O PROCESSO DE LIDERANÇA NA ORGANIZAÇÃO PRIVADA CLUB CASA
THE PROCESS OF LEADERSHIP IN A PRIVATE ORGANIZATION CLUB CASA
OLIVEIRA, Mário César Lopes de1 SANTOS, Rodrigo Antônio Silveira dos2
RESUMO
Este artigo apresenta uma pesquisa que identifica o processo de liderança dentro do grupo de colaboradores do departamento administrativo financeiro da organização privada Club Casa, identificando os tipos de poder utilizados durante este processo. Os estudos desenvolvidos são fundamentados na metodologia de uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, delineada através de um estudo de caso em conjunto com uma pesquisa participante. Neste trabalho, utilizaram-se entrevistas em profundidade, semi-estruturadas, composta de perguntas abertas como técnica principal de coleta de dados. O processo de liderança na organização passa a ser descrito e enquadrado dentro das teorias de liderança com abordagem processual existentes na bibliografia, assim como são descritos, também, os tipos de poder utilizados durante o processo de liderança. Como resultado, o pesquisador identificou e descreveu como ocorre o processo de liderança dentro da organização privada Club Casa; verificando em quais teorias de liderança este processo se enquadra, apontando também os tipos de poder utilizados para a existência deste processo de liderança. Por fim, foram definidos os aspectos do contexto da organização que facilitaram ou dificultaram a atuação do líder no processo de liderança.
Palavras–chave: Liderança. Influência. Tipos de Poder.
ABSTRACT
This article describes a study that identifies the leadership process within employees group of the financial-administration department of the private organization called Club Casa, identifying the types of power used during this process. The studies are based on a descriptive and qualitative methodological approach, outlined through a case study in conjunction with a participant research. This study used semi-structured in-depth interviews, consisting of open questions, as the main technique for data collection. The process of leadership in the organization was described and framed within the theories of leadership with processual
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Bacharel em Administração e graduando em Ciências Contábeis pela Faculdade Borges de Mendonça. E-mail: [email protected]
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Graduado em Administração pela Academia da Força Aérea (AFA), Especialista em Gestão Estratégica Empresarial pela UFSM, Mestre em Gerência de Produção pela UFSM E Doutorando em Inteligência
approaches. It was also described the types of power used during the leadership process. As a result, the researcher identified and described the leadership process within the private organization called Club Casa, identifying and describing the theories of leadership that best fits this process. It was also pointed the types of power used this leadership process. Finally it was determined witch aspects of the organizational context that facilitate or hinder the leader performance.
Keywords: Leadership. Influence. Types of power.
1 INTRODUÇÃO
Desde o surgimento do homem na terra e a necessidade de conviver em sociedade, a liderança é considerada um fator de extrema importância para o desenvolvimento das civilizações. Da idade da pedra aos tempos atuais, toda e qualquer ação transformadora, inerente da raça humana, tem um agente principal que impulsiona e direciona o processo de mudança, ao qual denominamos de líder.
Apesar de estar presente desde os primórdios, o assunto liderança teve suas primeiras teorias estudadas no início do século XX e publicadas após a Segunda Guerra Mundial, por Ralph Stogdill e Richard Mann. Após as primeiras publicações, vários autores escreveram sobre o assunto, aplicando às práticas administrativas e evoluindo seus conceitos.
Quando há relacionamento entre duas ou mais pessoas, existe, latente, um processo de influência de uma sobre a outra ou ao grupo, e vice-versa. Desta forma, podemos concluir que desde os mais remotos dos tempos, vivemos de relacionamentos e, portanto, de influências. No contexto organizacional de hoje, é enfatizado o relacionamento entre as pessoas, o que chamamos de networking.
Contextualizando a liderança como um processo de influência, é fácil de concluir que onde há um relacionamento, existe um processo de liderança. Sendo assim, é de extrema importância identificar e descrever estes processos dentro de uma organização, de forma a conhecer o que motiva os relacionamentos e os processos de influência, como e de que forma eles ocorrem, quais os resultados positivos ou negativos que eles trazem para a organização.
