassaria também com a entrada na guerra e muitas populações iriam passar fome.

Segue-se a reforma no setor da Educação. As medidas adotadas passaram pela melhoria na qualificação dos professores e pela escolaridade obrigatória para as idades dos 07 aos 10 anos. A ortografia é simplificada e o bem-estar das crianças é tomado em consideração como uma medida a desenvolver. São ainda criadas as Universidades do Porto e de Lisboa (1911).

Os trabalhadores organizam-se e começam a fazer exigências para melhorar as suas condições de vida, o direito à greve é reconhecido; é ainda votada uma lei que protege o trabalhador em caso de acidente no trabalho, o dia de descanso semanal é agora também introduzido no direito dos trabalhadores. Em 1912 dá-se a primeira greve.

Apesar do país se ter tornado oficialmente um país laíco, o povo mantém-se, maioritariamente, católico. Em 1910, as ordens religiosas são proibidas de exercer qualquer tipo de atividade letiva nas instituições educativas, proibindo-se a educação religiosa, os bens atribuídos à Igreja revertem a favor da assistência pública aos mais necessitados, institui-se o casamento civil e o divórcio é legalizado. Em 1911 proclama-se a separação do Estado e da Igreja. Estas mudanças refletem-se na vida cultural.

Surgem novos debates, novas controvérsias que levam país para uma anarquia, condenando assim o regime republicano. As esperanças depositadas neste regime vão desaparecendo. Os conflitos sociais surgem e os planos contra a Igreja tornam-se um defeito, fazendo o sucesso dos conservadores religiosos.

Alguns grupos juntam-se ao partido monarquista, exigindo o retorno do rei. Dadas as dificuldades, no dia 01 de janeiro de 1915, o presidente Manuel de Arriaga nomeia um militar, o General Pimenta de Castro, chefe de Governo. A oposição sente-se atraída pela mudança, mas os democratas e os maçons opõem-se violentamente para acabar de uma vez com a ditadura.

A República entra na guerra, apesar do seu pacifismo. Os monárquicos e o clero aliam-se à França, à Grã-Bretanha e à Inglaterra, e atenderá ao pedido dos Ingleses ao apreender os navios alemães ancorados em território português, fazendo desta forma com que a Alemanha declare guerra a Portugal em Março de 1916.

Com a entrada de Portugal na guerra, a crise política instala-se, agravando todos os setores económicos e sociais do país. A 05 de Dezembro de 1917, dá-se um golpe de estado pondo no poder Sidónio Pais, o qual toma as rédeas do governo de Portugal. A imprensa começa a ser censurada novamente.

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É neste ambiente que parte o Corpo Expedicionário Português, composto por 45000 homens preparados por José Norton de Matos, com destino a França. Outras tropas foram enviadas para Angola e Moçambique. O CEP é controlado por Gomes da Costa, sendo derrotado severamente na Batalha de Lys a 09 de Abril de 1918; Sidónio Pais recusa-se a enviar reforços para a Flandres. Portugal entra em negociações nos acordos de paz, o que permitiu a posteriori obter uma indemnização por parte da Alemanha.

No fim da guerra, o país está em falência económica e social. O número de mortos, os racionamentos alimentares, a epidemia da gripe espanhola e a repressão agravam o estado social. Foi nestas circunstâncias que Sidónio Pais foi assassinado a 14 de dezembro de 1918.

A classe operária ganha posição com a criação de sindicatos. Em 1921, é criado o Partido Comunista Português. A emigração para o Brasil aparece como saída, permitindo desta forma equilibrar a balança comercial. A todos esses acontecimentos, acrescentam-se as divisões políticas, que até 1926, fazem com que a história da República seja uma série de tumultos provocados por motins e crise governamentais.

Face a toda a agitação, são criados grupos militares com a finalidade de conseguirem estabelecer a ordem no estado social. A nomeação de um novo governo desencadeia sempre uma reação dos monárquicos. São formados grupos militares no Norte e no Sul do País como forma de prevenir que uma Nova República se pudesse instalar novamente no país. O movimento liderado por Paiva Couceiro espalha-se pelo Norte do país.

O novo governo tenta impor a sua força reforçando a GNR. Os ministérios começam a cair uns após os outros de uma forma rápida, gerando desta forma mais um fator de destabilização contra o governo em funções. Existem ameaças para desarmar esta força armada que está cada vez mais poderosa.

Na noite sangrenta de 19 de outubro de 1921, a revolta é liderada por Manuel Maria Coelho, Camilo de Oliveira e Corte dos Santos. Várias figuras republicanas são assassinadas. A 27 de novembro de 1921, o partido democrático e o partido liberal concordam em estabelecer um programa de consolidação fiscal e retomar a ordem pública. A 28 de Maio de 1926, um golpe de estado liderado pelo general Gomes da Costa põe fim à 1ª República. Este ato de revolta militar é justificado com a corrupção e degradação da vida política.

O poder fica nas mãos dos militares; o líder começa por ser Mendes Cabeçada, sendo derrubado por Costa Gomes a 17 de junho, que por sua vez foi derrubado pelo

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monarquista general João José Sinel de Cordes. A 09 de julho, é nomeado Óscar Carmona para a presidência. Até 1928 os líderes tentam restaurar as finanças sem obterem sucesso, provocando descontentamentos e novos movimentos sociais, que reforçam o autoritarismo e a repressão. Portugal procura ajuda na Sociedade da Nações.

A 27 de Abril de 1928 é nomeado, por Carmona, António de Oliveira Salazar como ministro das finanças. Considerado um homem certo para liderar este cargo após a publicação do seu plano para equilibrar o orçamento, o mesmo aceitou-o com a condição de ter autonomia de controlar todas as despesas públicas. Salazar controlaria, efetivamente, todas as iniciativas dos ministérios.

Em 1929 o equilíbrio fiscal é alcançado e continua equilibrado até à 2ª guerra. Salazar vai-se impondo lentamente e tomando o controlo total do país, alcançando autoridade para governar durante quatro décadas.

