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Academic year: 2021

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TÍTULO: DIÁLOGOS ENTRE DIREITO E LITERATURA: ANÁLISE DO LIVRO “CRIME E CASTIGO”, DE FIÓDOR DOSTOIÉVSKI

TÍTULO:

CATEGORIA: CONCLUÍDO CATEGORIA:

ÁREA: CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS ÁREA:

SUBÁREA: DIREITO SUBÁREA:

INSTITUIÇÃO: UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE DO PARANÁ INSTITUIÇÃO:

AUTOR(ES): ANA CAROLINA ABUD FERREIRA AUTOR(ES):

ORIENTADOR(ES): MAURÍCIO GONÇALVES SALIBA ORIENTADOR(ES):

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RESUMO:

Dostoiévski conta em Crime e Castigo a história de um jovem, estudante de Direito mata uma velha usurária, o autor descreve intensamente e de uma forma muito completa os pensamentos e sentimentos do jovem assassino. Todos os sentimentos, sensações e devaneios. Descreve o estado psicológico do estudante criminoso. Portanto, abre-se espaço para uma análise de teorias criminológicas de cunho psicológico e psicanalítico. A psicanálise transfere as determinações do crime das causas biológicas e hereditárias para causas comportamentais, como afetos e o controle que as pessoas tem sobre eles, controle que está intimamente ligado a história de vida e educação recebidas pelos indivíduos. Com essa abordagem psicanálise aproxima o criminoso das pessoas comuns, o que os diferencia é o inconsciente, é a capacidade de controlar os instintos e direcionar seus atos e esta capacidade é ligada com a educação moral, que determina a forma de controle do individuo sobre os instintos, essa educação atua como freio destes.

Assim, como Dostoiévski ilustra em seu Crime e Castigo, o criminoso pode estar muito próximo de qualquer um, e não apenas nas camadas mais pobres da população como muitas vezes foi indicado pela criminologia, que sob uma máscara de cientificidade e neutralidade só fez fortalecer o poder da classe burguesa dominante e de sua cultura, e fez com a classe inferior e sua subcultura fosse sempre marcada com o diagnóstico de “propensão” ao crime.

INTRODUÇÃO:

A criminologia traz para o direito penal a promessa de conhecer o crime

cientificamente e possibilitar meios para seu combate. As leis, a partir do estudo dessa ciência, começam a ser fundamentadas na necessidade natural de defesa da sociedade. E essa ciência do crime há tempos com um disfarce técnico-científico vem estudando a questão do crime e desloca o foco das penas e dos delitos para as características dos criminosos, passa-se das características físicas e biológicas, até que em um ponto mais avançado a criminologia direciona o foco para as

características psico-sociológicas da personalidade dos criminosos. OBJETIVOS:

Como objetivo deste trabalho pode ser destacado o estudo interdisciplinar que possibilita a análise de uma obra literária a partir de uma visão jurídica e de tal forma

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que se possa chegar a conclusões mais completas acerca de certas questões abordadas pelo livro Crime e Castigo, de Dostoiévski.

METODOLOGIA:

A pesquisa utilizou o método bibliográfico, através da leitura de obras, artigos e demais textos que trataram sobre o tema.

DESENVOLVIMENTO:

Para desenvolvimento do presente trabalho foi feita a análise de Crime e Castigo, e partindo daí, foram analisadas as correntes criminológicas.

Como Dostoiévski ilustra em seu Crime e Castigo, o criminoso pode estar muito próximo de qualquer um, e não apenas nas camadas mais pobres da população como muitas vezes foi indicado pela criminologia, que sob uma máscara de

cientificidade e neutralidade só fez fortalecer o poder da classe burguesa dominante e de sua cultura, e fez com a classe inferior e sua subcultura fosse sempre marcada com a “propensão” ao crime.

A psicologia penal também contribuiu para estigmatização social que permite que se confunda crime e miséria, pois com o presente trabalho apurou-se que ao fazer análises de Exames para Verificação de Cessação de Periculosidade dos detentos as equipes que os analisam sempre buscam o histórico dos condenados, se eles têm alguma “deficiência” familiar já é considerada uma maior possibilidade de afinidade com o crime e, portanto, essa “deficiência” atua como ponto negativo. E isso é uma estigmatização, na maior parte das vezes é o pobre que tem “problemas” familiares já que o modelo de familiar burguês não é o mesmo das camadas

inferiores da população. Nas camadas mais pobres é onde muitas vezes as pessoas moram com a família de origem e a família constituída na mesma casa; onde as pessoas têm uma noção de privacidade e intimidade diferentes das tradicionais famílias das camadas superiores; onde muitas vezes as famílias têm apenas a mãe cuidando dos filhos sem a figura paterna, ou os responsáveis por essas famílias estão na maior parte do tempo ausentes por terem que trabalhar arduamente para sustentar a família (RAUTER, 2003, p.95).