Por inúmeras vezes depara-se com informações de empresas que não atingiram os seus objetivos, grupos que não alcançaram os resultados, organizações que faliram, etc. Basicamente, ouve-se que a causa desses “desastres” tem as mais variáveis origens: falta de
recursos (financeiros, informacionais, materiais e pessoais), falta de tecnologia, falta de planejamento, etc.
Porém, não se atribui diretamente que a causa foi a falta de processos de liderança. E como o processo de liderança motiva as pessoas ou o grupo ao alcance de objetivos, fica claro que a falta de processos de liderança percorre o caminho contrário.
Esta pesquisa preenche uma lacuna teórica existente nos estudos sobre a prática da liderança nas organizações. Pretende obter o entendimento sobre o exercício da liderança, não apenas com a finalidade de melhorar a prática da liderança na empresa, mas também como meio para se compreender os processos coletivos de criação de significado, e de influência entre líderes e liderados, dentro da organização.
Os estudos sobre liderança como processo ainda são bastante escassos no Brasil, por isso a rara bibliografia de autores nacionais sobre o tema. Então, é bastante oportuno trazer uma contribuição sobre esse tema tão atual, tanto na apresentação teórica para o estudo acadêmico, mesmo de autores estrangeiros, quanto na pesquisa empírica dentro de uma empresa privada, a qual contribuirá de forma significativa para o entendimento das interações entre as pessoas da organização e também a compreensão da relação entre este processo e o alcance dos resultados e objetivos organizacionais. Desta forma, o objetivo deste trabalho é identificar como ocorre o processo de liderança dentro da organização privada Club Casa e em quais teorias de liderança este processo se enquadra, identificando também os tipos de poder utilizados para a existência deste processo de liderança.
2 REVISÃO DE LITERATURA
Os estudos sobre liderança iniciaram com as Teorias com Foco no Líder, dividida em teoria dos Traços, das Habilidades e dos Estilos, onde as características pessoais determinavam maior ou menor capacidade para liderança.
Em seguida, surgiram as Teorias com Foco no Contexto, ampliando as variáveis para a análise da liderança, desviando o foco central do líder e direcionando-os para a complexidade das tarefas e as relações entre líder e seguidor. Esta teoria possui três abordagens: Teoria Situacional, Teoria Contingencial e Teoria Caminho-Objetivo.
A partir da Teoria Caminho-Objetivo, surge a terceira, as quais são as Teorias com Foco nas Relações, onde os relacionamentos entre líder e liderados têm enfoque central, sendo
dividida em Teoria LMX e Teoria Transacional, com a individualização dos relacionamentos entre líder e liderados e recompensas por desempenho.
A quarta e mais recente são as Teorias com Foco nas Mudanças, com duas abordagens: Teoria Transformacional e Teoria do Trabalho Adaptativo, com a idéia de ser um modelo mais abrangente, onde liderança pode ser exercida sem a formalidade das teorias anteriores.
Conceituando liderança, Hemphill e Coons (1957 apud BERGAMINI, 2009, p.3), apresentam que “liderança é o comportamento de um indivíduo quando está dirigindo as atividades de um grupo em direção a um objetivo comum”.
Roach e Behling (1984 apud BERGAMINI, 2009, p.3) conceituam que “liderança é o processo de influenciar as atividades de um grupo organizado na direção da realização de um objetivo”.
Já para Houaiss et al. (2004, p.456) liderança é “espírito de chefia; posição ou característica de líder”.
Northouse (2007 apud SANTOS, 2008, p.4) coloca com propriedade que liderança é “um processo no qual um indivíduo influencia um grupo de indivíduos para alcançar um objetivo comum”.