Ex-professor de economia na Universidade de Coimbra, fortalecendo o contacto com grupos católicos, conservadores e com um pensamento de compromisso político, ganha a credibilidade estrangeira, conseguindo ser um nacionalista influente, causando uma nostalgia necessária nos meios rurais, considerada ideal para poder manter as suas decisões politícas. Consegue o apoio da comunidade financeira, assim como o apoio dos líderes da Igreja e monárquicos, como também das forças armadas.

António de Oliveira Salazar fundou o seu próprio partido em 1930, a União Nacional. Em 1932, não visa só estabilizar as finanças do país, dando a conhecer quais as medidas políticas que pretende implementar ao país.

O Estado Novo é implementado em 1933. O poder nacional está nas mãos de Salazar; sindicatos e partidos políticos desaparecem mantendo-se apenas o partido Comunista fundado desde 1921, sendo severamente perseguido pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

A censura é reforçada e as greves são proibidas. Em 1936 é criada a Legião Portuguesa no sentido de educar para as novas políticas de Salazar. Em 1940 é assinada a Concordata com Roma e são novamente estabelecidos laços com o Vaticano.

Vários movimentos tentam derrubar o governo até 1937, sem sucesso. Salazar escapa mesmo a um atentado a 04 de julho de 1937. O seu poder aumenta, conseguindo governar sozinho o País, considerando-se o “Guia da Nação”.

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1.2 A Implementação da República e o Clero

A implementação da República acontece a 5 de outubro de 1910; após oito séculos de monarquia e de uma posição confortável perante o povo, o clero perde uma influência até aí inquestionável:

Para a laicização integral da vida pública e social, proibiram-se então os religiosos e sacerdotes de usar as suas vestes em público - «devendo o infrator ser preso pelas autoridades e podendo sê-lo por toda a pessoa do povo em flagrante delito». Na mesma linha, foram retirados os cruxifixos dos edifícios públicos, os nomes de santos dos quartéis e fortificações, abolido o juramento religioso, proibido o culto na capela da Universidade de Coimbra e fechados os cursos de Teologia e Direito Eclesiástico. Acabou-se, evidentemente com a formação religiosa nas escolas (Pinto 2010:119).

O clero perde grande parte das regalias e deixa de receber as tão generosas ofertas dos seus crentes. A Igreja estava desacreditada e com a implementação da república não tinha qualquer hipótese de sobreviver, com escândalos atrás de escândalos, capelas destruídas e o povo cada vez mais revoltado; estava na hora de provocar um acontecimento que fizesse renascer a fé nas pessoas, algo de extraordinário para que os membros da Igreja pudessem reaver o poder junto de quem lhe dava o sustento para as suas vidas abastadas e sem grandes sobressaltos até então (Ilharco 1971:189).

Os bispos não enfrentam estas medidas logo no imediato; perante um cenário cada vez mais violento com a expulsão de jesuítas e das ordens religiosas, a prisão de padres, agressões e humilhações pelos revolucionários, ataques cada vez mais violentos à imprensa católica e a expropriação e tutela administrativa dos bens e recursos da igreja, cujas finanças passavam a ser controladas pelas “comissões culturais”, compostas por Democratas, mais precisamente maçons e ateus (Pinto 2010: 169-171).

Em 1913, as prisões portuguesas estão cheias de opositores monárquicos católicos, sindicalistas, anarquistas, republicanos, dissidentes. Denunciados ou simplesmente presos por indícios de parentesco ou estatuto, os detidos são às centenas. O padre Avelino de Figueiredo apresenta o testemunho, em carta publicada pelo jornal O Dia a 15 de abril de 1912, das condições a que são sujeitos os presos:

Apesar de Sr. Sanches de Miranda (Diretor do Limoeiro) ter escrito na Capital que os presos não poderiam ser mantidos nas celas de segredo mais do que quinze dias, eu declaro que passei mais tempo numa das piores dessas celas. Não tinha um banco para me sentar, não tinha um garfo para comer, nem colchão para dormir. (…) A custo tinha ar para respirar (Figueiredo in O Dia, 15 de abril 1912).

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A República, proclamada a 5 de outubro de 1910, não estava suficientemente consolidada para poder sustentar e concretizar as estratégias que tinha delineado. Tornar o estado laico foi uma das poucas reformas que conseguiu implementar, com sucesso, atingindo desta forma a Igreja na sua globalidade, fragilizando-a, enfraquecendo-a e, por fim, tornando-a neutra perante a nação, ficando assim sem qualquer poder perante um povo maioritariamente rural e bastante conservador.

A República não conseguia controlar o estado social, que se revelava administrativamente catastrófico, pois a sua linha de orientação era essencialmente liberal e democrática. As dificuldades que o país atravessava a nível económico e na própria estrutura da República mostravam-se gradualmente um verdadeiro fracasso. O novo regime não conseguia o apoio da população mais rural, o que dificultou a implementação das linhas de estratégia estabelecidas. As dificuldades começavam a evidenciar-se cada vez mais, a democracia que o novo regime tinha prometido, não passara disso mesmo, uma promessa. A instabilidade que o novo regime estava a criar dificultava o “corte” de antigos hábitos, que estavam demasiado enraizados. A democracia prometida, que durante algum tempo foi tolerada, foi rapidamente silenciada. A instabilidade gerada levou o país a níveis de pobreza inferiores aos que se fizeram sentir na monarquia, muito embora se culpe a população mais rural por ter medo de votar.

A República tinha o seu maior apoio na população urbana, residentes nas grandes cidades, tais como Lisboa, entre outras, que embora mais pequenas, tinham acesso mais fácil à informação e de forma mais coerente, ao contrário das populações mais rurais que não comungavam do mesmo privilégio. Estas viviam rodeadas de uma ignorância total, seguindo diretrizes anteriores, mostrando-se relutantes às mudanças que o país tentava levar por diante.

