A MEMÓRIA E A ORALIDADE COMO DIFUSORES DO
SANTO DAIME E DA CURA
Izabelle do Vale Sousa1
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo compreender como a memória e a tradição oral reforçam o mito de origem do Santo Daime e influenciam diretamente no processo de cura entendido pelos fieis desta doutrina. Apropriando-me da História Oral como opção metodológica, as falas dos antigos e novos frequentadores das igrejas se cruzam, tornando possível uma etnografia do território daimista, bem como os corpos e identidades que ali estão interagindo. Nesse sentido, as reflexões caminham na tentativa de compreender que lógica se impõem, que torna possível um trabalho do Santo Daime, mediada pelo consumo do Daime , canto dos
hinos , com suas performances, revelando a partir disso, um território marcado pela logica de
obediência e regulação.
Palavras – chave: Santo Daime – cura – memória – tradição oral.
ABSTRACT
This work aims to understand how memory and oral tradition reinforce the Santo Daime origin myth and directly influence the healing process understood by the faithful of this doctrine. Approaching Oral History as a methodological option, the lines of the old and new
churchgoers intersect, making possible an ethnography of the daimist territory, as well as the bodies and identities that are interacting there. In this sense, the reflections walk in the attempt to understand what logic is imposed, which makes possible a work of Santo Daime, mediated by the consumption of the Daime, singing of the hymns, with their performances, revealing from this, a territory marked by the logic of obedience And regulation.
Keywords: Santo Daime – cure – memory - oral tradition
Este trabalho tem por objetivo a análise do entendimento da cura dentro do grupo religioso denominado Santo Daime, na busca do entendimento da dimensão da influencia da oralidade e da memória como mecanismos de transmissão da tradição, dos comportamentos e preceitos, resultando na formulação da identidade dos envolvidos neste contexto religioso.Essa construção identitária ocorre através das mudanças de conduta e de visão de mundo, construída a partir da devoção e da crença em uma evolução espiritual provocada pela alteração de consciência, resultado da ingestão da ayahuasca e aperfeiçoada pela adoração das entidades espirituais das quais a religião crê. O pensamento daimista reflete em uma visão holística da vida humana, onde nós fazemos parte de um universo material, ordinário e também habitamos outro mundo, o divino, espiritual, ambos em constate interação e conflito. Ampliando a proposta, esta pesquisa visa não só estabelecer as características do que é entendido por cura através das vozes dos integrantes de uma determinada igreja, mas, analisar também como a cura atinge os indivíduos, em que níveis (individual e coletivo) ela atua na transformação da vida destes, como a mudança de hábitos considerados destrutivos transformados em práticas construtivas, que estimulem a empatia e a solidariedade com aqueles que os rodeiam, produzindo novas representações dos sujeitos analisados.
Para melhor entendimento do objeto em estudo, é necessário esclarecer o que se entende por Santo Daime e como ocorre o consumo da bebida ritualístico denominada de
ayahuasca2. O Santo Daime é considerada a primeira religião da tradição ayahuasqueira, onde, juntamente com a Barquinha e a União do Vegetal, utilizam ayahuasca em seu contexto religioso, tendo no seu mito de origem uma mescla de outras tradições religiosas. Teve Mestre Irineu como mentor de uma nova e complexa doutrina. O maranhense Raimundo
2 Bebida milenar de origem indígena, composta pela fusão de uma raíz (Banisteriopsis caapi) e de uma folha
(psycotria viridis), que ter como efeito a alteração da consciência relacionado ao contato com o divino (propriedades enteógenas).
Irineu Serra (1892- 1971), foi para Amazônia no contexto do chamado “Ciclo da Borracha”, onde foi trabalhar no seringais. Após um tempo, não se sentiu mais satisfeito e se mudou para Rio Branco (AC) para trabalhar na Guarda Territorial, no cargo de soldado, responsável por demarcar as fronteiras do Brasil com o Peru e a Bolívia, onde integrou a Comissão de Limites, instituída por Marechal Rondon.
Foi neste contexto que Irineu obteve contato com a Floresta Amazônica e, consequentemente, com a população cabocla local, que já tinha conhecimento da elaboração e consumo da ayahuasca (MACRAE, 1992). Segundo a sua biografia, ele teria tido uma experiência com a bebida e teve a visão de um ser espiritual chamada Clara, sendo também identificada como Nossa Senhora, a Rainha da Floresta. Ela teria transmitido a ele os fundamentos essenciais para a constituição do que viria a ser o Santo Daime (COUTRO, 2002).
