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O BURNOUT DOCENTE E SEU REFLEXO NO ENSINO

BENEVIDES-PEREIRA, Ana Maria Teresa – PCM-UEM/PUCPR [email protected] Eixo Temático: Formação de Professores e Profissionalização Docente Agência Financiadora: não contou com financiamento

Resumo

O trabalho possui forte implicação social em nossa cultura e está intimamente associado à nossa identidade pessoal. Ao longo de sua história tem tido diversas conotações: se por um lado é visto como uma carga a ser suportada para que se possa auferir, através dele, o sustento pessoal e da família, por outro é tido como fonte de prazer e realização. A docência, como prática profissional, não foge a esta regra. O prestígio do educador foi decrescendo, assim como os proventos oriundos deste labor, ocasionando uma série de conseqüências que se fazem sentir tanto no professor como no educando. Vários são os fatores aqui explanados que fazem do trabalho docente uma profissão que favorece ao desenvolvimento do estresse ocupacional. Caso esse estresse não venha a ser devidamente superado, pode vir a acarretar o evolução da denominada síndrome de burnout. O burnout docente, definido como o incremento da exaustão emocional e da desumanização, com a consequente redução da realização pessoal, provoca transtornos que se refletem não apenas no docente, na escola, como também no ensino. O profissional em burnout sofre de transtornos tanto físicos, como psicológicos, comportamentais e defensivos. Faltas e afastamentos ao trabalho por motivos de saúde, provocam interrupções e necessidade de substituições e/ou complementação dos conteúdos em momentos posteriores. A desumanização reflete direta e negativamente no ensino pelo distanciamento na relação professor/aluno e pela conduta hostil, cínica, irônica no trato pessoal. Muitos professores abandonam a profissão, depois de anos de trabalho dedicados à educação, acarretando a perda de profissionais experientes, muitos dos quais passaram anos se preparando para melhor exercer o seu labor. Os problemas com a educação no Brasil são antigos e crônicos. Se não houver investimento no professor, conferindo-lhe salário digno, condições adequadas de trabalho e resgatando seu prestígio junto à sociedade, dificilmente iremos mudar a situação vigente.

Palavras-chave: Síndrome de Burnout. Trabalho docente. Relação professor/aluno. Introdução

O trabalho possui forte implicação social em nossa cultura e está intimamente associado à nossa identidade pessoal. Este, tem tido diversas conotações ao longo de sua história: se por um lado é visto como uma carga a ser suportada para que se possa auferir

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através dele o sustento pessoal e da família, por outro é tido como fonte de prazer e realização. A docência como prática profissional não foge a esta regra.

A Organização Internacional do Trabalho definiu as condições de trabalho para os professores ao reconhecer o lugar central que estes ocupam na sociedade, uma vez que são os responsáveis pelo preparo do cidadão para a vida (OIT, 1984). Tais condições buscam basicamente atingir a meta de um ensino eficaz (Gasparini; Barreto; Assunção, 2005, p.191).

Este artigo se propõe explanar sobre as dificuldades encontradas na prática docente, as consequencias advindas destas dificuldades sobre a saúde mental do educador e seu reflexo no ensino.

Desenvolvimento

A atividade docente era considerada, desde os tempos mais remotos, como uma área nobre, onde o professor era reverenciado por ser a fonte do saber e do conhecimento. No entanto, em culturas como a nossa, seu prestígio foi decrescendo, assim como os proventos oriundos deste labor, ocasionando uma série de conseqüências que se fazem sentir tanto no educador como no educando.

Como salientam Nacarato, Varani e Carvalho (1998, p.74) “A expressão ‘dar aulas’ oculta o papel de profissional e fortalece a imagem de doação – logo, não remunerada – construída historicamente[...]”.