A primeira guerra mundial criou e aprofundou o buraco no qual a República se encontrava. O abismo era cada vez maior, mais sombrio entre o estado e a sociedade Portuguesa. Portugal entrava num período “negro”; de janeiro a maio de 1915 o general Pimenta de Castro governava o país a margem da constituição. A obrigação de uma intervenção militar imposta em 1916 pelo chamado Partido Democrático agravava a situação económica e social do país, descredibilizando as tentativas do regime de Afonso Costa em conseguir o apoio da nação. Em Dezembro de 1917 uma revolta militar deu origem à ditadura de Sidónio Pais. Após a morte do ditador em 1918 e de um ano de guerra civil, o regime parlamentar conseguiu de novo implementar-se pela segunda vez, agora como a “República Velha”, não tendo grande viabilidade e não durou muito tempo.

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A crise que assolava Portugal no seguimento do pós-guerra não deixara que o liberalismo republicano fosse viável (Gómez 2011:11-14). O estado estava cada vez mais endividado, a desvalorização do escudo aumentava, levando a uma baixa nos rendimentos da classe média e dos trabalhadores no geral.

O panorama político estava mais enfraquecido, os democráticos continuavam a controlar a maioria dos governos, embora já não contassem com a liderança de Afonso Costa, uma vez que o projeto levado a cabo em 1910 estava esgotado e envelhecido.

Em 1920 o Integralismo Lusitano foi ganhando forma de um “catecismo doutrinal e nacionalista” autoritário e antidemocrático, elevando os universitários, intelectuais e oficiais de baixa patente. A Igreja estava novamente integrada nos partidos opostos à República desde 1917, apoiando os antiliberais. A Igreja sempre se mostrou contra os ideais da República, sendo um opositor declarado, desde a constituição da mesma. Chegava a hora de estabilizar os grandes interesses económicos que constituíam a base política da República.

O exército aumentava novamente o seu poder em relação ao estado-nação. A crise no estado social aumentava o receio dos governantes, pois estes não conseguiam controlar o exército. Esta situação agravou-se com a entrada de Portugal na guerra. Desde 1915 e entre 1917 e 1918, e na sequência da derrota contra a revolução monárquica em 1919 e com o reforço da Guarda Nacional Republicana, pilar fundamental deste regime, conseguiu controlar as ameaças do exército. No entanto, em 1926 o exército acabaria com a República Parlamentar levando finalmente à superação do modelo político e económico do Liberalismo.

O Presidente da República Portuguesa, Bernardino Machado, entregou a Mendes Cabeçadas o governo a 30 de maio de 1926. Com o exército a ameaçar Lisboa e na eminência do despoletar de uma guerra civil, Mendes Cabeçadas teve de negociar com Sinel de Cordes, que já estava desconfiado do golpe que estava quase a acontecer. Este, por sua vez, mantinha o controlo de toda a conspiração a nível nacional, conseguindo desta forma que o exército iniciasse a intervenção militar, partindo um regimento do Norte e outro do Alentejo para o bastião republicano, com a finalidade de se evitar uma guerra civil. Mendes Cabeçadas negoceia com Sinel de Cordes um novo governo. Este novo governo não durou muito tempo, pois Mendes Cabeçadas rejeitou a validação de um projeto político com inspiração antiliberal, forçando-o abandonar a Presidência a 18 de Junho sendo substituído por Gomes da Costa, até então na pasta de Guerra, que passou a acumular a função de chefe de estado.

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O novo governo apresenta uma política conservadora. A 7 de julho de 1926 entravam personalidades da direita radical, dando origem a mais uma intervenção por parte do exército, para controlar a situação que estava novamente fora do controlo dos governantes. A intervenção liderada por Sinel de Cordes forçou a demissão de Gomes da Costa, sendo este substituído pelo general Carmona. Carmona era tido como uma figura respeitável e prudente nas suas atitudes perante a sociedade em geral. Republicano e antigo maçon foi promovido a chefe de estado a 16 de Novembro de 1926. Foi desta forma que se conseguiu o equilíbrio que englobava todas as posições maioritárias das forças armadas. Em março de 1928 o general Carmona foi consagrado Presidente da República. A gestão financeira do país estava a cargo de Sinel de Cordes, revelando-se um verdadeiro fracasso e deixando Portugal a beira da bancarrota. O governo viu-se obrigado a recorrer, em 1927, à Sociedade das Nações, com a finalidade de conseguir um empréstimo que financiasse o país e conseguisse resolver os problemas económicos pelo qual estava a atravessar. Este pedido de ajuda externo não foi bem aceite pela sociedade em geral dando origem a duras críticas, pois as condições em que Genebra cederia o empréstimo eram tidas como um atentado ao “brio nacional” renunciando desta forma, Portugal, ao empréstimo que tinha solicitado. A primeira consequência, após o pedido de empréstimo, foi o fim da carreira de Sinel de Cordes, que controlou durante dois anos as contas do regime, levando posteriormente à bancarrota.

António de Oliveira Salazar era uma personagem discreta e fora escolhido pelos militares para o restabelecimento do sistema económico e financeiro. A entrada de Salazar para ministro das finanças fortaleceu uma ditadura militar provisória, num estado autoritário estruturado. Em 1933 é criado o Estado Novo, altamente personalizado. Após 40 anos de crise, o liberalismo nacional foi definitivamente substituído por um sistema antidemocrático, mostrando muitas diferenças comparativamente com outras ditaduras (Gómez 2011: 20-25).

Salazar nasceu numa pequena localidade do Vimeiro. De origens familiares humildes, passou vários anos no seminário. Ambicioso, integrou em 1910 os estudos de Direito na Universidade de Coimbra, onde viveu como militante católico nos anos anticlericais da Primeira República. Passados quatro anos doutorou-se e acedeu à cátedra de Economia Política, sendo-lhe reconhecidas apetências nas questões financeiras. Tornou-se em 1922 numa das personagens com maior destaque no Partido Católico, fundado em 1917, delineando estratégias, numa tentativa de intervir no regime republicano, defendendo sempre os interesses da Igreja.

