Braz. J. of Develop.,Curitiba, v. 6, n. 9, p.64570-64587 ,sep. 2020. ISSN 2525-8761
Implementação de ações de educação para reduzir agravos de saúde em
trabalhadores de uma cooperativa de materiais recicláveis em São Paulo – SP
Implementation of education actions to reduce health aggresses in workers of a
cooperative of recyclable materials in Sao Paulo – SP, Brazil
DOI:10.34117/bjdv6n9-044
Recebimento dos originais: 08/08/2020 Aceitação para publicação:02/09/2020
Marcos Martins dos Anjos
Mestre
Programa de Mestrado Profissional em Administração - Gestão em Sistemas de Saúde (PMPA-GSS) -Universidade Nove de Julho (UNINOVE). São Paulo, SP (Brasil)
Endereço: Rua Vergueiro, 235/249 - Liberdade, São Paulo - SP, 01525-000 E-mail: [email protected]
Renato Ribeiro Nogueira Ferraz
Doutor
Professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas (PPG-PP) – Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), Mogi das Cruzes – SP (Brasil)
Endereço: Av. Dr. Cândido X. de Almeida e Souza, 200 - Centro Cívico, Mogi das Cruzes - SP, 08780-911
E-mail: [email protected]
Patrícia Eliane Gonçalves Tozzo
Doutora
Coordenadora do Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica e Saúde da Família (PRM-ABSF) - Universidade Nove de Julho (UNINOVE). São Paulo, SP (Brasil)
Endereço: Rua Vergueiro, 235/249 - Liberdade, São Paulo - SP, 01525-000. E-mail: [email protected]
RESUMO
Trata-se de um estudo descritivo do tipo relato de experiência com o objetivo de expor como ações educativas foram realizadas para minimizar agravos de saúde em catadores de material reciclável de uma cooperativa em São Paulo – SP. O trabalho se deu após o convite da Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (AMLURB), para que a equipe da Residência Multiprofissional em Atenção Básica e Saúde da Família da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), São Paulo – SP, desenvolvesse ações de saúde em cooperativas de materiais recicláveis do município. Foram desenvolvidas oficinas de educação para promoção e prevenção de agravos à saúde em fisioterapia, odontologia, nutrição, enfermagem e psicologia. As oficinas elucidaram as dúvidas e trouxeram conhecimentos que melhoraram as condições de saúde e trabalho, de acordo com as demandas às quais os catadores estavam expostos.
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ABSTRACT
This is a descriptive study of the type of experience report with the objective of exposing how educational actions were carried out to minimize health problems in recyclable material collectors from a cooperative in São Paulo - SP. The work took place after the invitation of the Municipal Authority of Urban Cleaning (AMLURB), so that the team of the Multiprofessional Residence in Primary Care and Family Health of the University Nove de Julho (UNINOVE), São Paulo - SP, developed health actions in recyclable materials cooperatives in the municipality. Education workshops were developed to promote and prevent health problems in physiotherapy, dentistry, nutrition, nursing and psychology. The workshops clarified doubts and brought knowledge that improved health and work conditions, according to the demands to which the collectors were exposed.
Keywords: Health Management, Selective Collect, Health Education, Health Promotion.
1 INTRODUÇÃO
O aumento do lixo, fruto do consumo indisciplinado da sociedade moderna, é desproporcional aos meios e dispositivos existentes para tratá-lo. Atualmente, esse é um problema preocupante na esfera ambiental e econômica, além da repercussão negativa no âmbito do controle sanitário. Em regiões urbanas, o lixo é um indicador importante no diagnóstico de saúde comunitária, visto que pode afetar gravemente a salubridade de ambientes com grandes aglomerações humanas desprovidas de saneamento básico (DALL’AGNOL; FERNANDES, 2007).
Sabe-se que os resíduos sólidos urbanos (RSU), quando depositados na natureza sem o devido controle e tratamento, causam prejuízo estético e visual, contaminação física, química e biológica na água, solo e no ar, tornando o ambiente propício ao desenvolvimento de vetores de doenças e riscos diversos à saúde pública (SIQUEIRA; MORAES, 2009) .
