RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO 833.892 SANTA CATARINA
RELATORA : MIN. CÁRMEN LÚCIA
RECTE.(S) :ACIOLI CORDEIRO FILHO
ADV.(A/S) :CLÁUDIA HALLE DE ABREU E OUTRO(A/S)
RECDO.(A/S) :TV O ESTADO DE FLORIANÓPOLIS LTDA
ADV.(A/S) :JOÃO DOS SANTOS MARTINS E OUTRO(A/S)
DECISÃO
AGRAVO EM RECURSO
EXTRAORDINÁRIO.
RESPONSABILIDADE CIVIL. MATÉRIA JORNALÍSTICA. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. IMPOSSIBILIDADE DE REEXAME DE PROVAS. SÚMULA N. 279 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL LIBERDADE DE EXPRESSÃO: DIREITO DE CRÍTICA. PRECEDENTES. AGRAVO AO QUAL SE NEGA SEGUIMENTO.
Relatório
1. Agravo nos autos principais contra inadmissão de recurso extraordinário interposto com base no art. 102, inc. III, al. a, da Constituição da República contra a seguinte decisão monocrática do Desembargador Carlos Prudêncio do Tribunal de Justiça de Santa Catarina:
“Assim, passo à análise da responsabilidade civil da ré.
Compulsando-se os autos, verifica-se que, no dia 04 de fevereiro de 2009, o autor foi encaminhado à Central de Polícia de São José, após ter consumido droga e causado inúmeros danos aos objetas da casa de sua genitora; que em razão disto, a ré efetuou reportagem, na qual foi relatado os fatos acima, veiculada a imagem do requerente, que
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bem como informou trata e pessoa portadora do vírus da ADS.
Assim, em nenhum momento, se constata que quer juízo de valor, opinião pessoal ou calúnia por parte da ré, que apenas se restringiu a relatar os fatos, função sua garantida pela Carta Magna.
Urge-se frisar que a menção feita na reportagem de Tratar-se de pessoa portadora do vírus da AIDS, fato esse confirmado pelo próprio autor na iniciai, foi tão somente veiculada na oportunidade em que foi relatado pelo repórter que o requerente era usuário de drogas e que, por consumir o estupefaciente juntamente com os remédios da AIDS, fez com que perdesse a noção e causasse os danos mencionados pela sua própria genitora na reportagem.
Ao meu sentir, ao contrário do que alega o autor, a menção feita pelo repórter somente ameniza o ato repugnante praticado pelo autor, pois apresenta justificativa médica para tal comportamento.
Apenas para fins de argumentação, a sociedade moderna luta constantemente contra a discriminação dos portadores do vírus HIV positivo, cuja argumento está amparado basicamente no fato de se tratar de uma doença como qualquer outra, atingindo todas as classes sociais. Assim, incoerente seria condenar a imprensa por, em meio a reportagem de fatos evidentemente de interesse social, informar tratar-se de pessoa portadora de AIDS, ainda mais quando este fato está intrinsecamente ligado à matéria, sem qualquer ânimo de injuriar ou caluniar, mas tão somente informar.
Urge-se frisar que a liberdade de imprensa, conforme exposto alhures, não é absoluta, pois deve observar os preceitos éticos da classe, restringindo-se a informar os fatos, o que se verifica no caso em apreço, na matéria veiculada pela TV. Assim, não há qualquer conduta ilícita por parte da ré, conforme remansosa jurisprudência que versa a respeito.
(…)
Ante o exposto, com base no art. 557, caput, do Código de Processo Civil, NEGO SEGUIMENTO ao recurso de apelação interposto por Acioli Cordeiro Filho, pois manifestamente improcedente e em confronto com jurisprudência dominante deste Tribunal de Justiça”.
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Os embargos de declaração opostos foram rejeitados.
2. O Agravante alega ter o Tribunal de origem contrariado os arts. 5o., incs. V e X, e 220 da Constituição da República.
Assevera que “a utilização de imagens ou mesmo referências ao nome da pessoa sem a sua autorização. Assim, também a publicação de notícias ou informações ofensivas ou não autorizadas a respeito de alguém provoca danos morais indenizáveis”.
3. O recurso extraordinário foi inadmitido sob o fundamento de incidência da Súmula n. 281 do Supremo Tribunal Federal.
Examinados os elementos havidos no processo, DECIDO.
4. O art. 544 do Código de Processo Civil, com as alterações da Lei n. 12.322/2010, estabeleceu que o agravo contra inadmissão de recurso extraordinário processa-se nos autos do recurso, ou seja, sem a necessidade de formação de instrumento, sendo este o caso.