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Em 1921 Oliveira Salazar teve uma breve experiência como deputado pelo Partido Católico e já em 1923 era tido como uma esperança para a estabilização da economia; no entanto, o governo durou poucos dias, e este regressou à sua cátedra em Coimbra. Apesar desta instabilidade foram publicados vários artigos da autoria de Salazar em forma de crítica editada pelo jornal católico, tornando-se assim uma necessidade para o governo em funções de integrar Salazar no ministério. Capaz de enquadrar e restaurar as finanças públicas, Salazar, à semelhança de Oliveira Martins ou João Franco, entendia que era impreterível superar uma política liberal. Após ter sido chamado a integrar o governo, Salazar fez exigências para aceitar a pasta das finanças, sendo estas exigências relacionadas com os outros magistérios. Para aceitar a pasta das finanças todos os outros ministérios teriam de ser controlados por António de Oliveira Salazar. Exigências aceites, proclamava-se um estado que enveredaria pela moral e que, acima de tudo, não fosse violento. Os valores tradicionais deveriam regressar e permitir que a nação voltasse à ordem. Com os poderes que lhe foram dados ao assumir a pasta das finanças, Salazar conseguiria, num curto espaço de tempo, reequilibrar as finanças públicas, deter o défice e revalorizar o escudo, extinguindo definitivamente a dívida pública. O sucesso da sua estratégia desencadeou, de forma inédita, um impacto positivo nas classes sociais.

A União Nacional, que começará a estruturar-se em julho de 1930, integrava antigos militantes de diferentes áreas políticas, compostas por monárquicos, republicanos, católicos, sendo estes conduzidos com diplomacia política por António de Oliveira Salazar. Em 1936 é criada a Mocidade Portuguesa que tinha como principal objectivo mobilizar os jovens contra uma ameaça comunista. Esta ameaça era limitada uma vez que o país era maioritariamente rural, onde a hierarquia era respeitada e seguida sempre na ordem que se desejava. O magistério da escola e o poder da Igreja nesses meios funcionavam como instrumento de controlo para mobilizar o povo à submissão (Gómez 2011: 26-30).

Os atentados contra o salazarismo foram sendo sucessivamente derrotados; o primeiro atentado, em 1932, foi obra da oposição política, seguindo-se com a oposição social completamente controlada em janeiro de 1934. Em 1936 conseguiu controlar as forças armadas que eram a principal ameaça ao regime.

O Estado Novo estava bem estruturado entre os anos de 1936 e 1945 e Salazar concentrou todas as suas atenções nos problemas internacionais. As suas habilidades na política conseguiram consolidar a Aliança Inglesa, como uma estratégia voltada mais para o continente, uma necessidade inerente aos interesses do país. Portugal saiu enriquecido,

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embora em 1942 se tenha visto obrigado a rever a sua inicial “neutralidade geométrica” (Gómez 2011: 31-43).

O povo não tinha voz, e aqueles que se atrevessem a expressar um pensamento considerado não apropriado pelo regime, eram enclausurados em estabelecimento prisional. O ano de 1928 é também o ano em que o regime político toma a decisão de engrandecer o local onde Nossa Senhora aparecera aos três pastorinhos, aparições essas que até à data ainda não tinham sido reconhecidas pelas entidades eclesiásticas.

Foram todos os contribuintes portugueses que construíram Fátima; o grande templo de fé torna-se então uma verdadeira máquina de fazer dinheiro. A ajuda do regime de Salazar tornou-se decisiva para que se construísse o Santuário de Fátima. Desta forma, a origem do Santuário de Fátima demonstra que o regime de Salazar foi essencial para que a Igreja se estabelecesse de forma estável e estruturada. Em 1934, o episcopado português resolve reestruturar a Igreja de forma mais abrangente e hierarquizada, sendo que as alterações que fazem tornam o Santuário de Fátima o local de culto mais importante de Portugal.

É em 1938, ano de grande abundância para Hitler, Mussolini e Franco, que a Nossa Senhora de Fátima se torna um ícone de religiosidade inquestionável em Portugal, tornando-se desta forma uma fonte de fé e inspiração para todo o povo português.

1.3 A Política, o Povo e a Igreja

O Estado Novo de Salazar era um regime autoritário, conservador, católico e nacionalista, mas sobretudo anticomunista.

Na doutrina de António de Oliveira Salazar, o estado tem o dever de servir e proporcionar uma economia organizada e corporativa. O político é também conhecido pela simplicidade em que vivia. Salazar não introduz o seu próprio culto, ou o culto à sua personagem à semelhança do que fizeram outras ditaduras contemporâneas. As palavras de ordem são “Deus, Pátria e Família”.

Os sindicatos e os meios de comunicação independente são proibidos assim como qualquer manifestação contra o regime político. O Partido Comunista Português, na clandestinidade, continua a manifestar as suas ideias contra o regime. Salazar fortalece o seu partido, a União Nacional, associando-se à Igreja e às corporações romanas para

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assumir o controlo da sociedade portuguesa. Com um regime corporativista, Salazar inspira-se essencialmente em encíclicas papais. As políticas agrícolas impostas pelo regime são criticadas positivamente por outros países.

Fiel nas suas convicções anticomunistas, Salazar apoia Francisco Franco na guerra civil espanhola lutando contra os Republicanos. Portugal torna-se lugar de passagem de armas e aviões fornecidos pela Alemanha nazi e fascista em favor do nacionalista espanhol, permitindo ainda que 12 000 portugueses participem na batalha contra os republicanos. A ajuda de Salazar foi decisiva na vitória de Franco contra os republicanos.

A personalidade de Salazar contrasta com a de outros ditadores da época, levando uma vida simples e humilde, como afirmado, protegido apenas por dois guardas. Salazar vê na Igreja um veículo que permitiria entrar num enquadramento político, com a finalidade de unir a nação, com uma única religião, sendo esta a alma daquela. Por esta razão, António de Oliveira Salazar reconheceu a importância da religião católica na Concordata, instituindo-se como a “Religiao da Nação”.

