A importância do profissional biomédico na prática de Cuidados Paliativos no
tratamento oncológico
The importance of the biomedical professional in the practice of Palliative Care in
cancer treatment
DOI:10.34117/bjdv6n11-614
Recebimento dos originais: 03/10/2020 Aceitação para publicação: 27/11/2020
Clarice de Oliveira Santos
Estudante de Biomedicina do Centro Universitário do Vale do Ipojuca – UNIFAVIP Instituição: UNIFAVIP
Endereço: Av. Adjar da Silva Casé, 800 - Indianópolis, Caruaru - PE, 55024-740 E-mail: [email protected]
Amanda Teixeira de Melo
Doutora em Biotecnologia (UNIFESP), Mestre Ciências Biológicas (UFPE), Graduada em Biomedicina (UFPE)
Docente pelo Centro Universitário do Vale do Ipojuca - UNIFAVIP Instituição: UNIFAVIP
Endereço: Av. Adjar da Silva Casé, 800 - Indianópolis, Caruaru - PE, 55024-740 E-mail: [email protected]
RESUMO
Câncer confere as maiores taxa de morbidade e mortalidade mundiais, tanto para homens quanto para mulheres, os cânceres mais frequentes são de pulmão, mama e próstata, cerca de três quartos desses pacientes encontra-se em fase terminal necessitando de cuidados paliativos, com a finalidade salvaguardar sua dignidade até o fim da vida. Esse trabalho tem como finalidade investigar como o profissional biomédico pode atuar na prática de Cuidados Paliativos em pacientes oncológicos terminais mediante a um estudo bibliográfico descritivo analisando três bancos de dados (PubMed, Portal Virtual da Saúde BVS e Scielo). Em relação aos resultados apresentados houve a predominância do perfil do gênero feminino (60,5%) entre os pacientes oncológicos na área da terapêutica paliativa e mais de 50% dos membros da equipe multiprofissional em CP, também houve uma correlação entre os parâmetros de albumina e Proteína C Reativa com a sobrevida do paciente em CP, seguido do papel do biomédico em relação ao manejo da dor do paciente, desidratação entre outros. Em conclusão, esses parâmetros são analisados pelo profissional biomédico, podendo assim identificar vários fatores acometidos pela doença, facilitando na tomada de decisões no tratamento paliativista.
Palavras-chave: Biomédico, Cuidado Paliativo, Parâmetros Laboratoriais. ABSTRACT
Cancer confers the highest morbidity and mortality rates worldwide, for both men and women, the most frequent are lung, breast and prostate cancer, almost three quarters of them are in the terminal phase and requiring palliative care, with the aim of safeguarding their dignity until the end of life. This study aims to investigate how biomedical professionals can act in the practice of Palliative Care in terminal cancer patients through a descriptive bibliographic by analyzing three databases (PubMed, BVS and Scielo). In results, there was a predominance of the female genre (60.5%) among cancer
patients in the area of palliative therapy and more than 50% of the members of the multidisciplinary team in PC, there was also a strict correlation between albumin and C-Reactive Protein parameters with the curve of survival followed by the role of the biomedical in relation to the management of the patient's pain, dehydration, among others. In conclusion, these parameters are analyzed by the biomedical professional, thus being able to identify several factors affected by the disease, facilitating decision-making in palliative treatment.
Keywords: Biomedical professional, Palliative Care, Laboratory Parameters.
1 INTRODUÇÃO
A medicina laboratorial realizada pelo profissional biomédico tem como característica a prática de exames complementares que contribuem para o diagnóstico, prevenção, prognóstico como também o acompanhamento terapêutico do paciente. O biomédico é um profissional importante tanto para a saúde humana quanto ambiental, atuando em mais de 30 áreas, operando de modo integrado a outros profissionais de saúde para eficácia na promoção da saúde e com fundamentação nos princípios científicos, de cidadania e ética (BACKES et al., 2014; CAMPANA; OPLUSTIL; FARO, 2011; BRASIL, 1998b).