De modo analisar esse aspecto, a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE) traça todo ano um panorama com dados sobre os resíduos sólidos no Brasil. De acordo com a edição de 2016, o Brasil produziu cerca de 78,3 milhões de toneladas de RSU, algo em torno de 214.405 toneladas por dia, 2% a menos em relação ao ano anterior (2015). Contudo, desse total foram coletados apenas 71,3 milhões de toneladas, 1,7% a menos do que em 2015, demonstrando que no ano de 2016 ocorreu destino incorreto de cerca de 7 milhões de toneladas de RSU (ABRELPE, 2016).
Quanto a reciclagem, é o processo de reaproveitamento dos RSU, onde os seus compostos são separados, transformados e recuperados, o que resulta em matéria-prima, economia de energia, minimiza o desperdício, reduz a poluição ambiental, e muda a valorização e a concepção em relação aos resíduos (SCHWENGBER et al., 2013).
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Com essa percepção e o desemprego, nas últimas décadas houve um aumento da população de catadores de material reciclável nas ruas brasileiras, fazendo com que em 2002 esta categoria, fosse reconhecida pelo Ministério do Trabalho e Emprego – MTE como profissão, e incluída no mesmo ano na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO94), identificada sob o número 5192 (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2010; MIURA; SAWAIA, 2013).
A população de catadores se subdivide em catadores que coletam sacos de lixo nas ruas, os catadores de lixão, que realizam a catação nos aterros de lixos municipais, e os catadores que são cooperados e trabalham na coleta seletiva em cooperativas com máquinas, ou na triagem organizada (SCHWENGBER et al., 2013).
Todavia, sabe-se que as condições da atividade de catação geralmente são impróprias, insalubres e com alto grau de periculosidade, fazendo com que este trabalho possa ocasionar diversos agravos à saúde dos profissionais, visto que a falta de informação impede o catador de identificar e entender a dimensão dos riscos inerentes à atividade da catação (MEDEIROS; MACÊDO, 2007).
Posto isso, a cooperativa de materiais recicláveis abordada neste relato (Figuras 1 e 2), atua desde o ano de 2004 com coleta seletiva de materiais sólidos recicláveis, em parceria com a Prefeitura de São Paulo - SP, e atende a Subprefeitura de Pinheiros. É constituída por aproximadamente 60 colaboradores, e funciona também como Ponto de Entrega Voluntária (PEV), além de receber resíduos secos de outros PEV. Os resíduos recicláveis chegam em caminhões que os despejam em uma rampa de acesso ligada a uma esteira.
Figura 1: Fachada da Cooperativa, 2016.
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Figura 2: Galpão da cooperativa e catadores em atividade laboral, 2016
Imagens: Arquivo pessoal.
A remuneração dos cooperados da organização estudada é baseada na produtividade. Assim, para aumentar a produtividade, o cuidado com a saúde acaba sendo negligenciado pelos trabalhadores, que ignoram os sinais e sintomas de doenças oriundas da exposição e rotina do próprio trabalho, como exemplo, dor lombar decorrente do levantamento inadequado de peso, doenças de pele associadas ao contato com material contaminado, cortes devido ao manejo de materiais perfuro-cortantes, dificuldades respiratórias e dores de cabeça possivelmente ocasionadas pela inalação de gases diversos, além de desnutrição, hipertensão arterial e diabetes mellitus sem acompanhamento, agravos odontológicos, dentre outros.
Muitas das condições mencionadas possivelmente se originam do contato com agentes biológicos diversos, como vírus, bactérias, fungos, protozoários, helmintos, artrópodes, além de ferimentos provocados por animais peçonhentos (LAZZARI; REIS, 2011).
A Cooperativa não estava assistida por nenhum serviço de saúde, com ambiente insalubre, e Equipamentos de Proteção Individual (EPI) em estado precário de uso, quando existiam.
Neste sentido para resolver o problema descrito, a equipe da Residência Multiprofissional em Atenção Básica e Saúde da Família da Universidade Nove de Julho (UNINOVE), São Paulo – SP, composta por 12 profissionais, sendo dois de cada área (enfermagem, nutrição, farmácia, fisioterapia, odontologia e psicologia), foi convidada pela Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (AMLURB) para desenvolver, nessa Cooperativa, um Projeto de educação em saúde e ensino em serviço visando promoção à saúde e prevenção de agravos e doenças.