O fazer docente, no imaginário popular, é visto mais como uma vocação, uma missão a ser desempenhada, do que propriamente uma profissão. Assim sendo, o estipêndio ao educador, carrega consigo um atributo que se assemelha mais a uma “ajuda de custo” do que propriamente a um salário pelas atividades laborais desenvolvidas.

Devido à baixa remuneração, o professor se vê obrigado a lecionar em mais de um turno ou escola, o que acarreta uma sobrecarga de trabalho, além de sacrificar seu período de descanso e lazer. A vida pessoal, assim como a familiar e social, também acaba afetada pela necessidade de utilizar noites e finais de semana para preparação de aulas, elaboração de provas, correção de trabalhos e avaliações (GASPARINI et al., 2005;.

Da mesma forma, não há tempo para leitura, ou para cursos de atualização ou aprimoramento. Por outro lado, os alunos, a escola, a família e a sociedade cobram mais competências do educador. Do docente, além do conhecimento e habilidades relacionadas à

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sua disciplina, espera-se que seja um formador em aspectos como cidadania, sustentabilidade, sexualidade, relacionamento interpessoal, na atenção e controle da violência na escola, bem como outras mais. Parte da formação pessoal, antes provida essencialmente pela família, passou para o âmbito da escola (GASPARINI et al., 2005; NACARATO et al., 1998).

A feminilização da profissão docente é outro aspecto que remete aos baixos salários e à visão do trabalho feminino como uma extensão do serviço doméstico, portanto, sem necessidade de auferir proventos (APPLE, 1988; CARVALHO, 1996; SANTOS, 2008).

O caráter doméstico marca todo o trabalho feminino: a mulher é sempre uma dona de casa... O trabalho doméstico resiste às evoluções igualitárias. Praticamente nesse trabalho, as tarefas não são compartilhadas entre homens e mulheres... O pano, a pá, a vassoura e o esfregão continuam a ser os seus instrumentos mais constantes (PERROT, 2007, p.115).

De outra parte, o resultado do trabalho do professor não é visível, não é um produto concreto. A implicação do labor docente se manifesta de forma subliminar, ou só terá expressão no futuro, diante de situações onde é difícil avaliar se este se deu em decorrência da atuação do educador ou por outros fatores difíceis de serem mensurados (experiências pessoais, etc.).

As discussões acerca do trabalho docente, apesar de não serem recentes, nos colocam a reincidente questão sobre sua natureza, em especial considerando-se as transformações ocorridas nas últimas décadas no mundo do trabalho e na sociedade em geral, bem como o modo pelo qual se constitui a identidade do trabalhador– professor.

A especificidade do trabalho docente, não-material, traz à tona reflexões sobre o papel deste tipo de trabalho na sociedade capitalista e de como este papel toma forma na construção da identidade docente (BARCELOS DE MOURA ABREU; LANDINI, 2003, p2.)

Se por um lado o professor é visto como desempenhando uma atividade vocacional, por outro perdeu sua autonomia, tendo que se submeter a dispositivos, métodos e normas dos quais não participou para seu estabelecimento e muitas vezes não concorda.

No Brasil, neste século especialmente, a escola passou por uma série de modificações que refizeram o seu perfil em termos de estrutura e organização. Apesar dessas modificações nem sempre mostrarem-se aparentes, substancialmente a escola transitou de um modelo tradicional, que se caracterizava pela autonomia do professor em relação ao ensino e à organização escolar e por processos burocráticos praticamente inexistentes, para um modelo técnico-burocrático, caracterizado pela redução da autonomia do professor em relação ao ensino e à organização da escola –

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divisão de tarefas, formas de controle, hierarquização –, enfim, por uma marca burocrática muito acentuada (HIPOLLITO, 1991, p.4).

As formas de organização do trabalho no interior da escola, em consonância com as transformações societárias, apontam, cada vez mais, para o trabalho do professor como um prestador de serviços, diminuindo as chances de realização do objetivo desejado com o trabalho educativo, qual seja, o saber, a reprodução e produção de conhecimento científico e a intensificação da condição humana (LANDINI, 2008).