A Concordata consagra a importância da religião no regime salazarista, reiterando a importância da ligação da Igreja e dos fenómenos religiosos como um fator determinante para a reintegração de Portugal na sua linha de unidade moral4. A Concordata veio assim

fortalecer e proteger as entidades religiosas católicas, dando-lhe a reintegração na sociedade portuguesa. A Igreja reganha direito de propriedade obtendo também a proteção do Estado que considera a instituição um elemento fundamental para o enquadramento das populações com a missão de educar e dirigir escolas. Os sacerdotes, bispos e arcebispo são autorizados a exercer as suas rezas e as suas missões são consideradas importantes e de utilidade pública. O governo dirige todas as missões católicas, concedendo ainda à hierarquia católica o acesso ao primeiro escalão das pessoas mais importantes do país, caminhando lado a lado a Igreja e o regime político. A Igreja colabora com este regime abstendo-se de falar sobre assuntos que possam suscitar alguma reação contrária da sua parte como, por exemplo, a colonização.

Apesar da oposição de sectores progressistas da Igreja e de figuras como o bispo do Porto António Ferreira Gomes, constata-se que a Igreja foi um pilar fundamental para a formação e coesão do regime político de António de Oliveira Salazar. Este regime foi sempre fiel à sua palavra no decorrer dos anos em que se manteve no poder, mesmo com

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várias imperfeições cumprirá os acordos estabelecidos com o Papado e a Santa Sé, dando assim oportunidade à Igreja Católica de recuperar a sua influência tanto em território nacional como nas suas colónias. Todas as decisões implementadas visam a acreditação e implementação da religião católica como sendo a religião predominante e oficial. Mesmo após o documento oficial da separação da Igreja e do Estado, este declarou-a a religião oficial e nacional.

A Igreja, por sua vez, também cumpre com as propostas impostas pelo governo, atendendo à conjuntura governamental anterior, e aceitou as imposições e as limitações de bom grado. A Igreja torna-se assim o pilar fundamental para o bom funcionamento e consolidação da governação do Estado Novo.

1.4.A Igreja e as Aparições de Fátima

Galamba de Oliveira começou a reescrever a história das aparições de Fátima, num livro intitulado Jacinta, uma reedição de todos aqueles que são efetivamente os relatos de 1917. Esta nova versão introduz três novos dados importantíssimos antes não revelados, nem pelos três pastorinhos em 1917 nem pelo padre Correia da Silva em 1930, quando o próprio reconhece como verídicos os fenómenos de Fátima.

Um dos fatores que de certa forma abona a favor dos três pastorinhos é o facto dos mesmos serem cultural e intelectualmente débeis, livrando-se desta forma de qualquer tipo de especulação vinda dos teólogos mais sábios e céticos. A juntar a tudo isto, Portugal é indiscutivelmente um país mergulhado numa miséria profunda, o povo não tem alimentos e tudo o que na verdade lhe resta é alimentar o seu corpo espiritual, enchendo-o de fé e esperança. Verifica-se, portanto, que desde 1917, ano das aparições, até à década de 40, estas não têm grande relevância; começam a ter alguma importância quando a ditadura de Salazar lhes dá um empurrão decisivo para a uma credibilização e para a faturação das mesmas, no seguimento de várias manifestações do povo pela necessidade em ter algo de muito profundo e viável que lhe assegure alguma estabilidade emocional, dada a conjuntura em que se vive política e socialmente. A opressão é muita, a liberdade de expressão inexistente. Com tantas declarações de Salazar em prol da Senhora de Fátima, o povo entende que apesar de ser um ditador austero, também tem na sua caminhada a religião como forma de levar todos os seus intentos ao fim. Dúvidas que possam ter relativas às aparições certamente que existem em todos aqueles que vivem nessa altura. No

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entanto, dificilmente podem pronunciar-se contra, pois o membro mais importante do governo português é defensor de toda esta conjuntura religiosa. As dúvidas ou as certezas que o povo tem, ficam apenas nas cabeças de quem as pensa, pois pronunciar o que quer que seja, que não seja de encontro àquilo que o Presidente do Conselho pensa, pode valer-lhes uma estadia na prisão por ele mandada construir e criteriosamente dirigida por um membro da Igreja.

Por tudo isto, e ao longo destas últimas décadas, aquela pequena capelinha erguida em 1917 torna-se num gigantesco monumento de propagação de fé e aceitação.

1.5 Os Jornais da época e a Igreja

Ao longo desta dissertação analisa-se ainda o que foi noticiado sobre os fenómenos ocorridos na Cova de Iria em 1917. Em primeiro lugar destaca-se a edição de 13 de outubro de 1922 do jornal A voz de Fátima publicado em Leiria. Passados cinco anos após as aparições na Cova da Iria, o Visconde de Montelo escreve e edita com aprovação eclesiástica um texto dedicado aos fenómenos ocorridos. Entende-se que o texto redigido é feito a pedido de várias solicitações sobre o assunto. O autor refere que escreve humilde e despretensiosamente, colaborando com todos aqueles que estão interessados em saber o que realmente ocorreu naquele dia; escreve para todos os portugueses que “amam estranhamente” a Igreja e a Pátria (Montello 1922: 2).

O Visconde relata os fenómenos como sendo uma série de acontecimentos “extraordinários”. Começa por descrever que ao meio dia solar três crianças, depois de rezarem o rosário, viram aparecer-lhes uma donzela debaixo de uma azinheira. Tal como se relata no livro Os episódios maravilhosos de Fátima, a donzela não parecia ter mais do que dezoito anos, e rosto que se diz ter linhas de nobreza. Segue-se a descrição da indumentária, rematando a visão como que se a donzela brilhasse mais do que o sol, com uma beleza superior à beleza humana. A aparição pediu às crianças que voltassem àquele sítio no dia 13 dos meses seguintes até outubro.

Relata-se, neste seguimento, o aumento de peregrinos que se dirigem ao local durante estes meses, aumentando de mês para mês. De referir ainda que, durante as aparições, a donzela fazia vários pedidos a Lúcia. No artigo de 1922, o Visconde recorda que um dos vários pedidos feitos por aquela donzela era a recomendação para rezarem o

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terço e o arrependimento dos pecados para “aplacar” a justiça divina e suspender os castigos.