É nesse enfoque, compreendendo a liderança como um processo biunívoco e interativo, ao alcance de qualquer pessoa e não apenas daquelas que possuem posição formal e superior nas organizações que ela será tratada no contexto desse trabalho - como um processo de direcionamento de pessoas no sentido de alcançar um objetivo.
Houaiss et al. (2004, p.416) define influência como “poder de interferência de uma pessoa ou coisa sobre outra”.
Para Yukl (2006 apud SANTOS, 2008), influência é o efeito que uma parte (o agente) exerce sobre outra (o alvo). O processo de influência do agente se dá sobre as atitudes, percepções e comportamentos do alvo, e tem como resultado, três variáveis: o comprometimento, a submissão e a resistência.
Disserta, ainda, o autor que quando o processo de influência resulta em comprometimento, a liderança se dá de forma eficiente. Já, quando o resultado for de submissão, o processo de liderança não é completo e pode se extinguir com o passar do tempo. Em caso de resistência, não se tem um processo De influência e, consequentemente, não se tem a liderança.
Houaiss et al. (2004, p.577) define poder como ”ter autoridade de; ser capaz, estar em condições de”.
De acordo com Yukl (2006 apud SANTOS, 2008), poder é a capacidade potencial de exercer a influência, ou seja, é a capacidade que o agente tem de influenciar as atitudes e os comportamentos do alvo.
Para French e Raven (1959 apud SANTOS, 2008), existem cinco tipos de poder, a saber: poder de recompensa, cuja capacidade de influência do agente está na oferta de prêmios ao alvo; poder coercitivo, cuja capacidade de influência do agente está na punição do alvo; poder legítimo, cuja capacidade de influência do agente está na relação do alvo com os direitos e deveres daquela ação; poder técnico, cuja capacidade de influência do agente está na competência técnica da ação sobre o alvo; poder de referência, cuja capacidade de influência está baseada na identificação e no relacionamento que o alvo possui com o agente e também no carisma do agente.
Yuki e Falbe (1991 apud SANTOS, 2008) delimitam três fontes de poder: poder de posição, que tem ligação direta com a hierarquia existente entre agente e alvo; poder pessoal, que está diretamente ligado ao carisma do agente e; poder político, o qual está ligado diretamente aos interesses comuns e decisões provenientes destes, entre alvo e agente.
Houaiss et al. (2004, p.577) define autoridade como sendo o ”direito ou poder de ordenar, de decidir, de se fazer obedecer”.
Para Heifetz (1994 apud SANTOS, 2008, p.6), “autoridade significa poder conferido. Esta abordagem extrapola a ideia de autoridade formal e significa que uma pessoa com autoridade possui algum tipo de poder que lhe foi concedido”. Sob esta ótica, a autoridade pode ser conferida e retirada, motivo pelo qual a existência de autoridade está condicionada à existência de poder.
Com essas definições, temos o tripé da liderança, pelo qual as variáveis: influência, poder e autoridade estão intimamente relacionados entre si e, desta forma, a liderança como um processo só existirá se todas elas estiverem presentes na ação entre o agente e o alvo.
3 ASPECTOS METODOLÓGICOS
O estudo desenvolvido na organização privada Club Casa contemplou uma pesquisa descritiva com abordagem qualitativa, delineada através de um estudo de caso em conjunto com uma pesquisa participante.
A abordagem qualitativa é utilizada para que o pesquisador capture a perspectiva da amostra populacional sob estudo, sem partir de um modelo pré-determinado e sem quantificar os resultados (ROESCH, 2006).
A técnica de coleta de dados utilizada na pesquisa foi concebida através de entrevistas em profundidade, na forma semiestruturada, com perguntas abertas. “Na coleta de dados, o leitor deve ser informado como você pretende obter os dados de que precisa para responder ao problema. Não se esqueça, portanto, de correlacionar os objetivos aos meios para alcançá-los, bem como de justificar a adequação de um ao outro”. (VERGARA, 2007, p.54)
Conforme Roesch (2006, p.159) entrevista, em profundidade, “é a técnica fundamental da pesquisa qualitativa. [...] Seu objetivo primário é entender o significado que os entrevistados atribuem a questões e situações em contextos que não foram estruturados anteriormente a partir das suposições do pesquisador”.