O cotidiano escolar também exige questões de cunho burocrático como o preenchimento de relatório de atividades, planos de aula, cadernetas de freqüência e notas, reuniões pedagógicas, etc. que tomam um tempo considerável e não auferem retorno (GASPARINI et al., 2005;.NACARATO et al. 1998; WEBLER, 2008).

Salas de aula lotadas, alunos indisciplinados e/ou desinteressados, estudantes com necessidades especiais sem que o professor tenha tido formação suficiente para boa parte dos casos; violência dentro e fora dos muros escolares; conflitos entre a necessidade dos alunos, a direção da escola e os pais, são algumas das variáveis citadas como passíveis de provocar transtornos ao professor (BARASUOL, 2005; ESTEVE ZARAGOZA, 1999; GOMES, 2002). Quanto às condições físicas e materiais pedagógicos para dar suporte ao ensino, sabe-se que em muitas escolas estas são extremamente precárias ou quasabe-se inexistentes, em especial em alguns municípios brasileiros (GASPARINI et al., 2005;.NACARATO et al. 1998).

Por outro lado, pela carência de algumas escolas, o professor se vê obrigado a participar da organização de festas, de rifas, de entrar no rodízio para tomar conta do recreio, na distribuição da merenda, cuidar dos alunos na entrada e saída do colégio, além de outras atividades que não deveriam fazer parte do papel docente.

Nas grandes cidades, pais matriculam seus filhos para tirá-los da rua, na esperança de afastá-los das drogas e propiciar um futuro para os mesmos. Entretanto, estas crianças não vêem sentido na escola

Para esses alunos, a escola não representa um espaço privilegiado de aprendizagem, mas um lugar onde esperam preencher suas dificuldades, obter os cuidados, que não encontram na comunidade onde moram, nem na sociedade mais ampla. Frustradas as expectativas dos alunos, pois também a escola não lhes supre as necessidades básicas, o resultado é desinteresse, indisciplina, agressividade, fracasso e conseqüente evasão escolar (SILVA, 2006).

Pela dificuldade de algumas famílias e a proximidade que o professor desenvolve junto a alguns alunos, muitas vezes este acaba sendo eleito como confidente, arcando com a

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responsabilidade de problemas para os quais não teve formação para resolver e não tem suporte para solucionar. Assim sendo, conflitos oriundos dos estudantes refletem no educador, que muitas vezes não tem preparo ou apoio para prover uma solução.

Observa-se um número significativo de afastamentos do trabalho em conseqüência do adoecer, seja este físico ou mental, por parte daqueles que se ocupam da prática docente (ESTEVE ZARAGOZA, 1999). Como exemplo em nosso contexto, de acordo com os dados fornecidos pela Gerencia de saúde do Serviço de Saúde e Perícia Médica em Belo Horizonte, dos funcionários afastados por motivo de saúde no período de maio de 2001 a abril de 2002, 84% eram educadores. Dentre estes os transtornos mentais eram predominantes entre os demais (GASPARINI et al., 2005).

Estudos têm demonstrado índices importantes de estresse e síndrome de burnout em professores, sendo estes considerados um grupo vulnerável para o desenvolvimento destes processos (LOWENSTEIN, 1991). Os primeiros estudos sobre burnout se deram predominantemente em profissionais da saúde e educação, justamente pela predisposição verificada nestes grupos ao desenvolvimento da síndrome (GIL-MONTE, 2005; MASLACH; JACKSON; LEITER, 1996; MASLACH; LEITER; SCHAFELI, 2001; SCHAUFELI; EZMANN, 1998)

Este adoecer se reflete de modo negativo na escola e na sala de aula, devido a constantes faltas, necessitando de substituições e aulas suplementares para complementação dos conteúdos. Quando presente, por vezes o professor denota o chamado “absentismo”, isto é, fisicamente está ali, mas na realidade está ausente, assim como pode vir a revelar “desumanização” por meio de um contato distante e impessoal com os demais, em especial com os alunos, sendo até mesmo rude, irônico, agressivo.

