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Raído, Dourados, MS, v.8 , n.16, jul./dez. 2014

Universidade Federal da Grande Dourados

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APRESENTAÇÃO

EM TORNO DA VARIEDADE DE LETRAMENTOS

A organização deste volume da Revista Raído, destinado a diferentes perspectivas dos Estudos do Letramento, juntamente com outros periódicos brasileiros, delineia uma temática extremamente relevante e promissora dentro da Linguística Aplicada. Trata-se de uma tentativa de investigar e compreender os eventos de letramentos que ocorrem em ambientes acadêmicos, dentro e fora do Brasil. Em âmbito nacional, o espectro de posicionamentos dos pesquisadores e de suas instituições está representado neste número pelas seguintes instituições: Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD-MS-BR); Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ-BR), Universidade Federal

do Rio de Janeiro (UFRJ-RJ-BR), Universidade Federal do Tocantins Universidade Federal da Paraíba (UFPB-PB-BR); (UFT-TO-BR); Universidade de São Paulo (USP-SP-BR); Universidade Estadual Paulista (UNESP-SP-BR), e, pelo diálogo com pesquisadores de

outros países, representados aqui pela: Université Stendhal Grenoble III (U3-Grenoble--FR); Université Paris Ouest Nanterre la Defense (U-Paris-10-FR), Universidad

Nacio-nal de Rosario – (UNR-AR), Universidade de Aveiro (UA-PT), Université de Sherbrooke

(UdeS-CA) e The Hong Kong Polytechnic University (POLY-U-CN), mostra a dimensão da demanda de investigação para os estudos aplicados da linguagem.

Compreendemos letramentos aqui como “o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é parte integrante da interação entre pessoas e do processo de interpretação dessa intera-ção - os eventos de letramento” (SOARES, 2002, p.145, grifos da autora). Ao optar por essa compreensão, o foco recai no estado ou na condição e não apenas as práticas sociais de leitura e de escrita e os eventos em que estas práticas ocorrem.

Vem de Corrêa (em elaboração) a retomada sobre a noção de letramento que se segue. É sabido que se pode, por um lado, compreender o letramento como “o estado ou condição de quem exerce as práticas sociais de leitura e de escrita, de quem participa de eventos em que a escrita é parte integrante da interação entre pessoas e do processo de interpretação dessa interação – os eventos de letramento” (SOARES, 2002, p. 145), opção que enfatiza o estado ou condição de um indivíduo em sua relação com práticas sociais específicas. Desse ponto de vista, justifica-se a utilização classificatória dos in-divíduos como apresentando baixo ou alto grau de letramento. Por outro lado, a ideia de letramentos (STREET, 1984, 1995, 2006, 2010; KLEIMAN, 1999; KLEIMAN e MATENCIO, 2005) enfatiza o papel das práticas sociais nas quais o sujeito se insere, o que reforça a consideração de aspectos sócio-históricos determinantes da identidade de indivíduos. Dessa perspectiva, o empenho em classificar o sujeito quanto ao seu grau de letramento transmuta-se na observação da sempre complexa inserção dos indivíduos

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so, destacando-se, dela, o modo pelo qual o sujeito ocupa o lugar de autor quando faz,

metalinguisticamente, da matéria do intradiscurso forma de construção do discurso (e também do texto), o que constitui um modo particular de lidar com o inacessível do

interdiscurso. Ainda no interior da noção de letramentos (no plural) e assumindo que a

pluralidade de letramentos inclui formas não estritamente gráficas de registro, Corrêa (2001) assume que, mesmo em sociedades ágrafas, não existe o grau zero de letramento. Nos trabalhos reunidos nesta edição temática, são contemplados amálgamas e inter-secções entre tipos de letramento, por exemplo, entre práticas letradas tradicionais e prá-ticas letradas na cibercultura. Várias nuanças são aqui abordadas, em torno da temática.

Fanny Rinck e Leda Mansur, em Letramento na era digital: o copiar-colar dos

estu-dantes, abordam a prática do copiar-colar em termos de aculturação. Praticada pelas

gerações mais jovens, não reconhecida como prática legítima de pesquisa, Rinck e Mansour discutem a temática como uma entrada interessante para a compreensão da escrita de fontes que, antes, centravam-se unicamente na exigência do citar. Como se vê, ao enfrentar o tema candente de como encarar o plágio no copiar/colar da internet, o artigo põe em questão, no limite, a fronteira entre ética e linguagem. Vale, ainda, uma observação sobre a opção de traduzi-lo neste número: escrito originalmente em francês, já foi publicado no Brasil na língua de origem. No entanto, por interessar ao professor em geral (de todas as disciplinas) e, particularmente, ao professor que se ocupa do ensino de escrita, consideramos oportuno traduzi-lo para o português para que, atendendo não só a formação inicial do professor como também a continuada, possa alcançar um público mais amplo no Brasil.