A entrevista foi semi-estruturada com perguntas abertas pelo fato de que o pesquisador deve entender e captar a perspectiva dos entrevistados sem engessá-los nas respostas e sem perder o foco do contexto, através de uma seleção prévia das questões a serem abordadas. (ROESCH, 2006)
A população e a amostra que foram objeto de estudo nesta pesquisa estão na seguinte proporção: população de onze colaboradores e amostra de três colaboradores, sendo cada um participante de um nível hierárquico da organização – estratégico – tático e operacional – a qual foi limitada às atividades funcionais do departamento administrativo/financeiro da Club Casa, a saber: gerente geral, gerente de projetos e auxiliar administrativo financeiro.
Para Vergara (2007, p.50) população alvo do estudo é “o conjunto de elementos (empresas, produtos, pessoas, por exemplo) que possuem as características que serão objeto de estudo.
As entrevistas realizadas e as observações do pesquisador foram transcritas em documentos de texto logo após o encerramento dos procedimentos de coleta de dados, evitando a passagem de tempo entre a coleta de dados, sua transcrição e a realização da análise. Conforme Taylor e Bogdan (1998 apud SANTOS, 2010) uma boa ideia é que se iniciem os procedimentos de codificação pouco tempo após a coleta dos dados. Quanto maior o período de tempo entre estas atividades, mais difícil será o retorno aos informantes para clarificar pontos que não estiverem bem entendidos.
Transcritas as entrevistas e observações, os dados foram classificados, na busca de temas capazes de separá-los por categorias. A tipologia utilizada relacionou-se com esquemas
de classificação desenvolvidos pelos informantes ou pelo pesquisador (TAYLOR e BOGDAN, 1998 apud SANTOS, 2010).
Posteriormente, o pesquisador enquadrou as informações dentro das teorias de liderança existentes na bibliografia, com o intuito de identificar processos, características e fenômenos que estejam implícitos nos dados coletados. Este processo é indutivo e intuitivo e requer grande familiaridade do pesquisador junto aos dados coletados (MERRIAM, 1998
apud SANTOS, 2010).
Por fim, o pesquisador apresentou os resultados da análise dos dados, identificando como ocorre o processo de liderança dentro da organização e em quais teorias se enquadram, identificando também os tipos de poder utilizados na existência deste processo.
4 ESTUDO DE CASO
Através da transcrição do conteúdo das entrevistas de profundidade, semiestruturadas, realizadas com os colaboradores do departamento administrativo financeiro da organização sob estudo, no período entre os dias 15 e 24 do mês de setembro de 2010, em conjunto com a observação participante ocorrida durante o período compreendido entre os meses de agosto e novembro de 2010, alimentaram o pesquisador com informações suficientes para a coleta de dados, seguido da classificação desses dados, do seu enquadramento nas teorias de liderança existentes, culminando com a posterior análise desses dados e da conclusão do objeto em estudo.
4.1 APRESENTAÇÃO DA EMPRESA
A Club Casa Decoração e Design Ltda. é uma empresa de pequeno porte (EPP), com capital essencialmente familiar, fundada em vinte de setembro do ano de dois mil e sete, com regime de tributação optado pelo simples, sendo o seu ramo de atividade o comércio varejista de produtos para decoração de ambientes residenciais e comerciais.
Possui uma loja localizada no Shopping Beira-mar, piso Jurerê (3º piso), loja 400/401 e a administração da empresa localiza-se na Rua Sete de Setembro, 142, sala 21 do Edifício Central, onde também se localiza o seu depósito, porém na sala 10, todos no centro de Florianópolis.