A prática dos Cuidados Paliativos de acordo com a OMS em 2007 são abordagens para melhoria na qualidade de vida dos pacientes e familiares que enfrentam doenças sem previsão de cura, mediante ao alívio físico, psicossocial e espiritual (KAVALIERATOS et al., 2016). No Brasil, o Cuidado Paliativo ainda é realizado de modo irregular, visto que foi somente implementada na década de 80, caracterizada pela OMS com o nível 3a (provisão isolada) em uma escala de 1 a 4, sendo 1 com nenhuma atividade detectada e 4 com integração avançada. Somente em 2018, o Brasil avançou para o nível de provisão generalizada (3b), cuja Resolução n° 41 de 2018 do Ministério da Saúde estabelece o CP no âmbito Sistema Único de Saúde (SUS), porém ainda precisa de melhora e ser mais integrativa. O país permanece ainda nesse nível, 3b, em geral devido à falta de políticas públicas específicas e por conta das turbulências políticas (ANCP, 2018; BOAVENTURA et al., 2019; BRASIL, 2018).
O programa de Cuidados Paliativos requer uma equipe multiprofissional que tem como papel compreender, avaliar e mediar os aspectos totais do paciente. O profissional recebe funções de acordo com sua área de especialidade, porém sempre trabalhando concomitantemente em equipe. Além disso, oferecendo suporte não só técnico, mas, também humanizado ao paciente e familiares. A equipe multiprofissional é composta pelo médico, enfermeiro, nutricionista, psicólogo, assistente social, fisioterapeuta, farmacêutico e biomédico (BOAVENTURA et al., 2019; PACHECO; GOLDIM, 2019). O papel do biomédico nessa equipe é importantíssimo, ele é o principal intercomunicador sobre a situação do paciente, informando a condição clínica do paciente e dando viés ao tratamento. No entanto, ainda é pouco requerido para inclusão na equipe interdisciplinar nos Cuidados Paliativos,
principalmente, devido que esse profissional ainda é ser visto pelos demais profissionais como agentes somente na área laboratorial.
Qualquer profissional atuante nessa área busca a concepção de bem estar e promoção da saúde do paciente como também da sua família. Levando em consideração a bagagem emocional que o tratamento de Cuidados Paliativos, especialmente em paciente oncológico impõe. É nítida a urgência de profissionais capacitados para oferecer o amparo ao paciente com câncer, através de programas para qualificar a equipe multiprofissional e o crescimento dessa área nos centros universitários. A união das singularidades de cada área profissional contribui para que ocorra um domínio para enfrentar essa doença da melhor forma possível (MATEUS et al., 2019; PACHECO; GOLDIM, 2019; ROLIM et al., 2019).
Cerca de 80% dos pacientes com câncer em fase terminal necessitam de algum tipo de Cuidados Paliativos. Os principais cânceres que fazem uso desse programa são câncer pulmonar, seguido do câncer de colorretal, estômago, fígado e mama. Os Centros de Alta Complexidade em Oncologia devem atuar de acordo com portaria da Secretaria Municipal de Assistência Social (SAS/MS Nº 3.535, de 20/09/1998), que estabelece uma rede hierarquizada com o objetivo de oferecer assistência especializada e integral aos pacientes com câncer, atuando na área de prevenção detecção precoce, diagnóstico e tratamento do paciente (ATTY; TOMAZELLI, 2018; OPAS, 2018; BRASIL, 1998a).
Hemograma, mielograma, coagulograma, gasometria arterial, testes bioquímicos séricos e avaliação da atividade urinária são os exames mais comuns na rotina laboratorial do tratamento oncológico. O estudo sobre marcadores obtidos por análise sérica também está incluso nesses exames, pois são capazes de identificar a neoplasia, contribuir para o prognóstico, auxiliar no tratamento identificando as condições clínicas e ajudar no controle da evolução da doença. O Cuidado Paliativo fixa-se no cenário como melhoria na terapêutica e prognóstico do paciente oncológico, fornecendo uma atenção humanizada e de forma integral ao indivíduo. Entendendo que a humanização deve ser feita além de protocolos, considerando o ser humano nos âmbitos físico, psíquico, social e espiritual (SILVA et al., 2019; OLIVEIRA et al., 2018; SILVA; MAINENTI; LAIZO, 2015).