No dia 26 de maio de 1930, Irineu iniciou o trabalho pioneiro com a “ayahuasca”, onde ele tornou a bebida uma fonte de conhecimento da população do Rio Branco, pois até então essa bebida era um “segredo da mata” (FROÉS, 1986:37). Basicamente Irineu Serra passou mais de uma década desenvolvendo a doutrina do Santo Daime através das instruções recebidas durante as experiências com o chá, a qual ele passou a chamar de Daime. Em 1945, fundou o Centro de Iluminação Cristã (CICLU) também conhecida como Alto Santo, dando início a construção de uma igreja, mas atuando somente no Acre. Posteriormente, em 1964, ele autorizou a abertura do primeiro centro daimista fora do estado, chamado de Centro
Eclético de Correntes da Luz Universal (CECLU), fundado por Regino Silva, localizado em
Porto Velho (RO) (MAIA, NETO, 2003).
Irineu foi educado em uma religião católica e acabou se filiando ao Círculo Esotérico
da Comunhão do Pensamento, que é a primeira ordem esotérica estabelecida no Brasil, cujo
propósito é estudar as forças ocultas da natureza e do Homem e promover o despertar das energias criadoras latentes no pensamento humano. Essa filiação influenciou nos princípios do Santo Daime com as ideias de: Harmonia, Amor, Verdade e Justiça. Segundo Débora Gabrich:
A filiação de Raimundo Irineu Serra ao Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento foi um fator que estimulou a prática da Oratória dos trabalhos, como
instrumento esclarecedor e doutrinário. Os fardados eram assinantes de boletins informativos e seguiam os princípios morais do Círculo. (GABRICH, 2005:10)
Dessa forma, as orações esotéricas ‘Consagração do Aposento’ e ‘Chave de Harmonia’ foram incorporados ao ritual do Santo Daime. A denominação Centro de
Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU), para designar o Centro do Mestre Irineu, foi uma
sugestão da matriz paulista do Centro Esotérico (GABRICH, 2005). Irineu Serra passou a ser muito solicitado pelo seu caráter de líder, conselheiro espiritual e curador, tanto por humildes como autoridades no estado do Acre, demonstrando grande simpatia por parte da comunidade e do Governo, passando assim a ser chamado de Mestre Irineu.
Contudo, foi a partir da atuação de Sebastião Mota de Melo, conhecido como Padrinho Sebastião, que a doutrina do Daime se expandiu pelo Brasil. Nascido na região do Alto Juruá (AM), ele ficou conhecido como curandeiro que atendia uma grande gama de doentes, pois desde a infância ele manifestava poderes mediúnicos, onde seus ensinos espirituais foram transmitidos por um curandeiro negro, chamado Mestre Osvaldo. Após um ano de aprendizagem nas matas do rio Juruá (AM), ele acabou por aprendeu a trabalhar com banca espírita, mesa branca e atuação. (FROÉS, 1986:52).
Após o falecimento do Mestre Irineu, aconteceram desentendimentos internos que levaram o Padrinho Sebastião a se separar da igreja do Alto Santo, em 1974. (FROÉS, 1986:56). Um ano depois, fundou um novo centro daimista, denominado de Centro Eclético
da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra (CEFLURIS), tendo como primeiro
endereço o lugar chamado Colônia Cinco Mil, que se localizava na periferia de Rio Branco (AC). Mas o Padrinho acreditava que o verdadeiro lugar do CEFLURIS deveria ser na “terra prometida”, dentro da Floresta Amazônica. Nesta época, ele era seguido por muitos peregrinos que o acompanhava em sua romaria, que teve como escolha a Floresta Nacional do Purus (AM). Lá se instituiu a Vila Florestal Céu do Mapiá fundada em 1983, sendo considerada a Igreja-Mãe, a Jerusalém do Santo Daime na vertente instituída por Padrinho Sebastião. (MONTIMER, 2000)
No dia 20 de janeiro de 1990, Padrinho Sebastião faleceu e quem se tornou o comandante central do CEFLURIS foi seu filho, Alfredo Gregório de Melo, conhecido por
Padrinho Alfredo. É considerado o principal responsável pela expansão internacional do Santo Daime e do CEFLURIS, ocorrendo durante o seu comando a fundação de diversas igrejas pelo Brasil e por países, tais como Espanha, Holanda e Estados Unidos. Outra responsabilidade sua foi a fundação, em 1996, a Vila Ecológica “Céu do Juruá” consolidando, assim, um modelo comunitário a vida a partir de uma perspectiva de desenvolvimento auto sustentável no interior da floresta” (ALBUQUERQUE, 2007). Esse fator demonstra a forte ligação e preocupação da doutrina com Natureza que a cerca.