1.1 EDUCAÇÃO EM SAÚDE E ENSINO EM SERVIÇO
A Residência Multiprofissional em Saúde (RMS) é uma modalidade de pós-graduação lato sensu, direcionada para a educação em saúde e ensino em serviços de saúde, inserida e regulamentada pela promulgação da lei n. 11.129, de 30 de junho de 2005, destinada à profissionais integrantes da área de saúde, exceto médicos (BRASIL et al., 2006).
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Essa modalidade de formação de profissionais da saúde é resultado da parceria e articulação entre os Ministérios da Educação e o da Saúde, tendo em vista criar estratégias para formar profissionais aptos e comprometidos em trabalhar juntamente com o Sistema Único de Saúde (SUS), na busca da integralidade, onde o espaço pedagógico vai além da sala de aula, implicando em vivencias práticas nos diferentes cenários de trabalhos, ricos em experiências de aprendizagens para ambos sujeitos envolvidos, possibilitando excelente integração teórico prática (VENDRUSCOLO et al., 2016).
Neste molde, as teorias que dão bases a tal estratégia remetem ao processo educativo direcionado à transformação social por meio da relação entre conteúdo e a prática, integrando o ensino-serviço mediante vivência de reais condições, e levando em conta o contexto histórico e social dos indivíduos (BORGES, 2018).
Assim, a equipe de Residentes atendendo ao convite da AMLURB iniciou a observação na cooperativa afins de conhecer a realidade local. Pode então, identificar no ambiente um conjunto de condições potenciais para acidentes, sobretudo materiais perfuro cortantes como vidros, agulhas além de resíduos biológicos misturados aos materiais recicláveis. Foi observado também precariedade das máquinas, riscos físicos e mecânicos pertinentes sua utilização, e presença de gases expelidos da máquina que realiza o tratamento do isopor.
Este estudo tem como objetivo relatar as ações de educação com o intuito de suprir e minimizar carências e agravos em saúde nos catadores de materiais recicláveis de uma cooperativa de São Paulo – SP. Entende-se que este trabalho pode contribuir para que instituições de ensino, saúde e governos motivem-se e reflitam quanto a importância de que ações de educação em saúde no ambiente laboral, geram conhecimento, estimulam mudanças de hábitos e manejos, e influenciam de maneira positiva a qualidade de vida no ambiente, o que por sua vez poderá resultar em aumento de produtividade, melhoria no desempenho, além de promover saúde dentro e fora do trabalho.
Para tal, o estudo está estruturado em quatro seções a saber. Além desta Introdução, segue-se a Referencial Teórico, que apresegue-senta trabalhos que utilizaram propostas segue-semelhantes à apresentada neste relato. Na seção seguinte, apresenta-se a Metodologia, com a caracterização da cooperativa, do trabalho e dos catadores. Em seguida, em Resultados são expostos e comparados os resultados deste estudo antes e após a implementação das ações, e por fim, apresenta-se a seção de Considerações Finais, com as principais conclusões deste trabalho, suas limitações, além de propostas para pesquisas futuras.
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2 REFERENCIAL TEÓRICO
O excesso de resíduos sólidos produzidos pela população brasileira vem preocupando a sociedade há tempos, haja vista o aumento progressivo da toxidade destes rejeitos e o impacto negativo que estes causam ao meio ambiente. Nesse sentido, deve-se redobrar a preocupação especialmente quanto ao local de despejo dos RSU, tendo em vista o risco de contaminação ambiental ao solo, ao lençol freático e o ar (PINHEIRO; PASSON; FRANCISCHETTO, 2016).
A inquietação com essa problemática agitou as mais diversas áreas do conhecimento, com o intuito de desenvolver tecnologias capazes de minimizá-los. Assim, a opção mais difundida, avaliada e estimulada é a reciclagem (DALL’AGNOL; FERNANDES, 2007). A reciclagem é o processo de recuperar e reutilizar resíduos, transformando-os novamente em benfeitorias à sociedade. A coleta seletiva e a reciclagem são práticas usuais nos países do Primeiro Mundo, embora nos países em desenvolvimento esta já não seja tão efetiva (RIBEIRO; LIMA, 2000).
A coleta seletiva de resíduos recicláveis se constitui em um processo de triagem que proporciona a sustentabilidade urbana e melhora da condição ambiental e humana. No Brasil, a coleta dos RSU é introduzida como um serviço do setor público, como parte integrante de gestão dos municípios, conforme determinado pela Constituição Federal, sendo a reciclagem vista como uma atividade industrial que diz respeito ao setor privado (BESEN et al., 2014).