Analisam-se, portanto, os argumentos postos no agravo, de cuja decisão se terá, na sequência, se for o caso, exame do recurso extraordinário.
5. Inicialmente, cumpre afastar o fundamento da decisão agravada, por não incidir na espécie a Súmula n. 281 deste Supremo Tribunal, porque os embargos de declaração opostos foram rejeitados.
A superação desse fundamento, todavia, não é suficiente para o acolhimento da pretensão do Agravante, não lhe assistindo razão jurídica. 6. A alegação de nulidade do acórdão por contrariedade ao art. 93, inc. IX, da Constituição da República não pode prosperar. Embora em
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sentido contrário à pretensão do Agravante, o acórdão recorrido apresentou suficiente fundamentação.
Conforme a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, “o que a Constituição exige, no art. 93, IX, é que a decisão judicial seja fundamentada; não, que a fundamentação seja correta, na solução das questões de fato ou de direito da lide: declinadas no julgado as premissas, corretamente assentadas ou não, mas coerentes com o dispositivo do acórdão, está satisfeita a exigência constitucional” (RE 140.370, Relator o Ministro Sepúlveda Pertence, RTJ 150/269).
7. A apreciação do pleito recursal demandaria o reexame de fatos e provas, procedimento que não pode ser validamente adotado em recurso extraordinário. Incide, na espécie, a Súmula n. 279 do Supremo Tribunal Federal:
“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO
EXTRAORDINÁRIO COM AGRAVO. CIVIL. AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. MATÉRIA JORNALÍSTICA. EXPOSIÇÃO DE IMAGEM NO NOTICIÁRIO. IMPOSSIBILIDADE DO REEXAME DO CONTEXTO FÁTICO-PROBATÓRIO. INCIDÊNCIA DA SÚMULA 279 DO STF. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO. 1. A Súmula 279 do STF dispõe: Para simples reexame de prova não cabe recurso extraordinário. 2. É que o recurso extraordinário não se presta ao exame de questões que demandam o revolvimento do contexto fático-probatório dos autos, adstringindo-se à análise da violação direta da ordem constitucional. 3. Agravo regimental desprovido” (ARE
658.458-AgR, Relator o Ministro Luiz Fux, Primeira Turma, DJe 15.2.2012, grifos nossos).
“AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO
EXTRAORDINÁRIO. RESPONSABILIDADE CIVIL. MATÉRIA JORNALÍSTICA. PEDIDO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. IMPOSSIBILIDADE DA ANÁLISE DA LEGISLAÇÃO INFRACONSTITUCIONAL E DO REEXAME DE PROVAS.
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SÚMULA 279 DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. OFENSA CONSTITUCIONAL INDIRETA. AGRAVO REGIMENTAL AO QUAL SE NEGA PROVIMENTO. Imposição de multa de 1% do valor corrigido da causa. Aplicação do art. 557, § 2º, c/c arts. 14, inc. II e III, e 17, inc. VII, do Código de Processo Civil” (RE 541.739-AgR,
de minha relatoria, Primeira Turma, DJe 24.10.2008, grifos nossos).
“AGRAVO REGIMENTAL. INDENIZAÇÃO POR DANOS
MORAIS. MATÉRIA JORNALÍSTICA. REEXAME DE PROVAS. AUSÊNCIA DE IMPUGNAÇÃO DE FUNDAMENTO SUFICIENTE DO ACÓRDÃO RECORRIDO. ENUNCIADOS 279 E 283 DA SÚMULA/STF. Agravo regimental a que se nega provimento” (AI 673.117-AgR, Relator o Ministro Joaquim
Barbosa, Segunda Turma, DJe 22.10.2010, grifos nossos).