Fala-se em uma influência de diversas matrizes religiosas a partir de práticas, normas e símbolos, principalmente das culturas: indígena, catolicismo popular, esoterismo e afro-brasileira. O consumo da “ayahuasca” nos remete a uma influencia direta de práticas xamânicas presentes em diversos grupos indígenas; o catolicismo popular é identificado na adoração e forte presença de imagens, orações e datas religiosas do catolicismo, como a figura de Jesus, Nossa Senhora, São Miguel, São João e a celebração da Semana Santa, Natal, entre outras datas e o uso do Pai Nosso e Ave Maria para iniciar e finalizar todas as cerimônias. O esoterismo influenciou bastante Mestre Irineu no processo de fundação do Santo Daime, onde ele foi:
Membro de sociedades secretas como a Ordem Rosa e Cruz e o Círculo Esóterico da Comunhão do Pensamento, onde adquiriu conhecimentos sobre as doutrinas esotéricas trazidas da Europa. [...] Do contato travado com esse conhecimento, foram incorporadas preces e orações que se mantêm até os dias de hoje no ritual daimista (OLIVEIRA, 2008:34)
Por fim, a influência afro-brasileira estará mais presente nas igrejas filiadas ao CEFLURIS, pois foi a partir da aproximação do Padrinho Sebastião com a Umbanda, foi que houve a incorporação de alguns “Trabalhos de Gira” e alguns personagens do panteão umbandistas, como: “pretos velhos”, “caboclos”.
Para compreender o contexto de produção das fontes a serem analisadas, é necessário entender o contexto religioso e seus mecanismos de atuação, ou seja, como ocorrem os processos que desencadeiam na cura. Tudo começa nos trabalhos, que são os rituais no Santo Daime, como esclarecido pela antropóloga Ameide Bandeira Cemin: “ Esse ‘trabalho’, segundo nosso entendimento, aplica-se sobre o corpo e o pensamento: as produções
simbólicas, o imaginário. A noção de trabalho nomeio o ‘trabalho espiritual’ que, entretanto, tem como suporte o corpo em sua totalidade.” (CEMIN, 2002:275).
Existem três tipos de “trabalhos” principais: o Bailado, a Concentração e o Feitio. O primeiro, que tem por característica principal a dança, só ocorre em datas comemorativas, como: aniversário e falecimento do Mestre Irineu, Padrinho Sebastião, Semana Santa, Natal, entre outros. A Concentração é um “trabalho” mais rotineiro, que ocorre todos os dia 15 e 30 de cada mês, que tem por objetivo principal o estudo da doutrina. Por fim, o Feitio é o “trabalho” de produção da bebida, realizado por todos os membros de cada Igreja. Em todos esses rituais, ocorre o consumo do Daime.
O Bailado e a Concentração ocorrem no salão, que é o espaço interno da igreja, possuindo espaços específicos. Em termos estruturais, esse espaço tem formato hexagonal, com demarcações estabelecidas: ao centro do salão, a mesa é o ponto de referência, como um altar, pois é neste local onde ficam os espaços simbólicos3 além de acomodar os principais membros da instituição (o corpo doutrinário). O restante do espaço é demarcado por retângulos azuis, onde os grupos são distribuídos. O salão é dividido em ala masculina (à direita) e ala feminina (à esquerda), onde os participantes são distribuídos de acordo com a sua “função”, onde os fardados4 são os membros oficiais e os visitantes são os frequentadores das sessões. A distribuição em fileiras dentro de cada ala segue a seguinte lógica: fardados casados na primeira fileira, seguidos dos solteiros; visitantes casados seguido dos solteiros.