Nesse sentido, esse trabalho tem como finalidade investigar como o profissional biomédico pode atuar na prática de Cuidados Paliativos em pacientes oncológicos terminais, como também identificar e compreender o perfil epidemiológico dos pacientes oncológicos no Brasil, o nível de desenvolvimento em Cuidados Paliativos no país e a necessidade do paciente oncológico ao programa de Cuidados Paliativos é de extrema importância para a saúde do país, fazendo com que possa haver uma mudança em relação ao tratamento de pacientes portadores de enfermidades que antecipa o fim da vida, onde causa dor e sofrimento na maioria dos casos.
2 METODOLOGIA
Este trabalho foi realizado através de um estudo bibliográfico, do tipo descritivo, onde foram buscados e analisados artigos em três bancos de dados PubMed (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed), Portal Virtual da Saúde BVS (https://bvsalud.org/) e Scielo (https://scielo.org/) com os seguintes descritores “palliative care” AND “oncology” AND “laboratory parameters”. A seleção dos estudos obedeceu aos seguintes critérios de inclusão: i) uso de parâmetros laboratoriais na avaliação de pacientes oncológicos ii) publicados entre os anos de 2010 a 2020, iii) idiomas inglês e português. Como critérios de exclusão: i) textos incompletos, materiais de anais e congressos, ii) cuidado paliativo em doenças não oncológicas, iii) revisões e meta-analises, iv) outros idiomas. Para avaliar qualitativamente os resultados foi criado um instrumento para simplificar e documentar as informações, de acordo com ano, objetivo do artigo, tipo de câncer analisado, parâmetros laboratoriais utilizados, como o trabalho contribuiu para o cuidado paliativo.
3 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Durante a coleta de dados, foram selecionadas 71 publicações, entre os anos de 2010 a 2020, destas foram selecionados 32 depois de um processo de triagem de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. Os cânceres abordados nesse trabalho serão: câncer de mama, próstata, câncer gastrointestinal, pulmonar, leucemias e outros. A faixa etária dos pacientes oncológicos que fazem uso de Cuidados Paliativos foram os mais diversos, crianças, adolescentes e idosos, este último mostraram os mais predominantes entre os estudos e muitos deles apresentavam comorbidade como hipertensão e diabéticos, que podem encurtar sua taxa de sobrevida.
3.1 CARACTERIZAÇÃO DO CUIDADO PALIATIVO
Os dados epidemiológicos mais recente publicado de pacientes oncológicos no Brasil que faz uso de Cuidados Paliativos (CP) ocorreu em 2015, no Recife/PE/Brasil, onde revelou que 53% deles eram do gênero feminino, 52% na faixa etária entre 60 a 79 anos e 54% dos pacientes faziam rotineiramente exames hematologia/bioquímico para acompanhamento do tratamento. Destacando a prevalência de câncer digestivo nos pacientes do sexo masculino e câncer ginecológico no feminino (mama: 50%, colo do útero: 29%) (OLIVEIRA et al., 2018). (VISENTIN et al., 2018) também caracterizam a predominância do perfil do gênero feminino (60,5%) entre os pacientes oncológicos na área da terapêutica paliativa. Nos artigos analisados nesta revisão foram constatados que a maioria dos pacientes oncológicos quanto os membros da equipe multiprofissional em CP são compostos por mulheres, mais de 50% dos casos. A presença do gênero feminino tanto da equipe profissional quanto dos pacientes em CP é o reflexo da estimativa de vida do gênero de acordo com IBGE, onde a
população brasileira é composta principalmente pelo gênero feminino 51,8% e esse padrão é visto em toda as faixas etárias (BRASIL, 2019) e o câncer mamário como maior prevalência (INCA, 2020).