Em O “Resumo” de comunicação como objeto de Ensino, Florencia Miranda aborda a transposição didática do gênero resumo de comunicação, situando-se nos pressu-postos do Interacionismo Sociodiscursivo. Partindo do Modelo Didático do Gênero, problematiza essa prática linguageira a partir da observação de textos elaborados por estudantes do Curso de Português da Universidade Nacional de Rosário (Argentina). Pode-se dizer que Miranda descortina dimensões escondidas que emergem na escrita do gênero resumo de comunicação (STREET, 2010). Finalmente, são tematizadas propostas de didatização do gênero, a partir do procedimento teórico-metodológico das Sequências Didáticas.

Em Da palavra neutra à palavra própria: formas de conceber a palavra na escrita

acadêmico-científica, Poliana Dayse Vasconcelos Leitão e Regina Celi Mendes Pereira

partem do pressuposto de que a experiência discursiva individual constroi-se e desen-volve-se a partir da apreensão da palavra de outrem. Tendo em conta esse processo dialógico, as autoras analisam a palavra de diversas formas, impregnando-a de dife-rentes graus de subjetividade e de difedife-rentes níveis de responsabilidade enunciativa.

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Contudo, no âmbito acadêmico-científico – as autoras analisam o gênero acadêmico “monografia” –, a neutralidade é concebida como critério de cientificidade e frequen-temente almejada pelos pesquisadores. Nesse sentido, a análise das monografias, res-paldada no dialogismo (BAKHTIN, 1993 [1920], 2003 [1952-1953]) e nos pres-supostos teórico-metodológicos do Interacionismo Sociodiscursivo (BRONCKART, 1999, 2006), evidenciou que as marcas de subjetividade delimitam diferentes níveis de distanciamento e de aproximação que oscilam não apenas em virtude dos elementos textuais que compõem o gênero textual, mas também em decorrência da relação que o professor concluinte de Letras estabelece com o objeto de estudo investigado. Assim, distribuídas num contínuo de um menor a um maior nível de subjetividade, as autoras propõem a seguinte ordem: palavra neutra, palavra de outrem, palavra alheia/própria, palavra própria/alheia e palavra minha.

Refletindo a respeito de práticas discursivas de leitura/escrita em/na rede, Fa-biana Komesu e Fernanda Correa Silveira Galli, no artigo Práticas de leitura e escrita

em contexto acadêmico: relações (hiper)textuais singulares, tratam especificamente dos

percursos de leitura de docentes (em formação e já formados) a partir de atividade desenvolvida com base no motor de busca da Internet “Google”. Situa-se o estudo na Análise do Discurso Francesa e nos Estudos de Letramento, objetivando compre-ender as relações (hiper)textuais estabelecidas por docentes num curso de extensão universitária e as marcas discursivas que emergiram no modo singular de ler de um determinado sujeito.

Já Kleber Ferreira da Silva e Adair Vieira Gonçalves investigam não a formação continuada, mas a formação inicial. Apresentam, no artigo, A (re)escrita na formação

docente: ações e intervenções com o uso de mídia digital resultados de pesquisa no campo

da formação inicial de professores, realizada com alunos do 4º ano do curso de Letras da UFGD. Reunindo diferentes contribuições teóricas de especialistas no ensino de escrita, os autores investigam a eficácia da interação on-line e interrogam sobre o pa-pel das plataformas digitais na relação dialógica entre as intervenções do professor e as réplicas a elas introduzidas pelos alunos na versão reescrita. Os autores concluem que, embora a intervenção textual-interativa nas plataformas digitais ocorra, em termos quantitativos, em maior número do que as mesmas intervenções em contexto tradi-cional de ensino, as ações humanas exemplificadas na interlocução na esfera digital misturam-se e complementam-se com o que já está consolidado na escrita tradicional.

Luísa Álvares Pereira e Luciana Graça, em Concepções sobre a escrita acadêmica

de estudantes do ensino superior, apresentam resultados de um questionário aplicado

a estudantes, com o objetivo de investigar suas concepções de escrita e o trabalho feito com a escrita pela/na universidade. Os dados apontam para duas conclusões: i) não há diferença significativa em relação às operações do processo de escrita entre os estudantes das diferentes áreas do conhecimento; b) as diferenças se situam no como a universidade portuguesa acompanha (ou não) tais atividades durante o período de graduação de seus estudantes.

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Em Traces de la formation des enseignants sur la transformation du rapport à l’écrit

d’étudiants québécois, Chantale Beaucher, Christiane Blaser e Olivier Dezutter

discu-tem o papel central que a escrita desempenha na aprendizagem. Os dados da pesquisa foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas feitas com 15 estudantes, na Universidade Sherbrooke, no Canadá, em dois cursos distintos: oito estudantes do ensino secundário e sete estudantes do ensino profissionalizante. A análise mostra semelhanças e diferenças entre os dois grupos, sobretudo como os estudantes discutem sua competência na escrita. Os dados revelam importantes questões para os docentes que acompanham o processo de escrita no contexto investigado.