O processo do Feitio consiste em um processo peculiar, com características próprias e funções específicas, tais quais: somente homens limpam o cipó e somente mulheres limpam as folhas. A etapa de limpeza dos elementos é um dos momentos ritualísticos e higiênicos mais importantes desse trabalho e, consequentemente, da doutrina do Santo Daime. Este é um momento no qual todos os participantes da igreja estarão em contato, onde o grupo se une e as relações de amizade se consolidam, pois todas as funções são interdependentes. A harmonia e concentração são o pilar desse momento, interferindo diretamente no efeito que a bebida. Destaco aqui que este é a etapa em que a memória coletiva é confirmada, principalmente pelo
3 Fotografia de entidades religiosas (Mestre Irineu, Padrinho Sebastião, Jesus Cristo), velas, flores jarros com
flores brancas e uma pequena cruz de Caravana (cruz de dois braços).
fato dos mais velhos ensinarem os mais novos como elaborar o chá. Dessa forma, é passado uma ciência baseada em um mito, em uma crença repleta de símbolos.
Em todos os trabalhos são momentos em que se consagra a bebida e se obtém uma experiência mística subjetiva, no qual há um entendimento por parte dos presentes, principalmente os mais experientes, que ocorre a “cura”, pelo qual cada indivíduo tem a recuperação que necessita. Cada experiência é sagrada e pessoal, não precisando ser compartilhada dentro do grupo, preservando a sua individualidade.
A tentativa de entender a cura como uma experiência divina e material, algumas inquietações foram necessárias, tais como: seria possível a cura mudar a identidade de uma pessoa? Como a representação de fardado e visitante pode influenciar na intensidade de participação dentro do Santo Daime? Como tradição e as diretrizes são mantidas, já que as experiências são subjetivas? ou seja, tentar entender a noção de cura, como símbolo de religiosidade e correção, se articula no cotidiano a partir dos modos de transmissão da crença daimista.
No Santo Daime, uma das principais diretrizes é a difusão da evolução espiritual que influenciará na formação de um novo sujeito, de uma pessoa melhor, aquela que se conhece, que enfrenta seus problemas, que passa a amar o próximo e desenvolve sua habilidade de se conectar com a Natureza e seus seres e de se conectar com o astral. O Daime fará a expansão da consciência e permitirá que ele (a) saia do plano ordinário e tenha uma experiência mística. E quem sabe do que ele (a) precisa? Os daimistas acreditam que a bebida tem vida própria, carregada de energias espirituais, que guiarão ao processo de visualização das suas enfermidades (orgânicas/espirituais); seguido do processo de aceitação e sofrimento; limpeza; redenção e cura.
Dentro desse modelo, o sujeito passa por uma transformação em níveis diversos, não podendo ser estabelecido um processo homogêneo para todos. A miração é o momento do
trabalho em que o sujeito obtém as visões mais diversas (experiências pessoais,
clarividências, seres da Natureza, entidades espirituais) e também é o contexto em que ocorre transmissão dos ensinamentos e se caracteriza por serem as visões que as pessoas têm sob o efeito da ayahuasca Daime. É uma espécie de ‘sonho divino’, sendo o momento em que ficam claras as instruções que a bebida dará a quem ingeriu o chá. As visões podem
produzir diversos tipos de imagens, tendo um caráter particular. De acordo, com Jacques Mabit (MABIT, 2002:156), a ayahuasca amplia a atividade cerebral e as percepções sensoriais. A pessoa sente uma aceleração de seus pensamentos e percebe com argúcia qualquer ruído e luminosidade, mesmo em pequena intensidade, por isso a importância do silêncio dentro do salão. A miração pode ser construída ou ter um caráter primitivo, podendo ser intensa ou superficial, ultrapassando os limites materiais normais e o espaço-tempo convencional. Por isso que, quando o chá faz efeito, o indivíduo perde a noção de tempo e espaço, podendo mirar ou não.
A peia faz parte do ritual e é uma experiência simbólica que se materializa através das práticas de limpeza. Ela tem caráter de ordem, ou seja, tem por objetivo reorganizar vários aspectos durante o ritual, como: equilíbrio das energias, da atenção, da fé, do comportamento do indivíduo, entre outros, possuindo assim um caráter regulador. Em resumo, a peia será o momento em que a pessoa receberá os ensinamentos que o Daime irá oferecer, podendo ser um momento de sensações ruins ou boas, dependendo dos aspectos acima. Em suma, cada sujeito verá os problemas de ordem pessoal, física e espiritual que possa estar o afetando e como isso poderá ser resolvido, como uma espécie de oráculo.