A síndrome de burnout

A síndrome de burnout é um processo desencadeado pelo estresse ocupacional quando este se torna crônico. É uma forma de resposta ao estresse, um modo de tentar sobreviver às dificuldades e sintomas advindos do mesmo (BENEVIDES-PEREIRA, 2010).

Esta síndrome começa a ser estudada na década de 70, nos Estados Unidos, difundindo-se mundialmente nas décadas posteriores. O artigo que provocou maior impacto e difusão do burnout foi o de Freudenberger, em 1974, levando muitos pesquisadores a estudarem seus sintomas, causas e conseqüências. No entanto, a concepção mais aceita é a das

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psicólogas sociais Christina Maslach e Suzan Jackson (1981; 1986) em que definem esta síndrome como um constructo multidimensional, constituído por exaustão emocional,

despersonalização e reduzida realização pessoal no trabalho.

A exaustão emocional é a dimensão que se refere mais diretamente ao estresse, e alude ao esgotamento, tanto físico como mental, levando à sensação de que não se dispõe mais de energia para as atividades cotidianas, em especial as laborais. Em seu bojo traz uma série de sintomas como transtornos do sono, dificuldade de atenção, lapsos de memória, insônia, problemas cardiovasculares, perturbações gastrointestinais, ansiedade, depressão entre outros.

A despersonalização, termo empregado por Maslach e Jackson, (1981; 1986), posteriormente alterado para cinismo (MASLACH; JACKSON; LEITER, 1996), revela a característica defensiva do burnout pelo desenvolvimento de atitudes e comportamentos desprovidos de interesse e envolvimento emocional com os demais, caracterizando-se por uma desumanização no trato com as pessoas e a adoção de cinismo e ironia em suas relações. Assim sendo, a adoção do termo desumanização é mais condizente.

A realização pessoal nas atividades ocupacionais decresce, dando lugar à ineficiência, à insatisfação, ao sentimento de insuficiência, reduzindo a auto-estima.

No Brasil, o primeiro artigo sobre a síndrome foi o de FRANÇA (1987) e os primeiros estudos datam de meados dos anos 90 (BENEVIDES-PEREIRA, 2002).

A organização do trabalho tem sido apontada como o principal fator para o desencadeamento do burnout, em especial quando há elevadas demandas, com parcos recursos à disposição (BAKKER; DEMEROUTI, 2007).

Burnout docente

As dificuldades listadas anteriormente são fatores que, uma vez não devidamente solucionados ou amenizados, provocam mal-estar, estresse e burnout nos educadores.

Muitos foram os estudos realizados em professores tanto no exterior como no Brasil. Realizar uma referência a todos não seria possível, assim sendo, como ilustração, alguns destes são mencionados a seguir.

Farber (1984) utilizando o TAS – Teacher Attitude Survey em 365 professores de escolas públicas americanas, relata ter encontrado entre 20 a 25% de docentes com vulnerabilidade ao burnout e outros 10 a 15% já em burnout.

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Em Málaga, na Espanha, Durán Durán, Extremera Pacheco e Rey Pena (2001) aferiram níveis elevados de exaustão emocional em 26,4%, despersonalização em 6,6% e reduzida realização pessoal em 33% dos 91 professores pesquisados empregando o MBI para a avaliação.

Ainda na Espanha, em pesquisa bastante ampla (N=3281) realizada entre os anos 2003 e 2005, 80% dos pesquisados informaram sofrer de estresse ocupacional. Dentre estes, 29,9% apresentavam um nível muito elevado de estresse e 25,7% estavam em burnout (BEA COSTA, 2006).