O material que é reciclável é separado do lixo por catadores em uma quantidade que seja suficiente para vender. A venda dos materiais reciclados entre os catadores e as empresas compradoras, na maioria das vezes passa pelo intermédio dos atravessadores, que são os chamados sucateiros. Os sucateiros recebem o material coletado pelos catadores e realizam a prensagem, mantendo o prensado acumulado em fardos até que atinja uma quantidade que viabilize o transporte para a indústria (MEDEIROS; MACÊDO, 2006).
O trabalho dos catadores de materiais recicláveis compreende catação, separação, transporte, arrumação e, em alguns casos, a reutilização ou reciclagem por meio do beneficiamento dos resíduos sólidos. Estima-se que entorno de 1,5% da população mundial economicamente ativa na Ásia e América Latina obtenha o sustento a partir da atividade de catação (SILVA; SOARES; LAGO, 2016).
No Brasil, a cadeia de reciclagem integra os catadores, os sucateiros e as indústrias. Apesar do relevante trabalho para os municípios, acarretando benfeitorias sociais, econômicas e ambientais, os catadores trabalham grande parte do tempo expostos a condições de vulnerabilidade e a diversos patógenos, estando em sua maioria desassistidos e desvalorizados, e sendo aqueles que menos se
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beneficiam dessa atividade (SARAIVA DE SOUZA; BASTOS DE PAULA; DE SOUZA-PINTO, 2012).
Ao investigar sobre condições de vida de trabalho e saúde dos 218 catadores de materiais recicláveis que trabalhavam em um aterro metropolitano do Rio de Janeiro - RJ, um estudo revelou elevado grau de insalubridade, periculosidade e riscos de morbidade decorrentes da atividade laboral (PORTO et al., 2004).
Já um estudo realizado em Goiânia, que investigou como os catadores percebem suas relações de trabalho, e quais as condições que desempenham suas funções de em cooperativas de reciclagem, demostrou relações de trabalho precárias, informalidade entre os catadores e organização de reciclagem, exposição à periculosidade, além do preconceito, estigma e exclusão social (MEDEIROS; MACÊDO, 2006).. Os estudos citados, à época, já assinalavam para uma característica da informalidade laboral, que é a vulnerabilidade dos colaboradores ao adoecimento. Os riscos destas pessoas podem ser agravados em decorrência da excessiva jornada laboral, ou mesmo pela banalização dos riscos aos quais estão expostas (COELHO et al., 2016). O maior perigo inerente da atividade laboral entre os catadores de recicláveis é a possibilidade contaminação biológica por cortes, lâminas, lascas de madeira, cacos de vidros, entre os resíduos considerados perfuro cortantes.
Constata-se ainda que estes trabalhadores estão expostos a agentes ambientais nocivos decorrentes de inalação, contato dérmico, contaminação alimentar, dentre outros riscos ocupacionais, além de diversos outros acidentes, que poderiam ser evitados com práticas educativas (CAVALCANTE., SYLVIA; AMORIM FRANCO, 2007).
Neste sentido, a educação em saúde é formada por um conjugado de saberes e práticas dirigidos para a prevenção de doenças e promoção da saúde. Estas ações são entendidas como um método útil de capacitar indivíduos, grupos ou comunidades, e contribuir com melhor qualidade de vida e saúde da população, incitando a reflexão crítica das origens dos problemas de saúde e ações cabíveis para sua resolução (ALVES, 2005).
Para Borges e colaboradores (2012), são dois os modelos educacionais que podem ser aplicados às atividades de educação em saúde: o modelo tradicional de educação em saúde, com o objetivo de transmitir o conhecimento e experiência do educador, esperando que os educandos o absorvam sem modificações e o reproduzam fielmente; e o modelo dialógico de troca de saberes, que compreende a educação em saúde como conscientização, mudança e transformação dos sujeitos.
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O método de educação em saúde escolhido no desenvolvimento das ações de saúde foi o método descrito por Alves, (2005) e Borges et al., (2012), como modelo de comunicação dialógica, ao dizer que:
A prática educativa, nesta perspectiva, visa ao desenvolvimento da autonomia e da responsabilidade dos indivíduos no cuidado com a saúde, porém não mais pela imposição de um saber técnico-científico detido pelo profissional de saúde, mas sim pelo desenvolvimento da compreensão da situação de saúde (ALVES, 2005).