O seu faturamento bruto anual gira em torno de dois milhões e duzentos mil reais (dados de 2009). Sua estrutura organizacional é enxuta e seus colaboradores estão assim distribuídos: sete funcionários na loja do Shopping, três funcionários na administração e um funcionário no depósito. Separando os colaboradores por sexo, têm-se nove mulheres e dois homens.
A Diretoria é familiar e não está diretamente ligado à operação da empresa, o que está a cargo da gerente geral, que mensalmente presta contas.
A empresa apresenta como pontos fortes a sua localização, o seu mix de produtos, a sua estrutura organizacional enxuta, o estabelecimento de parcerias estratégicas com fornecedores, o fácil acesso ao capital, a utilização da gestão de processos e também da tecnologia ERP3(Enterprise Resources Planning).
Seus pontos fracos estão no fato de ser uma empresa familiar (o que dificulta a tomada de decisões), de não possuir um planejamento estratégico, de ser carente de recursos humanos qualificados, de não fidelizar profissionais de decoração, e também de sofrer uma forte concorrência externa (local e de outras praças).
4.2 CLASSIFICAÇÃO DOS DADOS COLETADOS
Nesta etapa do estudo de caso, o pesquisador buscou nas entrevistas e observações, os temas com características semelhantes, de forma a dispô-los em ordem de fácil compreensão para posterior enquadramento nas teorias de liderança fundamentadas.
Processos de liderança que ocorrem na organização
Conforme os dados coletados nas entrevistas, o pesquisador verificou que ocorre algum processo de liderança e aponta quais os indícios que comprovam esta afirmação:
a) A auxiliar administrativo financeira diz que como trabalha sozinha, não sofre influência de colegas, porém influencia e sofre influências de seus superiores, pois recebe ordens, as cumpre e oferece sugestões que são acatadas. Tem liberdade vigiada e limitada de ação, coloca que não gosta de tomar decisões, porém às vezes isso é
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inevitável e diz ter um bom relacionamento com os superiores. Estas características foram comprovadas pelas observações do pesquisador;
b) O gerente de processos influencia tanto a auxiliar administrativo financeira, quanto a gerente geral. Sua liberdade de ação é sem limites e questiona sempre as decisões de seus superiores, fato que gera vários conflitos, os quais são resolvidos com total impessoalidade, objetivando sempre o melhor para a organização. Considera que a empresa funciona como uma família, tendo por isso, um excelente relacionamento. Estas características foram comprovadas pelas observações;
c) A gerente geral diz ser uma pessoa pouco receptiva que gerencia mais utilizando a sua posição hierárquica. Coloca que é bastante influenciada pelo gerente de processos com relação a situações diárias da organização e que não sofre nenhuma influência da auxiliar administrativo financeira. Tem total liberdade de ação, sendo responsável por todas as decisões da empresa. Apresenta um elevado nível de conflito com o gerente de processos, mas que isso não abala o relacionamento interpessoal existente dentro da organização. Todas estas características foram comprovadas nas observações.
Tipos de poder utilizados na organização
Os dados coletados nas entrevistas indicam processos de influência existentes. Para que haja processos de influência, é necessária a utilização de algum tipo de poder. A indicação da utilização de algum tipo de poder foi verificada nos seguintes processos de influência:
a) A auxiliar administrativo financeira exerce algum tipo de poder ao ter suas sugestões acatadas pelo gerente de processos e no momento em que toma decisões, embora não o queira. Isso foi comprovado pelas observações, embora não tenha sido medida a quantidade de poder utilizada, pois não era esse um dos objetivos;
b) O gerente de processos utiliza algum tipo de poder quando influencia a auxiliar administrativo financeira e a gerente geral em relação a situações diárias da organização, o que também acontece quando gere conflitos com a gerente geral e toma suas decisões. Isso foi comprovado pelas observações, embora não tenha sido medida a quantidade de poder utilizada, pois não era esse um dos objetivos;
c) A gerente geral, por estar no topo da pirâmide organizacional, exerce algum tipo de poder para que suas decisões sejam acatadas e também para gerir os conflitos com o
gestor de processos. Isso foi comprovado pelas observações, embora não tenha sido medida a quantidade de poder utilizada, pois não era esse um dos objetivos.