A primeira visão que os três pastorinhos tiveram anunciou que a treze de outubro de 1917, iria operar um milagre para que todas as pessoas acreditassem nas aparições que tinham sido anunciadas. O Visconde afirma que a aparição de treze de outubro acontecera tal e qual fora anunciado, ao meio dia solar Nossa Senhora do Rosário surgiu na presença de uma multidão “inumerável” de todas as classes sociais. Assiste-se a um fenómeno estranho considerado “um sucesso inaudito”, “tão prodigioso acontecimento” impossível de esquecer. Refere-se ainda ao fenómeno como astronómico ou metereológico, que os aparelhos dos observatórios não conseguiram registar, um fenómeno que corre até “aos confins do mundo”.

Depreende-se que nada seria capaz de deter a marcha vitoriosa da corrente humana que, de forma constante, continua a ir ao local onde tudo aconteceu, lugar esse que o Visconde de Montelo descreve como um lugar privilegiado.

Relativamente a todas as pessoas que se opõem às aparições, o autor considera-as como “indivíduos de uma inferioridade mental” que tentam de forma repetitiva e “ignóbil” destronar a vitalidade religiosa de todo um povo. Confirma-se nesta edição que a autoridade civil “ludibriada” impede todos aqueles que atentem ao local como já anteriormente acontecera, destruindo a capelinha das aparições com bombas de dinamite. Sugere ainda que as aparições nada têm de hostil sendo apenas de ordem religiosa. Refere que a autoridade eclesiástica esteve durante um período de quatro anos numa atitude de “benévola” expectativa e resistindo a solicitações populares. No entanto, decidiram ser oportuno quebrar o silêncio, com prûdencia e “sabedoria admirável”, por uma comissão de inquérito. A sociedade, no geral, anseia saber, diz, o que realmente aconteceu e passados cinco anos ainda são solicitadas informações sobre os acontecimentos de treze de maio a treze de outubro de 1917 por países como a França, a Espanha, a Inglaterra e o Brasil.

Muitos são aqueles que chamam Nossa Senhora de Fátima como a Lourdes Portuguesa, mas muitos ainda têm dúvidas sobre o que realmente aconteceu na Cova da Iria. Desta forma o escritor deste artigo diz que a revista que o publica quer apurar definitivamente a verdade sobre o fenómeno. Contudo, em nota de rodapé, o Visconde reconhece que só o magistério eclesiástico tem autoridade e competência para apreciar e reconhecer este tipo de fenómenos.

Na edição do Jornal de Notícias publicada a treze de maio de 1949, o enviado especial aí presente assiste às homilias no santuário concluindo ser “um espetáculo” para

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“um mar de peregrinos” eque o acontecia nesse dia acontecia todos os anos. Informa que estariam no recinto cerca de meio milhão de peregrinos. Os meios de transporte utilizados são variados, automóveis são milhares fazendo fila indiana em direção ao Santuário de Fátima; diz ainda que a fila dos carros faz-se sentir em Coimbra, localidade que fica a duas horas de Fátima. Carroças, bicicletas e jericos fazem também parte dos meios de transporte que os peregrinos usam, existindo também aqueles que fazem o percurso a pé. As peregrinações demoram dias a fazer-se, refere o enviado especial, pelo que os peregrinos chegam no dia das celebrações exautos mas com uma fé inabalável.

Durante a manhã de 13 de maio de 1949, o sol é abrasador e à tarde a chuva é milagrosa mas impenitente. O jornalista escreve que nem com este tempo os peregrinos desistem da sua jornada de fé. Às três da tarde cai sobre Fátima uma trovoada longa e forte. Estão presentes altas individualidades do clero estrangeiro tais como os Arcebispos de Indianopolis e Ottawa, os bispos de Gravelburg (Canadá), de Namur e de El Paso. Ao longo do relato deste mesmo dia, o jornalista escreve que o mais impressionante é que todos os peregrinos mostram os seus males à Nossa Senhora de Fátima e esperam dela milagres de cura, sendo a única forma de conseguirem resolução e salvação. Os peregrinos aguardam no recinto pela benção aos doentes. Ao anoitecer deixa de chover, dá-se o espetáculo da procissão das velas. A multidão entoa o terço do Rosário em coro pela noite fora.

O evento é de tal forma intenso que o jornalista diz não ser possível descrever algo que de facto só se consegue entender se for vivido. O momento é tido como grandioso. A continuação da reportagem é feita no dia 14 de maio de 1949, dia em que se terão dado acontecimentos extraordinários na Cova da Iria. Afirma-se que ocorreram três milagres que a Virgem concedera aos peregrinos. Entre os vários sofredores que vieram implorar por um milagre, encontra-se o filho de um casal americano Tomas Burke “atacado por um mal” que só Nossa Senhora poderia curar, pois os médicos consideravam a doença como incurável. Destaca-se também uma doente de Vila Verde, Alijó. O jornalista descreve a importância do amor à Virgem por parte dos portugueses:

só na fé de Deus pode a humanidade encontrar o entendimento e a paz”.(...) As súplicas de cura sucedem-se e de repente dá se a primeira benção, foram abençoados milhares de peregrinos. (...) todos sentiram a fé a ser reposta em suas oraçoes com a certeza que se não foram curados desta vez serão curados para a próxima (in Jornal de Notícias de 14 de maio de 1949).

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Ouvem-se burburinhos, pois diz-se entre os peregrinos que acontecera mais um milagre. O jornalista atento ao acontecimento tenta chegar o mais próximo possível dos miraculados. Isabel Roseiro, 28 anos, de Castelo Branco, estava paralítica e conta a sua história. Relembra que desde há sete anos estava presa a uma cama com uma úlcera no estômago e uma descalcificação na espinha dorsal, estivera internada sem se levantar durante 15 meses, até àquele dia 14 de outubro de 1949, data em que Nossa Senhora a abençoou com a cura. As pessoas querem falar com a miraculada, ela atende a todos aqueles que a abordam e perguntam o que ela sente, respondendo apenas que sente uma alegria imensa. Adelaide Rosa Gomes é mais uma das miraculadas do dia 14 de outubro de 1949; “louca de contente”, a senhora de 42 anos que reside em Barros, Póvoa de Varzim, diz ter ficado a rezar todo o dia para que Nossa Senhora a curasse, pois estava paralítica há nove meses e esteve vinte dias sem comer e sem beber. As referidas miraculadas são chamadas por médicos para se certificarem do que realmente aconteceu, mas essa informação não foi possível obter.