Discutindo o trabalho com a linguagem na escola, na área da alfabetização, Cecília Goulart, no artigo Perspectivas de alfabetização: lições da pesquisa e da prática

pedagógi-ca, vale-se da perspectiva enunciativa bakhtiniana. Apoia-se em dados de pesquisa e no

acompanhamento contínuo de professores do Ensino Fundamental I para apresentar princípios de pesquisa e de prática pedagógica (para o ensino da linguagem verbal) e para defender que a alfabetização com base em textos cria uma possibilidade concreta de os estudantes “mergulharem nos sentidos dos textos que leem e [de] inventarem novos sentidos para os textos que escrevem”.

Ludmila Thomé de Andrade, no artigo Entre fazer e dizer: atividade docente e

prá-ticas pedagógicas escolares nos atos de escrita na formação, nos brinda com uma discussão

“meta”, ao permitir pensar a própria escrita da pesquisa em relação estreita com as políticas públicas e com ações de formação implementadas durante os Encontros de Professores para Estudos de Letramento, Leitura e Escrita (EPELLE). Andrade pro-cura, sobretudo, (inter)relacionar identidade e fazer docente e lança bases para uma análise discursiva de textos produzidos na formação (continuada) de professores por parte do docente formador.

Seguindo os pressupostos da Linguística Sistêmico-Funcional, Lívia Chaves de Melo e Elaine Espindola investigam o sistema semântico de projeção, por meio de re-cursos léxico-gramaticais no artigo O sistema de projeção em citações na escrita

acadêmi-ca de relatórios de estágio. As autoras propõem uma discussão das enunciações próprias

e alheias e da literatura acadêmica e não acadêmica em relatórios de estágio supervisio-nado, produzidos por professores em formação inicial, em curso de Licenciatura em Língua Portuguesa e Língua Inglesa, numa universidade pública do norte brasileiro.

Em Professores em formação inicial na escrita reflexiva profissional: abordagem

sis-têmico-funcional na Linguística Aplicada, Bruno Gomes Pereira e Wagner Rodrigues

Silva utilizam o gênero relatório de estágio supervisionado produzidos por professores de Matemática para analisar a autorrepresentação docente na escrita desses relatórios. Os dados apontam, na opinião de Pereira e Silva, para o não empoderamento dos alunos-mestres, ainda que estes conhecessem os mecanismos linguísticos indicadores de reflexão no texto.

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Por fim, agradecemos ao corpo de pareceristas ad hoc, especialmente convidados para os trabalhos deste número temático, que, em tempo recorde, avaliou cuidadosa-mente os textos.

Dourados (MS), São Paulo (SP), 16de setembro de 2014. Adair Vieira Gonçalves (UFGD/CNPq) Manoel Luiz Gonçalves Corrêa (USP/CNPq)

REFERÊNCIAS

CORRÊA, M.L.G. Letramento e heterogeneidade da escrita no ensino de Português. In: Investigando a relação oral/escrito e as teorias do letramento. Campinas (SP) : Mercado de Letras, 2001, p. 135‐166.

CORRÊA, M.L.G. Identidades em deriva e identidades usupardas: letramentos no tempo e no espaço. (em elaboração).

KLEIMAN, A. B.; (Org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas: Mercado de Letras, 1999.

_______.; MATENCIO, M. de L. M. (Orgs.). Letramento e formação do professor: práticas discursivas, representações e construção do saber. Campinas: Mercado de Le-tras, 2005. 271 p. (Col. Ideias sobre Linguagem)

SOARES, M.B. Novas práticas de leitura e escrita: letramento na cibercultura.

Edu-cação & Sociedade. v.23, n.81, p.143-160, 2002. Disponível em: http://www.cedes.

unicamp.br. Acesso em 14 de ago. de 2014.

STREET, B. Literacy in theory and practice. Cambridge : Cambridge University Press, 1984.

_________. Social literacies: criticial approaches to literacy in development,

ethnogra-phy and education. London : Longman, 1995.

_________. Perspectivas interculturais sobre o letramento. Filologia e Linguística

Portuguesa, São Paulo, v. 8, p. 465-488, 2006.

_________. Dimensões “escondidas” na escrita de artigos acadêmicos. Perspectiva, v.28, n.2, p.541-567, 2010.

TFOUNI, L.V. Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso. Campinas: Pontes, 1988. ______. Perspectivas históricas e a-históricas do letramento. Cadernos de Estudos

Lin-güísticos. Campinas (SP), v. 26, p. 49-62, 1994.

Referências

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