4.3 ENQUADRAMENTO DOS DADOS COLETADOS
Foi possível, através da comparação entre a classificação dos dados coletados e expostos, anteriormente em conjunto como o conteúdo teórico no qual este estudo foi fundamentado, identificar os processos de liderança que ocorrem na organização Club Casa, enquadrando em cada uma das quatro teorias modernas sobre o assunto, bem como os tipos de poder utilizado nesse fenômeno relacional que é a liderança. Pelo exposto, temos:
Processos de liderança que ocorrem na organização versus teorias da liderança
a) A auxiliar administrativo financeira exercendo influência no gerente de processos, ao
ter suas sugestões acatadas – enquadramento claro na teoria com foco nas relações,
mais explicitamente na teoria LMX que, conforme Silveira dos Santos (2008) “tem sua base centrada nas relações entre líder e liderados, através da identificação do relacionamento individual entre o líder e liderados, separadamente, apresentando como unidade de análise as relações diádicas”;
b) O gerente de processos influencia tanto a auxiliar administrativo financeira quanto a
gerente geral em relação a situações diárias da organização - enquadramento claro
na teoria com foco nas relações, mais explicitamente na teoria LMX, pelo mesmo motivo do tópico “a” anterior;
c) Sua liberdade de ação é sem limites e questiona sempre as decisões de seus
superiores, fato que gera vários conflitos, os quais são resolvidos com total impessoalidade, objetivando sempre o melhor para a organização - enquadramento
preciso com base na definição da teoria com foco no contexto, iniciando na teoria situacional e terminando na teoria contingencial. Para Bergamini (2009), a abordagem situacional prega que a liderança (prescritiva) ocorre em diferentes situações, ou seja, situações diferentes demandam tipos diferentes de liderança. Nesta perspectiva, ser um bom líder requer a adaptação de uma pessoa a diferentes situações. Os liderados deverão ser avaliados de forma a verificar seu nível de competência e comprometimento e o líder deve alterar o grau de ênfase entre duas dimensões:
suporte (relacionado a pessoas) e direção (relacionados à tarefa). Para Silveira dos Santos (2008) a teoria contingencial é uma evolução da teoria situacional que prioriza o contexto, através da avaliação de três variáveis do contexto: as relações entre o líder e os liderados; a estrutura de tarefas; e o poder de posição. Aplica-se também a teoria com foco nas relações, mais especificamente a teoria LMX, pelos mesmos motivos apresentados no item “a” anterior;
d) A gerente geral diz ser uma pessoa pouco receptiva e que gerencia mais utilizando a sua posição hierárquica – claro exemplo de enquadramento na teoria com foco no
líder – teoria dos estilos. De acordo com Silveira dos Santos (2008), a teoria dos estilos amplia o comportamento dos líderes, (o que eles fazem e como eles agem). Esta abordagem enfatiza o que o líder faz e não o que o líder é.
e) A gerente geral coloca que é bastante influenciada pelo gerente de processos e que
não sofre nenhuma influência da auxiliar administrativo financeira – exemplo
clássico de enquadramento na teoria com foco nas relações, mais explicitamente na teoria LMX, pelo mesmo motivo do “a” anterior;
f) A gerente geral é responsável por todas as decisões da empresa – novamente a aplicabilidade da teoria com foco no líder – teoria dos estilos, pelo mesmo motivo desenvolvido no item “d” anterior.