Os efeitos do CP não só contribuem para o aumento da sobrevivência do paciente como também na melhoria da sua qualidade de vida e humor com a diminuição de sinais depressivos (TEMEL et al., 2017). Ao analisar a percepção tanto dos pacientes quanto dos seus cuidadores em relação ao CP, 83% os pacientes mostram que consideraram a confiança no médico como o mais importante, 78% apontaram o fato de poder estar com as pessoas/familiares que são importantes e 72% mencionaram o modo de tratamento que preserve sua dignidade. Para os cuidadores, 84% consideram importante receber informações adequadas sobre a doença do seu familiar e todas as informações sobre riscos e benefícios do tratamento e 79% falaram que as informações sejam comunicadas de maneira sincera (MUNHOZ et al., 2014). Em uma análise semelhante Meneguin, Matos e Ferreira, 2018) identificaram quais fatores que interferem na qualidade de vida, indicando em ordem de importância: a falta de apoio familiar, dor, sintomas do tratamento, medo da morte, a própria doença, impossibilidade de ser alimentar e dificuldades financeiras contribuem negativamente para a qualidade de vida.
Os profissionais que atuam no CP indicam grandes dificuldades de implantar o CP em enfermarias/hospitais no Brasil, devido principalmente ao pouco recursos humanos e material, como também, a baixa ou ausência de assistência humanizada que os pacientes oncológicos necessitam (SILVA et al., 2015). Souza et al (2015) demostraram os desafios éticos enfrentados pelos profissionais para o paciente, cuidadores e familiares, como também a falta de estrutura na Atenção Básica de Saúde para esse tipo de paciente. Dados similares foram coletados por Alves et al (2015) que demostraram as dificuldades da equipe de saúde e a falta de organização na rede pública para pacientes em CP. De acordo com a Resolução nº 41 de 2018 do Ministério da Saúde, o Cuidado Paliativo começou a ser inserido na esfera do Sistema Único de Saúde (SUS), fazendo parte dos cuidados ofertados nas Redes de Atenção à Saúde (RAS). No qual, qualquer pessoa que esteja acometida por uma doença ameaçadora da vida, pode fazer uso desse programa, promovendo a qualidade de vida desses pacientes. Essa resolução também estimula os profissionais de saúde, através do trabalho multidisciplinar e permitindo a inclusão de conteúdos nas instituições de ensino da área de saúde sobre a prática desse sistema, ofertando educação continuada para esses profissionais no SUS. Enfatiza também a importância de palestras para a população sobre a importância dos CP na terapia oncológica. Além disso, o SUS disponibiliza medicamentos para o controle da dor nesses pacientes. Os CP deverão ser ofertados em qualquer ponto da rede de atenção à saúde, como: atenção básica, atenção domiciliar, ambulatorial, hospitalar e Urgência e Emergência.
O CP deve ser integrado e proporcionar qualidade de vida ao paciente que requer um planejamento interdisciplinar com atuação multiprofissional. De acordo, Braga e Queiroz (2013)
enfatizaram o fato que é importante que aja uma equipe que seja capacitada mediante a uma educação continuada para que consigam enfrentar o cuidado desses pacientes e cuidadores, através de conhecimentos técnicos e humanitários, respeitando o processo de dor e morte. Leite de Almeida et al (2019) destacam que essas equipes sejam compostas por múltiplos profissionais, o mesmo autor relata que os dados laboratoriais são importantes para o cuidado do caso, no entanto, o profissional biomédico não é citado no estudo. A multidisciplinaridade nesses estudos mostra como um diferencial na assistência oferecida, sendo o melhor meio para contemplar todas as dimensões do ser humano nesse serviço.
Ferreira, Fiorini e Crivelaro (2010) destacam que a formação profissional dos estudantes da área de saúde precisa de uma estrutura que permita e facilite o trânsito entre teoria e prática. Neste contexto, os docentes devem ser mediadores fundamentais nesta relação, orientando e facilitando o processo de ensino. Ferreira et al (2015) apontam que de 59 profissionais, 56,6% afirmaram que as universidades não fornecem informações pelos quais os graduandos pudessem alcançar uma correta abordagem ao paciente em Cuidados Paliativos, consequentemente também há uma dificuldade desses profissionais lidarem com a pessoa que cuida desse paciente. No caso do profissional de Biomedicina, em nenhum artigo analisado nesta revisão mostrou sua participação no CP. Tendo em vista que alguns dos princípios do CP são prevenção, controle dos sintomas, melhoria da qualidade de vida, entre outros, o biomédico pode ser inserido na equipe multiprofissional, sabendo que, tal profissional pode trabalhar em busca de investigação clínica, envolvendo testes que ajudam a linear o tratamento oncológico paliativo.