As práticas de limpeza funcionam como uma terapia e sessão de cura, sendo um instrumento regulador da ordem, característico do Santo Daime. O trabalho é estabelecido pelo “rito de ordem”, sendo a organização, um mecanismo fundamental para atingir os resultados pretendidos, que são: conhecimento de si, conexão com o astral e cura de doenças físicas e espirituais, que só acontecem se a ritual estiver em ordem, ou seja: as roupas adequadas, a divisão dos batalhões, os passos do Bailado, o canto dos hinos e a concentração nos trabalhos. A limpeza tem por objetivo, colocar o corpo e espírito em seus devidos lugares, limpando-os para que o indivíduo estejam em harmonia e equilíbrio com: o ritual, a bebida, o plano material e espiritual.
Existem fatores que influenciam diretamente na limpeza, sendo necessárias orientações prévias. Alguns hábitos devem ser evitados, pelo menos dois dias antes da cerimônia: alimentação pesada (principalmente carne vermelha), ingestão de bebida alcoólica, ingestão de remédios (principalmente psicotrópicos) e relações sexuais (para evitar desgaste de energia). Estes são aspectos que, se não seguidos, podem provocar sensações ruins e influenciar na quantidade e tipo de limpeza a ser feita, principalmente a alimentação, pois
esta, dentro do organismo, irá atuar junto com o Daime, sendo aconselhado o jejum ou dieta leve (na base de verduras, frutas e legumes). A rotina da pessoa também é importante, pois se ela tiver tido algum estresse, briga (desgaste mental) poderá influenciar na quantidade de
limpeza que ela fará. Como foi dito, a força superior vai atuar no corpo e no espírito, mas
existem alguns elementos que podem influenciar negativamente, como: comportamento do dirigente (psicologia, evolução espiritual e comando do ritual)
Esses processos descritos acima são considerados as etapas por onde a cura irá se efetivar, pois os fieis acreditam que o corpo e o espírito devem obedecer o equilíbrio de qualquer sistema, onde os elementos que compõem o sujeitos devam estar em ordem, ou seja, as impurezas que afetam o corpo e espírito são de variadas origens e, através dos ensinamentos transmitidos pelo Daime, a cura se concretiza, de uma maneira gradual. Ou seja, não é apenas ingerir a bebida, pois o fiel deve acreditar, se empenhar, praticar, escutar o que a bebida tem para dizer. Dessa forma, a miração, a peia e a limpeza promovem a cura acontece, mas não de forma definitiva, pois é recorrente a desordem, influenciada por entidades negativas que promovem as enfermidades orgânica e espiritual do fiel.
Dentro dos trabalhos, é nítida a exigência de uma postura disciplinar, com comportamentos pré-estabelecidos e monitorados por todos que estão no salão. A disciplina é a palavra de ordem, no qual todos que estão ali estão de acordo com a obediência, que se materializa na postura corporal e indumentária, ou seja: para estar no trabalho deve estar com a roupa condizente com sua função, seja homem ou mulher, fardado ou visitante. Após estar vestido adequadamente, ele (a) deve permanecer no local que foi designado a ele, saindo de lá somente em três ocasiões: para tomar o Daime, para fazer a limpeza fora do salão e para beber água. Dessa forma, a cura aparece como aspecto merecedor, resultado da obediência e de uma verdade buscada pelo indivíduo, ou seja, se ele for obediente a doutrina e aos seres divinos do panteão daimista, ele irá se curar.