8. Ademais, este Supremo Tribunal assentou que o exercício da liberdade de expressão pelos profissionais da imprensa assegura ao jornalista o direito de expender crítica, ainda que desfavorável e em tom contundente, desde que não ocorram agravos à honra e à imagem da pessoa:
“A liberdade de imprensa, enquanto projeção das liberdades de
comunicação e de manifestação do pensamento, reveste-se de conteúdo abrangente, por compreender, dentre outras prerrogativas relevantes que lhe são inerentes, (a) o direito de informar, (b) o direito de buscar a informação, (c) o direito de opinar e (d) o direito de criticar. - A crítica jornalística, desse modo, traduz direito impregnado de qualificação constitucional, plenamente oponível aos que exercem qualquer atividade de interesse da coletividade em geral, pois o interesse social, que legitima o direito de criticar, sobrepõe-se a eventuais suscetibilidades que possam revelar as pessoas públicas ou as figuras notórias, exercentes, ou não, de cargos oficiais . - A crítica que os meios de comunicação social dirigem às pessoas públicas, por mais dura e veemente que possa ser, deixa de sofrer, quanto ao seu concreto exercício, as limitações externas que ordinariamente resultam dos direitos de personalidade. - Não induz responsabilidade civil a
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publicação de matéria jornalística cujo conteúdo divulgue observações em caráter mordaz ou irônico ou, então, veicule opiniões em tom de crítica severa, dura ou, até, impiedosa, ainda mais se a pessoa a quem tais observações forem dirigidas ostentar a condição de figura pública, investida, ou não, de autoridade governamental, pois, em tal contexto, a liberdade de crítica qualifica-se como verdadeira excludente anímica, apta a afastar o intuito doloso de ofender. Jurisprudência. Doutrina. - O Supremo Tribunal Federal tem destacado, de modo singular, em seu magistério jurisprudencial, a necessidade de preservar-se a prática da liberdade de informação, resguardando-se, inclusive, o exercício do direito de crítica que dela emana, por tratar-se de prerrogativa essencial que se qualifica como um dos suportes axiológicos que conferem legitimação material à própria concepção do regime democrático. - Mostra-se incompatível com o pluralismo de ideias, que legitima a divergência de opiniões, a visão daqueles que pretendem negar, aos meios de comunicação social (e aos seus profissionais), o direito de buscar e de interpretar as informações, bem assim a prerrogativa de expender as críticas pertinentes. Arbitrária, desse modo, e inconciliável com a proteção constitucional da informação, a repressão à crítica jornalística, pois o Estado inclusive seus Juízes e Tribunais não dispõe de poder algum sobre a palavra, sobre as ideias e sobre as convicções manifestadas pelos profissionais da Imprensa. Precedentes do Supremo Tribunal Federal. Jurisprudência comparada (Corte Européia de Direitos Humanos e Tribunal Constitucional Espanhol)” (AI 705.630-AgR, Relator o Ministro Celso de Mello,
Segunda Turma, DJe 6.4.2011, grifos nossos).
“A Constituição reservou à imprensa todo um bloco normativo,
com o apropriado nome "Da Comunicação Social" (capítulo V do título VIII). A imprensa como plexo ou conjunto de "atividades" ganha a dimensão de instituição-ideia, de modo a poder influenciar cada pessoa de per se e até mesmo formar o que se convencionou chamar de opinião pública. Pelo que ela, Constituição, destinou à imprensa o direito de controlar e revelar as coisas respeitantes à vida do Estado e da própria sociedade. A imprensa como alternativa à explicação ou versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da
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sociedade e como garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em qualquer situação ou contingência. Entendendo-se por pensamento crítico o que, plenamente comprometido com a verdade ou essência das coisas, se dota de potencial emancipatório de mentes e espíritos. O corpo normativo da Constituição brasileira sinonimiza liberdade de informação jornalística e liberdade de imprensa, rechaçante de qualquer censura prévia a um direito que é signo e penhor da mais encarecida dignidade da pessoa humana, assim como do mais evoluído estado de civilização (…). Sem embargo, a excessividade indenizatória é, em si mesma, poderoso fator de inibição da liberdade de imprensa, em violação ao princípio constitucional da proporcionalidade. A relação de proporcionalidade entre o dano moral ou material sofrido por alguém e a indenização que lhe caiba receber (quanto maior o dano maior a indenização) opera é no âmbito interno da potencialidade da ofensa e da concreta situação do ofendido. Nada tendo a ver com essa equação a circunstância em si da veiculação do agravo por órgão de imprensa, porque, senão, a liberdade de informação jornalística deixaria de ser um elemento de expansão e de robustez da liberdade de pensamento e de expressão lato sensu para se tornar um fator de contração e de esqualidez dessa liberdade. Em se tratando de agente público, ainda que injustamente ofendido em sua honra e imagem, subjaz à indenização uma imperiosa cláusula de modicidade. Isto porque todo agente público está sob permanente vigília da cidadania. E quando o agente estatal não prima por todas as aparências de legalidade e legitimidade no seu atuar oficial, atrai contra si mais fortes suspeitas de um comportamento antijurídico francamente sindicável pelos cidadãos” (ADPF 130, Relator o Ministro Ayres
Britto, Plenário, DJe 6.11.2009, grifos nossos).
Nada há, pois, a prover quanto às alegações do Agravante.
9. Pelo exposto, nego seguimento ao agravo (art. 544, § 4º, inc. II, al. a, do Código de Processo Civil e art. 21, § 1º, do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal).
ARE 833892 / SC Publique-se.
Brasília, 15 de setembro de 2014.
Ministra CÁRMEN LÚCIA Relatora