Porém a psicanálise explica que muitas vezes não é a verdade factual o mais importante para desenvolvimento de psicoses ou neuroses (RAUTER, 2003, p.89),

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sendo que apesar de não ter o modelo familiar burguês o indivíduo pode conviver bem com tipos de famílias diferentes, e mesmo tendo as consideradas “deficiências” familiares nem por isso irá desenvolver qualquer problema psíquico-afetivo

(RAUTER, 2003, p.95).

Dostoiévski faz uso de muitas transposições de fatos autobiográficos em seus escritos, e na obra em questão pode ser analisado seu complexo de édipo, já que teve o pai muito avarento e rígido, e além de tudo via sua mãe sofrer com isso. Esse complexo é representado pelo assassinato da velha usurária a vontade que

Dostoiévski teve de ver seu pai distante de alguma forma, de não o querer por perto, e toda a culpa dessa vontade. Além disso, o jovem Raskólnikov mata a velha porque ela é inútil a sociedade e ele pensa estar matando um inseto para fazer um bem social, e que assim como a sociedade “perdoou” assassinos na história, grandes homens, deveria ser ele perdoado também. Além dessa questão moral, a culpa que Raskólnikov sente após o crime e que o leva a se entregar a polícia representa a ideia que o autor tem de culpa em relação ao criminoso e a ideia de crime ligado a doença, e em uma das passagens diz que a causa principal de um crime ser descoberto não é a impossibilidade material de encobri-lo, mas sim o próprio

criminoso, que no momento do crime encontra-se como se estivesse doente, como algumas correntes criminológicas já quiseram alocar o crime como uma doença. No início do século XX a criminologia ganha uma tendência médica e os estudiosos tentam relacionar o criminoso a várias doenças como sífilis, deficiência cardíaca e hormonal. E as penas e prisões a essa época visam à cura e recuperação do criminoso (RAUTER, 2003, p.39). E também a psiquiatria manteve um diálogo constante com a criminologia a partir da metade do século XIX, e então, a própria psiquiatria coloca o crime como uma das muitas formas de manifestações da

loucura, e transfere para si a noção de crime e a partir daí busca sua medicalização (RAUTER, 2003, p.41).

A criminologia em alguns modelos de cunho psicológico explicam o comportamento delitivo em função de determinados processos psíquicos, a psicopatologia estuda o homem que é psiquicamente doente, enxerga a conduta delitiva como resultado de um transtorno patológico. A psicanálise entende o crime como um “comportamento funcional simbólico, expressão de conflitos psíquicos profundos, pretéritos, de desequilíbrios da personalidade que só podem ser revelados introspectivamente” (MOLINA; GOMES, 2002, p.252-253). Mas a psicanálise moderna tira o foco do

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surgimento do delito por desequilíbrios ou conflitos psíquicos, e sim por uma falha na interiorização das normas pelo individuo criminoso (MOLINA; GOMES, 2002, p.259-260)

É muito perigoso que as minorias numa sociedade representem o bode expiatório (BARATTA, 2002, p.56). E teorias psicanalíticas acabam por não superar os limites da criminologia tradicional:

“orientam a própria análise sob as funções punitivas sem mediar esta análise com aquela do conteúdo específico do comportamento desviante, do seu significado dentro da histórica determinabilidade das relações sócio-economicas” (BARATTA, 2002, p.56).

Dostoiévski em Crime e Castigo já expõe os processos psíquicos do assassino até o cometimento do crime e até depois, toda a culpa, até a confissão e a busca de redenção.

RESULTADOS:

A conclusão que chego, e compartilho da ideia de Cristina Rauter é que não há como melhorar a situação estigmatizadora causada pela criminologia se as ciências humanas não assumirem que contribuem para a dominação e repressão social e para o estigma das camadas pobres (RAUTER, 2003, p.92/93).

Tem de haver mudanças, não para as ciências humanas deixem de contribuir ao controle e repressão social do Estado sobre a sociedade, mas para que essas ciências ajam em também favor do humano, e não apenas de forma repressora, controladora e estigmatizadora do Estado. Deve se buscar também um modelo diferente de aplicação da pena, já que de ela atua de modo diferente em cada criminoso.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Espera-se que o trabalho contribua para o direito de forma mais completa, tendo em vista sua interdisciplinaridade. Pois dessa forma é possível ver de outros ângulos questões jurídicas. E diversos pontos de vista sempre são motivos de

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FONTES CONSULTADAS:

BARATTA, Alessandro. Criminologia Crítica e Crítica do Direito penal: introdução à crítica do direito penal. 3. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2002.

BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. 11. ed. São Paulo: Gaetano Dibenedetto Ltda, 1996.

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Tradução de Paulo Bezerra. 6. ed, São Paulo: Editora 34, 2009.

MOLINA, Antonio García-Pablos de; GOMES, Luiz Flávio. Criminologia: introdução a seus fundamentos teóricos: introdução às bases criminológicas da Lei 9.099/05, lei dos juizados especiais criminais. 4. ed. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2002.

NUNES, Natália. Em Dostoiévski, Fiódor. Obra Completa, volume II. Tradução de Natália Nunes. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora,1963.

RAUTER, Cristina. Criminologia e Subjetividade no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 2003.

Referências

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