De acordo com Silva (2014), as atividades de educação em saúde podem ser desenvolvidas em vários lugares, tanto no local de trabalho como na comunidade. A metodologia educativa se modifica de forma prestar atendimento individual, em comunidades ou à população em geral. Gonçalves e colaboradores (2016) realizaram análise parasitológica em catadores das cooperativas de triagem de materiais recicláveis do município de Pelotas - RS. Após o desenvolvimento de educação em saúde ambiental, por meio de palestras e rodas de conversa, constatou-se uma redução de 33% do número de trabalhadores contaminados.
Em Manacapuru - AM, as atividades educativas em saúde dirigidas a adolescentes de uma escola pública municipal, constatou a mudança de comportamento entre os alunos, além de reflexão sobre a responsabilidade pela própria saúde, e pela saúde da comunidade a qual pertenciam, além de elevar a capacidade de participação da vida comunitária de uma maneira construtiva (OLIVEIRA; GONÇALVES, 2004).
Já Fioruc e colaboradores (2008), desenvolveram um estudo para identificar o nível de conhecimento quanto aos primeiros socorros entre os professores e funcionários das escolas municipais de Ensino Fundamental em São Paulo - SP. No estudo, avaliaram o conhecimento em dois momentos, no momento pré e no pós-treinamento de primeiros socorros. Ao final, constatou-se a importância da educação em saúde na comunidade para minimizar danos advindos da incorreta manipulação da vítima e da falta de socorro imediato.
3 MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo, tipo relato de experiência realizado com catadores de uma
cooperativa de reciclagem de material sólido, localizada na zona oeste da cidade de São Paulo - SP, conveniada à Secretaria de Serviços desde o ano de 2004. A cooperativa possui uma área total de 3.202 m², e 1.148 m² de área construída, com capacidade para tratar, em média, 210 toneladas de material reciclável por mês. É composta por um pavimento onde existe um galpão de arcabouço metálico em arco, com aproximadamente seis metros de altura, piso de concreto, banheiros masculino e feminino, vestiários, área administrativa, refeitório, copa, cerca de 16 baias de
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reciclagem, uma esteira para a passagem dos resíduos, área para descarga dos resíduos, além de três prensas. Os veículos da empresa são dois caminhões próprios, além de uma Kombi.
A cooperativa desenvolve a coleta de recicláveis porta a porta em algumas ruas da zona oeste de São Paulo, atua como ponto de entrega voluntária (PEV) e recebe resíduos secos de supermercados diversos. Por possuir uma máquina de beneficiamento de isopor, a cooperativa compra isopor de outras cooperativas, e o transforma em matéria prima que é vendida para a indústria. A renda na cooperativa é por produção, ou seja, quanto mais o trabalhador atuar, maior será o seu ganho mensal. A renda média dos cooperados é de aproximadamente R$ 1.200,00 mensais, e possui algo em torno de 60 catadores cooperados, onde metade trabalha nas ruas realizando a coleta de resíduos, e a outra metade trabalha no local, em atividades de triagem, operação da máquina de isopor, na prensa, compostagem, estocagem, transporte etc.
O trabalho na cooperativa é realizado de forma manual. Deste modo, no momento da separação dos materiais, o colaborador tem contato direto com os dejetos recolhidos, situação que gera diversos agravos à saúde dos trabalhadores cooperados, como por exemplo, micoses, coceiras, lesões de pele, entre outras queixas. Quando o catador está doente, devido a sua remuneração ser baseada na produtividade, tal fato leva o trabalhador a não procurar ajuda para não perder horas de trabalho, negligenciando e ignorando os sinais e sintomas de doenças geradas pela exposição a diversos agentes etiológicos durante sua rotina de trabalho.