g) Apresenta um elevado nível de conflito com o gerente de processos, mas que isso não
abala o relacionamento interpessoal existente dentro da organização – clássica
aplicação da teoria com foco no contexto, iniciando na teoria situacional e terminando na teoria contingencial, além da aplicação da teoria com foco nas relações, especificamente a teoria LMX, pelos mesmos motivos levantados no item “c” anterior;
Processos de liderança que ocorrem na organização versus tipos de poder
a) A auxiliar administrativo financeira exerce algum tipo de poder ao ter suas sugestões acatadas pelo gerente de processos e no momento em que toma decisões: neste
processo de influência, a auxiliar administrativo financeira utiliza o poder legítimo, pois para French e Raven (1959 apud SANTOS, 2008), “poder legítimo é aquele cuja capacidade de influência do agente está na relação do alvo com os direitos e deveres daquela ação”;
b) O gerente de processos utiliza algum tipo de poder quando influencia a auxiliar administrativo financeira e a gerente geral em relação a situações diárias da organização, o que também acontece quando gere conflitos com a gerente geral e toma suas decisões: neste processo de influencia, o gerente de processos utiliza os
seguintes tipos de poder: legítimo, técnico e de referência. Para French e Raven (1959
apud SANTOS, 2008), “poder legítimo é aquele cuja capacidade de influência do
agente está na relação do alvo com os direitos e deveres daquela ação”; para o mesmo autor, “poder técnico é aquele cuja capacidade de influência do agente está na competência técnica da ação sobre o alvo” e ainda conclui que “poder de referência é aquele no qual a capacidade de influência está baseada na identificação e no relacionamento que o alvo possui com o agente e também no carisma do agente”;
c) A gerente geral, por estar no topo da pirâmide organizacional, exerce algum tipo de poder para que suas decisões sejam acatadas, e também para gerir os conflitos com o gestor de processos: para este processo de influência, a gerente geral utiliza o poder
coercitivo, o poder legítimo e o poder de referencia. Para French e Raven (1959 apud SANTOS, 2008), “poder coercitivo é aquele cuja capacidade de influencia do agente está na punição do alvo”; complementa que “poder legítimo é aquele cuja capacidade de influência do agente está na relação do alvo com os direitos e deveres daquela ação”; para o mesmo autor, “poder de referência é aquele no qual a capacidade de influência está baseada na identificação e no relacionamento que o alvo possui com o agente e também no carisma do agente”.
5 APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS
Finalizadas as etapas de coleta de dados (transcrição das entrevistas e observação participante), classificação dos dados coletados por relevância e enquadramento dos dados coletados, o pesquisador apresenta os resultados obtidos na pesquisa:
1) Existe um processo de influência que é informal e emergente, biunívoco e objetivo nas interações entre a amostra pesquisada na organização, como pôde ser demonstrado anteriormente. Portanto, existem processos de liderança no departamento administrativo financeiro da organização;
2) Enquadrando estes processos de influência dentro da organização com os tipos de teorias revisadas, os seguintes tipos de liderança ocorrem em cada uma das interações biunívocas, igualmente com o tipo de poder utilizado para a sua concretização:
a) A auxiliar administrativa exerce influências enquadradas na teoria com foco nas relações – teoria LMX e para exercer este processo de influência utiliza-se de poder legítimo;
b) O gerente de processos exerce influências enquadradas na teoria com foco no contexto – teoria situacional e teoria contingencial em conjunto com o enquadramento na teoria com foco nas relações – teoria LMX, utilizando se de poderes legítimo, técnico e de referência para o exercício desta influência;
c) A gerente geral exerce influências enquadradas na teoria com foco no líder – teoria dos estilos em conjunto com o enquadramento na teoria com foco nas relações – teoria LMX, utilizando para isso o poder coercitivo, legitimo e de referência; 3) Como análise do contexto desta organização que facilitam ou dificultam a atuação do
líder no processo de liderança, pode-se citar a sua estrutura enxuta, com poucos colaboradores, as competências envolvidas em todos os níveis, a ótima relação interpessoal existente entre todos os colaboradores e o esforço contínuo da gerencia em fortalecer estas relações entre os colaboradores.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Na introdução deste artigo, o pesquisador descreveu que ao longo da história vários exemplos de pessoas motivaram outras a seguir seus passos, suas ideias, sendo essas idéias boas ou más e cujos argumentos utilizados foram capazes de influenciar seus seguidores, os fazendo acreditar em suas palavras, em seus ideais, mostrando que o fenômeno da liderança é tão antigo quanto à existência do homem. Entretanto, sua abordagem de forma processual não é tão antiga e teve suas primeiras teorias estudadas no início do século XX.