A terceira miraculada foi a menina Maria José Baptista Esteves, de Abrantes, pessoa avistada numa maca pelo jornalista com um ar de pessoa “mentalmente inútil”; contou ela, com lucidez, que já há cinco anos sofria de “desarranjo mental”, fez vários tratamentos, mas nenhum deles resultou. A família acabou por levá-la à “socapa”, não tendo os médicos oportunidade de reconhecer o milagre.

A treze de Outubro de 1951, o jornal O Século faz uma reportagem sobre o espetáculo que acontece neste dia no santuário de Fátima. Estão presentes individualidades do mundo inteiro, ansiando pela paz no mundo através das suas orações. Os enviados especiais dizem que ali não há classes sociais, existem apenas pessoas unidas pela mesma fé.

Os relatos dos enviados especiais são feitos ao pormenor, desde uma senhora que cumpria a sua promessa de joelhos aos que percorrem grande número de quilómetros para chegar ao santuário. Outros assuntos que se destacam de igual forma são as celebridades que vêm do mundo inteiro, as famílias importantes que também elas são devotas de Nossa Senhora de Fátima. Apontam-se nomes de personalidades de todos os países, uns com mais descrição do que outros.

Escreve-se ainda sobre a saída das Carmelitas para a peregrinação na Cova da Iria, sobre os quinze bombeiros que prestam serviço e agradecimento à Virgem, sobre a produção cinematográfica relativa às aparições da Virgem e sobre um livro editado pela Secretariado Nacional de Informação (SNI) traduzido em várias línguas.

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Já o jornal Diário de Lisboa, relativamente às celebrações dos dias 13 e 14, apresenta no seu todo um relato do número de peregrinos que lá acorreram, concentrando figuras importantes do governo português, assim como de países estrangeiros, ou seja, em tudo semelhante aos relatos do jornal O Século, dando de igual forma a descrição horária dos eventos religiosos que se alargaram do dia 13 para o dia 14 de outubro. A edição deste artigo foi visada pela comissão de censura.

1.6 As Aparições na Cova de Iria

As aparições de Fátima continuam, embora de uma forma muito subtil, a intrigar muitos dos que de alguma forma convivem direta ou indiretamente com a religião. As aparições foram alvo de várias críticas, muitas delas vindas da própria Igreja. No entanto, os membros desta religião estiveram sempre no momento certo e na hora certa, para tirar daí os seus dividendos. Apesar das declarações que se fazem tanto a favor como contra as aparições, o que é facto é que as mesmas continuam envoltas de um secretismo que faz levitar a imaginação dos mais curiosos. O cenário pouco transparente e as várias especulações sobre as mesmas despertam um sentimento de receio ao relacionar os factos a alguns relatos escritos, disponíveis a qualquer pessoa que os queira consultar.

A história das aparições de Fátima tem como protagonistas três crianças, Francisco Marto, de nove anos, Jacinta Marto, de sete anos e Lúcia de Jesus dos Santos, de dez anos. Francisco Marto, filho mais velho de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus dos Santos; é uma criança típica do Portugal da época. Não sendo obrigatório ir à escola, não frequenta o ensino primário e trabalha, guardando um rebanho de ovelhas em conjunto com a sua irmã Jacinta e a sua prima Lúcia. Nossa Senhora terá sugerido, numa das aparições, que Francisco estudasse, pelo que ingressará no ensino primário, mas acaba por deixar de assistir às aulas.

Jacinta Marto, filha mais nova de Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus dos Santos, é uma criança que crescera na aldeia. A sua educação basea-se fundamentalmente num seguimento religioso profundo. Trabalha com o seu irmão Francisco e guarda o mesmo rebanho de ovelhas. Inicia a instrução primária após a Nossa Senhora lhe ter recomendado.

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Lúcia de Jesus dos Santos nasceu no lugar de Aljustrel, próximo de Fátima. É filha de António dos Santos e de Maria Rosa e irmã mais nova de sete irmãos. Com apenas dez anos Lúcia transforma aquilo que poderia ter sido uma vida de maior conforto e alegria numa clausura que só teve fim com a sua própria morte em 2005. Lúcia de Jesus vê toda a sua infância perdida no momento em que se torna a vidente de Fátima mais procurada por todos aqueles que nela acreditam. Como anunciou a Senhora de Fátima, Lúcia de Jesus é a única sobrevivente desta história; as outras duas crianças, tal como a Senhora tinha anunciado, acabam por sucumbir. Lúcia de Jesus é a única que sobrevive para relatar os acontecimentos. Nesta ordem de acontecimentos, a Virgem não pede só às crianças que rezem e se sacrifiquem. A Virgem pede também a contribuição do povo, para os padres poderem prosseguir com a sua missão.

Lúcia revela que existiram aparições anteriores às da Virgem, aparições de um anjo, posteriormente intitulado como Anjo de Portugal. Estas revelações são feitas com alguns anos de atraso, pois as condições em que aparecera o Anjo foram em tudo iguais às de Nossa Senhora da Fátima.

Os membros da Igreja andavam em constante sobressalto, confirmando alguns raciocínios de quem escreve acerca destes acontecimentos. De facto, seria uma grande catástrofe para a Igreja ser relacionada com algum tipo de esquema para ludibriar todos aqueles que acreditam nos seus ensinamentos.

De acordo com o que a Irmã Lúcia escreve, nota-se um aumento na história, com várias perguntas feitas por Lúcia que não constam nas edições anteriores que se fizeram a este respeito. Estas declarações, feitas passados vários anos, suscitam algum desconforto a quem tem dúvidas relativamente às aparições, ou seja, questiona-se se as mesmas aconteceram de facto e como aconteceram. Com um discurso muito imaginativo, o relato feito por uma criança de dez anos em nada tem a ver com os relatos feitos por Lúcia, em adulta, na sua segunda obra escrita denominada Memórias da Irmã Lúcia II, vinte e quatro anos após os acontecimentos em questão.