O profissional biomédico atua de modo direto e indireto com o paciente, desde o processo de coleta até análise do material biológico atuando de modo humanitário e respeitador, acalmando o paciente que possa estar nervoso, ansioso ou mesmo com dor durante o procedimento e entregando informações relevantes a equipe multiprofissional no cuidado do paciente, como também ao cuidador e ao paciente.
3.2 MARCADORES SÉRICOS IMPORTANTES NO CUIDADO PALIATIVO
As informações prognósticas precisas em ambientes paliativos são necessárias para que os pacientes e equipe multiprofissional tomem decisões e estabeleçam metas e prioridades, esses dados são produzidos por biomédicos. Os principais parâmetros abordados por esses profissionais estão apresentados na tabela 1, que são: albumina, proteína C reativa, enzimas hepáticas, creatinina, contagem de leucócitos entre outros.
Em estudo sobre câncer ginecológico (mama, ovário e colo do útero) realizado por Aeckerle et al (2013) há uma prevalência de hipoalbuminemia (<3,5 g/dl), anemia (hemoglobina < 10g/dl) e
hipercalcemia (≥2,6 mmol/l), como também altos índices de Lactato Desidrogenase, LDH (≥250 U/I), onde tais resultados são fatores essenciais para a previsão de sobrevida, sendo capaz de ajudar a orientar as decisões de tratamento com o tipo de cuidado paliativo necessário. Helissey et al (2015) e Honecker et al (2018) também analisaram os níveis séricos de pacientes com câncer de mama, ambos mostram índices baixos de albumina como um fator prognóstico para a sobrevida do paciente. O índice de albumina sérica, como mostrado na tabela 1, é a substância mais frequente utilizada no indicativo sobre sobrevida e aderência ao CP. No estudo de Wray et al (2012) no qual investigaram a correlação entre a albumina e a probabilidade de sobrevivência, eles batizaram essa medida como score MELD (Model for End-Stage Liver Disease), onde a diminuição da concentração sérica da albumina resulta no mau prognóstico, diminuição da sobrevida do paciente e agravamento da doença e encurtamento da sobrevida. A presença de hipoalbuminemia é visto também em câncer de esôfago (GRILO; SANTOS; FONSECA, 2012), câncer hepático (FRIGERI et al., 2013) e leucemia (KRIPP et al., 2014).
De acordo com (Hanna, Marta e Santos (2011) os baixos níveis de albumina sérica acarreta uma complicação no cuidado de pacientes com câncer terminal internados em unidades de CP, onde interpreta-se um aumento da toxidade na maioria das intervenções, incluindo tanto as farmacológicas, como as não farmacológicas.
O mau prognóstico e o encurtamento da sobrevida de pacientes terminais vão além dos valores séricos baixos de albumina, menores que 3,5 g/dl. Fuchs et al (2017) em analises com amostras de pacientes com câncer gástrico identificaram alguns fatores que se associam ao mau prognóstico para sobrevida global, como os valores anormalmente elevados de neutrófilos, AST, ALP e/ou LDH. Resultados similares foram encontrados por Sougioultzis et al (2011) que estudaram pacientes com câncer gástrico em estágio IV e Frigeri et al (2013) em estudo com pacientes com câncer pancreático, onde a maioria apresentava metástase e dos 11 parâmetros analisados no estudo mostra uma correlação na sobrevida com índices de LDH, bilirrubina e contagem de leucócitos, no entanto nenhum desses fatores foram considerados fatores prognósticos independentemente de sobrevida. O estudo de Song et al (2014) também com pacientes com câncer pancreático da mesma forma Frigeri et al(2013) os pacientes apresentaram icterícia e níveis elevados de bilirrubina sérica apresentando uma taxa de sobrevida extremamente baixa, especialmente em pessoas com tumor avançado.
Tabela 1. Lista de doenças oncológicas por estudo clinico em cuidado paliativo e os seus respectivos índices laboratoriais estudados.