A liderança foi estudada pelo pesquisador como um processo biunívoco, interativo, influente, emergente, informal e objetivo, estando ao alcance de qualquer pessoa e não somente àquelas que possuem posição formal e superior nas organizações; que é o caso da abordagem da liderança sob a forma de trato, sendo unívoca, deliberada e subjetiva; com a aplicabilidade em particular na empresa Club Casa.
Recorreu a quatro teorias desenvolvidas por estudiosos até o presente momento, sendo que cada uma delas é uma transformação da anterior, visando atender às necessidades e lacunas deixadas pela teoria precursora, diante da evolução das relações organizacionais e pessoais, cada vez mais complexas com o passar do tempo.
Isso ficou bastante evidente na pesquisa, pois a análise dos resultados coletados, conclui que o processo de liderança ocorre na organização, gerando comprometimento e submissão e por vezes resistência, que existem várias formas de poder empregadas neste processo – coercitivo, legítimo, técnico e de referência – cuja quantidade de poder empregado é uma variável contextual e condicional - e que as teorias enquadradas mostram-se completamente dinâmicas e também situacionais.
Dada a situação e o tamanho da organização em número de colaboradores, além da amostra estudada, o pesquisador demonstrou o enquadramento do processo de liderança em todas as teorias conhecidas, exceto na teoria das mudanças – tanto transformacional como do trabalho adaptativo.
Pelas observações do pesquisador e pelas entrevistas aplicadas, fica claro que descrever processos de liderança é algo bastante complexo, pois envolvem variáveis de cunho estritamente pessoais, alguns não tão variáveis como valores e crenças; e outros extremamente mutáveis, como, atitudes, posicionamento e motivação, os quais colocam um grau bastante elevado de subjetividade, o que fica aumentado quando, além de analisar as pessoas e as tarefas, se inclui a análise do ambiente.
Finalizando, o pesquisador atenta para a necessidade de que a organização busque competências para que consiga transformar todos os processos de influência entre os seus colaboradores, em todos os níveis, de forma a enquadrá-los na teoria com foco nas mudanças – única teoria não encontrada nos processos relacionais da empresa – mais precisamente dentro da teoria do trabalho adaptativo que é aquela que possibilita transformações graduais e incrementais nas crenças e valores que as pessoas, líderes e liderados, carregam com elas (SANTOS, 2008).
REFERÊNCIAS
BERGAMINI, Cecília Whitaker. Liderança: administração dos sentidos. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2009.
HOUAISS, Antônio et al. Dicionário da língua portuguesa. 2. ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.
ICPG revista de divulgação técnico-científica. v3, n.11. jul-dez, 2007. Disponível em <http://gerenciamentodepessoas.blogspot.com/2008/04/evoluo-da-liderana.html>. Acesso em: 21 abr. 2010.
ROESCH, Sylvia Maria Azevedo. Projetos de estágio e pesquisa em administração. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2006.
SANTOS, Rodrigo Antônio Silveira dos. A liderança em momentos de crise
organizacional. Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção, UFSC,
Florianópolis 2010. 105 f. Exame de qualificação de doutorado.
__________. O processo de liderança em momentos de crise organizacional. UFSC/LGR, Florianópolis, 2008. 41 f. Working paper.
__________. Liderança: apontamentos de aula. Faculdade Borges de Mendonça, Florianópolis, 2010.
VERGARA, Sylvia Constant. Projetos e relatórios de pesquisa em administração. 8. ed. São Paulo: Atlas, 2007.