A partir do entendimento e efetuação da cura, a memória coletiva age com elemento unificador do grupo, potencializando a memória individual daqueles que praticam o consumo do Daime nos trabalhos daimistas. Sendo uma cerimônia totalmente cantada, cada experiência individual é moldada por diretrizes explícitas nos hinos5, com mensagens de adoração aos personagens fundadores, ao panteão sagrado e com a imposição de práticas e
comportamentos de acordo com o que o Mestre Irineu reservou para a doutrina. Como visto no hino abaixo, a temática é a importância do Mestre Irineu para a doutrina e a obediência e fidelidade prestada pelo daimista:
O VALOR QUE O MESTRE TEM. O valor que o mestre tem
Eu vou esclarecer
Se tiver alguém que duvide Tome Daime para ver Meu mestre veio ao mundo Nasceu lá no estrangeiro O valor que o mestre tem Não se compra com o dinheiro Meu mestre é formoso É preciso acreditar
Eu convido os meus irmãos Vamos todos acompanhar Meu mestre a ti eu peço Na minha concentração Para vós me consolar E consolar meus irmãos
Meu mestre a ti eu peço Faças de mim o que quiser Meu mestre estou aqui Te prometo ser fiel
(Hinário de Concentração – Padrinho Sebastião)
A memória é uma representação seletiva do passado, um passado que nunca é aquele do indivíduo somente, mas de um sujeito inserido num contexto familiar, social, nacional. Portanto, toda memória é, por definição, “coletiva”. Ela, a memória, constitui um elemento essencial da identidade, da percepção de si e dos outros
.
Como descrito por Henry Rousso:Se o caráter coletivo de toda memória individual nos parece evidente, o mesmo não se pode dizer da ideia de que existe uma “memória coletiva”, isto é, uma presença e portanto uma representação do passado que seja compartilhadas nos mesmo termos por toda uma coletividade. (AMADO; FERREIRA, 200:95)
Ou seja, o individual está diretamente relacionado com o contexto que o sujeito está inserido, tendo a religião do Santo Daime como exemplo, onde a memória da fundação, da criação e da relação do fundador (Mestre Irineu) e do discípulo (Padrinho Sebastião) é intensamente revivido e celebrado através do consumo ayahuasca, permitindo que “mito de origem” do Santo Daime seja constantemente vivido, ouvido, sentido e lembrado a cada
trabalho e a cada melhora na qualidade de vida dos envolvidos com essa doutrina.
Juntamente com a memória, a oralidade aparece como mecanismo efetivo de transmissão, é o canal por onde a memória se materializa e ganha vida. A importância da oralidade aparece desde os primórdios da criação do Santo Daime, pois o Mestre Irineu era analfabeto e herdou a tradição oral dos curandeiros e vegetalistas da região amazônica. Dessa forma, a partir do momento que ele começou a receber os hinos (através das mirações) e introduziu a musicalidade, propiciando a transmissão das diretrizes que ele estabeleceu como preceitos fundamentais para a nova doutrina que surgia.
A tradição oral atua como pilar de sustentação da corrente do Santo Daime, já que a tradição escrita aparece em segundo plano, somente quando ocorre a transcrição dos hinos para aqueles que não memorizaram os principais, atuando de uma forma coadjuvante. Em relação à tradição oral, é correto assinalar a afirmação de Julie Cruikshank:
as tradições orais revelam a capacidade dos seres humanos de pensar simbolicamente seus problemas complexos. A vida é cheia de contradições, e os mitos nos dão meios de lidar com um mundo crivado de tais contradições. Qualquer interpretação de mitos que se valha de significados superficiais ou óbvios é incorreta, porque a realidade está em um nível mais profundo do conhecimento. (...) o propósito de tais narrativas é resolver simbolicamente as questões que não podem necessariamente ser resolvidas na esfera da atividade humana. (AMADO; FERREIRA, 2006:195)
Dessa forma, concluo que a memória e a tradição oral são os elementos fundamentais para a preservação e até mesmo consolidação dessa religião e, consequentemente, da aplicação da cura como elemento restaurador e regulador do sujeito. Vale ressaltar que o Santo Daime, datada de meados dos anos de 1930, é uma tradição historicamente recente e, se comparada a outras religiões presentes no Brasil, é quantitativamente menor. É concreta a
expansão da doutrina em várias áreas, tais como: novas igrejas espalhadas por outras regiões do país (principalmente Sudeste) e outros países (como Espanha e Holanda), além de um significativo aumento nas pesquisas acadêmicas em torno de alguns de seus aspectos, despertando grande interesse por parte das seguintes áreas: Antropologia, Farmacologia, Psicologia, Neurociência e até o Direito, sendo deficiente o estudo no campo da História. Por esse motivo, acredito ser bastante relevante o estudo do Santo Daime neste campo de conhecimento.
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