Sítio primário do tumor
N° Pacientes Faixa etária (anos) Índices laboratoriais analisados Referências Câncer de mama 56 <60 (27) > 60 (29) Albumina, Linfócitos, LDH (HELISSEY et al., 2015) 210 36 a 82 PCR, albumina, amiloide, alfa glicoproteína (HONECKER et al., 2018)
Câncer de esôfago 17 39 a 78 Albumina, transferrina e colesterol (GRILO; SANTOS; FONSECA, 2012) Câncer gástrico 311 30 a 74 PCR albumina, LDH (SOUGIOULTZIS et al., 2011) 1020 <65 anos >65 anos AST, ALT, LDH, albumina, bilirrubina, creatinina, Hb, hematócrito, WBC, plaquetas, fosfato, magnésio, sódio e cálcio,
TTPA e TP (FUCHS et al., 2017) Câncer ginecológico 225 30 a 91 Hb, WBC, plaquetas, LDH, albumina e cálcio (AECKERLE et al., 2013) Câncer hepático 337 44 a 64 Albumina, bilirrubina total, plaquetas (WRAY et al., 2012) Câncer pancreático 231 32 a 85 WBC, Hb, Plaquetas, bilirrubina total, albumina, LDH, PCR (FRIGERI et al., 2013)
118 37 a 86 Bilirrubina total (SONG et al., 2014)
Cânceres diversos
90 50 a 79 WBC, Hb, ureia,
creatinina, albumina, AST, ALT, bilirrubina
total, PCR
(KWAK et al., 2012)
1528 22 a 96 Ferritina, Hb, PCR (LUDWIG PROF. et al., 2013) 2416 Media 71
anos
Hb, PCR, ferritina (NEOH et al., 2017)
93 50 a 74 Bilirrubina (VANDENABEELE et
al., 2017)
378 14 a 94 Neutrófilos (ZHAO et al., 2017)
Leucemia 466 15 a 98 Albumina, Hb, LDH,
Plaquetas e proteínas totais
(KRIPP et al., 2014)
Nota: PCR (proteína C reativa); LDH (lactato desidrogenase); AST (aspartato aminotransferase); ALT (alanina aminotransferase); Hb (hemoglobina); WBC (contagem de leucócitos); TTPA (tempo de tromboplastina parcial ativada); TP (tempo de protrombina).
Anemia é uma complicação comum em pacientes com câncer e causa diversos sintomas como fadiga e falta de ar. Neoh et al (2017) analisaram mais de 2 mil pacientes por um período de um ano que foram encaminhados para o serviço de CP, destes, 63% mostraram anêmicos onde foi encontrada uma diferença significativa entre a hemoglobina (Hb) média como também o índice de ferritina entre os gêneros, mas sem correlação com a faixa etária. A anemia mostrou-se mais prevalente entre os
pacientes com leucemia, mieloma e câncer de próstata do que em neoplasias colorretais e melanomas. A presença de anemia é um indicativo para o paciente entrar grupo de Cuidados Paliativos.
Biomarcadores de inflamação como Proteína C reativa (PCR), contagem de neutrófilos e proporção neutrófilos/linfócitos mostram um fator de risco para a gravidade do câncer como também sugestão para Cuidados Paliativos ao paciente. Índice de PCR elevada e a hipoalbuminemia estão correlacionadas positivamente ao estágio mais avançado da doença e na diminuição da sobrevida do paciente, e visto as concentrações médias de PCR são maiores em pacientes com tumores sólidos do que naqueles com doenças hematológicas (LUDWIG et al., 2013).
Zhao et al (2017) analisando tumores primários mais comuns (gastrointestinais, torácicos e urogenital) descreveram a correlação entre neutrófilos, contagem de neutrófilos (CN) e porcentagem de neutrófilos pré-tratamento (NP) e desfechos de pacientes com câncer terminal que estão sob Cuidados Paliativos. Pacientes com CN ou NP aumentada após Cuidados Paliativos também apresentam uma pior taxa de sobrevida. Esses resultados sugerem que os neutrófilos do sangue periférico podem servir como um novo marcador substituto da estratificação de risco em pacientes com câncer avançado que estão sob CP. Foi descrito na literatura que o CN periférico prediz o desfecho clínico em vários tipos de cânceres, incluindo câncer gástrico, carcinoma nasofaríngeo, carcinoma do trato urinário, câncer de pulmão e câncer de ovário.