O trabalho de educação em saúde na cooperativa se deu após um convite da AMLURB, para que a equipe de Residentes Multiprofissionais de uma Universidade localizada na cidade de São Paulo – SP, desenvolvesse ações de saúde nas cooperativas de materiais recicláveis do município. Posteriormente, agendou-se uma visita com a presidente da cooperativa para conhecer e analisar a viabilidade, acesso, espaço, dentre outras condições. Em seguida, o projeto foi apresentado para os cooperados. As ações de educação em saúde ocorrerão por dois semestres. Iniciaram na primeira semana de fevereiro à segunda semana dezembro de 2016, ocorreram todas as terças-feiras do mês, das 08h30 às 11h30. Participou do projeto uma equipe multiprofissional, composta por 2 enfermeiros, 2 nutricionistas, 2 dentistas, 2 fisioterapeutas, 2 farmacêuticos e 2 psicólogos, onde em cada mês uma equipe desenvolvia a sua oficina.
Iniciou-se com acolhimento e aproximação no intuito de construir vínculos entre catadores e a equipe multiprofissional, além do cadastramento individual dos trabalhadores. Para nortear as ações de educação à saúde e construir os indicadores “pré” e “pós” que possibilitasse avaliar a efetividade do projeto, os catadores foram estimulados a manifestarem quais eram os seus principais problemas e interesses relacionados à saúde. Assim, após análise das anotações referente as
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principais queixas e reflexão sobre a forma de renda (produtividade) dos catadores, foram planejadas e promovidas ações, visando a prevenção, promoção, recuperação da saúde daquela população e encaminhamentos quando necessários.
4 RESULTADOS
As análises trouxeram informações, conforme ilustra a Figura 3, que direcionaram os temas e ações a serem desenvolvidas pelos residentes. Os números na Figura representam a frequência absoluta de trabalhadores que se referiram a cada um dos agravos, setores ou necessidades de interesse.
Figura 3: Interesses específicos em saúde expresso pelos trabalhadores da Cooperativa.
Fonte: Elaborada pelo autor.
Com base no interesse apresentado, o projeto iniciou com oficinas teóricas e práticas de educação em saúde desenvolvidas uma vez por semana, conforme o número de interessados em cada modalidade de assistência. Assim, a equipe de fisioterapia (Figura 4), desenvolveu 4 oficinas de 3 horas nas terças-feiras com trabalhos ergonômicos por meio de promoção e prevenção à saúde no sentido de orientar as práticas de agachamento e levantamento correto de peso, além de ginástica laboral, tendo em vista a elevada queixa de lombalgia (dor lombar).
0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20
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Figura 4: Levantamento correto de peso, orientação postural e ginástica laboral.
Fonte: Arquivo pessoal.
Posteriormente, a equipe de odontologia desenvolveu em 4 encontros 3 de horas nas terças-feiras, trabalhos de promoção e prevenção à saúde bucal com oficinas de orientações quanto à forma correta de escovação dental, entrega de kits de higiene bucal, além de triagens odontológicas para possíveis encaminhamentos junto a Clínica de Odontologia da Universidade (Figura 5).
Figura 5: Triagem odontológica.
Fonte: Arquivo pessoal.
A equipe de enfermagem pelo mesmo período, desenvolveu oficinas distribuídas com temas de leptospirose com ratos empalhados e imagens ilustrativas trazendo orientações sobre os tipos de ratos, formas de transmissão e sintomas da doença, além dos métodos preventivos reforçando a importância da higienização das mãos. A mesma equipe ainda desenvolveu a oficina sobre ações de prevenção a dengue, zika e chikungunya (Figura 6).
Figura 6: Oficina sobre leptospirose.
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Já a equipe de nutrição trouxe orientações sobre o aproveitamento total de alimentos (talos, cascas folhas etc.), higienização e distribuição de Hipoclorito de Sódio (HS) para os participantes. Ainda na oportunidade, foi colocado em prática juntamente com a equipe de enfermagem, a oficina de orientações sobre Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), por meio de abordagem dos tipos de IST, tratamentos, métodos preventivos e entrega de kits (preservativos masculinos e femininos, géis lubrificantes e folhetos informativos); também realizou teste rápido para detecção do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), com materiais adquiridos junto à Secretaria Municipal da Saúde (SMS) (Figuras 7A e 7B).
Figura 7A: Orientação nutricional.
Fonte: Arquivo pessoal.
Figura 7B: Orientação sobre IST e realização de Teste Rápido HIV.
Fonte: Arquivo pessoal.