No Perú, Moreno-Jimenez et al. (2010) verificaram as relações entre burnout e

engagement, correlacionando-os com o modelo de recursos e demandas ocupacionais, em

uma amostra de 190 professores. No estudo confirmou-se que as altas demandas, assim como os reduzidos recursos do ambiente de trabalho são fatores preditivos para a síndrome de burnout. Para o engagement, apenas os recursos apresentaram associação com este constructo. De forma semelhante, Burke e Greenglass (1989), em investigação com 833 educadores canadenses, observaram a correlação inversa entre burnout e o suporte social, constatando que a síndrome decrescia quando os participantes sentiam possuir suporte social de colegas, amigos e familiares.

No Brasil, mais especificamente no interior de S.Paulo, Reinhold (1996) relata como os 5 principais sintomas referidos por 79 docentes, o sentir-se desgastado/a ao final do dia, a tensão em geral, a tensão no contato com alunos, o sentir-se fisicamente exausto/a e o nervosismo. Como as 5 estratégias mais empregadas no intuito de eliminar ou minimizar os transtornos sentidos refere: a). procurar conversar com um colega quando surge um problema na escola, b). trocar idéias com colegas, c). ir para casa relaxar, d). ter boa condição de saúde e e). receber o apoio da família nas questões relativas ao trabalho. Estes professores indicaram como fontes de estressse o fato de ter muitos alunos por sala, lidar com estudantes desinteressados, o tempo gasto com alunos indisciplinados, a falta de apoio dos pais para os problemas de indisciplina, bem como discípulos que conversam e brincam o tempo todo durante as aulas.

Em pesquisa nacional de grande amplitude, Codo e Vasques-Menezes (1999, p.290) afirmaram que “de quase 39.000 trabalhadores em educação foram identificados 31,9% apresentando baixo envolvimento emocional com a tarefa, 25,1% denotando exaustão emocional e 10,7% com despersonalização”.

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Em estudo na região metropolitana de Porto Alegre, Carlotto e Palazzo (2006) em 190 professores, tendo o MBI como instrumento, constataram que estes apresentavam baixos escores nas dimensões que aferem o burnout.

No Paraná, Fhairus, Amorim e Moser (2011), também com o MBI, verificaram que professores de educação Física (N=87) apresentavam menos burnout que seus colegas de outras áreas.

No Rio Grande do Norte, Carlotto e Camara (2008), observando o burnout e a forma de enfrentamento empregada por 93 docentes, notaram que quanto maior as estratégias de

coping passivo, maior era a exaustão emocional apresentada. De forma inversa, quanto maior

o apoio social sentido, estes apresentavam um menor nível de despersonalização.

Dentre 170 professores, do ensino fundamental, de escolas da rede municipal de Maringá, Volpato et al. (2003) apuraram, no MBI, valores elevados em exaustão emocional para 55,3% dos participantes, tendo 28,8% da amostra níveis altos na dimensão desumanização e em 42,9%, escores abaixo da média em realização profissional.

Em estudo com 101 docentes da rede pública estadual na cidade de Maringá – PR (BENEVIDES-PEREIRA; YAMASHITA; TAKAHASHI, 2010) foi encontrado, utilizando-se também do MBI, valores acima da média para 42,5% dos educadores com exaustão emocional, 36,5% com reduzida realização pessoal em suas atividades ocupacionais, enquanto que 31,7% apresentavam desumanização.

Observa-se nestes dois últimos estudos que, apesar das escolas estarem sediadas no mesmo município, um maior número de educadores da rede municipal apresentavam alterações nas dimensões dos fatores que indicam o burnout, exceção à desumanização onde os da rede estadual denotavam um percentual maior. Cabe salientar que o estudo de Benevides-Pereira et al. (2010) efetuou a coleta de dados em 2004, um ano após o anterior.