Os relatos feitos pela vidente Lúcia, nas respetivas épocas, foram vagos, pouco esclarecedores. No entanto, as palavras utilizadas eram já algo peculiares para uma menina

Figura 1: Lúcia (aos dez anos de idade, ao centro) e seus dois primos: Francisco (nove anos) e Jacinta Marto (sete anos), segurando os terços, para rezar o rosário.1

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de dez anos, sem acesso ao ensino primário. Por outro lado, os discursos dos seus primos são mais coerentes, até porque só viram Nossa Senhora uma vez; depois disso remeteram-se ao silêncio e direcionaram os interrogatórios para a prima Lúcia.

As aparições andam basicamente em torno destas personagens. Mas como é que a Igreja pôde autenticar as aparições e estas não serem tidas como meras alucinações individuais ou coletivas? Este fenómeno entende-se como algo que não está acessível aos olhos e as palavras que dele decorrem não podem ser entendidas por todos os mortais.

Lúcia terá a tarefa de propagar a mensagem de Fátima, pois Francisco Marto morre com a gripe espanhola em 1918 e Jacinta Marto morre em 1919 com mesma doença. Das três testemunhas, tal como a virgem anunciara, ficou uma só.

Só com muitos sacrifícios se consegue o bem-aventurado lugar no céu ao lado de Jesus e de Deus, o criador do mundo; se tal não acontecer arderá no fogo do inferno para toda a eternidade; aquele foi o caminho para o qual a Virgem Santíssima direcionou todos aqueles em que nela creem.

1.6.1 A primeira aparição: 13 de maio de 1917

A Virgem aparece aos três visionários. Lúcia pede aos seus primos para não revelarem o acontecido, mas à semelhança do que aconteceu a Bernadette Soubirous, que pediu para não revelarem o que tinha acontecido às duas crianças que a acompanhavam naquele dia, tal como Toinette traiu Bernadette, também Jacinta trai Lúcia contando o que tinha acontecido naquele dia à sua mãe. A reação da mãe de Jacinta foi a mesma reação da mãe de Toinette, pedindo-lhe para não envergonhar a família e não andar a contar mentiras, pois o povo iria começar a falar se ela espalhasse tal história.

Não acreditarem que as suas filhas tinham presenciado um verdadeiro milagre não se coaduna com o facto de serem mães devotas à Virgem Santíssima, de rezarem todos os dias o terço ou de lerem as passagens religiosas semelhantes aos relatos das crianças.

Tal como a Virgem pediu, os três visionários compareceram ao encontro marcado durante os seis meses seguintes, no mesmo dia e à mesma hora. Passado um mês da primeira aparição, começa a espalhar-se o boato sobre o que estaria a acontecer com alguns crentes na Cova de Iria. Aguarda-se então que aconteça a almejada aparição, rezando enquanto se espera que a presença divina se manifestasse. Lúcia garante aos que estão presentes que a Virgem vai aparecer. A Virgem começa a falar com ela, mais ninguém

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ouve nem vê o que quer que seja. Só Lúcia é que tem o privilégio de viver e relatar aquele momento. Após uns ajustes e acrescentes na oração dados pela Virgem Santíssima, anuncia que os pecadores pagarão por tudo aquilo que de mau tinham cometido revelando também que os dois irmãos Francisco e Jacinta Marto iriam partir em breve, com uma ressalva muito importante para Francisco, isto é, ele teria de rezar muitos terços para alcançar a paz eterna e garantir um lugar no Céu. Nessa mesma aparição foi revelado a Lúcia um segredo, o qual a própria prometeu nunca revelar a ninguém.

A trajetória das aparições segue o mesmo caminho das aparições de Lourdes, em França; as semelhanças são praticamente irrefutáveis, sendo que o que efetivamente as separa são os anos em que as mesmas aconteceram, Lourdes em 1858 e Fátima em 1917.

1.6.2. 13 de julho de 1917

Na terceira aparição da Virgem, Lúcia pede aos cinco mil seguidores que fechem os guardas chuvas, pois a Virgem estaria a chegar. Passam-se alguns minutos e Lúcia não expressa nenhuma palavra. Jacinta olha para Lúcia com um ar preocupado, pois esta não esboça nenhum tipo de expressão, deixando todos os que estavam presentes em dúvida sobre a aparição. Jacinta questiona Lúcia, porque não fala com ela e toca-lhe com o seu cotovelo. Lúcia começa a falar, perguntando-lhe o que quer dela, ao que responde que se sacrifiquem pelos pecadores e que peçam a Jesus que perdoe todas as ofensas proferidas contra o imaculado coração de Maria. Mostra a imagem do Inferno, a qual foi durante vários anos parte do segredo que Lúcia não podia revelar. Todos os presentes, nada presenciaram, somente Lúcia é que relata esta visão tão assustadora que a Virgem fez questão de mostrar supostamente às três crianças. Depois da visão do inferno, a Virgem ensina mais uma oração às crianças para que estas a rezem depois do terço (Marchi 2008: 69-75)

1.6.3. 13 de agosto de 1917

A 13 de agosto de 1917 cerca de 20.000 pessoas aguardam com muita expectativa a aparição de Nossa Senhora, mas, neste dia, a Virgem não aparece aos três visionários, estes terão sido levados para serem interrogados em Ourém por padres da região.

A Virgem aparece no dia 19 de agosto, quando estes guardam o seu rebanho em Aljustrel, mais precisamente em Valinhos. Esta pede para os três visionários

Imagem

Figura  1:  Lúcia  (aos  dez  anos  de  idade,  ao  centro)  e  seus  dois  primos:  Francisco  (nove  anos)  e  Jacinta  Marto  (sete  anos),  segurando  os terços, para rezar o rosário
Figura 2:  Ícone do Imaculado Coração de Maria, de Lioudmila Tchernetsova (1988) (Duarte 2006: 52)
Figura 3:  O Segredo de Fátima, de CristinaRubalcava (2003) (Duarte 2006: 56).
Figura 4:  Nossa Senhora de Fátima, deJosé Ferreira Thedim (1920) (Duarte 2006: 110)
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Referências

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