A equipe de enfermagem desenvolveu a oficina focada na saúde da mulher, com orientações e distribuição de folhetos informativos sobre prevenção do câncer de mama e de colo uterino, ressaltando a importância do exame de colposcopia (Papanicolau). Pois na cooperativa trabalhava uma considerável quantidade de mulheres na condição de chefes de famílias ou apenas complementado a renda familiar sem os devidos cuidados com a sua saúde.
Já a equipe de psicologia desenvolveu oficinas sobre o tema tuberculose, com orientações sobre métodos preventivos, forma de contágio, importância da adesão ao tratamento até o final,
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além de jogos sobre mitos e verdades relacionados à tuberculose. Realizou ainda um encontro para esclarecer demais dúvidas de interesse dos cooperados (Figura 8).
Figura 8: Imagem do material utilizado no quiz “mitos e verdades” sobre a tuberculose pulmonar.
Fonte: COVISA, 2014.
Cabe ressaltar que, sempre na semana que antecedia cada oficina, eram afixados informativos em locais estratégicos com a finalidade de divulgar a próxima atividade. Os encaminhamentos para o ambulatório de especialidades da universidade eram realizados somente após análise clínica da queixa do cooperado. As atividades eram realizadas por meio de abordagem ampla, focando não apenas nos aspectos técnicos do trabalho em si, mas buscando explicitar e empoderar os trabalhadores, tornando-os sujeitos ativos na prevenção à saúde, todavia não somente no local de trabalho.
Após a realização das oficinas e implementação das campanhas, para avaliar os “pós”, se as ações instituídas de educação em saúde efetivamente melhoraram a situação dos cooperados, estes, na segunda semana de dezembro de 2016, novamente foram estimulados a expressarem seus interesses em saúde, permitindo comparar os resultados antes e após a execução do projeto aqui descrito. Pode-se notar ainda, que o estímulo havia se tornado ativo por parte dos cooperados, onde alguns já cobravam determinados temas.
Assim, observou-se que após a implementação das ações descritas ocorreu aumento do número de interessados em odontologia 46,66% (28 indivíduos), nutrição 28,33% (17 cooperados), e psicologia 18,33 (11 participantes), além dos interessados em atualizar suas vacinas e realizar tratamento de caráter vascular, ambos com 11,66% (7 respondentes), e dos interessados em outras áreas menos pontuadas, porém abordadas durante as oficinas. Contudo, notou-se que, na especialidade de odontologia, o número de interessados quase dobrou.
Sabe-se que tratamentos odontológicos apresentam custos consideravelmente elevados, não fazendo parte da realidade de muitos brasileiros. Tal aumento deveu-se à extensão dos
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encaminhamentos, que contemplaram também os familiares dos cooperados por meio de parceria com a clínica de odontologia da Universidade. Nesta o cooperado encaminhado também poderia levar a família para realizar a triagem e tratamento, ampliando assim o acesso aos serviços de saúde. A Figura 9 apresenta os resultados relacionados aos interesses nos serviços, por parte dos cooperados, antes e após a implementação das mudanças.
Figura 9: Principais indicadores avaliados antes e após das ações de educação em saúde.
Fonte: Elaborada pelo autor.
As ações de educação em saúde, segundo relatos, promoveram melhorias nas condições de saúde e de trabalho dos cooperados. Estes, passaram a observar o exercício laboral com um olhar mais cuidadoso e preventivo, orientando uns aos outros quanto à segurança e manejo adequado dos materiais de trabalho, sempre visando à saúde coletiva no ambiente laboral. Contudo, para que tais práticas permaneçam, é fundamental a continuidade deste projeto, a busca ativa pela unidade de saúde por esta população em seu território, a qual sobrevive desassistida além de incentivos do poder público. Neste sentido, o trabalho mostra que a educação em saúde in loco traz conhecimento, possibilita a promoção, prevenção e recuperação do estado de saúde.
A Figura 10 demonstra o número de encaminhamentos realizados pelos residentes para as especialidades atendidas no Ambulatório Integrado de Saúde da Universidade.
0 5 10 15 20 25 30 Fi sio ter ap ia Od o n to lo g ia Nu tr ição L ep to sp ir o se Med icam en to s E n fer m ag em Vac in aç ão Do en ça s Do res d e C ab eç a Vas cu lar Of talm o lo g is ta Gin ec o lo g is ta Or to p ed is ta Tab ag is m o Diab etes Gas tr ite Me n in g it e Hig ien e E st res se Ps ico lo g ia Não p o ss u i
Interesses específicos dos trabalhadores com base no "Pré" e no "Pós"
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Figura 10: Número de cooperados encaminhados durante o projeto na Cooperativa
Fonte: Elaborada pelo autor.