Quanto ao Estado do Paraná, 499 professores de escolas publicas e particulares do interior do estado e região metropolitana de Curitiba, foram avaliados por Yaegashi e Benevides-Pereira e Alves (s/d), que constataram que 43,8% destes, apresentavam elevada exaustão emocional, sendo que 23,8% revelaram altos níveis de desumanização e 31,4% não se sentiam realizados com suas atividades laborais. Neste grupo, 329 (65,93%) participantes relataram o desejo de mudar de profissão, sendo que as alterações para mais, indicadas no MBI, foram significativas nestes profissionais.

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Em um grupo de 512 docentes que trabalhavam também em escolas no Estado do Paraná e São Paulo, Benevides-Pereira e Yaegashi (2009), utilizando como instrumento o CBP-R (BENEVIDES-PEREIRA; MORENO-JIMENEZ; GARROSA-HERNANDES; GONZALEZ, 2006; JIMÉNEZ; GARROSA; GONZÁLEZ, 2000; MORENO-JIMÉNEZ; GARROSA-HERNANDEZ; GALVEZ; GONZÁLEZ; BENEVIDES-PEREIRA, 2002), verificaram que 25,0% dos participantes revelavam exaustão emocional, 24,6% apresentavam desumanização e 28,7% denotavam frustração profissional. Não houve diferenças significativas entre os professores paulistas e os paranaenses.

Devido à características da amostra, abrangência e instrumento empregado, nem sempre os dados podem ser generalizados ou comparados. Observa-se que usando o MBI – Maslach Burnout, Inventory (MASLACH; JACKSON, 1986) em contextos em que o idioma não é o inglês, os resultados obtidos diferem da padronização americana, especialmente quanto à desumanização (BENEVIDES-PEREIRA, 2010; GIL-MONTE 2005), dimensão que também tem denotado reduzido índice de fiabilidade fora dos Estados Unidos (MANASSERO MAS et al, 2000; SHAUFELI; EZMANN, 1998). Por outro lado, no contexto nacional, encontramos traduções e adaptações diversas, o que ocasiona resultados bastante distintos (BENEVIDES-PEREIRA, 2010).

A maioria dos estudos tem se dado em professores do ensino fundamental, mas também os de nível universitário foram pesquisados. Com características de estressores diversas, também estes têm apresentado níveis consideráveis de estresse e burnout (AVARGUES; BORDA; LÓPEZ, 2010; BARONA, 2003; CARLOTTO, 2002; GARCIA; BENEVIDES-PEREIRA, 2003; SOUZA, 2006).

Independente do nível em que o professor lecione, a forma de contato estabelecida pelo educador é fundamental para a constituição de uma boa relação professor/aluno refletindo no processo de ensino, permitindo uma vinculação positiva com os conteúdos ministrados, dando sentido ao aprendizado e melhor compreensão dos conhecimentos (LEITE; COLOMBO; GROTTA; MONTIBELLER; TASSONI, 2006; LEITE; TAGLIAFERRO, 2005; ZHANG; ZHU, 2008). Entretanto, quando o professor sente-se exausto, desmotivado no seu labor e, principalmente, refletindo atitudes cínicas, irônicas e desumanas no seu convívio com os estudantes, a mediação entre ele, o aluno e o conteúdo fica comprometida.

Um dado salientado e que deve ser levado em consideração é o que diz respeito às condições da organização do trabalho. Em alguns estudos podem-se observar diferenças que

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devem ser analisadas mais pormenorizadamente. Embora sob as mesmas normas e contingências, observa-se um número significativo de casos de burnout em uma determinada escola e nenhum episódio em outra. No estudo de Benevides et al.(2010) o que chamou a atenção dos autores foi o fato de que, dentre as 9 instituições pesquisadas, boa parte dos casos estavam concentrados em duas unidades escolares, enquanto que, em uma outra, não havia nenhuma ocorrência. Mais ainda, nessa última escola predominava os níveis moderados e abaixo da média em exaustão emocional e desumanização, sendo que a maioria dos professores revelavam elevada realização pessoal no trabalho

Friedman (1991) já havia assinalado diferenças nos níveis de burnout de acordo com aspectos observados nas 78 escolas dos 1.597 professores, em nível de ensino paralelo ao nosso fundamental, pesquisados em Jerusalém (BENEVIDES-PEREIRA et al., 2010, p.165).