Pacientes em fase terminal apresentam alto risco de desidratação, os principais sintomas clínicos são mucosas secas, oligúria, perda do turgor da pele entre outros. Existe uma associação da desidratação e o uso de medicamentos de controle da dor como descrito por Bryniarski et al (2017). Nesse estudo, 38% pacientes com câncer terminal apresentavam quadro clínico de desidratação, foram acompanhados e observaram que esses pacientes tomavam remédios para controlar a dor, anti-inflamatórios não esteroides (AINE) para analgesia e opioides. No entanto, a interrupção abrupta da administração desses medicamentos provoca a desidratação com hipotensão e oligúria rapidamente progressiva, que podem ser sinais de insuficiência adrenal secundária aguda. Contudo o controle da dor ou manejo da dor resulta no aumento da hemostase e consequentemente a uma melhor hidratação. O controle eficaz dos sintomas e a otimização da terapia e do estado clínico nesta fase da doença podem resultar em muitos benefícios, incluindo a manutenção adequada do equilíbrio hidroeletrolítico do paciente. Os resultados dessa pesquisa mostraram que a diseletrolitemia ocorre quase 5 vezes mais frequentemente em indivíduos desidratados, corrigir os níveis de sódio muito rapidamente pode resultar em consequências neurológicas graves e um aumento repentino do potássio pode levar à parada cardíaca. Em casos de emergência de desidratação, os médicos devem pesar os benefícios da hidratação parenteral.
A dor, quinto sinal vital, afeta a qualidade de vida do paciente e requer prevenção e tratamento sendo priorizado nos Cuidados Paliativos. A cessação da dor promove a diminuição do estresse e melhora na qualidade de vida que é refletida sobre as relações do paciente com os familiares e com a equipe de saúde (MENDES et al., 2014). A OMS utiliza 3 graus (leve, moderada e intensa) para recomendar o uso de medicamentos de acordo com sua intensidade de dor. Mendes et al (2014) em estudo com 56 pacientes oncológicos adultos (55,4% mulheres e 44,6% homens) entre 51 a 80 anos mostram que 69,8% (37/56) faz uso de opiáceos para controle a dor, 40% deles mostram dor moderada e intensa. Enquanto o uso de lidocaína venosa, um analgésico não opioide consegue controla a dor de pacientes terminais sem alterar seus padrões bioquímicos como ocorre com medicamentos opioides (KINTZEL; KNOL; ROE, 2019).
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um fator que podemos observar é a prevalência do sexo feminino no estudo, onde constam a maioria dos pacientes oncológicos e dos profissionais que trabalham com Cuidado Paliativo. Tal resultado é uma demonstração além da saúde pública no país, é notório que mulheres se preocupam e buscam mais ajuda médica quando sentem que algo não está bem e, há diversos estudos que mostram uma proporção elevada de mulheres nos cursos voltados a área de saúde.
Diversos parâmetros laboratoriais são abordados no prognóstico do paciente oncológico, com imensa importância no meio do Cuidado Paliativo, podendo nortear o tratamento. Esses parâmetros são analisados pelo profissional biomédico, podendo assim identificar vários fatores, como a gravidade da neoplasia e a sobrevida do paciente acometido pela doença, facilitando na tomada de decisões no tratamento paliativista.
Em vista dos argumentos apresentados, nota-se a importância da equipe multiprofissional no Cuidado Paliativo, sendo o principal meio de comunicação entre paciente/cuidador/profissional. A capacitação desde o início da formação acadêmica proporciona uma equipe mais qualificada e harmônica, se tornando um diferencial nesse momento tão difícil no cuidado do paciente oncológico. Apesar do biomédico não ser citado nos estudos apresentados, compreende que há espaço para esse profissional na equipe de Cuidados Paliativos, visando todas as análises para um tratamento adequado e promissor. Exames laboratoriais são de extrema importância para avaliar qualquer quadro clínico dos pacientes, principalmente oncológicos e, a ética médica permite que esse profissional trabalhe de maneira empática e com a humanidade que é necessária nesse sistema.
REFERÊNCIAS
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