O atual projeto evidenciou o interesse dos cooperados em obter informações preventivas que minimizam suas exposições aos riscos potenciais à saúde, aos acidentes de trabalho, adoecimentos e inseguridade social. Sabe-se que quando se trata de trabalho informal, estas pessoas estão destituídas de benefícios e auxílios na ocorrência de um adoecimento (MIURA; SAWAIA, 2013). Quanto à seguridade social, segundo Barbosa, (2013) “o arcabouço teórico criado pelo SUS fornece ao cidadão brasileiro uma seguridade nunca experimentada, em que as três esferas de governo (Município, Estado e União), participam do atendimento das ações e serviços de saúde do SUS”. Porém, por mais que o Barbosa, (2013) mostre “ganhos em termos de produtividade nas ações e serviços e na condição de saúde populacional”, a maioria da população de catadores permanece desassistida.
Por conta disso, no caso dos cooperados, quando acontece um afastamento por causa de doença, ocorre também a diminuição da produtividade e consequentemente diminuição da renda mensal. Tal fato era recorrente na cooperativa, e fazia com que muitas vezes o trabalhador continuasse exercendo suas funções mesmo doente.
Outro importante ponto no projeto foi identificar a Unidade Básica de Saúde (UBS) responsável pelo território onde a cooperativa está inserida, e discutir junto com a gestão, a assunção de responsabilidade sobre aquela população que estava desassistida e articular possível visita da equipe de saúde, encaminhamentos, vacinas e agendamentos de consulta para os cooperados.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este relato permitiu conhecer como a equipe de residência multiprofissional desenvolveu ações educação em saúde e ensino na cooperativa de material reciclável, as quais possibilitaram aos catadores/cooperados conhecerem e sentirem-se responsáveis e participantes das variáveis que
0 10 20 30 40 50 60 70 80 Ginecologista Nutrição Pediatria Piscicologia Clínico Odontologia Total de Encaminhamentos 7 8 8 8 12 37 80 Encaminhamentos realizados
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envolvem a saúde e a doença no indivíduo, ou na amostra onde este está inserido. As oficinas de educação em saúde elucidaram dúvidas e trouxeram conhecimentos que quando aplicados no ambiente melhoram as condições de saúde e trabalho às quais os catadores estão expostos.
Contudo, é imprescindível reconhecer a educação em saúde como um processo contínuo. O papel da equipe de residentes foi além das oficinas educativas, pois, pode contribuir ainda com os possíveis encaminhamentos para especialidades a fim de minimizar problemas de saúde observados nos Cooperados.
Como limitante do projeto, houve o fato dos catadores obterem seus rendimentos mensais por produção, o que impactou na sua amplitude, visto que quase sempre, houve a necessidade de interromper o trabalho para que estes participassem das atividades de saúde propostas. Dessa forma, nem todos os trabalhadores ligados à cooperativa manifestaram seus interesses em saúde. A carência de recursos materiais e financeiros para investir nas oficinas e transporte dos atores envolvidos também dificultou.
Outro impacto negativo foi a publicação do “Chamamento Público” em 2016, para pré-qualificação de empresas (Organizações Sociais de Saúde - OSS) interessadas em assumir a gestão da UBS responsável pelo território. O episódio barrou a articulação em andamento referente a assunção de responsabilidade para com a cooperativa, e precisou aguardar o desfecho.
No entanto, o projeto trouxe ainda como saldo positivo a credibilidade e vínculo com a equipe envolvida, apesar das dificuldades enfrentadas. Este relato sinaliza para que outros trabalhos de intervenção similares a este sejam construídos e implementados, no sentido de preencher as lacunas que deixam pessoas como as descritas neste trabalho às margens do SUS. Considera-se que, conforme exposto, a parceria entre universidades e instituições traz bons frutos a ambos.
Os resultados do projeto demonstraram a importância da articulação e mobilização permanente entre universidades e cooperativas, na busca de tornar os catadores autores da própria saúde (empoderamento), ofertar o acesso e proporcionar melhor qualidade de vida para esta população.
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