Desta forma, apesar dos professores serem regidos por normas comuns, desenvolverem o mesmo tipo de trabalho, o modo de gestão, assim como o suporte recebido pela direção e colegas de trabalho, bem como o clima organizacional, são fatores que devem ser observados.

Tanto este último aspecto (trabalho pedagógico) quanto a questão da organização geral da escola e as formas de participação necessitam ser mais aprofundados. A participação e a organização da escola vêm sofrendo alterações profundas como resposta aos anseios de democratização da escola explicitados pelos professores e pela sociedade. Faz-se necessária uma avaliação mais cuidadosa das estratégias políticas e das formas concretas de gestão que estão sendo implantadas nas escolas (HYPOLITO, 1991, p.20).

De outra parte, cabe refletir porque em um mesmo local de trabalho alguns professores adoecem e passam a apresentar até mesmo aversão em entrar em uma sala de aula, enquanto que outros denotam cada vez mais encantamento e realização no ato de lecionar. Os constructos de resiliência e engagement podem responder a tais indagações. Referindo-se a aspectos salutogênicos da personalidade, estes são considerados processos passíveis de serem desenvolvidos, possibilitando não só a promoção do bem-estar no educador, como repercutindo de modo positivo sobre o educando.

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Considerações Finais

Os problemas com a educação no Brasil são antigos e crônicos. As dificuldades apontadas aqui são velhas conhecidas dos professores, dos gestores da educação e das autoridades políticas. Ano a ano, em especial em época de eleição, observamos inúmeras promessas e deliberações que apenas tangenciam os problemas, sem atingir o foco. As conseqüências se fazem sentir na qualidade da educação oferecida, principalmente pela rede publica. As avaliações nacionais e internacionais como o Enade (Exame Nacional de Desenvolvimento de Estudantes) e o Pisa (programa Internacional de Avaliação de Alunos) espelham isso.

Muitos professores abandonam a profissão, depois de anos de trabalho dedicados à educação, acarretando a perda de profissionais experientes, muitos dos quais passaram anos se preparando para melhor exercer o seu labor, mas que se vêem desanimados por não verem uma contrapartida à altura do esforço efetuado. Em levantamento entre 1990 e 1995, no magistério público do Estado de São Paulo, estudo apontou um aumento de 300% de solicitações de exoneração, com um crescimento médio de 43% ao ano (LAPO; BUENO, 2006). Como citado anteriormente (YAEGASHI; BENEVIDES-PEREIRA; ALVES, s/d), no Paraná o índice de intenção de abandono chega a 65,93%.

Outro aspecto entre os estudos apresentados deve ser ressaltado. Conforme preconiza a Resolução no.169/96 do Ministério da Saúde (BRASIL, 1997), a participação das pessoas em pesquisas deve se dar de forma voluntária, depois de haver sido devidamente esclarecida sobre a forma de sua colaboração, o direito ao sigilo de seus dados pessoais e os objetivos da investigação. Desta forma, considerando as características das pessoas em burnout, provavelmente o número de docentes com a síndrome seja bem maior, pois as que estão sofrendo deste transtorno provavelmente, ou estão afastadas, ou não possuem disponibilidade e energia para responder ao questionário. Assim sendo, estas pesquisas apresentam um nível abaixo do que provavelmente está, de fato, ocorrendo.

Se não houver investimento no professor, conferindo-lhe salário digno, condições adequadas de trabalho e resgatando seu prestígio junto à sociedade, dificilmente iremos mudar a situação vigente.

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REFERÊNCIAS

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